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Abstract

Having the speaking/writing relation as the main concern in children’s writing, the objective of this paper was to investigate flotations in the orthographic register of words in this type of writing. The flotations have happened within the same text and have involved the clitic group and phonological word prosodic constituents. The data was extracted from written productions made by Brazilian children who were students from the three initial grades of Elementary School, which compose the Cycle of Literacy. The results have shown that the flotations leave indications of children’s anchorage in, simultaneously, prosodic characteristics of spoken utterances and orthographic conventions characteristics present in written utterances. Therefore, by signaling their anchorage in practices of orality and literacy, the flotations show that the speaking/writing relation detected in children’s writing are constitutive of their writing. The flotations’ anchorage in such practices’ characteristics have also shown the non-coincidences of the words with themselves, especially for they signal to relations maintained by one single prosodic structure of the language, in writing, with broader prosodic structures which recover them. Finally, they have also shown traces of writers’ subjectivity and historicity.

Introdução

Iniciaremos o presente artigo com duas perguntas:

(1) dados não-convencionais de escrita infantil permitem levantar questões acerca das relações entre fala e escrita?

(2) se sim, para quais questões da aquisição da escrita esses dados apontam?

No percurso para respondê-las, vejamos, inicialmente, como fala e escrita costumam ser conceituadas. De um ponto de vista empírico, trata-se de fenômenos da existência humana; de um ponto de vista científico, trata-se de objetos de conhecimento; por fim, enquanto objetos de conhecimento, trata-se de conceitos construídos por diferentes perspectivas de observação científica.

Passemos, então, a como fala e escrita costumeiramente são interpretadas enquanto conceitos. Comecemos pela fala.

Frequentemente, na literatura biomédica, a fala é entendida enquanto ato motor, como se vê, por exemplo, em Duffy (2013). Nessa perspectiva, seus aspectos simbólicos são deixados de lado, como se constituíssem uma exterioridade em relação à fala. Seus aspectos físicos, portanto, é que ganham a dimensão de corresponderem ao todo da fala.

Na literatura linguística, várias são as conceptualizações da fala. No pensamento clássico atribuído a Saussure (1979), por exemplo, ela é vista como um ato psicofísico. Nesse pensamento, portanto, suas dimensões física e simbólica se relacionam, mas comandadas/iniciadas pela dimensão simbólica – entendida como de natureza psíquica. Já em Jakobson (1975), a fala pode ser interpretada como uma das formas de comunicação verbal, ou seja, como uma das maneiras de se produzir uma mensagem. Por sua vez, em Benveniste (1989), a fala pode ser entendida como um dos modos de se enunciar, isto é, de se colocar em uso uma língua. Por fim, na perspectiva textual-interativa, a fala pode ser considerada como uma das maneiras de se produzir um texto, em determinado contexto pragmático.

Similarmente, também são várias as conceptualizações da escrita na literatura. Ela pode ser entendida como diferentes maneiras de codificação do material gráfico, no sentido de que os caracteres, por exemplo, da escrita oriental diferem daqueles da escrita romana. Pode, ainda, ser entendida como um tipo particular de sistema, como o alfabético. Frequentemente é, ainda, entendida como representação da fala, no sentido de que a transcodificaria. Pode ser entendida como um estilo geral, pensando-se que a escrita literária tem características diferentes da escrita científica. Além de estilo geral, pode ser entendida como estilo individual, quando se diz de alguém que tem, por exemplo, uma escrita “rebuscada”.

Na literatura linguística, assim como ocorre com a fala, também a escrita pode ser entendida como uma forma de comunicação verbal, de acordo com o pensamento de Jakobson (1975). Em Benveniste (1989), pode se entendida como um modo de enunciação. Por fim, na perspectiva textual-interativa, pode ser entendida como um ato de produção textual.

Como se vê, são variadas (em quantidade e em natureza) as maneiras como a fala e a escrita podem ser conceptualizadas, especialmente na literatura linguística.

Na perspectiva que proporemos na presente reflexão, no entanto, fala e escrita serão tomadas como dois diferentes modos de produção e de atribuição de sentidos, construídos sob a base de diferentes semioses: (1) a acústico-auditiva, na fala; e (2) a gráfico-visual, na escrita. Portanto, fala e escrita, nessa perspectiva, são atos de linguagem que se assentam em semioses distintas. Em outras palavras, são atos linguísticos nos quais a dimensão física já é investida de potencial de significação, porque já simbolizada por uma língua.

