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        <article-title>Análise de discurso digital e a língua de bruma</article-title>
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      <volume>7</volume>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">Neste artigo, abordamos, à luz da Análise de Discurso materialista como as noções de língua e sujeito são afetadas pelas condições de produção conformadas pelo discurso digital. Analisamos, a partir de teorias que se avizinham, como a formação social capitalista neoliberal produz seus efeitos na consolidação de saberes relacionados à produtividade e à efemeridade, possibilitados pela assunção das redes sociais e pelas relações entre sujeito e produção de linguagem na máquina/ pela máquina. Além disso, investigamos como os efeitos produzidos nessas condições provocam, no espaço das redes sociais, formas de linguagem outras, que rompem com o imaginário de uma língua homogênea, autoritária e de controle. Considerando um <italic id="italic-1a466aa66c96aed3d6cd1b1a3c2a2109">corpus</italic> reunido de um arquivo ainda em construção, cuja leitura se dá ao mesmo tempo em que se assiste às constantes mudanças em um mundo atravessado pelos efeitos do digital, analisamos alguns conteúdos que dizem respeito às <italic id="italic-2">trends</italic> de cortes de palavras que “viralizam” na rede social TikTok e às diretrizes de conteúdo para circulação da linguagem em redes sociais como a plataforma de vídeos YouTube. Como possíveis conclusões, arriscamo-nos a pensar nas possibilidades do dizer que inscrevem, frente a outras formas de língua, uma língua de bruma, que aponta para uma transformação nas relações subjetivas que são produzidas a partir da/pela era digital.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-b1f78b6399ed3e5f204e8c85d5ae9d2c">In this article, we discuss, in the light of Materialist Discourse Analysis, how the notions of language and subject are affected by the conditions of production shaped by digital discourse. Drawing on theoretical perspectives that are contiguous, we examine how the neoliberal capitalist social formation produces effects in the consolidation of knowledges related to productivity and ephemerality, made possible by the emergence of social networks and by the relations established between the subject and the production of language within/by the machine. Moreover, we investigate how the effects produced under these conditions generate, in the space of social media, other forms of language that rupture the imaginary of a homogeneous, authoritarian, and controlling language. Considering a <italic id="italic-e18c96cd17ee20a3f69eeb03abed491b">corpus</italic> assembled from an archive in construction—whose reading unfolds in parallel with the ongoing transformations of a world traversed by the effects of the digital — we analyse contents related to trends of word-cutting that “go viral” on the social network TikTok, as well as the content guidelines governing the circulation of language on video platforms such as YouTube. As possible conclusions, we venture to think of the possibilities of saying that, when inscribed alongside other forms of language, delineate a <italic id="italic-cd5ace8a1b240090ae5670981f4838fa">mist</italic> <italic id="italic-1ea78d92782f4ee6ffc53789b763570c">language</italic>— one that signals a transformation in the subjective relations shaped by and through the digital era.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">Análise de Discurso</kwd>
        <kwd content-type="">Sujeito</kwd>
        <kwd content-type="">Discurso digital</kwd>
      </kwd-group>
    <pub-date pub-type="epub"><day>31</day><month>12</month><year>1969</year></pub-date></article-meta>
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    <sec id="heading-808dfe8354559c448eb49c15dea0211c">
      <title>Resumo para não especialistas</title>
      <p id="paragraph-6a04504366732ca2b315f8ff977b1cf9">Neste trabalho, estudamos a relação entre a linguagem e os espaços digitais, identificando a necessidade de refletir teoricamente sobre algumas transformações discursivas que são possíveis na contemporaneidade, através das mídias digitais. Ao analisarmos essas possibilidades e as políticas de linguagem que circulam em plataformas de vídeo como o YouTube, identificamos como a linguagem circula nas redes digitais, tornando-se mais fluida e aberta a diversos sentidos, mudando a relação daqueles que falam com a própria língua.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-ac5b9ebaf5848a2aebfab7263fa7a046">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-0d016efaa59c6508168ddc19a881ba3b">Pêcheux e Gadet falam, em seu texto publicado em 1981, <italic id="italic-6a0b836ae2225cd58c1ce88c6408e1db">A língua inatingível</italic>, sobre o real da língua e suas relações com a história. Atentos às mudanças pelas quais o mundo passava à época, pelo questionamento sobre o objeto da linguística e pela instauração de novas discursividades no mundo, os autores abordaram as muitas transformações da língua a partir da perspectiva da Análise de Discurso materialista. A preocupação dessa teoria com a questão do sujeito e do sentido sustenta o pensamento de Pêcheux e daqueles que se alinham a essa concepção teórica. Essa ênfase na noção de discurso como materialidade da ideologia permite que ainda hoje possamos refletir sobre as línguas de madeira, de vento e de ferro<ext-link id="external-link-1" xlink:href="#_ftn1">[1]</ext-link> que marcam a nossa história e implicam as mudanças a que assistimos – hoje, mais do que nunca – ainda sem saber para onde vamos.</p>
      <p id="paragraph-a7ffb39f497683eec93cb2c690f92b0c">Nos últimos dez anos, a história mudou radicalmente: observamos a ascensão das chamadas fake news<ext-link id="external-link-2" xlink:href="#_ftn2">[2]</ext-link>, a irrupção de novas formas de relações interpessoais através de redes sociais e a interação entre homem e máquina, através do uso da Inteligência Artificial. Esse cenário tem revolucionado as relações sociais e transforma nossa forma de ser e estar no mundo, modificando as condições de produção em que os discursos circulam. Desse modo, nós, sujeitos de linguagem, passamos a ser atravessados pelo “complexo campo” (Silveira, 2019, p. 37) que convencionamos chamar de digital. Assim, ancorados ao pensamento de Paveau, entendemos que “não se deve esquecer que o digital, como a democracia ou a sexualidade, é uma noção profundamente situada e não comporta nenhuma universalização” (Paveau, 2023, p. 27). Ou seja, não há como tomarmos o digital como um campo homogêneo ou exterior às sobreposições da ideologia.</p>
      <p id="paragraph-ed4b875db939364d6112c0d3dd43eb52">Assistimos às transformações dessa era ao mesmo tempo em que somos radicalmente atingidos pelos seus efeitos. Essa afirmação importa aos estudos discursivos, uma vez que pode transformar profundamente as redes de sentido e o modo de circulação de saberes e dizeres. Nossa hipótese é a de que surgem, no espectro de uma formação social capitalista neoliberal, novas posições-sujeito que se relacionam singularmente com o digital. Isso significa que os discursos produzidos na era digital podem produzir efeitos na historicidade, remanejando sentidos. Assim, perguntamo-nos: de que forma o sujeito fura o espaço da discursividade digital e se marca na/pela linguagem? É a Análise de Discurso materialista e sua ideia de uma língua impossível<ext-link id="external-link-3" xlink:href="#_ftn3">[3]</ext-link> que parecem orientar nosso percurso. </p>
