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Abstract

The first comic book with fictional representation of super powers, Action Comics nº1, is the result of a crisis of American society after the fall of the New York Stock Exchange in 1929. Recognizing the narratives with comic language as a segment of modern journalism, also known as ninth art and which has great acceptance of the masses, this work aims to discuss and reflect the origins of Superman. Written and designed by two Jewish teenagers, Jerry Siegel and Joe Shuster, the visual text of the Man of Steel came to fill a United States need for a hero, a good example to help the American people overcome a period of many problems, such as violence, unemployment, hunger and suicides, for example. Based on a critical analysis of the discourse, based on Norman Fairclough's text, this paper focuses on the text of the journal, published in June 1938, and presents the first history of the Kryptonian, divided in sequences and static pictures, their importance to American morality, in addition to initiating a process of hegemonic domination that lasts until today. 

Introdução

A quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 deu início a um período de grande crise para os americanos, que passaram a conviver com os mais diversos problemas sociais, como desemprego, assassinatos, suicídios, assaltos e corrupção, por exemplo. Com tantos problemas, a população americana estava com baixa autoestima e sem esperança em dias melhores.

Foi com essa situação de depressão nos Estados Unidos, que dois adolescentes judeus, amigos de escola, criaram o primeiro herói com superpoderes. Esse personagem apresentava nas entrelinhas de seu texto visual das histórias em quadrinhos a intenção de recuperar a moral americana através de mensagens de esperança, verdade e justiça.

A revista que apresenta ao mundo a primeira história desse personagem despertou a curiosidade das pessoas durante o final da década de 1930. Publicada em 1938, Action Comics nº1 traz em 14 páginas a primeira aventura de Superman.

Tomando como ponto de partida o texto escrito nessa revista, é possível se analisar criticamente o discurso do Homem de Aço através do modelo tridimensional proposto por Norman Fairclough, em seu livro Discurso e Mudança Social, em que o autor afirma que a mudança social acontece a partir do discurso. Considerando isso, nos perguntamos se uma ficção elaborada a partir de determinado contexto consegue, através da linguagem, se relacionar com a realidade de problemas sociais dos americanos?

Para responder essa pergunta, selecionamos alguns recortes da narrativa presente na primeira revista com participação do Homem de Aço. Tomando como base trechos selecionados de Action Comics nº1, já se pode iniciar uma leitura e interpretação crítica baseada no modelo tridimesional de Fairclough, explicado adiante:

1. Modelo Tridimensional de Norman Fairclough

De acordo com Fairclough (2016), a mudança social acontece a partir do discurso. Como o texto produzido para as revistas de Superman se relaciona com a realidade social? De várias formas, uma vez que deve se compreender que o texto escrito pelos roteiristas e desenhistas para as narrativas do kryptoniano é uma construção linguística e social. Diante disso, este artigo busca uma leitura diferente do Homem de Aço a partir da visão tridimensional do referido teórico.

Aplicar essa teoria, identificando três dimensões de que trata Fairclough é a proposta deste artigo. O autor afirma que a análise tem início no texto, depois passa-se à prática discursiva e por fim à prática social. Através desse modelo é possível construir uma análise crítica do discurso, passando principalmente pela ideologia, além de considerar contexto de produção e consumo de determinado texto. A concepção tridimensional do discurso é representada pelo seguinte diagrama:

Figure 1.Figura 1. Concepção tridimensional do discursoFonte: (FAIRCLOUGH, 1992, p. 101)

A prática discursiva é constitutiva tanto de maneira convencional como criativa: contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistema de conhecimento e crença) como é, mas também contribui para transformá-la. Por exemplo, as identidades de professores e alunos e as relações entre elas, que estão no centro de um sistema de educação, dependem da consistência e da durabilidade de padrões de fala no interior e no exterior dessas relações para sua reprodução. Porém, elas estão abertas à transformação que podem originar-se parcialmente no discurso: na fala da sala de aula, do parquinho, da sala dos professores, do debate educacional e assim por diante. (FAIRCLOUGH, 2016[1], p.96).

