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Abstract

In this paper I proposed a categorization for the pointing signs in libras. By collecting and analyzing data from different sources and types, I identified a phonological distinction between the non-grammaticalized demonstrative pointing, the adverbial pointing and the lateral pointings. Whereas the lateral pointings only can be categorially distinguished within the syntax. When they do not accompany a noun and appear alone in an argument position, they are interpreted as pronominal pointings, but when they accompany a noun in an argument position, they rely on the order, pre or post-nominal, to get their categorization, which can respectively be, a definite article and a grammaticalized demonstrative.

Introdução

Este trabalho tem por objetivo apresentar uma proposta de categorização para os sinais de apontação lateral realizados com o dedo indicador na libras 👈, que pode ser referido aqui com a glosa IX. Este grupo de sinais é conhecido por ter sua categoria morfológica geralmente identificada ou definida a partir do contexto linguístico de produção. Alternativamente, a análise que ofereço propõe uma categorização que já reconhece diferenças mínimas entre os sinais IX em libras que nos permitem advogar que pelo menos algumas destas não sejam dependentes exclusivamente do contexto para que seja identificada sua categorização morfológica.

Os sinais de apontação em libras podem veicular funções de diferentes categorias morfológicas, a saber, pronomes pessoais, pronomes demonstrativos, advérbios de lugar e artigos, além de outras funções discursivas menos especificadas. Dentro destas ocorrências de apontação, pelo menos duas destas assumem funções exclusivas e são fonologicamente distintas das demais, são elas: as apontações pronominais de primeira pessoa (figura 1) e segunda pessoa (figura 2a) em que o sinalizador aponta, respectivamente, para o peito do sinalizador (ego-alinhada), o equivalente ao pronome ‘eu’ em português brasileiro (PB), e para a posição em frente ao sinalizador (ego-oposta), que seria o equivalente ao pronome ‘você’ em PB. No entanto, como dissemos acima, há pouco consenso na literatura sobre se as outras categorias morfológicas veiculadas pela apontação possuiriam alguma distinção fonológica entre elas, principalmente as apontações laterais as quais podem ocorrer com diferentes valores morfológicos, mas que são muito semelhantes ou mesmo idênticas entre si do ponto de vista fonológico.

Figure 1.Figura 1 – Apontação pronominal de 1ª pessoa – ego-alinhada

Como disse acima, as apontações ego-alinhadas e ego-opostas (frontais) possuem interpretações fixas e não mudam seu valor a depender do contexto de produção, no entanto, as apontações para os espaços laterais podem apresentar diferentes valores morfológicos, e por isso, nos deteremos com mais profundidade a estas apontações, ilustrada em (b) na figura 2 abaixo.

Figure 2.Figura 2 – Apontações frontais e laterais em libras (adaptado de ALMEIDA-SILVA, 2015, p.61)

As apontações (a) e (c) na figura 2 acima são frontais, pois, para esta análise, assumo a proposta de Almeida-Silva (2019; 2020), esquematizada na figura 3 abaixo, para quem as apontações frontais podem ser identificadas sempre que o sinal de IX se alinha à linha médio-sagital da face, como se atesta nas apontações em (a) e (c). Na análise do autor, qualquer desalinhamento mínimo da IX com a linha médio-sagital da face já se configura como uma apontação lateral, que é o caso em (b).

Figure 3.Figura 3 – Distinção do espaço frontal vs lateral a partir da face (ALMEIDA-SILVA 2019; 2020)

A apontação lateral em (b) na figura 2 👈, como dissemos, pode aparecer em diferentes sentenças com diferentes valores morfológicos. Vejamos os exemplos de (1) a (5) abaixo, todos com apontações laterais, e suas traduções/categorizações aproximadas para o PB:

(1) Pronome pessoal

IX SABER LIBRAS

‘Ele/a sabe libras’

(2) Demonstrativo

LIBRAS-a IX-a1 IMPORTANTE SURDO

‘A libras (esta língua) é importante para o surdo’

(3) Artigo definido/Demonstrativo

EU QUERER-NÃO PREJUDICAR IX.PL SURDO

‘Eu não quero prejudicar os/estes surdos’

(4) Item dêitico

Contexto: em um auditório com várias pessoas, alguém levanta a mão

IX (apontando em direção a pessoa com a mão levantada), VEM!

‘Você aí/Aquela pessoa ali com a mão levantada/ele ali, pode vir!’

(5) Advérbio de lugar

EU MORO IX SÃO-PAULO

‘Eu moro lá em São Paulo’

Observando as ocorrências de apontações laterais acima de (1-5) proponho que pelo menos três tipos de apontações laterais são distinguíveis fonologicamente entre si: a apontação demonstrativa não gramaticalizada em (4), as apontações adverbiais em (5) e as apontações laterais (1, 2 e 3). Dentro das apontações laterais que não se distinguem fonologicamente entre si em (1, 2 e 3), proponho que elas podem ser distinguíveis umas das outras a partir do contexto sintático em: apontações pronominais (1), apontação demonstrativa gramaticalizada em (2) e apontação com função de artigo em (3).

Nas próximas seções será explicitado sobre o que é e o que faz o gesto de apontar (seção 2), como a apontação ocorre nas línguas sinalizadas (seção 3), o percurso metodológico (seção 4) e as análises que me permitiram chegar nesta classificação para os sinais de apontação na libras (seção 5).