Nesses atos, a produção e a atribuição de sentidos se dariam com base em diferentes articulações entre elementos de dois planos essenciais da linguagem: (i) a língua e (ii) as práticas discursivas orais e letradas. Em síntese, na perspectiva que aqui vimos expondo, a abordagem dos atos de fala e dos atos de escrita configura-se como linguístico-discursiva.

Desse modo, podemos caracterizar a fala como um ato enunciativo cuja materialidade linguística resulta da inserção do falante em determinada(s) prática(s) de oralidade, enquanto prática(s) discursiva(s). Similarmente, a escrita se caracteriza como um ato enunciativo cuja materialidade linguística resulta da inserção do escrevente em determinada(s) prática(s) de letramento, enquanto prática(s) discursiva(s).

Resulta, pois, do que precede que fala e oralidade não são sinônimos. Com efeito, a oralidade corresponde à diversidade de práticas discursivas que regulam a produção e a circulação dos enunciados falados. Já a fala corresponde ao ato enunciativo concreto onde emerge o produto linguístico, sob forma de enunciados, de determinada prática de oralidade.

Analogamente, escrita e letramento, como bem a literatura tem mostrado, não são sinônimos. O letramento corresponde à diversidade de práticas discursivas que regulam a produção e a circulação dos enunciados escritos. Já a escrita corresponde ao ato enunciativo concreto onde emerge o produto linguístico, sob forma de enunciados, de uma prática de letramento.

Assim, fala/oralidade, por um lado, e escrita/letramento, por outro, seriam planos, relacionados, de um complexo fenômeno de linguagem: o da organização linguística de enunciados, produzidos com base em determinada semiose, regulada por práticas discursivas.

No entanto, como alerta Tfouni (1995), em sociedades modernas contemporâneas, práticas orais e práticas letradas não se desenvolvem de maneira isolada. Desse modo, a constituição como falante e como escrevente do sujeito pela linguagem se dá pelo seu atravessamento simultâneo por diferentes práticas de oralidade e de letramento. Portanto: o produto linguístico dessas práticas (tanto nos enunciados falados quanto nos escritos) por um sujeito jamais é “puro” (CORRÊA, 2004).

Isso significa dizer que a fala, enquanto ato enunciativo e fato linguístico, resulta do atravessamento (e constituição) do sujeito não apenas por práticas de oralidade, mas também por práticas de letramento. O mesmo se pode dizer da escrita: enquanto ato enunciativo e fato linguístico, ela resulta do atravessamento (e constituição) do sujeito não apenas por práticas de letramento, mas também por práticas de oralidade. Fala e escrita seriam, pois, constitutivamente heterogêneas, já que se mostram atravessadas, ou constituídas, simultaneamente por características de enunciados produzidos em múltiplas práticas de oralidade e de letramento, que se interpenetram tanto nos atos de fala quanto nos de escrita.

Metodologicamente, portanto, na perspectiva que vimos defendendo, haveria, preferencialmente, duas maneiras de se olhar para as relações entre fala e escrita. Na primeira delas, parte-se de dados de fala, para buscar neles indícios da circulação/atravessamento do sujeito não só por características de enunciados produzidos em práticas de oralidade mas, também, em práticas de letramento. É o que faz, por exemplo, Tfouni (1988) ao mostrar como em narrativas faladas de adultos não-alfabetizados se detectam não apenas características de inscrição dessas narrativas em enunciados que circulam em práticas informais de oralidade mas, também, em práticas de letramento. Na segunda maneira, faz-se o inverso: parte-se de dados de escrita para buscar neles indícios da circulação/atravessamento do sujeito não só por práticas de letramento mas, também, por práticas de oralidade, como propõe Corrêa (2004), ao analisar textos escritos de vestibulandos.

Na presente reflexão, resultante de trabalho apresentado na mesa-redonda “A criança e o uso da língua: fala, escrita e suas relações na aquisição da linguagem” no evento “Abralin ao vivo”, 2020, abordaremos essas relações a propósito de dados de escrita infantil. Para tanto, vamos nos inscrever numa tradição de estudos que vêm se desenvolvendo no Brasil a propósito de dados de escrita infantil que fogem às convenções no que se refere à segmentação de palavras, à ortografia e à pontuação. Quanto à segmentação de palavras, as relações fala/oralidade e escrita/letramento são abordadas, por exemplo, em Chacon (2013), Capristano; Sousa-Machado (2016), Tenani (2017), Fiel; Tenani (2018), Sousa-Machado; Capristano; Jung (2019), dentre outros. Quanto à ortografia, tais relações são abordadas, também dentre outros estudos, em Chacon et al (2016) e em Vaz; Chacon (2020). Por fim, no que se refere à pontuação, elas são abordadas especialmente em Soncin; Tenani (2017) e em Soncin; Rodrigues (2018).

