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Abstract

Having as its theme the search for freedom, I analyze, in this text, through the relation between politics and music, discursive events produced in the years 1968/1969. These analyzes allow me to speak of the generation of that time as a generation of rebellion and responsibility. Generation that, at the borders of language, mix rebellion and resistance. It follows from this course of analysis that I made the understanding of the multiple senses of freedom.

Introdução

Não se pode falar em rebeldia e responsabilidade sem falar em liberdade. O fiel da balança. Além disso, para os analistas de discurso, essas são noções que podemos considerar em seus vários modos de significar, em diferentes quadros teóricos1. Tematizaremos, com estas noções, “movimentos políticos” em diferentes conjunturas histórico-sociais. Em Pêcheux e Gadet (2004), há, nos estudos que fazem sobre a língua na relação com os sujeitos, um dizer marcante que ecoa fortemente em nossos trabalhos.2 Aqui tomo esta formulação salientando o que, nela, está dito sobre liberdade. Falando do que eu consideraria a materialidade da língua, diz este autor: “A abertura social dos usos linguísticos representa as formas evidentes nas quais a burguesia negocia sua instalação e seu sustento, apoiando-se nas classes dominadas para lutar contra elas, e lhes retornar a ‘causa da liberdade’”. De início, podemos aí ler o equívoco que funciona em uma noção como a de “abertura social”.3 E acentuo nesta formulação a questão da “liberdade” posta como “retorno”. Ou seja, pensando-se a conjuntura capitalista, é um retorno da negociação da burguesia em sua sustentação. Ilusão, no sentido discursivo. Que tomou formulações distintas ao longo da história da reflexão, em autores de diferentes teorias, como veremos.4 Visamos mostrar como o capitalismo desenvolve esta ilusão, mesmo em uma ditadura. Começaremos por um exemplo que traz, para nossa reflexão, a dificuldade em se enfrentar o contraditório, quando a questão da liberdade – do livre arbítrio? – entra em conta, face à de rebeldia e de responsabilidade.

1. Uma licença poética: o caso Elis

Na ditadura de 1964, em seus vinte anos, mas, principalmente, no início, muitos enganos, equívocos, se deram, contraditoriamente, nas nossas relações, de uns com os outros, em nossos enfrentamentos com o Poder. Porque mais do que suposta no “simples” capitalismo, a “causa da liberdade” sofre imensas e múltiplas interpretações que levam a grandes equívocos.

Nesta época se assistiam episódios do que chamávamos “patrulha ideológica”: a esquerda criticando a esquerda. Em meio à tortura, às prisões e os “desaparecidos”. E para lembrar este fato discursivo, trago o caso, bem conhecido, de Elis Regina.

Trata-se da crítica feita por Henfil a Elis, numa situação particular, produzida pelos militares na relação com artistas, durante a ditadura. Eis a descrição do fato, feita por Henfil: “[...] De repente, os artistas são arrebanhados pelo Governo, só que — eu não sabia — debaixo de vara, de ameaças, para fazerem uma campanha da Semana do Exército. O que eu vi, na realidade, foi o comercial de televisão. Me aparece o Roberto Carlos dizendo: ‘Vamos lá, pessoal, cantar o Hino Nacional’. E, de repente, a Elis surge regendo um monte de cantores, de fraque de maestro, regendo o Hino Nacional. [...]”. Henfil fez uma charge, no Pasquim, enterrando Elis.

Momento histórico-político carregado de tensões, de silêncios, de autoritarismo, de medo e sujeito a equívocos. Henfil não pediu desculpas por tê-la “enterrado”, mas se arrependeu. Disse ele, então: “Eu só me arrependo de ter enterrado duas pessoas — Clarice Lispector e Elis Regina. (…) Eu não percebi o peso da minha mão. (…) De repente, ela começou a falar: ‘Pô, bicho, eu te amo tanto, bicho, te gosto tanto’ (...) Daí me irritei e disse: ‘Elis, o que você está querendo dizer com isso?’. Aí, ela começou a chorar. As pessoas na mesa enfiaram a cara no prato, todos sabiam o que eu tinha feito, só eu não sabia [grifo nosso]. Ela disse: ‘Pô, você me enterrou’, e começou a me esculhambar, dizendo que aquilo foi uma covardia, que ela estava ameaçada. (…). Cada lado com suas dores e suas razões. Havia alguma liberdade nisso? Onde fica a liberdade num Estado de exceção, totalitário?

