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        <article-title>Museus e acervos linguísticos</article-title>
        <subtitle>entre a memória e a experiência</subtitle>
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      <volume>7</volume>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">O artigo examina acervos (meta/epi)linguísticos no cenário brasileiro contemporâneo, compreendendo-os sob o conceito ampliado de arquivo e discutindo suas implicações para a Historiografia Linguística (HL). Partindo das revisões epistemológicas que redefiniram o estatuto dos arquivos nas ciências humanas, sustenta-se que tais acervos não constituem repositórios passivos de fontes, mas construtos dinâmicos do conhecimento, vinculados a contextos históricos, institucionais e socioculturais específicos. Nesse quadro, analisam-se seis iniciativas: o Centro de Documentação em Historiografia Linguística, da Universidade de São Paulo; o Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa, desenvolvido pelo grupo de pesquisa Historiografia, Gramática e Ensino de Línguas, da Universidade Federal da Paraíba; o Dossiê de Gramáticas e Dicionários do Português, da Fundação Biblioteca Nacional e da Fundação Casa de Rui Barbosa; o Web-Museu da Gramática, da Universidade Federal de Uberlândia; o Museu da Língua Portuguesa; e o Museu de Itinerários Linguísticos do Instituto Serendipe. Para cada caso, apresentam-se o histórico de constituição, os objetivos, os critérios de curadoria e catalogação, as formas de organização e os modos de acesso. A análise mobiliza instrumental metodológico da HL e da museologia contemporânea, com atenção às concepções de língua e aos modos de organização do saber metalinguístico. Argumenta-se que a relação entre arquivos e HL envolve uma tensão constitutiva entre retrospectiva historiográfica e projeção memorial, exigindo metaconsciência quanto aos processos de seleção, canonização e exclusão. Destaca-se, por fim, que a produção, manutenção e disponibilização desses acervos configuram não apenas práticas documentais, mas intervenções epistemológicas que impactam as condições heurísticas da pesquisa, a formação de pesquisadores e a circulação social do conhecimento linguístico, reafirmando o papel dos acervos como objetos historiográficos e como infraestruturas críticas para o desenvolvimento da área.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-b1f78b6399ed3e5f204e8c85d5ae9d2c">This article examines (meta/epi)linguistic collections in the contemporary Brazilian context, approaching them through an expanded concept of archive and discussing their implications for Linguistic Historiography (LH). Drawing on epistemological revisions that have redefined the status of archives in the humanities, it argues that such collections are not passive repositories of sources but dynamic constructs of knowledge, embedded in specific historical, institutional, and sociocultural contexts. Within this framework, six initiatives are analyzed: Centro de Documentação em Historiografia Linguística, at the Universidade de São Paulo; Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa developed by the research group Historiografia, Gramática e Ensino de Línguas, at the Universidade Federal da Paraíba; Dossiê de Gramáticas e Dicionários do Português, of the Fundação Biblioteca Nacional and Fundação Casa de Rui Barbosa; Web-Museu da Gramática, at the Universidade Federal de Uberlândia; Museu da Língua Portuguesa; and Museu de Itinerários Linguísticos of the Instituto Serendipe. For each case, the study presents its historical development, objectives, curatorial and cataloguing criteria, organizational structures, and modes of access. The analysis mobilizes methodological tools from LH and contemporary museology, with particular attention to conceptions of language and modes of organizing metalinguistic knowledge. It contends that the relationship between archives and LH entails a constitutive tension between historiographical retrospection and memorial projection, requiring metaconsciousness regarding processes of selection, canonization, and exclusion. Finally, it emphasizes that the production, maintenance, and dissemination of such collections constitute not merely documentary practices but epistemological interventions that shape the heuristic conditions of research, the training of scholars, and the social circulation of linguistic knowledge, reaffirming the role of archives both as historiographical objects and as critical infrastructures for the development of the field.<sub id="subscript-1"/></p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">Acervos linguísticos</kwd>
        <kwd content-type="">Historiografia Linguística</kwd>
        <kwd content-type="">Arquivos</kwd>
        <kwd content-type="">Gramaticografia</kwd>
        <kwd content-type="">Museologia</kwd>
      </kwd-group>
    <pub-date pub-type="epub"><day>10</day><month>06</month><year>2026</year><volume>7</volume></pub-date></article-meta>
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    <sec id="heading-808dfe8354559c448eb49c15dea0211c">
      <title>Resumo para não especialistas</title>
      <p id="paragraph-6a04504366732ca2b315f8ff977b1cf9">Como museus e coleções ajudam a contar a história dos estudos sobre a língua? Este estudo investiga museus e coleções dedicados à língua no Brasil atual. O objetivo é entender como esses espaços organizam, preservam e divulgam conhecimentos sobre a linguagem e sua história. Em vez de vê-los apenas como locais que guardam documentos, mostramos que eles também ajudam a construir formas de pensar a língua. Analisamos seis iniciativas brasileiras, entre centros de pesquisa, catálogos de gramáticas, coleções de dicionários e museus voltados à língua. Em cada caso, observamos como surgiram, quais são seus objetivos, como organizam seus materiais e como permitem o acesso do público. O estudo mostra que escolher o que guardar e como apresentar esse material influencia a maneira como a história dos estudos linguísticos é compreendida. Essas escolhas podem destacar certos autores e obras e deixar outros em segundo plano. Concluímos que museus e coleções não são apenas espaços de memória. Eles também moldam o modo como o conhecimento sobre a língua circula na sociedade, formam pesquisadores e ampliam o acesso do público à história dos estudos linguísticos.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-ac5b9ebaf5848a2aebfab7263fa7a046">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-0d016efaa59c6508168ddc19a881ba3b">Os acervos (meta/epi)linguísticos são tipologicamente diversos. Embora a noção mais usualmente assimilada a eles seja a de <italic id="italic-be954e7806c4cad466c573dd1a839600">bancos de dados ou fontes</italic>, sua realidade transcende a de mero instrumental. Cabe, portanto, observá-los também como objetos de interesse dos estudos linguísticos, um campo de investigação ainda bastante aberto à pesquisa. Em tempos de proliferação, muitas vezes dispersa e pouco ordenada, de repositórios digitais de informação, a questão ganha renovada relevância (cf. Blouin Jr.; Rosenberg, 2011). </p>
      <p id="paragraph-2df4cc7cb209683f34cbd79eaf29bf7a">No intuito de aproximar-se dessa perspectiva, o presente trabalho abordará algumas iniciativas desenvolvidas no cenário brasileiro contemporâneo. Entre museus, bibliotecas e repositórios de itens (meta/epi)linguísticos, materiais ou não, os exemplos aqui apresentados serão compreendidos sob o conceito, propositadamente abrangente, de <italic id="italic-94b378506552383cb69bfb96d34a2354">arquivo</italic> (cf., por exemplo, Daston, 2017; Moore <italic id="italic-8c5bf01721a0712b49f7b7cac340029f">et al</italic>., 2016). Não se trata de evocar o conceito de repositório como armazenamento passivo. Pelo contrário. Esses arquivos são entendidos como produtos dinâmicos do conhecimento, dotados de uma epistemologia própria, vinculada aos contextos intra e extralinguísticos onde são originados e aos quais se vinculam. </p>
      <p id="paragraph-bd48015ff46a6dced4fdca49c82f16a0">Uma vez concebidos assim, revelam um nítido valor historiográfico: são construtos do pensamento linguístico de um grupo e seu tempo, destinados a participar, de formas diversas e sob propósitos variados, da experiência coletiva de reflexão sobre a linguagem.</p>
      <p id="paragraph-daee98286d552fc809e3e4265db17720">A partir dessa conceituação, serão analisados individualmente ao longo deste artigo seis modelos de arquivo (meta/epi)linguístico (Seções 1.1 a 1.6). Para cada iniciativa, individualmente, serão apresentados o histórico de sua criação e manutenção, seu objeto e proposta centrais, seus critérios de catalogação e exposição e os modos propostos para acesso ao acervo. Por meio dessa seleção, procurou-se fornecer um panorama, suficientemente diverso e plural, das manifestações vigentes no país. Por meio da observação pontual de suas convergências e particularidades, buscou-se prover uma análise das implicações de tais práticas arquivológicas na Historiografia Linguística (HL) e desenhar possibilidades para o desdobramento das relações entre essa disciplina, os museus e demais acervos de linguagem, conforme se verá nas considerações finais (Seção 2), adiante.</p>
      <p id="paragraph-f8731e92f6dd9f80bfce4dcefd83bf22">Os acervos de dados (meta/epi)linguísticos podem ser compreendidos sob o conceito lato de <italic id="italic-a8d5a7e38459fac691175967bab36273">arquivo</italic>. Assim sendo, participam de uma das questões centrais no processo de revisão epistêmico-metodológica que caracterizaram a Historiografia contemporânea. Sob a perspectiva tradicional, a História era compreendida, em linhas gerais, como sucessão linear de fatos, cuja “verdade” poderia ser reconstituída, fidedigna e univocamente, a partir dos documentos que a representavam. Nesse paradigma, o arquivo consistia no repositório desses documentos, em uma relação onde continente e conteúdo eram concebidos a partir do olhar das grandes instituições, admitidas então como guardiãs absolutas de um passado estático que cabia resgatar com fidedignidade. Trata-se de um modelo em que as noções de <italic id="italic-ec7d2d6e2c2ad5702d8d46d1ab85c0ae">documento</italic>, <italic id="italic-8707033918af051982a75b3617dd70ad">instituição </italic>e<italic id="italic-106fcfa259e87a8808478226b6fceaeb"> arquivo</italic> assumiam, a julgar pela ótica contemporânea, uma dimensão mais aurática e menos crítica. Somente uma vez concebida a relação entre esses elementos de forma não verticalizada, dinâmica e atrelada a variáveis contextuais, como as particularidades sociocronológicas, é que as bases da Historiografia atual se estabelecem.</p>
      <p id="paragraph-ad5bc7a9b069a8bc46b94a31b3a8c50f">No bojo da expansão do conceito de <italic id="italic-1aac828d4cd9b5a6be77eaf663830c07">fonte</italic> para além das instituições e de suas narrativas, proposto pela Nova História (a partir sobretudo dos trabalhos de Marc Bloch e Lucien Febvre), uma série de “viradas” marcou a trajetória recente das ciências humanas. No final da década de 1980, instaura-se o campo acadêmico dos estudos sobre a memória (Huyssen, 1995, 2003). Pautados pelo reposicionamento da memória como um fator ativo no presente (e não mais apenas um conjunto de retrospecções passivas), tais estudos adotam uma perspectiva descentralizada, buscando compreender a memória coletiva das múltiplas comunidades como elemento basilar na formação do tempo histórico. A essa “virada mnemônica” (<italic id="italic-16d37d81ac7ce4a87328e995a063b64f">mnemonic turn</italic>), seguiram-se a documental (<italic id="italic-26624babbfa25ca830d331826fe8ee1b">documentary turn</italic>) e a arquivística (<italic id="italic-325991226385fd4dfb00df7305da76f6">archival turn</italic>). A discussão sobre os arquivos, aqui entendidos como coleções de itens arregimentados sob determinada tutela com intuito de futura disponibilização a público, qual seja, ganha, então, um espaço sem precedentes nas ciências humanas. </p>
      <p id="paragraph-be39bcb29b806c5bf8c49ebae1421a0b">De ferramentas de salvaguarda ou meras fontes para uma história institucionalizada, ou seja,<italic id="italic-cc42d9b26d0994e5bfc00cda37a3e14d"> repositórios do conhecimento</italic>, os arquivos passam a espaços ativos de produção (Osborne, 1999) e exercício (Friedrich, 2018) dos saberes. Tornam-se, pois, <italic id="italic-278770b529c8bb8cd5ca960ebeb1e4ee">produto de um conhecimento possível </italic>(Ketelaar, 2017). Essa mudança não é apenas epistemológica, mas, sobretudo, ontológica. Tal redimensionamento, fruto do diálogo interdisciplinar e da revisão do caráter científico do fenômeno arquivístico, desloca o foco para o processo de concepção e formação dos arquivos. A partir daí, as análises de seu material – itens interpretáveis como dados ou documentos – não podem mais, portanto, acontecer independentemente da meta-análise dos processos que o organizam e disponibilizam.</p>
      <p id="paragraph-19214388193809a94b0c921bebb9059c">Diante disso, o cenário contemporâneo demandou um redimensionamento, não apenas dos materiais, mas, sobretudo, do objeto da Historiografia (Assmann, 2011, 2013). O escrutínio crítico das dinâmicas entre conjuntos de dados, documentos e artefatos, as instituições por eles responsáveis (bibliotecas, institutos, universidades, museus) e as comunidades emerge, pois, como questão meta/epi-historiográfica, o que provoca uma série de revisões conceituais e metodológicas nas recentes teorias da História. É concatenada a essas vertentes que a HL se constitui e permanece.</p>
      <p id="paragraph-7c5f1ca0a2b99c0f2ce52f2ff11530c6">Contudo, para além da aparente afinidade entre essa disciplina e os arquivos, sua relação se estabelece sobre dinâmicas complexas, que envolvem tensões desdobráveis às raias do antagonismo, a depender da perspectiva de observação.</p>
      <p id="paragraph-80faaed21974efc916e3a46c09619b0a">No âmbito dos estudos linguísticos, o papel dos arquivos é consolidado pela práxis, seja nas dinâmicas de ensino e aprendizagem de línguas (Newmeyer, 2024; Brandão <italic id="italic-fcb6d67ddebe9fc9949ec58bd8cd89ab">et al.</italic>, 2023), seja no emprego de bancos de dados, como os concentrados na <italic id="italic-cf3e061366a9064d69f1d20139d42000">Open Language Archives Community</italic>, pela Linguística de <italic id="italic-9efc84ca7b480a63e8b1f1ecdf8e2dba">corpus</italic>, ou ainda via glossários e listas de conceitos, fundamentais para o estabelecimento e transmissão de conceitos da área (Mainberger, 2021). Essas coleções, de tipologia diversa, destinam-se a organizar, catalogar e disponibilizar objetos distintos – de manifestações da língua a instrumentos metalinguísticos propriamente ditos.</p>
      <p id="paragraph-28a18f0c2655b8e5ea97863891723c70">À HL, no entanto, interessa compreender, de modo crítico e contextualizado, os metaprocessos de elaboração, manutenção e aplicação desses acervos, reconhecendo-os na posição de construtos intelectuais e manifestações do pensamento metalinguístico, parte, portanto, de seu escopo científico. Para esta disciplina, os acervos linguísticos vão além dos meros repositórios de fontes: são objeto em si, diante do qual, inclusive, seus métodos e práticas devem alcançar um equilíbrio delicado: ao passo que o arquivo costuma implicar uma noção projetiva (de um passado, ou presente, que guarda aquilo que o futuro deve lembrar), em contrapartida, o fazer historiográfico se vale de um olhar retrospectivo. </p>
      <p id="paragraph-6982f65bfadc5459b425325956da0137">O intrincamento da questão não se encerra aí. Mais do que observar arquivos (meta/epi)linguísticos já constituídos, cabe, eventualmente, à HL constituí-los, na medida em que as ciências devem também prover as bases materiais para o desenvolvimento epistemológico de suas áreas via sistematização e disponibilização de conhecimentos. A complexidade do posicionamento da HL ante a questão arquivológica desdobra-se, então, em um segundo nível. </p>
      <p id="paragraph-9e20cca30d7071ad044bb2487a29f1e0">Por mais que a noção de repositório ou acervo seja praticamente um lugar-comum da história do conhecimento (cf. Mainberger, 2021), recorrendo na infinidade de coleções e compilações de toda ordem (das listas e catálogos até as enciclopédias, bibliotecas, museus etc.), sua concepção, nesse caso, suscita, inevitavelmente, metaconsciência suficiente para debelar, ao mesmo tempo e tanto quanto possível, anacronismos e parcialidades em retro e prospecção. </p>
      <p id="paragraph-c6da238cc094d703440e835de7674663">Trata-se de um desafio epistemológico considerável, sobretudo porque, em essência, a própria ideia de selecionar materiais dignos de memória/utilização em detrimento de inúmeros outros reflete o processo de formação de um cânone centralizado de materiais, autores e conteúdos. Algo avesso, por princípio, à natureza crítica da HL, que, ao realizar procedimentos curatoriais, quer por meio da seleção dos itens de um acervo, quer ao desenhar os moldes de sua disponibilização, confronta permanentemente o risco de estar repetindo o mecanismo gerador de uma de suas prementes questões – os silenciamentos e exclusões advindos da rigidez, restritiva e autocentrada, do cânone tradicional – e comprometendo o futuro da disciplina.</p>
      <p id="paragraph-3817c9ccfd810abf12af83b0dd9196d8">Apesar disso, ou talvez justamente por isso, a produção, manutenção e disponibilização de acervos é uma das pautas inevitáveis para a HL. Pensar os arquivos linguísticos a partir dos quais a disciplina opera não só corrobora o caráter crítico, a interdisciplinaridade e a flexibilidade intelectual que a definem, mas a coloca a serviço das boas práticas de pesquisa científica dentro e fora da esfera dos estudos linguísticos. Especialmente ante um quadro científico pautado pela necessária abertura às novas epistemologias, que vão desde a Teoria da Complexidade até as Epistemologias do Sul, a própria noção de acervo pode ser repensada em seus fundamentos. Essas novas epistemologias não se contentam com a visão clássica, comum à Era Moderna, de uma ciência centrada no observador neutro, no método universal e na representação objetiva e estável da realidade. Pelo contrário, a Teoria da Complexidade nos lembra que os sistemas – inclusive os linguísticos e culturais – são abertos, dinâmicos, emergentes e sensíveis às condições iniciais, operando em redes de interdependência onde o todo não é redutível à soma das partes (Marion, 1999; Lee <italic id="italic-c8b3e0fbeef1617320ca7249a18362b5">et al.</italic>, 2009; Thietart; Forgues, 2011). Já as Epistemologias do Sul desafiam o monopólio cognitivo do Norte global, valorizando os saberes locais, as práticas comunitárias e as formas de conhecimento historicamente marginalizadas. Ambas as perspectivas convergem em um ponto crucial: a ciência é uma prática situada, relacional e intrinsecamente política.</p>
      <p id="paragraph-66a2df81cf79b1a274695a1f5797c6df">Nesse contexto, um acervo de dados (epi/meta)linguísticos não pode ser visto simplesmente como um depósito passivo de “fatos linguísticos” coletados de modo supostamente neutro. Ele se torna, ele próprio, um campo de forças epistêmicas. Cada item catalogado, cada gravação, cada documento é resultado de escolhas – quais variedades foram registradas, quais falantes foram ouvidos, quais contextos foram considerados relevantes – que refletem relações de poder, prioridades de pesquisa e visões de mundo específicas. A abertura a essas novas epistemologias exige, portanto, que os acervos (meta/epi)linguísticos assumam uma postura reflexiva, dialógica e multivocal. O acervo, longe de ser um monumento à estabilidade da língua, torna-se uma ferramenta de tradução epistemológica, capaz de mediar entre diferentes formas de conhecer e de articular passado, presente e futuro linguístico. </p>
      <p id="paragraph-9c24d90f62dc32cd6d0282c9c6b6d6f2">Nesse sentido, os estudos linguísticos, ao abraçarem essas epistemologias emergentes, podem reposicionar o acervo não como um fim em si mesmo, mas como uma infraestrutura crítica. Ele passa a servir não apenas à documentação, mas à ativação de redes de conhecimento, favorecendo um diálogo mais plural sobre a língua, sua memória e suas possibilidades.</p>
      <p id="paragraph-2bcebd54c1e5ab0de9f493d8dfc4f157">É importante observar que essa pauta, antes restrita à esfera da cultura material propriamente dita, agora a transcende. A era da informação digital, a despeito das incontáveis facilidades tecnológicas que representa, também acirra diversos dos conflitos epistemológicos inerentes à questão do arquivo e, consequentemente, dos acervos de dados linguísticos. Inevitavelmente, um acervo será fruto de seu tempo, um produto do estado da arte naquele momento. No entanto, seu compromisso se estenderá também a outros tempos. Mais do que otimização do acesso a fontes, o acervo (meta/epi)linguístico é um objeto historiográfico dinâmico, com dimensões científicas e didáticas, mas também éticas e políticas.</p>
      <p id="paragraph-7e51b90971d9bcc13f6fb83005e01703">No intuito de fornecer um panorama do estado dessa questão e contribuir com as discussões na seara da HL, a seguir, serão analisados os critérios e propósitos que norteiam seis iniciativas contemporâneas voltadas à elaboração de acervos (meta/epi)linguísticos em contexto nacional.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-65e0ae3f896c924677908ccf0684f591">
      <title>1. A HL diante de seis acervos meta/epilinguísticos hoje: confluências, particularidades e desafios</title>