No entanto, um tipo de fenômeno não-convencional da escrita infantil ainda é pouquíssimo estudado sob a perspectiva aqui em proposição. Trata-se das flutuações na segmentação de palavras. Uma vez que nossa principal preocupação é a relação fala/escrita na escrita infantil, e considerando essa lacuna da literatura, o objetivo do presente estudo foi investigar flutuações no registro ortográfico de palavras nesse tipo de escrita. Especificamente, investigamos flutuações que ocorreram no interior de um mesmo texto e que envolveram os constituintes prosódicos grupo clítico e palavra fonológica.

Esses constituintes compõem a organização hierárquica que Nespor; Vogel (1986) fazem do componente prosódico da linguagem. Exporemos, muito brevemente, as principais características dessa organização.

As autoras postulam a existência de sete planos na organização desse componente. No interior de cada um, os constituintes compõem-se necessariamente de uma porção forte (aquela que apresenta certa proeminência prosódica) e uma ou mais de uma porção fraca, ou seja, sem proeminência prosódica. Como os planos se organizam hierarquicamente, os constituintes de um plano passam a ser, necessariamente, parte integrante de constituintes de seu plano imediatamente superior.

Na hierarquia do menor ao maior, os constituintes prosódicos propostos por Nespor; Vogel (1986) são os seguintes: sílaba; pé métrico; palavra fonológica; grupo clítico; frase fonológica; frase entonacional; e enunciado fonológico. Faremos uma rápida caracterização daqueles que serão mobilizados em nossa análise, a saber, os cinco últimos. Exemplificaremos com estruturas retiradas do material de que extraímos os dados deste estudo.

A palavra fonológica é o constituinte que coloca em relação não-isomórfica características prosódicas e morfológicas. A característica principal da palavra fonológica é a de sua proeminência coincidir com um acento da palavra – que pode ser o lexical, quando palavra fonológica e palavra morfológica coincidem, como em “porquinho”, ou outro acento da palavra, como em “guarda-chuva”, uma única palavra do ponto de vista morfológico, mas duas palavras (“guarda” e “chuva”) do ponto de vista prosódico, já que comporta dois acentos.

O grupo clítico é o constituinte que agrupa uma palavra fonológica (ou seja, uma palavra provida de acento) e um (ou mais de um) clítico, ou seja, uma (ou mais de uma) palavra morfológica, mas desprovida de acento. Trata-se, em outras palavras, da relação de ancoragem de um clítico a uma palavra de conteúdo. É a estrutura que se verifica, por exemplo, em “na casa” ou em “do vizinho”. A proeminência, num grupo clítico, é sempre a do acento da palavra de conteúdo.

A frase fonológica é o constituinte que agrupa uma palavra com estatuto de cabeça lexical (substantivo, adjetivo, verbo, alguns advérbios e, eventualmente, alguns pronomes) e todas as demais palavras associadas a ela de seu lado não-recursivo – no português, o lado esquerdo. Vê-se, pois, que, na frase fonológica, informação prosódica e informação sintática mostram-se relacionadas – mas não necessariamente em relação de isomorfia. É a estrutura subjacente à sequência “para a última casa”, na qual a proeminência recai sobre a palavra com estatuto de cabeça lexical (“casa”). Em casos nos quais o cabeça lexical é imediatamente seguido de outro cabeça lexical do seu lado recursivo (o direito), pode haver a reestruturação de uma frase fonológica. É o que acontece em “de sua querida vovozinha”. Em tais casos de reestruturação, a proeminência da frase fonológica recai, no português, sobre o cabeça lexical mais à direita – no exemplo, na palavra “vovozinha”.

