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Abstract

Evidence shows that bilinguals generally feel more emotional when they express their emotions in their first language when compared to their second (HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006; PAVLENKO, 2007, 2012; DEWAELE; NAKANO, 2012; COSTA et al., 2014). Thus, the aim of this study was to investigate whether bilinguals that have Brazilian Portuguese as their first language (L1) and English as their second language (L2) feel and express their emotions differently in each language. In order to do this, 114 adult bilinguals who have Brazilian Portuguese as L1 and English as L2 answered a questionnaire with questions regarding their linguistic background and also the frequency and probability of expressing their emotions. We investigated the expression of anger, the expression of deep feelings, the use of swear words, and the feeling of being anxious, eloquent, serious, emotional, and fake. In addition, we explored the preference for the L1 or L2 to say “I love you”, to use words of endearment, and to talk about difficult memories. The results showed that the participants preferred Brazilian Portuguese to express emotions, also showing a stronger emotional connection with the L1, thus demonstrating that bilinguals feel and express emotions differently in L1 and in L2. The context of language acquisition, the frequency of use and the self-perceived proficiency proved to be linguistic background factors that exert great influence on the perception and expression of emotions in Brazilian Portuguese and in English.

Introdução

Em um mundo cada vez mais globalizado, onde as questões sobre imigração e as decisões políticas internacionais que influenciam as vidas de muitos vêm se tornando cada vez mais relevantes, entender a realidade de pessoas bilíngues passa a ser necessário. Compreender as implicações da expressão emocional dos bilíngues é uma maneira de entender como eles vivenciam o mundo. Além disso, de acordo com Wierzbicka (2004, p.94 apud DEWAELE, 2012), as emoções são fundamentais na vida humana, e o bilinguismo fornece diferentes pontos de vista no que se refere à expressão das emoções. Portanto, à medida que o número de pessoas com diversas origens linguísticas aumenta, torna-se importante para os estudiosos investigar e identificar os padrões de linguagem dos bilíngues para que possamos analisar o uso da língua em diferentes comunidades e culturas.

Dentro dos estudos que relacionam bilinguismo e a expressão de emoções, destacam-se as pesquisas referentes às diferentes formas pelas quais bilíngues sentem e expressam sentimentos e emoções na sua língua nativa e na sua língua estrangeira. Segundo pesquisas recentes, bilíngues geralmente têm percepções emocionais diferentes dependendo da língua em que estão falando, relatando que se sentem mais emocionais ao expressar emoções na sua primeira língua e mais distantes quando usam a sua segunda língua (HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006; PAVLENKO, 2007, 2012; DEWAELE; NAKANO, 2012; COSTA et al., 2014). Por exemplo, eles frequentemente relatam que tendem a se sentir menos emocionais e menos sérios ao usar uma língua estrangeira, quando comparado à forma como usam sua língua nativa (DEWAELE; NAKANO, 2012). Esse distanciamento emocional na percepção e expressão de sentimentos na L2 pode ser determinante em tomadas de decisões e em interações sociais, visto que a distância emocional sentida na língua estrangeira pode influenciar julgamentos morais (COSTA et al., 2014). Sendo assim, a forma como bilíngues expressam suas emoções tem sido cada vez mais estudada nos últimos anos, e os achados dessas pesquisas fornecem melhor entendimento sobre o que motiva a preferência por uma língua ou outra na hora de expressar sentimentos.

Embora o número de pesquisas sobre a relação entre bilinguismo e a expressão de emoções venha crescendo com os anos, ainda é perceptível a necessidade de haver uma maior quantidade de referenciais sobre o tema. Por exemplo, até a década passada, poucas pesquisas empíricas foram feitas para verificar que bilíngues geralmente se sentem mais emocionais ao se comunicar na sua primeira língua em comparação com a segunda (EILOLA; HAVELKA; SHARMA, 2007). Um dos motivos para esse baixo número de pesquisas na área pode estar relacionado à subjetividade das emoções e às distintas variáveis de histórico de linguagem (por exemplo, idade e contexto de aquisição da segunda língua) que podem estar ligadas à forma como os bilíngues expressam suas emoções (HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006). Nessa mesma linha, Pavlenko (2012) diz que os bilíngues são um grupo de estudo desafiador em razão das combinações de línguas que são pesquisadas, do histórico de aprendizagem e dos diferentes contextos de uso. Portanto, pesquisadores procuram ter cautela com as pesquisas que relacionam bilinguismo e emoções porque conclui-se que as emoções são complexas e altamente dinâmicas (DEWAELE, 2012). Portanto, entende-se que os participantes das pesquisas, sendo expostos a uma mesma situação, podem fornecer grande variação de respostas (DEWAELE, 2010).

Um dos fatores em que os pesquisadores da área precisam prestar atenção é o contexto onde acontece a pesquisa. Segundo linguistas cognitivos, estudos da neuropsicologia referentes à emoção humana, por exemplo, são realizados predominantemente em ambientes onde se fala a língua inglesa (WIERZBICKA; HARKINS, 2001 apud DEWAELE, 2010). Isso faz com que essa perspectiva seja tida como universal, baseada em categorias linguísticas e em termos cognitivos e culturais específicos de um país e cultura (DEWAELE, 2010). Em vista disso, é importante haver a participação de brasileiros falantes de português nas pesquisas da área porque muitas generalizações são feitas acerca dos resultados com base em uma pequena variação de falantes de inglês (DEWAELE, 2010). Segundo Rajagopalan (2010), essa teorização centrada em apenas um grupo é justamente o que deveria ser evitado quando há o interesse pelas complexidades da comunicação interétnica. Dessa forma, é necessário que o estudo das emoções explore uma variedade de idiomas.

No Brasil, é possível observar que há poucos artigos publicados referentes ao assunto com falantes de português brasileiro (PB). Uma pesquisa com as palavras bilinguismo e emoções no Portal de Periódicos da CAPES gerou apenas 12 artigos. Dada essa lacuna, o objetivo deste estudo é investigar se bilíngues que têm o PB como primeira língua (L1) e inglês como segunda língua (L2) sentem e expressam suas emoções de forma diferente na sua língua estrangeira em comparação com sua língua nativa. Dessa forma, o presente trabalho será uma contribuição para os estudos de bilinguismo no Brasil, podendo servir como um incentivo para novos estudos no país, tendo em vista que essa é uma pesquisa limitada e que outras perguntas podem surgir a partir dela. A participação de falantes de PB em pesquisas como essa enriquece a discussão sobre a relação entre bilinguismo e emoções a partir do ponto de vista brasileiro, com suas próprias vivências socioculturais e linguísticas.

1. Definição de emoção

Uma vez que grande parte deste trabalho lida com emoções, percebe-se a necessidade de estabelecermos definições acerca delas. Primeiramente, averiguamos que as emoções podem ser definidas por comportamentos constituídos socialmente. Ou seja, os indivíduos, inseridos na sociedade, avaliam situações do cotidiano e têm reações a elas, como mudanças fisiológicas, reações expressivas e sentimentos subjetivos (AVERILL, 1982 apud DEWAELE, 2010). De acordo com esse ponto de vista sócio-construtivista, as emoções se definem muito mais por sentimentos experienciados em sociedade do que por ações externas (DEWAELE, 2010). Sendo assim, para esta pesquisa, abordamos as emoções conforme a perspectiva social, isto é, a perspectiva que leva em conta que as emoções são definidas pela forma como os indivíduos avaliam, interpretam e reagem (como por mudanças fisiológicas) às situações vividas (DEWAELE, 2010).

Posto isso, vemos que analisar e classificar emoções é uma tarefa de expressiva subjetividade (DEWAELE, 2010, 2012; PAVLENKO, 2012). No mesmo sentido, palavras abstratas, como palavras sobre emoções, são de difícil associação porque se torna complexo categorizá-las (BAKIĆ; ŠKIFIĆ, 2017). Em outras palavras, torna-se complexo categorizar as emoções porque cada pessoa pode ter um conceito diferente para cada emoção. Por esse motivo, para fins objetivos deste trabalho, buscamos aclarar o quanto possível os significados das emoções aqui apresentadas.