É importante que a relação entre discurso e estrutura social seja considerada como dialética para evitar os erros de ênfase indevida; de um lado, na determinação social do discurso e, do outro, na construção social do discurso. No primeiro caso, o discurso é mero reflexo de uma realidade social mais profunda; no último, o discurso é representado idealizadamente como fonte do social. O último talvez seja o erro mais imediatamente perigoso, dada a ênfase nas propriedades constitutivas do discurso em debates contemporâneos. (FAIRCLOUGH, 2016[1] p.96-97).

A prática social tem várias orientações – econômica, política, cultural, ideológica - e o discurso pode estar simplificado em todas elas, sem que se possa reduzir qualquer uma dessas orientações do discurso. Por exemplo, há várias maneiras em que se pode dizer que o discurso é um modo de prática econômica: o discurso figura em proporções variáveis como um constituinte da prática econômica de natureza basicamente não discursiva, como a construção de pontes ou a produção de máquinas de lavar roupa; há formas de práticas econômicas que são de natureza basicamente discursiva, como a bolsa de valores, o jornalismo ou a produção de novelas para televisão. Além disso, a ordem sociolinguística de uma sociedade pode ser estruturada pelo menos parcialmente como um mercado onde os textos são produzidos, distribuídos e consumidos como “mercadorias. (Cf. BOURDIEU, 1982 apud FAIRCLOUGH, 2016[1], p.98)

Mas é o discurso como modo de prática política e ideológica que está mais ligado às preocupações desta pesquisa. O discurso como prática política estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas (classes, blocos, comunidades, grupos) entre as quais existem as relações de poder. O discurso como prática ideológica constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder. Como implicam essas palavras, a prática política e a ideológica não são independentes uma da outra, pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder. Assim, a prática política é a categoria superior. Além disso, o discurso como prática política é não apenas um local de luta de poder, mas também um arco delimitador na luta de poder: a prática discursiva recorre às convenções que naturalizam relações de poder, ideologias particulares e as próprias convenções, e os modos em que se articulam são um foco de luta. (FAIRCLOUGH, 2016[1], p. 98-99).

Considerando o exposto, a análise da revista Action Comics nº1 tem início na primeira dimensão, o texto. São quatro trechos selecionados entre as quatorze páginas que possibilitam uma nova interpretação baseada na linguística crítica, divididos em sequências e quadros estáticos, de um texto publicado originalmente em inglês, mas analisado a partir da tradução para o português.

2. Action Comics nº 1

Este é o título da primeira revista com linguagem de quadrinhos lançada com narrativa em que Superman aparece. O Homem de Aço não tinha sua própria publicação, como tem atualmente.

Figure 2.Figura 2. Action Comics nº 1Fonte: (ACTION COMICS, 1938)

2.1. Texto

Antes de tudo, é importante ressaltar que o texto presente em qualquer narrativa com linguagem de quadrinhos se caracteriza como texto visual. Isso se deve ao fato de não possuir apenas palavras, mas também imagens. Nem sempre a construção de sentido se baseia apenas no léxico. Dessa forma, o gibi é considerado suporte de um gênero textual específico.

Além da análise textual, as imagens também podem ser analisadas criticamente, revelando mensagens nem sempre evidentes. A comunicação visual pode expressar significado, por exemplo, “através do uso de cores ou diferentes estruturas de composição”. (KRESS; VAN LEEUWEN, 2000[2], p. 2)

De acordo com a gramática do design visual, uma imagem representa não só o mundo, de forma abstrata ou concreta, como também interage com esse mundo, independentemente de apresentar um texto escrito ou não. Essa imagem constitui um tipo de texto, podendo ser uma pintura, uma propaganda na revista, por exemplo, que pode ser reconhecido pela sociedade. (Cf. SEIXAS, 2014[3]).

Sobre a gramática das imagens, Kress e Van Leeuwen afirmam:

A gramática da imagem ou gramática visual (Kress; Van Leeuwen, 1990, 1996, 2006[2]), como é amplamente reconhecida, parte do pressuposto de que imagens produzem significados e podem ser entendidas enquanto textos visuais, que se organizam segundo alguns princípios e regularidades, conforme os usos que fazemos delas em diferentes situações. A denominação “gramática” indica as bases linguísticas da proposta, que pode ser considerada uma extensão da gramática sistêmico-funcional de Michael Halliday (1994; 2004). Tomando a linguagem verbal como ponto de referência, portanto, a gramática visual extrapola as noções de léxico e estrutura gramátical, tradicionalmente associada a linguagem verbal, e sugere que as imagens têm um equivalente a um léxico e uma estrutura gramátical. (KRESS; VAN LEEUWEN; 2006[2], p.1) O léxico das imagens estaria em seu potencial de representar participantes – pessoas, objetos, fenômenos –visualmente. Enquanto que, na linguagem verbal, o léxico se realiza por meio de palavras, nas imagens, ele equivale aos diferentes volumes e formas que podemos distinguir na imagem. A gramática se materializa no modo como esses volumes e formas retratados “se combinam em orações visuais de maior ou menor complexidade e extensão. (KRESS; VAN LEEUWEN, 2006[2], p.1)

O reconhecimento do texto na imagem é importante para a significação e decodificação da mensagem, entendendo a imagem como elemento portador de sentido, mas que se fundamenta no texto.

Considerando o exposto, a respeito do texto e imagem, já é possível iniciar uma leitura e interpretação diferenciada da publicação selecionada, com a primeira aparição de Superman.

O primeiro quadro estático analisado dessa publicação é a imagem da capa da revista Action Comics nº 1, mostrando o personagem “Superman” levantando um automóvel, havendo pessoas amedrontadas e correndo ao redor. Esta imagem mostra o super-herói utilizando o seu uniforme, de cor azul, com capa, sunga e botas vermelhas, além do S estampado no peito, com fundo amarelo.

Ao levantar este automóvel e assustar pessoas, na ficção em 1938, “Superman” demonstra seu poder em relação aos outros homens. A ausência de texto na imagem abre espaço para várias indagações, inclusive para qual seria a motivação do super-herói em realizar este gesto. Trata-se de uma ação que revela poder, e ao mesmo tempo produz efeito de sentido de possibilidade de dominação do personagem sobre os outros. Conforme se adentra na história, percebe-se que esta ação foi de combate a um carro de sequestradores, o que se caracteriza como uma benfeitoria. Desse modo, o poder do “Superman” não é apenas físico, mas parte igualmente da aceitação dos outros personagens desse poder, o que se caracteriza como o domínio presente no processo de hegemonia.

Figure 3.Figura 3: Primeira sequência da revista Action Comics nº1 Fonte: (ACTION COMICS, 1938)

A primeira sequência selecionada da revista, na página 2, é composta por sete quadros que combinam imagens coloridas e texto, criando sentido de acontecimentos na linguagem dos quadrinhos, enquanto desenvolve a narrativa do personagem fictício.

Nesta primeira página, é explicada a origem de Kal-El, a identidade natural de “Superman” e de sua família no planeta Krypton. Depois da destruição do planeta, somente ele foge, chega à Terra e é encontrado pelo motorista Joseph Kent, antes de ser encaminhado para um orfanato, origem que foi modificada anos depois, quando o bebê é adotado pelo casal de fazendeiros Joseph e Martha Kent, vindo a se tornar Clark Kent. Os próximos quadros mostram o desenvolvimento da força do bebê Clark Kent no planeta Terra, até se tornar o herói “Superman”. Na maturidade, ele descobre a sua força “titânica” e decide utilizá-la pelo Bem da humanidade.

Considerando a relação de complemento entre texto e imagem, como texto visual, aprender a ler detalhes é determinante para uma melhor interpretação. Neste recorte da revista, o texto é dividido em sete quadros estáticos com os seguintes textos:

1. Quando, certo dia, um planeta distante foi destruído pelo tempo, um cientista embarcou seu filhinho numa espaçonave, construída às pressas e lançou-a em direção a Terra!

2. O veículo espacial pousou na Terra, e um motorista que passava, nele descobriu o bebê adormecido, entregando-o, então, a um orfanato!

3. Lá, como ignorassem que a constituição física da criança estava adiantada milhões de anos, todos se impressionaram com suas provas de força!

4. Ao atingir a maioridade, ele descobriu que podia facilmente...

5. [...] saltar centenas de metros de distância, passar por sobre um prédio de vinte andares

6. [...] levantar pesos incríveis

7. correr mais depressa que um expresso [...] o que ainda não era nada, pois nem uma bala de revolver lhe conseguia penetrar na pele!