      <p id="paragraph-1facc9ecfa4780cb7778c19baed4b080">São nessas condições que procuramos entender a condição de sujeito na atualidade. Como a Análise de Discurso materialista pode colaborar para pensarmos novas formas de linguagem e de subjetividade na era digital? Como a relação entre sujeito e linguagem pode ser afetada por essas novas condições de produção? Essas são as questões centrais que guiarão nossa reflexão. Nas seções seguintes, discutiremos – através do movimento pendular próprio da Análise de Discurso – possíveis caminhos para entendermos a instauração de uma discursividade digital e seus efeitos na concepção de sujeito. Ao reunirmos um arquivo de textos que tratam a palavra como algo da ordem do (im)possível, objetivamos entender como as tendências produzidas no/pelo digital, como o “corte” de palavras, e as diretrizes de linguagem imprópria em plataformas e redes sociais, podem provocar a reorganização do sujeito, em relação à forma como este lida com a linguagem.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-65e0ae3f896c924677908ccf0684f591">
      <title>1. Sujeito, língua e era digital</title>
      <p id="paragraph-7bbd096140fff3c76bbb28b6ba6d44e5">Para pensar a historicidade e as relações complexas que vivenciamos como sujeitos deste tempo, devemos compreender a mudança de uma sociedade disciplinar, na esteira do que nos diz Foucault (2008), para uma sociedade da produtividade, conforme o que afirma Han (2015). Desse modo, temos uma pista para percorrer um caminho e compreender como o discurso, produzido em condições de produção do digital, afeta o sujeito. Essas mudanças colocam o sujeito à deriva da relação entre linguagem e ideologia e nos provocam a pensar nas contradições estabelecidas pelo digital.</p>
      <p id="paragraph-206c09b6c9893f5cb01397a99bc6baf9">Essas reflexões são importantes para este trabalho, na medida em que podemos pensar como a “era digital” circunscreve o tempo aos sujeitos. A vida passa a ser digital, no sentido em que os sujeitos se comunicam, trabalham, têm seus momentos de lazer e ócio, dentro desse espaço. Não só isso: a linguagem passa a ser quase restrita a esse lugar, que delimita os sentidos e dá uma aparente nova configuração à nossa formação social.</p>
      <p id="paragraph-5c65e7b48cc6d7d7727595aa7e09d23d">No prefácio da edição brasileira de 2010 do texto original de 1969, intitulado <italic id="italic-a18ac28218cf452e43d213d61cb2d95e">Por uma análise automática do discurso</italic>, Françoise Gadet nos diz que uma das características principais da Análise de Discurso é a teoria do sujeito. A autora afirma que esse tema “deve ser visto como um lugar problemático, que deve ser constituído” (Gadet, 2010, p. 9). A transformação da sociedade e da história nos mostra que o sujeito é efeito dessa transformação e o discurso nos revela as pistas dessa mudança. </p>
      <p id="paragraph-4773340ac14d70f4bb7ab3bb680f493a">Já em 1975, com a publicação de <italic id="italic-e3b0ef77c6f8786562b045dc5f16e204">Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio</italic>, Pêcheux fala sobre o domínio teórico da Análise de Discurso, determinado por “três regiões interligadas”, a saber “<italic id="italic-3">a subjetividade, a discursividade e a des-continuidade das ciências/ideologias”</italic> (2009[1975], p. 121-122, grifos do autor). Para o autor, “a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos”, ou seja, “o indivíduo é interpelado como sujeito [livre] para livremente submeter-se às ordens do Sujeito, para aceitar, portanto [livremente] sua submissão...” (2009[1975], p. 124). Assim, Pêcheux nos mostra que a ideologia é um campo aberto: não há como um sujeito não se posicionar em seu discurso, ao mesmo tempo em que parece não haver possibilidades de insubmissão às ordens do outro. A pergunta, no entanto, que pretendemos responder é: a quais ordens os sujeitos estão sendo submetidos na “era digital”?</p>
      <p id="paragraph-b5c0280f2054725fd04ec0c0a7a21b74">Assim, cabe-nos questionar o lugar que o sujeito ocupa na transformação histórica e ideológica que hoje estão alicerçadas nos novos espaços de circulação, que modificam ou nos fazem repensar esse lugar para o sujeito. Essas mudanças são profundamente atravessadas pelo domínio do algoritmo. Nas palavras de Paveau:</p>
      <p id="paragraph-5bc6cd48960d42a8c8468fe9e3095b4e">-</p>
      <p id="paragraph-83e089986cf1c6473a5b954a5bc80a30">[...] muitas vezes parecem ter uma existência própria e capacidades de decisão, são evidentemente criados por humanos, profissionais da informática, codificadores, programadores (Schmitt 2014b); mas os seus efeitos nos conteúdos da internet e, consequentemente, nas nossas vidas, são importantes (Paveau, 2023, p. 39).</p>
      <p id="paragraph-be0a36f38de79e3f86a84ee9c1eef78c">-</p>
      <p id="paragraph-a2e550f4ce87adc0e1ec41f3a0d8cb05">Ainda que na referida publicação de 1981 Gadet e Pêcheux não estivessem falando do discurso digital e da imposição algorítmica, por óbvio, os autores nos dão pistas para pensar possibilidades de linguagem que dificultam o dizer e os sentidos. Ao analisar discursos neoliberais em confronto à crise do marxismo, os autores mencionam a “língua de madeira” e dizem que “a língua de madeira do direito se enrosca com a língua de vento da propaganda e da publicidade” (Gadet; Pêcheux, 2010 [1981], p. 23). Essa língua maciça revela a rigidez de um discurso que busca apagar a historicidade. Enquanto a língua de madeira representaria uma “forma política de denegar a política” (Gadet; Pêcheux, 2010 [1981], p. 24), a língua de vento permitiria à linguagem, em seu caráter publicitário, exercer o controle, ainda que esse controle não tenha um líder aparente. A língua de vento promoveria a dispersão de uma linguagem sem memória.</p>
      <p id="paragraph-6b73b93a4ddc87d8f3fa533e355c8328">Nesse jogo em que a linguagem assume formas concretas de estabelecer a ideologia, a teoria materialista do discurso mostra que a reprodução/transformação das relações de produção se dá não apenas na base ideológica, mas considera também as determinações econômicas. Essa é uma questão importante para este trabalho, uma vez que estamos considerando a “era” digital, como um elemento que “abriga” todos os sujeitos de uma determinada formação social. Ainda que o acesso ao campo digital não seja homogêneo e uniforme, seus efeitos se dão sobre os sujeitos. Isso significa que as implicações econômicas (e, portanto, políticas) produzem efeitos sobre o sujeito.</p>
      <p id="paragraph-09717038336615bbe39b9402c5dfe481">Assim, as línguas do digital não parecem mais ser de madeira, ferro ou vento, justamente porque se imbricam em um (nem tão novo) espaço de circulação de dizeres. Esse espaço de circulação desvela um jogo em que as palavras podem imaginariamente parecer transparentes, ao mesmo tempo em que os sentidos parecem ser obscurecidos. Esse funcionamento produz imaginariamente uma língua sem sujeito, que apaga a constituição histórica das práticas discursivas efetuadas por esse sujeito. Se o digital produz uma “mudança na relação da ordem simbólica com o mundo”, como afirma Dias (2016, p. 9), os dizeres, constituídos nas condições de produção atravessadas pelo digital, também se modificam e também fazem modificar o sujeito que produz sentido. Ou seja, faz com que a relação do sujeito e o conhecimento produzido no/pelo digital esteja relacionada a “um funcionamento específico da memória, cuja natureza é digital” (Dias, 2016, p. 9).</p>