Esta história de Elis e este conflito de interpretação na relação com Henfil é contada de muitas maneiras por muitos autores. E sempre fica um espaço aberto a outras interpretações. Porque se trata de um equívoco construído na relação da “liberdade” com outras duas: a de responsabilidade e rebeldia, que, nessas condições de produção, se acotovela com a de “resistência”. Essas relações, muitas vezes indistintas, me interessam, assim como me interessa a relação de “não oposição” entre rebeldia e responsabilidade. Há aí um largo abismo de “incompreensão” que vejo necessária, inegável e irremediável, na produção dos sentidos, nas escutas e nas interpretações. Sem dúvida, na sua interpretação de “O Bêbado e a equilibrista” está resumido o equívoco de seu “enterro” e a dolorida rebeldia responsável de Elis.

Ela era uma intérprete em um momento político extremamente difícil, tenso, incompreensível, inaceitável para muitos de nós. Ao mesmo tempo, Elis trouxe à tona grandes músicos, produziu grandes deslocamentos na música, na interpretação, no pensamento e na relação com a política e com o político. Ao fazer isto, a cantora estava dando voz à música de “protesto”.[2] E, sobretudo, falando o que pensava. Em um período ditatorial em que a palavra, pura e simples, estava em suspenso, porque era uma ameaça à censura.5 Ela dizia que o que ela queria mesmo “era cantar”, como Sérgio Sampaio dizia que queria era “botar seu bloco na rua”. Nisso estavam as suas rebeldias, e, ao mesmo tempo, suas responsabilidades.[4]

Como resistir sem estar fora? Essa era uma questão permanente, sobretudo para os não exilados: como entrar em campo sem vestir a camisa? “Afastar-se da situação, na situação”. Eis as dificuldades da interpretação quando somos confrontados aos equívocos e a supressão da liberdade.

2. Música e política

Segundo a historiadora Rafaela Lunardi, Elis foi fundamental para o estabelecimento da MPB,[1] atuando na luta em defesa da música nacional. Bem após sua morte, prematura, era comum encontrar pelos muros de cidades brasileiras a pichação “Elis Vive”.[2]

Há muitas formas de ser rebelde, revolucionário. Diferentes maneiras de produzir o que foi-se firmando como sentido(s) de “resistência”. Na música, já tivemos ocasião de analisar outras formas de se significar politicamente, frente à censura (ORLANDI, 1992). A presença de Elis na MPB é inegavelmente uma dessas formas. E foi por aí que ela fez política. Não no discurso político mais marcado de então, mas no seu modo de ser mais profundo: sendo cantora. Sua voz política. A música era seu discurso revolucionário. Lugar de sua rebeldia e responsabilidade: em busca de liberdade. Que ela assumiu radicalmente, como Sérgio Sampaio, ao cantar “Eu quero botar meu bloco na rua”.

Penso que estes exemplos podem nos levar a muitas elaborações desta relação que estamos apontando, em nosso título para esta exposição, ao falar de uma geração que se significava nas fronteiras da linguagem, geração marcada pela rebeldia e responsabilidade, em busca de liberdade.

3. Uma formação discursiva em que muitas se misturam

Vivi esta geração, em que chamamos o que houve na China de revolução cultural, ao mesmo tempo em que, no mundo ocidental, vivíamos o acontecimento denominado “maio de 1968”. Claro que há razões científicas – e penso aqui nas Ciências Humanas – para que isto assim fosse nomeado. E, sobretudo, razões políticas.

Pergunto por que a geração de 68, no Brasil, não se pensou mais diretamente como uma geração da “revolução cultural brasileira”.[1] No entanto, é esta a força dessa geração, a de 68, em sua dupla determinação: contra a ditadura e contra o Sistema. O locus significandi (ORLANDI, 2017) variando entre o Brasil e o mundo, na força material do lugar da significação e da posição-sujeito. Política e cultura (conhecimento e arte) são estruturantes dos movimentos políticos da época. Aliam-se no enfrentamento seja do regime em que vivíamos – pois aí estavam investidos intelectuais, artistas, operários, camponeses, estudantes, a população em geral, e o partido – seja do Sistema Capitalista em que vivia (e vive) o mundo.

