Share

Abstract

This study focuses on the interdependent relationship between language and memory, in which the speaking subject expresses its historicity in language practices. Therefore, it describes the interactive marks in the process of narrativization of memories in a conversation with elderly people. In this context, the effects, notably, of discursive markers and relief in the topical construction of discourse are analyzed. The description and analysis are anchored in the perspective of Textual-Interactive Grammar (JUBRAN, 2015; KOCH, 2015), specifically, in the concepts of discursive topic (JUBRAN, 2015), relief (TRAVAGLIA, 2015) and discursive markers (RISSO, 2015; URBANO, 2015) in dialogue with socio-discursive and cognitive memory studies (COURTINE, 2006; PAVEAU, 2015; PAVEAU, 2007). Methodologically, a 17 minutes conversation between three elderly people from Arara community in Teixeira de Freitas (BA) is used as a corpus to highlight the discursive-pragmatic articulation between memory and narrative based on the multifunctionality of markers and relief resources. As a result, the metatextual functions are shown, mainly, of emotional relief, intonational reinforcement and deictics favoring the topical organization in a collaborative way, as well as the use of interactional discursive markers expressing attention, responsiveness and online processing of information, coming from memories evoked in sociocognitive memory. From Payer (2005) and Courtine (2006), the importance of the historical function of orality is highlighted and, with this, we seek to explain the role of memory in the organization of spoken discourse, since language and memory operate and they overlap in social relations and between historical subjects through pre-discourses in discursive lineages.

 

Introdução

Quando o velho se dispõe a narrar histórias, instaura-se mais do que uma situação sociocomunicativa com diferentes conotações culturais, mas também um conjunto de representações sociais imputadas sobre o modo de falar, de constituir-se sujeito no discurso, de situar seu lugar na história e, centralmente, a questão do valor sociocultural da palavra e da lembrança. Para além de sua função mental, operacional e semântico-representacional, como pesquisada pela Psicolinguística e pela Psicologia Cognitiva, por exemplo, este estudo intenta somar esforços a fim de pensar a memória em sua função psicossocial pela qual exprime-se a substância social, cultural e histórica (BOSI, 2004) do sujeito falante na conversação (JUBRAN, 2015). Por isso, coaduna-se com a proposta de se “compreender a oralidade como um lugar sócio-histórico particular de produção do discurso, que acolhe e possibilita que circulem memórias discursivas que não puderam se inscrever socialmente” (PAYER, 2005, p. 51).

Se o presente estudo toma a figura social do velho como mote para a análise da conversação, é porque, em primeiro lugar, são escassos os estudos que investigam a linguagem dos idosos (GOMES; GARCIA, 2006). Em segundo, Bosi (2004) defende que o velho1 tem importante função no tocante às mudanças socioculturais e, neste âmbito, a linguagem, as narrativas e as lembranças de velhos tornam-se fundamentais para compreensão de inúmeros problemas linguísticos e da memória (PAVEAU, 2007; COURTINE, 2006). Finalmente, compreende-se que toda convenção socioverbal, mesmo em sua estruturação mais basilar, constitui-se ponto de ancoragem para a memória coletiva e social (HALBWACHS, 1925).

Diante disso, o presente estudo busca realizar interface entre os estudos da Gramática Textual-Interativa - GTI (JUBRAN, 2015; KOCH, 2015; PENHAVEL; GUERRA, 2011; PINHEIRO, 2012) e da Memória Social (BOSI, 2004; COURTINE, 2006; PAYER, 2005; PAVEAU, 2015) a fim de interrogar de que forma as lembranças, evocadas durante a conversação em discurso narrativo, contribuem para a organização e construção tópicas e, ao mesmo tempo, exprimem a historicidade dos sujeitos no discurso falado. Considerando o diálogo entre GTI, Análise do Discurso (doravante AD) e estudos sociológicos da memória, parte-se da hipótese de que os marcadores discursivos - consoante suas funções de expressar a intersubjetividade, posturas, avaliações e um conjunto substancial de funções (meta)pragmáticas (RISSO, 2015; URBANO, 2015) – sinalizam atitudes expressivas dos sujeitos falantes na organização tópica; paralelamente, os recursos de relevo (TRAVAGLIA, 2015) são aventados no decurso da interação para desenvolvimento do tópico discursivo e evidenciar o conteúdo sociocognitivo da memória. Tais recursos, então, tornam-se apoios linguísticos-formais para o processo de transposição e discursivização da memória no plano textual-interativo.

Em função desses pressupostos, objetiva-se, centralmente, descrever as marcas interacionais no processo de narrativização das lembranças - na assunção de sua função psicossocial - em uma conversação com velhos com fins à explicitação dos recursos linguísticos mobilizados pelos sujeitos na textualização dos “objetos de discurso” (PINHEIRO, 2012), já que “os discursos que se encontram na oralidade são, também eles, historicamente produzidos. Ou seja, não é por acaso que certos discursos se encontram na oralidade, e não na memória escrita” (PAYER, 2005, p. 47). Por conseguinte, a abordagem configura-se na fricção e relação entre o texto falado, discurso e memória, considerando distintas epistemologias.

Apresenta-se, então, o cenário sociodiscursivo e cognitivo no qual localizam-se os “pré-discursos” formados em quadros cognitivos internos e externos às interações humanas. Para Paveau (2007), são “operadores na negociação do compartilhamento, da transmissão e da circulação do sentido nos grupos sociais: eu os defino como um conjunto de quadros pré-discursivos coletivos que têm um papel instrucional na produção e interpretação do sentido em discurso” (PAVEAU, 2007, p. 318), no qual também se insere a memória, porquanto, anterior à fala, há inúmeros “quadros prévios” que organizam o discurso funcionando intersubjetivamente (PAVEAU, 2015). Fala, conversa, discurso e memória encontram apoio e funcionam na inter-relação entre elementos e módulos da interioridade e do ambiente (PAVEAU, 2015). Sendo assim, entende-se que a análise linguística pode evidenciar o sujeito falante, social, histórico e pensante, assim como a memória social que se constitui e se articula, em grande medida, nas práticas linguageiras cotidianas.

