<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Archiving and Interchange DTD v1.2 20190208//EN" "JATS-archivearticle1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:ali="http://www.niso.org/schemas/ali/1.0">
  <front>
    <article-meta>
      <article-categories>
        <subj-group>
          <subject content-type="Tipo de Contribuição">Ensaio Teórico</subject>
        </subj-group>
      </article-categories>
      <title-group>
        <article-title>
          <bold id="bold-1">SELF NEWS</bold>
        </article-title>
        <subtitle>A NOTÍCIA SOB MEDIDA PARA VOCÊ</subtitle>
      </title-group>
      <contrib-group content-type="author">
        <contrib id="person-3c3c60556173f8d573eb113c2d6e07bd" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>El-Jaick</surname>
            <given-names>Ana Paula</given-names>
          </name>
          <email>anapaulaeljaick@gmail.com</email>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-59e5a1663c487e892bc737b74328acd6" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <contrib-group content-type="editor">
        <contrib id="person-f6e93de22d5a621eea9c13c16a4230ff" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Bentes</surname>
            <given-names>Anna Christina</given-names>
          </name>
          <email>annafapesp@hotmail.com</email>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-cacaa336e1c0380ea054bce3cbeed908" />
        </contrib>
        <contrib id="person-bbf699a10b319dd73c8522b6a904fa4c" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Wanderley</surname>
            <given-names>Claudia</given-names>
          </name>
          <email>cmwanderley@gmail.com</email>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-cebc39cbb6f1834bd64f5407ca61b830" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <aff id="affiliation-59e5a1663c487e892bc737b74328acd6">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)</institution>
        <institution content-type="orgdiv1">Faculdade de Letras</institution>
      </aff>
      <aff id="affiliation-cacaa336e1c0380ea054bce3cbeed908">
        <institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)</institution>
      </aff>
      <aff id="affiliation-cebc39cbb6f1834bd64f5407ca61b830">
        <institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)</institution>
      </aff>
      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="23/02/2021" />
      <volume>1</volume>
      <issue>4</issue>
      <issue-title>Fake News e Linguagem</issue-title>
      <elocation-id>10.25189/2675-4916.2020.V1.N4.ID191</elocation-id>
      <history>
        <date date-type="accepted" iso-8601-date="16/12/2020" />
        <date date-type="received" iso-8601-date="04/02/2020" />
      </history>
      <permissions id="permission">
        <license>
          <ali:license_ref>http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/</ali:license_ref>
        </license>
      </permissions>
      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">Proponho neste texto o conceito <italic id="italic-1">self news</italic> para pensar o papel fulcral da linguagem no fenômeno contemporâneo das chamadas <italic id="italic-2">fake news</italic> – e seus efeitos em cascata – nas redes sociais. Com o objetivo mais geral de contribuir para a compreensão das condições de produção das ditas <italic id="italic-3">fake news</italic>, mobilizo o arsenal teórico da história das ideias linguísticas (também) para a investigação dos conceitos de “pós-verdade” e <italic id="italic-4">fake news</italic>. Como objetivos mais específicos, este trabalho busca: (i) uma pesquisa conceitual em que a ideia de <italic id="italic-5">fake news</italic> é relacionada à retórica clássica; (ii) uma compreensão dos mecanismos de funcionamento da linguagem na produção das <italic id="italic-6">fake news</italic>; (iii) uma análise que leva em conta os aparelhos de poder e seu uso para o controle e a disseminação de <italic id="italic-7">fake news</italic>. Entendendo que o campo da história das ideias linguísticas é, dentro dos estudos da linguagem, uma área cujas pesquisas já pressupõem um diálogo aberto e direto com outros ramos de saber, esse estudo já nasce transdisciplinar, pois é uma pesquisa linguística que coloca em jogo a história, a sociedade contemporânea e, também, problematiza questões da ciência da computação. Defendo a tese de que, na contemporaneidade, há um cinismo e um ultranarcisismo que ressignificam a lógica de discurso verdadeiro / falso – produzindo <italic id="italic-8">self news</italic> “sob medida” para os internautas.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-02f994ad19f88df58a61dcaca08d9c4a">In this text, I propose the concept of <italic id="italic-91317af868ecf4948e508378a3d4488e">self news</italic> to think about the central role of language in the contemporary phenomenon of so-called fake news - and its cascading effects - in social networks. With the more general objective of contributing to the understanding of the conditions of production of so-called fake news, I mobilize the theoretical arsenal of the history of linguistic ideas (also) to investigate the concepts of “post-truth” and fake news. As more specific objectives, this work seeks: (i) a conceptual research in which the idea of ​​fake news is related to classic rhetoric; (ii) an understanding of the mechanisms of language functioning in the production of fake news; (iii) an analysis that takes into account the power devices and their use for the control and dissemination of fake news. Understanding that the field of the history of linguistic ideas is, within language studies, an area whose research already presupposes an open and direct dialogue with other branches of knowledge, this study is already born transdisciplinary, as it is a linguistic research that puts at stake the history, contemporary society and also problematize issues of computer science. I defend the thesis that, in the contemporary world, there is a cynicism and an ultra-narcissism that resignify the logic of true / false discourse - producing “<italic id="italic-203821a60886e931d33a9d523909df24">self-made news</italic>” for internet users.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-8447c767f4ac3ca39483555b401104bf">Fake news</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">Linguagem</kwd>
        <kwd content-type="">Pós-verdade</kwd>
        <kwd content-type="">Ceticismo linguístico</kwd>
      </kwd-group>
    </article-meta>
  </front>
  <body id="body">
    <sec id="heading-ac5b9ebaf5848a2aebfab7263fa7a046">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-977e4cd37a0de0a6c4138008f9a2fc0a">As chamadas <italic id="italic-d5195e8072e9339911388f82230ffa10">fake news</italic> têm sido um fenômeno contemporâneo no mínimo interessante em vários aspectos. Para começar, há um paradoxo já posto desde a sua nomenclatura: uma “notícia” deve buscar a produção de um efeito de objetividade, como se fosse a referencialidade do fato, como se houvesse a neutralidade da descrição de um acontecimento, para uma prática de alguma ética do veículo que busca informar a sociedade sobre eventos que nos concernem diretamente. Diferentemente desses preceitos, as <italic id="italic-b9785f735b0424a7f6749291dacbaaef">notícias falsas</italic> criam fatos inexistentes – ou falseiam <italic id="italic-3a38c1d66b3900063ed817ad2fd8ebb7">detalhes</italic> de eventos –, narram ficções fantasiosas, inventam até mesmo o próprio veículo de pesquisa, a própria revista ou o jornal que teria veiculado uma história farsesca. Tudo isso parece nos levar a uma espécie de “ceticismo aporético”: suspendemos nosso julgamento sobre o que lemos como “informativo”, duvidamos de notícias que poderiam ser críveis, mas não <italic id="italic-c8d0328f7295db5f367a748982d4517e">reais</italic>, pensamos que nem tudo que é dito deve ser aceito como verdadeiro, mesmo que com suposto aval de meios de comunicação aparentemente fiáveis.</p>