Falar em derrota, em vitória é imaginar um mundo fechado, com suas hierarquias congeladas. Ou uma sociedade que não se mexe de si. Como tenho afirmado: há movimentos sociais (organizações) e há movimentos da/na sociedade (seu real histórico), visíveis e invisíveis. Do ponto de vista do real, a sociedade está sempre em movimento, o mundo é aberto a possíveis “que não sejam assim”, e ao funcionamento do “isso”,[2] se pensarmos aí a ideologia.

No mundo, jovens se rebelavam contra o que fora recebido[3]: na arte, na música, na ciência, na sociedade, no sistema, na política, na cultura. No Brasil isto se dava em condições de produção histórico-político-sociais muito particulares: vivíamos em uma ditadura.

Penso que aí trabalha a “indistinção” na linguagem, em seus modos de significar. No mundo todo havia movimentos de contestação pelos jovens em suas propostas de novos sentidos. Rebeldia, confrontos, explosão de limites, protestos, agitação, revolta. Nós tínhamos confrontos diferenciados, mas nem sempre distintos, visíveis, compreensíveis: com o sistema e as tradições (a herança cultural), e com a ditadura, como dissemos. Eu arriscaria fazer aí uma distinção, no indistinto, e chamaria de “rebeldia” face às tradições, e destinaria uma parte da rebeldia ao que se denomina “resistência” quando frente à ditadura. Porém não bastava fazer uma para ter a outra. Elas se conjugavam em um “e” (PÊCHEUX, 2018), na sintaxe do des-ligamento.

Em relação ao Sistema, esta geração se considerava, no mundo todo, a geração da responsabilidade pelo que “existia”: responsabilidade pessoal, responsabilidade moral, responsabilidade intelectual, responsabilidade política. Assumíamos sempre a posição de responsáveis, e sentíamos o peso disto. Há uma referência, significativa, de Françoise Sagan, em seu livro “La robe mauve de Valentine”, através de uma das suas personagens: “Meu filho está sempre infeliz. Se sente responsável por tudo que acontece no mundo. Até pela Guerra no Vietnam”. Essa responsabilidade conduzia, face aos acontecimentos no mundo, à “rebeldia”. Rebeldia contra o “sistema estabelecido” (fosse o capitalismo, fosse o comunismo, por exemplo, quando houve a invasão da Tchecoslováquia). Os movimentos de contestação, de nós, brasileiros, eram, muitas vezes, interpretados e etiquetados, estritamente, como movimentos de “resistência” à ditadura. Sobretudo vistos pelo olhar vindo de fora do Brasil. Em um processo marcado pela indistinção, nós, brasileiros, sabíamos, entretanto, estar engrossando a fileira da “subversão”, em que a nossa responsabilidade tingia-se do sangue muitas vezes derramado pelo Brasil ávido de outro futuro, ou quando a luta era contra o que já não fazia sentido, contra a tradição sem vida do capitalismo, nos anseios outros – rebeldia – das sociedades mundo afora. Rebeldia, protesto, agitação, revolta, desobediência. Nuances que significávamos em nossas práticas.

Um termômetro, um observatório, desta complexidade, ou melhor, dessas nuances, muitas vezes está na música. Se, de um lado, a música é feita do silêncio de sentidos a não se dizer (ORLANDI, 1992), por outro lado, as suas reverberações dizem muito mais que um sentido só. Os sentidos, como já tive ocasião de dizer, fogem para todo lado (ORLANDI, 2012). Com ou sem nossa anuência. Se o momento político, em que vivíamos, nos prendia a uma ditadura, nos colocava também no seio das manifestações contestatárias mais gerais que nos atingiam igualmente: por sermos mulheres (falo por mim), por sermos estudantes e professores, por sermos sujeitos sociais, por querermos ser livres em todo campo de nossa existência. Para exemplificar, resumidamente, dois acontecimentos discursivos:

De um lado, o do primeiro Mundo, o grande festival de Woodstock (rebeldia, luta contra o Sistema), realizado em 1969, de outro, o do Terceiro Mundo, os Festivais internacionais da canção, e, entre as muitas músicas cantadas, a canção de Vandré “Pra não dizer que não falei de flores”.

