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Abstract

This paper explores some characteristics of the denialist discourse, such as its apparent process of legitimacy and its prototypical enunciator. The analysis is based on public declarations made by members of the so called “shadow cabinet” or “parallel cabinet” – a supportive group to the president of the republic and to other federal government agentes, during the covid-19 pandemic. The main objective is to understand the nature of the denialist discourse, especially its antiscientific perspective, taking as theoretical the Discourse Analysis, specially the work of Maingueneau (2010) about topic and atopic discourses: the first one is completelly accept by society but the second is relegated to underground. The results identify a discourse marked by a paradoxical character (its enunciators appear as specialists and scientists, but avoid scientific theses and methodologies), besides of argumentative strategies that obscure the meaning, what characterizes this discourse as atopic. In terms of legitimacy, althought the denialism has a great space and some power in Brazil, with serious consequences related to the pandemic, there are signs that denialist discourse remain atopic.

Começando pelo óbvio: o negacionismo é um discurso

Há séculos, dinâmicas discursivas têm permitido ao negacionismo histórico-científico existir e se reproduzir. Antes mesmo que a ciência se estabelecesse como um campo, os discursos do conhecimento representados pelos cálculos matemáticos de Galileu Galilei, por exemplo, enfrentaram ampla resistência dos negacionistas da época, assujeitados ao discurso religioso. Somam-se a esses embates as polêmicas envolvendo muitos outros estudiosos, como Charles Darwin e Sigmund Freud, cujos textos abalaram crenças e discursos antigos, o que coloca o fenômeno negacionista no centro de interesse dos analistas do discurso, muito embora ele seja mais abordado – e combatido – por pesquisadores de fora dos estudos da língua e do discurso.

Físicos teóricos, astrônomos, biólogos, médicos e sociólogos parecem ser os mais empenhados em escrever sobre os movimentos anti-ciência, segundo a revisão bibliográfica realizada a propósito deste trabalho. Por exemplo, uma das definições de negacionismo mais citadas vem do médico e fisiologista Mark Hoofnagle, para quem essa prática se caracteriza pelo “emprego de argumentos retóricos para dar a aparência de debate legítimo àquilo que não tem legitimidade, com o objetivo principal de rejeitar uma proposição sobre a qual exista um consenso científico” (HOOFNAGLE, 2006, tradução nossa).

Chris Jay Hoofnagle (2007), em colaboração com seu irmão, já citado, chegou a criar uma espécie de “jogo de cartas” com frases comumente empregadas pelos negacionistas, a partir de exemplos de sua área de trabalho, direito do consumidor , na tentativa de expor as manobras retóricas do discurso em questão, como uma forma de popularizar o conhecimento sobre o funcionamento do negacionismo e, assim, informar e alertar as pessoas. Embora esse último estudo admita o papel essencial da linguagem na performance negacionista, falta, ainda, muito a se dizer sobre os mecanismos discursivos envolvidos na manutenção e na aparente ascensão do negacionismo.

Neste artigo, o objetivo é apontar alguns desses mecanismos, levando em conta a noção de atopia discursiva, tal como proposta por Maingueneau (2010), útil para explorar os processos de legitimação dos discursos. Como o interesse, no momento, é investigar aspectos constitutivos mais amplos que caracterizam o negacionismo, não se abordará um movimento negacionista específico, como a negação do aquecimento global, da esfericidade da Terra, do Holocausto, da eficácia das vacinas etc., em seus pormenores, mas sim o aparente processo de institucionalização de movimentos anti-ciência no Brasil, em linhas mais gerais.

O ponto de partida é a polêmica envolvendo a existência de um suposto “gabinete paralelo”, também chamado, por um de seus integrantes, de “gabinete das sombras”, que assessorava (e talvez ainda assessore) a presidência da república nas ações referentes à pandemia de covid-19 no país. Deflagrado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investiga a responsabilidade pelas mais de quinhentas e setenta mil vidas perdidas para o Sars-Cov-2 (578.000 óbitos no Brasil, em 26/08/2021), muitas delas perfeitamente evitáveis, segundo apontam pesquisas recentes, como a de Hallal (2021), o modus operandi desse famigerado gabinete pauta-se por teses negacionistas.

A principal linha de análise deste artigo explora a hipótese de que a denominação do referido gabinete como “paralelo” e “das sombras”, a negação de seus integrantes em fazer parte dele e a alegação de que ele sequer exista, seriam indícios da presença de um discurso atópico, ou seja, um discurso cuja legitimidade social seja problemática e, eventualmente, impossível, de acordo com Maingueneau, já mencionado. Além da investigação de traços de atopia discursiva no discurso negacionista, este trabalho propõe uma caracterização do enunciador prototípico dos discursos atópicos, levando em conta as especificidades do negacionismo.

1. O discurso negacionista e o enfrentamento (ou a disseminação) da pandemia no Brasil

O discurso negacionista tem ocupado diferentes lugares no rol de interações sociais ao longo do tempo, o que parece já sinalizar alguma instabilidade em sua legitimação social.

De acordo com o levantamento feito por McKee e Diethelm (2009), pode-se afirmar que esse discurso chegou a deter muito poder na África do Sul, durante o governo do presidente Thabo Mbeki (1999-2008), que suspendeu as medicações antivirais no combate ao HIV, por negar que a AIDS fosse causada pelo HIV e negar até mesmo a existência do HIV; Manto Tshabalala-Msimang, ministra da Saúde na época, também uma notória negacionista, rejeitou as evidências da eficácia dos antivirais e defendeu o tratamento com alho, beterraba e batata africana, segundo os autores citados.

Outro caso de legitimação do negacionismo foi o governo de Donald Trump nos EUA (2017-2020), em que se pode citar, entre várias ações influenciadas por bandeiras negacionistas, a saída oficial dos EUA do Acordo de Paris, uma vez que Trump é um fervoroso negador do aquecimento global antropogênico.

No polo oposto, os negacionistas e seu discurso passam por períodos de absoluto descrédito. Em relação às mudanças climáticas, a França, por exemplo, endossa os alertas da comunidade científica sobre os perigos do aquecimento climático global e é uma das principais nações a apoiar a Conferência Mundial do Clima, nas duas últimas décadas, o que resultou no Acordo de Paris, em 2015, rejeitando abertamente o discurso negacionista.

Em mais um caso de combate ao negacionismo, a Alemanha dispõe de uma lei, a partir de 1993, que pune com 5 anos de prisão quem negar o Holocausto, contrariando aqueles que pregam não ter havido genocídio judeu durante o regime nazista, e a Áustria adotou a mesma lei, com punição ainda mais severa, 20 anos de prisão.