Para fazer isso, verificamos que as pesquisas sobre emoções sugerem que as experiências emocionais apresentam duas dimensões: valência e alerta (BAKIĆ; ŠKIFIĆ, 2017). O efeito de valência se refere ao efeito positivo, negativo ou neutro das emoções, e o efeito de alerta aos níveis de efeito alto, baixo e moderado (BAKIĆ; ŠKIFIĆ, 2017; MOHAMMADI, 2020). Por exemplo, a raiva e a tristeza são emoções que apresentam valência negativa, porém somente a raiva demonstra nível de alerta alto, que pode ser determinado pela mudança do ritmo da respiração e da frequência cardíaca (RUSSELL, 2003 apud MOHAMMADI, 2020).

Com isso em vista, classificamos as emoções abordadas nesta pesquisa de acordo com os seus efeitos de valência e de alerta. Sendo assim, os sentimentos de raiva, de ansiedade e de falsidade, assim como o uso de xingamentos e a expressão de memórias difíceis, foram considerados emoções de valência negativa. Aqui, quando falamos sobre se sentir falso, nos referimos ao sentimento de artificialidade na expressão de emoções, assim relacionando-se ao sentimento de não ser condizente com as emoções sentidas pelo falante. Já a expressão da frase “eu te amo”, o uso de termos carinhosos, o sentimento de eloquência e o de seriedade foram classificados como emoções de valência positiva. Nesse caso, relacionamos o adjetivo “sério” ao sentimento de se estar falando a verdade ao se comunicar em sala de aula, estando assim ligado ao sentimento de ser condizente na expressão de suas emoções. No que diz respeito à expressão de sentimentos profundos e ao sentimento de emotividade, para os fins dessa pesquisa, não podemos classificá-los como sentimentos positivos ou negativos, pois não está especificado que sentimentos profundos são esses, podendo ser tanto negativos quanto positivos. Portanto, deixamos sua categorização em aberto.

Quanto ao efeito de alerta, categorizamos as expressões de raiva, o uso de xingamentos e a ansiedade como emoções de alto nível de alerta. Os termos carinhosos e os sentimentos de eloquência e de seriedade foram categorizados como emoções de baixo nível de alerta. A respeito do sentimento de falsidade e das expressões de sentimentos profundos, de memórias difíceis e da frase “eu te amo”, as classificamos como emoções de nível neutro de alerta pelo mesmo motivo apresentado acima. Por exemplo, não temos como classificar se a expressão de memórias difíceis podem ser de alto ou baixo alerta, dado que diversas podem ser as memórias difíceis, não havendo especificidade de quais são elas. A mesma relação vale para a expressão de “eu te amo”, na medida em que muitas são as situações e contextos em que a frase pode ser utilizada, dessa forma dificultando sua categorização entre alto ou baixo nível de alerta. Sendo assim, as emoções apresentadas neste trabalho são de dimensão consideravelmente abstrata, sendo possível que os participantes tenham tido interpretações distintas em relação a elas. Porém, como dito anteriormente, percebemos a necessidade de atribuir significados para as emoções desta pesquisa para termos uma discussão mais clara dos resultados.

2. Expressão de emoções em diferentes línguas

Comunicar emoções pode ser difícil para muitas pessoas, sendo bilíngues ou não. Porém, percebe-se que expressar e entender emoções em uma segunda língua pode ser ainda mais desafiador para muitos falantes de uma língua estrangeira (DEWAELE, 2008). Isso se dá pelo fato de que, por um lado, em interações entre falantes nativos, por exemplo, os interlocutores geralmente têm poucas preocupações referentes à produção e à recepção, pois esse processo acontece de forma mais automática (DEWAELE, 2008).  Por outro lado, falantes de uma língua estrangeira podem enfrentar mais dificuldades por passarem por um processo mais controlado, relacionado à escolha de palavras específicas, expressões adequadas e regras gramaticais e pragmáticas (DEWAELE, 2008), portanto, esse desafio pode estar relacionado à proficiência e ao uso na L2.

De acordo com essa perspectiva, que leva em conta a importância da proficiência, autores sugerem que “[...] tanto a idade de aquisição quanto a alta proficiência são necessárias para se ter uma vantagem emocional"1 (CALDWELL-HARRIS, 2014, p. 1, tradução nossa). Nesse caso, entende-se por “vantagem emocional” a grande intensidade e ligação emocional que se tem na expressão de emoções em uma língua. A idade de aquisição e a proficiência também estão fortemente ligadas a outros dois fatores, que são o contexto de aquisição e a frequência de uso (CALDWELL-HARRIS, 2014).

O contexto de aquisição implica investigar se a aquisição foi natural (como em contextos familiares, ou por imersão em uma comunidade), instruída (apenas pelo ensino formal, em sala de aula) ou ambas (DEWAELE, 2010). Já a frequência de uso tem a ver com a regularidade com que a língua estrangeira é usada diariamente em uma grande ou pequena variação de contextos sociais (DEWAELE, 2010). Esses quatro fatores (proficiência, idade de aquisição, contexto de aquisição e frequência de uso) estão ligados pelo fato de que, normalmente, a aquisição da língua, em anos iniciais, resulta em alta proficiência, que, por sua vez, resulta em um uso frequente da língua (CALDWELL-HARRIS, 2014). A alta frequência de uso também pode levar à alta proficiência, e a aquisição adquirida por imersão (em vez de somente em sala de aula) leva à alta frequência de uso e, por consequência, melhora a proficiência (DEWAELE, 2010; CALDWELL-HARRIS, 2014).

Caldwell-Harris (2014) relaciona esses quatro fatores, principalmente o contexto de aquisição, à resposta emocional em uma língua. Em seu artigo que explora implicações teóricas que buscam explicar as diferenças emocionais entre a L1 e a L2, a autora explica que a forte reação emocional em um idioma se dá pelas experiências humanas serem internalizadas de maneira muito ligada ao contexto em que elas foram vividas. Em outras palavras, o contexto no qual o falante aprende uma língua estrangeira influencia diretamente na carga emocional sentida por ele ao usá-la. Dependendo de como a L2 foi adquirida (por imersão ou apenas na sala de aula, por exemplo), o falante pode sentir que a língua estrangeira carrega grande ou pouca carga emocional em comparação com sua L1. Nesse mesmo sentido, é sugerido que palavras na L1 representam uma maior reatividade emocional pois a L1 é experienciada em muitos mais contextos e aplicada de forma mais variada em comparação à L2, que, geralmente, é menos exposta a contextos variados (DEWAELE, 2008).

Outros estudos também abordam a alta influência do contexto emocional na aquisição e no uso de uma língua. Em 2006, Harris, Gleason e Ayçiçegi elaboraram a teoria que foi chamada de “emotional contexts of language learning”, em português, em tradução livre, “contextos emocionais de aprendizagem de línguas”. A teoria propõe que a língua passa a ter o sentimento subjetivo de grande força ou peso emocional quando ela é aprendida ou usada em contextos emocionais variados, visto que “as experiências humanas são, geralmente, aprendidas e armazenadas de maneira dependente do contexto”2 (HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006, p. 272, tradução nossa). As conclusões desse estudo levaram as autoras a argumentarem que a proficiência, sim, é um grande fator causal no que se refere à forte conexão emocional que se sente na expressão de emoções em uma língua, mas não por si só, porque presume-se que, quanto maior a proficiência, maior é a exposição a contextos emocionais que o indivíduo terá na vida. As autoras seguem argumentando que é possível que uma língua seja percebida como altamente emocional pelo falante mesmo que ela seja aprendida na idade adulta e quando considera-se que o falante não tem um nível alto de proficiência. Um exemplo disso é quando imigrantes se casam com um falante nativo e criam os filhos em um idioma que não é a sua L1 (PAVLENKO, 2004 apud HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006).

Outro exemplo de uma alta conexão emocional com uma língua estrangeira está apresentado em Dewaele (2008), em que uma participante do estudo relatou sentir-se mais emocional ao dizer a frase “eu te amo” em espanhol, sua L3, por conta do seu casamento de longa data com um falante de espanhol. Os resultados desse estudo mostraram que a maioria dos participantes (45%) relatou que a frase tem uma carga emocional maior na sua L1, e os quatro fatores mencionados anteriormente (proficiência, idade de aquisição, contexto de aquisição e frequência de uso) mostraram grande influência no resultado da pesquisa. Por exemplo, foi sugerido que a alta socialização em uma LX, o que consequentemente implica em alta frequência de uso e na auto-percepção de proficiência, faz com que o falante tenha uma maior ligação emocional com a expressão na língua estrangeira.