Metodologicamente, o estudo assenta-se na descrição e análise de um corpus transcrito conforme as normas da GTI (PRETI, 2005). Trata-se de uma conversa entre três idosos que co-constroem narrativas acerca de “batuques” e “toadas” que ocorriam em outras épocas na comunidade Arara em Teixeira de Freitas (BA), sendo este o tópico discursivo proeminente. Como forma de precisar a articulação entre oralidade e memória (PAYER, 2005), são destacadas determinadas marcas interacionais, a saber: os marcadores discursivos e os recursos de relevo. Nesse processo, prima-se pela perspectiva qualitativa do olhar sobre os fenômenos em questão, uma vez que importa mais as funções assumidas pelas formas linguísticas no recorte proposto do que necessariamente a proporção de suas ocorrências no corpus.

Assim sendo, entende-se que a análise linguística precisa e pode dar-se em uma perspectiva metodológica cada vez mais encarnada, na qual a vida concreta dos sujeitos e a natureza histórica da linguagem são dimensões fundamentais para a compreensão de um dos atos de linguagem mais basilares da vida social: a conversa. Nesses termos, urge endossar que toda conversação se constitui como um lugar de memória (COURTINE, 2006; PAVEAU, 2015; PAYER, 2005). Na prática, tem-se, pois, dois processos interdependentes: plano linguístico-verbal concreto da GTI versus o domínio histórico-discursivo da Análise do Discurso. Ambas tradições das Ciências da Linguagem possuem funcionamento e dinâmica próprios, mas se encontram e se friccionam naquilo que se pode aqui chamar, grosseiramente, de “ponto de transposição discursivo-verbal”. Esse ponto vem a ser um constructo teórico temporário para identificar os “lugares de memória” na conversação a partir das marcas interacionais emergentes (RISSO, 2015; TRAVAGLIA, 2015; URBANO, 2015).

Em termos de organização, o presente estudo assim se planifica: no primeiro momento, discorre-se sobre os aspectos teóricos norteadores, nomeadamente, sobre organização tópica, relevo e marcadores discursivos no bojo da GTI; no segundo momento, expõem-se aspectos sobre memória social em sua perspectiva sociocognitiva e discursiva na AD; na sequência, são apresentados detalhadamente os procedimentos metodológicos adotados; finalmente, procede-se com a exposição dos resultados e discussão do estudo, considerando o fato de que existe a “língua empírica, na qual é preciso introduzir a historicidade e suas descontinuidades temporais, os sujeitos falantes e suas interações linguageiras” (COURTINE, 2006, p. 07). Na perspectiva textual-interativa, a linguagem é entendida como interação social e o texto “produto” desse processo, daí ser fundamental pensar a função social da conversação, do signo linguístico, da memória e do sujeito falante estreitamente relacionados.

1. A perspectiva textual-interativa da linguagem e o tópico discursivo

A Gramática do Português Falado ou a Gramática Textual-Interativa (doravante GTI) é “uma vertente da Linguística Textual, constitui um quadro teórico-metodológico que assume o texto como objeto de estudo, focalizando, em particular, os chamados ‘processos de construção textual’” (PENHAVEL; GUERRA, 2011, p. 160), porém articula-se com a Análise da Conversação e com a Pragmática, “assumindo o princípio de que os fatores interacionais são inerentes à expressão linguística” (JUBRAN, 2015, p. 33). Assim, formando uma tradição nos estudos linguísticos brasileiros, a GTI advoga uma perspectiva, conforme Jubran (2015), globalizadora, sociocomunicativa e interacional do texto sem dicotomizar a relação fala-escrita, mas observando suas idiossincrasias e, ao mesmo tempo, o “princípio de gradiência” no qual as funções ideacional e interacional entram em ação projetando-se mutualmente em diferentes medidas, condições e parâmetros inter-relacionados em um contínuo.

Todavia, relativamente ao texto falado, Koch (2015) ressalta que o planejamento se dá no momento da interação, na situação comunicativa e em cada jogo de linguagem. Essa produção, diga-se, on-line mobiliza revisões, interpolações, interrupções, modificações e um variado conjunto de ações e recursos formulativos que se desdobram no fluxo interativo entre os interlocutores, apresentando características morfossintáticas, prosódicas e pragmáticas próprias. Portanto, as condições de produção in loco e a interação imediata – especialmente in praesentia – constringem o processo de produção do texto falado.

Tendo funcionamento próprio e como produto-processo da interação, o texto falado não se dá de forma desordenada. Ao contrário, “a interação social não é uma atividade caótica, nem aleatória ou mecânica, mas ordenada, coordenada e intencional” (FÁVERO et al., 2010, p. 92) e é neste momento que se dá a construção social da realidade, sendo o texto uma condição fundamental para isso. Obviamente, consoante Fávero et al. (2010), as interações e os textos falados se dão em diferentes configurações contextuais e na multiplicidade de situações sociocomunicativas. Quer dizer, a fala também se manifesta em diferentes gêneros em razão das condições de produção, circulação, composicionalidade, historicidade, os processos de recepção, as intencionalidades e sua realização empírica em geral (MASCUSCHI, 2008).

A conversação é um gênero medial “que emerge no próprio momento da interação e transcorre de forma participativa [...] repercute no processamento do texto em construção” (FÁVERO et al. 2010, p. 99). Dado o esforço dos sujeitos em se entenderem ou se comunicarem e porque os textos são sociocognitivamente estruturados (KOCH, 2015), tem-se a dimensão interpessoal constitutiva da estruturação peculiar dos gêneros textuais falados.

Isso posto, sublinhe-se ainda o caráter transdisciplinar da GTI e da Linguística Textual, posto que “as relações culturais, sócio-históricas, em processos intercognitivos, considerados sob uma perspectiva de cognição interacionalmente situada” são essenciais para a assunção do texto como um objeto conceitual complexo (CAVALCANTE et al., 2010, p. 227). A partir de certo consenso, entende-se o texto, enquanto constructo heterogêneo de relações intertextuais e interdiscursivas, como sendo “uma unidade funcional que não somente permite a interação, como também viabiliza diversas formas de representar o mundo, de transformá-lo e de, a um só tempo, reconstruir-se a partir dessa dinâmica emergência dos sentidos” (CAVALCANTE et al., 2010, p. 228). Em suma, um texto é “uma unidade sociocomunicativa, que ganha existência dentro de um processo interacional” (KOCH, 2015, p. 39), em um processo dialógico de coprodução discursiva entre sujeitos históricos.