No Brasil, a partir das eleições presidenciais de 2018, o discurso negacionista parece ter encontrado condições ideais para se estabelecer de modo estrutural, à semelhança de um discurso institucional, com ares de legítimo, alçando-se a posições de elevado poder político, como os ministérios da Educação, da Saúde e das Relações Exteriores, além da própria presidência, conforme mostram alguns dos excertos coletados. Circulam, no país, várias vertentes negacionistas, mas, por ora, a análise se concentrará no contexto da saúde pública, que foi a área alvo da CPI em curso, e que levantou o questionamento sobre a existência de um “gabinete paralelo” ao Ministério da Saúde.

Os principais alvos do movimento negacionista no Brasil, em relação à pandemia causada pelo novo coronavírus, de acordo com especialistas como Dalcolmo (2020) e Hallal (2021), foram e ainda têm sido: a negação de que a covid-19 seja de fato mortal (seria apenas uma “gripezinha”, o número de óbitos estaria inflado, caixões vazios estariam sendo sepultados, os hospitais de campanha estariam vazios etc.), negação da importância das vacinas (chegando, inclusive, a se atribuir à imunização supostos malefícios à saúde, como “alterações no DNA”, ou, alinhando-se a teorias ainda mais conspiratórias, a implantação de microchips na pele através da seringa de vacina, possibilitando, assim, a espionagem de brasileiros pelo governo chinês, pelo governo russo, pelos cientistas etc.), negação das evidências científicas que comprovam a eficácia de medidas como distanciamento social e lockdown, a eficácia do uso de máscaras de proteção e a ineficácia de medicações como a cloroquina contra o Sars-Cov-2.

Nesse último caso, a negação da ciência é acompanhada da defesa de tratamentos “alternativos” e “paralelos” à medicina, sem qualquer endosso de especialistas reconhecidos em suas áreas e até mesmo perigosos à saúde (chegou-se a defender e utilizar nebulização de bicarbonato de sódio e água oxigenada, ingestão de vermífugos, inalação da fumaça de solda de ferro e exposição à luz da solda1 etc.).

Muitas vezes, entretanto, o negacionismo não é tão explícito em sua rejeição à ciência (como na recomendação de se inalar a fumaça das faíscas de solda, o que contraria até mesmo o senso comum), mas vale-se do jargão científico para perverter o consenso científico (voltaremos a esse ponto no tópico seguinte), recorrendo, inclusive, a pessoas com formação na área médica/biológica.

O excerto abaixo, por exemplo, se destacou entre os textos que compõem o corpus desta análise porque, além de revelar a condição instável, pouco legítima, do grupo chamado posteriormente de “gabinete paralelo”, denominando-o de “gabinete das sombras”, coloca sob suspeita a legitimidade da ciência em relação a um tema central dessa pandemia, a eficácia das vacinas – semear a desconfiança sobre as vacinas, aliás, é uma antiga bandeira negacionista.

E1. Eu gostaria de ajudar o Executivo a montar um “shadow board”, como se fosse um “shadow cabinet”, esses indivíduos não precisam ser expostos, digamos assim (...) No contexto da vacina, a gente tem que tomar um extremo cuidado. O Brasil tem uma diversidade genética assombrosa, que faz a população brasileira, provavelmente, uma das grandes mecas no desenvolvimento de vacinas. A gente tem que tomar um cuidado enorme com isso. Com todo respeito, eu acho que a gente tem que ter vacina, ou talvez não, porque o grande problema do coronavírus é que eles têm intrinsecamente, problemas no desenvolvimento vacinal.2

A circulação do vídeo em que essa fala aparece causou espanto nas redes sociais e nos veículos de imprensa por expor a posição de um virologista, professor de uma grande universidade brasileira, a Universidade de São Paulo, quando, a convite de Arthur Weintraub, mentor do grupo em questão, esse virologista vai contra o consenso científico de apoio aos benefícios das vacinas. Embora não assuma explicitamente ser contrário à vacina, ele deixa bastante opacos os sentidos de sua declaração, mais pondo em suspeita a validade de uma vacina contra o coronavírus do que estabelecendo uma diretriz clara, como seria de se esperar de um especialista na área.

Observam-se formulações vagas como “no contexto da vacina” (qual contexto?) “temos que tomar um cuidado enorme com isso” (cuidado com o quê? que tipo de cuidado?), “um cuidado enorme com isso” (a que o pronome demonstrativo “isso”, nos dois enunciados, se refere? Se for a “diversidade genética”, por que ela seria um problema ou um perigo?), “eles têm intrinsecamente problemas no desenvolvimento vacinal” (quem são “eles”? quais são esses problemas e por que o emprego do advérbio “intrinsecamente”?). Mesmo ouvindo toda a exposição em vídeo, muitos pontos permanecem obscuros. As afirmações perdem seu caráter assertivo, diluindo-se em ambiguidade, como em “Eu acho que a gente tem que ter vacina, ou talvez não”.

A opacidade de sentidos é uma característica constitutiva de todos os discursos, entretanto, a forma como o discurso negacionista se vale de ambiguidades e vagueza é significativamente superior ao funcionamento de outras produções discursivas,

Uma metáfora que poderia perfeitamente ser empregada para qualificar a falta de clareza das declarações do virologista aparece na formulação “gabinete das sombras”, feita pelo próprio especialista, ao apontar para o grupo em formação. Além de caracterizar “indivíduos que não precisam ser expostos” (quem? por quê?), a passagem é enunciada em outra língua, o inglês, distanciando-se ainda mais do desejo de se fazer claro a um público de falantes de português, com um agravante adicional de vagueza: mesmo em inglês, os sentidos pairam, incertos, entre duas formulações: “shadow board” e “shadow cabinet”.

Simultânea às dúvidas plantadas pelas declarações, a ideia de um grande perigo iminente vai sendo construída com as expressões “um extremo cuidado”, “assombrosa”, “um cuidado enorme”, “problemas” e com a menção a “diversidade genética” associada à “população brasileira”.

A crença na suposição de que vacinas causam alterações genéticas é uma das teses anticientíficas mais defendidas pelos negacionistas. Nos EUA, voltou à cena um antigo boato de que a vacina (outrora contra sarampo, mas agora contra a covid) causaria autismo e, no Brasil, o presidente em exercício durante a pandemia declarou publicamente que quem tomasse a vacina contra covid-19 poderia “virar um jacaré”, além de obstruir a compra de vacinas vindas do exterior, conforme mostrou a CPI.