A frase entonacional é o constituinte que agrupa, sob um único contorno entonacional, frequentemente delimitado por pausas, uma estrutura oracional básica. É, também, o constituinte em que se integram informações prosódicas, sintáticas e semânticas. É o que ocorre, por exemplo, em “e a maldita casa de palha desmoronou todo”. Nesse tipo de frase entonacional, a proeminência recai sobre a frase fonológica mais à direita do agrupamento – no exemplo destacado, em “desmoronou todo”. No entanto, questões do sentido como a do foco podem deslocar a proeminência dessa posição. Seria, por exemplo, o caso de “de palha” receber foco e se projetar no interior do contorno entonacional. Além da estrutura oracional básica, estruturas deslocadas dela, como vocativos, inserções parentéticas, dentre outros, compõem por si mesmas frases entonacionais, como na sequência “sai daqui seu lobo malvado”, composta de dois contornos entonacionais, respectivamente, “sai daqui” e “seu lobo malvado”.

Por fim, o constituinte mais alto da hierarquia prosódica, o enunciado fonológico, geralmente é delimitado pelo começo e pelo fim de um constituinte sintático, ou seja, é dominado pelo nó mais alto de uma cadeia sintática. Também nele informações prosódicas, sintáticas, semânticas se entrecruzam, mas não necessariamente em relação isomórfica. Se num enunciado fonológico questões de foco não atuarem, sua proeminência vai se localizar na última frase entonacional de sua composição, no português, aquela mais à direita, já que um enunciado fonológico costuma ser constituído de mais de uma frase entonacional. É o que se vê em “Alex lobo estava fazendo um bolo para o aniversário da sua querida amada vovozinha e descobriu que tinha acabado o açúcar.”, composta, respectivamente, pelas frases entonacionais “Alex lobo estava fazendo um bolo para o aniversário da sua querida amada vovozinha” e “e descobriu que tinha acabado o açúcar”.

Passemos, então, aos aspectos metodológicos da investigação.

1. Aspectos metodológicos

Os dados que analisamos foram extraídos de produções textuais infantis que compõem um banco de dados do Grupo de Pesquisa “Estudos sobre a Linguagem” (o GPEL/CNPq). Os textos foram coletados em uma escola estadual de ensino fundamental em um município do interior de São Paulo, por pesquisadores do GPEL, durante o segundo semestre de 2016. Feita a coleta das produções de todas as crianças presentes em sala de aula, foram excluídas da amostra aquelas que não receberam autorização dos pais ou dos responsáveis para participarem da pesquisa. Essa autorização se deu mediante a assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A investigação foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da UNESP sob número 1.795.053.

Desse banco, que contempla a escrita de crianças do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental I, foram selecionadas apenas as 42 produções das 42 crianças que, à época da coleta, frequentavam os três primeiros anos do Ensino Fundamental I – o Ciclo de Alfabetização. Trata-se de reescritas da narrativa “A verdadeira história dos três porquinhos”, de Jon Scieszka – traduzida por Pedro Maia Soares.

Destaque-se que, para essa coleta, a professora de cada sala de aula primeiramente leu, para as crianças, a história. Em seguida, solicitou que as crianças a reescrevessem da maneira como lhes parecesse melhor, sem nenhuma interferência nessa escrita por parte da professora. Os textos foram escritos a lápis, sem o auxílio de borracha, principalmente para que fossem melhor identificados (nas rasuras) os conflitos das crianças em relação à (sua) escrita.

O privilégio dado aos textos das crianças do Ciclo de Alfabetização se deveu ao fato de, nesse Ciclo, a escrita das crianças apresentar, ainda, caráter bastante instável, o que permite melhor observar como vão sendo estabelecidas relações entre a fala e a escrita nessa escrita e como vão se mostrando nela os conflitos inerentes ao estabelecimento de tais relações.

Com base nesse recorte, selecionamos todos os textos que apresentaram, internamente, flutuações relacionadas à segmentação de palavras. Do total de 42 textos produzidos pelas 42 crianças, 26 deles apresentaram flutuações. Nesses 26 textos, 59 palavras foram ortografadas com flutuações. Dado, porém, o elevado número das flutuações que envolveram a estrutura que Nespor; Vogel (1986), em sua caracterização do componente prosódico da língua, interpretam como grupo clítico, priorizamos a análise desse tipo de flutuação. Ela se deu, de modo muito recorrente, nas seguintes palavras: casa; porquinho; porta; e açúcar. Em razão dos limites da extensão de um artigo, analisaremos, então, um exemplo de flutuação de cada uma dessas quatro palavras.

Quanto à sua forma de análise, foram destacados nas flutuações indícios da circulação dos escreventes por práticas de oralidade (especialmente indícios que remetem a características prosódicas de enunciados falados) e por práticas de letramento (especialmente aqueles que remetem a características das convenções ortográficas subjacentes aos limites de palavras ortográficas).