8. Cedo, Clark decidiu empregar essa força titânica em benefício da humanidade! E, assim, surgiu o[...] SUPER-HOMEM1 (Título do Quadro Seguinte).

Figure 4.Figura 4: Segundo quadro estático Action Comics nº1Fonte: (ACTION COMICS, 1938)

“Super-Homem! O campeão dos oprimidos, a maravilha física que haveria de dedicar a própria vida aos necessitados!”

A narrativa destes quadros inicia a vida de Superman nas páginas das revistas em quadrinhos, por isso são tão valorizadas pelos consumidores de cultura pop em geral.

As escolhas lexicais deste texto vão de acordo com a época de produção e também com a recepção de grupos sociais de 1938. Atualmente, certas palavras caíram em desuso, também porque a linguagem está sempre em movimento, por isso, atualmente Superman não é associado apenas a alguns termos utilizados décadas atrás, como maravilha física ou campeão dos oprimidos, mas também expressões mais atuais, como “escoteiro americano”.

Outra sequência importante que também merece ser analisada apresenta Clark Kent e Superman em ação, numa das primeiras vezes que o kryptoniano interfere numa briga, representando passagem de tempo e movimento através de cinco quadros estáticos na página 9.

Figure 5.Figura 5: Sequência 3 da revista Action Comics nº1Fonte: (ACTION COMICS, 1938)

No primeiro quadro, o editor do jornal Estrela Diária conversa com o repórter investigativo Clark Kent, e o texto é o seguinte:

Editor: Temos recebido diversos relatos indicando que um sujeito com força gigantesca chamado Superman existe. Estou designando você para cobrir esse assunto. Acha que pode cuidar disso, Kent?

Clark Kent: Escute, chefe, se eu não puder descobrir tudo sobre esse Superman, ninguém pode!

No segundo quadro, depois de sair da sala do editor-chefe, Clark Kent passa pela redação do jornal, quando um outro jornalista o envia para cobertura de uma notícia urgente envolvendo espancamento em determinada rua. O texto deste quadro estático é:

Jornalista: Depressa, Kent... Recebemos uma dica por telefone sobre uma mulher sendo espancada na Av. Court, 211!

Clark Kent: Estou a caminho!

No terceiro quadro, Superman chega no endereço indicado pelo jornalista e encontra um homem espancando uma mulher. O texto é: “Superman: Parado!” “Homem: O que você quer?”

No quarto quadro Superman utiliza apenas uma mão para suspender o homem, ao mesmo tempo em que conversa com ele, através do texto: “Homem: Não precisa apelar!”, “Superman: Apelar é pouco perto do tratamento que vai receber!”

No quinto e último quadro, Superman joga o homem contra a parede, ensinando uma lição ao agressor ao mesmo tempo que fala: “Superman: Você não está enfrentando uma mulher agora!”

O texto da segunda sequência selecionada revela um dos problemas sociais da cultura americana na década de 1930, a violência contra a mulher. Além disso, por meio de análise, é possível perceber que toda a situação representada nos quadrinhos expõe a relação de poder entre os personagens.

Nos dois primeiros quadros já é perceptível a relação de hierarquia entre o editor chefe do jornal e o repórter Clark Kent, que respeita o poder profissional do seu superior direto e aceita ordens relacionadas à profissão, do tipo “Estou designando você para este trabalho”.

Enquanto isso, em outro lugar, um homem usa seus músculos para espancar uma mulher de tal forma que a deixa no chão, reafirmando seu poder sobre a mesma a partir da força bruta. Dentro disso, quem chega na residência para averiguar o caso não é Clark Kent, mas Superman, que impõe sua força titânica para defender a vítima e ensinar uma lição ao agressor, através de uma nova relação de poder.

2.2. Prática Discursiva

A segunda dimensão de análise proposta por Fairclough ressalta os discursos presentes no texto. Também se preocupa com o contexto de produção e consumo desse mesmo texto. Entre outras coisas, pode se identificar discursos políticos, econômicos e religiosos, por exemplo.