Outro caso digno de nota pelo absurdo desserviço prestado à sociedade é a afirmação de que a vacina contra covid alteraria o código genético e levaria a “síndromes perigosas” , prejudicando a “fertilidade” dos adultos e transformando crianças em homossexuais e em transexuais – essas declarações foram feitas pelo então candidato à prefeitura de São Simão (cidade do interior de SP), Marcelo Frazão de Almeida, e difundidas por aplicativos de mensagens, conforme apurado pela agência de fact checking Aos Fatos.3

A disseminação do discurso negacionista por importantes cargos administrativos no governo brasileiro, ainda que de forma obscura e indireta, constitui uma evidência em favor da tese segundo a qual o discurso negacionista estaria em processo de institucionalização no Brasil, o que o colocaria em uma posição muito próxima dos discursos tópicos, publicamente aceitos, se seguirmos a tipologia proposta por Maingueneau (exploraremos as possibilidades de atopia/topia desse discurso na seção a seguir).

Por outro lado, a história das tentativas de estabilização de um discurso desse tipo tem mostrado que, quando essas tentativas acontecem, vêm em ondas, com avanços e recuos, pois sua legitimação não se dá sem obstáculos, nem por força de um decreto ou de uma eleição. Se o processo estiver acontecendo no Brasil, ele começou de maneira mais ou menos discreta, antes mesmo da eleição presidencial de 2018 – embora a chegada de um negacionista à presidência do país torna-se, sem dúvida, um marco temporal na cronologia do negacionismo brasileiro – e tem sofrido franca resistência, que é outra evidência, agora em favor da compreensão de que o negacionismo ainda seja (por enquanto) um exemplar de discurso atópico. Exploremos, então, as fronteiras entre topia e atopia.

2. A atopia discursiva e o enunciador atópico

Avaliando o papel de certos discursos nas práticas sociais, Maingueneau (2010) identifica diferentes “topias” (lugares ou espaços), caracterizando discursos tópicos, paratópicos e atópicos, além de algumas variantes, que não vêm ao caso. Retomando a proposta do autor citado, há discursos que desfrutam de maior legitimidade, marcados por processos de institucionalização bem delimitados, por exemplo, o discurso médico, considerado um discurso tópico: há faculdades de medicina, associações médicas, legislação dedicada a estabelecer os direitos e deveres dos médicos, manuais de medicina, gêneros específicos em que esse discurso se materializa e assim por diante.

Um pouco diferentes são os discursos paratópicos, caso em que, embora também sejam plenamente legitimados, não pertencem, de fato, à sociedade, uma vez que sua fonte está fora da esfera de atividade mundana, por assim dizer: as bases do discurso filosófico, por exemplo, vêm da “razão” e não dos filósofos, assim como tudo o que possibilita a legitimação do discurso religioso vem de um plano divino (o Deus ou os deuses) e não terreno.

Já os discursos atópicos se caracterizam por ocupar um “não-lugar”, por terem uma existência paradoxal e, de certa forma, impossível. Há evidências de que eles existem e produzem efeitos na sociedade, entretanto, eles não têm “direito de cidadania”, não podem ter uma “sede institucional”, não se manifestam em gêneros discursivos próprios, francamente aceitos (geralmente, “parasitam” gêneros de outros discursos), nem seus sujeitos se assumem (pelo menos publicamente) como representantes desse tipo de discurso: exemplos desse caso são os discursos de práticas sexuais tabu, como a necrofilia e a pedofilia, de práticas religiosas que envolvem sacrifícios humanos, como o satanismo, bem como o racismo, a xenofobia e a apologia ao genocídio, entre outros. Segundo Maingueneau (2010, p. 167), trata-se de uma produção “clandestina, nômade, parasita, ocultada”, que ao mesmo tempo existe e não existe.

Indícios de atopia já poderiam ser apontados na denominação do cargo ocupado por Arthur Weintraub, considerado idealizador e gestor do “gabinete paralelo”. Na qualidade de “assessor-chefe adjunto da assessoria especial da presidência”, Arthur Weintraub definiu-se publicamente como “conselheiro” e como “guru” do presidente, termos cobertos de alguma indefinição e até certo misticismo, construindo, junto com a extensa denominação do cargo, uma zona indefinida, envolta em “sombras”. Consideremos algumas de suas declarações (colchetes acrescentados).

E2. [Bolsonaro] virou pra mim e disse: ô magrelo, (...) vai lá e estuda isso daí. Aí comecei a ler artigo científico, não era artigo, era isso que o pessoal solta, o pessoal começa a soltar o que chamam de fast tracking, começam a soltar o que estão pesquisando para difundir o conhecimento, gráficos, e postam artigos que foram submetidos, mas ainda não foram publicados, mas você já pode ler enquanto eles estão sendo avaliados, gráficos, então comecei a ler. (...) e falei pra ele [Bolsonaro]: cloroquina tá funcionando, já tem resultados, tem os gráficos. Passei pra ele os estudos, ele lê. Eu passo no zap e depois tá impresso na mesa dele. (...) O modelo acadêmico, que segue o método científico, é um modelo arcaico, é uma coisa que vem de quando não havia internet, (...) com a internet, você consegue colocar o conhecimento no ar imediatamente.4

E3. Eu, como assessor do presidente, então é uma oportunidade que me foi dada pelo presidente, eu comecei a entrar em contato com os médicos, médicos que tenho referência, como o doutor Luciano Azevedo, a doutora Nise [Yamagushi], o Paulo Zanotto.5

E4. Como pesquisador, eu falei com o presidente, comecei a ler o que existia naquele momento. Era março de 2020, não havia vacinas, não havia nada. Existia o remédio da malária, que estava começando a ser aventado como uma possibilidade, mas dentro desse cenário de guerra, era uma possibilidade. O que eu fiz? Eu li os artigos que existiam, o que havia de coisa publicada e fui falar com o presidente. Antes de mais nada, eu passei na farmácia e comprei esses remédios da malária sem receita. Comprei sem receita e eu tomei por dois dias antes de eu sugerir, ou antes de eu sentir alguma coisa. (...) Começaram a colocar meu nome como chefe de um gabinete paralelo que nunca existiu. Os contatos que existem eram contatos de cientistas. Oxford, cientistas de universidades renomadas, virologistas, médicos que atuam em áreas de ponta. Esse conhecimento técnico, ao invés de ser ruim, pelo contrário, ele ainda é importante.6

Apesar de ter sido associado à prescrição de uma medicação específica, sendo chamado pela imprensa de “guru da cloroquina”7, Weintraub não faz parte do Ministério da Saúde e sequer tem formação na área médica ou farmacêutica.