      <p id="paragraph-ab71a58e139c7c7664982177317f7027"> Uma possibilidade aventada por alguns teóricos – entre eles Lee McIntyre (2018) – é a de que os próprios estudos da linguagem, mais especificamente concepções pós-estruturalistas do sentido, ao terem questionado o estatuto do <italic id="italic-19b4fa6ea30b437d60695547f261e0ac">significado</italic> linguístico tal como estabelecido por uma ideia estrutural de que este estaria colado a um significante, teriam acabado por abolir o significado (em uma leitura um tanto <italic id="italic-42378f65199af97f67c04d05529b0df1">radical</italic>), afirmando que tudo que temos é <italic id="italic-794a7b9a4c7c4da6b1d9c4e7bfe33d07">significante</italic>. O significado, então, não existiria mais do que um remetimento de significantes – que remeteriam a outros significantes, numa <italic id="italic-70193a0ff8a61edca766be813a44d870">semiose infinita</italic>. Não à toa alguns autores falavam (e falam) de uma espécie de <italic id="italic-9">ceticismo</italic> <italic id="italic-10">linguístico contemporâneo</italic> em diferentes discursos: Talbot Taylor (1992) fala em um <italic id="italic-11">ceticismo comunicacional</italic>, Martha Nussbaum (1985) pensa em uma <italic id="italic-12">sofística contemporânea</italic>, Martin Stone (2000) se refere a uma sempre iminente <italic id="italic-13">ameaça cética,</italic> e o crítico literário Michael Fischer (1989) vê a presença de um <italic id="italic-14">ceticismo literário</italic> atual.</p>
      <p id="paragraph-2b3f69c23a041e2cf3f7666ed6bd0065"> Então, a questão do <italic id="italic-15">ceticismo</italic> sobre a possibilidade de significarmos, de nos entendermos mutuamente, de nos comunicarmos com a linguagem humana passa a ser não só uma possibilidade real – como uma possibilidade de pesquisa a ser analisada. Consequentemente, outra questão comparece: (se há) um próprio <italic id="italic-16">limite</italic> da linguagem – os limites do nosso mútuo (des)entendimento. Daí esta pesquisa teórica-conceitual: como a dita pós-verdade e as chamadas <italic id="italic-17">fake news</italic> podem ser vistas como <italic id="italic-18">ideias linguísticas</italic> – e como podemos traçar, para uma história das ideias linguísticas, um caminho não teleológico desta concepção no campo dos estudos da linguagem.</p>
      <p id="paragraph-ae72fd0da54c7fc3473ce10ea5f56d67"> Uma hipótese aventada é a de que uma protoimagem à chamada “era da pós-verdade” pode ser avistada no método cético-pirrônico (ainda que isso não seja dito, ou não propositalmente “sabido”): conforme o cético pirrônico, ao se pesquisar um determinado fenômeno, o pesquisador encontra discursos conflituosos sobre o mesmo tema. O pesquisador, então, considera todos os discursos conflituosos e contrários como sendo de <italic id="italic-19">igual força</italic> (ou seja, para o pesquisador-cético-pirrônico, todos os discursos contrários são como se tivessem o mesmo poder argumentativo em relação ao objeto de pesquisa). Finalmente, uma vez que os discursos divergentes têm exatamente a mesma força, o pesquisador-cético-pirrônico se sente impossibilitado de dizer qual deles é aquele que devemos tomar como <italic id="italic-20">certo</italic> – afinal, o fato de serem equânimes torna indecidível qual é o (in)válido. Isso leva o cético a suspender seu juízo (seu julgamento) sobre <italic id="italic-21">a verdade</italic> de determinado objeto.<xref id="xref-973f72918f61e8f4588e6c16a947cf2b" ref-type="fn" rid="footnote-f0ecd757fd7fc925aa874771fae4684f">1</xref></p>
      <p id="paragraph-5"> Combinada à metodologia cética pirrônica, também se pode flagrar o pensamento sofístico como certa protoimagem à chamada “era da pós-verdade”, mais exatamente o que há sobre a linguagem nos fragmentos que chegaram a nós do sofista Górgias. É fato que se vem operando uma espécie de <italic id="italic-22">renascimento</italic> do ideário sofístico recentemente, como se aqueles pensadores fossem pós-modernos <italic id="italic-23">avant la lettre</italic>. Barbara Cassin é uma das responsáveis por essa grande revisão, principalmente no que tange à concepção sofística de significado linguístico. Ela chama de <italic id="italic-24">poder demiúrgico</italic> da linguagem (2005[1995]) o que Górgias, em seu <italic id="italic-25">Elogio de Helena</italic>, afirmava sobre o discurso:</p>
      <p id="paragraph-6" />
      <p id="paragraph-7">o discurso [<italic id="italic-26">lógos</italic>] é um grande soberano que, por meio do menor e do mais inaparente dos corpos, realiza os atos mais divinos, pois ele tem o poder de dar fim ao medo, afastar a dor, produzir alegria, aumentar a piedade. (GÓRGIAS, <italic id="italic-27">Elogio de Helena</italic>).<xref id="xref-1cc53339b57d3adb60e0782903bacb9f" ref-type="fn" rid="footnote-d85de2e3767c240689ba88a05aa99fd9">2</xref></p>
      <p id="paragraph-8" />
      <p id="paragraph-9">O discurso, esse fenômeno incorpóreo, tem o poder supremo da criação de emoções, sentimentos, sensações, percepções. Enfim, a sofística gorgiana coloca em questão o paradigma referencial da linguagem segundo o qual o significado linguístico estaria atrelado ao real; para Górgias, contrariamente, o <italic id="italic-28">logos</italic> não diz o real:</p>
      <p id="paragraph-10" />
      <p id="paragraph-11">Assim como o visível não pode tornar-se audível, ou o contrário, assim também o ser que subsiste exteriormente a nós não poderia tornar-se nosso discurso. Não são pois os seres que nós revelamos àqueles que nos cercam; nós só lhes revelamos um discurso que é diferente das substâncias. Se é assim, o discurso não manifesta o objeto exterior; pelo contrário, é o objeto exterior que as manifesta no discurso (Fragmento B. III)</p>
      <p id="paragraph-12" />
      <p id="paragraph-13"> Como o real e o discurso são de naturezas diversas – assim como a imagem não é sonora, nem o som é visível –, não podem ser intercambiáveis. Por isso, de acordo com Górgias, quando usamos o discurso não estamos denotando o mundo, não estamos nos referindo à sua materialidade. Pelo contrário: estamos apenas nos valendo de um discurso que não é a substância mesma do real. Conclusão disso é que o mundo não é consubstanciado em discurso – o discurso não remete a nada além dele próprio.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-2e0e510ad6c282c174ec3eb6adf08c0d">
      <title>1. Self News</title>
      <p id="paragraph-a68c942dc19e40e98851c325154921c1">Na seção anterior, foi proposta uma aproximação entre o pensamento cético pirrônico e aquele de Górgias à contemporânea “era da pós-verdade” como uma contribuição (ainda que tímida) para uma história das ideias linguísticas não teleológica. Cabe agora a pergunta do que essa dita “era da pós-verdade” se diferenciaria do ceticismo e do relativismo sofístico antigo.</p>
      <p id="paragraph-12d9b0112b448fd458ac3a10fe344870"> Em outro momento, mais exatamente no artigo “Pós verdade, ficção, <italic id="italic-08795216fb1ec8b4ab2834c8a7d1e03d">fake news</italic>” (2019) defendi três pontos de diferenciação entre um e outro: a internet e suas redes sociais, como WhatsApp e Facebook, que fazem com que a informação se propague a uma rapidez jamais vista; a mídia, que, apesar da concorrência com o “discurso de não-autoridade” permitido pela internet, ainda conserva seu poder (e, no caso das chamadas <italic id="italic-8c552cbd72d564e76409c207c1516496">fake news</italic>, contribuiu para <italic id="italic-e9c3ac8da6317ec173bf60dbf521407b">banalizar o engodo</italic> quando transformou o <italic id="italic-676d195110173001e8f51b665cee2b39">fake</italic> em notícia); o lucro (imenso) das grandes corporações – exemplo disso é como a indústria tabagista, mesmo sabendo dos efeitos perversos de seu produto, fabricavam notícias falaciosas para não apenas continuar com seus lucros como para deixar de pagar indenizações milionárias a seus usuários (Cf. McIntyre, 2018). Se naquele artigo desenvolvi esses três pontos assinalados, neste pretendo aprofundar a proposta do conceito de <italic id="italic-fa7d38f54be58713747d45d789ff8155">self news</italic>,<italic id="italic-f833d345ac645c75a1464737de1ed77a"> </italic>entendendo que, mais do que criar ficções, as <italic id="italic-e6f3105143ddd31d6f2f75ad6c15ae47">fake news</italic> são invenções disseminadas para um público-alvo específico, determinado – ou seja: sabe-se de antemão qual ficção serve melhor a quem.</p>