      <p id="paragraph-76ced718397add41ab4598af4f05dc2e">Nossa seleção primou por abranger instituições públicas e privadas, acervos materiais e imateriais, ambientes digitais e físicos. Procuramos representar a pluralidade de abordagens possíveis, a fim de flagrar aspectos centrais do grande objeto nas recorrências, interfaces e intersecções entre esses modelos. Para realizar a análise da malha epistêmica e sociológica que envolve cada uma dessas propostas, será mobilizado instrumental metodológico da HL e da museologia contemporânea, sobretudo na observação das concepções de língua, metalinguagem e instrumental metalinguístico sobre as quais se apoia cada um dos projetos. </p>
      <p id="paragraph-58c941cb2536930adc197230f5caa57b">Na curadoria de acervos, na elaboração de catálogos, nos planos expositivos e museológicos, assim como nos modelos de interação com diferentes comunidades e na finalidade assumida por esses distintos núcleos de memória desvelam-se complexas relações com a história do pensamento linguístico. A partir da exposição de cada uma das iniciativas individuais selecionadas serão apresentadas não apenas suas particularidades, mas sua relação com os princípios da HL e sua interpretação do papel desta disciplina. </p>
      <p id="paragraph-d6a8a866b5ccd1201a928a18b88acc42">À luz dessas reflexões, nas seções seguintes, descreveremos cada uma das seis iniciativas aqui consideradas, atentando-nos aos seus objetivos, histórico e métodos de formação, modos de organização, disponibilização, públicos alcançados e (eventuais) desafios. Enfatizando as particularidades, (meta-, epi-)historiográficas e sociais, das iniciativas, optamos por textos que arranjem esses elementos comuns do modo melhor reflita a natureza de cada acervo, assim como conexões que permitem agrupá-las. Assim, a ordem de apresentação dos acervos pautou-se por similitudes epistemológicas, temáticas e materiais, que permitem vislumbrar subgrupos (mais) afins. </p>
      <p id="paragraph-1c8a30a9c2dd7b00912b4ae4c0b6806d">Depois dessas seções, retomaremos as problemáticas aqui discutidas sob a forma de considerações finais, que pretendem generalizá-las em direção ao reconhecimento dos acervos como actantes centrais nas redes, cognitivas e sociais, que enredam as línguas e também outras linguagens ao longo da história.</p>
      <sec id="heading-f80f0fce4cef763773d546a20263d200">
        <title>1.1.  Centro de Documentação em Historiografia Linguística (USP)</title>
        <p id="paragraph-1e287ce11b595be1a1a54b3b8614a852">Ao longo do tempo, o CEDOCH tem explorado a questão da emergência da Linguística e suas relações com outras ciências, buscado caracterizar metalinguagens; compreender problemas investigados, referenciais teórico-metodológicos e materiais privilegiados por estudiosos da linguagem em diferentes momentos históricos; estudar a questão das esferas de influência e da originalidade e especificidade da produção linguística; estabelecer e rever periodizações, entre outras metas. De um ponto de vista prático, objetivou-se a formação básica e avançada de pesquisadores em historiografia linguística, a criação de um centro de documentação (CEDOCH) e a produção de material biobibliográfico sobre a produção linguística brasileira. Já foram desenvolvidas no CEDOCH 30 iniciações científicas, 27 dissertações de mestrados e 24 teses de doutorado, além de 10 projetos de pós-doutorado.</p>
        <p id="paragraph-12423356a4ded2620ffa62c08c487d07">O Centro é responsável pela organização de dezenas de congressos, seminários, encontros, exposições e cursos, tanto no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguística da USP, quanto em parceria com outras instituições de ensino e pesquisa, brasileiras e estrangeiras, assim como com associações científicas, como a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), a Associação de Linguística e Filologia da América Latina (ALFAL), o Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo (GEL) e a Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN). Colocou em circulação inúmeras publicações, individuais e coletivas, entre elas, dois periódicos especializados, o <italic id="italic-052c7a86c138a3626fb666fd257377f4">Boletim Historiografia da Linguística Brasileira</italic> (1997-2015) e os <italic id="italic-966123b6e12c27335f2023127f067dbe">Cadernos de Historiografia Linguística</italic> (2015-).</p>
        <p id="paragraph-521e745259b899ae64dfbb142083bd74">Em 2004, o CEDOCH passou a ser oficialmente reconhecido como centro complementar de pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Desde o princípio, o Centro abrigou pesquisas individuais e coletivas que geraram materiais meta e epi-historiográficos, os quais organizam e disponibilizam documentos históricos e/ou dados sobre eles. Atualmente, uma parte desses materiais está disponível no site do CEDOCH, na seção de Bancos de Dados, que tem as seguintes subseções: <italic id="italic-c9005b81b57a38664b0596487823a917">Primeira pessoa do singular</italic>,<italic id="italic-fd2aa9347da0e68bfba53398f4177b0b"> Documenta</italic>, e <italic id="italic-46931b749e8ebc22733bfce066ca35a5">Outros Bancos</italic>. </p>
        <p id="paragraph-cbc46023cb206eaf25c5b3918ac820c9">Em 1995, Cristina Altman iniciou o projeto <italic id="italic-f5f7dc90a9720ec2109f57243ad1541c">Primeira pessoa do singular</italic>, que tinha como principal objetivo lidar com as primeiras gerações de linguistas surgidas no cenário acadêmico brasileiro nas décadas de 1960 e 1970, bem como explorar aspectos da sua produção linguística a partir da sua própria percepção ou da percepção de seus contemporâneos. Foram, então, realizadas entrevistas com linguistas como Sílvio Elia (1913-1998), Aryon Rodrigues (1925-2014), Eugenio Coseriu (1921-2002), Lucy Seki (1939-2017), Ataliba de Castilho (1936-), entre outros. Esses registros foram transcritos, editados e publicados no <italic id="italic-e0798396f3089f8349720afba9057f56">Boletim </italic>ou em outros periódicos. As entrevistas publicadas no <italic id="italic-06da097a2e6c96a26a3bd25efca12a7e">Boletim </italic>estão disponíveis on-line no banco <italic id="italic-05e7c539b7d955caa56203ebbd36018f">Primeira pessoa do singular</italic>, que deverá, brevemente, incorporar trechos dos áudios.</p>
        <p id="paragraph-622237ac5e260d90ab9aa6d246c49787">Outro importante projeto coletivo do CEDOCH foi o <italic id="italic-b246a86fc64526342f3c2e1a319f0733">Documenta grammaticae et historiae </italic>(2006-2011), cujo principal objetivo era descrever certos mecanismos e processos que têm caracterizado a produção de gramáticas e dicionários no contexto ibero-americano, do século 16 a 19. No banco de dados <italic id="italic-16021cfe235a261aaafe4bc155a0427b">Documenta</italic>, encontram-se o projeto detalhado e alguns dos seus resultados, como as onze fichas descritivas de obras gramaticais e lexicográficas relativas a línguas brasileiras, a saber:</p>
        <p id="paragraph-ca7c6279c581175d94bc3d448def030c">● <italic id="italic-da5e15aa31d3bbe8a37334f777b17072">Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil</italic> – José de Anchieta</p>
        <p id="paragraph-155033dd60f49e38c38824e7292ad52f">● <italic id="italic-989611f42960093187492f71d5f102ff">Arte da lingva brasilica</italic> – S. J. P. Luis Figueira</p>
        <p id="paragraph-e2bae1d442edabd2a4be5123f5ea9d77">● <italic id="italic-ba5e78a6b008674677712b8e7f23c950">Dicionário português-brasiliano</italic> (DPB) – Ayrosa 1934 [1795]</p>
        <p id="paragraph-935039c05dd613bdb5752f3c28f69e6a">● <italic id="italic-13967626d1a795970378ad9650b6d991">Vocabulário na língua brasílica</italic> (VLB) – Ayrosa 1938 [Anônimo 1622]</p>
        <p id="paragraph-40288041d00bd3ef3390afe06e4dd4b5">● <italic id="italic-6459946f48fe830286772d40011cab40">Gramática da lingua geral do Brazil com hum Diccionario dos vocabulos mais uzuaes para a intelligencia da dita lingua</italic> (Códice 69 Coimbra) – Anônimo (1750)</p>
        <p id="paragraph-46cabe9dda337947390e26b706f89877">● <italic id="italic-08ec18caf1e5f4722d7a04f4faa7a3c0">Diccionario da lingua tupy</italic> – Antônio Gonçalves Dias</p>
        <p id="paragraph-cd9206eae1bd8660775d1f81e902d89a">● <italic id="italic-8c216dcce45928fe3f1ce4b075b9ac22">Compendio da lingua brazilica para uso dos que a ella se quizerem dedicar</italic> – Francisco Raimundo Correa de Faria</p>
        <p id="paragraph-425c50a4bd7b4e5eef42eb46f9d5c19c">● <italic id="italic-597c752b9cd180b9b96617cb3262a39d">Notas sobre a lingua geral ou tupí moderno do Amazonas</italic> – Charles Frederick Hartt</p>
        <p id="paragraph-6c4fdd533fb89edcb475a34ed9c23f6e">● <italic id="italic-9eaf36b369f6a01d5e8a33ac4802d90d">O selvagem</italic> – José Vieira Couto de Magalhães</p>
        <p id="paragraph-2a1d642d3025fe4a58c8898ffd4ac4d1">● <italic id="italic-e324eefa0b85aee4915f6296e370d68b">Grammatica da lingua brasileira</italic> (Brasilica, Tupi, ou Nheêngatú) – Pedro Luiz Sympson</p>
        <p id="paragraph-0b5eebb273ed776a64a213836351b360">As fichas incluem informações sobre o acesso ao texto físico ou digital, nome completo e biografia do autor, título original da obra com a grafia da época, informações gerais sobre sua primeira edição e onde acessá-la, informações sobre a edição consultada para a confecção da ficha, sumário da edição consultada, indicação das reedições ou reproduções conhecidas e informações gerais a respeito delas, dados sobre a difusão da obra, a língua descrita e as línguas descritoras, compreensão do objetivo do autor ao escrever a obra e quais são as contribuições geradas por ela, segundo estudiosos, dados a respeito da descrição feita das partes do discurso (classes de palavras) presentes na obra, possíveis inovações conceituais e terminológicas, palavras-chave da obra e, por fim, a bibliografia utilizada, além da indicação do(s) autor(es) da ficha. As fichas permitem tanto ao pesquisador especializado como ao leitor curioso uma aproximação inicial das obras. Também possibilitam o aprofundamento posterior por meio da bibliografia indicada ou leitura total da obra, cuja localização física e/ou digital é também indicada. Além desses materiais publicados no site, referentes à tradição tupi, o projeto ainda dispõe de fichas correspondentes ao português, ao quéchua, ao japonês, ao espanhol e ao quimbundo, ainda não publicadas. Vale mencionar que este projeto, sobretudo no que diz respeito às suas fichas descritivas, serviu de inspiração para o Web-Museu da Gramática (MuGra) da Universidade Federal de Uberlândia, cuja trajetória é descrita no item 1.4 deste artigo.</p>
        <p id="paragraph-5b6f79e304a559d89a9a50781768ec28">Na subseção Outros, está o banco de dados Artigos da <italic id="italic-671fcd63fd7a4d33e7d0137703af5581">Revista do GEL</italic> (1993-2018), o qual traz informações internas e externas sobre textos publicados no periódico no período mencionado no título. A pesquisa contou com financiamento do GEL (Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo) e do Programa Unificado de Bolsas da USP. A análise dos textos listados no banco fez parte de uma pesquisa coletiva dedicada aos 50 anos do GEL, realizada por Olga Coelho, Ênio Sugiyama Jr., Rogério Nóbrega, Bruno Fochesato, Isadora Vaz e Mary Ellen Cruz, do CEDOCH, e Luciani Tenani, da UNESP de São José do Rio Preto. No banco, podem ser buscadas informações relativas a autoria, vínculos institucionais dos autores, datas de publicação, títulos, objetos tratados, níveis de articulação explorados, autovinculação teórico-metodológica dos trabalhos. Trata-se de um material complementar a outros, mais bem acabados, que foram produzidos com base nele e em outras fontes ao longo da investigação da história da associação, quais sejam: um site, um livro eletrônico, um artigo, um filme e uma cronologia no formato de fôlder.</p>
        <p id="paragraph-86201a2ca39d10b00ed97c67c4c52439">Há também bancos de dados no site do CEDOCH que advêm do trabalho individual de pesquisadores vinculados ou associados ao Centro. O <italic id="italic-8b7728ce4ea615d301d3bb014e77ee16">Inventário de gramáticas brasileiras publicadas entre 1806-1900</italic> e o <italic id="italic-54e0f283b6311705a640f853e2af99bd">Fichas descritivas de 18 gramáticas brasileiras oitocentistas</italic>, ambos de Bruna Soares Polachini, são resultantes de sua pesquisa de doutorado (Polachini, 2018), realizada no âmbito do CEDOCH. A pesquisa se vincula, teórica e metodologicamente, ao <italic id="italic-56980783106d25bec1ca717c26fd1464">Documenta-Português</italic>, sobretudo no que diz respeito à periodização, à natureza das obras analisadas (gramáticas) e ao recurso metodológico de elaboração de fichas descritivas para cada uma delas, inspiradas nas do <italic id="italic-98522304c1c5f82ec37f1b6e7f264bbd">Documenta.</italic> No primeiro banco, a pesquisadora apresenta um levantamento exaustivo inédito da produção gramatical relativa ao português de autoria brasileira ao longo de todo o século 19, chegando a cerca de 200 obras publicadas no período. No segundo, são apresentadas 18 fichas descritivas de gramáticas oitocentistas de autoria brasileira, as quais foram o principal <italic id="italic-57c4f9843efb0f9368d661f2cd5acd59">corpus </italic>da tese. Essas fichas contêm os seguintes itens: título da obra, dados do autor: nome completo, datas e locais de nascimento e morte, ano de publicação da edição consultada, tipografia, edição, lista de outras publicações do autor, lista de outras edições ou reproduções conhecidas da obra a que a ficha se refere, descrição geral da obra consultada – considerando-se paratextos como folha de rosto, epígrafes, possíveis assinaturas, e número de páginas, sumário completo da obra e, por fim, objetivo do autor – que é captado através de textos do próprio autor apresentados em prólogos, prefácios ou introdução da obra, se houver. </p>
        <p id="paragraph-38180c4bbade737b1b277884f1be1406">Os dois bancos de dados de José Bento Cardoso Vidal Neto também são resultantes de sua tese de doutorado, realizada no âmbito do CEDOCH (Vidal Neto, 2021). A tese teve como principal objetivo mostrar a perda de primazia da gramática tradicional na discussão linguístico-gramatical a partir do início do século 20. O que se confirmou é que houve uma redefinição de papéis, fruto de uma maior especialização dos estudos linguísticos e pedagógicos ao longo dos novecentos. A gramática tradicional passou a ser um material de uso mais escolar, enquanto a discussão linguístico-gramatical mais especializada passou a ser realizada em volumes monográficos (livros, opúsculos), separatas e teses. Para se comprovar tal reorganização, o pesquisador realizou um levantamento bibliográfico de pretensão exaustiva a respeito de todas as publicações linguístico-gramaticais sobre o português, surgidas entre 1900 e 1940, chegando ao número de 581 obras, sendo 400 de viés gramatical, 89 de viés filológico e 92 dialetológico.</p>
        <p id="paragraph-6a16abcc139d3f2225c0f9e858990a9f">Os critérios utilizados para a classificação das obras foram os seguintes: 1) Obras gramaticais: presença de viés <italic id="italic-28264e34a22b3e3e7fa4c736847e66ae">normativo </italic>do tipo subjetivo (Coseriu, 1979); 2) Obras filológicas: ausência de <italic id="italic-437045324c4d8d2cf3df555090c3bdaa">normatividade do tipo subjetiva </italic>e o apelo ao <italic id="italic-7e7566b83b5a95ad715247cf4405cb36">trabalho histórico </italic>com a língua; 3) Obras dialetológicas: obras que estudam (i) a dialetação interna do Português do Brasil, tanto abordando a variação geográfica quanto a social e (ii) a diversificação do Português do Brasil em relação ao de Portugal. Dentro desses três grupos, há subdivisões internas segundo suas especificidades. O banco de dados <italic id="italic-182546e6f3d6724853b4307557b3f1f5">Levantamento bibliográfico da produção linguístico-gramatical brasileira (1900-1940) </italic>apresenta as 581 obras e as respectivas subdivisões. Já no banco de dados <italic id="italic-49e910e4e55ffba4f9db6689fd6cef26">Tabelas parciais do levantamento bibliográfico da produção linguístico-gramatical brasileira (1900-1940) e compilação de alguns conceitos-chave presentes em tais obras</italic>, há quadros de obras com recortes ainda mais específicos, feitos em função das necessidades surgidas ao longo da escrita da tese. Há também a compilação de trechos de algumas obras em que se definem conceitos como <italic id="italic-2d279e4e5d7acb54caced0c169218c0f">gramática, gramática histórica, glotologia, linguística, dialeto</italic> etc. A reprodução integral desses trechos poderá servir de importante material epilinguístico para futuras pesquisas, tanto do autor quanto de outros pesquisadores.</p>
        <p id="paragraph-5ee2a021b3d915ead7cdb39a23914073">O banco de dados <italic id="italic-54b3f04dcedaeba3945b58cab95a5854">Teses e dissertações brasileiras em Fonética e Fonologia (1949-2000)</italic>, de Karina G. S. Oliveira, também é resultante de sua tese de doutorado (Oliveira, 2022). Nele, a autora apresenta um levantamento de pretensão exaustiva das teses e dissertações, mencionadas no título do banco de dados, a partir da consulta ao livro <italic id="italic-40d7d4cfe2c39b256ada7537ed13c082">Fonética e fonologia: bibliografia brasileira</italic> (Aragão, 1997) e busca em sites de universidades brasileiras que recebem financiamento da CAPES (https://geocapes.capes.gov.br/geocapes/), bem como em currículos Lattes de linguistas atuantes na área, resultando na listagem de 481 trabalhos. Nesse banco, são apresentados os dados externos e internos dos trabalhos acadêmicos encontrados. Os dados externos são: ano de publicação, título, autoria, orientação, tipo (mestrado ou doutorado) e a universidade em que a pesquisa foi defendida. Já os internos são: título, natureza do trabalho, orientação sugerida nos títulos, níveis de análise, línguas/variedades estudadas, interfaces com outras áreas.</p>
        <p id="paragraph-49f83c4e0bc25d7ad7f83b20a3c7c387">A apresentação desses bancos de dados resultantes de teses de pesquisadores do centro de pesquisa no site do CEDOCH possibilita acesso mais amplo do que aquele promovido exclusivamente pelas teses. Assim, esse material epi-historiográfico chega com maior facilidade a diferentes grupos de pesquisa, como foi o caso do <italic id="italic-f45d0a0aee88f4d82936e70062625642">Inventário de gramáticas brasileiras publicadas entre 1806-1900</italic>, de Bruna Soares Polachini, que foi utilizado pelos pesquisadores do projeto “A gramatização no Brasil: língua e construção da nacionalidade no acervo da Biblioteca Nacional – 1808-1930”, da Fundação Biblioteca Nacional, o qual é mencionado no item 1.3.</p>
        <p id="paragraph-34379b56921b09a3093be3b882ecd94c">Ainda na subseção Outros bancos, o CEDOCH dispõe de <italic id="italic-6718301fa664fcb85cca00a5e274e22e">Linguagem escrita e grafismos indígenas contemporâneas</italic>, elaborado por Aline da Cruz, Gláucia Vieira Cândido e Douglas Anunciação de Souza, vinculados ao Núcleo Takinahaky da UFG. O banco reúne um conjunto de imagens e de depoimentos produzidos por participantes indígenas de uma disciplina ministrada pelas professoras Aline e Glaucia, com monitoria do graduando Douglas. É possível acessar, neste banco, imagens e reflexões sobre o papel da escrita e de outras linguagens nas culturas Akwe, Apinayé, Bororo, Karajá, Guajajara, Kayapó, Krahô, Takapê e Xavante. </p>
        <p id="paragraph-dede7ba81b0349a8af5192a1617d419e">Ainda na seção <italic id="italic-f5a654d795365ca5602d534c101ed336">Outros</italic>, o site do CEDOCH abriga o banco <italic id="italic-533496fcc34b8411fec62637772f163a">Produção científica do projeto Para a História do Português Brasileiro, de 1998 a fevereiro de 2019</italic>, elaborado por Ataliba Teixeira de Castilho (USP). Trata-se de um conjunto de referências à produção bibliográfica e técnica dos participantes do projeto, que conta com investigadores de todo o país, interessados em lidar com diferentes faces da história do Português do Brasil. Essas equipes têm produzido materiais que vão desde corpora linguísticos a interpretações de aspectos marcantes na formação e desenvolvimento do PB. Os dados estão distribuídos nas seguintes seções: 1. In memorian; 2. Atas dos seminários nacionais e regionais; 3. Textos sobre direções da Linguística Histórica; 4. Textos de corpora do PHPB; 5. Textos sobre História social e mudança linguística; 6. Textos sobre Mudança gramatical; 7. Textos sobre Linguística diacrônica do texto: processos de construção textual; 8. Textos sobre Tradições discursivas do Português Brasileiro; 9. Textos sobre Semântica diacrônica; 10. Textos sobre Léxico histórico; 11. Série de consolidação História do Português Brasileiro. Alguns dos textos têm links para acesso indicados.</p>
        <p id="paragraph-476462f856f1f781545ca59f503248bb">Cabe salientar que, além de tudo o que é disponibilizado no site, o CEDOCH possui acervo físico, que em muitos casos corresponde à versão digital. Esse acervo está organizado em uma importante infraestrutura de pesquisa: 1 sala de pesquisa, 1 sala de reuniões, mobiliário, biblioteca, computadores, leitora de microfilmes, câmeras, projetor. Fotos, filmes, microfilmes, áudios, materiais impressos, datilografados e escritos a mão relativos à história da Linguística constituem esse acervo, montado, ao longo dos anos por meio de doações, aquisições e produção, sempre com o apoio institucional e financeiro do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral da USP. O CEDOCH está localizado na Casa de Cultura Japonesa da USP e segue acolhendo o cotidiano de pesquisa, ensino e extensão fomentado por seus integrantes. </p>
      </sec>
      <sec id="heading-762b0543faf1e3f5d512963f6cd19663">
        <title>1.2. Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa do grupo de pesquisa HGEL – Historiografia, Gramática e Ensino de Línguas (UFPB/CNPq)</title>