Segundo informações disponíveis publicamente na plataforma Lattes, Arthur Weintraub é graduado em direito e tem mestrado e doutorado na área de direito previdenciário. Ele realizou um estágio pós-doutoral cuja pesquisa, embora tenha sido feita em um programa de neurociência da UNIFESP, confirma em seu título a área “direito previdenciário e atuarial”, portanto, sem qualquer relação com microbiologia, imunologia, farmacologia ou políticas públicas de saúde, áreas em que ele teria atuado como conselheiro. Como protagonista do chamado “gabinete das sombras”, ele reproduz a identidade do discurso no qual se insere.

Cabe, nesse ponto, uma comparação entre atopia e paratopia, tendo em vista os traços compartilhados por essas duas categorias discursivas.

Ilustrando uma característica do discurso religioso, que é um exemplo de paratopia, Maingueneau cita um trecho do Evangelho de São João, na passagem em que se fala da condição ao mesmo tempo humana e divina de Jesus Cristo e de João Batista, esse último inspirado por Deus para profetizar a vinda do Cristo, segundo a narrativa bíblica. A própria autoria dos evangelhos não vem da vontade dos homens, mas seria inspirada por Deus, então reconhecido como a fonte desse discurso, aspecto imprescindível para sua legitimação.

Com efeito, Maingueneau observa que, nesse caso, a paratopia pode manifestar-se em dois níveis complementares: no nível do discurso, que pertence e não pertence ao universo social, e no nível de cada produtor de texto, que, enquanto autor de um evangelho (São João), autor de uma profecia (João Batista) ou autor de parábolas e sermões (Jesus), “deve construir ele mesmo uma impossível identidade por meio das formas de pertencimento e não-pertencimento à sociedade” (2010, p. 160).

Em relação a essas personalidades representativas do cristianismo, a identidade cindida, humana-divina, que vive no plano terrestre, mas diz coisas que vêm do plano espiritual, sobre-humano, é uma propriedade constitutiva, caracterizadora a paratopia do discurso religioso em questão.

No caso dos enunciadores do discurso atópico, na aproximação proposta nesta análise, as figuras representativas desse discurso manifestam a mesma fluidez da atopia discursiva: o enunciador do discurso atópico é, ele mesmo, atópico. A diferença em relação à paratopia é que não se pode atribuir uma fonte (nem terrena, nem divina) aos discursos atópicos, pelo menos não publicamente, pois esses discursos e seus enunciadores existem e produzem efeitos sem poder assumir sua própria existência e os efeitos decorrentes dela, já que representam discursos rejeitados pela sociedade, vale relembrar.

Estendendo essa reflexão ao estatuto discursivo de Arthur Weintraub, analisando sua alegada posição de “pesquisador”, a figura que emerge dos enunciados é tão instável quanto o estatuto de “guru”. A adesão desse enunciador ao discurso científico é marcada por dois lados incompatíveis, que endossam e evitam a ciência. Ora ele se apresenta como origem das orientações dadas ao presidente da república e como “pesquisador independente” (ele mesmo teria pesquisado textos ditos científicos sobre a covid-19; ele mesmo teria servido de “cobaia” para um suposto teste com automedicação de cloroquina), ora nega esse protagonismo, tentando atribuir a reponsabilidade a outros (por exemplo, aos médicos citados nominalmente em E3).

De modo semelhante, ora ele desqualifica a ciência, ao dizer que o modelo acadêmico, “que segue o método científico”, é um modelo ultrapassado (E2), ora afirma que o conhecimento que vem de “cientistas de universidades renomadas” é importante (E4). Ele assume o posto de conselheiro em assuntos relacionados às ações de enfrentamento à pandemia e descreve suas ações nesse sentido (E2, E3), para depois negar sua participação nessas práticas: “começaram a colocar meu nome como chefe de um gabinete paralelo que nunca existiu” (E4).

Outra inconsistência indicativa de atopia reside na representação problemática de ciência construída nesses textos. A despeito das constantes referências a metodologias científicas, as ações concretamente realizadas não correspondem aos métodos científicos. Por exemplo, há menção a procedimentos semelhantes à metodologia de revisão bibliográfica (mais ou menos encenada em E2), bem como menções a “gráficos”, “artigos”, “resultados”, “cientistas”, “Oxford” (uma importante e muito conhecida universidade) e o relato de um possível “estudo de caso” (com a ingestão da medicação que seria recomendada, o tal “remédio para malária”, sabidamente, cloroquina), em E4.

Começando pelo procedimento de pesquisa e leitura descrito em E2, o principal problema é o fato de, aparentemente, não se tratar de uma revisão bibliográfica metodologicamente embasada, mas de uma pesquisa freestyle sem qualquer rigor acadêmico. Não se sabe, por exemplo, qual seria o tipo de revisão bibliográfica empregada (revisão integrativa, revisão crítica, revisão scoping, estado da arte, meta análise etc.), portanto, como a técnica permanece obscura, não é possível afirmar se houve seriedade no tratamento dos dados reunidos a partir dessas “leituras”. Além disso, as fontes utilizadas como corpus da revisão não são artigos científicos publicados e nem mesmo fruto de fast tracking (processo acelerado de avaliação e revisão por pareceristas, alvo de muitas críticas e preterido por revistas de várias áreas), pois o excerto E2 diz claramente que esses textos “foram submetidos, mas ainda não publicados” e podem ser lidos “enquanto eles estão sendo avaliados”, ou seja, não se sabe, de fato, se serão aceitos como evidência digna de ser publicada ou, se forem, em qual periódico estarão disponíveis (nem todas as revistas desfrutam de confiabilidade; são notórias as polêmicas envolvendo autores que pagam para ter seus artigos publicados, sem qualquer tipo de filtro ou revisão de conteúdo).

Outra falha procedimental é a não divulgação formal de dados relevantes, caso Arthur Weintraub os tivesse. Sendo ele um autointitulado “pesquisador”, nos moldes do campo acadêmico, poderia ter facilmente reunido em um texto os resultados desse alegado trabalho de revisão, de imensa relevância no atual contexto, e submetido a uma revista para publicação. Dada a relação entre o tema do trabalho e o contexto pandêmico, os resultados seriam avaliados e publicados em pouco tempo depois de submetidos, conforme temos visto na divulgação científica de tantos pesquisadores brasileiros, desde o primeiro semestre de 2020. Esse procedimento rotineiro em pesquisas, infelizmente, não foi feito.