      <p id="paragraph-14e9182a0de2b32e55520612f7c5dcd8"> Sempre soubemos que nosso uso da internet <italic id="italic-73918d250dd7a1281494a800fdebb739">não</italic> era puro, inocente, desinteressado – mas cada vez mais, e principalmente depois dos escândalos da venda de dados do Facebook para a Cambridge Analytica,<xref id="xref-d6ea03307f81df4b6abd9e6768a5cf21" ref-type="fn" rid="footnote-bdf4d67d5c8572aa4572225b54adb141">3</xref> fica-se consciente de que “surfar pela internet” é uma <italic id="italic-d89e14332441a32f8ebac1acb839792a">recreação</italic> em que se acha aquilo que já se sabe, descobre-se aquilo que, desde o início, se quer ouvir/ver/ler. Então, quero chamar de <italic id="italic-623a3b93f97ad701e04f44e041402e51">self news</italic> a este fenômeno linguístico contemporâneo: ficções criadas para um público específico, contações de história tecidas para captar ouvidos propensos a escutar aquela ficcionalização feita sob medida. Buscando o que opera a ressignificação desse debate atualmente, analisarei dois elementos que, creio, operam nas <italic id="italic-a4a5b7b454fc7cf4c84335534c217efb">self news</italic>: o <italic id="italic-c77328f7428a2206d329aae4621fa851">cinismo</italic> e um <italic id="italic-e36b10787ccba8cd36b6e0a66bf71342">ultranarcisismo</italic>.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-30fd80019ce40de61331933c4f75659e">
      <title>1.1. Cinismo</title>
      <p id="paragraph-870a2c09ec4cd4c63acce713b122704b">Segundo definição do dicionário Aulete Digital, o cinismo se configura numa facilidade extrema de <italic id="italic-c06ac6d9a8e1cbd87fa3f052c0d900e9">contar mentiras</italic> sabendo que não haverá consequências maiores em ser pego (se, por acaso, o for). Como forma de buscar justificar a afirmativa de que o cinismo é um componente da <italic id="italic-0b4e5ad7121b7c58bb463ac488ed3895">self news</italic>, lembro uma <italic id="italic-2e6d54b335efdac09c11b52e0571d843">fake news</italic> que viralizou nas redes sociais nas eleições de 2018 no Brasil: Manuela D’Ávila, então candidata à vice-presidência da república, teria ostentado uma camiseta em que se lia “Jesus é travesti”. Mesmo depois de desmascarada a manipulação da imagem, não houve qualquer punição de seu autor – e seu beneficiário, o adversário de Manuela, usufruiu das vantagens que essa <italic id="italic-45ee848e6e09dbc4aa1105c615dca0da">ficção fake</italic> lhe fez gozar. Isso quer dizer que cidadãos foram enganados – e o enganador saiu impune. Foi confirmada uma falcatrua, mas isso não causou nenhum dano a quem agiu desonestamente. Mais grave: houve quem compartilhasse a opinião de que nenhum mal foi feito, desfazendo a gravidade do perigo de se conviver com total falta de ética.</p>
      <p id="paragraph-d6245bc47e9efae0946eeb13587ce2e2"> Ainda, na foto <italic id="italic-fb5d10f14c6b499cee8f841954e1218c">original</italic> de Manuela D’Ávila – aquela a partir da qual <italic id="italic-4c53be1b6651e6f1d011d5eb227f80b8">ficcionalizou-se</italic> uma história farsesca –, a então candidata ostentava um “Rebele-se” em sua camiseta. Vemos, então, como a ficção encena aqui um assunto tabu (Cf. FOUCAULT 2011[1970]) – a <italic id="italic-0f6dfc9126e7e0dd3680319a41a6626c">fake news</italic> invoca o discurso religioso (a própria figura de Jesus Cristo) na fantasiosa camiseta de uma política filiada ao Partido Comunista do Brasil. Em 1970, M. Foucault já detectava que os discursos da sexualidade e da política eram os mais cerceados – pelo próprio poder discursivo. E eis que a história se repete: no jogo político, às vésperas de uma eleição presidencial, política e sexualidade se imiscuem em um tabu religioso. </p>
      <p id="paragraph-6cb4200cc043bd3e6b3e99335bc65d5e"> De fato, a narrativa fictícia da camiseta mobiliza discursos <italic id="italic-e12c8afd89b92ba5f0b70f65ffcf2d45">já-ditos</italic>: o imaginário de que comunistas são ateus, pessoas que não creem em Jesus Cristo. Dessa forma, são infiéis que desprezam figuras religiosas e podem, então, <italic id="italic-6464d9336f9cbe8393c6dfe76f44843e">blasfemar</italic> à vontade. A memória construída sobre a posição sujeito <italic id="italic-d29597f0ee312f92af8a59db72e9e201">comunista </italic>abarca o ideário de que este seria alguém capaz dos atos os mais ultrajantes contra fiéis de todas as religiões, uma vez que a religião (qualquer uma) seria o ópio do povo.</p>
      <p id="paragraph-ec32465e36c3334a5d5fbc7428aab9c4">Ao se focar no discurso que foi apagado, o <italic id="italic-1b46af9988824e999418bb5132a57836">factual</italic> “rebele-se!”, também se evocam memórias discursivas; afinal, Manuela D’Ávila ocupa a posição sujeito de uma candidata política de esquerda, comunista, de ideais humanistas: alguém que incita a revolta, um insurgir-se contra o <italic id="italic-83d30da19bb6d68aa94779189df0bdaf">status quo</italic> – enfim, alguém que veste a camisa de um imperativo como que de um chamamento para que a população se revolte. Logo, apagar o “rebele-se!” da camiseta de Manuela D’Ávila pode ser interpretado como um apagamento desse imperativo de se levantar contra o opressor.</p>
      <p id="paragraph-ab0bc5c478b808cce7139de64e510710">O cinismo, então, também aparece no jogo de esconde-esconde de discursos já-ditos e efetivados sobre comunismo, religião. Afinal, esconde-se uma inscrição e veste-se outra, causando escândalo a uma moralidade, aos que pregam uma vida reta, virtuosa – esconde-esconde do cínico criminoso supostamente virtuoso. Para C. Dunker, essa articulação com o cinismo se dá no próprio nascimento da pós-verdade:</p>
      <p id="paragraph-a6e07c71ed6a6eb5a1b8779efb23d185" />
      <p id="paragraph-6af2a32f7762a4de7be8356fe775d9d8">O fato de que presidentes e agências de Estado pratiquem mentiras técnicas como essa [Dunker se refere ao fato de o governo norte-americano ter dito que o Iraque possuía armas químicas, o que justificou o ataque dos E.U.A. ao país do Oriente Médio], retóricas (como a ‘guerra cirúrgica’), jurídicas (como a corrupção dentro da lei), apenas replica a maquiagem de balanços (que estava por trás das bolhas imobiliárias de 2008) e o <bold id="bold-188cbf389fb687e998fd5be2ae4f1a62">cinismo</bold> como discurso básico do espaço público e da vida laboral. (DUNKER, 2017, p.17, grifo nosso).</p>
      <p id="paragraph-fe93186004ee4638122565b74468356f" />
      <p id="paragraph-353522d8253e9400f9daf1dc3d265796">O discurso institucionalizado legitima o cinismo – uma posição que veicula toda uma rede de enunciados, retóricas que ganham força de lei. Os enunciados são postos em circulação e se relacionam numa teia de efeitos de sentidos e jogos de azar em que se deixa os interlocutores, propositadamente, em estado de suspensão.</p>