1. A apontação como um fenômeno de uso geral

A apontação é uma das formas gestuais de representação do fenômeno dêitico. Lyons (1999) apresenta uma rica discussão sobre a ontogenia do fenômeno dêitico nas línguas naturais, e inicia sua exposição argumentando sobre como o gesto da apontação ostensiva está ligado com a natureza dos itens dêiticos orais. As categorias de pronomes demonstrativos (este, aquele, etc.), pronomes pessoais (eu, você, ela, etc.), advérbios de lugar (aqui, ali, lá) e artigos (o, a, um, uns, etc.) são categorias fundamentalmente indiciais, porque suas funções são basicamente as de ligar o signo ao seu referente no mundo ou de fornecer pistas de como o referente possa ser identificado no contexto conversacional.

As apontações podem ser de natureza gestual (não-obrigatória/não-convencional) ou linguística (obrigatória/minimamente convencionalizada) (LYONS, 1999; KITA, 2003), explicaremos cada uma a seguir.

Por apontação gestual, entende-se aquela que está presente já nos bebês quando aos noves meses de idade já a realizam (PETITO, 1988) e que também está, de forma pervasiva, presente na comunicação dos indivíduos nos mais distintos modelos de sociedade (cf. KITA, 2003). Povinelli & Davis (1994) explicam que o fato de os seres humanos apontarem utilizando o dedo indicador é resultado de um conjunto complexo de traços anátomo-morfológicos que são específicos da mão humana em que o dedo indicador tem maior grau de liberdade e saliência em relação aos demais. Haviland (2000) mostra que a apontação com o indicador está presente na contação de histórias de diferentes povos instanciando a construção de um meio mnemônico, através do qual, conhecimentos sobre geografia e outros são repassados.

O uso linguístico da apontação, se dá, por exemplo, no uso simultâneo às expressões adverbiais locativas, evidenciando que certas expressões linguísticas necessitam da apontação ostensiva acompanhando-as para garantir o uso apropriado desses elementos, como no contraste nas respostas do indivíduo B em (6) abaixo:

(6)

A:Onde fica o banheiro?

B: Ali (apontando)

B: #Ali (sem apontar)

Lyons (1999), então, começa a descrever as diferenças entre os elementos dêiticos com base em suas propriedades sintático-semânticas, como por exemplo, a possibilidade de figurarem em posições argumentais. “Ele é bom”, “Isto é bom” são sentenças possíveis, mas “O é bom” não é uma sentença possível. Isso atesta que há diferenças entre os traços que cada um destes elementos destacados, originalmente dêiticos, adquiriram no processo de gramaticalização.

A apontação é um gesto corporal que projeta um vetor virtual que seleciona não somente um objeto, mas uma região específica no espaço. Estudos como os de Lücking, Pfeiffer & Rierser (2015) mostram a relação entre as expressões linguísticas demonstrativas, os gestos de apontação e a falibilidade da seleção de referentes pelo ato de apontar, tendo como medida a distância do apontante em relação ao apontado. Embora meu objetivo não seja o mesmo dos autores, a apontação em línguas de sinais (LS) também projeta um vetor que seleciona uma área no espaço como na figura 4 abaixo. Sem o recurso da apontação, essa área, disponível virtualmente, não poderia ser selecionada e utilizada fonologicamente. Ou seja, o espaço para onde se aponta só se torna identificável quando ativado por um gesto de apontação, caso contrário, ele não passará de um elemento atmosférico. Essa é uma idiossincrasia das LS, a possibilidade de gramaticalizar os espaços. E a explicação para elas fazerem isso é que elas se realizam no canal visuo-gestual e não no canal oral-auditivo.

Figure 4.Figura 4 - Um cone de apontação (LÜCKING, PFEIFFER & RIESER, 2015)

2. A apontação na comunicação em língua de sinais

Engberg-Pedersen (2003, p.271) mostrou que a porcentagem de sinais de apontação utilizados por surdos em discursos (monólogos) e em diálogos corresponde em média a 25% em relação ao total de sinais utilizados. Ou seja, a estimativa é de que pelo menos 1 em cada 4 sinais utilizados pelos surdos seja um sinal de apontação em língua de sinais dinamarquesa – DSL, uma tendência também percebida em outras LS.

Funções referenciais, lexicais e gramaticais são encontradas já no uso caseiro2 das apontações, como uma evidência de que a apontação estaria na origem dos sistemas linguísticos. Torigoe & Takei (2002) analisam a produção sinalizada de duas irmãs surdas em uma comunidade isolada da capital japonesa e atestam que um terço dos sinais empreendidos na sinalização caseira dessas surdas fazem uso da apontação.

Em diferentes línguas de sinais, os sinais de apontação estão relacionados com diferentes funções, que podem ser gramaticais, por exemplos, marcadores de sentenças relativas (WILBUR, 2017), marcadores de tópico (LOURENÇO, 2014), pronomes pessoais (BERENZ, 1996), pronomes demonstrativos (KOULIDOBROVA & LILLO-MARTIN, 2016), advérbios (MaCLAUGHLIN, 1997), localização dos referentes (ZESHAN, 2000) e artigos definidos (BAHAN et al, 1995; BERNATH, 2009) ou, ainda, lexicais, para indicar partes do corpo (PYERS, 2006), conceitos de tempo (ALMEIDA-SILVA & NEVINS, 2020) e termos de cores (NONAKA, 2004).