Dentre os elementos estruturantes da conversação (KOCH, 2015) e das relações sociocognitivas e interacionalmente distribuídas na interação (CAVALCANTE et al., 2010), há a categoria do “tópico discursivo” como unidade de análise basilar na GTI e que funciona como projeção dos “objetos de discurso” durante a interação verbal (JUBRAN, 2015). Grosso modo, os objetos de discurso são tratados nos estudos linguísticos contemporâneos acerca da referenciação e “tem sido entendida como uma atividade discursiva, ou seja, como um processo realizado negociadamente no discurso e que resulta na construção de referentes ou objetos de discurso (PINHEIRO, 2012, p. 794). Na interação, tais objetos ou referentes adquirem um estatuto e função particulares, assumindo-se como tópico na construção textual (MONDADA, 2001) e “uma vez identificados, reconhecidos e definidos como tais pelos próprios participantes, podem ser assim tratados como tópicos, isto é, objetos considerados e manifestados como o assunto sobre o qual o discurso se reporta” (PINHEIRO, 2012, p. 802).

Por sua vez, o tópico discursivo é uma unidade transfrástica definida por critérios específicos que a tornam localizável e analiticamente passível de descrição (JUBRAN, 2015). Essa categoria não deve ser confundida com as proposições ou estruturas sentenciais morfossintaticamente delimitadas e restritas, mas a partir das propriedades de centração e organicidade com seus traços específicos, pois “os segmentos textuais com estatuto tópico assumem uma extensão que vai além do nível sentencial” (JUBRAN, 2015, p. 86). Com efeito, na interlocução verbal, os enunciados manifestam o tópico discursivo à medida que os sujeitos tocam em um conjunto de referentes relevantes, pontuais e concernentes entre si. Trata-se da propriedade tópica de centração, que apresenta os seguintes traços:

a. Concernência – exprime, na verdade, uma relação de interdependência, integração e alvo dos objetos de discurso (JUBRAN, 2015);

b. Relevância – trata-se de projeções focais de proeminência de certos elementos textuais que se dão no decorrer da interação (JUBRAN, 2015);

c. Pontualização – refere-se à localização de certo conjunto “em determinado ponto do texto, fundamentada na integração (concernência) e na proeminência (relevância) de seus elementos, instituídas com finalidades interacionais (JUBRAN, 2006, p. 35).

Quanto à organicidade, tem-se a relação de interdependência que se estabelece tanto no plano hierárquico – superordenação e subordinação entre tópicos – e no plano linear via articulações intertópicas, intratópicas, adjacências e interposições mediante certos recursos e funcionalidades (JUBRAN, 2015; 2006), a saber:

a. Níveis de articulação intertópicas e intratópica, que permitem diferentes níveis de afunilamento, particularização e camadas de organização no plano textual, na qual conjugam-se as funções referenciais e interacionais na organização geral;

b. Formação de quadros tópicos – QTs a partir de um supertópico – ST que pode subdividir-se em subtópicos – SbT. As subdivisões sucessivas podem alterar as relações internas e um SbT pode tornar-se, por exemplo, um novo ST.

c. Processos de (des)continuidade no decurso da sequencialidade, rupturas tópicas, inserções, alternâncias tópicas, expansões via desenvolvimento de segmentos – Sg específicos, além de transições e superposições de tópicos, dentre outras relações que podem ser estabelecidas entre diferentes “porções” discursivas.

2. Alguns fenômenos na conversação: relevo e marcadores do discurso

Dentre os inúmeros fenômenos observáveis na organização textual-interativa do texto falado, têm-se o relevo e os marcadores discursivos (doravante MDs). São fenômenos distintos, mas que, em certos aspectos, funcionam de forma integrada, isto é, o relevo também efetua-se valendo-se de MDs e o emprego de determinados MDs contribui para ampliar graus de saliência tópica no decurso da produção, processamento e organização da conversa. Devido aos limites deste trabalho, apresentam-se aspectos gerais sumarizados para efeitos da análise tópica e sequenciação hierárquico-linear do corpus consoante os objetivos da pesquisa.

Sobre o relevo, Travaglia (2015) o define como a determinação de elementos do tópico para um plano mais elevado e saliente a fim de dar evidência a certo segmento ou, em oposição, rebaixar alguma porção tópica ocultando-a e tudo isso produz efeitos discursivos e textual-interativos. Neste âmbito, qualquer “parte” temática ou elemento do conteúdo pode ser destacado, pois marca-se “como o produtor do texto representa os elementos constitutivos do texto, como ele propõe que o ouvinte represente o texto” (TRAVAGLIA, 2015, p. 160). O relevo é contextualmente motivado de acordo com as intenções comunicativas na interação.

Por isso, são múltiplos os recursos “marcadores de relevo” e as instâncias textuais nas quais funcionam, pois organizam as informações, realizam contrastes, estabelecem focalização, direcionam tanto para dar proeminência quanto para rebaixar determinado elemento, etc. de forma que o relevo pode atuar nos planos emocional, argumentativo ou ideacional/cognitivo (TRAVAGLIA, 2015). Sendo assim, há recursos fônicos como a entoação ou altura da voz, silabações, mudanças de ritmo/velocidade da fala e marcação ilocucionária prosodicamente saliente. Igualmente, existem quantificadores (poucos, tudo, nada etc.), intensificadores (demais, tão, muito etc.), advérbios (jamais, agora, sempre etc.) e sintagmas que exprimem marcação de relevo, assim como quaisquer itens gramaticais (verbos, substantivos, artigos, conjunções, interjeições, numerais, pronomes etc.) podem marcar graus de saliência.

Há também marcadores que indicam orientação e avaliação mediante “relevo do tipo ‘fundo e figura’” (TRAVAGLIA, 2015, p. 181- grifos do autor), pois certos elementos assumem aspectos proeminente (figura) e outros secundários funcionam como "fundo" – descrições de cenários, de participantes e avaliações ou impressões dos eventos, além de manobras temporais e recursos sintáticos por meio dos predicados que “dão proeminência, devido ao seu valor semântico, que ‘diz’ da importância para o falante de algo expresso por um sintagma nominal ou por uma oração que lhe é subordinada” (TRAVAGLIA, 2015, p. 185). Dada a variedade de recursos e elementos marcadores de relevo, os itens analisados no corpus devem ilustrar esse processo de focalização e saliência condizente com as motivações contextuais.