Dois acontecimentos musicais da época. Atrás das “flores” de Vandré está Ibiúna, em um acontecimento outro, desta vez, um Congresso da UNE, em que os estudantes cantam esta música de Vandré contra os militares que foram prender os estudantes ali reunidos (a rebeldia aí é resistência à ditadura). Nos dois acontecimentos, o do primeiro e o do terceiro mundos, há lama, há jovens, há desejo de liberdade. Há cobertores sobre os ombros. Só que as práticas, as condições de produção, as posições-sujeitos e os sentidos são outros. Vejamos as descrições encontradas na mídia:

Acontecimento 1:

“O público do Woodstock, em 1969, era formado pelos jovens da contracultura americana. Diferente da contracultura na Europa, que foi fascinada pelos movimentos de autogestão, pela incitação de incendiários como Guy Debord e por grupos maoístas, nos Estados Unidos o clima era de não-violência. Paz e amor. Vida hippie. O nu era algo normal e o consumo de drogas lisérgicas não precisa nem mesmo ser lembrado. A contracultura batia de frente com a indústria cultural. Se hoje um Jimi Hendrix estampa qualquer camiseta, nos anos 60 ele era quase como o anticristo empunhando uma guitarra. Paz, amor, e viagens lisérgicas são o oposto dos valores burgueses normais de “família”, “trabalho”, “disciplina” e etc e etc. (...).

Acontecimento 2:

A música "Pra não dizer que não falei das flores" foi escrita e cantada por Geraldo Vandré em 1968, conquistando o segundo lugar no Festival Internacional da Canção desse ano. O tema, também conhecido como "Caminhando", se tornou um dos maiores hinos da resistência ao sistema/regime ditatorial militar que vigorava na época. A composição foi censurada pelo regime e Vandré foi perseguido pela polícia militar, tendo que fugir do país e optar pelo exílio para evitar represálias. Juntam-se a ela muitas canções que eram entoadas em passeatas, protestos e manifestações contra o regime, que se espalhavam pelo país no ano de 1968.

Eis a relação entre rebeldia e responsabilidade. Difícil, contraditória, a responsabilidade chamava ao mesmo tempo pela liberdade: “Caminhando e cantando e seguindo a canção/Somos todos iguais braços dados ou não/Nas escolas, nas ruas, campos, construções/Caminhando e cantando e seguindo a canção(...) Vem, vamos embora, que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

A necessidade de união é convocada, e a lembrança de que todos, iguais, queriam a mesma coisa: liberdade.

Figure 1.Figura 1Estudantes presos em Ibiúna seguem pela estrada até a Cooperativa Agrícola de Cotia. Fonte: Arquivo

Figure 2. Figura 2 Festival de Woodstock - Ninguém tinha mais de 30 anos entre os 400 mil jovens que acamparam durante três dias, comendo, bebendo, fumando maconha, dormindo e fazendo amor ao ar livre.

Quantos sentidos, que não coincidem, não se equivalem, nem se alinham podemos dar a rebeldia, a responsabilidade, a resistência. E à liberdade? A conjuntura é a da ditadura, e a da Guerra Fria, esta que divide o mundo em dois: o capitalista e o comunista. Em condições de poder que criminalizam a rebeldia, a resistência, a busca de liberdade, no Brasil, é sujeita à repressão, à prisão, à tortura e à morte, ou ao exílio.

4. Dando alguns passos atrás para falar de liberdade

A liberdade é uma das grandes questões da humanidade. O conceito de liberdade atraves-sa a história da filosofia e ganha diversos significados ao longo da história, fundados em al-gumas interrogações: temos, realmente, liberdade de pensamento e em nossas práticas so-ciais? No período clássico, ela se definia como capacidade de decidir-se por uma ação, domi-nando a si próprio; na Idade Média, ela pressupunha o ascetismo, a superação do pecado, e a elevação do espírito, para os católicos, enquanto, para Lutero, tudo é determinado por Deus. Com o iluminismo, na Idade Moderna, inaugura-se uma visão racional: a liberdade é um direito de cada um, na condição de cada sujeito e sua capacidade de ser dono do próprio destino. Vemos, aos poucos, a noção de liberdade juntando-se ao que é direito, a deveres, a leis, além da vontade; articulando-se à democracia. Presença do Estado. Não qualquer um, mas o capitalista, em que, por definição, temos a forma-histórica sujeito sendo definida pela liber-dade e responsabilidade, marcada, juridicamente, por direitos e deveres. Compromisso bá-sico do capitalismo.