3. Metodologia

Para a análise foram utilizados dados sinalizados de quatro diferentes tipos: i. dados naturalísticos, ou seja, aqueles em que o sinalizador é gravado sem nenhum propósito específico; ii. dados espontâneos, aqueles em que o sinalizador produz um texto sinalizado sem que tenha sido solicitado a produzi-lo, como por exemplos os vídeos de sinalização da internet, vídeos de opinião, etc; iii. dados semiespontâneos, aqueles nos quais o sinalizador conversa com outro sinalizador sobre temas previamente selecionados em uma situação um pouco mais monitorada e iv. os dados elicitados, aqueles em que o pesquisador faz perguntas diretas sobre a estrutura das sentenças e explora a intuição e o conhecimento metalinguístico que o falante tem sobre a língua em análise.

Os dados do tipo i correspondem aos dados cedidos pelo INES3 de gravações de conversas de surdos no pátio da escola durante o recreio, os do tipo ii são dados de 10 vídeos sinalizados selecionados de forma aleatória em fóruns sinalizados na internet e com duração de 3’ a 7’ cada um4. Estes vídeos foram analisados e as ocorrências das apontações IX em sintagmas nominais (SNs) na libras foram anotadas, por minuto, para cada vídeo, destacando se o item estava em posição de sujeito, objeto ou uma posição não argumental. Os dados do tipo iii são os dados do Corpus da Libras da UFSC. Os dados do corpus estão anotados no software ELAN – Eudico Linguistic Annotator - pela equipe de pesquisadores da UFSC. Os dados que utilizei compreendem cerca de 2h30m de entrevistas realizadas entre surdos sobre temas como ‘implante coclear e tecnologia’ e ‘educação de surdos’. Os dados do tipo iv são dados de uma entrevista realizada com cinco alunos surdos do curso superior em Letras Libras da UFAL. A entrevista era semiestruturada pois os pontos que seriam apresentados foram previamente estabelecidos, embora houvesse total liberdade para o participante sugerir ou alterar o desenrolar da conversa. A entrevista consistiu basicamente em levantar dados de intuição sobre a aceitabilidade das sentenças.

Após assistir todo o material e analisar as anotações sintáticas feitas especificamente sobre os sinais de apontação, considerando os diferentes contextos de produção, foram compiladas as características que pudessem agrupar as apontações por semelhança fonológica e chegamos a seguinte proposta de categorização. Este quadro representa as categorias apresentadas na introdução nos exemplos de (1) a (5), esquematizando quais categorias podem ser distinguidas na fonologia ou somente na sintaxe.

Figure 5.Tabela 1 – Distinção fonológica e sintática das categorias dos sinais de apontação em libras

Para além dos exemplos fornecidos na introdução, explico nas próximas seção como chegamos a cada uma das categorizações.

4. Análise morfofonológica das apontações em libras

Nas próximas seções analisarei as diferenças morfofonológicas atestadas nos sinais realizados com a apontação lateral em libras. Primeiramente apresentarei os sinais realizados com a apontação lateral que não são homófonos, ou seja, aqueles que apesar de serem reconhecidos como apontações laterais, possuem características morfofonológicas distintas dos outras apontações laterais. Logo após, apresentarei os sinais de apontação que são homófonos, ou seja, aqueles cujas categorias morfológicas não se distinguem fonologicamente, mas somente na sintaxe.

4.1. Formas não-homófonas de IX

4.1.1. Função demonstrativa não-gramaticalizada da apontação

Figure 6.

Essa apontação ocorreu nos dados nos contextos reais de demonstração. Neste contexto exclusivamente, a apontação em libras coocorre com uma maior extensão do braço como se quisesse alcançar literalmente o objeto apontado. Diferentemente das apontações que denomino de gramaticalizadas, nos dados, esse tipo de apontação possui duração mais longa, se comparado a todas as apontações gramaticalizadas, provavelmente em decorrência de estar ocorrendo fora de uma sentença e de não estar somente em função da saturação da argumentalidade5.

A grande distinção deste tipo de apontação para as outras é que ela necessariamente aponta para objetos presentes no contexto de fala ou objetos ancorados no espaço em frente ao sinalizador, ou seja, nesta ocorrência de apontação, os objetos devem estar ao alcance real (7a) ou mental (7b) do sinalizador. Além disso, como observado acima, esse é o único uso no qual os braços podem ficar completamente estendidos para alcançar o objeto que está se tentando identificar por meio da apontação, como nos exemplos em (7a-b) abaixo:

(7)

a. Objeto real

Situação: Numa galeria de arte, há um quadro do Van Gogh:

A: <IX>apontando-ostensivamente-para-o-quadro BONITO

‘Este/esse/?o quadro é bonito’

b. Objeto mental

Situação: Alguém sinalizando para outro sobre a posição relativa de 3 escolas numa determinada cidade.