Ainda outra falha na adesão aos métodos científicos é tomar evidências anedóticas, vindas de correlação, e apresentá-las como se fossem um dado de pesquisa científica. O primeiro sinal dessa prática interpretativa de livre associação vem de um pressuposto em E2: “Passei pra ele os estudos, ele lê. Eu passo no zap e depois tá impresso na mesa dele”. O encadeamento das orações sugere que, para Weintraub, encontrar os estudos na mesa do presidente significa que esses estudos foram lidos pelo mandatário. Uma correlação eventual entre duas realidades (imprimir os estudos e ler os estudos), portanto, é interpretada como causa e efeito dessas realidades, sem qualquer dado que a comprove.

Correlação semelhante pode ser identificada a partir do que é narrado em E4, em que tomar uma medicação e observar em si mesmo a ausência de efeitos colaterais seria uma “prova” de que a medicação é segura para ser recomendada para a população de um país inteiro, numa correlação puramente acidental, o que contraria todos os postulados metodológicos em estudos na área da saúde, como os ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Essa suposta experiência ou “teste clínico” não tem qualquer validação científica. Porém, mesmo abdicando do método científico, Weintraub mostra o certificado de seu pós-doutorado durante a live em que foi colhido o excerto E4, afirmando que é um pesquisador qualificado e familiarizado com a metodologia científica; em E5, apresenta-se como “cientista”.

O “guru da cloroquina”, então, corresponde plenamente ao estatuto de enunciador de discurso atópico, reproduzindo, nesse caso, a atopia do discurso negacionista – o que, inclusive, soma pontos em favor da hipótese de que o discurso negacionista seja atópico.

Considerando os aspectos abordados até aqui, ressalte-se que essas aparentes contradições ou incompatibilidades, características marcantes da atopia discursiva, não vêm apenas de se simular adesão a um discurso e praticar outro, como se os atores fossem movidos por má-fé ou por inabilidade em sustentar seus argumentos (muito embora a inépcia e a má-fé possam estar presentes). Nos textos analisados, as ações de, paradoxalmente, aderir e rejeitar o mesmo discurso, alinhar-se às práticas de uma comunidade discursiva e desqualificar as práticas daquela comunidade discursiva levam a um enunciador de ethos duplo/híbrido, que poderia ser ilustrado pelo protagonista da obra “O médico e o monstro”, analogia feita em Oliveira (2019), em uma análise dedicada ao ethos do enunciador dos discursos atópicos.

A atopia coloca em cena, assim, uma espécie de instabilidade identitária, com sujeitos e dizeres opacos, de contornos fluidos, que a todo o tempo correm o risco de se diluir. Essa instabilidade se constrói, também, a partir de outros traços característicos da atopia, como a “negação atópica” e suas justificativas, que veremos a seguir.

3. A negação atópica e as sombras além do gabinete

Nesta seção, analisam-se mais algumas características do discurso negacionista, bem como traços adicionais de atopia e outros discursos que podem estar operando em sintonia com o negacionismo. Passemos aos excertos.

E5. Arthur Weintraub negou que tenha organizado um gabinete paralelo de orientação de Jair Bolsonaro em questões relativas à pandemia. Em vídeo publicado na tarde deste sábado ao lado do irmão e ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, ele se definiu como um pesquisador: “Meu histórico é de acadêmico, de cientista” (...) “Se você olhar o que eu falei, eu defendi a liberdade do médico de poder receitar remédio para os seus pacientes.”8

E6. CPI da Covid: “Capitã Cloroquina” nega que governo tenha indicado cloroquina contra coronavírus. A médica Mayra Pinheiro afirmou que o ministério apenas “orientou” o uso de cloroquina, mas nunca “recomendou” o medicamento. Questionada pelos senadores sobre a diferença entre as duas coisas, Pinheiro não explicou.9

E7. Lockdowns são uma “ideia globalista”. O socioconstrutivismo nas escolas já deixa as crianças prontas para serem massa de manobra futura do globalismo esquerdista. A posterior doutrinação progressista nas universidades é o polimento de uma utilização ideológica do sistema educacional inteiro. Teoria da conspiração?10

E8. Mayra Pinheiro e a “realidade paralela”: segundo a secretária, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – instituição centenária responsável pela produção da vacina contra a covid-19 em parceria com o laboratório britânico AstraZeneca – é dominada pela esquerda. “Tudo deles envolve LGBTI, eles têm um pênis na porta da Fiocruz, todos os tapetes das portas são a figura do Che Guevara (...)”, afirma a depoente em áudio divulgado na CPI da Covid.11

Características adicionais dos discursos atópicos que também aparecem nos excertos selecionados são a presença de eufemização e de um certo tipo de “negação de dolo”. Esses traços foram identificados em Oliveira (2018), a propósito do discurso racista, e funcionam como uma forma de dissimular a causa da atopia (o racismo, o sexismo, o negacionismo) em um determinado discurso. No trabalho citado, abordam-se declarações racistas nas quais enunciadores negam haver racismo ao mesmo tempo em que expressões eufemísticas são empregadas na tentativa de diluir o caráter intolerante de uma declaração racista, reenquadrando o enunciado na seara do humor, do mal-entendido, da liberdade de expressão... Nesse sentido, a dissimulação posta em cena pela negação e pela eufemização, além de ser mais um sintoma de atopia discursiva, permite identificar “discursos que estão nas fronteiras entre o aceitável e o inaceitável: eles são inaceitáveis por definição, mas seu funcionamento consiste em (tentar) apresentarem-se como aceitáveis” (OLIVEIRA, 2018, p. 175).

Em E4 (visto anteriormente) e E5, por exemplo, Weintraub nega ser chefe do gabinete paralelo, nega a existência desse gabinete e nega inclusive a indicação de tratamento precoce (com cloroquina) para pacientes com covid-19, muito embora ele mesmo tenha descrito a origem e a constituição desse gabinete (E2 e E3), tenha dito que “cloroquina tá funcionando, já tem resultados” (E4) e que “comprou e tomou (cloroquina) por dois dias ante de sugerir (o tratamento com cloroquina)”.