Quando foi lançada, em 1938, a revista Action Comics nº1 era vendida pelo valor de 10 centavos de dólar, sendo bastante acessível ao público. Em 2014, um dos poucos exemplares originais dessa publicação foi leiloada na internet por U$ 3,2 milhões de dólares, o equivalente a mais de R$ 15 milhões de reais, com valores atualizados em 2020. Essa informação é importante para dimensionar o valor dessa publicação para o universo da ficção e cultura pop. Entender a caracterização do personagem também é importante. O uso de sungas e botas fazia parte do vestuário de artistas circenses, entre eles o polonês Siegmund Breitbart, chamado “O Homem de Aço” e considerado o “Homem Mais Forte do Mundo”.

Figure 6.Figura 6: Siegmund Breitbart: O Homem de AçoFonte: (MOCHLEIRO..., 2014)

Outro importante elemento interdiscursivo, pauta-se na tradição judaica. Moisés, do mesmo modo que Kal-El, foi colocado em um cesto à deriva no Rio Nilo para escapar da fúria do faraó, que “destruía” o mundo do recém-nascido. Encontrado e criado por pessoas humildes, depois de crescer, ele retorna como salvador do seu povo, ao mesmo tempo que representa esperança de dias melhores.

Moisés fundou o judaísmo há mais de três mil anos quando guiou o povo hebreu até a terra prometida, libertando-os da escravidão do Egito, atravessando o mar vermelho. Esse período conhecido como Êxodo é determinante na história do povo hebreu, que assim como Superman, migrou para a terra prometida guiado por um messias. (POTTER, 1944[4])

A palavra messias tem origem hebraica e significa “o ungido”. De acordo com a tradição dos hebreus, esse termo passou a ser usado para se referir aos reis e sacerdotes que tinham sido ungidos com o óleo sagrado. Tempos depois, essa palavra ganhou o sentido de rei ideal, descendente do rei Davi, que trará um período de paz e justiça na Terra, como diz a profecia do povo hebreu. (POTTER, 1944[4])

No caso de Superman, o bebê Kal-El é enviado para a terra prometida e guiado por Jor-El, seu pai, que morreu no planeta Krypton, mas que acompanha o crescimento e vida do filho como um espírito, graças à tecnologia evoluída dos kryptonianos. É Jor-El que guia a moralidade de Superman no planeta Terra, dizendo ao filho o que se pode ou não fazer com seus poderes.

A partir disso é possível reconhecer nas histórias de Superman, principalmente por conta desta origem, a representação do messias.

Do ponto de vista de vocabulário, algumas palavras utilizadas no texto merecem análise. A frase é: “Cedo, Clark decidiu empregar essa força titânica em benefício da humanidade!” Quando se utiliza a palavra “titânica” para adjetivar algo, é importante conhecer sua origem e significado, o que nos faz retornar à mitologia grega.

Segundo Mattiuzi (2000), a mitologia grega afirma que, no princípio de tudo, os deuses Urano (Céu) e Gaia (Terra) tiveram filhos, os Titãs, que eram poderosos gigantes. Por isso a palavra titã tornou-se sinônimo de grandeza física, intelectual ou moral.

Na mesma frase citada anteriormente existe a afirmação que Clark decidiu agir em benefício da humanidade utilizando sua força titânica, mas um personagem americano pode amparar todos os humanos ou apenas os que moram nos Estados Unidos?

Em outras palavras, Superman deve se preocupar com os problemas americanos ou os que envolvem o planeta Terra? O ano da publicação da revista também foi marcado pela ascensão de pessoas com a mesma ideia de resolver problemas mundiais, por exemplo Adolf Hitler, eleito homem do ano pela revista Times em 1938.

Figure 7.Figura 7. Revista Time - Homem do ano 1938Fonte: (QUATRO..., 2012)

Hitler foi um personagem importante na história mundial. Nascido em 1889, na cidade de Braunau, que fazia parte do império Austro-Húngaro, foi um mau estudante além de artista frustrado. Em 1919 ingressou no Partido dos Trabalhadores Alemães, que depois se tornou Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, partido nazista, e era muito respeitado pelos seus companheiros, tanto pelo carisma como pelo poder de oratória. (MOCELLIN, 2005[5])

Entre as principais estratégias utilizadas por Hitler na busca pelo poder político, a utilização da propaganda, que na sua visão deveria ser popular e emotiva, para atingir as massas, teria contribuído para o crescimento do nazismo na década de 1930 e consequente perseguição dos judeus. (MOCELLIN, 2005[5])

Considerando o exposto até aqui, referente ao texto e o discurso presente nas entrelinhas dessa narrativa do kryptoniano, pode-se perceber que mesmo uma ficção pode propagar discursos criados pelo outro. Nesse caso, os dois adolescentes judeus, que escreveram o texto visual do primeiro super-herói a existir nas páginas dos gibis. O discurso construído por tal personagem exemplifica a relação entre texto e contexto, se relacionando com a época em que foi criado, comercializado e consumido. As escolhas lexicais para escrita aconteceram nesse cenário social, inclusive considerando o público a que se destinava nesse período.