No que diz respeito aos MDs no âmbito da GTI, são itens que assumem funções ideacionais e interativas, sendo divididos em “basicamente sequenciadores” e “basicamente interacionais”, funcionam nos planos linear e hierárquico, na articulação intertópica e intratópica e apresentam funções textuais e interativas em um contínuo, devido a emergência de um conjunto de variáveis e traços potenciais que os definem a partir de certa prototipicidade. Por isso, “são definidos como uma classe formada por certas expressões linguísticas que atuam na articulação e no gerenciamento dos processos de construção textual” (PENHAVEL; GUERRA, 2011, p. 160).

Risso, Silva e Urbano (2015, p. 385) postulam os MDs como uma classe gradiente e multifuncional, pois “na dinâmica das relações textuais, dificilmente um determinado MD exerce uma única função em caráter permanente e absoluto”. Assim, têm-se condições epistemológicas para definição do estatuto de uma forma linguística qualquer como MD, a partir de um núcleo-piloto definidor baseado em variáveis e frequências que norteiam a prototipicidade dos itens, conforme mencionado. Por isso, estabelecem-se traços estabilizadores das unidades e, por isso, sua natureza voltada para a articulação tópica ou orientação da interação.

Sendo assim, são traços dos MDs: a) exterioridade frente ao conteúdo proposicional; b) mobilidade e independência sintática e oracional; c) não possuem função comunicativa autossuficiente; d) quanto maior articulação tópica, menor orientação interacional; e) contrabalanceamento entre articulação tópica e orientação interacional; f) quanto menor articulação tópica, maior orientação interacional (RISSO; SILVA; URBANO, 2015). Para Penhavel (2012), essas formas facilitam o processamento do discurso devido dois aspectos centrais: “i) a ideia de que, em geral, explicitam significados implícitos no discurso; (ii) por serem elementos com algum tipo de estatuto subsidiário” (PENHAVEL, 2012, p. 79).

Assim sendo, os MDs basicamente sequenciadores são palavras, locuções e formas lexicais diversas que acompanham o fluxo discursivos realizando, de forma progressiva, “amarramento” tópico, processos coesivos em uma variada gama de funções ideacionais, textuais, representacionais, sendo pouco explorados pela gramática tradicional (RISSO, 2015). Formas como “agora”, “então”, “depois”, “aí”, “daí”, “aí depois”, “mas então”, “bom”, dentre muitas outras recorrentes, apresentam certa invariabilidade formal, sentido orientado pelo uso e natureza fônica reduzida (RISSO, 2015). Exprimem funções dêiticas, realizam contrastes entre porções tópicas, sinalizam ressalvas, atitudes, retomadas, prospecção ou organização textual tanto intertópica quanto intratopicamente (RISSO, 2015). No plano ideacional, os MDs orientam a elaboração cognitivo-inferencial das proposições e segmentos, assim como dos significados contextuais intersubjetivamente negociados (PENHAVEL, 2012).

Por sua vez, o subconjunto dos MDs basicamente interacionais desempenha funções múltiplas no decurso da interação conversacional, sendo exterior ao conteúdo proposicional, não possuindo autonomia comunicativa e os itens são sintaticamente independentes (URBANO, 2015), tais como as seguintes formas estudadas na GTI: “ah”, “ahn”, “hem?”, “uhn?”, “certo”, “é claro”, “é verdade”, “entende?”, “né”, “num é?”, “pois bem”, “olhe”, dentre outras. Essas palavras possuem ainda prosódia bastante marcada e pequena massa fônica, mas, em todo caso, exprimem um contínuo do envolvimento entre interlocutores desde maior grau de subjetividade até a total intersubjetividade (URBANO, 2015).

Em consequência, funcionam nos diversos planos interacionais, sinalizando o processamento interpessoal da interação a partir de traços ou funções fáticas (imperativa, exclamativa ou interrogativa), feedbacks entre os interlocutores, sobreposições de vozes, digressões, atitudes e uma gama de funções ligadas à dialogicidade inerente às trocas linguísticas. Desta breve sumarização acerca do relevo e dos marcadores discursivos, o presente estudo visa descrever e analisar o papel que exercem frente à dimensão da memória enquanto um dos horizontes constituintes dos pré-discursos, lugar da história dos sujeitos.

3. Memória, cognição e pré-discurso: a historicidade do sujeito falante

O objeto da Análise do Discurso (AD) é a relação da língua com a história a partir das formações discursivas, distinguindo os “processos discursivos” de sua “base linguística” (COURTINE, 2016). A proposta deste estudo é, justamente, friccionar o processo discursivo com a análise tópica de base linguística na estruturação da conversa, na qual o conteúdo mnemônico exprime-se como objeto de discurso (PINHEIRO, 2012). No discurso, há a historicidade do sujeito, do texto e dos quadros sociais formando as representações partilhadas que, na verdade, estão no horizonte da memória a evoluir "no curso da troca conversacional e deve conservar sua validade para que a interação seja bem sucedida” (PAVEAU, 2015, p. 139). Vem a ser, pois, um diálogo epistemológico não sem tensões, mas profícuo para atravessar o olhar sob o signo linguístico na investigação dos processos discursivos, assim como explicitar relações histórico-discursivas no processo de interlocução e interação verbais.

A partir de Paveau (2015), pensa-se na articulação da memória e linguagem para além de uma abordagem semântico-internalista concernente às capacidades do indivíduo, enquanto conceito caro à tradição linguística “que não considera forçosamente as circulações memoriais externas dos discursos na sociedade” (PAVEAU, 2015, p. 140). A intenção é inserir na pesquisa linguística a memória discursiva enquanto conceito transmutado da noção de memória coletiva2 da sociologia durkheimiana de Maurice Halbwachs (1990; 1925). Para Paveau (2015), a análise visaria articular a interdependência entre indivíduo e comunidade e, nesse processo, a (re)construção da memória se apresenta contextual e negociada pelos sujeitos e grupos em acordos e desacordos. Porém, “esses ‘vieses’ da memória que são nossas situações, na verdade, não o são, pois eles são constitutivos do que todos nós somos, com nossos conhecimentos compartilhados que nunca são inteiramente os mesmos nem tampouco são inteiramente outros. São nossas experiências, em uma só palavra” (PAVEAU, 2015, p. 141).

