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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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<publisher-name> Associação Brasileira de Linguística </publisher-name>
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<article-id pub-id-type="doi">10.25189/2675-4916.2021.V2.N1.ID338</article-id>
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        <article-title>COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO</article-title>
        <subtitle>DA HERMENÊUTICA ÀS CIÊNCIAS DA LINGUAGEM</subtitle>
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      <issue-title>Linguistas Online</issue-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">Quando se fala de interpretação, é obrigatório para toda disciplina referir-se à hermenêutica no campo da filosofia. Mas meu proposto não é fazer uma análise filosófica. É somente fazer um percurso do que diz respeito à discussão hermenêutica para depois tentar retomar essa questão no âmbito das ciências da linguagem, com o objetivo de fornecer uma perspectiva discursiva.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Sommaire</title>
        <p id="paragraph-b1f78b6399ed3e5f204e8c85d5ae9d2c">Quand on parle d’interprétation, il est nécessaire de se référer à l’herméneutique. mais le propos de ce texte n’est pas une analyse philosophique. Il est de parcourir les discussions qui ont lieu à propos de ce concept pour reprendre celui-ci dans le cadre des sciences du langage, dans une perspective discursive.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Hermenêutica</kwd>
        <kwd content-type="">Compreensão/interpretação</kwd>
        <kwd content-type="">Sentido/significação</kwd>
        <kwd content-type="">Inferência</kwd>
        <kwd content-type="">Sujeito interpretante</kwd>
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    <sec id="heading-ac5b9ebaf5848a2aebfab7263fa7a046">
      <title>Os três momentos da discussão hermenêutica</title>
      <p id="paragraph-38a71035ccc4c6b7f2bf4c1b9fefe96c">Sabe-se que a hermenêutica nasceu como uma “arte de interpretar os textos”, principalmente aplicada aos textos sagrados ou canônicos em teologia (<italic id="italic-852b330c70f07b909ae78b58f0703899">Hermenêutica sacra</italic>), em direito (<italic id="italic-3334b336e7354a7cb34b9594160973b8">Hermenêutica juris</italic>) e em filologia (<italic id="italic-cab8346526b3caa5803c81767c3597e3">Hermenêutica profana</italic>), na qual um dos grandes destaques foi Santo Agostinho (354-430). Esse foi o primeiro momento.</p>
      <p id="paragraph-7c80d3207c24b7afbe0fb71a7143fbc0"> Em um segundo momento, a hermenêutica é definida como <italic id="italic-2563cd96a9c0bf54447cdd9e4e494739">fundamento metodológico</italic> servindo às ciências humanas, as quais são declaradas “ciências da compreensão”, por filósofos como Dilthey (1947) (1833-1911) e Schleiermacher (1768-1834), retomado posteriormente por Gadamer (1996) em <italic id="italic-840d466613b2b47eff4fa053f54689be">Vérité et méthode</italic>. O terceiro momento foi quando se generalizou o conceito de interpretação dizendo que tudo é interpretação. Para Nietzsche, por exemplo: « Não há fatos, somente interpretações », e Heidegger afirma que a hermenêutica não concerne apenas a interpretação dos textos, mas à própria existência que se vive através de uma pluralidade de interpretações (HEIDEGGER, 1986). A partir daí houve uma discussão filosófica sucessivamente com Habermas (1987; 2001), Ricoeur (1990; 1986), Derrida (1967; 1984) e os pós-modernos Rorty (1990) e Vattimo (1991), cujo ponto comum é que, na filiação de Nietzsche pela diversidade das interpretações, e de Heidegger pela inscrição na história, a hermenêutica se define como <italic id="italic-6">subjetividade doadora de sentido</italic>.</p>