A intenção dos autores e produtores de escrever um texto com discursos que reforçam mensagens de superação de problemas sociais em meio à crise financeira e política, foi importante para fazer com que o público americano tivesse contato com ideias de esperança, explorando a fantasia do imigrante que se torna modelo para os norte-americanos.

Diante disso, pode se afirmar que o personagem ficcional Superman propaga discursos através do texto presente na narrativa da revista Action Comics nº1, mas não criou nenhum deles. Nessa dimensão de análise, percebe-se que o kryptoniano apenas reproduz discursos anteriores a ele, que por sua vez reforçam várias ideias.

2.3. Prática Social

A terceira dimensão de análise do modelo tridimensional destaca aspectos referentes a ideologia presente no texto analisado. Nem sempre é simples percebê-los numa primeira leitura, mas se realizada com cuidado, uma nova interpretação pode surgir, com mensagens que na maioria das vezes passam despercebidas.

Considerando a conjuntura da Crise Econômica dos Estados Unidos pós-1929, os americanos precisavam de um super-herói ficcional que representasse a esperança e servisse como liderança imaginária para milhares de pessoas. Foi criado, conforme já escrito, pelo roteirista Jerry Siegel (1914 - 1996) e pelo desenhista Joe Shuster (1914 - 1992). O nome de Clark Kent surgiu da combinação entre os nomes do ator Clark Gable e Kent Taylor, este cunhado do autor do roteiro. (CALLARI, 2013[6]).

Do ponto de vista ideológico surge o super-herói que veio do céu, abrindo espaço para diversas interpretações, inclusive sobre hegemonia de um personagem que usa uma roupa com as cores da bandeira americana, em meio à crise política, social e econômica que os Estados Unidos atravessavam após a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929.

O discurso de superação e esperança, necessários na época de crise americana, estava presente na caracterização e no texto visual do super-herói que surgiu com a intenção de resolver problemas sociais no ambiente da ficção. Superman marca uma ruptura na tradição das histórias em quadrinhos ao apresentar o personagem que ultrapassa a vida do mundo ordinário e alcança o mundo especial dos heróis fantásticos, assim como os deuses mitológicos da Grécia antiga, citados anteriormente, que através de seus feitos guiavam e protegiam os seres humanos.

O primeiro super-herói do mundo busca além de entreter o público com suas histórias em quadrinhos, reforçar a mentalidade do american way of life para uma sociedade em crise de valores e problemas sociais, como a violência. A ideia de que o Superman trava uma batalha sem fim pelo “american way of life” é um dos principais pressupostos desta pesquisa. Portanto, trata-se de um importante representante deste modelo americano, na perspectiva política, social, cultural e comportamental. A esse respeito é possível afirmar que, após o final da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como potência capitalista e o principal credor dos países europeus derrotados no conflito. Era o início de um período de prosperidade econômica americana, com grande produção de produtos voltados para o consumo, como carros e eletrodomésticos. Nessa época nascia o “american way of life” ou estilo de vida americano, caracterizado pelo consumo em massa e produção em larga escala, estimulados por uma política de crédito bancário, independente do controle estatal. A felicidade das pessoas estava relacionada à quantidade de bens que conseguisse adquirir, gerando o modelo de sucesso americano. O exemplo de homem vencedor (BRAICK, 2011[7]).

Juntamente ao modelo de campeão proporcionado pelo sistema econômico americano, aumentou a competição característica do capitalismo. Em decorrência disso, as desigualdades sociais se tornaram mais evidentes, aumentando também a violência entre as pessoas.