Da noção sociológica de memória, a autora constrói os conceitos de “pré-discurso” e “linhagem discursiva” para explicitar questões sobre produção de sentido, memória discursiva, cognição e relações de poder. O pré-discurso tem como característica um horizonte amplo de discursos, representações, estereótipos, scripts, frames, saberes, conhecimentos e outros elementos sociocognitivamente partilhados como anterioridade, “isto é, antes da transposição em discurso que impregnam explícita ou implicitamente todas as nossas produções verbais” (PAVEAU, 2007, p. 314). Segundo a autora, esses elementos não se identificam necessária e diretamente à materialidade enunciativa concretamente proferida, mas são linguisticamente analisáveis, estando também no âmbito da memória de sentido.

Os pré-discursos servem para operar transmissão, circulação, negociação e partilhamento de sentidos intersubjetivamente, formando “um conjunto de quadros pré-discursivos coletivos que têm um papel instrucional na produção e interpretação do sentido em discurso” (PAVEAU, 2007, p. 314). Para tanto, assume-se o papel social e distribuído da cognição humana, no qual se inter-relacionam e se apoiam os mundos interno e externo aos sujeitos. Em outras palavras, os pensamentos, as percepções e as memórias não estão intocados no espírito humano ou somente dispostos na cultura, mas distribuem-se sociocognitivamente no ambiente, corporificados nos indivíduos e em uma série de elementos que nos acercam, porquanto “existem vários saberes, crenças (em uma só palavra, proposições e pensamentos) articulados com o mundo exterior, o ambiente, os artefatos, e não apenas encapsulados nos módulos internos” (PAVEAU, 2015, p. 147).

No fundo, a categoria sociológica da memória social e coletiva é transmutada no conceito de pré-discurso – memória de sentido - consoante a assunção de uma perspectiva de cognição social distribuída para “mostrar que nossa memória, seja discursiva ou não, [está] distribuída nos ambientes, em particular na memória dos outros” (PAVEAU, 2015, p. 147). Esse processo de distribuição sociocognitiva rechaça a costumaz dicotomização entre mente-corpo e interno-externo cara ao dualismo cartesiano, a fim de considerar a exterioridade do espírito, já que há inúmeros “elementos não humanos que nos cercam e que constituem nossos ambientes de vida: lugares e objetos são também apoios à nossa memória, incluindo aí nossa memória discursiva” (PAVEAU, 2015, p. 147). Portanto, tem-se a ampliação do conceito de contexto, pois o que se transmite, se compartilha ou se representa não está somente “na cabeça” – interioridade subjetiva -, mas também “no mundo” – ambiente sociocultural.

A memória, enquanto criadora de “linhagens discursivas”, não se trata somente de registro e apagamento de informações enciclopédicas, mas sua natureza é cognitivo-discursiva, pois essas linhagens discursivas que elabora “podem ser definidas como dispositivos representacionais internos e externos, permitindo acolher e transmitir conteúdos semânticos ligados aos saberes, crenças e práticas. Isso quer dizer que existem ‘lugares de memória’ discursivos e cognitivos” (PAVEAU, 2007, p. 326), assentados em atos e práticas em um contexto amplo no qual o ambiente, corpo, cognição e linguagem se encontram integrados, porquanto "a cognição social permite, de fato, repensar de modo refrescante a velha noção de contexto, agora multidisponível e utilizada para tudo o que parece situar-se em torno ou fora do discurso e ter uma ligação ou uma influência sobre ele" (PAVEAU, 2007, p. 324)

Relacionando tais pressupostos à GTI, Kerbrat-Orecchioni (2001) entende que a análise da conversação – uma das orientações da GTI – é um tipo de AD, porém circunscrita ao texto dialogado e coletivo, geralmente sustentado por scripts que sustentam as trocas e o engajamento, já que “é necessário que se estabeleça entre eles um certo número de acordos relativos ao conjunto de regras do jogo conversacional” (KEBRAT-ORECHIONI, 2001, p. 158). Considerando, por fim, o pré-discurso e a linhagem discursiva, pode-se afirmar que esses processos discursivos se efetivem paralelamente à organização textual-interativa da conversação, plano da base verbal no qual a memória pode, portanto, exprimir-se e impregnar-se discursivo-cognitivamente na enunciação, bem como acionar objetos de discurso orientados pela anterioridade dos quadros discursivos.

4. Metodologia e procedimentos adotados

O presente trabalho é uma abordagem qualitativa a partir da descrição e análise da atividade textual-interativa da linguagem (JUBRAN, 2015) – especificamente a questão do relevo e dos marcadores discursivos -, fazendo interface com o viés interpretativista do texto/discurso no que concerne à memória discursiva – pré-discurso e linhagem discursiva (PAVEAU, 2015; 2007) -, enquanto produto e processo das práticas linguageiras. Os dados da fala do corpus fazem parte de um conjunto substancial de entrevistas, conversas em profundidade e narrativas voltadas à construção da memória social de Arara, uma comunidade rural com remanescentes de quilombolas em Teixeira de Freitas (BA). Em virtude dos limites do trabalho, utilizou-se um trecho de conversa de dezessete minutos com três velhos moradores antigos da referida comunidade, no qual o tópico discursivo centra-se nos batuques e toadas como objetos temáticos ou referentes.

A coleta dos dados seguiu o disposto na legislação quanto às questões éticas da pesquisa com humanos3 (BRASIL, 2016). Portanto, o corpus é um recorte dos inúmeros inquéritos/conversas realizados no interior de uma investigação de doutoramento4. Procedeu-se com o tabelamento das linhas (L.) para melhor visualização, organização dos enunciados e exposição retórico-analítica. Por seu turno, a transcrição seguiu os padrões da GTI, abaixo:

Figure 1.Tabela 01 – Chave de transcriçãoFonte: Preti (2005, p. 19-20 - adaptado).