      <p id="paragraph-866246fd6d3e3443c06c8d5fb4dc1eb2">Não entraremos nessa discussão cujas implicações são estritamente filosóficas, e procuraremos, num espírito interdisciplinar, reter o que nos servir a nosso propósito dentro de uma problemática discursiva.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-1989000f53c9bc00ebf00a4bb74d9005">
      <title>1. Compreender e interpretar na hermenêutica</title>
      <p id="paragraph-1919a454da126a9f977c60813b3a72a1">A distinção entre as noções de <italic id="italic-d9f2e30cfa8d0a4e8a05d46e5500c6d4">compreender </italic>e<italic id="italic-b36a4d112491669558dbf88436631509"> interpretar </italic>é difícil de determinar. Há, entre os filósofos que se dedicaram a defini-las, posições que se entrecruzam em acordos e desacordos. Schleiermacher, ao dizer que a hermenêutica é uma “arte de compreender” mais do que uma “arte de interpretar”, não diferencia essas noções. Para Nietzsche, o conhecimento é sempre o resultado de interpretações múltiplas — o que ele chama de “infinito interpretativo” —, e, portanto, sempre relativo, jamais objetivo. Ricœur faz uma distinção, porque ele diz que compreender é tentar articular a interpretação que se apropria do sentido tal como ele se dá à consciência.</p>
      <p id="paragraph-d6267bd31275c94ad9b9012fc017ab33">Podemos fazer um balanço dessas discussões e concluir que, para a hermenêutica:</p>
      <p id="paragraph-949d2185e3352eca24693c380fef914f">a) Compreensão e interpretação são uma questão de <italic id="italic-2a6674f192d2a83f7fb5a3b7ad382967">linguagem</italic> que, ao mesmo tempo, funda o sentido e dá testemunho da responsabilidade do sujeito falante<xref id="xref-ebd2e5610861f1fdd4b607ccef6ecc51" ref-type="fn" rid="footnote-f0ecd757fd7fc925aa874771fae4684f">1</xref>. Ricœur diz que o sentido não nos é dado, ele é <italic id="italic-3c27371abfba9e43613ff2fc8ea7d634">opaco</italic> — como o vai repetir Foucault mais tarde —, e por isso deve ser interpretado. Por conseguinte, a compreensão não representa a <italic id="italic-e3f26e886bd48e263e5ef716d54b4f25">realidade </italic>do mundo, mas o <italic id="italic-5c753b964a0eac26ab83422882c931fb">real significante </italic>que se constrói (hipótese fundadora da linguística que diz que o signo não é a realidade, mas um conceito da realidade). Isso não quer dizer que os fatos não existam, que não houve tsunami inundando tal vilarejo, que não houve trinta e três vítimas. Isso quer dizer que o que <italic id="italic-7">significam </italic>o tsunami e as vítimas depende da interpretação que se tem a respeito. </p>
      <p id="paragraph-4">b) A compreensão é uma totalidade de sentido final. Somos « afetados pelo passado e pelo presente », diz Ricœur, através da linguagem, e estabelece que a significação depende da intertextualidade, da interdiscursividade e do saber supostamente compartilhado.</p>
      <p id="paragraph-5">c) A interpretação é uma <italic id="italic-8">atividade de decifração e </italic>de extração do sentido, <italic id="italic-9">anterior </italic>à construção da compreensão. Ricœur exprime recorrendo à noção de <italic id="italic-10">explicação</italic>: « a explicação é então o caminho obrigatório da compreensão » (RICŒUR, 1986, p. 110), e Schleiermacher afirma: « quando se compreende, não se interpreta mais » (SCHLEIERMACHER, p. 173).</p>
      <p id="paragraph-6">d) Daí essa ideia de que <italic id="italic-11">só há interpretações</italic> como diz Nietzsche: « (...) a interpretação é uma <italic id="italic-12">atividade infinita</italic> », e Derrida acrescenta que a interpretação é uma atividade relativa à posição do sujeito. </p>