Esses quatro fatores apresentaram ter efeitos similares no que se refere à percepção do impacto emocional de palavrões e de xingamentos e à expressão da raiva (DEWAELE, 2008). Por exemplo, verificou-se que aqueles que aprenderam uma L2 de forma instruída — comparado com aqueles que aprenderam de forma natural ou de ambas as formas — xingam menos na língua em questão e relatam que ela tem pouca força na expressão de palavrões em comparação com sua L1. Enquanto isso, aqueles que foram considerados como mais proficientes e falantes frequentes de uma L2 declararam sentir que palavrões e xingamentos têm forte carga emotiva na língua estrangeira (DEWAELE, 2010).

Além disso, a perspectiva social e cultural também nos fornece um suporte pertinente para a análise das expressões de emoções de indivíduos bilíngues. Pavlenko (2007) argumenta que a preferência por uma língua ou outra ao expressar as emoções está muito ligada ao efeito pretendido pelo falante. Esse efeito pode ser entendido pela intenção que o bilíngue quer causar ao se comunicar, dependendo dos interlocutores e da situação envolvida. Para isso, bilíngues utilizam do code-switch, a alternância do código linguístico, para se comunicar efetivamente, podendo preferir uma língua a outra por conta das suas particularidades linguísticas (PAVLENKO, 2007). Sugere-se, então, que a preferência de bilíngues por uma língua ou outra ao expressar suas emoções não depende somente da proficiência e da frequência de uso, mas também dos objetivos estratégicos que o falante busca ao interagir (PAVLENKO, 2007).

Dito isso, é possível concluir que uma série de fatores sociais, cognitivos, psicológicos e culturais interagem entre si e caracterizam os processos de aprendizagem, de produção e de compreensão de uma outra língua (DEWAELE, 2010). No presente estudo, considerando o exposto acima, aplicou-se o Questionário sobre Bilinguismo e Percepção de Emoções (ver seção 4.2) com bilíngues adultos falantes de PB (L1) e inglês (L2), grupo de falantes bilíngues pouco estudados na literatura. Além disso, procuramos estabelecer a relação entre a preferência de uso da L1 e da L2 para expressar diferentes emoções. Dentre essas emoções, estão a ansiedade, a raiva, a expressão de xingamentos e de emoções profundas, o sentimento de eloquência, de seriedade, de emocionalidade e de falsidade. Também buscamos investigar se bilíngues julgam que a frase “eu te amo” é mais forte em alguma língua específica, além de apurar a relação entre a preferência de uso da L1 ou da L2 para expressão de termos carinhosos e de memórias difíceis. O propósito de averiguar a ligação entre a preferência de uso da L1 ou da L2 e as emoções apresentadas acima é pesquisar as diferentes percepções e expressões de emoções em diferentes línguas.

3. Método

3.1. Participantes

A coleta de dados contabilizou 121 respostas ao Questionário sobre Bilinguismo e Percepção de Emoções (ver seção 4.2), das quais sete foram descartadas. Das sete respostas que foram descartadas da pesquisa: três foram retiradas por estarem duplicadas, enquanto quatro participantes foram descartados, pois, de acordo com os critérios de exclusão da pesquisa, relataram ter alta proficiência em uma terceira língua, como o espanhol, o alemão e o italiano. Dos 114 participantes restantes, 76,3% eram mulheres, 21,1% eram homens, duas pessoas eram não-binárias e uma preferiu não dizer. Pouco acima da metade alegou estar na graduação, representando 51,8% das respostas; 18,4% disse ter a graduação completa, 14,9% a pós-graduação completa e 12,3% declarou estar na pós-graduação. A média de idade dos participantes é de 26,2 anos de idade (DP = 7,3), e todos são brasileiros bilíngues e multilíngues maiores de 18 anos, falantes de PB como primeira língua (L1) e de inglês como segunda (L2). A porcentagem daqueles que reportaram ter somente a língua portuguesa como dominante é de 67,5%, enquanto os outros 32,5% relataram ter o português e o inglês como as línguas dominantes. Dentre os voluntários da pesquisa, 44,7% reportaram saber somente português e inglês, enquanto 55,3% alegaram saber três ou mais línguas, dentre elas espanhol, francês, alemão, italiano, japonês, russo, mandarim, hebraico, coreano e neerlandês.

A idade média de aquisição da língua inglesa é de 10,6 (DP = 4,2), e a média de idade de aquisição da L3, para aqueles que disseram saber uma terceira língua, é de 18,7 anos de idade (DP = 6,3). Quanto ao tipo de aquisição, 52,6% aprendeu inglês de forma instruída, 7% aprendeu de forma natural e 40,4% aprendeu em ambos os contextos. No que se refere àqueles que possuem uma terceira língua, 62,3% aprendeu a L3 de forma instruída, 14,1% de forma natural e 23,4% teve a aquisição da língua de ambas as formas.

De acordo com essas informações, pode-se observar que grande parte dos participantes (52,6%) aprendeu a língua inglesa de forma instruída, ou seja, em sala de aula, por volta dos 10,6 anos (DP = 4,2), idade média de aquisição da L2. Além disso, uma alta parcela (40,4%) alegou ter aprendido a L2 de forma natural e instruída simultaneamente, o que, provavelmente, tem a ver com os participantes interpretarem o aprendizado da língua de forma autodidata — através de mídias como filmes, séries e música, por exemplo, — como aquisição natural do inglês, uma vez que ocorre fora da sala de aula. Vale mencionar que os participantes também podem ter considerado o aprendizado do inglês em viagens ou intercâmbios como aquisição natural do idioma. Quanto à aquisição da L3, a maioria (62,3%) aprendeu a terceira língua através do ensino formal por volta dos 18,7 anos de idade (DP = 6,3), o que pode influenciar na autoavaliação de proficiência dos participantes, descrita a seguir.

Em uma escala de cinco pontos, em que 1 significava pouco proficiente e 5 totalmente proficiente, os participantes avaliaram a proficiência na L1, L2 e L3 conforme as seguintes médias para as seguintes habilidades:

Língua Habilidade Média DP
Português Fala 4,8 0,69
Compreensão 4,8 0,67
Escrita 4,7 0,79
Leitura 4,8 0,69
Média total 4,8 0,67
Inglês Fala 4,0 0,94
Compreensão 4,5 0,72
Escrita 4,0 0,96
Leitura 4,5 0,74
Média total 4,2 0,73
L3 Fala 2,4 1,0
Compreensão 2,9 1,2
Escrita 2,1 0,97
Leitura 3,0 1,1
Média total 2,6 0,93
Table 1.Tabela 1. Média e desvio padrão da autoavaliação de proficiência na L1, L2 e L3 em diferentes habilidades.

Como pode ser visto, há uma grande diferença de percepção de proficiência entre a L2 e L3, em que é possível perceber que os participantes se julgam bem mais proficientes na segunda língua (M = 4,2, DP = 0,73) do que na terceira (M = 2,6, DP = 0,93). Estatisticamente, o teste-t de amostras pareadas demonstra que os participantes se auto avaliam, considerando-se a média nas quatro habilidades, melhor em inglês do que na L3, t(62) = 15,4 p < 0,001. Esse resultado provavelmente se deve ao fato de que os participantes aprenderam a L3 em idade mais avançada em comparação com a idade de aquisição da L2. Também pode-se atrelar isso ao fato de que a aquisição da L3 ocorreu, em sua maioria, apenas em contexto formal. Além disso, podemos observar que as médias da L2 e da L3 são maiores nas habilidades receptivas (compreensão e leitura) e menores para as produtivas (fala e escrita), sugerindo que os participantes consideram falar e escrever competências mais difíceis de se alcançar a proficiência nas línguas estrangeiras. Outro motivo para os participantes se considerarem mais proficientes em inglês do que na L3 pode estar relacionado à frequência de uso dessas línguas. Em uma escala variando de 0 (nunca) a 5 (muitas horas ao dia), os participantes tinham que marcar com que frequência usavam a L1, L2 e L3 nos contextos representados na tabela abaixo:

Língua Contexto Média DP
Português Amigos 4,7 0,77
Família 4,8 0,68
Colegas da faculdade 4,3 1,4
No trabalho 4,2 1,4
Média total 4,5 0,87
Inglês Amigos 2,4 1,6
Família 0,83 1,3
Colegas da faculdade 2,6 1,4
No trabalho 2,8 2,0
Média total 2,2 1,1
L3 Amigos 0,75 1,3
Família 0,41 1,2
Colegas da faculdade 0,61 1,3
No trabalho 0,39 1,1
Média total 0,54 1,0
Table 2.Tabela 2. Média e desvio padrão da frequência de uso da L1, L2 e L3 em diferentes contextos.