      <p id="paragraph-44d78630e8b766b61bf0bcce847f8da7">Antes de passar para a questão do ultranarcisismo, é preciso voltar ao que foi dito no início desta seção e enfatizar que o cinismo anda de mãos dadas com a falta de ética: a <italic id="italic-169d813cb902f83931e3e189fc303b8b">self news </italic>é a fabricação<italic id="italic-d39e1140675301ef7ea77478e722bcba"> </italic>proposital de uma verdade para fins escusos, para adquirir vantagens e/ou lucros para quem a cria. Um efeito das <italic id="italic-679ab5341dc1f01f276f633d0cfb5b4a">self news</italic> é a quebra de <italic id="italic-711df52bffe7a93fa4a86803722b5305">confiança</italic> (principalmente) dos usuários de redes sociais no que se lê: a avalanche de <italic id="italic-a016572a10206f22077151d64fc6d8fc">fake news</italic> misturadas a receitas de bolo e vídeos de gatinhos, <italic id="italic-21cf35367a0c7e8505747cf27bc0d02e">fakes</italic> passadas adiantes a outras notícias, construindo um diálogo que não se complementa, coloca desancorada a segurança do que se ouve/vê/lê, já que se é levado a questionar a todo tempo o mínimo de “referencialidade objetiva” a que uma notícia jornalística deveria responder. Esse desnorteamento fabricado não é ingênuo – e atinge inclusive a dita “imprensa profissional”.</p>
      <p id="paragraph-092b601df85672a1a14c083f7838907d">Conforme o jornalista, escrito e professor Eugênio Bucci (2019, p.37) escreve: “Se há algo que realmente preocupa na cena política de nossos dias, em que a política se afasta ainda mais da verdade factual, é o bordão de políticos autoritários ao acusar a imprensa de espalhar <italic id="italic-292415439876d2c336ba0bbe939f0583">fake news</italic>.” Colocar em xeque a confiança nas notícias beneficia a propagação de enunciados descolados do factual – e, conforme temos vivenciado, na rede de relações enunciativas que vão sendo criadas, as instituições também vão sendo desacreditadas, o que ameaça o próprio funcionamento democrático. Assim, se fui aos gregos para mostrar como a referencialidade não é evidente ao discurso, também procuro defender aqui a ideia de que <italic id="italic-b14af9b6dd93f4ba93453fd55d194eec">burlar</italic> a referencialidade para tirar vantagens próprias é um efeito cínico das <italic id="italic-c96663ad84c6d5b9401b2e7c8e65d14d">self news</italic>. </p>
      <p id="paragraph-cc3a5c99f690812ab7cd86405ab475e1">Outro dado importante em relação ao cinismo das <italic id="italic-98c22da0ab47aed08019d04041333f70">self news</italic> é o de que a notícia falsa procura emular o discurso jornalístico e o discurso científico. Nesse jogo da imitação – em que terraplanistas justificam seus dados com base em Popper, cálculos <italic id="italic-128a5d1b831c8cb8988e9caf16998785">precisos</italic> e até a teoria da relatividade –, o cínico contemporâneo se faz passar por cientista sem dizê-lo (e às vezes até ridicularizando a ciência).</p>
      <p id="paragraph-106300774e0ad5a49e583f70edd5d438"> Além disso, o cinismo também se mostra quando se pressupõe saber o que seja o “povo”, aquele que vai <italic id="italic-f9f890e5dae66a570b4ce9e46426d5cd">cair</italic> nas <italic id="italic-a66f15443d3ea8b7f11c7bc47591e565">self news</italic>. O discurso cínico seria pressupor que os dados algorítmicos – muitos deles a que se teve acesso, como foi dito, por compra ilícita<xref id="xref-5f74c8686b70ed9126b85a932699b009" ref-type="fn" rid="footnote-919a35562d31d2e4ef552eda39588ec9">4</xref> – definem quais são as esperanças, as crenças e os temores de determinado “povo”. Diagnosticados estes sentimentos, então se podem fabricar espelhos.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-603b80b03aaa5c6a60b27b1b79364e55">
      <title>1.2. Ultranarcisismo</title>
      <p id="paragraph-b27fed6032bec64c7088988d3068a2c4">Se na seção anterior analisei o cinismo como um dos elementos a agir na ressignificação do debate discursivo atual, agora é a vez de defender haver uma espécie de <italic id="italic-3499d3d64fa67725b11a2ecbdf61d21f">ultranarcisismo contemporâneo</italic> a funcionar nas <italic id="italic-45630c1476a6f47d9a7498b98b42e5a5">self news</italic>. O narcisismo, é claro, não nasceu com a <italic id="italic-210c92f3ca41ed251137eadeda710761">fake news</italic>, nem com a internet – a própria etimologia da palavra, como se sabe, remonta ao mito grego de Narciso. Mas novamente cabe perguntar o que as <italic id="italic-865cf376a1214bfcecc3778f09dae01e">selfies</italic> e outras manifestações de se autoadmirar na contemporaneidade se diferenciariam do Narciso que se jogou no rio (em uma das versões do mito).</p>
      <p id="paragraph-68ecf953be2bd96096ed140aac49ffe7"> Uma hipótese é a de que as novas tecnologias permitiriam que se chegasse a uma espécie de ultranarcisismo tanto da própria imagem quanto do próprio <italic id="italic-82a841730119af7fdf58153485fd6175">discurso</italic>. Parece que no que tange à imagem isso virou quase que uma <italic id="italic-0762ebd27375dee95ce7d19165b3824b">evidência</italic> – provavelmente por conta das incontáveis <italic id="italic-dcba7fd8a2f322193da4210dffea060d">selfies</italic> que proliferam nas redes sociais. De fato, de acordo com o prof. Odilon José Roble, “a hipertrofia da posição narcísica no contemporâneo tende a um princípio de prazer (imagético) sem princípio de realidade (corpóreo)”.<xref id="xref-14d9628b61a26ada9f53c5d244371d6b" ref-type="fn" rid="footnote-747a59180fc7831c31370f75bebc4978">5</xref> O prazer, então, está na (própria) imagem, sendo que esta é uma construção virtual incorpórea. Com esse corpo incorpóreo, o sujeito experimenta uma obsessão contemporânea narcísica por reforços positivos. Segundo Roble, <italic id="italic-d3cd60fa39b5877ebf1ff4ad939fb8a7">likes</italic> não bastam mais: é preciso que se comentem as fotos, retuitem os <italic id="italic-e896463f231b7ea30c722cf27410ed0c">discursos</italic>. Essa ideia interessa a este trabalho na medida em que reforça a tese de que as redes sociais propiciaram certo ultranarcisismo <italic id="italic-4202b930fc460b097ee01dae9b985e86">discursivo</italic>. Narciso gosta do que vê no espelho – mas, também, do que sua própria voz ecoa. Narciso se apaixona por Eco porque precisa ouvir Eco ecoar sua voz. O discurso narcísico, então, é para ser curtido, comentado, retuitado – amplificadamente ecoado. A construção de um <italic id="italic-4073f570f61d7b683f94e076f8bef897">self</italic>, então, é tanto o espelhamento de um discurso como, também, o espalhamento de um eco discursivo que ecoa pelas redes sociais.</p>
      <p id="paragraph-3bead385b9dc9c52ec7c4f7800e21881">Esse eco, esse espelhamento ecoa e espelha o mesmo: como no <italic id="italic-39fb3c30d3d215cdc77167b623038397">Inferno</italic>, de Dante, o inferno é o outro, que sou eu mesmo – afinal, se meu pecado é a gula, estarei no círculo dos gulosos (como eu); se meu pecado é a luxúria, meu inferno será estar com os luxuriosos (como eu).<xref id="xref-f02adee03e5434b989c2de66a6a53c73" ref-type="fn" rid="footnote-0c14aed8f2fbebc4b67fa8731b404a3a">6</xref> Entretanto, se para Dante o inferno era conviver com seus iguais – ou seja: o inferno seria não haver diversidade –, contemporaneamente o <italic id="italic-c66b236411281cce9fec0663100a0517">inferno</italic> se transformou em uma paradisíaca <italic id="italic-51904e109fcb4d35f7962802258fe122">bolha</italic>: confiável, segura, necessária. O jogo de espelhos e a música em uníssono têm repercutido aquilo que McLuhan vem chamando de um <italic id="italic-c1d78510b758df8cdeb6cb0c848fc8bc">contexto de guerrilha informacional</italic>,<xref id="xref-55b8c2ecf036766bf80d21328790be4e" ref-type="fn" rid="footnote-cca9e5276c4fb82a8f94f23583827cec">7</xref> em que grupos (em geral, só dois, polarizados que estamos) se entrincheiram por detrás de um sistema binário zero, um.</p>