Na sequência, estabeleceram-se as seguintes etapas para operacionalização do estudo:

a. Sistematização da hierarquia tópica constante no corpus por meio da construção dos quadros tópicos - QTs (JUBRAN, 2015);

b. Descrição dos principais recursos de relevo e graus de saliência (TRAVAGLIA, 2015) presentes na estruturação dos tópicos discursivos, notadamente, as formas e itens que expressam “lugares de memória” (PAVEAU, 2015). Nesta etapa, os itens são destacados em negrito para diferenciarem-se do padrão de transcrição;

c. Caracterização dos marcadores discursivos constantes na conversa em tela (RISSO, 2015; URBANO, 2015) no processo de sequenciação textual e interação conversacional conjugados;

d. Análise das ocorrências a partir da relação entre memória nos pré-discursos e linhagens discursivas (PAVEAU, 2015; 2007) na articulação com os recursos aventados pelos sujeitos, no caso, as estratégias de relevo e marcadores discursivos.

Sabendo que qualquer texto ou produção linguística é produto do contexto no qual é gerado (FLANNERY, 2015), o cenário da conversa deu-se na varanda da casa do senhor Wilson Pereira da Silva em outubro de 2020, seguindo rigorosos protocolos de distanciamento social e cuidados especiais5. Os sujeitos6 são os irmãos Derly Félix da Silva (Zeco, 84) e Berly Félix da Silva (Zuza, 84) e Wilson Pereira da Silva (85), primo de Zuza e Zeco, todos agricultores aposentados, compadres e importantes memorialistas de Arara, respectivamente:

Figure 2.Figura 01 - Os velhos de AraraFonte: O Povo News (2016)7

Na análise, as ocorrências destacadas da conversa entre os interlocutores são consideradas “ponto de transposição discursivo-verbal”, já que funcionam como lugares de memória discursivo-cognitivos sinalizados interacionalmente tanto pelas estratégias de relevo quanto pelos marcadores discursivos. Por sua vez, importa destacar que a comunidade Arara – pertencente ao município de Teixeira de Freitas no Extremo Sul da Bahia, surgiu nas décadas finais do século XIX às margens do rio Itanhém entre antigas fazendas coloniais (SAID, 2010), formada por posseiros, agricultores e trabalhadores do campo – muitas dessas pessoas eram descendentes de quilombolas - que encontraram em terras devolutas uma forma de sobrevivência, bem como constituíram estratégias de sobrevivência e resistência frente às parcas e tardias políticas públicas. A memória dos batuques e toadas é apenas um pequeno aporte das experiências construídas e vividas ao longo dos anos.

5. Resultados: relevo, marcadores discursivos e memória de velhos em quadros tópicos

Nesta etapa do estudo, tem-se a conjugação dos planos linear e hierárquico do corpus para análise das ocorrências de relevo e dos marcadores do discurso subsequentemente. Para tanto, apresenta-se a organização hierárquica a partir da segmentação tópica realizada. Com isso, tem-se a representação dos Quadros Tópicos e isso permitirá observar as (des)continuidades do fluxo textual-interativo, conforme o gráfico 01 abaixo:

Figure 3.Gráfico 01 – Organização hierárquica da conversa de velhosFonte: Elaborado pelo autor, baseado em Jubran (2015, p. 125).

No primeiro plano, há dois supertópicos (ST): o ST A “batuques e toadas” é o tópico discursivo predominante durante a conversa; o segundo ST B, “os catorze”, assim se apresenta após um subtópico na camada mais inferior da organização alçar à condição de ST, a partir de uma ruptura no Sg 49 no momento final do texto. Diferente de Jubran (2015) que divide os segmentos (Sg) a partir de marcas léxico-semânticas, no caso, optou-se por delimitá-los a partir da intervenção enunciativa de cada sujeito no decorrer do fluxo conversacional. Assim, cada intervenção é um Sg, porém há diversos mecanismos para delimitá-los

Além disso, ambos ST subdividem-se em duas camadas de SbT inferiores, o que demarca a existência de subtópicos internos com mais subdivisões arroladas. Nesse contexto, o ST A apresenta um SbT “batuque: forma de brincar” que se subdivide, progredindo para o próximo SbT “Baile” que também se subdivide e assim sucessivamente. Porém, ocorre uma ruptura tópica na terceira camada do ST A, já que o SbT “Os catorze” no Sg 49 ganha relevo e torna-se o ST predominante. Note-se que o SbT 01.a do ST B realiza uma retomada na terceira camada do plano retroagindo ao SbT 03.a do ST A.

Em suma, faz-se uma retomada do subtópico no qual centrava-se a maior parte da conversa anterior à ruptura. Na sequência, traçam-se alguns comentários gerais acerca dos tópicos e subtópicos proeminentes como quadros tópicos da memória sociocognitiva no fluxo textual-interativo, situando-os no contexto interno e externo à conversa.

5.1. Memória e afetos em relevo na conversação de velhos

Na interação em estudo, os sujeitos conversam sobre os batuques e toadas que ocorriam na comunidade Arara no passado e que funcionavam como momentos de lazer e festa entre longos e árduos intervalos de trabalho. Sendo objetos de discurso, as histórias, vivências e experiências com esses jogos, brincadeiras e rezas tornam-se temas que expressam a memória sociocognitiva dos sujeitos, emergindo, pois, como referentes co-construídos na conversação (PINHEIRO, 2012) e, como Koch (2008) postula, fluem da memória textual ancorados em nominalizações que permitem retomadas e remissões. Contudo, é na interação que cada sujeito negocia o que é importante para si a fim de dar relevo (TRAVAGLIA, 2015).

Daqui em diante, mostram-se as principais ocorrências de relevo e graus de saliência em ordem cronológica no corpus. De fato, o ST A é inserido por sr. Zuza na L. 05 do corpus ao explicar como funciona o jogo, dança ou brincadeira musical coletiva. Neste ponto, ao ser questionado sobre quem podia brincar, o memorialista vale-se de um quantificador. Assim, a forma “só” põe em relevo qual gênero participava do batuque, como se vê no excerto (1):

Figure 4.