Os dados mostram que a frequência de uso diminui gradualmente na L1, na L2 e na L3, ou seja, usa-se a L1 com muito mais frequência do que a L2 e, consecutivamente, muito mais a L2 do que a L3. Além disso, é possível concluir que o contexto em que os participantes menos usam a sua L2 é com a família, dado representado pela média de 0,83 (DP = 1,3) de frequência em comparação com a média de uso com amigos (M = 2,4, DP = 1,6), colegas da faculdade (M = 2,6, DP = 1,4) e no trabalho (M = 2,8, DP = 2,0).

3.2. Questionário sobre Bilinguismo e Percepção de Emoções

Para esta pesquisa, elaboramos o Questionário sobre Bilinguismo e Percepção de Emoções. O questionário foi baseado em outros dois questionários de estudos realizados anteriormente, o Questionário de Bilinguismo e Emoções (QBE) (DEWAELE; PAVLENKO, 2001-2003) e o questionário que chamamos de Questionário de Percepção de Emoções e Multilinguismo (QPEM) (DEWAELE; NAKANO, 2012). Assim como esses dois estudos, a aplicação do instrumento para a presente pesquisa visou investigar a forma como bilíngues comunicavam suas emoções em línguas diferentes. Contendo 38 questões no total, o Questionário sobre Bilinguismo e Percepção de Emoções foi aplicado na língua inglesa e de forma online através da plataforma Google Forms, sendo dividido em três seções. Para melhor entendermos a explicação do questionário, traduzimos aqui o seu conteúdo para o português.

Na primeira seção, “Informações Linguísticas”, os participantes descreveram quais eram as línguas faladas por eles. Após, eles responderam a perguntas sobre as suas três primeiras línguas (L1, L2 e L3) — para aqueles que possuíam uma terceira —, em que eles tiveram que dizer a ordem, a idade e o contexto de aquisição (instruído, natural ou ambos) de cada uma das línguas. Além disso, havia questões relacionadas à autoavaliação de proficiência e à frequência de uso.

Quanto à autoavaliação de proficiência, foi solicitado que os participantes se avaliassem nas competências fala, compreensão, escrita e leitura em cada uma de suas línguas. Para fazer isso, teriam que assinalar uma opção de uma escala de cinco pontos do tipo Likert, em que 1 significava pouco proficiente e 5 totalmente proficiente. Caso o participante não tivesse um terceiro idioma, ele deveria marcar a opção “N/A” na questão sobre a L3. Quanto à frequência de uso, as perguntas pediam que os participantes respondessem, em uma escala de 0 (nunca) a 5 (muitas horas ao dia), com que frequência eles usavam a L1, L2 e L3 com amigos, com a família, com colegas da faculdade e com colegas no trabalho. Sistema de escala semelhante foi aplicado na seção seguinte.

A segunda seção, chamada “Línguas e Emoções”, estava dividida em duas partes, a primeira com perguntas objetivas e a segunda com perguntas abertas, ambas sobre a expressão de emoções em línguas diferentes. Na primeira parte, os participantes responderam a perguntas apresentadas em escala de cinco pontos referentes à expressão de emoções específicas em contextos específicos. Por exemplo, uma das questões pedia para que os participantes respondessem com que frequência eles expressavam raiva em português, em inglês e em uma terceira língua falada (se houvesse) com amigos, família, colegas da faculdade e colegas de trabalho. A questão também possibilitou que o participante respondesse com “N/A” quando ele julgasse que a situação não se aplicava a algum contexto, como quando não se usa inglês com familiares porque eles não são proficientes na língua. Esse modelo de questão foi baseado no modelo das questões presentes no QBE (DEWAELE; PAVLENKO, 2001-2003).

Nesta mesma parte do questionário, também havia questões que solicitavam que os participantes marcassem o quão eloquentes, sérios(as), emocionais e falsos(as) eles se sentiam quando expostos a diferentes cenários e línguas. Um exemplo está na seguinte pergunta: “O quão sério(a) você se sente em diferentes línguas quando está argumentando sobre o trabalho de algum colega em sala de aula?”. Para responder a essa questão, os participantes assinalaram uma das opções em uma escala de 1 (Nem um pouco) a 5 (Extremamente sério) para português, inglês e outra língua, caso houvesse. O participante também poderia responder com “N/A” quando julgasse que a questão não se aplicava. As perguntas sobre se sentir eloquente, sério(a), emocional e falso(a) eram as últimas questões objetivas da pesquisa.

A parte seguinte consistia em perguntas dissertativas relativas à expressão de emoções específicas em diferentes línguas e em diferentes contextos. Os participantes tinham que escrever, com suas próprias palavras, se possuíam preferência por uma língua ou outra ao usar termos emocionais e carinhosos e também ao compartilhar memórias difíceis com amigos, família, colegas da faculdade e colegas de trabalho. Como exemplo está a seguinte questão: “Você tem preferência por termos emocionais e carinhosos em uma língua específica com seus amigos? Se sim, qual língua e por quê?”. Além disso, os participantes também responderam à seguinte questão: “Em qual língua a frase ‘eu te amo’ é mais forte? Poderia nos dizer o porquê?”. A terceira e última seção, chamada “Informações Básicas”, contava com perguntas relacionadas às informações básicas dos participantes, como idade, gênero e grau de instrução. Deste modo, as perguntas do questionário buscaram averiguar de que maneira bilíngues percebem emoções de formas diferentes ao se expressar na L1 e na L2.

4. Resultados

4.1. Análises Quantitativas

Inicialmente, apresentam-se os dados descritivos do questionário. Abaixo, encontram-se as tabelas 3 e 4, referentes às médias e desvios padrão das frequências e probabilidades de expressões de emoções na L1 e na L2 em diversos contextos.

Com que frequência você expressa raiva nas seguintes situações em cada língua?
Língua Contexto Média DP
Português Amigos 3,4 0,96
Família 3,6 0,83
Colegas da faculdade 3,0 1,4
No trabalho 2,8 1,4
Média total 3,2 1,0
Inglês Amigos 1,6 1,3
Família 0,65 1,0
Colegas da faculdade 1,3 1,1
No trabalho 1,2 1,3
Média total 1,2 0,90
Qual a probabilidade de você expressar os seus sentimentos profundos nas seguintes situações em cada língua?
Língua Contexto Média DP
Português Amigos 3,4 0,9
Família 3,3 1,1
Colegas da faculdade 2,7 1,5
No trabalho 2,6 1,6
Média total 3,0 1,1
Inglês Amigos 1,9 1,4
Família 0,52 1,1
Colegas da faculdade 1,1 1,2
No trabalho 0,94 1,3
Média total 1,1 0,92
Quão ansioso você se sente nas seguintes situações em cada língua?
Língua Contexto Média DP
Português Amigos 0,15 0,50
Família 0,16 0,53
Colegas da faculdade 0,48 0,75
No trabalho 0,61 0,78
Média total 0,34 0,51
Inglês Amigos 0,72 0,90
Família 0,54 0,99
Colegas da faculdade 1,2 1,2
No trabalho 1,3 1,1
Média total 1,0 0,94
Table 3. Tabela 3. Médias e desvios padrão das frequências e probabilidades de expressão de emoções em português e inglês em diversos contextos.

Com que frequência você xinga nas línguas que você fala?
Língua Média DP
Português 3,3 1,1
Inglês 2,3 1,2
Quão eloquente você se sente ao fazer uma apresentação em sala de aula em cada língua?
Língua Média DP
Português 2,9 1,2
Inglês 2,3 1,2
Quão sério você se sente ao argumentar sobre um trabalho de um colega em sala de aula em cada língua?
Língua Média DP
Português 2,8 1,1
Inglês 2,8 1,0
Quão emotivo(a) você fica quando fala sobre suas experiências pessoais com seus colegas de classe em cada língua?
Língua Média DP
Português 2 1,3
Inglês 1,9 1,2
Quão falso você se sente quando está compartilhando sua opinião em discussões em sala de aula em cada língua?
Língua Média DP
Português 0,22 0,60
Inglês 0,63 0,82
Table 4.Tabela 4. Médias e desvios padrão das frequências e probabilidades de expressão de emoções em português e inglês em diversos contextos.