      <p id="paragraph-982fad92d3d0b29f1a9c5376bf6f5edf">Segundo Dias, o digital provoca uma mudança na “discursividade do mundo”, o que a autora chama de “digitalização do mundo, ou seja, práticas de linguagem que tendem à metaforização das relações sociais e das práticas dos sujeitos que, por meio do acesso deslocam o campo da “luta” para uma inscrição na forma digital” (Dias, 2016, p. 10). A autora afirma que o dizer passa a ser inscrito em condições de produção que são afetadas por grandes corporações de tecnologia. O discurso passa a ser formado e conformado pelo digital. </p>
      <p id="paragraph-0a45e2eba67b7d58ce50103f79fbe19b">Sobre a questão do digital, Orlandi (2013) já enunciava um atravessamento daquilo que nomeou como “memória metálica”, ou seja, a memória que se constitui a partir/no digital, a partir das máquinas. Essa constituição faz efeito no sujeito e no sentido. Segundo a autora: </p>
      <p id="paragraph-96d00f23ac0f47907df4cf852994a4e2">-</p>
      <p id="paragraph-44d5a1b3de78a8470f094fd4f1cfab6f">A partir do princípio discursivo do trabalho do político, levamos em conta o fato de que o sentido é sempre dividido, tendo uma direção que se especifica na história, pelo mecanismo ideológico de sua constituição; há simbolização das relações de força, de poder, que se estabelecem na divisão própria à sociedade capitalista. Ligam-se aí três noções: o político, o histórico (o Outro, a memória, o interdiscurso) e o ideológico. A sociedade não é inerte (ORLANDI, 2012a) e a formação social é constituída de relações que resultam, em última instância, dos modos de individuação dos sujeitos pelo Estado, relações que são de natureza político-social, simbolizadas (Orlandi, 2013, p. 6).</p>
      <p id="paragraph-4c0d7e830005ef1b388c4b485079fac1">-</p>
      <p id="paragraph-19634e0571c1518f5917d7a5a949bd21">A autora diz que, nessas condições de produção da “era digital”, “emerge uma nova materialidade discursiva para falar da realidade e um novo real surge” (Orlandi, 2013, p. 9). É nesse caminho que assistimos, para usar uma expressão de Dufour (2005), é uma “fratura na modernidade”, já que a relação dos sujeitos com a história passa a ser atravessada e afetada pelo digital. </p>
      <p id="paragraph-e45fd446caa130b18ec6b4074a519e63">O autor investiga como o sujeito está mudando na pós-modernidade, esse espaço-tempo que dessimboliza o mundo, transformando todo e qualquer sujeito em um produto. Assim, junto com o desaparecimento da história e seus símbolos, há uma padronização da subjetividade. Ou seja, a mudança na discursividade, apontada por Dias, pode também nos dar indícios de uma transformação na relação do/com o próprio sujeito.</p>
      <p id="paragraph-118104750205bbb739124f09aa91db78">Somada a essa ideia de uma sociedade interpelada pelo digital, na qual nos parece impossível nos recusarmos a viver, trazemos as reflexões de Han (2015). O autor diz que estamos inseridos em uma nova lógica social e demonstra que a sociedade disciplinar desenhada por Foucault, “feita de hospitais, asilos, presídios e fábricas” (Han, 2015, p. 23), que instituía, até então, um sujeito da obediência, está dando lugar a uma “sociedade do desempenho”, em que os sujeitos são, em suma, “empresários de si mesmos” (Han, 2015, p. 23). </p>
      <p id="paragraph-c25d4819d89c0d7b5344eecfa6df96ce">O autor diz que o desejo de maximizar a produção é um indicativo de uma mudança de paradigma, ou seja, da mudança de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho. De acordo com Han: </p>
      <p id="paragraph-15934031744adfdb5e591261315ab3a0">-</p>
      <p id="paragraph-ed9eb91203bf0d4a5acabf833df618ca">Para elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho ou pelo esquema positivo do poder, pois a partir de um determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento. A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever. Assim o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência (Han, 2015, p. 25).</p>
      <p id="paragraph-bab9fa7df352f2ad16ec246145bcf2a4">-</p>
      <p id="paragraph-8f1723bcc1d445f5a741b7200556bd50">Ao explicar como o sujeito do desempenho acaba sendo “submisso a si mesmo” (Han, 2015, p. 29), tendo uma liberdade imaginária de atuação, é possível que tracemos um paralelo com o escopo teórico da Análise de Discurso, especificamente em relação à noção de forma-sujeito. Para Pêcheux</p>
      <p id="paragraph-9bfbc0a09f8862cadc1d1b7a945a2546">-</p>
      <p id="paragraph-08b4600290f77f81ac0b1610d0cf2bba">A interpelação do indivíduo em sujeito de seu discurso se efetua pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o domina (isto é, na qual ele é constituído como sujeito): essa identificação, fundadora da unidade (imaginária) do sujeito apóia-se no fato de que os elementos do interdiscurso (sob sua dupla forma, descrita mais acima como “pré-construído” e “processo de sustentação”) que constituem, no discurso do sujeito, os traços daquilo que o determina, são re-inscritos no discurso do próprio sujeito (Pêcheux, 2009 [1975], p. 150).</p>
      <p id="paragraph-122a45af158cf4926617e7ccb114a1d6">-</p>
      <p id="paragraph-2f29c19479c73f7fa7c7966c120e8580">Se estamos sob o domínio de uma formação social capitalista neoliberal, em que o sistema político-econômico se confunde em si mesmo, o discurso do Outro passa a ser um discurso do Mercado. Linguagem e sujeito se tornam mercadorias construídas e reconstruídas conforme as determinações da era digital. Talvez a própria linguagem possa ser vista como uma mercadoria a qual o sujeito controla como quer (e, por isso, molda as palavras, subtrai as sílabas, como veremos mais adiante).</p>
      <p id="paragraph-f374b3caa8d7e722b3b5dbd32a509606">Conforme Dufour (2005, p. 24), “não podemos fazer pouco caso de que ser sujeito hoje se apresenta sob uma modalidade bastante sensivelmente diferente do que era para as gerações precedentes”. Para o autor, não estamos mais falando de um mesmo sujeito de uma geração atrás porque a condição de sujeito está relacionada à historicidade: “provavelmente acabamos de atravessar, a esse respeito, um limite importante, ao qual grandes instituições (políticas, educativas, de saúde física e mental, de justiça...) são particularmente sensíveis” (Dufour, 2005, p. 24).</p>
      <p id="paragraph-75fb7a5e1366cb8dadbc8f5517100f8e">É dessa forma que, afetada pela relação com a história, a ideologia e o inconsciente, a Análise de Discurso materialista é uma teoria que nunca se esgota. Ainda que sua fundação remonte aos anos 1960, essa corrente teórica tem se estabelecido de forma cada vez mais atual e necessária para pensarmos as transformações do nosso tempo. O discurso passa a ser o campo em que é possível entender como esses sentidos são remanejados já que é </p>
      <p id="paragraph-18c47242cf56bb0b07a9d73d3f87192f">-</p>
      <p id="paragraph-6dbaedeb40cb5ba89437df309ca153fd">o objeto que nos permite observar as relações entre ideologia e língua, bem como os efeitos do jogo da língua na história e os efeitos desta na língua. É através do discurso que se vai compreender como um material simbólico produz sentidos e como o sujeito se constitui (Leandro-Ferreira, 2003, p. 193).</p>
      <p id="paragraph-10b5dfdeb2db580c41275f754b508d4c">-</p>
      <p id="paragraph-90f7c3d08ef8449c7df7ad27bdbf96ad">Pensando que o discurso é o modo de “acesso” ao sujeito, entendemos esse espaço como uma forma de tensionamento de dizeres, de um confronto de sentidos que nos permite olhar e identificar novos processos. Nosso objetivo é compreender como possíveis novas posição(ões)-sujeito se articula(m) ao desenho da formação social atravessada pelo digital. Especificamente, desejamos entender essa nova forma de subjetivação e seus efeitos no discurso, analisando rupturas, estranhamentos ou ressonâncias, de modo a pensar nos efeitos da discursividade.</p>