A: <IX>apontando-para-uma-das-escolas MELHOR DO-QUE <IX>apontando-para-outra-das-três-escolas

‘Esta/Aquela/Ela é melhor do que esta/aquela/ela’

Essa extensão completa do braço não é observada em nenhum dos outros tipos de apontação, como vemos nos círculos amarelos na figura 5 abaixo, numa situação de conversação real em libras. Este tipo de apontação é análogo as apontações absolutas observadas em LS de zonas rurais como a LS de Kata Kolok (MARSAJA, 2008; DE VOS, 2012). Nesta língua, a apontação sempre toma como ponto de referência a localização geográfica real do referente ou algum espaço que sirva como ponto de referência para alcança-lo.

Figure 7.Figura 5 – Uso de apontações demonstrativas não-gramaticalizadas/apontações absolutas

De vos (2012) explica que enquanto as apontações absolutas se baseiam em informações extralinguísticas, no contexto situacional, as apontações gramaticalizadas utilizam informações endoforicamente disponíveis no contexto discursivo pelo uso do espaço de sinalização para resolver a questão da referência.

O significado da apontação que denomino de demonstrativa não-gramaticalizada depende, então, inteiramente do referente apontado, e nunca de morfemas espaciais e da sintaxe, por exemplo, como veremos a frente nos outros casos. Por fim, quando esse tipo de apontação ocorre dentro de uma sentença em libras, geralmente se observou: 1. a quebra prosódica da sentença para se destacar o elemento apontado e 2. o acompanhamento obrigatório do olhar e do corpo para o elemento para o qual se deseja chamar a atenção do interlocutor.

4.1.2. Função adverbial da apontação

Figure 8.

Na língua americana de sinais - ASL, a apontação IX pós-nominal é analisada como sendo um advérbio e a IX pré-nominal como um artigo definido (MACLAUGHLIN, 1997). Esta análise, apesar de dizer respeito a sinais de apontação similares aos que analisamos aqui, não pode ser automaticamente aplicada a libras.

Em ASL os sinais IX realizados pré e pós nominalmente são analisados como formas homófonas, no entanto, na libras, por outro lado, nossa análise não permite identifica-los como elementos idênticos em composição fonológica. Nesta seção, advogarei que diferenças no movimento do sinal da apontação adverbial em libras, na orientação da palma da mão e ainda em restrições sintáticas deste sinal, nos permitiriam afirmar que temos uma categoria morfofonologicamente distinta dos demais sinais de apontação.

A apontação adverbial em libras pode ser analisada como uma apontação que ocorre em um plano diagonal (figura 6 abaixo), um plano localizado transversalmente ao plano horizontal, este último que como veremos a frente, ocorrem as apontações homófonas. Portanto, ao invés de dividir o corpo em espaços inferiores e superiores, como os planos transversais típicos, o plano transversal inclinado dividiria o espaço ao redor do corpo em inferior descendente, como no caso do pronome “ALI” e superior ascendente como no pronome “LÁ”, nos exemplos em (8) logo abaixo. Isso explicaria porque a configuração de mão IX nos sinais adverbiais em libras é sempre inclinada, mas não em outras apontações.

Figure 9.Figura 6 – Diagrama do plano diagonal(vermelho) vs plano horizontal (amarelo)

(8)

Figure 10.(Dicionário de Libras – ACESSO-BRASIL, 2018)

Os advérbios em (8) podem ser gradados em relação à distância do falante, por isso, os sinais para “ALI” e “LÁ” que representam, respectivamente, distâncias proximais e distais dos falantes tomam como base o sinal de “AQUI” que seleciona o limite inferior mais baixo no plano inclinado na figura 6. As línguas diferem no que se refere à codificação das distâncias representadas nos seus paradigmas adverbais, que podem ter padrões diádicos como no inglês, na qual ‘here’ se opõem exclusivamente a ‘there’, ou triádico como no PB em que temos codificadas pelo menos três distâncias no paradigma adverbial, ‘aqui’, ‘aí’ e ‘lá’. Nesse sentido, as LSs parecem apresentar possibilidades de gradação muito mais variáveis do que essa exposição nos permite explorar.

Para justificar que o IX pós-nominal seria de fato um advérbio de lugar em ASL, MacLaughlin (1997) assume que os únicos sinais de apontação que podem ser modificados para gradar a distância do referente é a apontação pós-nominal, no entanto, nenhum exemplo é fornecido no texto da autora de como alguma modificação na IX pré-nominal tornaria o sintagma nominal (SN) em questão agramatical. Na libras, o sinal adverbial ‘LÁ’ além de ser distinto morfologicamente de IX pré-nominal por apontar não para a lateral horizontal, mas para espaços transversais, como vimos nos parágrafos anteriores, pode ocorrer tanto em posição pré como pós nominal, como atestamos nos exemplos espontâneos abaixo em (9) e (10). Em (9) e (10) os círculos amarelos evidenciam a forma morfológica distinta do sinal adverbial ‘LÁ’ em libras que aponta para a lateral superior, selecionando o espaço transversal superior, e os retângulos amarelo e vermelho em (10), que mostram a anotação sintática na tela do ELAN da ocorrência de dois SNs seguidos de IXadverbial.

(9)

MOTIVO IX-adverbial “SINAL-DA-INSTITUIÇÃO” FALTA RESPEITO

‘Porque a instituição x lá falta com respeito...’