        <p id="paragraph-c148e26c5f95af06ce850a324dec205d">O grupo de pesquisa HGEL – Historiografia, Gramática e Ensino de Línguas<ext-link id="external-link-37bdf62baedf0ba6faa87fca54cb44fb" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-9dfac685009a75f1920bd65973db28f0"><sup id="superscript-2">[1]</sup></sup></ext-link>, coliderado pelos professores doutores Francisco Eduardo Vieira e Leonardo Gueiros, está sediado no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa/PB, onde se vincula ao Laboratório de Estudos Sociolinguísticos e Historiográficos (LESH). Atualmente, o grupo também se articula à Universidade Federal do Paraná (UFPR), à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e à Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), reunindo pesquisadores dessas instituições de ensino superior.</p>
        <table-wrap id="table-figure-b7f37ef09ee58a8c784603c57f54f153">
          <label>Table 1</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-5a338fd3d130203ab77da123eefb7320">Quadro 1. </bold>Lista exemplificativa dos acervos digitais consultados. <bold id="bold-52adc1d170b096ac1b80e04416434c85">ALT: </bold>Quadro com três colunas. A primeira coluna apresenta o nome do acervo digital; a segunda indica a entidade responsável pela organização e disponibilização do acervo; a terceira contém o link de acesso ao acervo. O quadro é ordenado de acordo com a ordem alfabética dos nomes dos acervos.</title>
            <p id="paragraph-c8a619c785c042250b66199bec9d9e8a"><bold id="bold-2b868e8c6a8ef2520efce63f18a05645">Fonte: </bold>Elaborado pelos autores.</p>
          </caption>
          <table id="table-f387d19dae79b776cb6f276e6930566b">
            <tbody>
              <tr id="table-row-5de75042fa0e46d336b42c3f863b5247">
                <th id="table-cell-ce5447731e35aa1070f70e64441fd202">
                  <bold id="bold-363446f832d77667661c301c03d988f1">Acervo digital<bold id="bold-5f774bd7f56cbc12c2191709e735dffe"/></bold>
                </th>
                <th id="table-cell-f9df18dd744641c2739f82289b61fc26">
                  <bold id="bold-8d55081e321bcac729d4b7455cb7defe">Entidade responsável</bold>
                </th>
                <th id="table-cell-c0c63bf02e2855cfd9fcd4f870d4fa62">
                  <bold id="bold-5d1d293b69a897b15313f6f4db4d394b">Endereço eletrônico</bold>
                </th>
              </tr>
              <tr id="table-row-076c0b131ea8b38381ad8c562b76cb3c">
                <td id="table-cell-33c7bcd134405433ac4ae0e9b5200e12">Acervo Digital da Biblioteca Pública Benedito Leite</td>
                <td id="table-cell-b6d3eaabf458c8806b1a29256aebc010">Secretaria de Cultura do Maranhão</td>
                <td id="table-cell-9cf4b493677f20f617681910ff22711b">http://casas.cultura.ma.gov.br/portal/bpbl/acervodigital/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-32ff01932d273b94c6635583dfba5a6a">
                <td id="table-cell-21cf1e0a9689921303c9baccbd4c86f2">Acervo Digital de Obras Raras da Biblioteca Pública Arthur Viana</td>
                <td id="table-cell-2d7ec926a9ab227bf8de7a743ff7a958">Fundação Cultural do Estado do Pará</td>
                <td id="table-cell-eec3b3a3c6abec1bac75ea6dd587eb8b">https://obrasraras.fcp.pa.gov.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-49412f74b7b40022d7c0216b97561106">
                <td id="table-cell-6a55ff4e288ef640f5eba4bdf6beaa45">Biblioteca Digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin</td>
                <td id="table-cell-38de8f6f53da0523a598775256af3185">Universidade de São Paulo</td>
                <td id="table-cell-8315744e45ef27e71e1972866f683996">https://digital.bbm.usp.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-3982def9e00a501074e5ba8b5ad68fa1">
                <td id="table-cell-884dc06b89ef52ce1316275c59797b8f">Biblioteca Digital da Unesp </td>
                <td id="table-cell-0f5a284bb5286e7e3fa3a82461f88c51">Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”</td>
                <td id="table-cell-596573c474215e1f0853dfc4203c0920">https://bibdig.biblioteca.unesp.br/home</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-2c3e8287ae9eb0807da50da1823c57da">
                <td id="table-cell-6b6c85e30592aefd6e0395a97b7deb59">Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos</td>
                <td id="table-cell-b727f19899b244e66fa031ecbb17f57b">Universidade Federal de Santa Catarina</td>
                <td id="table-cell-324630ce940b1c0d8878a59138df142d">https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-0fb20335b9354153a39a3e2ae48c12e8">
                <td id="table-cell-0d11f10cf8895470a4bff7b4e3aaa9a2">Biblioteca Digital do Instituto de Estudos Brasileiros</td>
                <td id="table-cell-2180c9677118fc17bbc68c24fc560df8">Universidade de São Paulo</td>
                <td id="table-cell-388522308c2569f061e7cc1dac79392e">https://www.ieb.usp.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-4c9e17c194c7eda3a7cd5b4a6380c664">
                <td id="table-cell-b5b94d939f93d8c4af9a1a770d729590">Biblioteca Digital do Museu Nacional</td>
                <td id="table-cell-fa606c0a6f9acbac5221b6c87551c3d7">Universidade Federal do Rio de Janeiro</td>
                <td id="table-cell-5a1e6721cde5fe215c0fc06f5c87b023">https://obrasraras.museunacional.ufrj.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-a09414026d18e69320effbc6751c150a">
                <td id="table-cell-d15992d6b3adc7bd63aa2501d86030d9">Biblioteca Nacional Digital – Brasil</td>
                <td id="table-cell-e8afe4e1827ab4d867c0d1e13980c06b">Fundação Biblioteca Nacional</td>
                <td id="table-cell-19ffd3e05cfea9a35376be1489a18e40">https://bndigital.bn.gov.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-184f1b80bfe8d0eb3a09ded12c1e219b">
                <td id="table-cell-dcdcab2cf759c1453fe0887d5ceb6c74">Biblioteca Nacional Digital – Portugal</td>
                <td id="table-cell-d242daa1c464a7d6758be7db17469590">Biblioteca Nacional de Portugal</td>
                <td id="table-cell-0b61773e0b7835511144ed1fac39cbca">https://bndigital.bnportugal.gov.pt/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-7aa4b28cb4331a8ed61484ac2ae7f6a2">
                <td id="table-cell-0878a1697e2b92c4812fa0170f1223ec">Biblioteca Virtual das Ciências da Linguagem no Brasil</td>
                <td id="table-cell-66ccc65214b9743603ed0b5240a8607f">Universidade Estadual de Campinas</td>
                <td id="table-cell-f593498932599bfb0024575f8bdb6d5c">https://www.labeurb.unicamp.br/bvclb</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-2504fcb2f82ab8b838cf6f6058379e1c">
                <td id="table-cell-e7173c40ac6e64e7e321036ea154c6e3">CEL Collections</td>
                <td id="table-cell-2278a17675dcd8981fa568e6079767a9">Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro</td>
                <td id="table-cell-4e9f2ed9412ebecf5ef29d2fd8c689c2">https://www.utad.pt/cel/en/home/cel-collections/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-ee7714ced050a153f01ef79e8839eba1">
                <td id="table-cell-0b296e59e344eb1390b55225b70b2842">Corpus de Textes Linguistiques Fondamentaux (CTLF)</td>
                <td id="table-cell-007faae745800446ea6aa55aaee05f98">Université Paris Cité</td>
                <td id="table-cell-8e8399ef07f687be4bdce5d57b5c3a59">https://ctlf.huma-num.fr/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-c0b7851d7d1088d6273561c9adeb6679">
                <td id="table-cell-5e627c980a482902fa0d7e6f80f9a637">Google Livros</td>
                <td id="table-cell-8853972fa4e2989e1389451b6936a176">Google</td>
                <td id="table-cell-97e39ffe264816918edd143c3811ddb6">https://books.google.com/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-26cddfdfe0746c87e732be2a7d98b71f">
                <td id="table-cell-88db5bff0c765590e62931e8db1513b0">HathiTrust Digital Library</td>
                <td id="table-cell-e3430fff1a6a4dc3860606a883c6bf1f">HathiTrust</td>
                <td id="table-cell-4509fc29b5209f412ea65e89f37c340b">https://www.hathitrust.org/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-667d8a7e0c9906963d642b26ca2d286c">
                <td id="table-cell-71a07cb662ee5461fe7c1f6db89733ac">Portal Domínio Público</td>
                <td id="table-cell-4b8a7fddfaaf2a352023f915ee501c0b">Ministério da Educação do Brasil</td>
                <td id="table-cell-045e989d0efca3e9c842323ada4c34d6">http://www.dominiopublico.gov.br/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-7a466f7d07a2493351d6a61cb9ea8cdd">
                <td id="table-cell-13c0f06b70a66d197908c985bef949ff">Portugaliæ Monumenta Linguistica</td>
                <td id="table-cell-9e1fb13c600141d31fac8dd1c0b45ea8">Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro</td>
                <td id="table-cell-db27432077da3b542a1bde1d5e6e7eaa">https://pml.cel.utad.pt/</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-ea4778e5acd7d89cf422c7063d05eca9">
                <td id="table-cell-1d965af2203beea1209c1844ce30ae5a">Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais</td>
                <td id="table-cell-4105a75c9569630b49c8de013a1a3c05">Fundação Casa de Rui Barbosa</td>
                <td id="table-cell-44ba25e79006f81791f9bf073f160999">https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-ccce1134b5acabe5c9bd352b9a70d3b7">Até o momento, o catálogo reúne 73 gramáticas publicadas entre os séculos 16 e 19, com um total de 116 edições e reedições. Esses números, porém, não devem ser tomados como definitivos, uma vez que o inventário está em construção contínua e tende a ser ampliado à medida que novas digitalizações se tornem acessíveis ou sejam localizadas em acervos digitais. Desse conjunto, encontram-se três gramáticas do século 16 (sete edições e reedições), duas do século 17 (duas edições), oito do século 18 (dezessete edições e reedições) e sessenta do século 19 (noventa edições e reedições).</p>
        <p id="paragraph-2e77b8707644180771233f01794527ce">Em relação ao modo de organização, o catálogo está dividido em séculos, e as gramáticas são listadas considerando-se o ano de publicação da primeira edição, tomada como referência por situar a obra no contexto histórico e intelectual em que foi originalmente produzida. No caso de gramáticas cujas primeiras edições tenham sido publicadas no mesmo ano, apresentam-se as obras em ordem alfabética do título. Havendo coincidência simultânea de título e ano, aplica-se, então, a ordem alfabética do nome do autor como critério de organização. As reedições, que podem se limitar ao mesmo período ou se estender ao longo dos séculos seguintes, são reunidas na mesma entrada, pois, embora atualizem aspectos materiais das gramáticas, não desfazem o vínculo da obra com o momento em que surgiu. É o caso, por exemplo, da <italic id="italic-5496fdbad621ac2aab9aa25e90ce10ae">Grammatica da lingua portuguesa</italic>, de João de Barros (1496-1570/71), classificada como obra do século 16 por ter sido publicada primeiro em 1540, ainda que conte com outras edições em 1785 (2<sup id="superscript-c620518630a77ce5fe96a4d3e10a35ff">a</sup> edição) e 1957 (3<sup id="superscript-5433c9b2df4676036e0acf40a3961213">a</sup> edição), disponibilizadas no catálogo também na entrada referente ao século 16. Nesse sentido, o acervo mantém as obras articuladas à sua data de origem, evitando dispersões e oferecendo uma linha temporal mais clara para a observação de continuidades e descontinuidades que atravessam a gramaticografia de língua portuguesa.</p>
        <p id="paragraph-d8d4c15d5901d48250f19fffdc670a35">Cada século conta com um buscador suspenso que permite ao usuário filtrar as gramáticas por autoria, nacionalidade dos autores e década de publicação de sua primeira edição. Essa ferramenta foi incorporada para ampliar os recursos de consulta, permitindo tanto focalizar a produção de um autor específico, já que todas as suas obras e edições aparecem reunidas no resultado de busca, quanto observar conjuntos de gramáticas vinculados a determinadas tradições nacionais (brasileira, portuguesa, entre outras) ou que vieram a lume em uma mesma época, abrindo espaço para estudos comparativos, sincrônicos e diacrônicos. Dessa maneira, o catálogo pode servir como instrumento para facilitar o acesso a fontes utilizadas em investigações historiográficas com diferentes enfoques.</p>
        <p id="paragraph-aeb6f8c7b3530ec0b09f384d514e635a">Ainda no tocante às estratégias de organização e mediação com os usuários, vale destacar que o catálogo identifica as gramáticas pelo título conforme consta na primeira edição, seguido dos nomes dos autores e, quando possível, de seus respectivos anos de nascimento e morte. Em algumas situações, para otimizar a navegação no site, foi necessário resumir o título da gramática. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a gramática de Jeronymo Contador de Argote (1676-1749) publicada em 1721, cujo título completo <italic id="italic-5d59b13642ff71a661c9d931e3380a8a">Regras da lingua Portugueza, Espelho da lingua Latina, Ou disposiçam Para facilitar o ensino da lingua Latina pelas regras da Portugueza </italic>foi resumido em <italic id="italic-b2ac1128270246e764bfc191c48e0678">Regras da lingua Portugueza, Espelho da lingua Latina</italic>. Logo abaixo dos nomes dos autores, figuram, em ordem cronológica, os anos de publicação das edições disponíveis no site, acompanhados de sua numeração e dos nomes da cidade e do país onde foram impressas. Cada gramática conta também com uma página própria, que reúne as referências bibliográficas completas de cada edição, o link de acesso e, quando necessário, notas elaboradas pelos pesquisadores envolvidos no projeto para contextualizar determinados aspectos da publicação ou justificar escolhas e critérios adotados no processo de catalogação. É nessa seção que se registra, por exemplo, a atribuição de autoria de Francisca Chantal Álvares (1742-?) ao <italic id="italic-722008e7608a3cbb758478fc343b63bc">Breve compendio da gramatica portugueza</italic> (1786), obra publicada sem indicação autoral, cuja autoria foi identificada a partir do estudo historiográfico conduzido por Kemmler, Assunção e Fernandes (2010)<sup id="superscript-3"><ext-link id="external-link-61ffedc8e8a718f970743921e0a943bb" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-4">[1]</sup></ext-link></sup>.</p>
        <p id="paragraph-99038f6f7fe3f152db5c7a638ab459e6">Atualmente, a gestão do catálogo conta com a participação do professor Anderson Rany Cardoso da Silva (UEPB) e de dois estudantes de doutorado e um de iniciação científica da UFPB, todos coordenados pelo professor Francisco Eduardo Vieira. Como ações futuras para a ampliação do catálogo, destacam-se: i) o levantamento, o mapeamento e a disponibilização de gramáticas de língua portuguesa publicadas nos séculos 20 e 21; ii) a busca, a identificação e a recuperação de gramáticas dos séculos anteriores ao 20 ainda não localizadas, em acervos físicos e digitais. Em relação a essas ações, no caso de obras protegidas por direitos autorais e ainda em circulação no mercado editorial, tais como as gramáticas publicadas no final do século 20 e no século 21, pretende-se direcionar os usuários para as páginas das editoras, onde as gramáticas estão disponíveis para aquisição. Quanto às obras em domínio público, para além dos levantamentos em acervos digitais, também se propõe realizar atividades de preservação, digitalização e disponibilização de gramáticas de língua portuguesa que se encontram apenas em formato físico. A atividade de digitalização, em específico, será realizada no já mencionado LESH – Laboratório de Estudos Sociolinguísticos e Historiográficos da UFPB, a partir de obras em suporte impresso que se encontrem no acervo do HGEL ou nas bibliotecas particulares de seus membros.</p>
        <p id="paragraph-acbbeb485a3b4789b6016715bafba7c7">Com a manutenção permanente e com a ampliação das obras disponibilizadas no Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa, espera-se contribuir com o enfrentamento de dificuldades de acesso a fontes, um dos principais problemas da HL relacionados às condições heurísticas da pesquisa. Nesse mesmo sentido, cabe mencionar que, a longo prazo, pretende-se expandir o projeto com a criação de catálogos de gramáticas de outras línguas, como as de língua latina e de língua francesa, sempre em uma perspectiva abrangente. Além disso, considerando que esse catálogo do HGEL reúne obras produzidas por diversos agentes e publicadas em diferentes períodos e lugares, pode-se dizer também que ele contribui com o fomento de uma <italic id="italic-59d47338094118748b1b6b78974695cb">historiografia decolonial</italic> (cf. Coelho, 2024). Afinal, ao não reduzir o seu acervo a um conjunto de gramáticas tidas como mais prestigiadas no cânone historiográfico de língua portuguesa (em geral produzidas por homens atuantes em instituições tradicionais dos grandes centros geopolíticos do Brasil e de Portugal), o catálogo promove uma ampliação e diversificação do conjunto de fontes de interesse investigativo para novas pesquisas.</p>
        <p id="paragraph-5dc4287114dc203b36e985cb7f991428">Por fim, convém destacar alguns desafios previstos para as etapas futuras do projeto. Considerando o objetivo inicial de reunir o maior número possível de fontes, não foram estabelecidos critérios de seleção que limitassem a construção do acervo de gramáticas produzidas entre os séculos 16 e 19. Com isso, foram incluídas obras destinadas a segmentos escolares distintos, tais como as diferentes gramáticas publicadas por João Ribeiro (1860-1934) na década de 1880, bem como gramáticas de português destinadas a estrangeiros, a exemplo da <italic id="italic-a0af47e2b81c67f0e15d5db6a949bfb9">Nova grammatica portugueza dividida em VI Partes</italic> (1785), de Abraham Meldola (1754-1826). Entretanto, a partir do século 20, houve uma série de transformações nos cenários escolar, social e científico que acarretaram mudanças também no cenário gramaticográfico. No Brasil, por exemplo, surgem obras que visam atender a demandas e propósitos sociais relacionados a questões como: i) as novas orientações dos currículos escolares; ii) a cobrança de conhecimentos gramaticais em provas de concurso público; iii) o desenvolvimento de estudos linguísticos sobre a descrição do português brasileiro, associados à crítica ao ensino da norma-padrão. Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos e as mudanças no mercado editorial provocaram um aumento expressivo no número de publicações. </p>
        <p id="paragraph-beaef2b9ac1a9325dc7f0b58a914aee8">Nesse sentido, a complexidade dos novos contextos de produção de gramáticas coloca em suspenso algumas questões que ainda exigem reflexão. Entre elas, destacam-se: de que modo incluir, em futuros desdobramentos do catálogo, gramáticas escolares da segunda metade do século 20 já epi-historiografadas em pesquisas do HGEL (cf. Ribeiro, 2021; Silva, 2025), bem como, eventualmente, em outros estudos? Como integrar gramáticas contemporâneas de concursos mapeadas, com pretensão de exaustividade, em Batista (2024), tese de doutorado desenvolvida no grupo? Com base em quais critérios se deve organizar as gramáticas do português brasileiro escritas por linguistas (cf. Faraco; Vieira, 2016)? Essas indagações delineiam desafios que o HGEL ainda precisará enfrentar para dar continuidade à construção desse e de outros catálogos de gramáticas.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-c35889ca0a33bf3abaed2f8ccf5a3c6c">
        <title>1.3. Dossiê <italic id="italic-661d66cf9f9a2e69dc733ceb630bce33">Gramáticas e Dicionários do português</italic> (FBN e FCRB) </title>
        <p id="paragraph-9ac62708ef4206fb06a10b57ecf5d5e4">O dossiê <italic id="italic-1897589bb341413669b50c95076e1a5e">Gramáticas e dicionários do português</italic> da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) está hospedado no site da BN Digital, entre diversos outros dossiês, os quais tratam de temas variados a partir de pesquisas elaboradas sobre o acervo da FBN. Esse dossiê trata do acervo de gramáticas e dicionários da FBN e das bibliotecas da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), a primeira, grandiosa, por ser a maior do país, a segunda, luxuosa, por conter as bibliotecas de Rui Barbosa e outros grandes eruditos brasileiros. Vale mencionar que a escolha por gramáticas e dicionários como objeto deste dossiê foi influenciada pela noção de gramatização de Sylvain Auroux (2014 [1992]), que os considera os pilares do nosso saber metalinguístico. Este é um trabalho em desenvolvimento, então, ainda que o pesquisador já possa acessar o dossiê desde dezembro de 2024 no site da BN Digital, tem havido acréscimos de conteúdo à medida que as pesquisas avançam.</p>
        <p id="paragraph-da055a11485d2c87fc60a121c6b45ae7">As raízes do dossiê estão no artigo<italic id="italic-fa28379fab0de5ff3df9edaa29da6e54"> Uma coleção de gramáticas</italic>, publicado por Irineu Corrêa (2009), que tratou do acervo de gramáticas da FBN e fez uma listagem dele, com auxílio das bibliotecárias Maria das Graças Gonçalves da Silva e Liora Mandoju. Posteriormente, entre 2022 e 2024, a lista inicial foi complementada pela bibliotecária e pesquisadora Darlene Alves Bezerra e pela pesquisadora Maria Cristina Antonio Jeronimo, que tiveram apoio da FAPERJ<ext-link id="external-link-5bdcdf259a36dc7f7f96c45252be0e73" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-b6cb011fadea83fda6a70c56271e7900"><sup id="superscript-fdf42e97a8e614606d77e441c8094d63">[1]</sup></sup></ext-link>, com a orientação dos pesquisadores da área de Letras José Carlos de Azeredo, Afrânio Gonçalves Barbosa, Alexandre Xavier Lima e o próprio Irineu Corrêa. Além disso, usou-se como base para esta lista o levantamento de gramáticas brasileiras oitocentistas feito por Bruna Polachini (2018) em sua tese de doutorado, hoje disponível no site do CEDOCH-USP (Centro de Documentação em Historiografia Linguística da Universidade de São Paulo, explorado no item 1.1), e os textos de Maciel (1910), Nascentes (1939), Sílvio Elia (1975) e Ricardo Cavaliere (2001, 2014). Fez-se, então, um levantamento quase exaustivo das obras gramaticais da FBN, totalizando 683 títulos e edições, publicados entre 1513 e 1960, incluindo gramáticas latinas e gramáticas do português em outras línguas. </p>