      <p id="paragraph-1457524f8e71feff67eed002315b6771">Ao utilizar o digital como meio para comunicar-se a apresentar-se no mundo, é preciso diferenciar, segundo Paveau, a produção de linguagem “na máquina” e “da máquina”. Conforme a autora, a produção da máquina é “uma evolução inédita na história da linguagem, que as ciências da linguagem não devem negligenciar” (Paveau, 2023, p. 33). Ou seja, as elaborações de Paveau, a respeito do digital, refletem também uma necessidade de olhar para o contemporâneo como um espaço que produz efeitos na linguagem e no sujeito. </p>
      <p id="paragraph-07d01a3f6f70425352b0ec9578b529bf">Na esteira do pensamento de Paveau, perguntamo-nos o quanto o sujeito resiste à máquina ao instituir um gesto de escrita que pretende desviar da configuração algorítmica, isto é, trapaceia a língua: “característica do discurso que permite, sem sair da língua (mas quando se sai?), contrariar a obrigação da língua” (Gadet, 2016 [1980], p. 197). É desse modo que propomos pensar a língua de bruma.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-eb9d59403fbb711a195c62bd07459f21">
      <title>2. Análises na língua de bruma </title>
      <p id="paragraph-b46b0d0f1c83d54f60a7538b1dc6fc2e">Na Análise de Discurso, o movimento metodológico está relacionado aos pressupostos teóricos. Por isso, em nossos estudos, adotamos a ideia de “movimento pendular”, conforme Orlandi (2012), como uma forma de pensar a relação da rede de conceitos que suportam essa teoria e o nosso objeto de análise. Dessa forma, para pensarmos em um "método", é preciso que possamos estabelecer um <italic id="italic-64d0c1c65998fd27ab907f508251de30">corpus</italic> de análise. O <italic id="italic-5a09f4c2d5dea697da3102e472dd9972">corpus</italic> apresentado aqui foi pensado considerando a discursivização dos sujeitos na “era digital”, verificando os efeitos desse discurso nas produções de linguagem. No entanto, nosso corpus faz parte de um arquivo em constante construção, dada a dissipada natureza de nosso objeto de pesquisa.</p>
      <p id="paragraph-d9c64438a4e0012572f89d09c317b4ae">Por isso, a constituição desse <italic id="italic-dc7dd23fa6468051661d77150da946ba">corpus</italic> discursivo para a análise não é linear, conforme afirma Mittmann (2007, p. 158). Para a autora, “não há uma passagem natural da dispersão do arquivo à seleção de texto do nosso corpus empírico e deste à organização das sequências discursivas que formam nosso corpus discursivo”. Desta maneira, a seleção dos elementos linguístico-discursivos para análise deverá passar pelo confronto entre o <italic id="italic-4">corpus</italic> e os conceitos teóricos constituídos nesse percurso analítico. Devido a isso, as considerações metodológicas devem ser construídas em conjunto com os pressupostos teóricos, ou seja, o olhar do analista deve consistir em uma abordagem teórico-analítica, em que a construção do dispositivo teórico esteja em consonância com a análise do <italic id="italic-5">corpus</italic>.</p>
      <p id="paragraph-bb27d7b5e0ccbc4768d41e24433c5c9d">Conforme Leandro-Ferreira (2003, p. 199), “do modo como o analista de discurso entende a língua vão decorrer efeitos de sentido que afetarão os procedimentos de análise”. Assim, como analistas, nosso olhar para um objeto é definido a partir de um modo particular e fundamentado teoricamente, de modo que as respostas às nossas inquietações possam ser, não exatamente respondidas, mas contornadas, delineadas em relação ao modo como a ideologia atravessa os dizeres. </p>
      <p id="paragraph-e678b71658e97be13285b96ca36e15ca">Para delinear tais inquietações, temos especial interesse em compreender materialidades discursivas que são produzidas no campo digital, produzindo efeitos no sujeito. Intentaremos explicar como essas articulações dão pistas de um modo de organização próprio desse discurso. Para isso, trabalharemos com a definição de <italic id="italic-6">corpus</italic> <italic id="italic-7">de arquivo</italic>, definido por Courtine (2009) como aqueles “constituídos de materiais preexistentes, como aqueles com os quais, por exemplo, os historiadores são confrontados” (Courtine, 2009, p. 77). </p>
      <p id="paragraph-879cefd28ef3b1919dc5dda275dab0d7">Para construir nossa análise, selecionamos textos que apontam transformações na própria linguagem, em condições de produção afetadas pelo digital. Para darmos início a esse gesto analítico, citamos as transformações feitas na língua por usuários da rede social TikTok, que foram amplamente divulgadas pela mídia. A partir da leitura de uma notícia sobre crianças que estariam falando palavras sem as últimas sílabas, refletimos sobre como tal comportamento deriva de uma tendência das redes sociais que, por sua vez, é efeito da influência de youtubers e outros influenciadores digitais nas redes sociais. E, assim, assistimos às mudanças na relação sujeito-linguagem e sobre o efeito-sujeito que advém daí.</p>
      <p id="paragraph-96ac910591508f7c0438df3f9ec3a9a5">Pensamos nos efeitos que essa discursividade provoca. Novas formas de falar, de falar de si ou do outro, somadas a condições de produção digitais podem fazer com que estejamos – enquanto sujeitos de linguagem – passando por uma profunda transformação na concepção subjetiva. Quem é esse sujeito submetido aos desígnios de um outro que está ao alcance das pontas dos nossos dedos? Quem passamos a ser a partir dessa subjetividade construída e demandada num lugar abstrato ocupado pelo digital?</p>
      <p id="paragraph-2103c3bab685041ffbc1233d5aa788d6">Em uma das matérias jornalísticas acessadas, vemos o seguinte título [SD1] “<italic id="italic-8">Trend do corte seco: imitando youtubers, crianças ‘comem’ sílabas ao falar e 'desesperam' pais e professores</italic>”. Na linha de apoio do texto, lemos: <italic id="italic-9">“Alunos de 6 a 12 anos falam: 'Quero comer hambúr!' ou 'Vou para escó', por exemplo. Entenda se brincadeira pode trazer prejuízos para o desenvolvimento cognitivo na infância</italic>” (Globo, 2024).</p>
      <p id="paragraph-de3574d22d0b0fd72df2a22092a43c65">Em outra notícia, lemos o seguinte: [SD2] “<italic id="italic-10">Trend do Corte Seco: crianças cortam palavras e preocupam pais e professores</italic>”. Ao longo do texto, recortamos o seguinte trecho: “<italic id="italic-11">Por influências ligadas ao uso excessivo de celulares e tablets, algumas crianças e adolescentes passaram a falar de um jeito peculiar: cortando as últimas sílabas de algumas palavras. Em vez de falar "Agora eu vou estudar", elas dizem "Agora eu vou estu". E a frase "Eu quero almoçar frango" vira "Eu quero almoçar fran". A moda tem até nome: é o 'trend do corte seco'</italic>.” (CBN, 2024)</p>
      <p id="paragraph-ec1c31714dd9470600c9686076758e99">Na SD1, vemos a menção da palavra “comer” com o uso de aspas para se referir ao gesto de “corte” das palavras, mostrando, a partir de um gesto metafórico, como a língua está sujeita a um entre-lugar, ou seja, um modo de falar sobre a afetação do digital, cujos efeitos ainda não compreendemos bem. O mesmo uso entre aspas se repete em “desesperam” que parece não ser a palavra exata, que é atenuada (talvez não seja tão desesperador assim).</p>