Figure 11.(dados espontâneos – publicações em blogs)

(10)

______________ipsilateral6

IX-1.sg SEMPRE LADO-A-LADO IXadverbial(lá)

______________contralateral

I-A-T-E-L IXadverbial(lá) ESCOLA INCLUSÃO LADO-A-LADO

‘Eu sempre frequentei duas escolas: a “especial” e a escola inclusiva’

Figure 12.(dados semiespontâneos - Corpus da UFSC)

Pfau (2011) aponta que várias LS já apresentam mudanças na orientação, no movimento (tamanho da trajetória e tensão) e nas marcas não-manuais para especificar as funções das apontações, um sinal de que as apontações a despeito de sua origem gestual, vão sendo gradativamente incorporadas ao sistema linguístico e sofrem modificações.

Mas, de onde vem a interpretação adverbial de IX pós-nominal em ASL quando a apontação não apresenta nenhuma modificação em relação a apontação precedente, como no exemplo clássico em (11) abaixo? Como saber a que categoria esse sinal pertence caso nenhuma alteração morfológica fosse atestada7? A interpretação adverbial do IX pós-nominal nas análises em ASL é influenciada, em grande parte, pelos traços (semânticos) do nome que se encontra ‘ensanduichado’ pelas apontações. A maioria dos exemplos disponíveis nos textos da ASL trazem referentes como “HOMEM”, “CASA”, “CACHORRO”, nomes que na maioria dos casos se assume que devem estar posicionados em algum lugar, ou ainda pelos traços locativos explícitos que carregam nomes como “CASA”.

(11)

IX MAN IX

‘the/that man over there’

‘o/aquele homem lá’

ASL (BKMN, 1995)

Nesse sentido, a libras se comporta de forma distinta da ASL, e a análise de MacLaughlin (1997) não nos parece consistente em relação aos itens adverbiais. Por esse motivo, diferentemente da autora, proponho aqui que IX pós-nominal não seja analisado como um advérbio na libras, pois se olharmos exemplos espontâneos da libras como em (12), em que o referente que recebe a apontação pós-nominal é o sinal da língua portuguesa “PORTUGUÊS”, neste caso, a leitura adverbial não é óbvia, senão impossível.

(12)8

Figure 13.

PORTUGUÊS-a IX-a DIFÍCIL APRENDER

‘O Português (*aqui/*ali/*lá) é difícil de aprender’

(dados espontâneos da internet)

Por fim, na tabela 2, vemos que das 10.640 entradas lexicais já anotadas do Corpus da Libras da UFSC as quais que tive acesso, 917 são sinais envolvendo a configuração de mão IX o que representa cerca de 10% do total de sinais9.

Figure 14.Tabela 2 - Percentual dos sinais de IX no Corpus

No mesmo Corpus, vemos a seguir, na tabela 3, que dos 917 sinais de apontação IX, somando-se somente os sinais glosados como IX(lá), DEM(lá) e DEM(aquele) encontra-se 37 sinais que idênticos a apontação adverbial para a lateral superior transversal que analisamos aqui. Além disso, sempre que os sinais são glosados como um advérbio de lugar no Corpus, ele possui a forma que descrevemos para esta apontação logo acima. Isso reforça e evidencia que a apontação adverbial em libras não é percebida como uma forma homófona às outras apontações laterais como é a análise deste item na ASL, mas que é distinta morfológica e semanticamente em libras.

Figure 15.Tabela 3 - Percentual dos sinais realizados com a apontação IX, glosados como DEM (lá)

4.2. Formas homófonas de IX

Figure 16.

A apontação aqui analisada, como mostramos ainda na introdução deste trabalho nos exemplos em (1), (2) e (3) ainda não possui, neste estágio da análise, diferenças em sua constituição fonológica que sejam suficientes para estabelecer uma distinção entre suas categorias. Buscaremos, nas próximas seções, explicitar de onde advém, então, as diferentes interpretações categoriais que temos para o sinal homófono, a apontação lateral no plano horizontal em libras, a saber, as de demonstrativo gramaticalizado, pronome pessoal e artigo definido.

Aqui nesta análise proponho que as categorias de IX homófonas em libras são os demonstrativos gramaticalizados (IX pós-nominal), o artigo definido (IX pré-nominal) e o pronome de 3ª pessoa (IX-3), ou seja, nestes três casos, a categoria dos elementos é definida basicamente pela posição sintática, que deve ser fixa. Todas as ocorrências de apontações aqui analisadas referem-se a SNs em posições argumentais somente.

4.2.1. Função demonstrativa gramaticalizada da apontação

Na literatura sobre gramaticalização, geralmente, os itens que funcionam como marcas gramaticais de classe fechada são aqueles que se desenvolveram a partir de itens lexicais, ou palavras de conteúdo (HOPPER & TRAUGOTT, 1993). No entanto, apesar da existência de uma vasta literatura sobre os demonstrativos, suas origens são tão antigas que não há evidências de palavras mais antigas que estas. Diessel (2006) associa o uso da função demonstrativa ao próprio surgimento da linguagem humana, por isso, não se tem registros evolutivos dessa classe de palavras. Para além de convocar a atenção do interlocutor para entidades concretas no contexto real de fala, os demonstrativos também servem para ligar a referência de elementos linguísticos no discurso. O autor explica que os demonstrativos se constituem como uma fonte para o desenvolvimento de vários marcadores gramaticais, como artigos definidos, pronomes relativos e de terceira pessoa, complementizadores, conjunções e outros. Contudo, a categoria que se origina com mais frequência dos demonstrativos são os artigos definidos.