      <p id="paragraph-7">Pode-se então, considerar, no que concerne à linguagem, que as interpretações são múltiplas e que resultam de uma atividade do sujeito.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-453a66ea86e27081fb5255aa0927a492">
      <title>2. Da oposição entre <italic id="italic-1">sentido</italic> e <italic id="italic-2">significação</italic></title>
      <p id="paragraph-7209a07fe3739d250eb5f756dc035c02">Retomemos agora, no âmbito da linguística, uma questão bastante debatida nos anos setenta do século XX, e depois abandonada: a diferença entre <italic id="italic-425c3977dcee4dce82bb27d34a5eb1f3">sentido </italic>e<italic id="italic-871e965489d2b63d4a41c669375a478f"> significação</italic>. </p>
      <p id="paragraph-9798b261dba768bd94d368b5952314c4">Também foram três momentos. Um primeiro em que o sentido do enunciado era considerado fora do contexto na sua tripla dimensão: <italic id="italic-fcc088e6f7b5b131210dee9846c83c36">estrutural</italic>, no cruzamento das coocorrências <italic id="italic-5c3f34e72ff39a24d2a75538e1b3c5b7">sintagmáticas</italic> e das oposições <italic id="italic-3acdc0dffbfb4d268776e74b91be85dc">paradigmáticas</italic>;<italic id="italic-ef03e4d278e273e10329dca3cfdce13e"> referencial</italic> (BENVENISTE, 1966, p. 128)<xref id="xref-03c956ff4c0229f979a23e91f6b55802" ref-type="fn" rid="footnote-b0eade63f9a89d104d50c0afca0e3d47">2</xref> na medida em que todo signo remete para a realidade do mundo. No segundo momento, o signo é considerado em contexto. Após a observação de que o sentido varia segundo os contextos discursivos e as diversas situações de enunciação, num jogo de vaivém entre língua e fala (Saussure) ou língua e discurso (Benveniste), foram operadas diversas distinções: Charles Bally, continuador de Saussure, distingue o <italic id="italic-f5e0f4e056a10edea2c874ae63e726aa">sentido na língua</italic>, e a <italic id="italic-4c7be733d4c428f025ee6ce1a6a2366c">significação na fala</italic> (BALLY, 1951); Charles Peirce opõe <italic id="italic-c3bd43993961d9077854a97c8a95e28c">signo-tipo</italic> e <italic id="italic-600c2ac8b72b96b3a1a67b66ddf14ec7">signo-ocorrência</italic>; Gustave Guillaume e Bernard Pottier, <italic id="italic-40e115745fb45e599553a2a1a1e7ec72">sentido</italic> e <italic id="italic-16c3ee1c725d3134c280ff15d14dbba0">efeito de sentido</italic>; Algirdas Greimas diferencia um <italic id="italic-13">sentido núcleo</italic> como momento de significância anterior à produção semiótica, e a <italic id="italic-14">significação</italic> como sentido articulado.</p>
      <p id="paragraph-f001879c424e81321fdb8d50baa25bf9">Num terceiro tempo, com a aparição das teorias da enunciação de Émile Benveniste, que distingue <italic id="italic-15">sentido-enunciado</italic> e <italic id="italic-16">sentido-enunciação,</italic> e da pragmática (Austin, Searle), a compreensão das frases não é a mesma segundo sejam consideradas isoladamente ou no contexto discursivo, e então o que se procura descrever são as <italic id="italic-17">condições de verdade</italic>. Daí que Gardiner opõe <italic id="italic-18">sentido linguístico-semântico </italic>e<italic id="italic-19"> sentido pragmático</italic>. Peter Frederick Strawson propõe três níveis: (i) <italic id="italic-20">um sentido</italic> A independente do contexto (dito sentido <italic id="italic-21">proposicional</italic>); (ii) <italic id="italic-22">um sentido</italic> B resultante da relação entre <italic id="italic-23">o enunciado e a referência</italic> que pode ser julgado <italic id="italic-24">verdadeiro ou falso</italic> (STRAWSON, 1970); (iii) <italic id="italic-25">um sentido</italic> C resultante da <italic id="italic-26">interpretação</italic> do enunciado inserido em seu <italic