      <p id="paragraph-10">Já na SD2, lemos “cortar palavras” e “preocupar pais e professores”, que desvela um sentido um pouco mais próximo ao fenômeno, mostrando um funcionamento em que as crianças propositalmente tentam cortar a sílabas das palavras. É preciso mencionar o quanto “cortar” as palavras pode ser desafiador ou contrário à ordem natural da língua. Não estamos falando de uma variante linguística ou de modos de economia linguística, próprios à evolução das línguas. Estamos falando de um sujeito que, atravessado pelas injunções do digital, “escolhe” produzir uma nova forma de linguagem. Ao “optar” por essa forma de discursivização, o sujeito adapta a língua, e o sentido passa a ser produzido a partir da criatividade e não da produtividade (Orlandi, 2012, p. 37), irrompendo um efeito diferente, que afasta a rigidez própria às línguas de ferro, por exemplo. </p>
      <p id="paragraph-eb9ce1607a6270f8d4a543c964c01f04">Ainda que não seja o foco de nosso trabalho, é preciso mencionar o quanto a mídia demonstra o modo como pais e professores deveriam agir no controle das redes, deixando ao professor (também!) a tarefa de controle da linguagem, já que, como imaginariamente propagadores da norma, os professores também devem zelar pela correta circulação das palavras.</p>
      <p id="paragraph-22283ed5925ee19a2e4a44ab9de84297">Nas sequências discursivas mencionadas acima, questionamo-nos: quando os sujeitos passam a “cortar” palavras para se comunicar em uma rede social, estamos diante de qual concepção de sujeito e de qual relação desse sujeito com a língua? Como esses efeitos transformam/produzem posições de sujeito em relação à língua?</p>
      <p id="paragraph-13">A “brincadeira” de cortar as palavras não é só uma preocupação de pais e professores, portanto. Revela o atravessamento de uma língua que não diz nada, apenas repete parafrasticamente aquilo que virou a “trend”, ou seja, a tendência. É o sujeito da produtividade que repete o que deve ser repetido, o que “viraliza” e gera a sensação de pertencimento, na sociedade do desempenho.</p>
      <p id="paragraph-a730d121bd7fbaec8d5b57a7bbbb58ec">Essa língua que não diz nada, no entanto, produz sentido, porque se torna possível ao ser dita, ou seja, ajuda-nos a desenhar uma outra posição-sujeito em nossa formação social, que desvela uma possibilidade de relação do sujeito com a língua que antes não poderia ser imaginada. Desvela o confronto entre uma língua imaginária, que serviria à comunicação e ao consenso, e uma língua “faltante”, que mostra sua impossibilidade de tudo dizer. Nessa perspectiva, essa prática discursiva nos dá indícios de um sujeito que propositalmente falha para, pela falha, pertencer ao espaço digital e, daí, passar a ser considerado um sujeito.</p>
      <p id="paragraph-3164cdd2bb21b3f30900c6eecea08665">Além dos exemplos do chamado “corte seco”, podemos também citar as políticas de linguagem da plataforma YouTube. Em pesquisas preliminares, foi possível observar que, nesta plataforma, palavras são consideradas “polêmicas” ou “perigosas”, por engendrarem sentidos relacionados à violência ou a crimes. Uma das formas de impedir a circulação de vídeos violentos ou que possam fomentar o crime é a criação de uma política de linguagem. Para fugir dessa imposição, os usuários passam a produzir uma escrita que é formada não apenas por letras, mas também por números e/ou algarismos e caracteres diversos, de forma a evitar o banimento do usuário pela plataforma ou a restrição da divulgação de vídeos. Mas, uma mirada mais aprofundada às diretrizes dessa plataforma revela que palavras que não necessariamente designam sentidos comumente relacionados à violência também são capturadas pelas políticas de linguagem. </p>
      <p id="paragraph-16">A exemplo disso, citamos o caso das diretrizes de conteúdo adequado para publicidade no YouTube, que trata dos vídeos feitos pelos criadores de conteúdo que são considerados adequados para publicidade. Na seção “linguagem imprópria”, uma tabela com alguns exemplos é apresentada. Destacamos alguns trechos:</p>
      <p id="paragraph-fe67f18750da861088ce24e529901429">[SD3] “<italic id="italic-12">Conteúdo que pode gerar receita de publicidade - Linguagem obscena abreviada ou disfarçada e palavras como "inferno" ou "droga" no título, na miniatura ou no vídeo. Linguagem obscena moderada, como "vadia", "droga", "babaca" e "merda", usada com frequência no vídeo. Linguagem obscena usada em músicas ou vídeos de stand-up de comédia</italic>”. A tabela cita como exemplos de linguagem obscena: "<italic id="italic-13">Linguagem obscena disfarçada" se refere a tentativas de encobrir um palavrão com efeitos sonoros ou um texto com faixas, símbolos ou efeitos durante a edição e "Linguagem obscena abreviada" se refere a siglas como "PQP" ("p*ta que pariu")</italic>”(Google, [s.d.]).</p>
      <p id="paragraph-cbcadf39803b6816e624615adf64240f">[SD4] “<italic id="italic-14">Conteúdo que pode gerar receita de publicidade limitada ou nenhuma receita - Linguagem obscena moderada, como "merda", no título ou na miniatura</italic>”. Os exemplos citados englobam o “<italic id="italic-15">uso frequente de linguagem obscena durante um vídeo, por exemplo, na maioria das frases; linguagem obscena no título ou na miniatura da música ou em conteúdo de stand-up de comédia</italic>” (Google, [s.d.]).</p>
      <p id="paragraph-19">[SD5] “<italic id="italic-16">Conteúdo que não vai gerar receita de publicidade - Linguagem obscena mais pesada, como palavrões, em miniaturas ou títulos. Uso de linguagem obscena extrema, inclusive insultos e palavras de ódio, no vídeo, na miniatura ou no título. Exemplos: "cr***lo" ou "v**do".”</italic> O exemplo dessa categoria é o “<italic id="italic-17">uso da linguagem de ódio no vídeo</italic>” (Google, [s.d.]).</p>
      <p id="paragraph-047bea5c92206b1c647b061a174d10ef">As sequências discursivas de que tratam as SD3, SD4 e SD5 são exemplos de uma concepção autoritária da linguagem que parece circunscrever o digital a uma conformidade política, em uma visão da língua ajustada à língua de madeira, do controle. No entanto, as próprias diretrizes demonstram a equivocidade material, ao escrever/inscrever a língua como possibilidades outras, ao nomear palavras a partir do uso de asteriscos. São palavras deslizantes, que dizem uma coisa para significar outra. </p>
      <p id="paragraph-c04aed2972f4baf9eee8f7411171146d">Mais do que isso, inscrevem, sob a lógica do capital, quais palavras podem “gerar receita”, isto é, podem fazer com que os vídeos sejam mais ou menos rentáveis financeiramente. As palavras passam a ter um valor monetário e adquirem, junto ao sujeito, o status de produto. A ideia da palavra como conteúdo também revela um imaginário transparente de língua, em que as palavras revelariam seu conteúdo de forma inequívoca.</p>
      <p id="paragraph-36d3a2e18772235436486810da696645">Na SD3, observamos o exemplo de uma palavra como “droga” como uma “linguagem obscena disfarçada” ou “linguagem obscena moderada”. Perguntamo-nos, no entanto, como seriam os casos de vídeos jornalísticos que desejem divulgar uma matéria sobre o tráfico de drogas, por exemplo. Esse vídeo sofreria as sanções da “desmonetização”? Como, sem considerar as condições de produção, o discurso digital sabe se uma palavra como “droga” está relacionada à linguagem considerada “obscena” ou à linguagem jornalística, que pretende divulgar determinado acontecimento?</p>
      <p id="paragraph-4d305c03acd2b0914d74233c44150b1e">No entanto, esse saber é atravessado pela falha na língua. O próprio dizer sobre o digital reconhece a existência de formas não-lineares linguisticamente, mas que produzem efeitos no dizer. A exemplo da SD5, podemos dizer que os sujeitos falantes da língua sabem o que significa <italic id="italic-18">"cr***lo", </italic>ainda que essa palavra não se apresente “integralmente” ao texto. Ou seja, o discurso escapa às determinações do algoritmo e constitui sentido.</p>