2. A análise

Para a análise, conforme antecipamos, extraímos recortes dos textos que mostram flutuações no registro ortográfico de uma estrutura que, do ponto de vista de sua configuração no componente prosódico da língua, corresponde a um grupo clítico. Em todas as ocorrências analisadas, recorrentemente a flutuação se deu entre seu registro convencional, ou seja, o clítico isolado por espaço em branco da palavra de conteúdo a que se agrega, e um registro não convencional, ou seja, o clítico juntando-se à palavra de conteúdo, junção marcada pela ausência do espaço em branco convencionalmente esperado para o registro, resultando numa estrutura hipossegmentada. Essa junção faz com que aquilo que no componente prosódico corresponde a um grupo clítico seja interpretado, pela criança, como uma correspondência direta entre palavra fonológica e palavra ortográfica.

Essas flutuações serão destacadas em negrito no interior dos recortes. Na apresentação que faremos desses recortes, todos foram transcritos de acordo com a disposição gráfica e ortográfica com que constam dos textos originais – inclusive a linearização e a distribuição entre letras maiúsculas e minúsculas. Passemos, então, à descrição das flutuações no interior desses recortes.

Recorte 1

ENTÃO ERA ANIVERSARIO DA MINHA

VOVÓZINHA MAIS ESTAVA FAUTANDO UMA

XICARA DE AÇUCAR E FUI PIDIR PARA O

MEU VIZINHO E A CASA DELE ERA DE

PALHA E FUI BATERNA PORTA E A PORTA

CAIU MAS NÃO SOU DE FICAR ENTRA-

NDO DAQUELESGEITO NA CASA DAS

PESSOAS AI ACASA DES MORONOU1

Trata-se, aqui, da flutuação “a casa” / “acasa”. No que diz respeito, primeiramente, aos indícios do trânsito da criança por práticas de oralidade, essa flutuação parece dever-se ao contexto prosódico mais amplo que engloba a estrutura em flutuação. Na primeira vez, “a casa” aparece no interior de uma frase entonacional (“e a casa dele era de palha”) composta, por sua vez, de três frases fonológicas (“e a casa dele”; “era”; “de palha”). Ou seja, “a casa” é parte de uma frase fonológica reestruturada. Observe-se, ainda, que a frase entonacional que engloba “a casa” integra uma sequência de frases entonacionais as quais, em seu conjunto, descrevem um conjunto de circunstâncias da ação principal do recorte, a saber, “aí a casa desmoronou”. Trata-se da sequência “era aniversário da minha vovozinha”, “mas estava faltando uma xícara de açúcar”, “e fui pedir para o meu vizinho”, “e a casa dele era de palha”, “e fui bater na porta da casa”, “e a porta caiu”, “mas não sou de ficar entrando daquele jeito na casa das pessoas”. Nesse contexto prosódico, a primeira aparição de “a casa” não está, portanto, em nenhuma posição de destaque.

Situação diferente ocorre, porém, na segunda aparição de “a casa”. Ela faz parte de um enunciado fonológico composto de duas frases entonacionais: “aí” e “a casa desmoronou”. Nessa aparição, estruturalmente interpretada como uma única palavra fonológica (“acasa”), ela recebe destaque prosódico, pelo fato de, na estrutura narrativa, figurar em seu desfecho e pelo fato de, nesse desfecho, corresponder a uma estrutura topicalizada, ou seja, como uma estrutura que recebe foco ao mesmo tempo prosódico e semântico – leitura possibilitada justamente pela junção entre o clítico “a” e a palavra de conteúdo “casa”.

Vê-se, pois, que características prosódicas (mas também semânticas) de como, potencialmente, esse conjunto de enunciados poderia circular em práticas de oralidade informais são trazidas dessas práticas para sua organização escrita.

Mas não só características de tais práticas podem ser indiciadas nessa escrita. Também aquelas que indiciam a circulação da criança por práticas de letramento podem ser detectadas na flutuação ortográfica. Com efeito, a segmentação de “a casa” obedece aos critérios morfológicos de delimitação de palavras ortográficas da língua. Mesmo a segmentação não-convencional “acasa” dá indícios de circulação por práticas de letramento, na medida em que o limite inicial da estrutura corresponde ao limite inicial da palavra morfológica “a” e o limite final corresponde ao limite final da palavra morfológica “casa”2.