id="italic-27">contexto</italic>. Jacques Moeschler e Anne Reboul, no seu <italic id="italic-28">Dictionnaire encyclopédique de pragmatique</italic>,<italic id="italic-29"> </italic>retomam o conjunto da teoria pragmática assinalando que « há duas etapas na interpretação dos enunciados: a primeira etapa é estritamente linguística, sem conhecimento extralinguístico, é o <italic id="italic-30">componente linguístico</italic> que corresponde à <italic id="italic-31">significação</italic>; a segunda etapa, que leva em conta todos os elementos do processo de enunciação e discursivos, é o <italic id="italic-32">componente retórico</italic> que corresponde ao <italic id="italic-33">sentido</italic> (eles invertem os termos <italic id="italic-34">sentido</italic> e <italic id="italic-35">significação</italic>). Finalmente<italic id="italic-36">,</italic> Recanati, em linha direta da filosofia da linguagem, diferencia a interpretação das formas linguísticas (<italic id="italic-37">interpretação semântica</italic>), e a interpretação das ações (<italic id="italic-38">interpretação pragmática</italic>) (RECANATI, 2008).</p>
      <p id="paragraph-2b292442eb878f39435b970ebd8a757d">Fazendo o balanço dessas teorias, pode-se concluir que: a compreensão é um momento <italic id="italic-39">resultativo</italic> de <italic id="italic-40">apreensão global</italic> do sentido que resulta de diferentes atividades de interpretação sob a responsabilidade do <italic id="italic-41">sujeito falante</italic>; a compreensão traz então, efetivamente, a marca de uma <italic id="italic-42">relação intersubjetiva </italic>entre sujeito falante e sujeito interpretante. Tudo isso se encaixa com meu ponto de vista, ou seja, que o sentido é o resultado de uma <italic id="italic-43">co-construção, </italic>entre o <italic id="italic-44">Eu</italic> e o <italic id="italic-45">Tu</italic>; a relação entre o <italic id="italic-46">sentido intencional</italic> (Eu) e <italic id="italic-47">sentido reconstruído</italic> (Tu) é<italic id="italic-48"> assimétrica</italic>, por isso digo que nas análises se precisam distinguir, quanto ao sentido, o <italic id="italic-49">efeito visado </italic>e o <italic id="italic-50">efeito produzido</italic>.<italic id="italic-51"> </italic>Isso significa que um mesmo enunciado terá <italic id="italic-52">várias significações</italic>. Como consequência há dois momentos de compreensão: um momento de <italic id="italic-53">compreensão literal do sentido </italic>fora de contexto (<italic id="italic-54">sentido de língua</italic>); um momento de <italic id="italic-55">compreensão específica do sentido </italic>que é obtida ao final de uma atividade interpretativa a partir do contexto e da situação (<italic id="italic-56">sentido de discurso</italic>).</p>
    </sec>
    <sec id="heading-314df3694bb70a06f093fc4c59a1ef68">
      <title>3. Das operações interpretativas por inferência</title>
      <p id="paragraph-9bb94715a62bdbe382f02c2870b89b69">As operações interpretativas se fazem pela via do processo de inferência. As definições da inferência podem ser diferentes, mas elas têm um ponto comum que é o processo de "colocação em relação de um elemento com outro a partir do qual se tira uma interpretação: « Toda operação pela qual se admite uma proposição cuja verdade não é conhecida diretamente, em virtude de sua ligação com outras proposições já consideradas verdadeiras » ; « Processo lógico pelo qual se parte de um certo número de premissas para chegar a uma conclusão » ; « Uma operação mental que consiste em “tirar uma conclusão ou uma consequência a partir da observação de um fato, de um acontecimento ou de um enunciado ». Mas essa conclusão não é uma garantia de verdade; é somente uma hipótese de sentido.</p>