Criticando a noção de liberdade em sua relação com o capitalismo, K. Marx (1980) diz que, em uma sociedade dividida (proletários/capitalistas), as pessoas se tornam “meras ferramentas de produção” e a atividade produtiva se torna “coerção” enquanto a vida hu-mana se reduz à sobrevivência. É o que ele chama de “necessidade”. Só quando consegui-mos nos livrar da necessidade, é que a ideia da liberdade “acontece”. Com F. Nietzsche (2013), temos mais um passo nessa elaboração: para ele, o pensamento racional não é supe-rior às “sensações e experiências”. Segundo o autor, “nenhuma ação é totalmente livre” por-que a escolha ou o desejo de algo são condicionados às condições da natureza, às regras e eventos de uma sociedade, a relações de poder e interpretações sobre o mundo. Para Nie-tzsche, o homem livre supera a si mesmo, pratica uma espécie de “desapego” ou desconstru-ção de si. É um criador de novos valores, da força transmutada, da eternidade do tempo. Li-berdade e transformação. Indo nesta direção e mudando de terreno, consideremos o discurso da liberdade, ou so-bre ela. Para a Análise de Discurso, o que define liberdade é o que, em “condições de produ-ção determinadas”, resulta em seu(s) sentido(s) e sua práxis; há processos de significação que a vão inscrevendo na relação do homem consigo mesmo, com os outros, com a história, a sociedade, o simbólico, o político, e o jogo metafórico que a constitui. Presença da ideologia, das interpretações. Os sentidos de liberdade se vinculam ao modo como funciona a ideologia na constituição do imaginário social, nas relações de poder simbolizadas, na injunção à in-terpretação.

5. Liberdade e responsabilidade

Posta esta nossa perspectiva, ressalta o que diz um autor como Sartre, no existencialismo: estamos “condenados” a ser livres. A liberdade não é uma escolha, é uma injunção. É em Sartre que vamos encontrar a afirmação de que a liberdade traz a “angústia” da responsabilidade. Se somos livres, somos responsáveis por nossas escolhas necessárias. E se pensarmos sobre o que nos diz H. Arendt, temos de incluir também, nesta equação, o controle e a violência. Esta, reforçando a ideia de que a liberdade não é vivida no domínio político. No entanto, sem liberdade não há legitimidade. Cabe, pois, observar a articulação da noção de liberdade, com a de responsabilidade, e a de legitimidade de poder, o que vai nos encaminhar para os ícones desta discursividade: capitalismo e democracia.

A noção de liberdade implica o “outro”. Na democracia, a ideia de “liberdade de expressão” torna-se o carro chefe. Na formação discursiva capitalista, entra, aí, tanto a questão da discriminação como a do politicamente correto, tudo isso fazendo um conjunto extremamente compacto e inseparável. A irrecorrível entrada do digital torna mais complexa esta equação, na medida em que coloca em relação o mundo real e o virtual.[1]

Juntamos liberdade e responsabilidade, e voltamos à reflexão sobre a geração de 1968 e o processo de significação em que se produzem seus sentidos.[2]

Nela observamos um rompimento[3] com a certeza dos sentidos aí postos pela ordem do Direito, que sustenta o capitalismo e sua forma-sujeito histórica. Pela ruptura, podemos nos arriscar no incompreensível da rebeldia, no improvável de outros sentidos, nas rupturas na memória, na constituição de outros modos de assujeitamento — pondo em movimento outros processos de significação — fugindo à negociação estrita com o capitalismo, não cedendo à liberdade como retorno dessa negociação, mas buscando seus outros sentidos, mesmo ao custo do que se tem chamado de “democracia”, constituída na ilusão do sujeito de direitos e deveres. Se todos reivindicam a “democracia” como sua, algo de incompreensível habita estes discursos. Essa “democracia”, de todos os lados, faz aparecer, no processo mesmo de denominação, na formulação desses discursos, uma indistinção que diz respeito às nuances presentes nas diferentes formações discursivas que aí se prestam a equívoco.

A escolha do título, com a formulação “a geração da rebeldia e da responsabilidade”, explorando um assunto que tenho pesquisado, o das fronteiras da linguagem,[4] objetivava falar dos movimentos dos anos 60/70. Sabia estar deslocando a palavra rebeldia, usada no senso-comum para dizer de alguém que é irresponsável. Formação discursiva capitalista. E tinha pelo menos duas metas: mostrar que a palavra “resistência” cobre processos de significação muito diferentes, às vezes chegando mesmo a domesticar o sentido dos enfrentamentos com o poder; e afirmar que há múltiplos movimentos políticos, diferentes, contestatários em sua natureza e sentidos. Senti-me, no início da análise, como bem diz Pêcheux, pendurada em andaimes, sobre o abismo, sem estar em lugar nenhum.