Passemos a mais um recorte.

Recorte 2

INFLEI BUFEI

ATI OPORQUINHO ELE MORREU

[...]

INFLEI E BUFEI

E O PORQUINHO MORREU3

Mais uma vez, no que se refere à ancoragem da criança em características prosódicas possivelmente recuperadas de sua inserção em práticas de oralidade (sobretudo as informais), a flutuação na segmentação aponta para diferentes motivações prosódicas. Nessa flutuação, a estrutura que, do ponto de vista do funcionamento prosódico da língua corresponde ao grupo clítico “o porquinho”, em sua primeira ocorrência se mostra registrada como uma segmentação não-convencional de palavras: “oporquinho”. Já na segunda ocorrência, sua segmentação está de acordo com as convenções ortográficas. Na primeira ocorrência, a segmentação não-convencional acompanha o funcionamento que o grupo clítico “o porquinho” adquire na organização prosódica do enunciado prosódico como um todo: “o porquinho, ele morreu”. Com efeito, nesse enunciado, composto de duas frases entonacionais, o grupo clítico acaba por corresponder à primeira delas, representando, pois, um único contorno entonacional. Já na segunda ocorrência, a mesma estrutura mostra outro funcionamento. Ela se torna parte integrante da frase fonológica reestruturada “e o porquinho morreu”, a qual, por sua vez, corresponde a uma única frase entonacional, já que se mostra recoberta por um único contorno entonacional.

Também mais uma vez, do ponto de vista da ancoragem da criança em características recuperáveis de práticas de letramento, tanto os limites convencionais (“o” e “porquinho”) quanto os não-convencionais (“oporquinho”) da estrutura coincidem com limites possíveis de palavras ortográficas. No caso dos não-convencionais, o limite inicial coincide com o começo da primeira palavra da estrutura convencional e o final, com o término da segunda.

Vamos a um terceiro recorte.

Recorte 3

EL BATEU NA PORTA DO CEU

VIZINHO

BATE NAPORTA O PORQUINHO

NÃO TO NEM AI COM A SUA

VOVOZINHA4

Nesse recorte, a flutuação é entre as ocorrências “na porta” (convencional) e “naporta” (não-convencional). Se recuperarmos características de enunciados falados em práticas informais de oralidade, veremos que os dois registros (convencional e não-convencional) do grupo clítico “na porta” situam-se em pontos distintos da organização prosódica dos enunciados em que comparecem. Na primeira ocorrência, a estrutura funciona como uma das frases fonológicas que compõem a frase entonacional de que se compõe o enunciado, respectivamente: “ele bateu”, “na porta”, “do seu vizinho”. Já a segunda ocorrência corresponde à segunda frase fonológica de que se compõe a frase entonacional “bateu na porta”, assim constituída: “bateu”, “na porta”. Uma diferença prosódica se projeta nessa flutuação: na primeira ocorrência, a estrutura encontra-se em posição intermediária da frase entonacional, sem proeminência prosódica, já que a proeminência recai na frase fonológica mais à direita do contorno entonacional, “do seu vizinho”. Diferentemente, a segunda ocorrência corresponde justamente à frase fonológica proeminente do contorno entonacional, sendo a não-proeminente sua primeira frase fonológica, “bateu”.

Em relação à recuperação de características do trânsito da criança por práticas de letramento, assim como ocorreu nos outros pares de flutuação em análise, tanto na ocorrência registrada de acordo com as convenções ortográficas quanto na ocorrência não-convencional, os limites gráficos coincidem com limites das palavras de que se compõe a estrutura.

Passemos, então, ao último recorte que analisaremos.