      <p id="paragraph-232a1082d8134fd575ac67b782e5270d">Os estilhaços desse conflito se espalham no próprio aumento da oposição agressiva: os antagonismos alcançam tal grau de incomunicabilidade que se torna impossível, agora, enxergar, ouvir o outro diferente de nós. O nível de indignação com aquele que partilha de outras ideias e opiniões encerra a bolha em um sistema hermeticamente fechado: se estamos em uma bolha, o outro está em outra – em um indizível e incompreensível longe. Dados o aprisionamento, a incomunicabilidade, a incompreensão, os habitantes das duas bolhas estão impossibilitados de debater publicamente – convivem com a inexistência de ponderação, posto que habitam bolhas impermeáveis e longínquas uma da outra. Consequência disso é que não se consegue discutir opiniões que não sejam as de um <italic id="italic-000857420a54e7120305bc88c908538c">self</italic> construído à base de discursos extremistas. Assim (infernal ou paradisiacamente), dentro da bolha só há repetição, em uma <italic id="italic-4dec28fd3aeb54ffa65af889c0c745cd">egotrip</italic> cega e surda para o outro. Conforme afirma Melati ao analisar a ideia de Meyer de que as relações humanas derivam de um jogo entre identidade e diferença: “Se construímos a nossa identidade também nas redes sociais, então é nesse ambiente que fazemos uso dos discursos nos aproximando e nos afastando de textos que expressam opinião” (MELATI, 2019, p.174). Nossa identidade nas redes sociais, então, é construída a partir dos <italic id="italic-2607f5d20a5669ae9b5ca836696fc9f5">posts</italic> compartilhados, dos <italic id="italic-9c8b9619d07edeacfea40f3ecd6de289">likes</italic> dados, dos comentários retuitados – que espelham o idêntico a nós.</p>
      <p id="paragraph-60b61cba5504484e4c08fa5372aa0e52"> Esse ecoar de identidades reverbera a maestria dos contemporâneos<italic id="italic-4bada6bd45e37d56c1abe528352480a0"> mestres da comunicação</italic>: eles descobriram algo mais eficaz do que<italic id="italic-9f26b999ec2609896e635b346186eeb8"> </italic>o <italic id="italic-5804598d6e8151ec69f1bc1673d6516f">meramente</italic> <italic id="italic-18e230c7454fed72fd6ae533e5227ab1">fake</italic>, pois divisaram como criar narrativas que cabem como uma luva nas mãos de um leitor específico, encontraram uma maneira de prever a <italic id="italic-f3995a40aa5150bf334070df64b6b032">notícia fictícia-narcísica</italic> com a qual certo leitor se identificará. Se na lógica do mercado não é novidade que a informação tenha se transformado em um produto vendável – em outras palavras, em <italic id="italic-b1b4ec733db18a10a3c2fd30d46bf7e1">mercadoria</italic> –, os contemporâneos mestres da comunicação resolveram, então e de fato, <italic id="italic-4c2e2003b7c3fe5ca63ad226c506de5b">produzir</italic> informação. Dessa forma, as <italic id="italic-9aae2099a224bbe69221b1bb4848184a">self news</italic> são notícias feitas sob medida para um comprador – um produto a ser consumido, uma informação rápida, fácil de se entender e, sobretudo, divertida. Nesses moldes, a notícia ganha repercussão imediata – dentro da bolha.</p>
      <p id="paragraph-bd397ff1812277bf89a226f7ed967f2c">E, como em um regresso ao infinito, o reconhecer-se no discurso circundante potencializa o narcisismo geral. Esse <italic id="italic-607eb4d85384bda21888171e919295b8">espelhamento discursivo</italic> propicia não só a propagação da falácia como, também, a força da falácia, contribuindo para uma espécie de <italic id="italic-fab2f79f1899a9c4e7701db1ab19c99f">vale tudo</italic>: definitivamente, as fronteiras entre ficção e não ficção são borradas quando a <italic id="italic-ffb864edcfe76c2c27037c3788524410">ficção</italic> é lida e entendida como <italic id="italic-95d1de6062c236bad41db332df8da6d9">não ficção</italic>. Assim, o <italic id="italic-424242cbc1c88618a2083225ad9eedfa">flâneur</italic> da internet é feito, propositadamente, um <italic id="italic-ec8bc8cca86b901f51af820fea9ce49a">errante</italic> por entre informações (antes) irreais.</p>
      <p id="paragraph-6924d407765f17fae3581f2fe070d3e9">No discurso em análise, por mais inverossímil que fosse uma candidata à vice-presidência aparecer em público às vésperas das eleições com uma camiseta antirreligiosa, tal implausibilidade não foi percebida pelos egos que queriam ver sua própria <italic id="italic-8697e9f60e96a6f7409bcca5bad3c578">imagem discursiva</italic> no espelho. Essa inverossimilhança reforça a tese do prof. Paulo Segundo, para quem as <italic id="italic-1521572906b26b6ecd6114383f9b14f9">fake news</italic> podem ser definidas pela tensão entre absurdo / evidente.<xref id="xref-7b4070f2956f936cbec4484393941ea2" ref-type="fn" rid="footnote-645ca7c4ce9f063d039817580b642123">8</xref> Na <italic id="italic-2bf6b8b865472528411ae685448e84b1">self news</italic> em análise, é evidente que, para os ultranarcísicos, a camiseta da candidata comunista é real, enquanto para os correligionários de D’Ávila o absurdo diz por si. As <italic id="italic-9ea8b9c9ac95a49be0aa48231e7bd1a1">self news</italic>, então, não têm qualquer preocupação (ao contrário da literatura) com a verossimilhança: afinal, que péssimo romancista vislumbraria uma mamadeira erótica<xref id="xref-c777e902b03b3c7769c5010a5442cbdb" ref-type="fn" rid="footnote-e8020e5eefe3628c743e129624f37c30">9</xref> – ainda por cima usadas por estranhas crianças de <italic id="italic-3c0cbf81c302853744b4529987d2e39c">cinco</italic> anos que ainda não conseguiriam comer com talheres?</p>
      <p id="paragraph-8e283131b272fa0473eacb3d05f412f3"><italic id="italic-44d8ba1e4f3667a1a30872300c4ae283">Sobrecarga</italic> tem sido o termo psicanalítico escolhido para se falar do sujeito contemporâneo: sobrecarregados, estamos abertos a acreditar em absurdos. Exemplo disso é quando vemos uma notícia <italic id="italic-030fe11f4a214c3d384949c15d6d55b6">verdadeira</italic>, mas cujo conteúdo desconfiamos ser <italic id="italic-9d8ede7a21949878748e30d1288f6aab">falso</italic>. Pior: se desconfiássemos, por exemplo, da notícia de que algum artista popular estivesse internado e no dia seguinte não só a notícia se confirma como o artista vem a falecer, resultado disso é – como posso, agora, garantir que teorias da conspiração, que o homem não pisou mesmo na Lua etc., também venham a se mostrar posteriormente verdadeiras?</p>
      <p id="paragraph-bd39e176d2ec925e805736fbba04dd09">Os contemporâneos mestres da comunicação – alguns deles chamados de “engenheiros do caos” por G. da Empoli (2020) – se aperceberam do fato de que o <italic id="italic-5037bd20fbea5d8abc8b50f562db1bf7">enviesamento cognitivo</italic> de que se valem para vender roupas, carros, imóveis também é válido quando se trata de vender notícias: o sujeito compra aquela informação que <italic id="italic-039ec05195adfaa0eb81ab4a70f4dda8">discursiviza</italic> aquilo que ele já <italic id="italic-ded6f353197bf3c3e97d754a03e59629">conhece</italic>. Desse modo, não importa <italic id="italic-48d20642647ecafa36cc4ebe24e19b93">informar</italic> o leitor/o espectador – interessa reforçar suas <italic id="italic-10ff4d0c99bf80e3f92d755b923ade17">crenças</italic>. Neste sentido, a tecnologia tem um papel <italic id="italic-d6acbaca0b80daae392ea30a01612e57">religioso</italic>: compartilha-se o que se <italic id="italic-a3223fa029d1599b3d5768ce45048ef6">acredita</italic>, o que se <italic id="italic-8484126195566d7277c1e8a31a425408">crê</italic>. Mais: quer-se acreditar nas <italic id="italic-1aad65851c4eb0f659ceacfc91bd5fe3">self news</italic>.<xref id="xref-18c96d138c45f1b1425627677415c783" ref-type="fn" rid="footnote-dc5425b4d042b19fb8b413edb41194a5">10</xref></p>
      <p id="paragraph-18b4915593f49643f82a86c0d67b5b93">Ainda sobre a camiseta de Manuela D’Ávila, testemunha-se uma repetição narcísica do que se quer ver: quem não vota na candidata de esquerda quer confirmar sua memória discursiva do que seja um comunista – nesse imaginário, um ateu que brinca com a fé alheia. Este narciso não quer ver um espelho em que esteja escrito “rebele-se!”. Este narciso idolatra a ideia linguística de que a posição sujeito comunista tem de estar no campo do antiético. Para esse sujeito ultranarcísico, não importa que o autor da ficção é quem tenha cometido um ato antiético, já que a narrativa ficcional confirma o que o ser narcísico <italic id="italic-6771788540b8d758cc9254fe19209947">já sabe</italic>: o já-dito sobre o sujeito comunista. Entra-se, então, em um processo paranoico: acha-se que a vida só está a confirmar aquilo que já se sabe. Os algoritmos computacionais são como o seio da mãe: não param de alimentar o sujeito ultranarcísico com o que ele deseja.</p>