      <p id="paragraph-e2d4ccd6c9e13bde6a8a7efcdd8bcf10">Da mesma forma, os sujeitos-usuários trapaceiam a língua, escrevendo palavras como” “b4l3ad4” “t1r0te10” “at1ng1d4” e “f3r1m3nt0s”, como em uma notícia sobre um caso de violência em uma grande cidade. Ou seja, de alguma maneira, o espaço digital controlado e rígido é furado, instituindo uma (outra) materialidade possível.</p>
      <p id="paragraph-25">Os trechos citados constituem exemplos de um trabalho com o arquivo, que é constituído a partir do digital, que apontam para esse estremecimento nas relações subjetivas que são produzidas a partir da/pela era digital. As transformações da linguagem (a substituição, a falta, o estranhamento), engendradas nessas condições de produção mobilizam novas posições de sujeito e passam a circunscrever discursividades outras.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-504dad5356662046b5e98b047eadbb14">
      <title>3. Possíveis conclusões</title>
      <p id="paragraph-d124632bf3b2ef23cef3db9a5d8f3695">Com base nas inquietações propostas neste trabalho, intentamos mostrar – ainda como um gesto inicial de nosso trabalho – como, da perspectiva da Análise de Discurso materialista, podemos pensar a emergência de uma nova forma-sujeito que se relaciona com a ideologia a partir das condições de produção alicerçadas no digital. </p>
      <p id="paragraph-77706be24bd5160bfe6c801897ee861f">Em nosso gesto de leitura do corpus mencionado, recorremos à análise de um discurso que se apresenta como cada vez mais parte ou tomando parte de nossas vidas. Há um atravessamento ideológico presente no digital, que revela um confronto da língua que se pretende transparente com a língua de bruma, que opacifica os sentidos e põe o sujeito à deriva do dizer. </p>
      <p id="paragraph-4e26074877f40dfee347429c33b341a8">A língua de bruma, nesse aspecto, converge-se como uma análise possível para entender como o digital tenta arregimentar o sujeito, confundindo-o, deixando-o entrever o que é e o que não é, o que pode e o que não pode. É uma língua que trabalha na dissipação dos sentidos e exige que o sujeito, a todo momento, esforce-se para continuar a ver.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-b20215e7a7fdc36844d18267e348e041">
      <title>Informações Complementares</title>
      <p id="paragraph-23dd0c3904537938e3fdb528caed87b2">
        <bold id="bold-76c1b36dda72b7b2dbffff389071ce3e">Conflito de Interesse</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-4e7f00371eff2c37cda26692b6c88322"> A autora declara não haver conflitos de interesse.</p>
      <p id="paragraph-042952b5d314d1ad6e7bcee3527145c4">
        <bold id="bold-f36b4ddaf89ed48c3e3d8df42c5afd7c">Declaração de Disponibilidade de Dados</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-1afcd6dd9a95e20524e26840a545e7cc">Os dados, códigos e materiais que suportam os resultados deste estudo estão disponíveis abertamente em Zenodo através do DOI https://doi.org/10.5281/zenodo.18355873, em formato que permite ser lido e processado automaticamente por computador. Esses dados foram derivados dos seguintes recursos acessíveis publicamente na internet: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2024/10/25/trend-do-corte-seco-imitando-youtubers-criancas-comem-silabas-e-desesperam-pais-e-professores.ghtml, https://cbn.globo.com/tecnologia/noticia/2024/11/02/trend-do-corte-seco-criancas-cortam-palavras-e-preocupam-pais-e-professores.ghtml e https://support.google.com/youtube/answer/6162278?hl=pt-BR#zippy=%2Cdetalhes-da-pol%C3%ADtica. O corpus foi coletado de recursos acessíveis publicamente na internet no dia 23 de janeiro de 2026. Para mitigar mudanças e indisponibilidades, foi depositada uma versão preservada do material efetivamente analisado em repositório via DOI. O DOI do depósito preservado é: https://doi.org/10.5281/zenodo.18355873.<bold id="bold-e8ce645dc88b120d942d7a679def2f8e"/></p>
      <p id="paragraph-db3201a769364231c45b75a6597a5bb1">
        <bold id="bold-3fdc2dd3cc69dd3fa15566f4ba8e1692">Declaração de Uso de IA</bold>
      </p>
      <p id="heading-b2b19cb0c06468aaa80831c38736e335">A autora declara que nenhuma ferramenta de IA foi utilizada na criação deste manuscrito nem em qualquer aspecto dos trabalhos realizados cujo resultado está reportado no manuscrito.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-ef908ce5688792bd1fef9a8d4102ffa8">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-816c8d392f8a35353503f6e70afc81a7">CBN. <bold id="bold-a4ad4ea95dc88352441dc5e1d2ca5cfa">Trend do corte seco: crianças cortam palavras e preocupam pais e professores</bold>. Rio de Janeiro: Globo, 02 nov. 2024. Disponível em: https://cbn.globo.com/tecnologia/noticia/2024/11/02/trend-do-corte-seco-criancas-cortam-palavras-e-preocupam-pais-e-professores.ghtml. Acesso em: 26 jan. 2026. </p>
      <p id="paragraph-75c0995121300a5dea0bd2b1a11e7ae5">COURTINE, Jean-Jacques. <bold id="bold-62bfaa85d5111407c480d5a5b0fd4ae6">Análise do discurso político:</bold> o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos: EdUFSCar, 2009.</p>
      <p id="paragraph-6c244deeb89e70aced1abc4f6d8e8cd2">DIAS, Cristiane. A análise do discurso digital: um campo de questões. <bold id="bold-3">Redisco</bold>, Vitória da Conquista, v. 10, n. 2, p. 8-20, 2016. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/index.php/redisco/article/view/2515. Acesso em: 05 jun. 2026.</p>
      <p id="paragraph-51b57996eebb2c074ff8c0f5c535e45f">DUFOUR, Dany-Robert. <bold id="bold-4">A arte de reduzir as cabeças</bold>: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Tradução de Sandra Regina Felgueiras. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.</p>
      <p id="paragraph-a6ae9778d81fd69b689d26dc1e15610e">FOUCAULT, Michel. <bold id="bold-5">Vigiar e punir</bold>: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 35. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. </p>
      <p id="paragraph-a3c870d6557666c8b90c88fa366d2606">GADET, Françoise. Prefácio. In: GADET, Françoise; HAK, Tony (org.). <bold id="bold-6">Por uma análise automática do discurso</bold>. Campinas: Editora da Unicamp, 2010. p. 7-10.</p>
      <p id="paragraph-0f2b3ca38363d77c63972239bc0194dd">GADET, Françoise. Trapacear a língua (1980). In: CONEIN, Bernard; COURTINE, Jean-Jacques; GADET, Françoise; MARANDIN, Jean-Marie; PÊCHEUX, Michel (org.). <bold id="bold-7">Materialidades discursivas</bold>. Campinas: Editora da Unicamp, 2016. p. 185-200.</p>
      <p id="paragraph-1706b02b0f9b8a9f324487464c1d9484">GADET, Françoise; PÊCHEUX, Michel. <bold id="bold-8">A língua inatingível</bold>: o discurso na história da linguística (1981). Campinas: Pontes, 2010.</p>
      <p id="paragraph-bbb8f10799867fe1a62a263c73412d87">GLOBO. <bold id="bold-9">Trend do corte seco imitando youtubers: crianças “comem” sílabas e desesperam pais e professores</bold>. Rio de Janeiro: Globo, 25 out. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2024/10/25/trend-do-corte-seco-imitando-youtubers-criancas-comem-silabas-e-desesperam-pais-e-professores.ghtml. Acesso em: 26 jan. 2026. </p>
      <p id="paragraph-e08e9675eb0581a86a3addded13dbd87">GOOGLE. <bold id="bold-10">Políticas de conteúdo do YouTube.</bold> Google, [s.d.]. Disponível em: https://support.google.com/youtube/answer/6162278?hl=pt-BR#zippy=%2Cdetalhes-da-pol%C3%ADtica. Acesso em: 26 jan. 2026. </p>