        <p id="paragraph-c2b0ec07ba735ffcb6712ffcf8542493">Tais explorações e levantamento são parte do projeto <italic id="italic-7b74a4edec53dff9b9769814daa961c1">A gramatização no Brasil: língua e construção da nacionalidade no acervo da Biblioteca Nacional – 1808-1930</italic> da FBN, iniciado em 2021, o qual era parte integrante das comemorações dos 200 anos de Independência do Brasil. Houve, assim, uma redução da periodização para, aproximadamente, os primeiros cem anos de Independência do país e estabeleceu-se a periodização de 1808 a 1930, considerando-se, como ponto de início a elevação do Brasil a Reino, e como termo, o final da Primeira República, tendo-se em conta que esse foi um período de autonomização do Brasil, processo que envolveu questões linguísticas diversas. Foram selecionadas, dentro desse contexto, 464 obras gramaticais publicadas entre 1804 e 1930<ext-link id="external-link-2" xlink:href="#_ftn2"><sup id="superscript-5bbff31c0cc0f73738b73add9d111ecc"><sup id="superscript-a9602ca6d3ad85f94041c13e158503d5">[2]</sup></sup></ext-link>. </p>
        <p id="paragraph-45ecc48e9505e0f78fdf2fea87da5525">Desse conjunto, foram escolhidas 69 gramáticas sobre a língua portuguesa para integrar a primeira edição da coleção do dossiê, que já podem ser acessadas no site da BN Digital. Dentre essas, uma lista com 28 obras foi encaminhada à área responsável solicitando diagnóstico referente a intervenções de conservação e restauração e, em sequência, sua digitalização. O resultado desta colaboração resultou na conservação e digitalização dos livros indicados e a sua disponibilização no acervo digital da instituição. Atualmente, a equipe realiza a seleção de obras gramaticais da FCRB para incluí-las futuramente no dossiê. </p>
        <p id="paragraph-286e8c3f3f1b04a8b0d725bd4d09355e">A seleção de dicionários, por sua vez, foi conduzida sobretudo pela pesquisadora Laura do Carmo, da FCRB, com apoio de bolsistas PIBIC-CNPq e bolsistas da FCRB. A busca de obras se iniciou pela FBN e depois foi complementada pela FCRB. Como o número de obras desse tipo é bem menor, foi possível incluir no dossiê todos os 50 dicionários de língua portuguesa e publicados entre 1804 e 1930 encontrados na FBN. Cerca de 60 títulos da FCRB estão sendo incluídos no dossiê. Os textos lexicográficos contrastivos entre português e línguas africanas e indígenas brasileiras também foram incluídos na coleção. Como bibliografia de controle, utilizou-se os trabalhos Átila de Almeida (1988) e Telmo Verdelho (2007). Em artigos de Corrêa, Jeronimo e Carmo (2023) e de Corrêa e Jeronimo (2023), há informações detalhadas sobre os levantamentos das gramáticas e dos dicionários.</p>
        <p id="paragraph-db95baa64cb39d0d6c72563913f1a2e6">A lista de todas gramáticas e dicionários, suas informações e o direcionamento para seu acesso físico ou digital encontra-se na seção do dossiê denominada “Coleção”, em que as obras são organizadas pelo critério cronológico, em seções divididas por décadas, e são apresentadas aos pesquisadores conforme os exemplos a seguir.</p>
        <p id="paragraph-39b192477a9105b7bfe4bb9514714f44">Para cada obra, é apresentada a imagem da folha de rosto, coletada no acervo da FBN ou da FCRB, referência da obra no formato ABNT, mantendo-se a grafia original, e a indicação da disponibilidade do texto para consulta presencial, na FBN ou na FCRB, ou remota nos sites destas instituições ou outras, mas sempre considerando a mesma edição presente nos acervos. Muitas obras já foram digitalizadas pela FBN e FCRB em razão do projeto, como explicado acima. Outras devem passar por esse processo em breve – estão sendo priorizadas aquelas que ainda não foram digitalizadas por outras instituições. Na Figura 1 e na Figura 2, é possível observar como as obras são apresentadas na seção Coleção do dossiê.</p>
        <fig id="figure-panel-5053c22ea927c879a400ceff61f39630">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-bb2d6481f14a00966ae3d0734c0522df">Figura 1.</bold> Ilustração de aparência de obra da Coleção do dossiê Gramáticas e dicionários do português. <bold id="bold-52bafc01d76bcd26f38fc81052341701">ALT: </bold>A imagem retrata um recorte da exposição de uma das obras na seção “Coleção” do Dossiê, em que há uma miniatura da folha de rosto da obra “Grammatica da linguagem portugueza”, de Fernão de Oliveira. À sua direita, estão os dados da obra inseridos pelos pesquisadores do Dossiê, a saber: referência da obra de acordo com as normas ABNT e a informação sobre a disponibilidade do texto para consulta física no catálogo da FBN.</title>
            <p id="paragraph-fb27435db6f4e6d641f51d26cc8fb4b6"><bold id="bold-de8e885dfe528841942b5a585b16a2a0">Fonte: </bold>Site do dossiê na BN Digital com reprodução de imagem de Obra do acervo da Fundação Biblioteca Nacional. <bold id="bold-eb242eb87311538c8d49b59bfeec196a"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-8951d5d0300519bcfa1bf6b6d0debc93" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="f1_2.jpg"/>
        </fig>
        <fig id="figure-panel-e09eb7c2208efcc56c97bb29a16f8c9a">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-0f26cc56994741446956c85776cae546">Figura 2.</bold> Ilustração de aparência de obra da Coleção do dossiê Gramáticas e dicionários do português. <bold id="bold-bcc051f0691804b34321ec8fb4bbe6b2">ALT: </bold>A imagem retrata um recorte da exposição de uma das obras na seção “Coleção” do Dossiê, em que há uma miniatura da folha de rosto da obra “Diccionario homophonologico da lingua portuguêsa”. À sua direita, estão os dados da obra inseridos pelos pesquisadores do Dossiê, a saber: referência da obra de acordo com as normas ABNT, informação sobre a disponibilidade do texto para consulta física no catálogo da FCRB e sua disponibilidade on-line no site Archive.org.</title>
            <p id="paragraph-d92ebb34a169bf49da3d9497a0d799a6"><bold id="bold-d177f133cec45f78e55108ff52c91daa">Fonte: </bold>Site do dossiê na BN Digital com reprodução de imagem de Obra do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa. <bold id="bold-146a9186fee74afac7eedfff24ec1c2c"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-06c936ed09acc1129123646598be7791" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="f2_3.jpg"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-ffd8abc506849136a701c15438d3fad6">O acervo de gramáticas do português selecionado para o dossiê é rico em dois sentidos. Primeiramente por conter obras que foram e têm sido muito estudadas na gramaticografia brasileira e portuguesa, conhecidas por sua teorização e/ou complexa descrição da língua portuguesa, como o <italic id="italic-b18f9ee50446f54bef6d68aa9762031c">Epitome da grammatica portugueza</italic>, de Morais Silva (1806), e a <italic id="italic-3596f656d68a424c8c6a06db4d4056e1">Grammatica portugueza</italic>,<italic id="italic-c05eff6b624f54a95e72c4b1e279a814"> </italic>de Júlio Ribeiro (1881). Por outro lado, é nesse acervo, e por vezes somente nele, que são encontradas obras mais pedagógicas dessa tradição, as quais preconizam o ensino sobre a descrição linguística – conforme os estudos de Barbosa e Azeredo (2018), Barbosa (2023) e Polachini (2023) –, como o <italic id="italic-fe92b4e82c1c8d97b22dbeaa2d778894">Compêndio de grammatica da lingua portugueza</italic>, de<italic id="italic-6a23d61c25064624c7f3b90675547614"> Silveira</italic> (1855) ou o <italic id="italic-d22c0b94b0081f5192edb1a25c21a921">Novo methodo de grammatica portuguesa</italic>, de Rubim (1861). Adiante, na Figura 3 e na Figura 4, estão as folhas de rosto de duas obras simbólicas dos dois grupos supramencionados.</p>
        <fig id="figure-panel-5aaaca214c2020ec4f37e9fe775cc175">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-5e537e9f987bc21b74acc4f3d3895d1c">Figuras 3 e 4. </bold>Folhas de rosto das gramáticas de Rubim (1861) e de Ribeiro (1881) do acervo da FBN. <bold id="bold-0c1d665566dc0b4788b601148341d4c3">ALT: </bold>Reprodução da folha de rosto do livro “Novo methodo de Grammatica Portugueza”. Na qual se informa que a obra é destinada às aulas da Província do Ceará, aprovada pelo Conselho Director da Instrucção Publica. O autor é identificado como Joaquim Frederico Kiappe da Costa Rubim, professor na cidade da Fortaleza. O rodapé indica a impressão pela “Typographia Cearense” em 1861. Há também no centro da capa a imagem de um arco-e-flecha com uma guirlanda de folhas. ALT: Reprodução da folha de rosto do livro “Grammatica Portugueza” na qual consta entre as informações o nome do autor, Julio Ribeiro e três epígrafes em fonte itálica e menor. Na parte inferior, lê-se São Paulo, Typ. de Jorge Seckler e a data de 1881. Há também um carimbo oval de biblioteca no lado direito, e um desenho ornamental pouco visível e o carimbo de uma livraria chamada Joaquim José.</title>
            <p id="paragraph-98f0cc7fe26c1accafe2fb027c267338"><bold id="bold-c583ffb76d1cdecfa5f13c11b588d667">Fonte:</bold> Acervo da Fundação Biblioteca Nacional. <bold id="bold-944d81123ddde6b1a2df6b653e9fb6bd"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-42cb0cf5b1b73f2c0799a56ba03c64e2" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="f3e4_2.png"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-7fc4d8e89223692a4e6b6ee2b1ca4b5d">Quanto aos dicionários, além dos consagrados de Morais, Aulete, Cândido de Figueiredo, o dossiê contém os dicionários parciais ou de complemento mais conhecidos, como os de brasileirismos de Braz da Costa Rubim (<italic id="italic-72a6404b14f054633c3c11ec3182edb0">Vocabulario brasileiro: para servir de complememto aos diccionarios da lingua portugueza</italic>, 1853), de Henrique de Beaurepaire-Roham (<italic id="italic-8d8e95689c30b0defbee23be378801cb">Diccionario de vocabulos brazileiros</italic>, 1889), de Macedo Soares (<italic id="italic-ed52dbabd9a9efcf8ee790ef11b3e39f">Diccionario brazileiro da lingua portugueza</italic>, 1889) e <italic id="italic-4aed100edd7be5970a0a485d3d4526b5">Lexico de termos technicos e scientificos</italic>: ainda não apontados nos diccionarios da lingua portugueza, de Affonso d’E. Taunay (1909). Há outros menos conhecidos, como o <italic id="italic-428a6c2e3f6fbd71e6f63d32f6e67557">Vestígios da língua arábica em Portugal</italic>, de 1830, de João de Sousa; ou o exemplar com assinatura dos membros da comissão responsável pelo <italic id="italic-a9e6bfcd990b735f4da7b915211ff9bb">Dicionário brasileiro da língua portuguesa</italic>, da ABL (1928), de “a” a “abantes”. Adiante, na Figura 5 e na Figura 6, estão as folhas de rosto de dois dicionários da coleção, o consagrado de Morais Silva e o menos conhecido da ABL.</p>
        <fig id="figure-panel-3bd8effbe482ec0a69753eb2f9546bcf">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-d777740232576a6bd63ba9342aa909cc">Figuras 5 e 6.</bold> Folha de rosto da sétima edição do dicionário de Antonio de Moraes Silva (1877) e folha com assinatura dos membros da Comissão responsável pelo dicionário ABL (1928). <bold id="bold-6f4016dbe9d852d8bf69d3f649399c04">ALT: </bold>Reprodução da folha de rosto do livro “Diccionario da Lingua Portugueza”, de autoria de Antonio de Moraes Silva. Abaixo do nome, lê-se “7ª Edição, melhorada, e muito accrescentada”. O texto destaca a inclusão de termos novos usados no Brasil e no “Portuguez da India”. No centro, há dois brasões. No rodapé, as informações de publicação indicam Lisboa, pela Typographia de Joaquim Germano de Souza Neves, datada de Abril de 1877. ALT: A imagem exibe uma folha de papel oficial, com uma moldura retangular. No topo, o título diz: “Commissão do ‘Diccionario Brasileiro da Lingua Portuguesa’”. O documento lista diversos cargos e nomes, como “Academicos”, “Philologo”, “Etymologista”, “Secretario” e “Auxiliares”. Ao lado de cada nome impresso, há assinaturas manuscritas originais em tinta preta.</title>
            <p id="paragraph-dd3f2fe416687bd4a2c573b45c099a53"><bold id="bold-de3f793549d3caa6e288d9ee3051746c">Fonte:</bold> Acervos da Fundação Casa de Rui Barbosa (Moraes Silva) e da Fundação Biblioteca Nacional (ABL). <bold id="bold-30ed11a13473717259cd574f2f40a906"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-989c7dae40820c34526a617e5f8b949c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="f5e6_2.png"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-54ed60599c2b3601e6b84a9ac63d74bf">A fim de facilitar o trabalho do pesquisador e tornar o passeio do curioso pela coleção mais interessante, está em processo o acréscimo de um parágrafo descritivo sobre cada uma das obras na seção Coleção, nomeado de “Saiba mais”. Tal parágrafo, já publicado em algumas obras da Coleção, permite que o leitor tenha informações fundamentais sobre ela de forma imediata. Pretende-se que, até o final de 2026, todas as obras estejam descritas dessa forma pelos integrantes da equipe. Adiante, dois exemplos de “Saiba mais”:</p>
        <p id="paragraph-ba575c894efe4db063dd4e9de5dc2ec6">PINTO, Luiz Maria da Silva. <italic id="italic-1ef02a9baf1569c01146f31491f36e63">Diccionario da lingua brasileira.</italic> Ouro Preto: Typographia de Silva, 1832. Saiba mais: <italic id="italic-c7a8a475e2e653277b148831faa339ce">O </italic>Diccionario da lingua brasileira<italic id="italic-1ea83c5f79f8990e534d40069dd715d3"> (1832), de Luís Maria da Silva Pinto (1775 Goiás-1869? Ouro Preto?), é a primeira obra de referência publicada no Brasil. Embora seja um acontecimento expressivo, por ter sido o primeiro dicionário impresso aqui e por ter em seu título a locução “língua brasileira”, significando língua portuguesa falada no Brasil, a obra não tem repercussão na história da lexicografia. O dicionário é cópia da edição de 1817 do dicionário da Tipografia Rollandiana. Não há contribuição de Silva Pinto quanto a distinções entre o léxico brasileiro e o de além-mar. </italic></p>
        <p id="paragraph-f00d4c9d241554ec61f11d377d6da0a2">SANTOS, Hemetério José dos. <italic id="italic-de99d987cfc0d82aa6d21fdd121aeeb6">Grammatica portugueza.</italic> Rio de Janeiro: Livraria Classica de Alves &amp; C, 1897. Saiba mais: <italic id="italic-e9061dd8ddb645b640a713fc11f65076">Filho de um senhor e de uma escravizada, Hemetério José dos Santos (1858-1939) nasceu no interior do Maranhão, mas mudou-se na década de 1870 para o Rio de Janeiro, onde tornou-se professor de Português em diversas instituições, entre elas a Escola Normal e o Colégio Militar. Era um homem negro e estava envolvido em movimentos abolicionistas. Escreveu uma gramática, publicada no final da década de 1870, baseada na gramática filosófica. Posteriormente, modificou seu ponto de vista e adotou o método histórico-comparativo, como na referida obra de 1897. Além de gramático, tinha amplo conhecimento pedagógico e literário, tendo feito conferências e publicado obras sobre essas temáticas.</italic></p>
        <p id="paragraph-1095235eed446d7a4d08d3e1b070d416">Além da “Coleção”, que é a estrutura e ponto central do dossiê, há outras seções relevantes. Uma delas é a “Linha do Tempo”, a qual contém uma cronologia que mescla acontecimentos sócio-históricos e edições de algumas gramáticas e dicionários. Os títulos e edições elencados nesta linha do tempo são aqueles que têm maior representatividade na história das ideias linguísticas nacionais, no gênero de obra em questão ou na história editorial. Os fatos selecionados, de alguma maneira, se integram ou refletem no pensamento sobre a língua. Essa cronologia é um exercício em construção, como toda escrita da história. Adiante, na Figura 7, está a imagem da página inicial da Linha do Tempo no dossiê.</p>
        <fig id="figure-panel-aeb1bb17b381583a2562e93fb7122a34">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-22ae2ea423affeac81bcb759c96b231e">Figura 7. </bold>Ilustração de aparência da “Linha do Tempo” no dossiê Gramáticas e dicionários do português. <bold id="bold-01f69225c02282d046f752c06867cbfa">ALT: </bold>A imagem apresenta um banner digital com o título “Gramáticas e Dicionários do português” em letras maiúsculas brancas. Ao fundo, há fotografias de dois edifícios neoclássicos: a Casa de Rui Barbosa e a Biblioteca Nacional. Sobreposta à base da imagem, encontra-se uma interface de linha do tempo interativa com três categorias horizontais: “Dicionários”, “Gramáticas” e “Estudos”. Diversos marcadores pretos com nomes de obras e autores estão distribuídos ao longo de uma régua cronológica vermelha na parte inferior.</title>
            <p id="paragraph-cfa304392043be904f2d674e6cd6a2c3"><bold id="bold-f75e555a76ee89e71bbcec038c6b323c">Fonte: </bold>Dossiê na BN Digital.</p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-118f4d2be3d305dceb67b337079be66b" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="f7_2.jpg"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-175df1d5238f175484842c4d3957a045">A primeira obra indicada na “Linha do Tempo” é o <italic id="italic-2b59beb4045a727fa29a81e51c718f23">Diccionario da lingua bunda, ou angolense, explicada na portugueza, e latina</italic>, publicado em Lisboa, em 1804, pelo frei italiano Bernardo Cannecattim – um exemplo da diversidade de interesses do reino. A primeira gramática apresentada é a de Antônio Morais Silva, publicada na mesma cidade, em 1806. O primeiro acontecimento sócio-histórico é a vinda da família real e a côrte portuguesa para o Rio de Janeiro, o que levou a importantes mudanças culturais e intelectuais no Brasil de então. Outro acontecimento é o Ato Adicional à Constituição de 1834, que deu às províncias maior autonomia e responsabilidade sobre a educação local. A partir de então foi comum ver a publicação de obras destinadas a províncias específicas em seus títulos ou subtítulos. Outros eventos listados são a criação do Colégio Pedro II, do IHGB, da ABL, a Proclamação da República, a Semana de Arte Moderna, entre outros, encerrando-se com a Revolução de Outubro de 1930. </p>
        <p id="paragraph-e97460fd37795bcf95cd1f8545061997"> Graficamente, a linha do tempo é composta por uma imagem, em geral do acervo da FBN, que representa aquele fato sócio-histórico, ou, quando se trata de uma obra do acervo, é representada por sua ficha catalográfica. Além disso, há uma subseção chamada “Efemérides” em que os fatos históricos e sua relação com a publicação de gramáticas e dicionários são explicados em cerca de um a três parágrafos pelos pesquisadores do dossiê. Dessa forma, além de conhecer as obras, o leitor ou pesquisador pode adentrar, de maneira dinâmica, nos acontecimentos relevantes no período de sua produção.</p>
        <p id="paragraph-4fc0a05321353d8da12dd7764432fb3b"> Finalmente, outra importante seção do dossiê é a denominada “Informação especializada”, que é composta pelos Quadros de Elementos Descritivos das obras da coleção e também por um sistema de busca em planilha. Os Quadros de Elementos Descritivos são resultado do trabalho de anos a fio da equipe do projeto. A ideia é que eles sejam base documental para pesquisas sobre dicionários e gramáticas dos ricos acervos da FBN e da FCRB. Neles, é feita a descrição material, conceitual e relacional das obras da coleção.</p>
        <p id="paragraph-501afe60ed79ec2006d518b42b3a5a76">Pelo fato de a coleção fazer parte do acervo de duas bibliotecas – FBN e FCRB –, sua descrição está, também, baseada em critérios da Ciência da Informação. As áreas descritivas dos quadros são baseadas em três modelos: o <italic id="italic-0a3979bda966c8d8beeecfc667c00608">International Standard Bibliographic Description (ISBD)</italic>, o<italic id="italic-1a502efa7d65b964352eb8aa8ee7af09"> Anglo-American Cataloging Rules, 2nd edition (AACR2R)</italic>, e o <italic id="italic-9e0d4faa60eb2ddae82f9d6625558b57">Library Reference Model (LRM)</italic> e <italic id="italic-26798b809068bae7bc0c978a0b871b6e">Resource Description Access (RDA).</italic> Darlene Alves Bezerra foi a responsável por organizar o quadro e as informações que deveriam constar nele, conforme explana em artigo (Bezerra, 2023). </p>
        <p id="paragraph-d8da77a99ba696eb48aa9c7ea6f586c4">O quadro se inicia tratando do título principal, subtítulo, responsabilidade/autoria, apresentação/introdução (textos iniciais), nota do editor/autor, prefácio, posfácio (seções pós-textuais), edição, local, data e editora. Há também uma seção destinada à descrição física da obra, contendo número de páginas, ilustrações e dimensões, caso seja uma obra em série, pode-se descrever isso também no quadro. Em seguida, o leitor encontra os paratextos da obra, como dedicatória, errata, ex-libris, carimbo da coleção, anotações autógrafas, bibliografia, índice e colofão. Nesta seção está incluída também a categoria “raridade ou importância”, em que pode ser feito o comentário de um especialista sobre a especificidade daquela obra. Por fim, há no quadro a seção chamada “relacionamentos”. Nesta última seção, há dados sobre a disponibilidade da obra em acervos <italic id="italic-7eeb0f537eb62a7d25ec39b0ee4a4cec">on-line</italic> diversos. Em seguida, trata-se da relação da obra com outras, observando-se: 1) outros exemplares da edição (que façam parte dos acervos da FBN ou FCRB), 2) outros títulos do autor na coleção. Além disso, procura-se apresentar uma breve notícia sobre o autor e, por fim, a fortuna crítica da obra. </p>