Ao observarmos as médias nas tabelas acima, percebemos algumas diferenças na expressão de emoções na L1 e na L2. A frequência da expressão de raiva em inglês (M = 1,2, DP = 1,0) e a probabilidade de compartilhar sentimentos profundos em inglês (M = 1,1, DP = 0,92), por exemplo, são menores do que em português (M = 3,2, DP = 1,0; M = 1,2, DP = 0,90). Comparada aos outros contextos, a diminuição da frequência e da probabilidade de expressar sentimentos profundos em inglês ocorre de maneira bem mais expressiva no contexto familiar: a média da frequência de expressão da raiva diminui de M = 3,6 (DP = 0,83) em português para M = 0,65 (DP = 1,0) em inglês, enquanto a probabilidade de expressar sentimentos profundos diminui de M = 3,3 (DP = 1,1) em português para M = 0,52 (DP = 1,1) em inglês. Provavelmente, esse resultado está relacionado ao fato de os familiares dos participantes não falarem inglês, assim diminuindo a frequência e a probabilidade de expressão dessas emoções com a família na L2.

A ansiedade foi outra emoção que mostrou diferença expressiva no que tange à L1 e à L2. De acordo com as médias totais, os participantes relataram sentir mais ansiedade ao falar inglês (M = 1,0, DP = 0,94) do que português (M = 0,34, DP = 0,51). Em relação a contextos específicos, observa-se que os participantes se sentem mais ansiosos ao falar inglês com colegas da faculdade (M = 1,2, DP = 0,75) e no trabalho (M = 1,3, DP = 1,1) em comparação ao falar inglês com amigos (M = 0,72, DP = 0, 90) e com a família (M = 0,54, DP = 0,99). Esses dados possivelmente estão ligados ao fato desses contextos (faculdade e trabalho) serem considerados contextos mais formais, onde os bilíngues podem sentir que estão sob avaliação, assim sentindo mais ansiedade na língua estrangeira.

No que diz respeito ao restante das emoções, vemos que os bilíngues xingam com menos frequência em inglês (M = 2,3, DP = 1,2) do que em português (M = 3,3, DP = 1,1) e que eles se sentem menos eloquentes ao fazer apresentações em sala de aula em inglês (M = 2,3, DP = 1,2) do que em português (M = 2,9, DP = 1,2). Os participantes também relataram se sentir igualmente sérios ao argumentar sobre trabalhos de colegas e igualmente emotivos ao falar sobre experiências pessoais com colegas em sala de aula em ambas as línguas. Possivelmente, isso se deu pelo fato de os bilíngues relacionarem a emotividade e, principalmente, a seriedade com a honestidade de seus sentimentos. Isto é, os participantes se julgaram igualmente emotivos e sérios nas duas línguas porque se avaliaram igualmente honestos e sinceros com seus sentimentos independente da língua. Por último, verificamos que os participantes se sentem mais falsos ao compartilhar opiniões em discussões em sala de aula em inglês (M = 0,63, DP = 0,82) do que em português (M = 0,22 DP = 0,60). Isso pode ser atribuído ao fato de os bilíngues se acharem mais artificiais ou menos espontâneos ao falar em inglês em comparação a quando falam português.

4.1.1. Testes-t pareados

Com o objetivo de facilitar a leitura e de diminuir as chances de Erro Tipo 1 nas análises, comparamos, nos testes-t a seguir, somente as médias de frequência e probabilidade de uso da L1 ou L2 para expressar emoções. Essas médias refletem a frequência e probabilidade de uso das línguas nos diferentes contextos apresentados no questionário.

Para investigar a diferença na frequência de uso da L1 e da L2 para a expressão de raiva, nós conduzimos um teste-t pareado. Este teste mostrou que houve uma diferença significativa na frequência em que os bilíngues expressam a raiva, t(113) = 16,5, p < 0,001, demonstrando que os participantes expressam raiva com mais frequência em português (M = 3,2, DP = 1,0) do que em inglês (M = 1,2, DP = 0,90). Conforme as médias e o que esses valores representam nas escalas que foram utilizadas no questionário, os participantes expressam raiva em português frequentemente, enquanto em inglês isso ocorre apenas raramente.

Quanto à comparação da frequência de uso de xingamentos em português e em inglês, a análise também demonstrou que houve uma diferença significativa, t(113) = 7,7, p < 0,001. Dessa forma, o teste evidenciou que os participantes do estudo xingam em português (M = 3,3, DP = 1,1) com mais frequência do que em inglês (M = 2,3, DP = 1,2). De acordo com a escala do questionário, os falantes de português xingam na sua língua nativa frequentemente e em inglês apenas às vezes.

Referente à probabilidade de expressar sentimentos profundos na L1 e na L2, a análise também apontou uma diferença significativa, t(113) = 15,9 p < 0,001. Isso quer dizer que é mais provável que os participantes usem português (M = 3,0, DP = 1,1) para falar de sentimentos profundos, em comparação ao inglês (M = 1,1, DP = 0,92). As médias significam que os bilíngues responderam “certamente” à probabilidade de expressar os sentimentos profundos na L1, enquanto no inglês responderam com “talvez”.

Também houve uma diferença significativa relativamente à ansiedade na L1 e na L2, t(110) = -7,8, p < 0,001. A análise demonstrou que os participantes se sentem mais ansiosos ao falar inglês (M = 1,0 DP = 0,94) do que português (M = 0,33, DP = 0,48). Conforme as médias e a escala do questionário, eles relataram quase nunca se sentirem ansiosos ao se comunicar em português e um pouco ao se comunicar em inglês.

Quanto ao se sentir eloquente ao fazer uma apresentação em sala de aula, o teste-t demonstrou a diferença significativa entre a L1 e a L2, t(106) = 6,2, p < 0,001. De acordo com esse resultado, os participantes se sentem mais eloquentes ao fazer uma apresentação em sala de aula em português (M = 2,9, DP = 1,2), em comparação a quando fazem apresentação em inglês (M = 2,3, DP = 1,2). Segundo as médias, os bilíngues apresentaram se sentir muito eloquentes ao fazer a apresentação em português e apenas moderadamente eloquentes ao fazer em inglês.

Por último, no que se refere a se sentir falso ao compartilhar opiniões em discussões em sala de aula na L1 e na L2, a análise demonstrou haver uma diferença significativa entre as diferentes línguas, t(96) = -4,8, p < 0,001. Isso quer dizer que os participantes relataram, nesse contexto, se sentir mais falsos em inglês (M = 0,64, DP = 0,82) do que em português (M = 0,23, DP = 0,60). As médias dizem que os bilíngues do estudo relataram não se sentir nem um pouco falsos em português, enquanto a média do inglês se aproxima da opção que indica que os participantes se sentem um pouco falsos ao compartilhar suas opiniões em sala de aula.

No que diz respeito a se sentir sério ao argumentar sobre o trabalho de algum colega em sala de aula na L1 e na L2, a análise mostrou que não houve uma diferença significativa entre os dois. Da mesma forma, a análise também demonstrou não haver diferença significativa entre se sentir emotivo em português e em inglês ao compartilhar experiências pessoais com colegas de classe.

Em uma segunda leva de análises, investigamos algumas variáveis linguísticas que poderiam influenciar a forma como os participantes expressam suas emoções na L2. Uma das variáveis exploradas foi a variável língua dominante. Dessa forma, o propósito foi investigar se o fato dos bilíngues possuírem apenas uma língua dominante ou duas influenciaria a forma como eles percebem as emoções e a frequência com que eles as expressam em inglês. Através da investigação, foi possível constatar que houve diferença significativa em duas emoções.

Quanto a se sentir ansioso ao falar inglês, a análise mostrou haver diferença significativa entre aqueles que relataram ter dominância apenas na L1 e aqueles que disseram ter a L1 e a L2 como língua dominante, t(104,1) = 2,7, p = 0,02. De acordo com esse resultado, os participantes que disseram possuir apenas o português como língua dominante se sentem mais ansiosos ao falar inglês (M = 1,7, DP = 1,0), em comparação aos que relataram ter as duas línguas como dominantes (M = 0,67, DP = 0,61). As médias significam que aqueles que tinham português como dominante disseram se sentir ansiosos ao falar inglês às vezes, enquanto aqueles que tinham as duas línguas dominantes relataram se sentir raramente ansiosos.