      <p id="paragraph-e25912c5cfbcc3ed53dcc911fa482b8f">Enfim, a tese defendida aqui é a de que, nesta era em que multilinguagens viajam de forma quase que instantânea pelas teias da internet, nesta (dita) <italic id="italic-22a8f0acc8271294aaa396daeac4e25c">era da informação</italic> em que nos informamos por plataformas regidas por algoritmos que nos dão aquilo que queremos ouvir/ver/ler nestes tempos ultranarcísicos, então notícias não apenas <italic id="italic-fb0245233aec453b18434599d0eb1318">falsas</italic>, mas que espelham esse ultranarcisismo parecem <italic id="italic-be0fb4f88cc97c239618e4c2837f9b55">ficções mais verdadeiras</italic> do que <italic id="italic-c97e995c7495e897b81056b2d2e9f103">histórias reais</italic> – sobretudo quando viralizam nas redes sociais.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-8287055cfc6d1e6a4ca25d95ba111615">
      <title>2. Dizem que é conclusão, mas...</title>
      <p id="heading-1d0c6692faff8766ec7536204e1ea5c6">Propus neste artigo o conceito de <italic id="italic-a63ce68b136890f792e52edbead449f9">self news</italic> a partir do que já vem sendo discursivizado sobre as chamadas <italic id="italic-b1b6d5ded9e1a05e479f777a8b9eeb65">fake news</italic> e a era da pós-verdade. Para além do trabalho conceitual, este artigo se justifica na medida em que estamos vivenciando as consequências nocivas de notícias falsas veiculadas nas redes sociais nas últimas eleições brasileiras. Assim, este escrito também quer ser um manifesto pela não banalização do engodo das <italic id="italic-6ef56af27a06549cfb7f3e69d2fe1003">fake news</italic>, posto que a transformação que operam com falsidades travestidas de rumores ingênuos fizeram candidatos vencer eleições – inclusive no país mais abastado de nossos tempos, os Estados Unidos da América.<xref id="xref-706d44d6015685f930f46ee64c57c535" ref-type="fn" rid="footnote-f2087cdcfb2e5522b5712b195bf36f44">11</xref></p>
      <p id="paragraph-2"> Na tentativa de propor uma conclusão mais <italic id="italic-cf3df980671b17459e51a180f251c44d">utópica</italic> e menos <italic id="italic-9c2ddc85691cb01ad45ed0a621146e94">distópica</italic>, acredito que modificações no poder judiciário, que no mínimo condenem caluniadores, difamadores e disseminadores de <italic id="italic-19bca73782b5ba1da20f968c20fb557a">self news</italic>, possam fazer recuar o fascismo atual. É fato que a regulamentação das redes é assunto premente – exemplo disso é que, nas eleições passadas, a lei eleitoral não previa qualquer criminalização que envolvesse o <italic id="italic-080468352a6f6d3839d6def117e0f114">WhatsApp</italic>.</p>
      <p id="paragraph-3"> Outra proposta mais utópica e menos distópica segue a fala da linguista Margarida Salomão em sua defesa política pela radicalização da democracia.<xref id="xref-c909403444813229fa358403ff5e69fe" ref-type="fn" rid="footnote-770011766bd1e0b6cc5dde5507863e56">12</xref> De acordo com ela, a internet poderia e deveria ser usada, por exemplo, para se consultar os membros dos partidos políticos; assim, decisões importantes não ficariam somente nas mãos de alguns, mas todos os partidários teriam uma efetiva participação no jogo político nacional.</p>
      <p id="paragraph-4"> Se comecei este texto com os céticos pirrônicos, termino me voltando a eles. A narrativa pirrônica diz que, ao se suspender o juízo sobre determinado objeto de análise, logo se experimenta a <italic id="italic-9d335f222f217dc17b290f12b6604898">ataraxia</italic>, quer dizer, a imperturbabilidade da alma – afinal, acabaria a perturbação para se saber qual discurso é o verdadeiro. As últimas eleições de nosso país, em que um fascista foi eleito com discursos falsos, parecem ter mostrado que é muito difícil experienciar a imperturbabilidade da alma em tempos sombrios. Ao mesmo tempo, como os pirrônicos, termino este escrito de forma aporética, reconhecendo o paradoxo – narcísico: este meu texto só será ouvido/visto/lido por quem nele se espelhe (em mim).</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-f0ecd757fd7fc925aa874771fae4684f">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-06f6f820d598643591d92fdf66ddfbdc">Se é verdade que não temos uma “escola cética” (o que seria uma contradição nos termos), pode-se dizer que há, conforme defende Danilo Marcondes (1997), uma “tradição cética” que teria começado com Pirro de Élis (360-270 a.C.). Este, contudo, não nos legou qualquer escrito. Assim, praticamente tudo o que sabemos sobre o ceticismo pirrônico nos é dado a conhecer pelos textos do filósofo e médico Sexto Empírico (c. séc. III), que sobreviveram até nós. Aqui é digno de nota que, contrariamente ao ceticismo moderno, que afirma a impossibilidade de se chegar a uma verdade, o cético pirrônico não afirma nem haver uma verdade, nem sua inapreensibilidade – o cético pirrônico é aquele que continua buscando a verdade depois de ter sido levado à suspensão do juízo, dada a equipolência de argumentos opostos.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d85de2e3767c240689ba88a05aa99fd9">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-5264e5f173f2b3c4b7dde2234cad7a39">Tradução para o português tirada do livro de Barbara Cassin (2005[1995]).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-bdf4d67d5c8572aa4572225b54adb141">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-d63e93e448c9aa8d05c0254e5cfb1408">Cf. o documentário <italic id="italic-fa9913f672faf31b1d6482755568f2ca">Privacidade Hackeada</italic>, filme que mostra como essa negociata foi decisiva para a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016, bem como para vitórias de outros políticos pelo mundo, inclusive no Brasil.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-919a35562d31d2e4ef552eda39588ec9">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-a7e3a5df16919d47dcbf131fdf88f6fd">Refiro-me novamente ao escândalo da venda de dados de usuários do Facebook para a empresa Cambridge Analytica (cf. Empoli, 2020).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-747a59180fc7831c31370f75bebc4978">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-445e0ad080b365e209d641ef1e32493f">Palestra proferida no XIV <italic id="italic-81dae21d081b0b85a7d494cf926d9811">Abralin em Cena: Fake News e Linguagem</italic>, realizado em novembro de 2019, na Unicamp.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0c14aed8f2fbebc4b67fa8731b404a3a">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-1a6a3afbb068256cef14307c682d37dd">A menção a Dante é uma referência à palestra da profa. Paula Vermeersch, proferida no XIV <italic id="italic-ed0715ef6e41e88763909a940673d69e">Abralin em Cena: Fake News e Linguagem</italic>, realizado em novembro de 2019, na Unicamp.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-cca9e5276c4fb82a8f94f23583827cec">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-b6cee0099d6da3178f828ee233651832">Foi na palestra do prof. Vinicius Romanini, proferida por ocasião do XIV <italic id="italic-de0d3d56bb4e0a92af53e8c9a612e47e">Abralin em Cena: Fake News e Linguagem</italic>, realizado em novembro de 2019, na Unicamp, que conheci esse pensamento de McLuhan.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-645ca7c4ce9f063d039817580b642123">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-c10b29cf16d81e67cfdb2aaafc69f3c4">Tese desenvolvida pelo prof. Paulo Roberto Gonçalves-Segundo no XIV <italic id="italic-2a5cabb5702a300786cc054eff9a9667">Abralin em Cena: Fake News e Linguagem</italic>, realizado em novembro de 2019, na Unicamp.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e8020e5eefe3628c743e129624f37c30">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-ab85e6bbfd22cc18cfccc6640306b5aa">A mamadeira erótica foi outra <italic id="italic-f3d10837c998a622537aa84443aa5f83">fake news</italic> disseminada quando da campanha eleitoral para a presidência do Brasil em 2018.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-dc5425b4d042b19fb8b413edb41194a5">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-1bcea84d36341c0f7bc88041e3eb1803">E isso é tão mais verdadeiro quanto mais se sabe que, nas eleições presidenciais, muitos eleitores compartilharam notícias sabendo que eram falsas.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f2087cdcfb2e5522b5712b195bf36f44">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-9dc1854035715fce6768445c7100b608">Novamente remeto o leitor ao documentário <italic id="italic-a567436d7c0df5bf0ebef7fac8742215">Privacidade hackeada</italic> (v. nota 4).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-770011766bd1e0b6cc5dde5507863e56">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-5d3c59d939100bbeecfb925d086b4800">Palestra proferida pela profa. e deputada federal Margarida Salomão, intitulada “Verdade e democracia”, no XIV <italic id="italic-b089551d689a00334f0fed4a949d75ef">Abralin em Cena: Fake News e Linguagem</italic>, realizado em novembro de 2019, na Unicamp.</p>