        <p id="paragraph-ade8bca5dbf8c5024cd98c8413213958">Finalmente, o sistema de busca em planilha supramencionado foi implantado recentemente no Dossiê. Dada a impossibilidade técnica de se criar um sistema de busca para as obras, os dados da coleção foram organizados em uma planilha, dividida por abas, as quais ressaltam algum aspecto da obra para ordená-las, como seu autor, seu local ou tipografia de publicação. Dessa forma, o pesquisador, tendo ou não uma questão ou uma palavra-chave, acessa os dados ordenados pela equipe de pesquisa. É como um visitante de uma biblioteca vagando por suas estantes de obras, dispostas lado a lado: se tiver um direcionamento, ele será guiado conforme a ordenação e encontrará o que deseja – e, ainda, poderá ver o que está ao lado, ao redor, e encontrar bem-vindas surpresas em sua busca. Se não tiver um direcionamento ou questão inicial, ainda assim, ele acessará o material e poderá explorá-lo de formas variadas.</p>
        <p id="paragraph-ba62090d2fd638c0d1b92e95b6888342">O propósito do dossiê é divulgar e organizar gramáticas e dicionários existentes nos acervos da FBN e da FCRB, mas não só. O mapeamento dos títulos e o estabelecimento da coleção pretende colaborar com os estudos sobre a formação do pensamento gramatical e linguístico no Brasil e cooperar com as investigações sobre questões mais descritivas ou mesmo normativas das obras. A publicação, além de apresentar a peculiar riqueza desses acervos quanto às gramáticas e aos dicionários de português, serve também como fonte epi-historiográfica, isto é, organiza e classifica materiais documentais que podem servir de fonte para pesquisas diversas.<bold id="bold-b0b091620a5780ff5874300d895d66f0"/></p>
      </sec>
      <sec id="heading-900884e91822c2bdf29d2b516f28f8d9">
        <title>1.4. MuGra – Web-Museu da gramática (UFU/FAPEMIG) </title>
        <p id="paragraph-89a1f4a2c7e15f3d9ddf7126174ffff4">O Web-Museu da Gramática (MuGra) surgiu das discussões e dos interesses de pesquisa do NormaLi – Núcleo de Estudos da Norma Linguística<ext-link id="external-link-7277f73fe66b7b705d31d59c075d4d8e" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-991d0050cdafce50adb34170123d20d4"><sup id="superscript-13cf1251064ced050cd5e5107e8cae84">[1]</sup></sup></ext-link>, no âmbito do Instituto de Letras e Linguística (ILEEL) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), articulado aos cursos de graduação e aos programas de pós-graduação em Estudos Linguísticos (PPGEL) e ao Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS). Em funcionamento desde 2018, o NormaLi reúne pesquisadores e estudantes da UFU e de outras instituições nacionais e estrangeiras, dedicados à reflexão crítica sobre a língua em suas relações sociais, especialmente nas tensões entre usos e modelos normativos registrados pelas gramáticas. É nesse espaço de pesquisa, formação e extensão que o MuGra foi concebido e desenvolvido, sob a coordenação do professor Leandro Silveira de Araujo.</p>
        <p id="paragraph-8d97d14bec204826c811ca482dbfdb6c">A proposição do MuGra foi motivada pela constatação de lacunas na divulgação científica sobre a gramática e seu processo histórico de constituição. Embora a gramática ocupe algum lugar na formação escolar e no debate público, os conhecimentos produzidos pela Linguística e pela Historiografia da Gramática permanecem, em grande medida, restritos ao meio acadêmico, com baixa circulação social e pouca adequação a formatos acessíveis ao público não especializado. Essa distância contribui, somados a outros fatores, para a manutenção de concepções simplificadoras e prescritivas da gramática, frequentemente dissociadas de seus contextos de produção, finalidades e historicidade.</p>
        <p id="paragraph-f0756c7b81df62280fe213a8dd2f4d0b">Somou-se a esse diagnóstico a demanda pela formação de pesquisadores em Gramaticografia, área ainda pouco explorada nos cursos de Letras, apesar de sua relevância para compreender, entre outros, a construção das normas linguísticas e o papel das gramáticas na organização social da língua. Observou-se, assim, a necessidade de um espaço que favorecesse o contato sistemático com diferentes tradições gramaticais, obras, autores e modelos descritivos, permitindo leituras críticas de seus pressupostos teóricos, ideológicos e pedagógicos. Por fim, o contexto da pandemia de Covid-19 reforçou a urgência de consolidar ambientes digitais permanentes de produção, circulação e compartilhamento de saberes. A ausência de um espaço virtual dedicado especificamente à gramática, que articula pesquisa, ensino e extensão, reforçou a proposta do MuGra como resposta a essas demandas.</p>
        <p id="paragraph-2284684f98a32238a2432d0d10a55153">Nesse horizonte, o MuGra foi concebido para dialogar com um público amplo e heterogêneo, para além do meio acadêmico, sem abdicar do rigor científico. Constitui-se como recurso formativo para professores em formação e em exercício, oferecendo subsídios teóricos e históricos mobilizáveis no ensino de língua materna e de línguas estrangeiras. Atende também a estudantes de graduação e pós-graduação em Letras e Linguística e a pesquisadores, que encontram no acervo um espaço de consulta, análise e circulação de dados sobre gramáticas, tradições descritivas e processos de normatização linguística. Além disso, abre-se ao público geral interessado na língua, na história dos saberes linguísticos e no funcionamento das normas. Devido a essas características, o MuGra recebeu financiamento da FAPEMIG por meio de chamadas destinadas ao custeio de projetos de extensão universitária e divulgação científica.</p>
        <p id="paragraph-cb735f85414305024903ccf31562d547">O Web-Museu toma a gramática como objeto histórico e cultural, reunindo obras de diferentes épocas (desde o século 16), autores e contextos, especialmente da América e da Europa. Seu acervo permite leituras comparativas ao expor gramáticas do português, do espanhol e do francês, evidenciando diálogos entre tradições gramaticais neolatinas. Abrange gramáticas teóricas e escolares, voltadas ao ensino de línguas maternas e estrangeiras, possibilitando observar mudanças nos modelos de descrição, de norma e de ensino. De modo complementar, reúne atividades escolares, vídeos de aulas e conferências, trabalhos acadêmicos e exposições lúdicas, ampliando as formas de acesso, circulação e apropriação do conhecimento.</p>
        <p id="paragraph-01880be035eb9e5ad2f4c237a9bfd530">A constituição do acervo do MuGra organizou-se em dois momentos complementares. O primeiro, praticamente concluído e já disponível no site do web-museu (<ext-link id="external-link-14d01b7e458acc62e4879a1c920e137d" xlink:href="http://mugra.com.br">mugra.com.br</ext-link>), consistiu na inserção e sistematização de dados oriundos de pesquisas de Iniciação Científica (PIBIC – CNPq/FAPEMIG), baseadas na consulta a acervos de bibliotecas universitárias e de instituições de preservação brasileiras e estrangeiras. Essa etapa privilegiou três tradições gramaticais neolatinas: espanhola (Araujo; Freitas, 2020; Araujo, 2024a), portuguesa (Araujo; Melazo, 2020; Araujo, 2024b) e francesa (Medina, 2024; Cruz, 2024; Cruz <italic id="italic-c964a55ed508dec5cb92d2d90503ffab">et al</italic>., 2025). Como critério de inserção, adotou-se a aderência das obras às respectivas tradições e sua acessibilidade, seja em formato digital, seja por consulta presencial ou aquisição em livrarias. O segundo momento, em fase inicial, dedica-se à compilação de gramáticas voltadas ao ensino de línguas estrangeiras, produzidas ou em circulação em países do da América do Sul. O levantamento preliminar, já em andamento (Araujo, 2024c, 2024d; Cruz <italic id="italic-f4ae5058adfeff19f59d46355c32cc35">et al</italic>., 2025), será seguido de triagem, análise e disponibilização sistemática das obras no acervo, ampliando o viés comparativo e as especificidades da plataforma.</p>
        <p id="paragraph-00d17247c82e2c3e37f1978b865e6253">A proposição e a organização desse acervo foram orientadas pela consulta a bases documentais especializadas, como a <italic id="italic-562d9737a65db0606ba8f8b6b4b0abd3">Biblioteca virtual de la filología española</italic> (BVFE), o projeto <italic id="italic-a5612f69e8359eb5d4071009102f7a4c">Diversidad lingüística en la enseñanza del español en Cataluña</italic> (DLEEC), o <italic id="italic-0fdc9ebfb626caad0c41806da25ef9e8">Documenta</italic> (CEDOCH/USP), o <italic id="italic-f604117d0239b0a7d41c14260e463b65">Portugaliæ monumenta linguistica</italic>, o <italic id="italic-706e0ffd5c58c8d233d579288369b6f5">Corpus de textes linguistiques fondamentaux </italic>(CTLF) e o projeto <italic id="italic-29e485b7cec0cf1c772f86dc04506311">Hispanagrama</italic> (Universidad de Córdoba). A análise dessas iniciativas forneceu parâmetros para a definição dos critérios de catalogação, organização dos metadados e formas de apresentação dos conteúdos no MuGra, além de evidenciar a necessidade de um espaço de acesso aberto que integrasse descrição historiográfica, comparação entre tradições gramaticais e mediação didática.</p>
        <p id="paragraph-f5f95df5eefbeca715b94c4cca41754c">Quanto à organização do acervo, o MuGra adota um método de coleta e sistematização baseado em duas categorias analíticas complementares: aspectos extratextuais e intratextuais. A primeira reúne informações sobre a concepção da obra, contemplando dados do autor (nome, nacionalidade, formação, atuação profissional e publicações) e da obra analisada (título, data e local da primeira edição, número de edições, edição analisada, editora e idioma). A segunda concentra-se nas concepções linguísticas e didáticas mobilizadas no texto, incluindo tipologia da gramática (cf. Araujo, 2020), exercícios, design gráfico, organização do sumário, classificação das classes de palavras, corpus de referência, objetivos declarados, concepções de língua, norma, gramática e ensino, além das inspirações teóricas explícitas.</p>
        <p id="paragraph-de53e74e6b19b76acc99a58ecaa82b0e">Esses dados são registrados em um formulário padrão desenvolvido para o Web-Museu da Gramática e disponibilizado junto a cada item do acervo. O formulário organiza de modo claro e sistemático as informações coletadas, explicita os critérios analíticos adotados pelo MuGra e facilita a comparação entre obras, autores e tradições gramaticais. Na sequência, a Figura 8 ilustra essa estrutura de organização.</p>
        <fig id="figure-panel-23124f317b4a67fd093b0c1e22954b23">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-9eb1e6b4214d5b8bdae4108b3e9cf952">Figura 8. </bold>Do formulário de coleta e compartilhamento de informações. <bold id="bold-e4090c850f1b9d2712904976881e7b18">ALT:</bold> Imagem de um formulário de análise gramatical do Web-Museu da Gramática, no qual se apresentam informações sobre domínio linguístico, classificação da gramática e dados biográficos.</title>
            <p id="paragraph-5f30010ecbc3b662c879b663ba9dcdc0"><bold id="bold-d363af1d6596dc98863fc027e28372bd">Fonte: </bold>https://l1nq.com/chT1P. <bold id="bold-2565ad3f8b6fa1b91504849173517d68"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-f46705def7dde505ff316d8966e6f7d9" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="f8_2.png"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-d0fc4e8479d3f85baf34a553bfe85ade">Na página do MuGra, os dados de cada gramática são apresentados de forma organizada, acessível e visualmente estruturada, permitindo o acesso a informações gerais e análises detalhadas. Ao selecionar um item, o visitante encontra imagens da capa da obra e, quando disponível, do autor, acompanhadas de dados essenciais como autoria, data e local de publicação, tipologia, número de edições e editora. Em seguida, são exibidos trechos do texto gramatical organizados por categorias analíticas, como concepções de língua, norma e gramática, além de passagens que exemplificam a tipologia da obra e os objetivos do autor. A página inclui ainda a seção “Estado da Arte”, com referências bibliográficas, links para a obra original, para o formulário completo de análise e para outras informações sobre o autor, além de uma ferramenta aberta à colaboração do público para envio de correções ou arquivos. A Figura 9 ilustra essa forma de disponibilização no acervo do web-museu.</p>
        <fig id="figure-panel-d3923f4c2d37631b14034dc4e5e30a45">
          <label>Figure 7</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-2d3f5fae502514fd233adeb26df7821d">Figura 9.</bold> Do compartilhamento de informações na página do MuGra. <bold id="bold-dd2cf63fdfbb1b73da7dcde804f8347a">ALT: </bold>Imagem da tela do site do MuGra na qual se apresenta a obra Gramática de la lengua castellana, de Andrés Bello. À esquerda aparece a capa do livro e, à direita, um retrato do autor, acompanhados de informações bibliográficas e trechos que descrevem o caráter descritivo e escolar da gramática.</title>
            <p id="paragraph-c7b3f1ab33602d5cf371e89bbeb3a097"><bold id="bold-fadd2252a66a4c467c8b34592513ba7a">Fonte: </bold>mugra.com.br/gramatica-acf/gramatica-de-la-lengua-castellana/. <bold id="bold-56bc39022809e90536d2cabb93f4a705"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-6684b49179dff70aed315e30c4050363" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="f9_2.png"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-4ae0959431c81111585e811e56741aa9">A página inicial do MuGra organiza seus conteúdos em dez menus, facilitando a navegação e o acesso ao acervo (Figura 10). Em ‘Mundo da Gramática’, apresentam-se o web-museu e uma discussão que contextualiza a gramática como objeto histórico, social e cultural. ‘Gramáticos e Gramáticas’ reúne o núcleo do acervo, com acesso às obras pelo nome do autor, enquanto o menu ‘Visite’ organiza esse conjunto por período e local de publicação, favorecendo leituras comparativas por meio de ferramentas mais lúdicas. Em ‘Pensando a Gramática’, disponibilizam-se conferências e aulas sobre norma, variação e ensino. A ‘Sala de Aula’ oferece atividades, materiais didáticos e vídeos de apoio para professores e estudantes. O ‘Dicionário’ apresenta definições acessíveis de termos da gramaticografia, ampliando o alcance do acervo. Informações adicionais sobre a concepção do MuGra e seu projeto gráfico podem ser encontradas em Araujo <italic id="italic-1400e2c3e956a8d4e1c322999193ce21">et al</italic>. (2024, 2025). A Figura 10 ilustra a página inicial do MuGra.</p>
        <fig id="figure-panel-30af9e332557f7d3ca1f8d13d7724f06">
          <label>Figure 8</label>
          <caption>
            <title><bold id="bold-01ca4bd7f01fea02be43bafabb75cd54">Figura 10. </bold>Da página inicial do MuGra. <bold id="bold-513faec886621e2a90f70107c4778a41">ALT: </bold>Página inicial do site do Web‑Museu da Gramática, com fundo escuro e menu de navegação no topo. À esquerda aparece o logotipo do museu e um botão “Visite o MuGra”, enquanto à direita há a imagem de uma torre medieval estilizada, usada como elemento visual central da página.</title>
            <p id="paragraph-f36767ad8799474d0071e42efbab5581"><bold id="bold-e0c5d2451eff4f5dcc865169deaa3f27">Fonte: </bold>mugra.com.br. <bold id="bold-8856879a592b8bc489a274b5ad66f5e4"/></p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-e18c0f1576f267508d759e82a151e2ca" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="f10_2.png"/>
        </fig>
        <p id="paragraph-4ca1e1224166b21cf72b337b67a743d7">Em constante crescimento, o acervo do MuGra reúne atualmente quase 200 gramáticas. A produção brasileira corresponde a cerca de 36% das obras, seguida pela espanhola (25%) e pela portuguesa (16%); juntas, as três tradições concentram mais de 75% do conjunto. O restante distribui-se sobretudo entre outros países da América Latina (Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, Peru e Venezuela), com cerca de 14%, e países europeus (Alemanha, Bélgica, Inglaterra e França), com aproximadamente 9%, além de registros pontuais dos Estados Unidos e das Filipinas. Esses dados evidenciam a centralidade ibero-americana do acervo, em parte vinculada aos interesses de pesquisa do NormaLi, sem prejuízo de sua diversidade geográfica. Quanto à distribuição temporal, predominam gramáticas dos séculos 19 (42%) e 20 (30%), seguidas pelas do século 21 (17%); o século 18 reúne cerca de 7% e o século 16, 1%, assegurando ampla cobertura histórica.</p>
        <p id="paragraph-143fe580821341fdd84923b7f590d1e9">No campo das pesquisas e desdobramentos, o Web-Museu da Gramática tem se afirmado como indutor de novas agendas na Historiografia Linguística, na gramaticografia e no ensino de línguas, ao articular acervo, método e formação. A sistematização e a divulgação pública dos dados favorecem estudos comparativos entre tradições, contextos de produção e usos pedagógicos, potencial já concretizado na formação em diferentes níveis. Na graduação do ILEEL/UFU, com pesquisas sobre a gramaticografia do francês, do espanhol e do português como línguas estrangeiras no Mercosul; e na pós-graduação, com estudos sobre autoria feminina, produção de gramáticas de línguas estrangeiras, gramáticas pedagógicas sul-americanas, o lugar da gramática no ensino fundamental e o cânone gramatical. Esse conjunto confirma o MuGra como ambiente ativo de pesquisa, formação qualificada e renovação metodológica.</p>
        <p id="paragraph-d3682a94eb7f2ff53121ace7abb27fe4">Quanto às ações futuras, o MuGra prevê iniciativas articuladas de ampliação, qualificação e difusão. Em curto prazo, destaca-se a conclusão da primeira etapa, financiada pela FAPEMIG, com revisão e adição de textos finais, e o início da segunda etapa, voltada à compilação de gramáticas para o ensino de línguas estrangeiras produzidas ou em circulação no Mercosul, dando visibilidade a um tipo de gramática ainda pouco estudado. Essas ações serão acompanhadas pela revisão e pelo aperfeiçoamento dos parâmetros metodológicos, pela ampliação da divulgação em ambientes extra-acadêmicos e pelo desenvolvimento de novas atividades escolares, reforçando a articulação entre pesquisa, ensino e sociedade.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-f32fb77ac95beef1df50bc63d6de4f3e">
        <title>1.5. Museu da Língua Portuguesa</title>
        <p id="paragraph-3f53a4d300034e289b2935ebd78afaee">Instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, desde 2012 o Museu da Língua Portuguesa (MLP) é administrado pela Organização Social IDBrasil Cultura, Educação e Esporte. Foi inaugurado em 20 de março de 2006 no prédio da Estação da Luz, no centro de São Paulo, sendo o primeiro museu do mundo dedicado exclusivamente a uma língua. Seu espaço expositivo se divide em três pavimentos: dois dedicados à exposição de longa duração e um destinado a mostras temporárias.</p>
        <p id="paragraph-46175dc6734157ade56bd2a51ce6fbc8">Desde sua concepção, a instituição aborda a língua portuguesa como patrimônio cultural e elemento que articula diversas dimensões da vida, mobilizando debates sob perspectivas antropológicas, históricas e sociais. Localizado no Brasil, tem como objeto principal o português brasileiro, mas contempla a diversidade das variedades faladas em outras partes do mundo. Além disso, volta-se às diversas línguas faladas no país. No plano de trabalho do quinquênio 2020-2025, o Museu norteou-se pela formação linguística e cultural do Brasil, promovendo exposições temporárias sobre línguas de imigrantes, línguas africanas e línguas indígenas do território nacional.</p>
        <p id="paragraph-c35e9157bea8e8bfb1646b08c75e2dca">Em sua proposta curatorial, organiza sua exposição principal em quatro eixos temáticos:</p>
        <list list-type="order" id="list-1">
          <list-item>
            <p>Antiguidade da língua: Origens que      remontam ao proto-indoeuropeu e à família das línguas latinas, partindo do      surgimento do latim na península Itálica.</p>
          </list-item>
          <list-item>
            <p>Presença global: Falada por 261      milhões de pessoas no mundo, a língua reflete a expansão iniciada pelas      grandes navegações.</p>
          </list-item>
          <list-item>
            <p>Formação sincrética: No Brasil, a      língua resultou do contato entre diversos povos, sendo marcada por      convergências, conflitos e desigualdades sociais.</p>
          </list-item>
          <list-item>
            <p>Reinvenção permanente: Como fenômeno      vivo e dinâmico, o português é constantemente recriado pelos falantes na      oralidade, na escrita e nas artes.</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-658d8e8321d71c7bcd348c2fe1abbd1d">O Museu da Língua Portuguesa conta com um acervo predominantemente digital, utilizando tecnologias contemporâneas para criar experiências que dialogam com a natureza dinâmica do seu objeto. Conforme o Plano Museológico, a articulação entre textos, recursos audiovisuais e instalações interativas convida o visitante à participação ativa, tornando o MLP um “museu de experiências”. Por consequência, seu acervo reúne itens de naturezas diversas: iconográfica, textual e audiovisual. </p>