O demonstrativo para Diessel (2006) é definido pela possibilidade de indicar o local de um referente relativo a um centro dêitico, o que corresponderia ao uso menos gramatical, ou ainda, a categoria é utilizada para coordenar a atenção conjunta dos interlocutores no discurso, o que remete ao uso mais gramaticalizado da classe.

A partir das características apontadas para a classe demonstrativa acima, observo nos dados que a IX pós-nominal seria mais bem analisada como um demonstrativo em libras. Muitas vezes, uma tradução literal para o português pode enviesar o que significa ser um demonstrativo na LS, lembro ao leitor que todos os sinais de apontação em LS tem origem demonstrativa, por isso a tendência de analisar todas as apontações como demonstrativos. No entanto, o comportamento sintático-semântico dos itens nos levam a assumir essa categorização.

Sintaticamente, na libras, ambas IX pré e pós nominal podem exibir flexão para número como observamos pela anotação dos dados espontâneos. Outra propriedade morfossintática de IX pós-nominal é a concordância espacial obrigatória com o ponto no espaço onde o nome antecedente é realizado ou localizado10, como nos SNs em (13). Observe que se o sinal foi realizado num ponto arbitrário -a, IX não pode retomá-lo através de um ponto -b, essa discordância torna essa construção agramatical. Essa concordância espacial não é obrigatória para o IX pré-nominal como se atesta nos índices entre parênteses subscritos aos SNs em (14).

(13)

a. CASA-a IX-a/*-b (nome não ancorado)

‘Esta casa’

b. PORTUGUÊS-a IX-a/*-b (nome ancorado)

‘O Portugûes est@ (língua)11

(imagem do exemplo (8b) em (7))

(14)

a. IX.sg-(a)/(b)... CASA-a(espaço neutro) (nome não ancorado)

‘A casa’

b. IX.sg-(a)/(b)... SEXO-a(bochecha) (sinal não manual)

‘O sexo’

O exemplo em (15) evidencia o padrão em (13) em que a IX pós-nominal aponta para o ponto no espaço atribuído ao SN precedente (ESCOLA BILÍNGUE) já em (16) atestamos o padrão em (14) pois a IX pré-nominal identificado pelo círculo amarelo não aponta obrigatoriamente para o local do nome subsequente que é realizado na região da testa/têmpora (HISTÓRIA).

(15)

SE EU FUTURO CONSEGUIR 1 EMPRESA [ESCOLA BILÍNGUE-a IX-a]

‘Se no futuro eu tiver uma empresa, do tipo escola bilíngue (tipo isto)12

Figure 17.(dados elicitados - entrevista)

(16)

CELEBRAR/COMEMORAR [IX.sg-a HISTÓRIA-b PASSADA]

‘Celebrar a/*esta história do passado’

Figure 18.(dados espontâneos – vídeos da internet)

Recentemente, Koulidobrova & Lillo-Martin (2016), divergindo de MacLaughlin (1995), afirmaram que IX pré-nominal não seria um artigo definido em ASL, mas seria melhor analisado como um item demonstrativo, tendo como principais alegações, os fatos semânticos que discuto e analiso a seguir.

Nas línguas em geral, nomes de referência única (unicidade global) não podem ocorrer com demonstrativos, mas somente artigos são permitidos. Em ASL, a IX pré-nominal funciona ria, então, como um item demonstrativo, já que a IX pré-nominal é agramatical nesses contextos, como vemos em (17a). A libras apresenta um comportamento distinto da ASL, a IX pré-nominal, embora opcional nesse contexto, é gramatical antecedendo nomes de referência única, no contraste em (17b) abaixo:

(17) a. ASL: (*IX) POPE RETIRE

‘O/*este papa se aposentou’

b. Libras: (IX) XUXA FAMOSA

‘A/*esta Xuxa é famosa’

Além dos fatos apresentados acima, outro comportamento semântico nos diz que IX pré-nominal não é um demonstrativo em libras como assumido para a ASL, no entanto, IX pós-nominal seria melhor analisado como um demonstrativo em libras.

Em sentenças como (16) acima repetida aqui como (18), segundo o julgamento dos nossos participantes, a apontação pré-nominal em posição argumental não é interpretada como demonstrativo13. Na sentença em (15) repetida aqui como (19), vemos que o SN indefinido encabeçado pelo numeral 1 não bloqueia a ocorrência de IX pós-nominal, o que indica que IX pós-nominal pode, mas não necessariamente obriga a leitura definida, como IX pré-nominal nos contrastes exibidos em (20).