Recorte 4

Era uma vez um lobo e

uma xicara de açucar

— Senhor porco o senhor tem uma

xicara deaçucar?5

Como fizemos com os recortes anteriores, iniciaremos destacando a ancoragem da criança em aspectos prosódicos possivelmente detectados em enunciados que circulam em práticas informais de oralidade. Esse recorte é composto por dois enunciados fonológicos, cada um deles contendo duas frases entonacionais: (1) “era uma vez um lobo”, “e uma xícara de açúcar”; (2) “senhor porco”, “o senhor tem uma xícara de açúcar”. A estrutura “de açúcar” corresponde à frase fonológica final nas duas frases entonacionais em que ela comparece, respectivamente; “e uma xícara”, “de açúcar” (registrada convencionalmente); e “o senhor tem”, “uma xícara”, “de açúcar” (com registro hipossegmentado). Nas duas ocorrências, ela corresponde ao ponto de proeminência das frases entonacionais, sua frase fonológica mais à direita. O que justificaria, então, a flutuação ortográfica? Uma possível hipótese para tal flutuação é a de que não é, em si mesma, a proeminência que está em questão mas, sim, o contorno entonacional de que ela se reveste no interior das duas frases fonológicas. Com efeito, na estrutura registrada convencionalmente, trata-se de um contorno descendente, típico do encerramento de enunciados declarativos. Já na estrutura registrada de modo não-convencional, trata-se de um contorno ascendente, característico do encerramento de certos enunciados interrogativos.

Quanto aos indícios do trânsito da criança por práticas de letramento, como se deu em todas as ocorrências anteriores, tanto no registro convencional quanto no não-convencional da estrutura, seus limites inicial e final coincidiram com limites inicial e final das palavras de que ela se compõe.

Encerramos, aqui, a descrição de nossos resultados. Destacaremos, então, três tendências para as quais eles apontam:

(1) em todas as flutuações se verificou um conflito, mostrado pela escrita da criança, entre a interpretação de uma mesma estrutura prosódica da língua ora como grupo clítico, ora como palavra fonológica;

(2) nesse conflito, detecta-se um jogo, mostrado na escrita da criança, entre a estrutura em flutuação e sua inserção em estruturas mais amplas, que a recobrem. Por fim,

(3) na flutuação no registro de uma mesma estrutura, detectam-se indícios da inscrição da criança simultaneamente em práticas de oralidade e em práticas de letramento.

Passemos à sua discussão.

Quanto à primeira tendência, não parece ser nada casual a flutuação entre a interpretação de uma estrutura prosódica da língua ora como grupo clítico, ora como palavra fonológica na escrita das crianças. Com efeito, sobretudo nos anos iniciais da alfabetização, não são facilmente compreensíveis, para elas, os critérios que permitem interpretar ora como sílaba, ora como palavra independente uma estrutura desprovida de acento, como o são as sílabas átonas de palavras e os clíticos fonológicos. Nessas flutuações, portanto, o que a escrita das crianças mais faz é justamente colocar em foco aspectos em que a própria língua deixa entrever sua complexidade. São pontos que exemplarmente colocam à mostra as não-coincidências das palavras consigo mesmas (AUTHIER-REVUZ, 1998). Portanto, mais do que marcas de conflitos das crianças com o registro de palavras na (sua) escrita, as flutuações poderiam ser melhor entendidas como marcas do encontro das crianças com a opacidade da língua – no caso em análise, da relação entre seus aspectos prosódicos e ortográficos –, encontro em que sua escrita acaba por explicitar os próprios desencontros da língua consigo mesma.

Esses desencontros, por sua vez, levam a questões relativas à segunda tendência apontada por nossos resultados. Com efeito, nas flutuações, a escrita das crianças parece também mostrar a não-separação entre uma estrutura e seu contexto de ocorrência. Em outras palavras, a língua em ato, em enunciação, parece ser o elemento definidor do funcionamento de suas estruturas (em nosso caso, as de natureza prosódica e gráfica). As estruturas, portanto, não predeterminariam o seu próprio funcionamento num ato de enunciação mas, antes, o ato é que determinaria o funcionamento das estruturas. É o que as flutuações parecem bem indiciar: os aspectos prosódicos mais “altos”, aqueles em que a informação prosódica preferencialmente se integra à sintática e a semântica, ou seja, aqueles em que o sentido se constrói na enunciação, levam para uma direção, ou para outra, o funcionamento de algo que, do ponto de vista estrutural no interior da língua, se mostra como uma única unidade formal. A flutuação entre registro convencional e registro não-convencional de uma estrutura em um mesmo ato de enunciação deve-se, pois, nessa perspectiva, a como essa flutuação parece acompanhar a organização das nuances do sentido em constituintes prosódicos.