        <p id="paragraph-6d96e7c3c4bbbb69b9f5531212a0518e">O grande desafio da instituição é musealizar um fenômeno inerentemente mutável e imaterial. Diferente da expectativa tradicional de que um museu reúne coleções de objetos pré-existentes, o patrimônio imaterial não pode ser extraído de seu contexto original. A língua é um fenômeno distribuído através dos agentes e materiais que o constituem: falantes, textos, mídias, artefatos culturais, tecnologias de comunicação e, claro, os próprios acervos museológicos.<ext-link id="external-link-9640799695856dfc30b6582998bcdc6f" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-6cbcd7fb8a20b56d695bb18d030f177a"><sup id="superscript-fffee72522a811497de0e13c78a14260">[1]</sup></sup></ext-link> Cada um desses elementos age de modo relativamente autônomo, seguindo lógicas locais e criando conexões que não dependem de uma instância central. A língua é, assim, um sistema distribuído no espaço, cuja unidade emerge justamente da circulação e do compartilhamento desses elementos entre atores heterogêneos (Marion, 1999; Mufwene, 2001, 2008; Lee <italic id="italic-9749b4840aaa954896808a6c8a3afc5f">et al.</italic>, 2009; Thietart; Forgues, 2011; Viotti, 2013; entre outros).</p>
        <p id="paragraph-195879980f441936de452b84a2fecb10">Além disso, a língua se distribui no tempo. Seus processos de mudança são lentos, quase imperceptíveis em escalas temporais curtas, funcionando como um pano de fundo constante que parece estático quando comparado a dinâmicas mais rápidas – como inovações lexicais ou a variação situacional na fala cotidiana. Essa lentidão, no entanto, não significa imobilidade, mas sim uma estabilização provisória de redes que continuam a se transformar, recompor e expandir.</p>
        <p id="paragraph-4e932fb77da0b0e837ad94ca3cecd159">Assume-se, portanto, que o acervo do MLP não é composto pelo objeto de musealização em si, mas por referências a esse objeto/fenômeno – áudios, mapas, fotografias, vídeos, livros, etc. Com base na Teoria Ator-Rede (TAR), proposta pelo antropólogo Bruno Latour, a realidade não é composta por entidades fixas e pré-definidas, mas por redes heterogêneas e dinâmicas, nas quais humanos e não-humanos atuam como atores (ou actantes) que se associam, transformam-se mutuamente e produzem efeitos (Latour, 1996). Sob essa perspectiva, um acervo de dados linguísticos em um museu dedicado a uma língua – como o português – não é um repositório de registros estáticos, mas um acervo de referências, ou seja, um conjunto de nós ativos em uma rede contínua de traduções, associações e mobilizações.</p>
        <p id="paragraph-90324dcd75f724653ed56d18c2d14215">Nessa rede linguística, uma referência pode ser entendida como um ‘nó’ que concentra relações e mobiliza outros elementos. No universo do português, exemplos de referências podem incluir:</p>
        <p id="paragraph-c1f322d6edcadda803829dffebce45f7">● Um registro histórico de um falar regional, que conecta práticas linguísticas locais a identidades coletivas.</p>
        <p id="paragraph-2772096e5f71cd1d26849b3951d81865">● Uma obra literária canônica, que atrai reinterpretações, estudos críticos, adaptações e debates.</p>
        <p id="paragraph-f0c6ffd3558978462c94524bc0bc9567">● Um artefato midiático (como um programa de TV ou um meme digital) que apresenta variantes linguísticas e as associa a contextos sociais específicos.</p>
        <p id="paragraph-81eae445c6c593b4978321d49125ff1c">● Um documento normativo (como um acordo ortográfico), que atua não como regra imposta, mas como ator que provoca alianças, resistências e reconfigurações na rede.</p>
        <p id="paragraph-3b5c3fe5b1881f663a46c2fc86cccd97">Identificar uma referência, portanto, não se resume a catalogar um item, mas inclui refletir sobre o quanto esse elemento repercute no sistema e quantos efeitos produz na rede de que faz parte. Referências são nós que ampliam o número de conexões, atraem novos atores e desencadeiam processos de tradução, ou seja, de transformação mútua entre os atores envolvidos.</p>
        <p id="paragraph-3abd18a6c7c26005716aa933e2edc094">O Museu da Língua Portuguesa, então, longe de ser um depósito passivo, propõe-se como um local de ativação de redes. Seu acervo não guarda “a língua”, mas sim pontos de ancoragem a partir dos quais a língua é continuamente reeditada, disputada e vivida. Cada documento, cada gravação, cada objeto exposto é um ator que convida outros a se associarem: visitantes, pesquisadores, processos documentais, políticas culturais, comunidades de fala.</p>
        <p id="paragraph-ddf5906d0d750ac896dbd8479afc7ebf">Assim, sob a ótica da TAR, a língua portuguesa – como qualquer língua – existe como uma rede de referências em movimento. O museu que a abriga não a preserva, mas a coloca em circulação, tornando-se ele próprio um nó em uma rede que nunca cessa de se refazer.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-9b75473af2f2619d58e22b3ef093e705">
        <title>1.6. Museu de Itinerários Linguísticos do Instituto Serendipe (MILIS) </title>
        <sec id="heading-eb63fc8785d29fdd309196f8bcd04086">
          <title>1.6.1. Musealizar para transcender o arquivo: a formação do MILIS</title>
          <p id="paragraph-efed6d7e4e25876c265ad9812189c45a">Desde sua fundação, em 2011, o Instituto Serendipe, associação sem fins lucrativos, com sede em Curitiba, mantém um acervo bibliodocumental físico, que hoje consiste de cerca de 26 mil livros e documentos vinculados às trajetórias intelectuais e (meta)linguísticas<ext-link id="external-link-abb0faf5d9655eb67fcc29834ab6e016" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-b43f99c7ac858eeac1187fe8a86717e7"><sup id="superscript-eb0f5f864bfca8670895b7c5badc96f7">[1]</sup></sup></ext-link> de professores, escritores, bibliófilos e linguistas. Coordenado por um coletivo de pesquisadores e professores voltados ao estudo de linguagens (em sentido lato: não só linguística e literatura, mas também jornalismo, direito, psicanálise, música e artes visuais) e à museologia (museólogos e conservadores), o Serendipe se destina a promover e divulgar práticas culturais e de pesquisa vinculadas a esses universos temáticos. </p>
          <p id="paragraph-ff2f47166344171ffbe4186efe4939e6">Apesar de buscar atender desde o pesquisador especializado<ext-link id="external-link-c7bc263d755e8ce9d48d4b996110fb8c" xlink:href="#_ftn2"><sup id="superscript-edbc4325470ee86dd7c1d4be790c4fb5"><sup id="superscript-50ac6561d83d907afb001107c5643b35">[2]</sup></sup></ext-link> até o público em geral<sup id="superscript-5"><ext-link id="external-link-3" xlink:href="#_ftn3"><sup id="superscript-6">[3]</sup></ext-link></sup>, um dos mais permanentes eixos do trabalho do Instituto é a educação (meta)linguística, com particular foco na iniciação às ciências. Em torno desse propósito, desenvolve exposições, cursos e palestras, entre outras atividades, não apenas em sua sede física, mas também em escolas, universidades e centros comunitários.</p>
          <p id="paragraph-406f25926c67779d328c5495a7d8560f">Recentemente, o aumento da procura por esse modelo de interação, o desejo de consolidar a profissionalização dos procedimentos de salvaguarda e acessibilização do acervo, assim como a necessidade de ampliar a rede de cooperação e expandir as atividades para o ambiente virtual, apontaram para a necessidade de delimitar e especializar as atividades desenvolvidas a partir da mobilização das coleções bibliográficas e documentais do Instituto.</p>
          <p id="paragraph-5cdac51479c36315158863e28e1fa177">Sob essa perspectiva, em 2025<ext-link id="external-link-4" xlink:href="#_ftn4"><sup id="superscript-7"><sup id="superscript-8">[4]</sup></sup></ext-link>, atribuiu-se autonomia administrativa a uma de suas frentes de atuação por meio da criação do Museu de Itinerários Linguísticos<sup id="superscript-9"><ext-link id="external-link-ac6c10d5aded241bc1abf75329bce710" xlink:href="#_ftn5"><sup id="superscript-10">[5]</sup></ext-link></sup>. Essa iniciativa não se resume à oficialização da existência de um repositório de itens (meta/epi)linguísticos por meio das devidas instâncias burocráticas. Busca, antes, dar relevo à parte imaterial desse e de outros acervos semelhantes, tão significativa quanto pouco explorada. Em termos práticos, o MILIS mantém as bases da atuação anterior do Instituto a que se vincula: o acervo físico, transferido para a tutela do museu, continua aberto ao público por meio de visitas guiadas, exposições (<italic id="italic-c00b7cd70590ab830a8d880fdc1910f5">in loco</italic> ou itinerantes) e demais atividades em cooperação com instituições parceiras, podendo também ser consultado mediante agendamento prévio<sup id="superscript-11"><ext-link id="external-link-6" xlink:href="#_ftn6"><sup id="superscript-12">[6]</sup></ext-link></sup>. </p>
          <p id="paragraph-311530c0b9cb9494b14e141a4f850cff">Contudo, no que tange aos aspectos epistemológicos, a musealização desse acervo bibliodocumental implicou mudanças significativas. Ao integrar um museu de itinerários linguísticos, esse material passa a ser compreendido como pivô da ampla e sempre dinâmica malha de conhecimentos que em torno dele se organiza. É essa malha o efetivo objeto da musealização, neste caso.</p>
          <p id="paragraph-2164dfb736605bcbdd0c17a1105d10f0">Ao voltar-se para o itinerário – ou seja, o caminho – percorrido não só pelos autores e colecionadores de seus livros e registros, mas por sua ampla gama de leitores e usuários, o MILIS assume a relação e a experiência como partes integrantes de seu objeto, e não apenas de seus objetivos. </p>
          <p id="paragraph-d381258a016986ff9ce34cbdd414a093">Esse projeto se desenha, portanto, sobre os princípios que regem os modelos museológicos da contemporaneidade (a concepção da memória como fator ativo do conhecimento presente, a horizontalização dos processos) e se propõe a viabilizar a observação das relações entre arquivos (manifestos aqui sob a forma de acervo linguístico bibliodocumental) e aqueles indivíduos e instituições que o compõem, mantêm, referenciam e consultam.</p>
          <p id="paragraph-520a9794a5322a65538dafbcc9fec448"> Para além do simples repositório, ou mesmo da noção usual de <italic id="italic-7c58ab0a4432a3ecf3407a5f532181ea">biblioteca</italic>, o museu contemporâneo assume um compromisso com o amplo rol de direitos socioculturais (dos linguísticos e culturais aos identitários e educacionais), tendo por prerrogativas a imaginação criativa, o realismo construtivo e a defesa de princípios humanitários<ext-link id="external-link-da246333e20307e197acd09b58479e02" xlink:href="#_ftn7"><sup id="superscript-13"><sup id="superscript-14">[7]</sup></sup></ext-link>, pautados na igualdade e na solidariedade. </p>
          <p id="paragraph-de3cd7f3ff670eb6f684cbefff8d0722">Então, a fim de deixar claro o compromisso com esses propósitos, decidiu-se pela designação <italic id="italic-bf121db8e8d9110cf4ef700197fbae71">Museu de Itinerários Linguísticos</italic> para esse segmento do Instituto Serendipe.</p>
        </sec>
        <sec id="heading-3022d024eacd1009b69bf3edfd84c0b4">
          <title>1.6.2. Um acervo entre o material e o imaterial</title>
          <p id="paragraph-699f563d75eda8c4c3f1a5703024a836">Por concepção, o acervo do MILIS é composto na interface entre o patrimônio material e o imaterial<sup id="superscript-077b1d7d0f7433f997e9297676cdc499"><ext-link id="external-link-f2a5df3108a8735fe91af9bb5635ad5b" xlink:href="#_ftn1"><sup id="superscript-5cf39d753bf4b1dbeaac52a9650e1b00">[1]</sup></ext-link></sup>. O domínio físico, bibliográfico e documental, em torno do qual se organiza, está distribuído em 6 coleções: além do acervo geral, composto por doações anônimas e/ou pontuais, há as coleções <italic id="italic-436802c1c641818c8298a2ed4e112866">Júlio Calvo Marcondes</italic>, uma brasiliana originalmente compilada com propósitos bibliofílicos; <italic id="italic-4c2abfd375348d9eea9fbfafd5d88bae">Carmen Carneiro</italic>, constituída essencialmente por notas manuscritas e correspondência desta poeta; <italic id="italic-357020e5162578ceefdc083a18e4bf48">Gildo e Ricardo Klein</italic>, uma biblioteca voltada à Filosofia do Direito e história das ciências jurídicas, e <italic id="italic-ec4737d66f2ee8b26f04197f1d74e524">Olmar Guterres da Silveira</italic>, da qual constam a biblioteca pessoal desse linguista, seus manuscritos e egodocumentos (fotografias, cartas, anotações e afins)<ext-link id="external-link-7859341d27832e46a58bbd79044888ad" xlink:href="#_ftn2"><sup id="superscript-08dcdbe9f84f4f935b1e33b64b26d259"><sup id="superscript-46829b2b72402834dc1628e710cc982b">[2]</sup></sup></ext-link>.<sup id="superscript-f4f34618c237fb5285ae1c45df416d26"> </sup>Embora todas obedeçam ao critério temático geral que define o museu – abordar o fenômeno linguístico e suas questões derivadas ou adjacentes –, apenas esta última é especializada em estudos da linguagem propriamente ditos. </p>
          <p id="paragraph-7122f32969f4faa1c6a55ee34d2f27fc">Diante disso, no presente artigo, optamos por abordar especificamente as ações concentradas sobre o acervo Olmar Guterres da Silveira (1922-1999)<ext-link id="external-link-e841942ae3b594677469f1a60005fe19" xlink:href="#_ftn3"><sup id="superscript-fb00f3922d32e4ac43b830fb16176026"><sup id="superscript-a1f5177d5779c69fe1d231d49110301d">[3]</sup></sup></ext-link>. Linguista, filólogo e gramaticógrafo, Guterres foi Professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de integrante da Academia Brasileira de Filologia e docente do Colégio Pedro II. Participou ativamente do circuito intelectual de nomes como Evanildo Bechara e Sílvio Elia. Em 1954, realizou uma edição anotada da<bold id="bold-d66a52f6fc0271a5d7ae6a2dc5ee8ae3"><italic id="italic-81ec18d2a978aa17378477adf7c2fe9e"> </italic></bold><italic id="italic-945dce5387c7289ef7559e98b6503fb0">Grammatica da Lingoagem Portuguesa</italic>, de Fernão de Oliveira (1536) (Silveira, 1954), consolidando sua posição na história do pensamento metalinguístico e gramatical brasileiro.</p>
          <p id="paragraph-7d1ba0c0a3890588005839c0475a4d17">Ante tal trajetória, concebem-se, ato contínuo, seus manuscritos, anotações e mesmo sua biblioteca pessoal como fontes para a Historiografia Linguística e os demais estudos da área. A princípio, portanto, bastava que tais materiais estivessem minimamente organizados e acessíveis para que atendessem demandas nesse sentido. Porém, uma vez compreendido como simples arquivo, esse conjunto pouco estaria contribuindo para flagrar, de fato e com destaque, as relevantes dinâmicas epistêmicas que constituem os caminhos (meta/epi)linguísticos que representam e projetam. </p>
          <p id="paragraph-d630024aecdf3f1f6166536c14120e03">De acordo com as políticas de gestão adotadas pelo MILIS<ext-link id="external-link-e1aa3d867263a8c052c21ee8bf1c9fa4" xlink:href="#_ftn4"><sup id="superscript-44ca2ce2314b48c9f43bdba4392c4c62"><sup id="superscript-6c2e7189e0a58ee20b1999537f904412">[4]</sup></sup></ext-link>, o espólio bibliodocumental de Olmar Guterres da Silveira é, por natureza, um acervo consolidado. Define-se por ter sido integralmente constituído por esse linguista e reflete as dinâmicas dos momentos finais de seus estudos, não comportando, portanto, novas aquisições. Pela mesma razão, não passou por processos curatoriais que o redefinissem ou ressemantizassem. O eventual redesígnio dos itens não conformes com novos perfis temáticos desejáveis para a coleção, medida usual na gestão de conjuntos bibliográficos em situação semelhante, não foi aqui considerado. Pelo contrário, procurou-se manter a integridade do acervo, conforme concebida por seu curador original. Do mesmo modo, concentraram-se esforços para preservar as relações entre itens do modo como foram idealizadas por ele. </p>
          <p id="paragraph-f63611856283c446ee96230973b8a0df">Para o MILIS, a biblioteca de Olmar é um construto intelectual em si, fruto do trabalho e espelho do percurso intelectual de seu autor/curador. Dessa forma, cada volume ou manuscrito passa a ser interpretado não apenas de forma isolada, mas como elemento integrante da trajetória desse pensador e – mais importante – do panorama intelectual da Linguística brasileira em seu momento e lugar de atuação. Ao se voltar o olhar para as relações entre itens, nomes, reflexões e produtos científicos propriamente ditos (publicações, por exemplo) é possível vislumbrar o método pelo qual, nos bastidores, foram construídas as contribuições de Olmar Guterres à ciência e à educação linguísticas de seu período. </p>
          <p id="paragraph-c6bb06069001dbe1b48aee2be1546a24">Mais que sua contribuição como geralmente concebida, importam os caminhos que o pensamento desse linguista percorreu e com os quais cruzou. Nesse sentido, a própria curadoria de livros e materiais, notas e cadernos preservados ao longo de uma vida são compreendidos, a um só tempo, como documento e produto de uma práxis científica, cujas estrutura e sintaxe internas importam. </p>
          <p id="paragraph-d9e4c0f7f7e874b9d66e3f2953f8dcf6">A dinâmica de suas reflexões, perceptível em notas e marginálias, e a sociologia de seu fazer científico e profissional, observável por meio de testemunhos de interação com colegas e alunos (em citações e dedicatórias, cartas e fotografias), transcendem os limites do documento e são mais que simples produto de pesquisa. Há um modelo muito particular de conhecimento imbricado ao aspecto imaterial desses testemunhos. Manifesto na gama de relações que se fazem aqui objeto a ser musealizado, tal conhecimento é verificado das arqueologias de leitura, aos registros de interlocução: no profuso trânsito das ideias se vislumbra o caminho de sua concepção. </p>
          <p id="paragraph-fc772de95932546de8fa175622c42fb8">Diante disso, o MILIS procura estabelecer meios de salvaguardar e promover a experiência, científica ou fruitiva, dos itinerários epistemológicos, imateriais por definição, vinculados à materialidade de seu acervo, abarcando suas inúmeras faces, da formação à fruição das coleções e seus dados.</p>
          <p id="paragraph-d177c85517000ae7cf3f6a4039bc7b38">Nesse sentido, algumas medidas guiam a exposição e apresentação dos itens do acervo. Livros, revistas e cadernos, por exemplo, são mantidos fundamentalmente na ordem em que se encontravam, originalmente, na biblioteca pessoal de Olmar, em seu apartamento na Tijuca. O museu optou por dispensar o emprego de métodos de organização protocolares (como a catalogação via Dewey), exógenos ao sistema concebido pelo Professor. Em lugar deles, foi preservada a última versão da separação temática, por correlação de matérias de acordo com o momento ou projeto de estudo a que serviam. Tais núcleos, estruturados por Olmar, caracterizavam sua prática de pesquisa e materializavam, ao longo de suas prateleiras, as pontes, encruzilhadas e vicinais percorridas por esse linguista.</p>
          <p id="paragraph-da1366aa074b468963e267670cff4e6a">A localização de itens do acervo se dá a partir de sua disposição em nichos, distribuídos por meio de coordenadas cartesianas – seguindo um sistema que replica o modelo de referenciação adotado por Olmar, conforme testemunham suas cadernetas de controle. Foi justamente a análise desses pequenos cadernos que norteou, já no primeiro momento de recepção e transporte de sua biblioteca, o processo pelo qual se manteria e apresentaria esse acervo. Olmar optava por numerar a prateleira e, em seguida, descrever os livros que lá se encontravam, sempre dispondo-os por uma correlação temática mais particular e, por óbvio, menos institucionalizada.</p>
          <p id="paragraph-619bef1565bd448db7af2f64912b9cbb"> Observe-se que esse tipo de testemunho material dos processos intelectuais desenvolvidos a partir de um acervo físico costuma ser apagado pelos procedimentos-padrão de institucionalização de bibliotecas e afins. No entanto, pode constituir uma fonte de pesquisa de processos tão significativa quanto a catalogação das marginálias e notas avulsas, esta também uma das frentes em que o MILIS pretende especializar seus trabalhos, a partir de levantamentos prévios realizados no âmbito do Instituto desde 2023<ext-link id="external-link-1cefabbf1a391d896fdec427738ba453" xlink:href="#_ftn5"><sup id="superscript-e749d794eaa79f01be0d69d822f84055"><sup id="superscript-1b0aef6c4763ee6a91449bdd7529f0b9">[5]</sup></sup></ext-link>. </p>
          <p id="paragraph-0c605727effe3b4af653364b60d90f6e"> Nas visitas guiadas e exposições, o intuito do museu é dar visibilidade a esse universo imaterial de conhecimentos circundantes a esta e outras coleções de semelhante teor. Ao se propor a realizar uma museologia ativa e pautada nas vivências comunitárias, o MILIS procura abranger em seus itinerários linguísticos também os caminhos daqueles que, em contato com seu acervo, o projetem sobre suas próprias jornadas particulares no âmbito da linguagem (da expressão cotidiana à artística, em contexto escolar/acadêmico, ou não). </p>
          <p id="paragraph-15c37bd30bcd997e6c9de49ab0d7173e">Com isso, se pretende não apenas levar públicos diversos a perceber a complexa teia de relações que compõe as reflexões linguísticas de um autor, professor, linguista, mas, sobretudo, permitir que o usuário, pesquisador ou visitante, se entenda como parte dessa teia, à medida em que reconhece – e vê reconhecidas – as próprias experiências (meta)linguísticas a partir do contato com o acervo. </p>
          <p id="paragraph-8519b6878a1b7e7d8ab0e9b4886df903">Também esses caminhos são objeto do MILIS. Diante disso, o que se pretende é transformar o registro de interações (desde pesquisas a experiências educacionais realizadas no acervo, passando por percepções do visitante) em material musealizado, acessível e, eventualmente, exposto sob curadorias específicas. </p>
          <p id="paragraph-af75055767263015ee92f44690c0527c">Interessa, nesse sentido, permitir a observação da ecologia das relações entre produtos de pesquisa propriamente ditos, professores, alunos de todos os níveis acadêmicos e a comunidade em geral. </p>