      <p id="paragraph-1e66a254f17768670e98bdda05fa27ff">HAN, Byung-Chul. <bold id="bold-11">A sociedade do cansaço</bold>. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>
      <p id="paragraph-c972ba465c5a2d0e26c6ba50fe89d5f9">LEANDRO-FERREIRA, Maria Cristina. O caráter singular da língua na análise do discurso. <bold id="bold-12">Organon</bold>, Porto Alegre, v. 17, n. 35, p. 189-200, 2003.</p>
      <p id="paragraph-6967062b419cf7dba85332f115e601d6">MITTMANN, Solange. Discurso e texto: na pista de uma metodologia de análise. In: FERREIRA, Maria Cristina; INDURSKY, Freda (org.). <bold id="bold-13">Análise do Discurso no Brasil:</bold> mapeando conceitos, confrontando limites. São Paulo: Claraluz, 2007. p. 153-162.</p>
      <p id="paragraph-b02738e36370e2885ec7175f43204fc4">ORLANDI, Eni. <bold id="bold-14">Análise do discurso:</bold> princípios e procedimentos. 10. ed. Campinas: Pontes, 2012.</p>
      <p id="paragraph-053f2eeac669ff0fb3da3ffae811fc94">ORLANDI, Eni. A materialidade do gesto de interpretação e o discurso eletrônico. In: DIAS, Cristiane (org.). <bold id="bold-15">Formas de mobilidade no espaço e-urbano</bold>: sentido e materialidade digital [online]. Série e-urbano. Campinas: Labeurb, 2013. v. 2. Disponível em: https://www.labeurb.unicamp.br/livroEurbano/volumeII/arquivos/pdf/eurbanoVol2_EniOrlandi.pdf. Acesso em: 05 jun. 2026.</p>
      <p id="paragraph-250ed1b9c8ef3a749889989341196df7">ORTELLADO, Pablo. Três desafios para regular a circulação de notícias falsas. <bold id="bold-16">Folha de São Paulo</bold>, São Paulo, 16 jan. 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/pablo-ortellado/2018/01/1950799-tres-desafios-para-regular-a-circulacao-de-noticias-falsas.shtml. Acesso em: 27 fev. 2025.</p>
      <p id="paragraph-26">PAVEAU, Marie-Anne.<bold id="bold-17"> Análise do discurso digital</bold>: dicionário das formas e das práticas. Organização da tradução de<bold id="bold-18"> </bold>Julia Lourenço e Roberto Baronas. Campinas, SP: Pontes Editores, 2023.</p>
      <p id="paragraph-28">PÊCHEUX, Michel. <bold id="bold-19">Semântica e discurso</bold>: uma crítica à afirmação do óbvio. 4. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.</p>
      <p id="paragraph-30">SILVEIRA, Juliana. Sujeitos ordinários e efeito-rumor: discurso, arquivos e tecnologia. In: FLORES, Giovanna Benedetto; GALLO, Solange Leda; NECKEL, Nádia Régia Maffi; DALTOÉ, Andreia da Silva; SILVEIRA, Juliana; MITTMANN, Solange; LAGAZZI, Suzy; PFEIFFER, Claudia; ZOPPI-FONTANA, Mónica (org.). <bold id="bold-20">Análise do discurso em rede</bold>: cultura e mídia – vol. 4. Campinas: Pontes, 2019. p. 37-58.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-4af611fdc9d4b24b08c5e75d1c0a5c66">
      <title>Avaliação</title>
      <p id="paragraph-d1b922294c520ee67706e310b86632c7"><bold id="bold-16b6df8fe79d54d398b717750483b40f">DOI:</bold> https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID942.R</p>
      <sec id="heading-ee9fb74bd93a11eddd691becbadbd6c0">
        <title>Decisão Editorial</title>
        <p id="paragraph-72598ccb48a1993fdb6417d81d0f7390">EDITOR 1: Silmara Cristina Dela da Silva</p>
        <p id="paragraph-4fd136bd7a9a6384cef5e777e506c683">ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5231-6662</p>
        <p id="paragraph-dc35c65710fc0a9af2d112823bd7ecb1">AFILIAÇÃO: Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil.</p>
        <p id="paragraph-7420c1a373d5950a7bfa810b2a9dac71">-</p>
        <p id="paragraph-bb1aba392d4853b9a4d6bb142fde91ca">EDITOR 2: Evandra Grigoletto</p>
        <p id="paragraph-5fd09a185a44abd15c4e117aaef5b26f">ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1458-0491</p>
        <p id="paragraph-5e0206ec24488d77456190429c229413">AFILIAÇÃO: Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco, Brasil.</p>
        <p id="paragraph-a2e52505e1ca43d341fb1d361b43a54b">-</p>
        <p id="paragraph-0fdb850cfb179189dba45e4568b03f04">EDITOR 3: Solange Maria Leda Gallo</p>
        <p id="paragraph-24753a94d228ab808376507b627af79d">ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0243-4983</p>
        <p id="paragraph-f179b5b716870f5ba5c3fbe326a2ca64">AFILIAÇÃO: Universidade do Sul de Santa Catarina, Santa Catarina, Brasil.</p>
        <p id="paragraph-2942b1e1373dcbe912389b0cc8c7b443">-</p>
        <p id="paragraph-e5f28fe6097fa68a4841c1c903efd0e6">CARTA DE DECISÃO: O relato de pesquisa traz importantes contribuições para o campo da análise de discurso materialista, ao discutir o modo como as noções de língua e sujeito são afetadas pelo digital na produção de sentidos. Tomando um corpus ainda em construção, a autora analisa alguns exemplos de trends de cortes de palavras que “viralizam” no TikTok, além das diretrizes de conteúdo para circulação da linguagem no YouTube. A partir das análises, propõe a noção de língua de bruma, que está fortemente determinada pelo capital. Pelos avanços e projeções de futuras pesquisas relatados no artigo, recomendamos sua publicação.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-2ac61bb44e1108ff376902b04fb02d70">
        <title>Rodadas de Avaliação</title>
        <p id="paragraph-0f6da83fa9c72fac01583bbc0e7f9eaa">AVALIADOR 1: Mizael Inácio do Nascimento</p>
        <p id="paragraph-e1701b9e5f423e8f5a2bea8170cd70ed">ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8871-1282</p>
        <p id="paragraph-a1253dbc32cc4be0ccfe997318d8702e">AFILIAÇÃO: Universidade Federal Rural de Pernambuco, Pernambuco, Brasil.</p>
        <p id="paragraph-0891aed0ef804a1c9347f71192e5f8e0">-</p>
        <p id="paragraph-9e9637e8ab9fcc9c696293441e6dfb83">AVALIADOR  2: Fabiele Stockmans De Nardi Sottili</p>
        <p id="paragraph-009317427d20a5a2124217d21090027b">ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7083-1999</p>
        <p id="paragraph-4f471887ed2f9e1f1141261072a41b41">AFILIAÇÃO: Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco, Brasil.</p>
        <p id="paragraph-d7d76aaf11670e66ad7eed24bb4fad33">-</p>
        <p id="paragraph-8775a6ba29c6dadb3de477c7edb8db98">
          <bold id="bold-476d9c2d36462b20ba9b93fb2b28a7c1">RODADA 1</bold>
        </p>
        <p id="paragraph-c378147f797e08c2e88469ed04f1f513">AVALIADOR 1 </p>
        <p id="paragraph-372d7ac32a2560beb1d089e6d13bb88e">2026-03-27 | 10:20 AM</p>
        <p id="paragraph-3cca91f89eade49a2191c6ed2e1f244b">O artigo apresenta grande relevância para a Análise de Discurso materialista, já que busca compreender, por meio do seu dispositivo teórico-analítico, como sujeito e linguagem são afetados pelas novas condições de produção da era digital. A partir da seleção de textos de um corpus ainda em construção, a autora se propõe a investigar a quais ordens os sujeitos estão sendo submetidos na “era digital”.</p>
        <p id="paragraph-3bf7135de6f9d41511c10b2d1d2687e9">A autora apresenta um corpus formado por 5 sequências discursivas, selecionadas de textos que apontam transformações na própria linguagem, em condições de produção afetadas pelo digital. Descreve os gestos de construção desse corpus e analisa as sequências discursivas, que se constituem de notícias sobre crianças que, influenciadas pelas redes sociais, estariam falando palavras sem as últimas sílabas, processo tratado como “corte seco”.
</p>
        <p id="paragraph-5d32f6ba76da7de67735a3dd5eef485f">Buscando compreender essa nova forma de linguagem e as mudanças na relação sujeito-linguagem, a autora analisa também as diretrizes de conteúdo adequado para a publicidade no YouTube, mostrando que a lógica do capital determina quais palavras podem “gerar receita”, ou seja, podem definir quais vídeos são mais ou menos rentáveis financeiramente. 