Note-se que o nome da medicação aparece apenas nos enunciados de abril de 2020 (E2), início da pandemia. Nos excertos seguintes (E3 e E4), aparecem perífrases (“o remédio para malária” e apenas “remédio”), uma elipse depois do verbo “sugerir” (“antes de eu sugerir Ø”), numa tentativa de ocultar o fato de ter sugerido um tratamento sem comprovação científica, ou melhor, com ineficácia cientificamente comprovada contra o novo coronavírus. Em E4, observa-se uma ocorrência que funciona como eufemismo da orientação dada por Weintraub, na condição de chefe do gabinete paralelo: “eu defendi a liberdade do médico poder receitar remédio para seus pacientes”, em que a palavra “cloroquina” está dissimulada na relação de hiperonímia com o termo “remédio” . Ora, essa liberdade já está assegurada pelo código de ética profissional da medicina. O que está em jogo, no caso, é a prescrição de um remédio ineficaz, com o agravante de piorar o quadro viral infeccioso, podendo causar o óbito por efeitos medicamentosos colaterais, conforme amplamente alertado pela comunidade científica e por entidades como a OMS.

Em E6, observa-se outra negação tipicamente atópica, quase uma contradição em termos, expressa na manchete do texto fonte desse excerto “Capitã Cloroquina nega ter indicado cloroquina”. Apesar de negar ter indicado o tratamento com cloroquina, informações levantadas pela CPI e por jornalistas confirmam a médica Mayra Pinheiro como ávida defensora da cloroquina e idealizadora do aplicativo TrateCov, que se destinava a “auxiliar os médicos no diagnóstico e tratamento da covid-19, recomendando um coquetel de medicamente sem eficácia, indiscriminadamente, até mesmo para bebês”, segundo a reportagem da BBC News, referência para E6.

A mesma reportagem informa que, ao contrário do afirmado por Mayra Pinheiro, a Secretaria de Gestão e Educação do Ministério da Saúde, pasta que ela chefiava, divulgou “diretrizes para o tratamento medicamentoso de pacientes com o novo coronavírus”. A nota oficial cita claramente, em 20 de maio de 2020: “As recomendações publicadas nesta quarta-feira são para o tratamento precoce, com cloroquina e hidroxicloroquina, de pacientes com Covid-19, no Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Além da negação, a dissimulação ainda se desdobra na alegação de que a secretária “não ‘recomendou’ o uso de cloroquina, mas apenas ‘orientou’”, sem explicar a diferença de sentido entre os termos citados, de acordo com E6.

A presença de médicos e especialistas da área da saúde operando contra o consenso da área médica, ou seja, reproduzindo um discurso anticientífico, ainda que não se assumam como negacionistas, não é uma peculiaridade do contexto brasileiro, mas um traço recorrente do negacionismo em diversos países, conforme as características identificadas por Hoofnagle (2006), das quais comentaremos o “falso especialista” e as “teorias conspiratórias.”12

Quanto à primeira delas, o especialista ou acadêmico que adere a certas bandeiras negacionistas, ele se apresenta como alguém de elevado saber em uma área específica, mas cujas visões são totalmente inconsistentes com o consenso científico estabelecido (HOOFNAGLE, 2006). Trata-se de um suposto representante da ciência, que não hesita em deturpá-la, o que leva o autor citado a chamar essa figura ambígua de “falso especialista” ou “especialista comprado”. A indústria de tabaco, ainda de acordo com Hoofnagle, recrutou amplamente esse tipo de especialista, a partir dos anos 1970, para tentar neutralizar as crescentes evidências dos males causados pelo tabagismo, produzindo evidências falsas.

Khan-Harris (2018), tratando desse mesmo aspecto do negacionismo, o recrutamento de falsos especialistas, elucida que esses negacionistas específicos costumam trabalhar por anos para produzir, muitas vezes contra todas as probabilidades, “simulacros cuidadosamente elaborados do conhecimento acadêmico que, pelo menos para os não especialistas, são indistinguíveis da coisa real” e, para tanto, “eles refinam técnicas acadêmicas alternativas que lançam dúvidas até mesmo sobre as verdades mais sólidas” (2018, p. 44, tradução nossa).

No contexto da pandemia de covid-19, em relação à atuação de especialistas incompatíveis com a defesa da ciência, ganharam notoriedade os casos do médico francês Didier Raoult, que atualmente corre o risco de perder o direito de exercer a medicina por recomendar o uso de cloroquina e publicar estudos com informações errôneas sobre os efeitos dessa medicação, e da médica brasileira Nise Yamaguchi, que causou polêmica ao confundir vírus e protozoários, quando foi sabatinada em questões médicas na CPI da covid, além de citar informações falsas sobre lockdown e mortalidade causada pela doença.

A esse respeito, Luiz Carlos Dias, professor de física na UNICAMP e membro da Academia Brasileira de Ciências, alerta que, apesar desse tipo de negacionista “acadêmico” se valer do jargão científico para divulgar suas crenças (o que Dias chama de praticar fake science), grande parte dos dados é baseada em notícias falsas, desinformação e até em estudos fraudados (DIAS, apud STEVANIN, 2021).

Somado à presença do “especialista comprado”, outro indicador da ascensão do negacionismo no governo Federal brasileiro, concomitantemente à criação do “gabinete paralelo”, são as exonerações de médicos que defendiam o consenso científico no Ministério da Saúde, como os então ministros Luiz H. Mandetta e Nelson Teich. Na mesma direção, houve a demissão de gestores públicos também comprometidos com a ciência, e a rejeição de novos nomes quando alinhados aos postulados científicos, como as médicas Ludhmila Hajjar e Luana Araújo, bem como o ataque sistemático à reputação de cientistas, tal como denunciado por Hallal (2021).

A segunda característica observada por Hoofnagle (2006) como uma marca identificadora do negacionismo é a presença de “teorias conspiratórias”, que aparecem de variadas formas, a principal delas sendo a alegação de que o consenso científico não viria do fato de cientistas estudarem, analisarem e testarem uma hipótese/teoria em seus respectivos campos, confirmando ou refutando a hipótese/teoria examinada, mas viria da imposição de um grupo secreto que domina e manipula os cientistas e as agências de fomento à pesquisa no mundo todo. O interesse dos poderosos que integram essa sociedade secreta seria esconder da população as grandes verdades, mantendo-a alienada do “mundo real”, que apenas os negacionistas enxergariam. Para Hoofnagle,

a ideia de que cientistas trabalhariam juntos para suprimir alguma informação é completamente infundada. Os cientistas estão competindo uns com os outros, e se algo está sendo suprimido por um grupo, principalmente em áreas que envolvem tecnologias ou patentes, geralmente é apenas porque eles querem publicá-lo primeiro, e seus concorrentes adorariam vencê-los. A ciência é totalmente incompatível com a manutenção de segredos ou conspirações (HOOFNAGLE, 2006, s/p, tradução nossa).