          <p id="paragraph-5c8443d8f7c98418d6455041e483fca4">Sem dúvida, flagrar essas inter-relações com precisão é desafiador. Contudo, chamar a atenção para a existência de aspectos personalíssimos e parainstitucionais da malha epistemológica sobre a qual se organizam os diversos fenômenos da linguagem é, em grande medida, coadunar-se à natureza imaterial, dinâmica e plural desses próprios fenômenos. </p>
          <p id="paragraph-e0dbb8b871031aa6d47532a31eee56b6">Ancorado no modelo das constelações de pensamento consagrado por Walter Benjamin (cf. 1999, 2009), o projeto do MILIS procura permitir a elaboração de panoramas historiográficos dos estudos da linguagem a partir da salvaguarda de manifestações diversas da língua. Ao musealizá-las sob a perspectiva ativa, relacional e voltada aos interesses comunitários, admite o potencial de seus registros como fontes para a observação das interrelações entre o pensamento metalinguístico instituído academicamente e as práxis (meta/epi)linguísticas vivenciadas no cotidiano por todos aqueles que se confrontam com a experiência da língua, pensando possibilidades e sentidos em escolhas vocabulares e recursos de expressão. Assim, procura-se assumir o papel dos museus como “guardiões da memória e promotores da experimentação” (cf. Canclini, 2021, p. 25), capazes de acolher diversos modelos de saber e assim contribuir para a reconfiguração das relações humanas em torno do conhecimento<ext-link id="external-link-19894b6e1f10d60b1b3a6a2683b52a88" xlink:href="#_ftn6"><sup id="superscript-d77c95d07ea06c71f805af6ba1896c16"><sup id="superscript-94251b067fc71abc210c0e706fac120c">[6]</sup></sup></ext-link>. </p>
          <p id="paragraph-b83d8354ca8f127d7a1049e0e9121b95">Por meio de seu rol de atividades, o MILIS não procura musealizar objetos, sequer registros de memória ativa e atualizável de língua. O acervo efetivo constitui-se, pois, dos caminhos intelectuais dinâmicos realizados por estudantes, leitores, pesquisadores na relação com itens materiais do acervo, ou com os processos imateriais descobertos, compartilhados e desenvolvidos a partir deles.</p>
        </sec>
        <sec id="heading-f12bdc34a64a552bf0cdb25eca97c3d5">
          <title>1.6.3. Historiografia, Historiografias e o papel deste acervo</title>
          <p id="paragraph-2b8fc39f52d26a490df2be8e6a07b388">Ao admitir seu objeto na interface entre o arcabouço material e o imaterial, o projeto do MILIS assume um conceito dinâmico de acervo. Nesse campo expandido de atuação, estão os caminhos epistemológicos possíveis em torno da produção metalinguística acadêmica e das experiências promovidas a partir dela. </p>
          <p id="paragraph-c80c03b5e9e301c0f23c29386dee9fed">Por definição, esse é um quadro que pressupõe a consciência da trama de relações que configura não apenas a sociologia do conhecimento científico (cf., a exemplo, Murray, 1998), mas de todo o conhecimento acerca da linguagem.</p>
          <p id="paragraph-8725ce0c4e9a27acb1a529a7a511afd9">A Historiografia Linguística contemporânea tem buscado refinar sua capacidade de análise abrangendo contextos mais complexos, para além dos limites tabulados pelo cânone tradicional. Voltando-se, por exemplo, ao estudo do pensamento (meta)linguístico do Sul Global e da contribuição feminina no âmbito dos estudos linguísticos, tem trabalhado, meta-historiograficamente, na ampliação de seu instrumental metodológico (cf. Altman; Lourenço, 2023), na redelimitação de seu objeto e no modelo teórico a ser, então, adotado (Ayres-Bennett; Sanson, 2020). Fazem parte desse movimento, desde a revisão dos conceitos de fonte historiográfica até a adesão às novas epistemologias (cf. Coelho; Finbow, 2020) e a intensificação das relações interdisciplinares (cf. Zamorano Aguilar, 2012). </p>
          <p id="paragraph-ce9b7bd91d9e6dcb50ce62e56eca4cb4">Um arquivo (meta/epi)linguístico que se institua sobre o aspecto dinâmico da relação (e não sobre o conceito estático de item ou dado) será capaz de contemplar as necessidades de reflexão crítica, aprofundamento analítico e expansão permanente dos horizontes de pesquisa que caracterizam esse modelo de fazer historiográfico. É considerando isso que o MILIS procura salvaguardar e disponibilizar caminhos linguísticos.</p>
          <p id="paragraph-92defe4ad49837ad84e5acc39ea96da9">Sob essa perspectiva, um portfólio de ações (visitas, interações educativas, exposições) passa a ser mais que mero registro da trajetória e dos impactos sociais estatísticos de um museu. Integra, antes, seu acervo de fatos e feitos linguísticos. Para que se possa operar em termos práticos com esse objeto, recorre-se a fotografias e registros de presença e atividades-produto, realizadas a partir de vivências do acervo do museu. Esses elementos passam, então, a ser incorporados ao próprio acervo, de acordo com planos museais e expositivos direcionados a isso. </p>
          <p id="paragraph-57157ba9151ff6ae91b8193d5d3e3534">Logo, uma das características centrais de um museu de itinerários está justamente no tratamento daquilo que, geralmente, se entenderia como registro dos processos de recepção. Em uma abordagem que prima por observar os caminhos do conhecimento, não se trata de dado <italic id="italic-1784e70999d9360eb0d9d439d1bb5cb6">a posteriori</italic>, mas de parte do complexo epistêmico mobilizado em uma experienciação (meta)linguística, desdobrável em múltiplas camadas sociológicas, pedagógicas, científicas e filosóficas. Essa concepção possibilita, por exemplo, reforçar e delimitar mais especificamente as bases da prática da pesquisa-ação em HL.</p>
          <p id="paragraph-85c8e541bcbe3d769d85a1dffae9e293">A proposta deste acervo, em essência, se alia aos princípios críticos e interdisciplinares da HL, assim como aos horizontes em expansão dessa ciência. Contudo, ainda que amparada sobre as bases da museologia contemporânea, trata-se de uma iniciativa que se caracteriza, em última instância, por musealizar itinerários intelectuais na esfera da linguagem, algo desafiador por princípio, mas afinado à postura de investigação permanente, plural e democrática que cabe às ciências atuais. </p>
          <p id="paragraph-252f42cc537878288ed1fad394afc7ce"> O MILIS, hoje, é um processo. Se bem sucedido, continuará, portanto, definindo-se como tal.<bold id="bold-1a057b61d894d5499bfd339bbdadadf1"/></p>
        </sec>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-f3bb0c5b2e69586ceb34e99395e7ae37">
      <title>2. Considerações finais</title>
      <p id="paragraph-60cf988b1ca6b9198d312dc5e0ccfc38">Ao longo deste artigo, buscamos discutir o papel dos museus e acervos (epi/meta)linguísticos como espaços fundamentais para a HL, entendida como uma prática interpretativa sensível às condições históricas, sociais e epistemológicas de produção dos saberes sobre a língua. Com esse objetivo, articulamos uma reflexão sobre a relação entre memória, experiência e conhecimento linguístico com a apresentação e análise de iniciativas consolidadas no contexto brasileiro, evidenciando diferentes modos de musealizar, documentar e ativar o patrimônio linguístico. Ao percorrer acervos de natureza diversa – de centros de documentação e catálogos especializados a museus digitais e espaços expositivos voltados à experiência do público –, procuramos mostrar como esses projetos, cada um a seu modo, contribuem para ampliar o escopo da HL, tensionando seus limites tradicionais e reafirmando a centralidade dos acervos como mediadores entre pesquisa, ensino e sociedade.</p>
      <p id="paragraph-bb3dc19a593b37aa5bda96545f213bb1">As iniciativas analisadas convergem ao reconhecer os acervos e museus como dispositivos centrais para a preservação, a problematização e a circulação social da memória linguística, ampliando, muitas vezes, o escopo da HL para além do texto canônico e do espaço estritamente acadêmico. Todas partem da compreensão de que documentos linguísticos e metalinguísticos são historicamente situados e que sua organização, descrição e mediação produzem efeitos interpretativos relevantes. Distinguem-se, contudo, por seus focos e estratégias: enquanto o Centro de Documentação em Historiografia Linguística da USP, o Catálogo de Gramáticas do HGEL e o Dossiê de Gramáticas e Dicionários da FBN/FCRB privilegiam a salvaguarda, a sistematização e o acesso a fontes fundamentais para a pesquisa historiográfica, o MuGra articula acervo, método e mediação didática, explorando comparações entre tradições gramaticais e usos pedagógicos. Já o Museu da Língua Portuguesa e o MILIS deslocam o eixo da documentação para a experiência, enfatizando a língua como fenômeno vivo, relacional e imaterial, e incorporando a recepção, a circulação e os itinerários intelectuais como parte do próprio objeto musealizado. Em conjunto, essas propostas evidenciam a pluralização contemporânea da HL, que passa a integrar arquivos, acervos digitais e museus como espaços complementares de produção de conhecimento histórico sobre a linguagem.</p>
      <p id="paragraph-50bae70ff5f105ef327366529ef29bd8">Desse modo, as iniciativas têm impacto significativo na ciência e na pesquisa ao garantir a preservação, a sistematização e o acesso aberto a fontes linguísticas e metalinguísticas fundamentais, criando condições para novas agendas investigativas na HL, na gramaticografia e nos estudos da linguagem em geral. Ao organizar corpora documentais, metadados analíticos e percursos interpretativos, esses acervos permitem revisitar o cânone, incorporar autores, obras e tradições marginalizadas e fomentar estudos comparativos, como se observa no CEDOCH/USP, no Catálogo de Gramáticas do HGEL e no MuGra. </p>
      <p id="paragraph-3bc10a8c8038241817237abbeae2ea19">Em especial, revelam ainda uma contribuição decolonial decisiva para a HL, ao serem concebidas e operarem a partir da perspectiva do Sul Global, priorizando acervos produzidos no Brasil e na América Latina e tensionando hierarquias tradicionais de saber que historicamente privilegiaram centros europeus e norte-americanos. Ao tornar visíveis materiais frequentemente ausentes dos grandes repositórios internacionais, ampliam o repertório empírico da HL e contribuem para a revisão crítica do cânone, abrindo espaço para outras temporalidades, geografias, agentes e epistemologias.</p>
      <p id="paragraph-8b2e4dd1d268183b154acc049cf58d4a">No campo da formação, esses acervos e museus operam como dispositivos pedagógicos que qualificam não apenas a formação inicial e continuada de professores, mas também a formação de mestres e doutores em Linguística e áreas afins, ao oferecerem materiais historicamente contextualizados, metodologias explícitas de análise e conjuntos de dados sistematizados que sustentam pesquisas de pós-graduação. O MuGra, por exemplo, tem servido de base empírica e metodológica para dissertações e teses sobre gramaticografia, tradições normativas e ensino de línguas, enquanto o acervo do CEDOCH/USP e o Catálogo de Gramáticas do HGEL viabilizam estudos historiográficos de fôlego, com impacto direto na produção científica qualificada. Ao mesmo tempo, essas iniciativas investem fortemente na divulgação científica para públicos não especializados, por meio de exposições, recursos digitais, linguagem acessível e mediações culturais, como se observa na “Sala de Aula” do MuGra, nas exposições interativas do Museu da Língua Portuguesa e nas ações educativas e itinerantes do MILIS. Para a sociedade, esses espaços ampliam a circulação social do conhecimento linguístico, combatem visões simplificadoras ou estritamente prescritivas da língua e promovem o reconhecimento da diversidade linguística como patrimônio cultural e histórico. Ao articular preservação, pesquisa avançada, formação acadêmica e mediação com o público amplo, esses acervos reafirmam o papel social da Linguística e da Historiografia Linguística na produção de conhecimento crítico, democrático e socialmente situado.</p>
      <p id="paragraph-b2d3b9fea4a842baa2f6e4eaac6d6644">Como desdobramento das contribuições aqui apresentadas, esperamos que essas iniciativas se consolidem (ainda mais) e se ampliem como espaços estratégicos de produção, articulação e circulação de conhecimento linguístico, por meio da expansão e qualificação contínua dos acervos, da incorporação de novas tradições, da valorização de materiais e autores historicamente marginalizados e do fortalecimento de redes de pesquisa interinstitucionais e internacionais. Esperamos, ainda, que esses acervos e museus ampliem sua atuação como ambientes formativos para a graduação e, de modo especial, para a formação de mestres e doutores, fomentando investigações historiográficas inovadoras, comparativas e socialmente situadas. No campo da divulgação científica, projeta-se o aprofundamento de estratégias de mediação cultural e pedagógica que aproximem a Linguística e sua historiografia de públicos não especializados, contribuindo para o debate público sobre língua, diversidade e normas. Ao integrar memória, experiência e compromisso social, tais iniciativas tendem a reforçar, no médio e longo prazo, uma Historiografia Linguística mais plural, decolonial e atenta às dinâmicas do Sul Global, capaz de intervir criticamente tanto na produção acadêmica quanto na compreensão social da linguagem.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-b20215e7a7fdc36844d18267e348e041">
      <title>Informações Complementares</title>
      <p id="paragraph-23dd0c3904537938e3fdb528caed87b2">
        <bold id="bold-76c1b36dda72b7b2dbffff389071ce3e">Conflito de Interesse</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-4e7f00371eff2c37cda26692b6c88322">O(s) autor(es) não tem/têm conflitos de interesse a declarar.</p>
      <p id="paragraph-042952b5d314d1ad6e7bcee3527145c4">
        <bold id="bold-f36b4ddaf89ed48c3e3d8df42c5afd7c">Declaração de Disponibilidade de Dados</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-1afcd6dd9a95e20524e26840a545e7cc">O conjunto de dados mobilizados neste estudo está disponível na internet. Para fins de transparência e rastreabilidade, uma versão preliminar do estudo foi depositada no Zenodo (https://doi.org/10.5281/zenodo.18807806). Cinco dos seis acervos analisados apresentam endereços eletrônicos públicos: i) Centro de Documentação em Historiografia Linguística (USP): https://cedoch.fflch.usp.br/banco-de-dados; ii) Catálogo de Gramáticas da Língua Portuguesa do grupo de pesquisa HGEL (UFPB/CNPq): https://www.hgel.com.br/gramaticas-da-lingua-portuguesa; iii) Dossiê <italic id="italic-25c78d030ab7ad69797ec4c218b11a20">Gramáticas e Dicionários do português</italic> (FBN e FCRB): https://bndigital.bn.gov.br/dossies/gramaticas-e-dicionarios-do-portugues/; iv) MuGra – Web-Museu da gramática (UFU/FAPEMIG): https://mugra.com.br/; v) Museu da Língua Portuguesa: https://acervo.museudalinguaportuguesa.org.br/. No caso do Museu de Itinerários Linguísticos (MILIS), cujo acervo é exclusivamente físico, os dados estão disponíveis via solicitação pelos e-mails gisselechapanski@gmail.com ou institutoserendipe@gmail.com.</p>
      <p id="paragraph-db3201a769364231c45b75a6597a5bb1">
        <bold id="bold-3fdc2dd3cc69dd3fa15566f4ba8e1692">Declaração de Uso de IA</bold>
      </p>
      <p id="heading-b2b19cb0c06468aaa80831c38736e335">Os autores declaram que nenhuma ferramenta de IA foi utilizada na criação deste manuscrito nem em qualquer aspecto dos trabalhos realizados cujo resultado está reportado no manuscrito.</p>
      <p id="paragraph-e9ba709e97b05c4de950c8e7ee8ab0fc">
        <bold id="bold-0136c61f24bfbc54769fd499dfd4a26b">Fontes de Financiamento</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-ffbeb444aecc122528679b25db96a822">Este trabalho contou com apoio de diferentes agências de fomento. Gissele Chapanski desenvolveu pesquisa de pós-doutoramento junto ao Centro de Documentação em Historiografia Linguística (CEDOCH), do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Bruna Soares Polachini foi contemplada com bolsa do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa (PNAP-2025), da Fundação Biblioteca Nacional, processo nº 01430.000597/2025-51. Cecilia Farias recebeu apoio da FAPESP, no âmbito dos Programas Especiais / Projetos Especiais, processo nº 2024/17531-3. Emily G. M. Ferreira contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no PROEX – Programa de Excelência Acadêmica, por meio do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba, processo nº 88887.704863/2022-00. Francisco Eduardo Vieira foi contemplado com Bolsa de Produtividade em Pesquisa – PQ-C do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 302034/2025-0. Irineu E. Jones Corrêa contou com financiamento da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), processo nº E-26:211.245/2021, no âmbito de apoio a projetos relacionados ao bicentenário da Independência do Brasil. Leandro Silveira de Araujo recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), processos nº APQ-02460-22 (Apoio a ações de divulgação da ciência, da tecnologia e da inovação) e nº APQ-03062-22 (Apoio a projetos de extensão em interface com a pesquisa).</p>
    </sec>
    <sec id="heading-ef908ce5688792bd1fef9a8d4102ffa8">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-816c8d392f8a35353503f6e70afc81a7">ALMEIDA, Átila. <italic id="italic-1">Dicionários parentes e aderentes</italic>: uma bibliografia de dicionários, enciclopédias, glossários, vocabulários e livros afins em que entra a língua portuguesa. João Pessoa: Funape: Nova Estela, 1988.</p>
      <p id="paragraph-783f485670e254b017659f24dfddfda7">ALTMAN, Cristina; LOURENÇO, Julia. Apresentação. <italic id="italic-2">In</italic>: ALTMAN, Cristina; LOURENÇO, Julia. <italic id="italic-3">Feminino em historiografia linguística</italic>: Américas. São Paulo: Pontes Editores, 2023. v. 1. p. 13-24.</p>
      <p id="paragraph-2c11f312a5ae2eb5ccdc162315d76746">ARAGÃO, Maria do Socorro S. de. <italic id="italic-4">Fonética e fonologia</italic>: bibliografia brasileira. Fortaleza: Ed. da Universidade Federal do Ceará, 1997.</p>
      <p id="paragraph-e046be1ec90c48915dbfeee93c91dd82">ARAUJO, Leandro Silveira de. Convergências e divergências do processo de gramatização nas línguas portuguesa e espanhola. <italic id="italic-5">Revista de Estudos da Linguagem</italic>, [<italic id="italic-6">S. l.</italic>], v. 30, n. 1, p. 209-238, 2024b. DOI 10.17851/2237-2083.30.1.209-238. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/relin/article/view/54595. Acesso em: 13 jan. 2026.</p>
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      <p id="paragraph-65">NEWMEYER, Frederick J. Archival resources for the study of the historiography of American linguistics. <italic id="italic-89">History of Linguistics 2021</italic>: Selected papers from the 15th International Conference on the History of the Language Sciences (ICHoLS 15), Milan, 28 August – 1 September, edited by Savina Raynaud, Maria Paola Tenchini and Enrica Galazzi, John Benjamins Publishing Company, 2024, p. 211-219. DOI 10.1075/sihols.133.14new. Disponível em: https://benjamins.com/catalog/sihols.133.14new. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-66">NORA, Pierre. Between Memory and History: Les Lieux de Mémoire. <italic id="italic-90">Representations</italic>, n. 26, p. 7-24, 1989. DOI 10.2307/2928520. Disponível em: https://online.ucpress.edu/representations/article-abstract/doi/10.2307/2928520/82272/Between-Memory-and-History-Les-Lieux-de-Memoire. Acesso em: 30 de dez. 2025.</p>
      <p id="paragraph-67">NORA, Pierre. Les lieux de mémoire, ou Comment ils m’ont échappé. <italic id="italic-91">In</italic>: NORA, Pierre. <italic id="italic-92">Présent, nation, mémoire</italic>. Paris: Gallimard, 2011. p. 400-404.</p>
      <p id="paragraph-68">OLICK, Jeffrey K. The Future of the Mnemonic Turn. <italic id="italic-93">Social Research</italic>: An International Quarterly, Johns Hopkins University Press, v. 90, n. 4, p. 781-807, 2023. DOI 10.1353/sor.2023.a916354. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/916354. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-69">OLIVEIRA, Karina G. S. <italic id="italic-94">História da fonética e da fonologia no Brasil (1949-2000)</italic>: aspectos do conhecimento em circulação em teses e dissertações. Orientadora: Olga Ferreira Coelho Sansone. 2022. 286 f. Tese (Doutorado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-01082022-144153/publico/2021_KarinaGoncalvesDeSouzaDeOliveira_VOrig.pdf. Acesso em: 26 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-70">OPEN LANGUAGE Archives Community. <italic id="italic-95">OLAC Archives</italic>. [<italic id="italic-96">S. l.</italic>], [<italic id="italic-97">S. d.</italic>]. Disponível em: http://www.language-archives.org/archives. Acesso em: 12 set. 2025.</p>
      <p id="paragraph-71">OSBORNE, Thomas. The ordinariness of the archive. <italic id="italic-98">History of the Human Sciences</italic>, v. 12, n. 2, p. 51-64, 1999. DOI 10.1177/09526959922120243. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/09526959922120243. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-72">PAYEN, Pascal. A constituição da história como ciência no século XIX e seus modelos antigos: fim de uma ilusão ou futuro de uma herança? <italic id="italic-99">História da Historiografia: </italic>International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 4, n. 6, p. 103-122, 2011. DOI 10.15848/hh.v0i6.250. Disponível em: https://historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/250. Acesso em: 11 jan. 2026. </p>
      <p id="paragraph-73">POLACHINI, Bruna. O engenho didático na gramática brasileira oitocentista. <italic id="italic-100">Estudos Linguísticos (São Paulo. 1978)</italic>, [<italic id="italic-101">S. l.</italic>], v. 52, n. 3, p. 819-838, 2023. DOI 10.21165/el.v52i3.3672. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/3672. Acesso em: 31 maio 2025.</p>