(18)

CELEBRAR/COMEMORAR [IX.sg HISTÓRIA PASSADO]SN

‘Celebrar a/*esta história do passado’

(19)

SE EU FUTURO CONSEGUIR [1 EMPRESA ESCOLA BILÍNGUE-a IX-a]SN

‘Se no futuro eu tiver uma empresa, do tipo escola bilíngue (tipo isto)’

(20)

a. *EU COMPRAR [IX CASA 1] SN

b. *EU COMPRAR [IX 1 CASA] SN

c. EU COMPRAR [1 CASA-a IX-a] SN

‘Eu comprei uma casa’

Por último, se IX pré-nominal fosse um demonstrativo em libras, assim como afirmam Koulidobrova & Lillo-Martin (2016) para a ASL, um dos usos esperados é que ela pudesse se combinar livremente com expressões adverbiais de tempo, como ‘Esta manhã’ ou ‘Aquele dia’, no entanto a sentença em (21a) é agramatical em libras. Já a sentença em (21b) com IX pós-nominal correferindo-se a expressão adverbial de tempo que o precede é gramatical, embora possua uma leitura distinta da leitura do item demonstrativo em LOs, que é a leitura perfectiva como em (b’), mas a leitura em libras é a em (b”). Portanto, este teste também nos alerta sobre o risco de se tratar as categorias de LOs e comparar com as das LSs descartando os efeitos específicos da modalidade na qual as línguas são produzidas. Este é um dos problemas de se comparar as categorias morfológicas em LOs e em LSs descartando os efeitos de cada modalidade de produção.

(21) Libras

a. (*IX) MANHÃ EU IR MÉDICO

‘Esta manhã eu fui ao médico’

b. MANHÃ-a (IX-a) EU IR MÉDICO

#b’= ‘Esta manhã eu fui ao médico.’

okb”= ‘Manhã (é neste período) que vou ao médico.’

Outras duas características morfossintáticas que percebemos nos dados coletados e que separam IX pré-nominal de IX pós-nominal na libras são: i. IX pós-nominal pode receber acento, ênfase, ser alongado e repetido, enquanto IX pré-nominal não permite estas modificações; e ii. IX pré-nominal deve apontar somente para o espaço lateral no plano horizontal, mas não pode apontar no plano horizontal inclinado, aquele dos advérbios locativos, enquanto que IX pós-nominal pode utilizar ambos os espaços.

4.2.2. Função pronominal da apontação

Tipologicamente, há muitas línguas nas quais a forma do demonstrativo é idêntica ao do pronome de 3ª pessoa, isso não é uma exclusividade da libras ou das LS, ou seja, a divisão entre estas duas categorias é fluida, porque embora ambas possam ter função anafórica, a função básica do demonstrativo é a dêitica. Do mesmo modo, há línguas que tem como origem para os pronomes de 3ª pessoa e dos artigos definidos, a classe dos demonstrativos.

Quando a apontação pronominal IX-314 aparece na sentença em libras como o único elemento saturando a grade argumental do verbo como em (22), assumimos que nestes casos, trata-se primariamente de um pronome pessoal de 3ª pessoa.

(22)

Figure 19.

FALAR [IX-3 ENSINAR LIBRAS]

‘Foi falado que ele ensina libras’

(dados espontâneos – blog internet)

Contudo, se as apontações de pronome pessoal de 3ª pessoa e a demonstrativa gramaticalizada em libras são homófonas, o que garantiria que o exemplo em (22) seja um pronome e não um item demonstrativo, já que os demonstrativos também podem saturar a grade argumental de verbos, como em “Este/isto/aquele ensina libras”. Nesta análise, assumirei, para fins da categorização, que sem a ocorrência do nome não é possível saber a que categoria pertence as IX pré e pós-nominais. Ou seja, na ausência do nome, se IX é o único item saturando a grade argumental do verbo, ele é interpretado preferencialmente como um pronome pessoal.

Esta discussão se assemelha ao exemplo de Koulidobrova & Lillo-Martin (2016), no qual as autoras argumentam sobre a falta de categorização e ambiguidade de IX, que em (23) poderia ser interpretado não como um pronome pessoal, mas como um demonstrativo ou um advérbio locativo. No entanto, como foi atribuído um locus no espaço ao sinal RESTAURANTE, como indicado pela glosa (a-), certamente a retomada por a-IX no final da sentença indicaria que o falante deseja comer ‘lá’ no restaurante, já que o item COMIDA não se encontra localizado no espaço, pois se estivesse poderia ser retomado com uma apontação e receberia a interpretação de que o falante deseja comer ‘isso’. Ou seja, neste caso, a apontação, mesmo que em posição argumental, se assemelharia mais as apontações demonstrativas não gramaticalizadas, já que aponta literalmente para o locus no espaço que foi atribuído ao sinal retomado e não para a lateral, como é o caso da apontação pronominal de 3ª pessoa aqui analisada.

(23)

______________________t _____t

HEAR-SAY a-IX RESTAURANT a-IX REALLY GOOD. FOOD ITALY. 1-IX NEVER TASTE . WANT EAT a-IX

OUVIR-DIZER a-IX RESTAURANT a-IX VERDADE BOM. COMIDA ITALIA. 1-IX NUNCA PROVAR. QUERO COMER a-IX.

‘Eu ouvi dizer que aquele restaurante alí é muito bom. A comida é italiana. Eu nunca provei. Eu quero comer {aquilo/lá}.

Koulidobrova & Lillo-Martin (2016.p244, tradução minha).

4.2.3. Função de artigo definido da apontação em libras

No exemplo em (24), a IX.pl, similarmente ao exemplo em (16), em que a IX.sg precede um nome em posição argumental na libras, a IX pré-nominal é interpretada como um artigo definido, mas não como um demonstrativo nesta posição15.

(24)

Figure 20.