Outra emoção que apresentou diferença significativa foi a eloquência. Em relação à pergunta sobre se sentir eloquente ao fazer uma apresentação em sala de aula em inglês, o teste-t demonstrou a diferença significativa entre aqueles que possuem apenas a L1 como língua dominante e aqueles que possuem a L1 e a L2, t(85,8) = -3,1, p < 0,001. Esse resultado expressa que aqueles que possuem a L1 e a L2 como dominante relataram se sentir mais eloquentes nas apresentações em inglês (M = 2,0, DP = 1,2) do que aqueles que consideraram apenas o português como língua dominante (M = 2,8, DP = 1,0). Segundo as médias, os participantes com apenas o português como dominante alegaram se sentir moderadamente eloquentes ao fazer apresentações em inglês, e os participantes com as duas línguas como dominante alegaram se sentir muito eloquentes ao fazer as apresentações. Todas as outras comparações entre as línguas dominantes não foram significativas, e apenas as frequências das expressões de raiva e de xingamentos mostraram diferenças marginais.

Outra variável do histórico de linguagem que investigamos para entender como ela influencia a frequência e probabilidade dos participantes expressarem emoções em inglês foi o tipo de aquisição. Comparamos os 60 participantes que adquiriram inglês de forma instruída com os 46 que adquiriram a língua de ambas as formas, natural e instruída. Os oito participantes que relataram ter aprendido inglês apenas de forma natural não foram contabilizados porque oito é um número de baixa expressividade em comparação com o número de pessoas nos outros dois grupos.

Quanto a se sentir ansioso, a análise mostrou diferença significativa entre os que adquiriram a língua apenas de maneira instruída e os que adquiriram de forma natural e instruída, t(89,6) = 2,0, p = 0,047. O teste evidenciou que os que tiveram a aquisição do inglês apenas de forma instruída relataram se sentir mais ansiosos (M = 1,2, DP = 0,87) do que os que tiveram a aquisição das duas formas (M = 0,83, DP = 1,0). Conforme a escala do questionário, isso quer dizer que os bilíngues que tiveram aquisição de forma instruída se sentem um pouco ansiosos, e os que tiveram a aquisição de ambas as formas se aproximam mais da opção de respostas daqueles que responderam não se sentir nem um pouco ansiosos ao se comunicar na L2.

A análise estatística também mostrou diferença significativa referente a se sentir falso ao compartilhar opiniões em discussões em sala de aula, t(85,8) = 2,8, p = 0,003. Os que aprenderam inglês apenas de forma instruída reportaram se sentir mais falsos (M = 0,87, DP = 0,94) do que os participantes que aprenderam de forma instruída e natural (M = 0,39, DP = 0,55). Isso indica que os participantes que aprenderam inglês apenas de forma instruída se sentem um pouco falsos, enquanto a média dos que aprenderam de ambas as formas chega mais perto da opção relacionada a não se sentir nem um pouco falso ao compartilhar opiniões em sala de aula. Todas as outras comparações entre os tipos de aquisição não foram significativas, e apenas as frequências do uso de xingamentos e o sentimento de eloquência ao fazer uma apresentação em sala de aula apresentaram diferenças marginais.

4.2. Análises Qualitativas

Para podermos fazer a análise qualitativa da pesquisa, separamos as respostas escritas dos participantes em cinco categorias para cada pergunta. Optamos por traduzir as respostas dos participantes, que, em sua maioria, foram escritas em inglês. Para a primeira pergunta qualitativa do questionário, “Em qual língua a frase ‘eu te amo’ é mais forte? Poderia nos dizer o porquê?”, separamos as respostas nas seguintes categorias descritas na tabela abaixo:

Em qual língua a frase “eu te amo” é mais forte? Poderia nos dizer o porquê?
Nº de respostas Porcentagem
Mais forte em português 87 76,3%
Mais forte em inglês 13 11,4%
Mais forte em ambas as línguas 8 7%
Mais forte em uma outra língua 5 4,4%
N/A: 1 0,88%
Table 5. Tabela 5. Número e porcentagem de respostas em cada categoria para a pergunta sobre a expressão da frase "eu te amo".

Como podemos observar, das 114 respostas, a maioria, representada por 76,3% das respostas, relatou que a frase “eu te amo” era mais forte em português. Entre as justificativas mais usadas, temos o exemplo do participante que respondeu sentir que a frase “eu te amo”, em inglês, parece mais superficial: "A articulação de 'eu te amo' soa mais potente e profunda que 'I love you' [...] 'I love you' soa mais superficial mas é a que eu mais consigo dizer”. Outros participantes relacionaram a superficialidade da frase em inglês à alta frequência de seu uso: "Eu sinto que falantes de inglês usam essa frase o tempo todo, então perde um pouco do sentido". Diferentes respostas estabeleceram associação da frase em português à vulnerabilidade: "Eu acho que ‘eu te amo’ em português não parece necessariamente mais forte, mas sim mais vulnerável para mim". Outro participante, na mesma linha, ao dizer que a frase era mais forte em português, explicou: “parece um compromisso maior”. Muitos participantes também explicaram que a expressão é mais forte em português por ela ser a língua nativa: “[...] porque é minha língua materna. Foi assim que aprendi a ser amada”. Nesse caso, a pessoa também associou a expressão de emoção ao contexto em que ela foi aprendida e vivenciada. Resposta semelhante foi dada por outro participante: “Em português, porque eu aprendi o que é amor no meu país de origem, então as coisas relacionadas ao amor sempre são mais fortes em minha língua nativa”.

Em relação aos 13 participantes que relataram que a frase “eu te amo” era mais forte em inglês, as justificativas variaram. Três participantes disseram que a frase é mais forte em inglês pela influência de filmes. Um deles disse: "Eu acho que me sinto mais emotivo em inglês por causa dos filmes de romance, onde eles sempre enfatizam essa frase". Outros dois bilíngues relacionaram sentir a frase mais forte em inglês com a expressão desse sentimento com pessoas próximas que falam inglês: "Fui rodeada por falantes de inglês a maior parte da minha vida, e meu namorado fala apenas inglês, então eu começo a falar em inglês naturalmente quando estou com eles”.

Após a pergunta sobre a expressão da frase “eu te amo”, havia a pergunta “Você tem preferência por termos emocionais e carinhosos em uma língua específica? Se sim, qual língua e por quê?”. Como os participantes tiveram que responder a essa pergunta quatro vezes, uma para cada contexto (amigos, família, colegas da faculdade e colegas de trabalho), somaram-se 456 respostas para essa pergunta ao total. Para fins de organização das respostas, juntamos todas elas em uma só pergunta. As respostas ficaram distribuídas conforme a seguinte tabela:

Você tem preferência por termos emocionais e carinhosos em uma língua específica? Se sim, qual língua e por quê?
Nº de respostas Porcentagem
Preferência por português 267 58,6%
Preferência por inglês 64 14%
Sem preferência 106 23,2%
Preferência por outra língua 2 0,43%
N/A: 17 3,7%
Table 6.Tabela 6. Número e porcentagem de respostas em cada categoria para a pergunta sobre preferência de termos emocionais e de afeto.

Das 456 respostas, a maioria, 58,6%, relatou preferir termos emocionais e carinhosos em português. Dentre esse número, foi possível identificar semelhanças entre as respostas dos participantes. No que se refere à expressão de termos emocionais e carinhosos com amigos, por exemplo, os participantes relacionaram a preferência por português por ser a língua mais falada por seus amigos, como podemos ver na seguinte resposta: “Português, porque a maioria dos meus amigos falam português”. Outro exemplo semelhante está na resposta que justifica a preferência por português porque os amigos não falam outras línguas: “Na minha vida social, a maioria dos meus amigos não fala outras línguas”. Explicação semelhante é dada para a preferência do português com a família: “Com a minha família é sempre em português. Nenhum deles fala inglês” e “Português; minha família fala apenas português”. Em relação ao uso de termos carinhosos com os colegas da Universidade e colegas de trabalho, os bilíngues justificaram a preferência por português ser a língua dominante e também porque a expressão dos termos é mais natural na L1: “Português, porque é a língua dominante” e “Português, porque consigo me expressar mais naturalmente”. Os participantes também relacionaram a preferência pelo português ao sentimento de ser mais condizente com a expressão de emoções: “Português, porque parece ser mais verdadeiro com as expressão das minhas emoções”. Outro participante deu outra explicação, dizendo que inglês parece ser usado em contextos mais informais: “Inglês parece uma língua para estudar ou trabalhar”. Ou seja, esses participantes alegaram que o português era mais apropriado para expressão de termos emocionais carinhosos com colegas da Universidade e colegas de trabalho por haver diferença de percepção em cada língua ao expressar emoções. De forma semelhante, outro participante dá outra justificativa para essa ocorrência: “Português, porque nós não sentimos em inglês”.