      <p id="paragraph-90e468eafae6bc56613aec2a5ae2600b">A partir daí se pode observar que são dois tipos de inferência: <italic id="italic-2d5756a021836ab933e6382cd57427f7">inferência centrípeta interna fora de contexto </italic>que leva ao <italic id="italic-e728ffec6ac1d7436a64362deda2a95e">sentido</italic>; <italic id="italic-b68c89d2ad70fe17e05687227ac72a61">inferência centrífuga externa em contexto </italic>que leva à <italic id="italic-bfae01e3c89325f46c628f06362e4ed5">significação</italic>.</p>
      <sec id="heading-17fa59ed38d7e97ff5d8b8c6e6ecffff">
        <title>3.1. <italic id="italic-211328ef3d9c77d3a782cf3f94e16ed3">O "sentido" e as inferências centrípetas internas</italic></title>
        <p id="paragraph-3cc42c6f31cf4ad11a32cf9a2ec6c85b">A inferência se opera a partir dos componentes do enunciado, por diferença negativa (<italic id="italic-ed8a80fa0d6dcf4beaced5c6b512880c">in absentia</italic>) sobre o eixo das oposições paradigmáticas, e por combinação entre os coocorrentes (<italic id="italic-4d02982e15792bd3e695544259eef49f">in praesentia</italic>) no eixo sintagmático. Por exemplo, um enunciado como « Eu tenho trinta anos » leva a fazer uma série de oposições: “Eu” não é “Você”; “tenho” não é “tem” nem “tinha”; “trinta” não é “três” nem “quarenta” ; “ano” não é “mês” nem “século”. E, pelo fato da combinação entre essas palavras gramaticais e lexicais, o sujeito interpretante compreende que o sujeito falante se atribui certa idade. Assim se constrói o sentido <italic id="italic-0ab87f32d1ca411ed6b49755349986fa">de língua </italic>que resulta de inferências centrípetas no interior do enunciado ou <italic id="italic-3f00f12972f36034e559aebd0789cf9c">inferências estruturais</italic>.</p>
        <p id="paragraph-bd07e5e2011bf17dfb43c6bd192046bd">Esse tipo de inferências permite <italic id="italic-17e34c074e9c01b6ecd43c92b99b268e">desambiguizar</italic> os enunciados cujas palavras apresentem polissemia. Por exemplo, se A diz: « Esta estrela acaba de se apagar », "estrela", sendo uma palavra polissêmica, precisamos de saber « Onde? ». Se a reposta é: « Em Hollywood », compreendemos que se trata de uma pessoa. É o <italic id="italic-e9e6dba717d73a1a59b019274d5de912">sentido de língua</italic>.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-6e6e3be6e76db5c9eb1c490388524667">
        <title>3.2. <italic id="italic-3d1ecdb81ab63799549910196c393234">A "significação" e as inferências centrífugas externas</italic></title>
        <p id="paragraph-56eff5426ac3b97dd3bb758cf4397a4b">A inferência se opera a partir de elementos exteriores ao enunciado. Por exemplo, com o mesmo enunciado, « Eu tenho trinta anos », depois das inferências internas construírem o sentido, se o interlocutor interpreta que "trinta anos" significa "velho", é porque ele fez uma inferência com um dato exterior: saber que o sujeito falante é um atleta que deve deixar a competição de alto nível, como se ele dissesse: “Eu estou velho demais”. No entanto, se o interlocutor sabe que o sujeito falante é um empregado que acaba de ser despedido de sua empresa, ele poderá inferir a significação: “E, ainda, ele é jovem”. </p>
        <p id="paragraph-08b2a4746773cf359621190ac4012871">Nos dois casos, o sujeito interpretante, para reconstruir essas significações, pôs o enunciado e seu sentido em relação com o que ele sabe do sujeito falante (um atleta, um empregado), e o que sabe sobre o limite de idade na competição esportiva ou sobre as situações do emprego. </p>
        <p id="paragraph-164748fc6e896d7795f78d4d23a6c808">Assim, podem-se distinguir dois tipos de inferências centrífugas segundo a natureza desse exterior: inferências <italic id="italic-29a0186846e826bbed61876535f03aa0">situacionais e </italic>inferências <italic id="italic-a09355dc205ef1a3d329df59462a4a22">interdiscursivas</italic>.</p>