Em uma pesquisa desenvolvida no Brasil sobre a disseminação de informações falsas a respeito da pandemia, Guimarães e Silva (2021) identificaram grande incidência de teorias da conspiração. Segundo os autores, essas narrativas conspiratórias têm um núcleo comum, composto por três pontos: a identificação de um inimigo, o plano desse inimigo para dominar o mundo e a ideologia que ele deve impor para conseguir seu intento. Nesse contexto de conspiração, os autores observam que, para os negacionistas, tanto organizações internacionais quanto governantes de países estrangeiros e até figuras populares dentro no próprio país estariam envolvidos em uma “conspiração globalista” e “multiculturalista” contra os interesses do povo.

Um exemplo de trama conspiratória globalista recorrente encontrada pelos pesquisadores citados é a narrativa de que “o vírus SARS-CoV-2 foi criado em laboratório pelo governo da China com o objetivo de infectar o mundo inteiro e destruir a civilização cristã ocidental, garantindo a ascensão da China como potência global” (2021, p. 361, trad. nossa).

Vale lembrar que Ernesto Araújo, ministro de Relações Exteriores nomeado por Bolsonaro, ganhou notoriedade na comunidade internacional ao fazer circular o termo “comunavírus”, associando o vírus mortal que assola o planeta ao comunismo, além de declarar que os alertas sobre o aquecimento global são fruto do “marxismo cultural”.13 O ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, também causou polêmica ao publicar em seu perfil no Twitter uma imagem com personagens de história em quadrinhos caminhando sobre a muralha da China, com insinuações de que o país comunista tem um “plano para dominar o mundo”.

Nesse mesmo contexto conspiratório, se retomarmos o primeiro excerto analisado (E1), a fala obscura do virologista Paulo Zanoto sobre “tomar um extremo cuidado no contexto da vacina”, sobre “diversidade genética assombrosa” e “a gente tem que ter vacina, ou talvez não” é possível concluir que o pronome “eles”, empregado no excerto de forma vaga, se refira aos chineses e ao suposto perigo da vacina CoronaVac, que estava sendo negociada pelo governador de São Paulo na época dessa declaração. Zanoto, assim, a despeito de ser um especialista no estudo dos vírus, mostra-se como mais uma figura compatível com as definições de falso especialista e de veiculador de teorias conspiratórias.

Voltando, agora, à coletânea apresentada há pouco, o excerto E7 contém uma menção explícita ao já comentado “globalismo”, na afirmação de que “lockdowns são uma ideia globalista”, além de outras conspirações como a conotação negativa imposta à noção de “socioconstrutivismo” (abordagem teórica proposta por Lev Vygotsky, muito respeitado na psicologia da aprendizagem), que transformaria crianças em “massa de manobra futura do globalismo esquerdista”, e referências à suposta “doutrinação ideológica” nas universidades e no “sistema educacional inteiro” (E7). O excerto é concluído por um questionamento que põe em dúvida o fato de alguns rotularem essas afirmações como “conspiratórias”. A pergunta “Teoria da conspiração?” tem um alcance maior do que abrir espaço para respostas “sim” ou “não”, pois ela própria é uma resposta aos agentes do “globalismo esquerdista”, sinalizando que o grupo contrário ao globalismo e à doutrinação ideológica está ciente de que os “agentes da esquerda” entendem o movimento anti-dominação ideológica como “teoria da conspiração”. No excerto, depois da apresentação daquilo que o posicionamento desse grupo anti-esquerda enxerga como evidências de manipulação globalista, a pergunta poderia ser parafraseada como “Será mesmo que todos esses fatos são apenas teoria da conspiração?”.

O mesmo posicionamento contrário à “esquerda” e marcado por outras preocupações além de questões de saúde pública se materializa em E8, nas justificativas dadas pela médica Mayra Pinheiro ao tentar desqualificar o trabalho dos cientistas da Fundação Oswaldo Cruz, afimando que a instituição “é dominada pela esquerda (...) Tudo deles envolve LGBTI, eles têm um pênis na porta da Fiocruz, todos os tapetes das portas são a figura do Che Guevara”, revelando haver bandeiras implícitas no seu trabalho na gestão pública da saúde brasileira, a saber, uma agenda contrária ao movimento gay (na referência à sigla LGBTI), contrária à suposta sexualização de prédios públicos ou a um atentado aos valores morais cristãos (ou a outras conspirações não reveladas publicamente, relativas à afirmação de que há um pênis na porta da Fiocruz, aparentemente interpretando a torre que aparece no logotipo da instituição como símbolo fálico) e contrário à esquerda política e ao comunismo (evocados pela referência a Che Guevara).

Diethelm e McKee (2009) consideram essa estratégia uma variante das teorias conspiratórias, chamando-a de “inversionismo”: trata-se de atribuir ao grupo considerado inimigo as caracteríticas negativas atribuídas aos negacionistas, ou seja, no caso em epígrafe, seriam os comunistas, a esquerda, os gays e outros cientistas que querem prejudicar a sociedade e boicotam o desenvolvimento do país e não os negacionistas dizendo que as vacinas não funcionam e que os cientistas estão errados.

Nessa intrincada rede de pseudofatos e pseudoameaças tecida pelo discurso negacionista, a construção do medo vai além do discurso anti-ciência, abrangendo o medo da destruição dos valores cristãos e da “família tradicional”, traduzido no medo de que “outros” destruam o “nosso” país, o que produz uma cisão entre a categoria “eles” (os gays, os estrangeiros, os esquerdistas, os cientistas etc.) e a categoria que os negacionistas e simpatizantes do negacionismo considera “nós” (patriotas, cristãos, heterossexuais, cidadãos de bem etc.).14

A circulação de teorias conspiratórias amalgamadas com fake news e fake science no Brasil é motivo de grande preocupação pela comunidade acadêmica, principalmente os analistas das relações sociais.