Mas essa organização de sentido não resulta apenas da singularidade de um ato de enunciação pela escrita – fato que nos leva às questões relativas à terceira tendência que detectamos em nossos resultados. A todo momento, na descrição que fizemos dos dados, chamamos a atenção para o fato de que características prosódicas que detectamos na escrita das crianças remetem a características que se encontram em muitos enunciados falados que circulam em práticas de oralidade mais informais. Em outras palavras, a singularidade da flutuação, na verdade, mostra como a escrita das criança ancora-se em múltiplos atos de fala que constituem a história de oralidade dos pequenos escreventes. Analogamente, o registro convencional e não-convencional de uma mesma estrutura, embora singular no ato de enunciação escrita em que ocorre, traz nessa flutuação marcas de como os elementos dessa estrutura comparecem em muitos enunciados escritos que circulam em práticas de letramento (e não apenas aquelas que se caracterizam pela informalidade). A junção (ou separação) de sílabas e a delimitação dessas junções (e separações) por espaços em branco são características (orto)gráficas presentes em qualquer enunciado escrito no sistema alfabético. A singularidade das flutuações nos enunciados escritos das crianças traz, portanto, marcas de múltiplos atos de escrita, até mesmo de características gerais das convenções ortográficas, como a de que não se rompem sílabas ortográficas – característica sempre mostrada nas ocorrências que analisamos, inclusive nas não-convencionais. Assim, em síntese, as flutuações ortográficas indiciam a ancoragem da escrita das crianças tanto em características que se detectam em enunciados falados quanto em características que se detectam em enunciados escritos. Trata-se, portanto, de uma escrita constitutivamente heterogênea, já que sustentada, simultaneamente, por características que provêm desses dois tipos de práticas de circulação dos atos de fala e de escrita – plasmadas na escrita, assim como ocorre com a fala.

3. Considerações finais

Retomemos as perguntas com que iniciamos o presente artigo:

(1) dados não-convencionais de escrita infantil permitem levantar questões acerca das relações entre fala e escrita?

(2) se sim, para quais questões da aquisição da escrita esses dados apontam?

Em resposta à primeira pergunta, acreditamos que a análise que fizemos permitiu fornecer uma resposta afirmativa a ela. A todo momento, procuramos mostrar que as flutuações no registro ortográfico de uma mesma estrutura permitem recuperar aspectos de enunciados falados que circulam em práticas de oralidade, bem como aspectos de enunciados escritos que circulam em práticas de letramento. As flutuações mostram, pois, que a escrita analisada ancora-se em características de atos de fala e em características de atos de escrita que se entrecruzam nessa escrita. Nossos resultados permitem, portanto, corroborar Corrêa (2004), no sentido de que não haveria escrita pura, ou seja, escrita não atravessada por características da fala. Nossos resultados mostram, ainda, que as relações entre fala e escrita na escrita não são de interferência da primeira na segunda, já que a ideia de interferência sugere que haveria momentos em que a escrita seria e momentos em que a escrita não seria atravessada pela fala. O entrecruzamento dessas características que detectamos em nossos dados permite, em síntese, confirmar o caráter constitutivamente heterogêneo que Corrêa (2004) atribui a qualquer tipo de escrita. Mesmo porque, enquanto enunciador, o escrevente é também falante; logo, a complexidade de tal constituição deixa traços na sua escrita.

Em resposta à segunda pergunta, as flutuações no registro ortográfico de uma mesma estrutura apontam, de início, para a complexidade das relações entre características prosódicas e ortográficas de estruturas linguísticas que se compõem de elementos fonologicamente acentuados e não-acentuados. Trata-se de uma composição cujas bases se mostram opacas para as crianças, já que um mesmo elemento fonológico não-acentuado ora adquire, convencionalmente, o estatuto de sílaba, ora de palavra. Para crianças em alfabetização, em síntese, não são facilmente acessíveis os critérios que distinguem o estatuto fonológico e o estatuto ortográfico das palavras da língua. As flutuações ortográficas chamam, ainda, a atenção para o fato de que, para a criança, as estruturas não se desvinculam de seus contextos de ocorrência. Em outras palavras, uma mesma estrutura da língua pode, sob a ótica infantil, ser diferente de si mesma, já que seu estatuto, para a criança, pode depender de como ela comparece no interior de estruturas mais amplas, notadamente daquelas mais diretamente vinculadas ao sentido. As flutuações ortográficas, por fim, ao mesmo tempo em que mostram a inscrição da criança em sua escrita, especialmente nos registros não-convencionais, ou seja, sinalizam sua subjetividade, mostram também a ancoragem da criança em múltiplas escritas e falas que as constituem enquanto escrevente (e falante). Sinalizam, portanto, a historicidade dessa sua constituição.

4. Agradecimentos

Apoio: Pq/CNPq: Processo 307721/2017-5

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