        <p id="paragraph-69c232a93ba5078eb2e01ee20c6e1bea"><italic id="italic-d6fef1819041ba7a43f9e2268a0dbdaf">Inferências situacionais</italic> ocorrem a partir dos dados da situação, como as <italic id="italic-bba7182b9b64a81cb9a82e43c2443093">identidades </italic>dos protagonistas da conversa segundo a posição de autoridade do falante, que faz com que a interpretação de um enunciado como « Você deveria terminar seu trabalho » dependa de se o sujeito falante é um pai que fala a seu filho, um dono a seu empregado, um amigo a outro amigo. Ou também inferências a partir do <italic id="italic-cef330dc43c73df0a65106a5456e3126">contrato</italic> <italic id="italic-cb719905288dc178626d867d005dad08">de comunicação</italic>. O perfumista Jean-Paul Guerlain declarou numa entrevista na televisão para explicar como inventou o primeiro perfume: « Pela primeira vez, eu me pus a trabalhar como um negro. Não sei se os negros sempre trabalharam tanto assim, mas… ». Grupos associativos interpretaram o enunciado como uma injúria racial, e ele foi condenado.</p>
        <p id="paragraph-0b2e70a2ea0be68a32b4152560d70e55"><italic id="italic-4bf5bd4bdb00f597423dd2f0a6ddae14">Inferências interdiscursivas</italic>, a partir de outras palavras ou enunciados que circulam nos grupos sociais e de que os locutores se impregnam. Como diz Bakhtin: «Cada palavra exala a profissão, o gênero, a corrente, o partido, a obra particular, o homem particular, a geração, a idade, o dia e a hora. Cada uma exala o contexto e os contextos nos quais viveu sua vida social intensa; todas as palavras e todas as formas são habitadas por intenções». Bakhtin denomina esse processo<italic id="italic-73600e7d49018d16e81f3d330e393376"> dialogismo</italic>, Genette <italic id="italic-be1a328e6782515f70978623c0c5cf08">intertextualidade</italic>, Sperber e Wilson <italic id="italic-1d023723ddfbb4123ba09506621126f1">pertinência</italic>. Qualquer seja a denominação remete ao processo de <italic id="italic-1789271451a4e1befc4308d9ec1b51e1">interdiscursividade</italic>. Esse processo depende então dos saberes do sujeito interpretante: <italic id="italic-bd1f052286745422ce3b1cd8fdfd3cdd">saberes de opinião</italic> que são reveladores dos imaginários socioculturais, dos estereótipos e dos tabus de cada sociedade; <italic id="italic-652f900cdee0283a151a15c009526988">saberes ideologizados</italic> que remetem a diversos sistemas de pensamento, de julgamento, de valores, de cada sociedade, como é o caso do <italic id="italic-13abd8cc8d79de0fc1289edb665a0f7c">racismo</italic>. <italic id="italic-50bd8dd1b5ea70c0530297588ec7e655"/></p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-d89707ff8e2d10e3fa43603686132c5a">
      <title>4. Os <italic id="italic-ba5ee84e316c0a22a392d1d18bc423ad">status</italic> do sujeito interpretante segundo as situações</title>
      <p id="paragraph-856c2ed78f464c087b644b51defe54fe">Sendo a compreensão linguageira o resultado de uma relação intersubjetiva entre sujeito falante e sujeito interpretante, e como este é participante da construção do sentido através de sua atividade interpretativa, é certo que as interpretações dependem do lugar que o sujeito interpretante ocupa no dispositivo da troca. Vamos ver então quais são as situações de interpretação.</p>
      <sec id="heading-0a2839450606190a5be0fc6e748c7125">
        <title>4.1.<italic id="italic-70dd1bb50d5ca9678d7a95898c39d81f"> Situação de interpretação interpessoal</italic></title>