[EU ENSINAR] [ø PREJUDICAR [IX.pl SURDO]SN NÃO]

‘Eu não ensino para prejudicar os/*estes surdos não’

(dados espontâneos – coleta internet)

A categorização de IX.PL neste exemplo como um pronome de 3ª pessoa plural, como em ‘Eu não ensino para prejudicar eles, os surdos’, não foi cogitada pois assumi que só haveria uma posição de sujeito do verbo [PREJUDICAR] e ela já estaria ocupada pelo SN [IX.PL SURDO] ‘os surdos’. Além disso, para se considerar que IX.PL fosse um pronome de 3ª pessoa seguido de um nome, a IX.PL teria que aparecer acompanhada de alguma marca de topicalização como as sobrancelhas levantadas e com uma quebra prosódica entre os sinais [IX.PL-top], [SURDO] para que o SN em análise pudesse ser analisado como um caso de redobro de sujeitos, licenciando a tradução “Eles, os surdos” no PB, o que não é constatado neste exemplo. Isto reforça a análise que fizemos na seção anterior, de que a apontação lateral que não precede ou segue um nome, não deve ser analisada como um demonstrativo ou um artigo, restando a categoria pronominal para o item.

Além da intuição de nossos participantes sobre a contribuição semântica de IX pré-nominal para o SN em (24), vimos na seção 5.2.1, nos exemplos em (13), (14), (15) e (16), as apontações pós-nominais, mas não as pré-nominais devem obrigatoriamente concorda com o locus no espaço atribuído ao nome que está sendo correferido, o que indica que IX pré-nominal tem menos características de itens demonstrativos, já que não tem por objetivo necessariamente chamar a atenção do interlocutor para um item no contexto.

Ainda, Nowak (2013) explica que SNs encabeçados por um artigo definido podem ter uma leitura tanto referencial, aquela em que captura um indivíduo apenas, como quantificacional, aquela existencial e que pode capturar qualquer indivíduo recuperável no contexto, ao contrário dos demonstrativos que somente licenciam a leitura referencial.

Em ASL, nomes precedidos de IX, só exibem comportamento de um item demonstrativo, mas não a de artigo como vemos em (25). Embora Koulidobrova & Lillo-Martin (2016) não analisem as IX pós-nominais, a libras parece apresentar as mesmas interpretações que a ASL para este teste especificamente com IX pré-nominal, o que não invalida que em outros contextos, IX pré-nominal possa ter ambas as leituras, como seria esperado para o artigo definido. Uma explicação para a possibilidade de IX pré-nominal ainda responder preferencialmente a semântica de um demonstrativo em libras é que a IX pré-nominal ainda estaria em gramaticalização, e no processo de decategorização e bleaching semântico, muitas vezes o sinal ainda carrega a força dos traços dêiticos dos itens que lhe deram origem.

(25)

ASL: IX PERSON RED SHIRT TEND WIN (referencial/*quantificacional)

Libras: IX PESSOA CAMISA VERMELHA SEMPRE GANHAR (referencial/?*quantificacional)

‘A/Esta pessoa de camisa vermelha vai vencer’

(KOULIDOBROVA & LILLO-MARTIN, 2016,p. 237)

5. Conclusões

Neste trabalho propus uma categorização para os itens de apontação em libras. A partir da coleta e análise de dados de diferentes tipos e origens, identifiquei uma distinção fonológica entre a apontação demonstrativa não gramaticalizada, a apontação adverbial e as apontações laterais. Já as apontações laterais só se distinguem categoricamente pela sintaxe. Se não acompanham um nome e estão sozinhas em posição argumental, são interpretadas como apontações pronominais, mas se acompanham um nome em posição argumental, a depender da ordem, pré ou pós-nominal, podem ser categorizadas, respectivamente, como artigos definidos ou demonstrativos gramaticalizados.

Considerando o continuum de gramaticalização proposto por Pfau & Steinbach (2006) para os sinais de apontação nas LS (figura 7 abaixo), haveria evidências então para se propor que o artigo definido em libras possa ter se gramaticalizado a partir do pronome de 3ª pessoa singular e plural, ou seja da etapa 3 para a etapa 5, ou do item demonstrativo, saltando da etapa 2 para a etapa 5, por isso a semelhança fonológica entre eles.

Figure 21.Figura 7 - Rota de gramaticalização sugerida para sinais de apontação nas LSs (PFAU & STEINBACH, 2006).

A maior distinção fonológica em libras permanece, então, nas apontações que classificamos como não homófonas, e que estão mais distantes dos itens gramaticalizados no continuum, como as apontações da etapa 1, que se assemelham a categoria dos demonstrativos não-gramaticalizados, aqueles mais dependentes do contexto absoluto da apontação e nas apontações locativas, aqui denominada de apontação adverbial.

Esta é apenas uma proposta inicial para a análise das categorias morfológicas que podem ser realizadas pelos sinais de apontação em libras, certamente há muitos outros casos e ocorrências a se investigar, a não ser que os casos novos, possam ser, de algum modo, encaixados em alguma das categorias propostas nesta análise. O debate sobre o tema está longe de ser concluído pois ele diz respeito não somente as diferentes ocorrências dos dados, mas também à (im)pertinência da terminologia aqui sugerida.

6. Agradecimentos

Aos surdos que cederam suas imagens, dados, sua intuição e sua língua para que esta pesquisa pudesse ser desenvolvida.

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