Para explanar a complexidade do batuque, a força e rapidez exigidas na performance e em como os homens costumavam realizar a “encruzilhada” de pernas, sr. Zuza acelera um pouco o ritmo da fala – note-se a marcação < > - acentuando o tom de voz em “bateu” (L. 15):

Figure 5.

No entanto, os batuques são expressões culturais múltiplas da cultura afro-brasileira e há semelhanças entre a forma como os velhos de Arara brincavam e a forma como se dá o chamado “bate-barriga”, dança típica em Helvécia, um distrito quilombola de Nova Viçosa (BA) e traço de ancestralidade negra (DOS SANTOS, 2012), que o sr. Zeco faz remissão no SbT 01.a. A comunidade Arara fica a aproximadamente 120 quilômetros do referido distrito e, por isso, há lembranças partilhadas das expressões culturais e da história de cidades e de comunidades rurais negras da região do Extremo Sul baiano (SAID, 2010).

Interessante pontuar que a saliência se efetiva pela reiteração e diferenciação nominal: batuque versus bate-barriga L. 19 no excerto (3). Além disso, o relevo mantém a centração neste subtópico, já que há o plano emocional expresso nos risos. No plano discursivo, o relevo acentua o resgate da memória sociocognitiva concernente ao passado escravagista da região reavivado na “toada de batucadeiro”, por sua vez, cantada por sr. Zeco (L. 23-25):

Figure 6.

Essas memórias coletivas engatilham experiências particulares, o que leva sr. Zuza a comentar sobre a questão e exclusão raciais que envolviam as festas ou bailes. Os batuques tornaram-se um modo próprio das comunidades negras responderem à essa exclusão sociocultural (DOS SANTOS, 2012). Neste ponto da conversa, há uma subdivisão tópica salientada pelo enunciado na L. 32 - “vou contar uma história que aconteceu com meu pai”:

Figure 7.

Ao trazer para as experiências específicas de sua família, sr. Zeco provoca uma ruptura tópica que leva ao desenvolvimento do SbT 03/A. Contudo, essa vivência específica relatada acerca de seu pai, faz emergir novas memórias coletivas acerca dos mutirões – os “relas”:

Figure 8.

Vê-se que esses mutirões tinham importante função social e de convivência entre os moradores antigos de Arara. Atentar-se para a construção colaborativa do conceito de “rela”, posto que, em (5) acima, coloca-se em relevo o novo tópico e os graus de saliências exprimem-se nos trechos grifados: a) na explanação do termo – L. 40-41; b) na reiteração e na acentuação fônica – L. 42, 44 e 46; c) por relevo no plano emotivo expresso nos risos – L. 46.

Na sequência, dá-se uma nova mudança tópica. O SbT “festa”, a partir do SbT “relas” tem-se como marcadores: a) relevo fônico na L. 51; b) relevo emocional nos risos nas L. 51, 59 e 60; c) remissões por meio de formas lexicais relativas à festa, tais como “baile”, “forró”. Em outros trechos do corpus há expressões como “festão” (L. 64), “batizado” (L. 64), “samba de caixa e pandeiro” (L. 65), dentre outras. Observar esses elementos no excerto (6):

Figure 9.

Participar das festas e dos mutirões era um comportamento esperado para a boa convivência entre os moradores, porém sr. Zuza salienta (L. 57-59) como seu pai passou a lidar com os mutirões, denotando relevo no plano ideacional/cognitivo (TRAVAGLIA, 2015).

Ao fazerem referência às festas, tanto aquelas consideradas profanas quanto as religiosas ganham relevo nos dois excertos (7) e (8) analisados simultaneamente adiante. Com efeito, o relevo em plano emocional se torna evidente nas remissões às festas religiosas e aos sambas, a partir de valorações adjetivais destacadas, como nas L. 70 no excerto (7) e L. 90 no excerto (8) que também é fonicamente acentuado.

Essas memórias se mostram afetivamente carregadas pela expressão dos risos – marcador de relevo proeminente no texto -, bem como a imitação de sons e a inserção dos cantos das toadas que se apresentam na lembrança no decurso da interação. A forma “ALI OH”, na L. 94 no excerto (8), faz referência ao lugar de memória na qual ocorriam algumas das festas: “de frente à Igrejinha... na beira do rio”.

Figure 10.

Após o desenvolvimento desses SbT do ST A, os interlocutores discorrem acerca da criação do aeroporto na cidade de Caravelas (BA) na época da II Guerra Mundial, no qual ocorreram atividades militares, dentre elas o que os sujeitos chamam de operação “Os catorze”. Como tinham parentes e circulavam naquela cidade ainda pequenos, lembraram-se das movimentações, da alteração econômica na região e, centralmente, dos sons dos exercícios militares que chamavam à atenção. Dos marcadores de relevo que garantem a centração deste SbT 01/B tem-se a imitação dos sons dos estampidos (L. 127-128) e as adjetivações que mostram avaliações e valorações subjetivas do ocorrido (L. 128 e 130) destacados abaixo:

Figure 11.

Sr. Zuza diz “a gente era pequeno mas eu me lembro”, expressa a natureza reconstrutora da memória, assim como a co-construção que se dá na conversação, já que são referências partilhadas e formam o que Paveau (2015) chama de linhagem discursiva. O sujeito entrevistador (S. E.) negocia a retomada do ST A, ao que sr. Zuza o faz cantando uma toada:

Figure 12.

A conversa encerra-se com uma lembrança do sr. Zeco às pessoas que trabalharam na operação “os catorze” e que moravam no município de Teixeira de Freitas (BA). Essa referência é interessante por aproximar eventos maiores à vivência particular do memorialista, como é o caso dos eventos históricos relacionados às ações militares no Extremo Sul baiano durante a II Grande Guerra mais recentemente tratadas pela historiografia (SILVA, 2019).

5.2. Marcadores discursivos e distribuição da memória

Se os marcadores de relevo vigoram dar proeminência aos objetos de discurso acionados pela memória sociocognitiva, os marcadores discursivos - MD contribuem para pontualizar, articular, segmentar e expressar uma série de funções responsivas, (inter)subjetivas e de processamento do conteúdo discursivo dos segmentos enunciados. Seguindo os postulados de Risso, Silva e Urbano (2015), as funções de basicamente sequenciadores e basicamente interacionais dos MD podem se sobrepor. Busca-se, então, destacar ainda sua relação com o gerenciamento da memória sociocognitiva na materialidade das referências.