        <p id="paragraph-123c6d0b8bbab06006597daae244582d">Nessa situação de duas ou mais pessoas que conversam, a interpretação é dificilmente previsível, pois depende das inferências feitas pelos sujeitos, segundo o que sabem uns sobre os outros, o que eles supõem, o que eles imaginam, projetando suas próprias referências, sua sensibilidade, seus desejos. Se uma pessoa diz ao chegar ao encontro: «Vim a pé», o amigo que o esperava poderá interpretar: “ele não gosta do metrô”; “sua namorada pegou o carro”; “ele não mora longe”; “ele está se desculpando pelo atraso”, etc. Uma vez, eu ouvi na rua, um diálogo entre um rapaz e uma moça. Ele disse «Vamos ao cinema?» Ela respondeu: “Você não vai passar a noite comigo!”. Umas inferências que dependem da relação entre essas duas pessoas.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-febdbcb748bc14c365c3e25a022ae53f">
        <title>4.2.<italic id="italic-ed28538c15d6a3e1c00e7a346f8b3693"> Situação de interpretação coletiva</italic></title>
        <p id="paragraph-ff235894d2bb267c6957155737f65f6f">Nessa situação, diversos fatores estão em jogo: as diferenças de <italic id="italic-ba8bd0629ea92dfda264b84b76262048">status</italic> e de hierarquia entre os membros do grupo, os jogos de aliança ou de oposição entre estes, as características psicológicas de uns e de outros. Isso se verifica nas reuniões e trabalho ou grupos de deliberação.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-9875d32c522f9a1869b618f18f68a53b">
        <title>4.3.<italic id="italic-e72ce3c65813e4403304b3593cfd5a0f"> Situação de interpretação da fala pública</italic></title>
        <p id="paragraph-53e59b4ad5ed4ef6b2f6f6a0ebc5d1e1">Se é um indivíduo isolado que ouve uma palavra proferida publicamente (declaração radiofônica, televisionada, ou relatada pela imprensa) suas interpretações serão pessoais, dependendo de suas próprias opiniões e de suas expectativas sobre a pessoa que fala. Se a recepção se faz em grupo, como nos comícios, nas assembleias gerais, nos espetáculos humorísticos, é difícil saber em que medida as interpretações são influenciadas pelo grupo numa espécie de efeito catártico, segundo estejamos a favor ou contra a pessoa que declaração.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-a710487daad624f59d91fc64602276f4">
        <title>4.4. <italic id="italic-e6e2faf0761d78c9ef236e4d9eeceb68">Situação de interpretação do leitor</italic></title>
        <p id="paragraph-4117bf9f263a0f438b452211fcf9f95d">O leitor se encontra sozinho diante de seu texto. Suas interpretações serão variáveis segundo a natureza do texto e do gênero ao qual o texto pertence: se são textos antigos, e se ele não tem conhecimento do contexto histórico, existe o risco de anacronismos; se são textos estrangeiros traduzidos, o leitor projeta as opiniões de seu contexto cultural; caso se trate de textos publicitários, políticos, administrativos, da imprensa, etc., as interpretações dependerão da sua sensibilidade e das suas opiniões. </p>
      </sec>
      <sec id="heading-2d30d3dfe1adc5047c56cb7986d4670f">
        <title>4.5. <italic id="italic-a3453f15eaa301f49683a4aac4291f76">Situação de interpretação do sujeito analisante</italic></title>
        <p id="paragraph-8ca513de2d88ef77309ec6efcbbe3d92">As interpretações dependem da <italic id="italic-daff4f83457cff403fde648dc5dbfe50">disciplina</italic>: disciplina de <italic id="italic-45a987398fad0a8c749acc6519220798">corpus </italic>(ciências da linguagem, história), disciplina de <italic id="italic-469f655fa9fee35218cca78d3c1b2137">terreno </italic>(sociologia, antropologia), disciplina de <italic id="italic-5c900332a2d9351df47b7de2fe269738">experimentação </italic>(psicologia, psicologia social), disciplina de <italic id="italic-4a892686698e97d2b22cfed203e3f5ca">cálculo </italic>(economia), disciplina de <italic id="italic-c9327a09b0f3bbb1e920e46e16c77a90">especulação </italic>(filosofia), de <italic id="italic-5aff6175b2a786e40f4fda31f418c61f">regulamentação </italic>(direito). Também dependerão das <italic id="italic-a31370ecee553cc708dd996c4746092d">influencias teóricas</italic> e das metodologias específicas de cada teoria: marxismo, estruturalismo, construtivismo, etc., e das diversas correntes dentro de cada teoria, como é o caso da análise do discurso.</p>