Seus gestos de análise, neste sentido, apontam para a emergência de uma nova forma-sujeito que se relaciona com a ideologia a partir das condições de produção alicerçadas no digital.</p>
        <p id="paragraph-4c1aa3c9e691d95cfa779a6706e91e69">-</p>
        <p id="paragraph-fa79ab2fca4e6a427df46ec2491290d3">AVALIADOR 2</p>
        <p id="paragraph-179f85f8836aaa492075b0dd6e7fc379">2026-04-03 | 07:23 AM</p>
        <p id="paragraph-52133749d371c555aeed9e631234d17b">O relato de pesquisa traz uma contribuição interessante para se pensar como o digital afeta a relação dos sujeitos com a língua(gem), produzindo, entre outros efeitos, um imperativo de pertencimento que se faz pela repetição de práticas e por uma ilusão de controle. A autora se propõe a desenvolver, a partir da análise de um corpus em construção/ampliação, uma discussão em torno da noção de língua de bruma, compreendendo seu funcionamento e efeitos sobre sujeitos e sentidos. O manuscrito traz discussão de interesse para aqueles que trabalham com o digital, pensando seus efeitos sobre línguas e sujeitos.</p>
        <p id="paragraph-2fe74ec7ebc40578f2d6b3ada49b18e1">O relato de pesquisa intitulado Análise de discurso digital e a língua de bruma, de Mônica Ferreira Cassana, traz importantes reflexões sobre o modo como o funcionamento do digital se inscreve nos modos de os sujeitos se relacionarem com a língua e a produção de sentidos. Ao aproximar-se de discussões teóricas em torno do que poderíamos tratar como digitalização da vida, a autora nos convida a analisar como esse espaço vai capturando nossas formas de trabalho, lazer e ócio e, com elas, também a linguagem. Propõe-se, então, a mobilizar as noções de formação social, forma e posição-sujeito para aprofundar esse olhar em torno de formas outras de os sujeitos se relacionarem com a língua(gem) e os efeitos que produzem sobre esse sujeito, sujeito do desempenho, da imaginária liberdade de atuação, da escolha. 
</p>
        <p id="paragraph-71d9c3beb1f90d4203fbec5cc1f618cd">Em seu relato, a autora apresenta, adequadamente, os procedimentos de construção do corpus, bem como a hipótese de pesquisa a partir da qual se orienta. Também está adequadamente construído o referencial teórico que mobiliza a autora e sua relação com a investigação proposta, destacando-se a importância do diálogo teórico proposto ao propor-se, a pesquisadora, a trabalhar, pelo viés da análise do discurso materialista, com os impactos do digital para a relação dos sujeitos com a língua. 
</p>
        <p id="paragraph-f72b38ed19ec7b0465e218d509721d3b">Entendo que este relato de pesquisa, bem como o desenvolvimento do trabalho cujo arquivo, conforme aponta a autora, está em construção, no sentido de ser ampliado e complexificado, pode trazer contribuições importantes para pensar a relação língua, sujeito e digital a partir do olhar da análise do discurso materialista, teoria a que se filia o relato. Destaco, especialmente, o aprofundamento da discussão proposta em torno do que a autora chama de língua de bruma, como forma de caracterizar essa forma da língua que vai se constituindo no espaço digital. </p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-be7778a031b69c2562d42b51be5f3d88">
      <title>Resposta dos Autores</title>
      <p id="paragraph-bd508eb340f5c9470fae860887f2f340"><bold id="bold-a8efd5cb6516bfba6ec58a7c5ac23e56">DOI:</bold> https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID942.A</p>
      <p id="paragraph-cab6f3fe6a888714fe596913dd022073">
        <bold id="bold-0e1badd8f871bab9f46c689e36fce463">RODADA 1</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-2a02db9e6409852e805adb4547ce3ea1">2026-04-14</p>
      <p id="paragraph-af9faab0cee833af21bb1059a357739d">Prezados editores da revista Cadernos de Linguística, </p>
      <p id="paragraph-2">Agradeço a leitura feita pelos pareceristas ao artigo <italic id="italic-1">Análise de Discurso digital e a língua de bruma. </italic></p>
      <p id="paragraph-3">A seguir, recupero as manifestações de cada parecerista e exponho as questões desenvolvidas no artigo, de forma a consolidar o texto submetido.</p>
      <p id="paragraph-4">
        <bold id="bold-1">Parecerista 1:</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-5">o Comentário 1: Recomenda-se que a autora faça uma revisão no texto para solucionar pequenos problemas de digitação.</p>
      <p id="paragraph-6">o Resposta: Foi feita releitura e a revisão do texto, de modo a corrigir erros de digitação.</p>
      <p id="paragraph-7">
        <bold id="bold-2">Parecerista 2:</bold>
      </p>
      <p id="paragraph-8">o Comentário 1: Verificar o uso de heterogêneo, em “não há como tomarmos o digital como um campo heterogêneo ou exterior às sobreposições da ideologia”.</p>
      <p id="paragraph-9">o Resposta: Após a releitura, o termo foi trocado para “homogêneo”. </p>
      <p id="paragraph-11">o Comentário 2: Explicitar a noção de língua impossível.</p>
      <p id="paragraph-12">o Resposta: A explicação sobre a noção foi ampliada a partir da introdução de nota de rodapé, a seguir: “Referimo-nos à língua da AD como uma “língua impossível” porque nos afiliamos à noção de que não há outra via para pensar a língua que não através do equívoco. Tratamos de uma língua ambivalente que produz sentidos através do confronto ideológico dos sentidos, que mudam historicamente. Essa perspectiva revela que, ao falarmos de algo, sempre nos resta algo do não-dito, uma impossibilidade, um resto”.</p>
      <p id="paragraph-14">o Comentário 3: Verificar a adequação da formulação “tenta transparecer as palavras”, no fragmento destacado</p>
      <p id="paragraph-15">o Resposta: Foi adicionado um período complementar, explicando melhor o que foi dito: “[...] Esse espaço de circulação desvela um jogo em que as palavras podem imaginariamente parecer transparentes, ao mesmo tempo em que os sentidos parecem ser obscurecidos. Esse funcionamento produz imaginariamente uma língua sem sujeito, que apaga a constituição histórica das práticas discursivas efetuadas por esse sujeito”. </p>
      <p id="paragraph-17">o Comentário 4: Pequenos ajustes de textualização.</p>
      <p id="paragraph-18">o Resposta: Foi feita releitura e a revisão do texto, de modo a corrigir erros de digitação, bem como ajustes em pontos explicitados pelos comentários no corpo do texto, assim como ajustes sugeridos no resumo do texto.</p>
      <p id="paragraph-20">o Comentário 5: Retomar e discutir com mais detalhe, se for possível, duas afirmações que destaco: “É preciso mencionar o quanto “cortar” as palavras pode ser desafiador ou contrário à ordem natural da língua.” e “Revela o atravessamento de uma língua que não diz nada”.</p>
      <p id="paragraph-21">o Resposta: No primeiro caso, foi acrescentado um parágrafo, que diz: [...] “Ao “optar” por essa forma de discursivização, o sujeito adapta a língua, e o sentido passa a ser produzido a partir da criatividade e não da produtividade (Orlandi, 2012, p. 37), irrompendo um efeito diferente, que afasta a rigidez própria às línguas de ferro, por exemplo.” Já no segundo trecho apontado, foi adicionado um parágrafo mais explicativo imediatamente abaixo, que diz: “Essa língua que não diz nada, no entanto, produz sentido, porque se torna possível ao ser dita, ou seja, ajuda-nos a desenhar uma outra posição-sujeito em nossa formação social, que desvela uma possibilidade de relação do sujeito com a língua que antes não poderia ser imaginada. Desvela o confronto entre uma língua imaginária, que serviria à comunicação e ao consenso, e uma língua “faltante”, que mostra sua impossibilidade de tudo dizer. Nessa perspectiva, essa prática discursiva nos dá indícios de um sujeito que propositalmente falha para, pela falha, pertencer ao espaço digital e, daí, passar a ser considerado um sujeito.” Também a partir das considerações enviadas, será feito um estudo mais aprofundado das formas analisadas, de modo a ampliar a discussão em novos trabalhos.</p>
      <p id="paragraph-22">Por esses motivos, novamente agradeço as generosas considerações dos pareceristas.</p>
      <p id="paragraph-23">Mônica Ferreira Cassana</p>
      <p id="paragraph-24">Universidade Federal do Rio Grande do Sul</p>
    </sec>
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