      </fn>
    </fn-group>
    <ref-list>
      <ref id="chapter-ref-e63508973ff4948286b5cd0175f0d721">
        <element-citation publication-type="chapter">
          <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
          <publisher-name>Cobogó</publisher-name>
          <year>2019</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>BUCCI</surname>
              <given-names>Eugênio</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <person-group person-group-type="editor">
            <name>
              <surname>BARBOSA</surname>
              <given-names>Mariana</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>Pós-verdade e fake news: reflexões sobre a guerra de narrativas</source>
          <chapter-title><italic id="italic-05a0a32b75c6c54e6b7ed28c4af578fb">News</italic> não são <italic id="italic-cf90c1303a409918ecaae5a644120acc">fake</italic> – e <italic id="italic-cdc9463c0209abca7b59230feef013cf">fake news</italic> não são <italic id="italic-76f3261d45446aa8f623ce4cc79b986a">news</italic></chapter-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-a9c0e9eabccc847d800947c512c641b7">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
          <publisher-name>Ed. 34</publisher-name>
          <year>2005 [1995]</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>CASSIN</surname>
              <given-names>B.</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-eed213c7182cce2d88817930ee99e446">O efeito sofístico</bold>: sofística, filosofia, retórica, literatura</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="chapter-ref-507deba8953cd4182e1fca9f9c7b9824">
        <element-citation publication-type="chapter">
          <publisher-loc>Porto Alegre</publisher-loc>
          <publisher-name>Dublinense</publisher-name>
          <year>2017</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>DUNKER</surname>
              <given-names>Christian</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <person-group person-group-type="editor">
            <name>
              <surname>DUNKER</surname>
              <given-names>C.</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>Ética e pós-verdade</source>
          <chapter-title>Subjetividade em tempos de pós-verdade</chapter-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-8f9229407820684475b1aba3b84f691b">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <fpage>41</fpage>
          <lpage>57</lpage>
          <page-range>41-57</page-range>
          <volume>53</volume>
          <year>2019</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>EL-JAICK</surname>
              <given-names>Ana Paula</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>Fragmentum</source>
          <article-title>Pós-verdade, ficção, fake news</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-f2cec9844f57fd4ec4eb6502185ccd74">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
          <publisher-name>Vestígio</publisher-name>
          <year>2020</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>EMPOLI</surname>
              <given-names>Giuliano da</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>
            <bold id="bold-40d13b034bf10485e9c85b7e9e54e57d">Os engenheiros do caos</bold>
          </source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-15f30bdf34f686115d26cbaa81d5796b">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Chicago and London</publisher-loc>
          <publisher-name>The University of Chicago Press</publisher-name>
          <year>1989</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>FISCHER</surname>
              <given-names>M.</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>
            <bold id="bold-e308342c9df2b5ed7b6459a15d772046">Stanley Cavell and literary skepticism</bold>
          </source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-b5d9a3224557368844ffc40fe5647ebe">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
          <publisher-name>Edições Loyola</publisher-name>
          <year>2011[1970]</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>FOUCAULT</surname>
              <given-names>M.</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-0f3590d203c9ef2af34133c62d288d25">A ordem do discurso</bold> – aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-c5e643ba56e76b80023ad7d06486e8e6">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <year>2019</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>GONÇALVES-SEGUNDO</surname>
              <given-names>Paulo Roberto</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>ABRALIN EM CENA: FAKE NEWS E LINGUAGEM</source>
          <article-title>Quando <italic id="italic-0c67e1022fbfb93dcb8b978d129f967d">fake news</italic> se articulam a discursos de exclusão: reflexões teórico-metodológicas</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="conference-paper-ref-1d49d680882ebaf6c7420c48836bbda9">
        <element-citation publication-type="confproc">
          <conf-name>Conferência</conf-name>
          <year>1997</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>MARCONDES</surname>
              <given-names>D. </given-names>
            </name>
          </person-group>
          <article-title>A Tradição Cética, Os Argumentos Limitativos do Conhecimento e A Questão da Linguagem</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-324379dbacbe8ec77206db8d3a56782b">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Cambridge, MA</publisher-loc>
          <publisher-name>MIT Press</publisher-name>
          <year>2018</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>MCINTYRE</surname>
              <given-names>Lee</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>
            <bold id="bold-c6ebb30c8c7d4b9fe6bc137c5c11ca1c">Pos-truth</bold>
          </source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="chapter-ref-44b41181a6685c28d3a91908c345eff9">
        <element-citation publication-type="chapter">
          <fpage>171</fpage>
          <lpage>184</lpage>
          <page-range>171-184</page-range>
          <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
          <publisher-name>Blucher</publisher-name>
          <year>2019</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>MELATI</surname>
              <given-names>Nathalia</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <person-group person-group-type="editor">
            <name>
              <surname>FERREIRA</surname>
              <given-names>L. A.</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>Inteligência retórica: o ethos</source>