        <p id="paragraph-36024a647c724ad1b69554cde5fc96dc">Também existe a posição do <italic id="italic-b912ace89c4c244bc2b6c97a5c379648">avaliador</italic> em diversas posições, como de juiz: professor fazendo apreciações sobre provas escritas; membro de uma banca de tese ao avaliar uma pesquisa; leitor de artigos científicos ao propor uma opinião quanto à oportunidade de sua publicação; crítico de arte, de cinema, de literatura, ao fornecer informações ao público e ao expor sua própria apreciação. </p>
        <p id="paragraph-c7d4d3fdcbef4b44461ee78db45c5e22">Nesse caso, as interpretações se farão em função da posição de autoridade ocupada pelo avaliador, do lugar que ele ocupa na comunidade de seus pares, de sua própria competência e mesmo de sua subjetividade, pois ele não está isento das influências que pode sofrer em seu meio.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-b72217fa75ed0e32953423f865c23b52">
      <title>5. Conclusão</title>
      <p id="heading-7220bd8cd49a9188d0fa6abb428470a4">Assim sendo, a interpretação não é um resultado; é um processo, cuja variedade segue certo número de parâmetros. Entretanto, para a análise, e contrariamente à ordem de apresentação que se fez aqui, é preciso começar por considerar o status linguareiro do sujeito que interpreta : os sujeitos da vida social em diversas situações interpessoais ou públicas : os sujeitos de análise em relação com as disciplinas e as correntes teóricas. </p>
      <p id="paragraph-2">Resta a questão de saber se é possível declarar que existem interpretações falsas, ou incorretas; se algumas são mais exatas do que outras, e se é possível estabelecer uma hierarquia entre elas. Para Derrida e Nietzsche, as interpretações se apresentam sem hierarquia <italic id="italic-0570eb90d829b7d239dd7284c16350f6">absoluta</italic>. Por outro lado, pode-se afirmar que existem critérios de <italic id="italic-2e6c625cdf8b03976f898d56f534e7a3">coerência</italic>, a possibilidade de avaliar o grau de coerência de uma interpretação relacionando-a aos instrumentos de que uma disciplina dispõe para a análise. </p>
      <p id="paragraph-3">O que é certo, é que se devem evitar riscos de <italic id="italic-3">anacronismo</italic>, de <italic id="italic-4">anatopismo</italic> (sem tomar em conta o contexto cultural), de <italic id="italic-5">absolutismo</italic> (pensar que sua interpretação é a mais autêntica). Trata-se do combate entre subjetividade e objetividade, o que implica questionar o que deve ser a postura do pesquisador ou do crítico, e também de toda pessoa.</p>
    </sec>
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      <fn id="footnote-f0ecd757fd7fc925aa874771fae4684f">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-06f6f820d598643591d92fdf66ddfbdc">Está entendido que esses empréstimos se fazem num espírito do que chamamos de “interdisciplinaridade focalizada”, a saber, que as noções e conceitos definidos por outras disciplinas são retomados e redefinidos no âmbito de sua própria disciplina, o que evidentemente muda as definições de origem. (CHARAUDEAU, 2010, p. 195-222).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-b0eade63f9a89d104d50c0afca0e3d47">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-bb373c26e7f93283196042076208053b">Fala neste caso do papel de “designação” do signo.</p>
      </fn>
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