Mas, já posso dizer que, do ponto de vista da Análise de Discurso, o importante é saber que formações discursivas distinguem um movimento político de outro, assim como compreender que formações discursivas significam estas e não aquelas formas de dominação, que, em consequência, constituem manifestações que se erigem em acontecimentos discursivos de enfrentamento político às múltiplas formas de dominação.

No decorrer do trabalho, penso que o mais importante foi entender que não há “acontecimentos” que se dão previamente/ a priori, ou que há discursos privilegiados que se anunciam antecipadamente. Fatos, discursos e manifestações de rompimento de sentidos se conjugam em acontecimentos que significam o que tudo isso pode significar, ao mesmo tempo. Assim como configuram posições-sujeito em suas distinções. Não há uma origem assinalável.

Ao juntar “geração”, “rebeldia”, “responsabilidade”, estava propondo uma questão, e, ao mesmo tempo, produzindo um conceito, que não era senso-comum, e colocava para a reflexão, pela construção de um dispositivo da análise de discurso, um acontecimento histórico-político que vivi: o de 68. Feita a análise, pode-se afirmar que, o que este acontecimento traz, em si, é uma ética, que produz um sentido particular para esta formulação, no modo de significar “responsabilidade” junto a “rebeldia”,[5] e cujo fiel da balança, como afirmei no início, é a liberdade.[6] Melhor: a busca da liberdade, e, na liberdade, a busca de sentidos.

6. A rebeldia hoje

Se observarmos o funcionamento discursivo dos grupos sociais atuais, contemporâneos, podemos apreciar várias formas de manifestação do que chamaria de mal-estar social e consequentes manifestações políticas de rebeldia, ou de resistência.

Em 1968, temos movimentos que podemos vincular – dadas suas conjunturas específicas (ditadura militar e Guerra Fria) - tanto ao confronto com o sistema capitalista, como à resistência à ditadura.

Hoje, é a conjuntura da Globalização, com suas características, e a ascenção da direita, como fato político. Convivemos com o estado permanente de guerra, de violência, de violação de direitos. Podemos dizer que rebeldia e resistência se confundem6 no enfrentamento de situações que aparecem individualizadas, mas são dessa conjuntura, e que atestam, na permanência do capitalismo, como forma dominante de poder, a equivocidade da noção de democracia em relação à liberdade e à responsabilidade. De onde se dão embates de fragmentação do político em situações policialescas, emergindo, em quantidade, a judicialização de nossos direitos e a criminalização da resistência, aqui indistinta da rebeldia.

Na contemporaneidade, a relação entre democracia e liberdade está determinada pela relação democracia e mercado, pelo chamado financismo, no gerenciamento das diferentes formações discursivas que significam, hoje, a relação liberdade e responsabilidade. As formas de resistência e de rebeldia certamente devem ser outras.[2]

Na conjuntura dos anos de 60/70 há diversas formas de resistência e, entre elas, como afirmei, a da relação Política e Cultura: a música foi, então, uma ferramenta da rebeldia, ou da resistência, face ao capitalismo e, em nosso caso, à ditadura. Hoje, a conjuntura da direita articula a Política e a Moral, trazendo para a frente da cena a religião e os costumes, via o chamado liberalismo. A ferramenta da rebeldia[3] que tenho visto, predominantemente, se movimentar, socialmente, é o Humor, sobretudo nas redes sociais, nas mídias em geral, e nas produzidas pelas novas tecnologias de linguagem. O riso, em sua abertura de processos de significação, pode dizer não ao fechamento, pela ironia, pelo sarcasmo,[4] pela própria fuga de sentidos.

Para terminar, gostaria de dizer que esta reflexão nos mostra que o que movimenta a sociedade na história é a sustentação de sentidos em direção à construção da liberdade. E são muitas as formas de resistir às coerções, nos modos em que se pratica a flexibilidade e a plasticidade de processos de significação. Assim, pelo humor, na fuga de sentidos, pelo mesmo gesto, há múltiplos sentidos que saem do silêncio e se apresentam como possíveis. Pelo riso, se este dá voz ao político. Na busca de liberdade, são muitas as formas com que os sentidos do político deslizam em seus processos de significação.

References

  1. Orlandi Eni. Eu, Tu, Eles. Pontes: Campinas; 2017.