          <chapter-title>A virtude como parte do <italic id="italic-593002e5bb81286811f6e07fe963bde5">ethos</italic> da balbúrdia universitária</chapter-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-76cc059678546b2badeb149c8c147fc2">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <volume>17</volume>
          <year>1985</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>NUSSBAUM</surname>
              <given-names>M. </given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>New Literary History</source>
          <article-title>Sophistry about Conventions</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="article-ref-d14f9969fbcb664ea1429db6af865d26">
        <element-citation publication-type="article">
          <article-title>PRIVACIDADE hackeada. Direção: Karim Amer; Jehane Noujaim. EUA. Produção: Karim Amer; Jehane Noujaim; Pedro Kos; Geralyn Dreyfous; Judy Korin, 2019, documentário, 110 min, color.</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-181ef5107a57f3847b71f4e0ee26141c">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Paris</publisher-loc>
          <publisher-name>Éditions du Seuil</publisher-name>
          <year>2002</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <collab>
              <named-content content-type="name">SEXTUS EMPIRICUS</named-content>
            </collab>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-875e9b3947e8c3b60d4f75ebf868663a">Contre les professeurs</bold>. Introduction, glossaire et index par Pierre Pellegrin, traduction par Catherine Dalimier, Daniel Delattre, Joëlle Delattre et Brigitte Pérez, sous la direction de Pierre Pellegrin</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-301858d74f524b60053d8a4f4a2e7ab6">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>New York</publisher-loc>
          <publisher-name>Oxford University Press Inc</publisher-name>
          <year>1998</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <collab>
              <named-content content-type="name">SEXTUS EMPIRICUS</named-content>
            </collab>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-10739e8dd4ddb94cba85bb3381120421">Against the grammarians</bold>. (Adversus mathematicos I). Translated with an introduction and commentary by D. L. Blank. (Claredon later ancient philosophers)</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-571f1767368d1d53b2bdd01de6a334ec">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Oxford</publisher-loc>
          <publisher-name>Claredon Press</publisher-name>
          <year>1997</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <collab>
              <named-content content-type="name">SEXTUS EMPIRICUS</named-content>
            </collab>
          </person-group>
          <source>Against the Ethicists. (Adversus mathematicos XI). Translation, commentary and introduction by Richard Bett. (Claredon later ancient philosophers)</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-dd8624152d810eb25e49bf6b7978c246">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Cambridge</publisher-loc>
          <publisher-name>Cambridge University Press</publisher-name>
          <year>1994</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <collab>
              <named-content content-type="name">SEXTUS EMPIRICUS</named-content>
            </collab>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-af0c64aef8eb05636beac8514d725ac8">Outlines of Scepticism</bold>. Translated by J. Annas e J. Barnes</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-e608ac3d4f8cb18a06ebc1a07325aa30">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Buffalo, New York</publisher-loc>
          <publisher-name>Prometheus Books</publisher-name>
          <year>1990</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <collab>
              <named-content content-type="name">SEXTUS EMPIRICUS</named-content>
            </collab>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-4a77ad11cec09dc9d89ebe16b1a7de79">Outlines of Pyrrhonism</bold>. Translated by R. G. Bury</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-9a0c0c35bff2ad7a3d9c60da7cf7722d">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Cambridge, Massachussetts, London</publisher-loc>
          <publisher-name>Harvard University Press, William Heinemann Ltd</publisher-name>
          <year>1957</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <collab>
              <named-content content-type="name">SEXTUS EMPIRICUS</named-content>
            </collab>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-93ca94ecea53fa03784a38402f7d1e31">Against the logicians</bold>. With an english translation by the Rev. G. Bury</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="chapter-ref-0b8f6961e9692bf2cea906f861291468">
        <element-citation publication-type="chapter">
          <publisher-loc>London</publisher-loc>
          <publisher-name>Routledge</publisher-name>
          <year>2000</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>STONE</surname>
              <given-names>M.</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <person-group person-group-type="editor">
            <name>
              <surname>CHARY</surname>
              <given-names>Alice</given-names>
            </name>
            <name>
              <surname>READ</surname>
              <given-names>Rupert</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>The new Wittgenstein</source>
          <chapter-title>Wittgenstein on deconstruction</chapter-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-d6ba7c8b587a021240c3f4b6f87de3b5">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>ROBLE</surname>
              <given-names>Odilon José</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>ABRALIN EM CENA: FAKE NEWS E LINGUAGEM, 2019, Campinas/SP</source>
          <article-title>A economia do corpo na lógica da pós-verdade: elementos da filosofia da vontade</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-481a314f60e008961c6677747835812f">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>ROMANINI</surname>
              <given-names>Vinicius</given-names>
            </name>
            <name>
              <surname>OHLSON</surname>
              <given-names>Márcia Pinheiro</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>ABRALIN EM CENA: FAKE NEWS E LINGUAGEM, 2019, Campinas/SP</source>
          <article-title>Uma perspectiva pragmática-semiótica para o problema das fake news</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-d0e0e3878264bfe996fc22da29d8a727">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>SALOMÃO</surname>
              <given-names>Margarida</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>ABRALIN EM CENA: FAKE NEWS E LINGUAGEM, 2019, Campinas/SP</source>
          <article-title>Verdade e democracia</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-aa0d797e26d68720211cae3fe28f5915">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Durham and London</publisher-loc>
          <publisher-name>Duke University Press</publisher-name>
          <year>1992</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>TAYLOR</surname>
              <given-names>Talbot J. </given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source><bold id="bold-69c477ffd6692bd31e94ec94d10bc1cc">Mutual misunderstanding</bold>: skepticism and the theorizing of language and interpretation</source>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="magazine-article-ref-e46d81b387a5c68450e03077861c97bf">
        <element-citation publication-type="magazine">
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>VERMEERSCH</surname>
              <given-names>Paula</given-names>
            </name>
          </person-group>
          <source>ABRALIN EM CENA: FAKE NEWS E LINGUAGEM, 2019, Campinas/SP</source>
          <article-title>Política no Inferno de Dante: valas e sub-valas da condenação</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
    </ref-list>
  </back>
</article>