É de se esperar numa sociedade violenta e desigual, atos criminosos, assaltos e assassinatos, como o caso do comerciante judeu Mitchell Siegel, pai de Jerry Siegel, um dos idealizadores e roteiristas de Superman. Por isso, o homem de aço surge como o campeão dos oprimidos, que se sobressai em meio a um cenário de crise e ajuda os mais necessitados, dando início ao processo de identificação do povo americano com Superman.

Tal processo teve início com a incorporação do discurso americano de nação pelo personagem fictício. Isso fez com que o mesmo se tornasse um dos símbolos da identidade cultural do país e, também, um dos mitos originais americanos, por apresentar um duplo papel social: o de salvador da comunidade e o de homem comum. (CARVALHO, 2015[8])

De acordo com Eco, de fato Superman vive entre os homens sob as falsas vestes do jornalista Clark Kent e, como tal, é um tipo aparentemente medroso, tímido, um pouco embaraçado, míope e muito solícito com a colega Miriam Lane, nome da jornalista antes de ser alterado para Lois Lane, que no entanto, o despreza, mas é apaixonada por Superman. (ECO, 2011[9])

Clark Kent personaliza, de modo bastante típico, o leitor médio torturado por complexos e desprezado pelos seus semelhantes, através de um processo de identificação, onde um homem comum de qualquer cidade norte-americana nutre secretamente a esperança de que um dia, das vestes da sua atual personalidade, possa florir um super-homem. (ECO, 2011[9], p. 248)

3. Considerações Finais

A revista Action Comics nº1, lançada em 1938, deu início a uma nova era, ocupada por heróis com superpoderes. O primeiro deles, personagem principal desta publicação é Superman, que apresenta nas entrelinhas de seu texto visual a intenção de ajudar os Estados Unidos a superar os problemas sociais decorrentes da crise econômica pós quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929.

Reerguer a moral da população americana, representando principalmente esperança era a missão de Superman no final da década de 1930. Um personagem que inspirasse pessoas e ao mesmo tempo ensinasse bons valores para crianças e adultos através da linguagem das histórias em quadrinhos. Essas intenções foram incorporadas na criação dos dois adolescentes judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, sendo determinantes para a construção do discurso do Homem de Aço. Mas, essas não eram as únicas mensagens transmitidas por Superman.

Através do modelo tridimensional de análise proposto por Norman Fairclough, é possível identificar discursos e ideologias que fazem parte do texto da revista Action Comics nº1, podendo justificar a construção do personagem nas perspectivas de política, economia e religião, por exemplo.

Mesmo considerado por muitos apenas um personagem infantil ou uma ficção das páginas das revistas em quadrinhos, a primeira narrativa com presença de Superman apresenta a necessidade americana por um salvador, que entre outros assuntos aborda o machismo, além da importância do contexto para escrita do texto de um personagem importante na cultura pop.

References

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  2. Braick Patrícia Ramos. Estudar História: das origens do homem à era digital. Moderna: São Paulo; 2011.
  3. Callari Alexandre. Quadrinhos no cinema 3: o guia completo dos super-heróis. Évora: São Paulo; 2013.
  4. Carvalho Beatriz Sequeira de. Uma identidade (não tão) secreta: O Superman e seu poder de criar identificação. Universidade de São Paulo: Rio de Janeiro; 2015.
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  6. Eco Umberto. Apocalípticos e integrados. Editora Perspectiva: São Paulo; 2011.
  7. Fairclough Norman. Discurso e mudança social. Editora Universidade de Brasília: Brasília; 2016.
  8. Kress G., Van Leeuwen. Imagens de leitura: A gramática do design visual. Routledge: Londres/Nova York; 2006.
  9. Mattiuzzi Alexandre Augusto. Mitologia ao alcance de todos – Os deuses da Grécia e Roma antigas. Editora Nova Alexandria: São Paulo; 2000.
  10. Mocellin Renato. História: volume único: livro do professor. Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas: São Paulo; 2005.
  11. MOCHILEIRO DIGITAL. Siegmundo Breitbart: Superman – o homem de aço. 2018.
  12. Potter Charles Francis. História das religiões. Editora Universitária: São Paulo; 1944.
  13. Quatro Cantos. Adolf Hitler, homem do ano de 1938 (man of the year) da Time Magazine. 2018.
  14. Seixas Lia. Gêneros: um diálogo entre comunicação e linguística. Editora Insular: Florianópolis; 2014.