      <p id="paragraph-74">POLACHINI, Bruna. <italic id="italic-102">Uma história serial e conceitual da gramática brasileira oitocentista de língua portuguesa</italic>. Orientadora: Olga Coelho. 2018. 458 f. Tese (Doutorado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. DOI 10.11606/T.8.2018.tde-06072018-120101. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-06072018-120101/pt-br.php. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-75">PONCET, Olivier. Archives and history: Beyond the turns. <italic id="italic-103">Annales. Histoire, Sciences Sociales</italic>, [<italic id="italic-104">S. l.</italic>], v. 74, n. 3, p.711-743, 2019. DOI 10.1017/ahss.2020.50. Disponível em: shs.cairn.info/journal-annales-2019-3-page-711. Acesso em: 2 jan. 2026.</p>
      <p id="paragraph-76">RIBEIRO, Natássia Thais do Nascimento. <italic id="italic-105">Gramática tradicional e tradição sociodiscursiva em gramáticas escolares de língua portuguesa da década de 2000</italic>. Orientador: Francisco Eduardo Vieira. 2021. 158 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Programa de Pós-Graduação em Linguística, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/22666. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-77">SCHÄFER-PRIEß, Barbara. <italic id="italic-106">A Gramaticografia portuguesa de 1540 até 1822</italic>: condições da sua génese e critérios de categorização, no âmbito da tradição latina, espanhola e francesa. Tradução: Jaime Ferreira da Silva. Révisée et actualisée par l'auteur. Vila Real: Centro de Estudos em Letras, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2019. Disponível em: https://www.utad.pt/cel/wp-content/uploads/sites/7/2020/10/Lingui%CC%81stica_14.pdf. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-78">SILVA, Anderson Rany Cardoso da. <italic id="italic-107">Uma historiografia das ideias sobre o português brasileiro em gramáticas escolares brasileiras (1961-2000)</italic>. Orientador: Francisco Eduardo Vieira. 2025. 299 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Programa de Pós-Graduação em Linguística, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37476. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-79">SILVEIRA, Olmar Guterres da. <italic id="italic-108">A 'Grammatica' de Fernão d'Oliveyra</italic>, texto reproduzido da 1.ª edição (1536) e apreciação de Olmar Guterres da Silveira. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 1954.</p>
      <p id="paragraph-80">SU, Li. Tracing the archival turn: genealogies, dimensions and implications. <italic id="italic-109">Information Research</italic>:<italic id="italic-110"> </italic>An International Electronic Journal,<bold id="bold-1"> </bold>v. 30<italic id="italic-111"> </italic>(CoLIS), p. 52-64, 2025. DOI 10.47989/ir30CoLIS52276. Disponível em: https://publicera.kb.se/ir/article/view/52276. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-81">SWIGGERS, Pierre. A historiografia da linguística: objeto, objetivos, organização. <italic id="italic-112">Confluência</italic>: revista do Instituto de Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, n. 44-45, p. 39-59, 2013. Disponível em: https://revistaconfluencia.org.br/rc/article/view/602. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-82">SWIGGERS, Pierre. Gramaticografía e historiografía: una visión retro- y prospectiva. <italic id="italic-113">Anales de Lingüística</italic>, Mendonza, Argentina, n. 4, p. 139-154, 2020. Disponível em: https://revistas.uncu.edu.ar/ojs3/index.php/analeslinguistica/article/view/4393. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-83">SWIGGERS, Pierre. História, Historiografia da Linguística: status, modelos e classificações. <italic id="italic-114">Eutomia</italic>: revista de literatura e linguística, Recife, v. 1, n. 6, p. 1-17, dez. 2010. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/EUTOMIA/article/view/1702. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-84">THIETART, Raymond-Alain; FORGUES, Bernard. Complexity Science and Organization. <italic id="italic-115">In</italic>: ALLEN, Peter; MAGUIRE, Steve; MCKELVEY, Bill (ed.). <italic id="italic-116">The Sage Handbook of Complexity and Management</italic>. London: Sage Publications, 2011. p. 53-64.</p>
      <p id="paragraph-85">UNESCO<italic id="italic-117">. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial</italic>. Paris: Unesco, 17 de outubro de 2003.</p>
      <p id="paragraph-86">VERDELHO, Telmo. O patrimônio lexicográfico. <italic id="italic-118">In</italic>: VERDELHO, Telmo; SILVESTRE, João Paulo (org.). <italic id="italic-119">Dicionarística portuguesa</italic>: inventariação e estudo do patrimônio lexicográfico. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2007. p. 9-60.</p>
      <p id="paragraph-87">VIDAL NETO, José Bento Cardoso. <italic id="italic-120">A formação do pensamento linguístico brasileiro</italic>: entre a gramática e novas possibilidades de tratamento da língua (1900-1940). Orientadora: Olga Coelho. 2021. 547 f. Tese (Doutorado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. DOI 10.11606/T.8.2020.tde-12082021-203927. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-12082021-203927/pt-br.php. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-88">VIEIRA, Francisco Eduardo. <italic id="italic-121">A gramática tradicional</italic>: história crítica. São Paulo: Parábola Editorial, 2018.</p>
      <p id="paragraph-89">VIEIRA, Francisco Eduardo. Ferramentas analíticas para uma historiografia dos modelos sintáticos: rede taxonômica e glossário de metatermos da <italic id="italic-122">Grammatica da lingua Portugue∫a</italic> (1540), de João de Barros. <italic id="italic-123">Revista de Estudos da Linguagem</italic>, Belo Horizonte, v. 32, n. 3, p. 762-803, 2024. DOI 10.17851/2237-2083.32.3.762-803. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/relin/article/view/56565. Acesso em: 25 fev. 2026.</p>
      <p id="paragraph-90">VIOTTI, Evani. Mudança linguística. <italic id="italic-124">In</italic>: FIORIN, José Luiz (org.). <italic id="italic-125">Linguística?<bold id="bold-2"> </bold>Que é isso? </italic>São Paulo: Contexto, 2013. p. 137-179.</p>
      <p id="paragraph-91">ZAMORANO AGUILAR, Alfonso. Teorías del caos e historiografía de la lingüística. Una interpretación<italic id="italic-126">. </italic><italic id="italic-127">Beiträgezur Geschichte der Sprachwissenscraft</italic>, Münster, v. 22, p. 243-298, 2012.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-4af611fdc9d4b24b08c5e75d1c0a5c66">
      <title>Avaliação</title>
      <p id="paragraph-d1b922294c520ee67706e310b86632c7"><bold id="bold-16b6df8fe79d54d398b717750483b40f">DOI:</bold> https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N5.ID1001.R</p>
      <sec id="heading-ee9fb74bd93a11eddd691becbadbd6c0">
        <title>Decisão Editorial</title>
        <p id="paragraph-5edf4d47638bb8ac93d4a35ca7dacdef">EDITOR: Rolf Kemmler</p>
        <p id="paragraph-2">ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4389-6551</p>
        <p id="paragraph-3">AFILIAÇÃO: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal.</p>
        <p id="paragraph-2942b1e1373dcbe912389b0cc8c7b443">-</p>
        <p id="paragraph-e5f28fe6097fa68a4841c1c903efd0e6">CARTA DE DECISÃO: O artigo “Panoramas linguísticos do português brasileiro: a ‘descrição do português’ realizada na pós-graduação brasileira (2000-2024)” apresenta contribuição relevante para a área de Historiografia da Linguística ao propor um mapeamento sistemático da produção acadêmica voltada à descrição do português no Brasil, com base em dados do Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. </p>
        <p id="paragraph-cb03814b4a5a572649dabf424457b668">Ao organizar esse conjunto de pesquisas em macrogrupos e ao destacar, em especial, os estudos em perspectiva historicista, o trabalho oferece uma visão panorâmica consistente das tendências, prioridades e lacunas que caracterizam a produção recente na área. Tal levantamento amplia o conhecimento sobre a constituição dos estudos descritivos do português brasileiro no contexto da pós-graduação e abre perspectivas para investigações futuras.</p>
        <p id="paragraph-55e64e9cb88de4eb63399e37b1f4ca52">Além disso, o manuscrito articula adequadamente procedimentos metodológicos da Historiografia Linguística com a análise de dados, contribuindo para a consolidação de práticas de mapeamento no campo. As revisões realizadas pelos autores, em resposta às avaliações, fortaleceram a ancoragem teórica e o alcance interpretativo do estudo.</p>
        <p id="paragraph-6956a2200fe3689391a8dd58f5cc4c05">Diante disso, o trabalho justifica plenamente sua publicação, tanto pela relevância do objeto quanto pelo impacto potencial para o avanço das pesquisas em Historiografia da Linguística e áreas afins.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-2ac61bb44e1108ff376902b04fb02d70">
        <title>Rodadas de Avaliação</title>
        <p id="paragraph-a1d29a07b69326153b0a270468b63dab">AVALIADOR 1: Sónia Catarina Gomes Coelho</p>
        <p id="paragraph-7e8c0f56ebc45fd8c76018626aeaa132">ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8611-5209</p>
        <p id="paragraph-a021de11208c9d8496d662deafc5dc4d">AFILIAÇÃO: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal.</p>
        <p id="paragraph-0891aed0ef804a1c9347f71192e5f8e0">-</p>
        <p id="paragraph-34ef7a958de64f6f8d79df4099ea3fd0">AVALIADOR 2: Susana de Fátima Póvoa Alves Fontes</p>
        <p id="paragraph-615c218f9a81829dee1b08c45657a1a5">ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4414-9248</p>
        <p id="paragraph-f3a02e9ff5e8992379484ab5519e0b73">AFILIAÇÃO: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal.</p>
        <p id="paragraph-8775a6ba29c6dadb3de477c7edb8db98">
          <bold id="bold-476d9c2d36462b20ba9b93fb2b28a7c1">RODADA 1</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-c378147f797e08c2e88469ed04f1f513">AVALIADOR 1 </p>
        <p id="paragraph-372d7ac32a2560beb1d089e6d13bb88e">2026-04-30 11:30 AM</p>
        <p id="paragraph-3cca91f89eade49a2191c6ed2e1f244b">O manuscrito analisa como museus e coleções dedicados à língua no Brasil não apenas preservam materiais, mas também influenciam a forma como o conhecimento linguístico é produzido e interpretado. O estudo mostra de forma consistente, com base em exemplos concretos de seis iniciativas, que esses acervos desempenham um papel ativo na construção da história dos estudos sobre a linguagem.</p>
        <p id="paragraph-24eb05228a6f558626199c73fb9cc7b2">Em termos simples, o artigo demonstra que aquilo que é guardado, organizado e exibido nesses acervos molda a forma como entendemos a língua e a sua história (uma conclusão sustentada pelas análises apresentadas). </p>
        <p id="paragraph-dd8b07b2a3a6733472d8d1d2dfbc3754">O trabalho tem potencial impacto sobretudo na área de estudos da linguagem e da história do conhecimento, mas também interessa a profissionais de museus, arquivos e educação, além de leitores interessados em cultura e memória.</p>
        <p id="paragraph-fc47c73f3f37178cf095b89f0f03261d">Em síntese, o ensaio mostra, de forma convincente, que coleções e museus linguísticos não apenas preservam informação, mas influenciam ativamente o conhecimento sobre a língua. As conclusões são sustentadas por análises detalhadas de casos reais.</p>
        <p id="paragraph-865601502119d7cf9e4a57b83a413da9">O ensaio tem como objetivo examinar diferentes iniciativas brasileiras voltadas para a organização, preservação e divulgação de materiais relacionados com a língua, argumentando que esses acervos devem ser entendidos não apenas como depósitos de informação, mas como espaços que participam ativamente da produção de conhecimento. Para isso, os autores analisam seis projetos distintos, descrevendo a sua origem, funcionamento e formas de acesso e interpretando o seu papel no desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem.</p>
        <p id="paragraph-11c28c2d23f3af847185f962f73af91e">Um dos principais pontos fortes do trabalho é a combinação entre reflexão teórica e análise de casos concretos. O texto apresenta uma visão clara de que as escolhas feitas na organização dos acervos, como o que incluir, como classificar e como disponibilizar os materiais, influenciam diretamente a forma como a história da linguagem é compreendida. A diversidade das iniciativas analisadas também contribui para oferecer um panorama do cenário atual no Brasil.</p>
        <p id="paragraph-b755411f8697bf2bf9579038b175f752">Do ponto de vista dos resultados, o ensaio cumpre os objetivos ao demonstrar que esses acervos não são neutros, mas refletem contextos históricos, institucionais e sociais específicos. As conclusões estão apoiadas nas descrições e interpretações apresentadas, ainda que algumas seções sejam mais descritivas do que analíticas. Ainda assim, o conjunto do trabalho sustenta de maneira coerente a ideia central de que os acervos funcionam como elementos ativos na construção do conhecimento.</p>
        <p id="paragraph-7266c6afc93aab2d72f07f3138d646c4">O impacto do estudo é relevante tanto para especialistas em estudos da linguagem quanto para profissionais de áreas como museologia, arquivística e gestão de acervos. Além disso, o trabalho contribui para um debate mais amplo sobre memória, cultura e circulação do conhecimento, podendo interessar também a leitores de outras áreas das ciências humanas.</p>
        <p id="paragraph-4d43f79fb35798a9e3a5b6dbf7def999">De forma geral, o manuscrito oferece uma contribuição significativa ao destacar o papel estratégico dos acervos na produção e difusão do conhecimento linguístico, ao mesmo tempo que amplia a compreensão sobre como a história da linguagem é construída e transmitida.</p>
        <p id="paragraph-4c1aa3c9e691d95cfa779a6706e91e69">-</p>
        <p id="paragraph-fa79ab2fca4e6a427df46ec2491290d3">AVALIADOR 2</p>
        <p id="paragraph-179f85f8836aaa492075b0dd6e7fc379">2026-04-29 | 01:50 PM</p>
        <p id="paragraph-7720ddff377809bba2b7df67ef883870">O manuscrito apresenta uma análise relevante sobre o papel de museus e acervos linguísticos, mostrando que estes não apenas preservam conhecimento, mas também influenciam a forma como ele é construído e interpretado. O trabalho tem potencial impacto tanto na área da Historiografia Linguística como em campos mais amplos das ciências humanas, ao destacar o papel ativo das instituições culturais na produção de conhecimento.</p>
        <p id="paragraph-bb15242c62b98cf2d88c0ce4ba4d5088">As conclusões do artigo são coerentes e plausíveis, sendo sustentadas por uma combinação de enquadramento teórico consistente e análise de casos representativos. </p>
        <p id="paragraph-423c2b74ad2ef25457d4adbf6137f897">O manuscrito será especialmente útil para investigadores, estudantes e profissionais das áreas de linguística, história, museologia e estudos de arquivo, podendo também interessar a leitores não especialistas que desejem compreender como instituições culturais influenciam a memória e o conhecimento na sociedade.</p>
        <p id="paragraph-9c4bce99bb03da4564ccddbece4981c0">O artigo tem como objetivo analisar diferentes acervos linguísticos no Brasil, propondo que estes devem ser entendidos como construções dinâmicas do conhecimento, e não como simples repositórios de informação. Para sustentar essa proposta, os autores analisam seis iniciativas, descrevendo as formas de organização e procedimentos curatoriais. A partir dessa análise, defendem que os acervos desempenham um papel ativo na definição do que é preservado, valorizado e transmitido no campo dos estudos linguísticos.</p>
        <p id="paragraph-5ddea35e5a74e6907deeb2c7240f6350">Entre os principais pontos fortes do trabalho destaca-se o enquadramento teórico, que articula contributos da historiografia, da museologia e da linguística. A diversidade dos casos analisados permite oferecer uma visão ampla e representativa das práticas contemporâneas, evidenciando como diferentes modelos de acervo refletem contextos institucionais e escolhas específicas. Além disso, o texto contribui para ampliar o debate ao evidenciar que decisões aparentemente técnicas, como a catalogação e a organização, têm implicações mais amplas na produção de conhecimento.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-be7778a031b69c2562d42b51be5f3d88">
      <title>Resposta dos Autores</title>
      <p id="paragraph-bd508eb340f5c9470fae860887f2f340"><bold id="bold-a8efd5cb6516bfba6ec58a7c5ac23e56">DOI:</bold> https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N5.ID1001.A</p>
      <p id="paragraph-cab6f3fe6a888714fe596913dd022073">
        <bold id="bold-0e1badd8f871bab9f46c689e36fce463">RODADA 1</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-2a02db9e6409852e805adb4547ce3ea1">2026-05-10 | 09:58 PM</p>
      <p id="paragraph-af9faab0cee833af21bb1059a357739d">Prezados/as Editores/as e pareceristas,</p>
      <p id="paragraph-991f6132d9338dfd039e967361bc00c9">Inicialmente, nós, os/as autores/as, agradecemos a leitura crítica e minuciosa realizada por pareceristas e editores/as. Além de consistir em reconhecimento do nosso trabalho, suas contribuições, sem dúvida, ampliam nossa reflexão e acrescentam camadas e perspectivas à investigação do nosso objeto. Algo perfeitamente afinado ao modelo de conhecimento dinâmico e plural que, neste artigo, procuramos defender e praticar.</p>
      <p id="paragraph-6acdf60c8854c6965661e0f7a2303ac1">Nossa proposta de abordagem investe, já no título, na “experiência”. Diante de um panorama caracterizado pela diversidade (tipológica, midiática, conceitual etc.), optamos por manifestá-la, em vez de somente apontá-la. Procuramos, nesse sentido, fazer com que cada uma das iniciativas de curadoria e salvaguarda de itens linguísticos tratadas neste artigo trouxesse suas particularidades bem marcadas não apenas no conteúdo (na apresentação de suas estruturas, motivações, concepções e métodos), mas na própria expressão dele. Mais que narrar experiências, interessou-nos permitir que os leitores, em alguma medida, as flagrassem e as integrassem às suas próprias.</p>
      <p id="paragraph-4">Tal medida corrobora a concepção de acervo metalinguístico adotada por essas instituições e seus pesquisadores. Ainda mais no caso da língua (e da metalinguagem), esses não podem mais ser arquivos explorados sob o antigo conceito, que os entendia como repositórios estáticos, isolados, padronizados, institucionalizados a ponto de se cristalizar, afastando-se da vivência das comunidades. Após a virada arquivística e sob a perspectiva da Historiografia Linguística, o que se espera é justamente o contrário. </p>
      <p id="paragraph-5">Entendemos, assim, que deixar transparecer a expressão particular das iniciativas e a voz de seus pesquisadores ao longo das distintas seções do texto é parte de nosso posicionamento. Sem dúvida, reconhecemos que padronizações estruturais, em geral, são práticas favoráveis à organização do conhecimento. Contudo, por mais que sejam condizentes com as formatações epistemológicas predominantes, admiti-las como modelo único, ou central aqui, implicaria três potenciais conflitos frente a nossa posição teórico-metodológica: (a) o incurso em uma didatização reducionista que deforma conteúdos particulares em prol da manutenção de categorias (artificiais ou externas ao objeto, por definição); (b) o tolhimento do exercício interpretativo (desejavelmente flexível e personalíssimo) do leitor; e, sobretudo no nosso caso, (c) a perda da identidade dos/as autores/as e das próprias iniciativas apresentadas, justo quando a aposta na diversidade — clara e manifesta — era um dos pontos altos da publicação.</p>
      <p id="paragraph-6">É possível observar que seguimos critérios para a estruturação das seções. Todas abordam (a) contexto e surgimento da iniciativa; (b) objeto e proposta de acervo; (c) modelos de acesso; (d) implicações historiográficas; (e) potencialidades e desdobramentos; sempre de forma a permitir que identidades fossem preservadas e percebidas, sem fechar questões ou tabular conclusões. Até porque nossa proposta inicial era mobilizar também o leitor na construção de sua própria experiência através do texto e dos acervos que apresenta. Elaborar, por exemplo, quadros comparativos a título de conclusão nos levaria no sentido oposto. Embora se trate de um recurso de inquestionável valor em diversas outras composições, neste caso específico, imaginamos que seu emprego pode centralizar ou sobrepor a nossa interpretação às demais, justamente quando nosso interesse é promover a emergência e a validação de um espectro dinâmico de relações e perspectivas. </p>
      <p id="paragraph-7">A sugestão de acréscimo de um parágrafo explicando a estrutura do texto na “Introdução” não foi adotada devido à orientação da CadLin, que veta, nesta fase de edição, quaisquer alterações substanciais no texto. Caso os editores entendam como estritamente necessário fazer esse adendo, solicitamos que nos autorizem, indicando também, por gentileza, o prazo final para a remissão da versão adaptada.</p>
      <p id="paragraph-8">Quanto às correções apontadas para atender às normas de formatação e acessibilidade da Cadernos de Linguística, foram todas devidamente realizadas. </p>
      <p id="paragraph-9">Permanecemos à disposição para eventuais esclarecimentos adicionais que editores/as e pareceristas considerem pertinentes.</p>
      <p id="paragraph-10">Atenciosamente, </p>
      <p id="paragraph-11">Os/as autores/as</p>
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