Aqueles que declararam não ter preferência por nenhuma língua em particular ao usar termos emocionais e carinhosos disseram não sentir diferença entre expressá-los em português e inglês: “Ambos inglês e português têm o mesmo peso”. Um dos participantes não declarou não haver preferência pela L1 ou L2, mas alegou que a percepção e a expressão dos termos eram diferentes em cada língua, e a escolha por uma ou outra dependia da intenção na hora de se comunicar com amigos: “Se uso português, é porque eu quero uma conexão mais profunda e porque estou me abrindo sobre meus sentimentos. Se uso inglês, é porque eu não quero parecer muito vulnerável, então eu uso minha segunda língua para não produzir essa vulnerabilidade com palavras em português”. Ou seja, português representou ser a língua ligada ao se sentir vulnerável, e o inglês representou uma certa distância dessa vulnerabilidade.

A questão da vulnerabilidade também foi abordada por aqueles que reportaram preferir inglês para usar termos carinhosos com amigos e colegas da Universidade. Um dos participantes reportou se sentir mais vulnerável em português, dizendo “Com os meus amigos, prefiro falar sobre minhas emoções em inglês porque me sinto muito mais confortável do que em português. Em português, me sinto muito sério e vulnerável”. No mesmo sentido, outro participante disse se sentir menos exposto em inglês: “Eu me sinto mais confortável e menos exposto com termos em inglês”. Acerca da expressão dos termos com a família, os bilíngues relataram preferir a L2 por ser a língua usada por familiares próximos, como o participante que relatou a preferência porque a primeira língua do filho é inglês: “Inglês - a primeira língua do meu filho é inglês” e também o participante que alegou preferir inglês por causa de sua esposa: “Inglês, porque minha esposa é professora de inglês”. No que diz respeito à expressão com colegas de trabalho, os participantes explicaram a preferência por trabalharem em um ambiente em que a língua predominante é o inglês: “Inglês, porque eu trabalho em uma escola de inglês”.

A respeito da última pergunta “Você tem preferência por falar sobre lembranças difíceis em uma língua em específico? Se sim, qual língua e por quê?”, foi feita a mesma separação de respostas realizada na questão anterior. Como essa questão foi respondida quatro vezes pelos 114 participantes, uma vez para cada contexto (amigos, família, colegas da faculdade e colegas do trabalho), 456 respostas foram contabilizadas no total. Para fins de organização, distribuímos as respostas nas categorias de acordo com a tabela abaixo:

Você tem preferência por falar sobre lembranças difíceis em uma língua em específico? Se sim, qual língua e por quê?”
Nº de respostas Porcentagem
Preferência por português 302 66,2%
Preferência por inglês 71 15,6%
Sem preferência 65 14,2%
Preferência por outra língua 1 0,20%
N/A: 17 3,7%
Table 7.Tabela 7. Número e porcentagem de respostas para cada categoria para a pergunta sobre a expressão de lembranças difíceis.

Como visto acima, a maioria, 66,2%, disse preferir expressar seus sentimentos mais profundos em português. Sobre a expressão de memórias difíceis com a família, a preferência pelo português se deu pelo fato de os familiares não falarem outro idioma, como representado no seguinte exemplo: “Português, porque eles apenas falam português”. Sobre os amigos, os participantes argumentaram que sentem que expressam emoções profundas de maneira mais satisfatória na L1, por essa ser a língua nativa e, portanto, de mais fácil acesso: “Em português, pois a conexão com o idioma materno é maior para usar as palavras mais adequadas”. O acesso ao vocabulário na L1 também foi mencionado no seguinte exemplo de resposta: “Português, pois acho que o vocabulário é mais amplo”. Outro relatou que a preferência se deve ao fato de ser mais fácil lembrar da primeira língua: “Português, é mais fácil de lembrar da primeira língua”. Com colegas da Universidade e colegas de trabalho, os bilíngues relataram explicação que complementa a ideia de mais fácil acesso à L1: “Português, porque sai sem filtro e eu não tenho que focar na estrutura ou na pronúncia”. Também foi reportado que a preferência pelo português se deu porque essa foi a língua em que as situações difíceis foram vividas: “Em português, porque eu aprendi esse sentimento nessa língua”.

Aqueles que preferiram o inglês disseram que seria mais fácil expressar as memórias difíceis com amigos na L2 porque isso causa um sentimento de distância emocional da experiência, que foi vivida na L1. Um participante disse: “Inglês, porque me sinto mais distante das memórias construídas em português”. Por fim, em relação aos colegas da Universidade e colegas do trabalho, os participantes apresentaram justificativa semelhante à anterior, afirmando sentir uma distância emocional maior na L2, o que permitiria a expressão dos memórias difíceis mais facilmente, como no exemplo: “Eu prefiro inglês porque dessa forma eu consigo me distanciar das memórias difíceis e assim fica mais fácil falar delas”.

5. Discussão

De acordo com os resultados obtidos, podemos constatar que bilíngues percebem e expressam suas emoções de maneira diferente em cada língua. A partir das análises quantitativas e qualitativas da pesquisa, notamos a maior preferência pela L1 ao expressar emoções. Durante a análise quantitativa, observou-se que as variáveis do histórico de linguagem exerceram influência significativa nessa preferência.

Primeiramente, foram feitas análises comparativas para cada emoção levando em consideração a L1 e a L2. Isto é, para cada uma das emoções, comparamos a frequência e a probabilidade de uso do português e do inglês. Com base nos resultados, observou-se a preferência pelo português ao expressar raiva, ao xingar e ao falar sobre sentimentos profundos. Também constatou-se que bilíngues se sentem mais eloquentes ao fazer apresentações em português do que inglês. Com base em pesquisas feitas anteriormente (HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006; EILOLA; HAVELKA; SHARMA, 2007; DEWAELE, 2010; CALDWELL-HARRIS, 2014; COSTA, et al., 2014), a maior frequência e probabilidade do português na expressão dessas emoções possivelmente se deve ao fato de que bilíngues geralmente se sentem mais emocionais na L1 e também porque eles, assim como as pessoas com quem convivem, vivem em um contexto em que usam a língua com mais frequência.

Relativamente à ansiedade e ao sentimento de falsidade ao compartilhar opiniões em discussões em sala de aula, verificou-se resultado diferente. Os participantes alegaram se sentir mais ansiosos e falsos em inglês do que em português. Dewaele (2010) sugere que a ansiedade geralmente é maior na L2 porque essa tende ser a língua com frequência de uso menor do que a L1, causando assim uma insegurança ao expressar emoções na segunda língua. Referente a se sentir falso em inglês, Dewaele e Nakano (2012), atribuem esse resultado a um menor nível de proficiência auto-reportada na L2 e também à ordem de aquisição da língua estrangeira.

Na segunda rodada de análises dos resultados, outras relações com a ansiedade e o sentimento de falsidade ao compartilhar opiniões em sala de aula foram estabelecidas. Nessa segunda leva dos resultados, foi analisada a influência dos fatores linguísticos “língua(s) dominante(s)” e “tipo de aquisição” na preferência pelo inglês para expressar emoções. Ou seja, em relação aos fatores linguísticos que podem influenciar a preferência pelo inglês para expressar emoções, comparamos aqueles que avaliaram ter uma ou as duas línguas como dominantes e aqueles que aprenderam o inglês formalmente ou aqueles que aprenderam tanto formal quanto naturalmente. Entre os achados, destacou-se a influência da língua dominante e do tipo de aquisição na ansiedade em inglês. Concluiu-se que aqueles que consideraram apenas a L1 como dominante se sentiam mais ansiosos ao interagir em inglês do que aqueles que consideraram ambas as línguas como dominante, e aqueles que alegaram ter tido a aquisição do inglês apenas de forma instruída apresentaram mais ansiedade na L2 do que aqueles que aprenderam das duas formas. Isso pode ser atribuído à teoria “contextos emocionais de aprendizagem de línguas” (HARRIS; GLEASON; AYÇIÇEGI, 2006), que explica que quanto mais exposto a contextos emocionais variados na aquisição da língua estrangeira o bilíngue estiver, mais emocional ele vai se sentir ao se comunicar naquela língua. Isto é, observamos que, na presente pesquisa, os participantes que tiveram a aquisição de ambas as formas apresentaram maior ligação emocional na L2, pois estiveram expostos a contextos emocionais mais variados na aprendizagem do inglês. Dessa forma, verificamos que esse fator de forte ligação emocional com a língua pode estabelecer uma confiança maior com o inglês.