Um levantamento feito por Feliciano de Sá Guimarães, cientista político e professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP), e sua equipe, analisando declarações públicas (entrevistas, pronunciamentos, discursos etc.) dos principais integrantes do governo Bolsonaro (de 2018 até 2020) revelou que 20% dos textos que tratam de política externa brasileira faz referência a teorias conspiratórias relacionadas ao globalismo. Em outro recorte, o mesmo estudo, com a ajuda de programas específicos, examinou todas as mensagens com teor conspiratório publicadas no Twitter no Brasil, independentemente da fonte de autoria, em um período de 2019-2020. O resultado mostrou que 40% dessas mensagens foram postadas por integrantes do governo Bolsonaro. Os estudiosos das relações interacionais afirmam que esse volume de teorias conspiratórias é “algo inédito na diplomacia brasileira” e que o resultado é surpreendente porque “teorias da conspiração não costumam fazer parte da política externa de governos, que têm a diplomacia racional como modelo predominante de narrativa” (GUIMARÃES, apud BARELLA, 2021).

Fica cada vez mais claro, para inúmeros estudiosos da cena política, que o atual presidente “mobilizou o medo da própria pandemia ao converter as teorias da conspiração em retórica oficial do Estado (...) fazendo com que narrativas conspiratórias fossem utilizadas para orientar as respostas governamentais à covid-19 no Brasil” (KALIL et al. 2021, p. 412, trad. nossa).

As consequências do fortalecimento do discurso negacionista e de tudo o que ele representa são uma ameaça à estabilidade das instituições no Brasil e à própria democracia, o que denota a urgência de se compreender plenamente as estratégias retórico-argumentativas desse discurso assim como sua organicidade e modos de circulação – possibilidades de investigação do funcionamento do discurso negacionista que estão abertas para futuros desenvolvimentos deste artigo.

4. Conclusões: um lugar para aquilo que não tem lugar

Além de “paralela”, a rede de contatos que alimenta a presidência da república com diretrizes para o suposto enfrentamento da pandemia também foi denominada de “conselho independente”, “grupo das sombras” e “gabinete das sombras”, algumas dessas expressões empregadas por seus próprios integrantes, embora posteriormente neguem ou aleguem ter sido mal interpretados.

Os dados levantados até o momento permitem afirmar que o discurso desse grupo corresponde, em muitos aspectos, ao discurso negacionista. Observam-se traços como a posição ambígua do especialista que se diz cientista, mas deturpa e contradiz as teses e os métodos científicos, deturpação esta que é uma marca adicional de negacionismo (fake science e inversionismo), além da ocorrência simultânea de teorias conspiratórias, como as alegações de “marxismo cultural”, “doutrinação ideológica”, “dominação globalista” conjuntamente às conspirações relativas à pandemia, como os falsos alertas de que a vacina contra covid transformará heterossexuais em homossexuais ou que implantará um nano chip nos indivíduos, que passarão a ser “espionados” por países estrangeiros, produtores da vacina, entre outras fantasias.

A confirmação da presença e do avanço do negacionismo, que abrange a dimensão linguística, ideológica e pragmática, deve ser vista com extrema preocupação pela sociedade em geral, especialmente pelos atores políticos, em todas as suas modalidades, no sentido de evitar a institucionalização desse discurso no seio do governo Federal, como aparentemente tem acontecido durante a pandemia de covid-19, com negacionistas disfarçados de cientistas bem-intencionados.

Focos de incômodo a esse movimento anticientífico começam a aparecer e alguma resistência já tem sido posta em ação, o que significa que o negacionismo continua sendo um discurso atópico, tal como o propusemos e procuramos comprovar, com a análise de traços caracterizadores da atopia discursiva, como a presença de um enunciador atópico, de negação de dolo e de eufemização. Um discurso não é tópico ou atópico por força das instituições, mas se (des)estabiliza à medida que seduz aliados, reproduzindo sua identidade discursiva, ou desperta inimigos, dando início a confrontos polêmicos.

Compete aos linguistas, especialmente aos analistas de discurso, unirem-se aos sociólogos, historiadores e pesquisadores das ciências biológicas para contribuir com a compreensão das estratégias do discurso negacionista e, com isso, somar forças para mantê-lo na clandestinidade, no mesmo lugar de outros indesejáveis como os discursos racista, sexista e xenófobo.

Referências

BARELLA, José Eduardo. Como as teorias da conspiração guiam a agenda internacional de Bolsonaro. Valor. 29 jan 2021. Disponível em: <>, acesso em 30 jun 2021.

DALCOLMO, Margareth. Negacionismo não é fenômeno novo na História nem na ciência. O Globo, Rio de Janeiro, 8 set. 2020. A Hora da Ciência. Disponível em: <>. Acesso em: 14 out. 2020.

DIETHELM, Pascal.; MCKEE, Martin. Denialism: what is it and how should scientists respond?, European Journal of Public Health, Volume 19, Issue 1, January 2009, p. 2-4,

GUIMARÃES, Feliciano de Sá; SILVA, Irma Dutra de Oliveira. Far-right populism and foreign policy identity: Jair Bolsonaro's ultra-conservatism and the new politics of alignment, International Affairs, Volume 97, issue 2, 2021, p. 345-363.

HALLAL, Pedro Curi. SOS Brazil: science under attack. LANCET, v. 21, p. 1, 2021.

, Mark. Denialism. Science Blogs. Posted on April 30, 2006. Disponível em: <>, acesso em 18 jun 2021.

HOOFNAGLE, Chris Jay. Denialists' Deck of Cards: An Illustrated Taxonomy of Rhetoric Used to Frustrate Consumer Protection Efforts. University of California, Berkeley - School of Law, 2007.

KALIL, I., et al. Politics of fear in Brazil: Far-right conspiracy theories on COVID-19, Global Discourse, vol 11, no 3, 2021, p. 409–425.

MAINGUENEAU, Dominique. A paratopia e suas sombras. In: Doze conceitos em Análise do Discurso. São Paulo: Parábola Editorial, 2010a, pp. 157-170.

OLIVEIRA, Hélio. O racismo que (não) se vê: a fórmula “consciência negra” e a atopia do discurso racista brasileiro. Tese (doutorado). Campinas: UNICAMP, 2018.

OLIVEIRA, Hélio. O ethos atópico. Caderno de Estudos Linguísticos, v. 61. Campinas: Unicamp, 2019.

OLIVEIRA, Hélio. O discurso de ódio: polarização e limitação do outro. In: SALGADO, L. e VILELA-ARDERGHI, A. C. Língua, linguagens, interfaces. Belo Horizonte: Tradição Planalto, 2021.

STEVANIN, Luiz Felipe. Só a ciência salva do obscurantismo - A luta de um cientista contra a pseudociência em tempos de pandemia. RADIS Comunicação e Saúde, Fiocruz, RJ, o8 abr 2021. Entrevista disponível em: <>, acesso em 22 jun 2021.