Essa reflexão dialoga com os resultados encontrados na pesquisa de Dewaele (2010), que, da mesma maneira, concluiu que aqueles que aprenderam a língua estrangeira de forma instruída se sentiam mais ansiosos ao falar na L2 em comparação com aqueles que aprenderam de forma natural ou de ambas as formas. Esse estudo sugere que a alta frequência da língua acarreta alta proficiência, o que, consequentemente, faz com que os bilíngues ganhem mais confiança ao se expressar na L2. De forma semelhante, os participantes do presente estudo que reportaram se sentir dominantes na L1 e na L2 se sentem mais confiantes e assim menos ansiosos ao se comunicar em inglês. Tendo isso em vista, pode-se pensar que os participantes que aprenderam o inglês de forma instruída estiveram expostos a uma diversidade menor de temas e a um número reduzido de contextos emocionais na aquisição em comparação com aqueles que aprenderam inglês naturalmente ou de ambas as formas. Dessa forma, é possível que esses falantes tenham criado uma conexão emocional mais fraca com a L2, fazendo com que eles se sintam menos dominantes na língua inglesa e, consequentemente, mais ansiosos na L2.

Observamos também o sentimento de ser mais falso ao opinar em sala de aula em inglês. Para essa emoção, observou-se apenas a influência do tipo de aquisição, e não da auto avaliação de língua dominante. Aqueles que responderam ter aprendido inglês apenas de forma instruída relataram se sentir mais falsos do que aqueles que responderam ter aprendido a língua de ambas as formas. Isso ilustra novamente a conclusão que tiramos sobre bilíngues geralmente se sentirem menos emocionais na L2 em comparação à L1, pois o fato de os participantes se sentirem mais falsos ao se comunicarem em inglês demonstra que os participantes não se sentem tão verdadeiros em inglês quanto em português, assim significando maior conexão emocional com português. Dewaele e Nakano (2012), em seu estudo, destacaram a influência da auto avaliação de proficiência, da frequência e da ordem de aquisição ao sentimento de falsidade na língua estrangeira. Isto é, os bilíngues tendem a se sentir mais falsos na L2 porque geralmente é a língua que se aprende depois da L1 e que costuma apresentar menor nível de proficiência auto-reportada e menor frequência de uso e, consequentemente, maior distância emocional. Sendo assim, avaliamos que os participantes se sentem mais falsos ao opinar em discussões em sala de aula na L2 porque a L1 geralmente é a língua com maior reação emocional por ser a língua aprendida em contextos mais variados e emotivos, e também por ser a língua que se usa com mais frequência e que apresenta maior nível de proficiência.

Como em Pavlenko (2007), o efeito pretendido pelo falante pode ser decisivo na hora de comunicar sentimentos. Isso pode ser visto nos exemplos dados pelos participantes na parte qualitativa do trabalho. Por exemplo, os participantes que preferiram o português para dizer “eu te amo” justificaram essa escolha por português parecer mais forte e mais vulnerável. Teve ainda o participante que disse preferir a expressão em português por parecer mais fortemente um “compromisso”. Por outro lado, com base nas ideias expostas em Pavlenko (2007), se a intenção fosse não parecer um compromisso, seria possível que a língua escolhida fosse outra.

Pensamento similar é trazido pelos participantes que escolheram inglês ao falar sobre memórias difíceis. Eles argumentaram que, ao escolher a L2, se sentiam mais distantes das emoções que foram vividas em português, e, consequentemente, mais confortáveis ao se expor, assim menos vulneráveis e menos emocionais. Nesse caso, é possível interpretar que a intenção é ser menos emocional.

Por outro lado, há os participantes que preferiram determinada língua com a intenção de serem emocionais. Como foi o caso daqueles que responderam preferir a L2 para expressar termos emocionais e carinhosos por causa de familiares próximos que falam inglês, como o participante que relatou que a primeira língua de seu filho era inglês. Justificativa similar é abordada por aqueles que disseram que “eu te amo” era mais forte em inglês por conta de relações próximas de afeto. A semelhança se dá pelo argumento utilizado em Harris, Gleason e Ayçiçegi (2006), que diz que é possível que uma língua seja percebida como emocionalmente forte pelo falante mesmo que ela seja aprendida na idade adulta e quando considera-se que o falante não tem um nível alto de proficiência, contanto que seja aprendida e utilizada em um contexto altamente emocional.

Em conclusão, observou-se que os participantes se declararam mais proficientes na L1 do que na L2 e que usam a L1 com mais frequência para expressar sentimentos. Também identificou-se que o tipo de aquisição e a dominância na língua influenciaram a frequência com que os bilíngues expressam suas emoções na L2. Sobre os dados extraídos da parte qualitativa do trabalho, sugere-se que o português, em comparação com o inglês, é a língua com que os participantes sentem ter maior ligação emocional e, consequentemente, a língua de preferência para expressar emoções. Além disso, as respostas abertas do questionário monstraram e exemplificaram o pensamento trazido no referencial teórico de que a escolha de uma língua na expressão de emoção não depende somente da proficiência e da frequência de uso, mas também dos objetivos estratégicos que o falante busca ao interagir (PAVLENKO, 2007).

Por último, ressaltamos que a presente pesquisa possui algumas limitações. A pandemia da COVID-19 nos permitiu aplicar a pesquisa apenas de forma virtual, assim limitando as opções da metodologia do trabalho. Ademais, a pandemia também pode ter interferido na autoavaliação de proficiência e na frequência de uso do inglês, visto que o isolamento social provavelmente provocou uma diminuição do uso da língua estrangeira em contextos diversos. Além disso, como as emoções são tópicos altamente subjetivos, torna-se complexa a delimitação exata das interpretações dadas por cada participante. Com base nisso, é possível que os participantes tenham ficado confusos acerca das definições de algumas das emoções apresentadas, principalmente aquelas que, conforme citado na seção 2, não puderam ser classificadas facilmente, como os sentimentos profundos e o sentimento de emotividade. Além dessas emoções que não puderam ser classificadas, os participantes podem ter sentido alguma dificuldade em definir os sentimentos de eloquência, seriedade e falsidade. Por isso, estudos em condições mais favoráveis poderiam fornecer mais opções de aplicação de instrumentos, como aplicação do questionário e entrevistas com os participantes de forma presencial. Dessa maneira, seria possível o esclarecimento de dúvidas, assim como a explicação sobre definições das emoções. A partir disso, outras reflexões e discussões poderiam surgir no tocante às diferentes percepções e formas de expressão de emoções em diferentes línguas.

Em estudos futuros, os impactos do isolamento social podem ser analisados mais a fundo. Como exemplos, estão a mudança da frequência de uso e da autoavaliação de proficiência da L2, assim como os diferentes impactos na expressão de emoções nas diferentes línguas. Além disso, em pesquisas futuras, podemos pensar na expressão de emoções tais quais a saudade, assim como em uma melhor tradução do instrumento, como, por exemplo, a tradução do termo “serious”, visto que a definição de “sério(a)” pode ser ambígua. Ao traduzir “serious” para “verdadeiro”, por exemplo, deixaríamos o termo mais específico, reduzindo, assim, parte da ambiguidade. Por fim, reiteramos a dificuldade de classificar e categorizar as emoções e as suas percepções e expressões por parte dos bilíngues. Por seu teor altamente subjetivo, estudos futuros também podem atribuir definições e classificações diferentes para as emoções apresentadas nesta pesquisa. Dessa forma, essas diferentes interpretações e categorizações alterariam as conclusões tiradas neste trabalho, assim, ampliando a discussão e o debate sobre a relação entre bilinguismo e emoções.

Referências

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