Nessas condições, como principais ocorrências encontradas no corpus em ordem cronológica, mostra-se, primeiramente, importante função dêitica na sequenciação dos segmentos – formas “aí” ou “e aí” -, assim como interjeições funcionando discursivamente na chamada de atenção e, dessa maneira, direcionando o olhar dos interlocutores, conforme se vê nas formas destacadas dos excertos (11) e (12) a seguir:

Figure 13.

As lembranças insurgem no planejamento on-line da fala, acessadas no pré-discurso do sujeito, daí o uso de algum MD interacional para manter o fluxo textual - mesmo fático - como a forma “eh:::” prolongada, seguida do dêitico “lá” que localiza para os interlocutores o ambiente de referência, no caso, da toada que é objeto de discurso no SbT 01.a abaixo:

Figure 14.

Como entre os interlocutores há a presença do sujeito pesquisador, as funções dêiticas de MDs como “aí” ou “lá” tornam-se produtivas tanto em função de ordenar temporalmente a narrativa que se constrói colaborativamente, como para situar o interlocutor que não partilha das referências enunciadas no conjunto de eventos narrados em sua espacialidade.

Nesse contexto, há a imbricação entre relevo e MD para orientar os sujeitos na conversa, exprimindo valores comunicativos relevantes na organização textual-interativa. No corpus, o dêitico “aí” ocorre 37 vezes, enquanto a forma “lá” aparece 28 vezes e a forma “ali” ao menos 20 vezes no decorrer da conversa. No exemplar abaixo, após o relevo dado pelo enunciado destacado, os MDs contribuem para sequencializar e “espacializar” o Sg insurgente:

Figure 15.

Por sua vez, a conjunção “e” é analisada nos excertos (15) e (16) abaixo, uma vez que exprime a sobreposição de funções de articulação e de interação.

Figure 16.

No interior do SbT 02.a que se centra nos “relas”, o item “e” aparece 55 vezes no decorrer da conversa, funcionando como conector aditivo, bem como inserindo enunciados em sequência que, a partir daí, não só dão mais detalhes acerca do “ocorrido”, como ainda dão relevo aos momentos considerados importantes, relembrados pelo memorialista, como em (15) acima. Essa pontualização do Sg apoia-se ainda no trabalho colaborativo de co-construção da narração, da memória e pela sobreposição das funções. Dessa forma, os sujeitos vão inserindo novas informações sobre um mesmo Sg, de forma que a memória coletiva entra em ação e se complementa por inserções conjuntas:

Figure 17.

Como já descrito acima nos excertos (13) e (14), os dêiticos são fundamentais na co-construção da referência local para o processamento informacional dos referentes textuais – como os MD “ali”, “aqui”. No trecho abaixo, o MD “né” apresenta função de feedback, pois na interação os interlocutores buscam obter diferentes atitudes responsivas dos demais:

Figure 18.

Todas as ocorrências acima aventadas expressam a funcionalidade dos MDs no processamento do texto e a orientação do processo inferencial dos Sg, servindo como “pontos de apoio” para a distribuição informacional da memória sociocognitiva, notadamente, nos seguintes modos: a) na construção colaborativa de segmentos que complementam referências de um mesmo SbT; b) na espacialização e temporalização dêitica para situar os interlocutores em algum “lugar de memória” ou o referente em um dado Sg em que se apresenta; c) no estabelecimento de atitudes subjetivas e responsivas para garantir transmissibilidade dos referentes que estão sendo “transpostos” do plano pré-discursivo ao plano verbal textual-interativo. Por fim, realizada a descrição como resultado da análise e segmentação tópica do corpus, importa relacionar os quadros tópicos aos quadros discursivos conforme a interface proposta.

6. Discussão: batuques e toadas em linhagens discursivas

Nesta etapa do estudo, resta o desafio da aproximação cuidadosa entre duas tradições no âmbito dos estudos da linguagem a partir dos quadros tópicos – QT da GTI (JUBRAN, 2015; KOCH, 2008; PINHEIRO, 2012; RISSO; SILVA; URBANO, 2015) e a noção de linhagem discursiva via memória sociocognitiva da AD (PAVEAU, 2015; 2007). O argumento central é que qualquer QT textual-interativamente co-construído na conversação – que se organiza em torno de um tópico discursivo constituído por objetos de discurso – apoia-se nos “lugares de memória” linguístico-discursivos presentes no pré-discurso e nas linhagens discursivas, nos quais os referentes encontram-se na condição de “anterioridade” socioculturalmente distribuídos. Assim, a dimensão discursiva encontra-se com o plano da efetivação verbal no processo de organização, estruturação e processamento tópico.

Em consequência, todo o processo formulativo e colaborativo da conversação se comporta em função de dar materialidade à memória, nos quais os QTs se co-constroem em conjunto com as linhagens discursivas emergentes na interação. Em razão disso, aceita-se que:

Encarar uma memória cognitivo-discursiva é ultrapassar uma concepção estática (memória-estoque destinada a ser recuperada, ou memória simplesmente partilhada que constituiria um tipo de fonte comum na qual bebem os interlocutores), para adotar uma concepção dinâmica que faz da memória um verdadeiro operador pré-discursivo e discursivo. Isto é, portanto, admitir que a memória em discurso não serve apenas para... a memorização, mas possui uma função (re)construtiva e categorizadora, função que passa essencialmente pela recognição. (PAVEAU, 2015, p. 151)

No momento da conversa, consoante os objetivos e intenções comunicativas, é que os dados pré-discursivos são acionados. Em outros termos, ao ser instigado a conversar sobre vivências, lembranças e experiências – dados constantes na anterioridade do discurso –, o sujeito elege e põe em relevo o que será referência para a interlocução verbal, assim como senhor Zuza instaura o tópico discurso no ST A referindo-se aos batuques e toadas que ele e tantos outros brincaram no passado na comunidade Arara.

Esse processo designativo não faz emergir os conteúdos mnemônicos tais como são, mas há uma dinâmica de reconstrução da memória e do discurso assentada no processo de recognição como posto pela autora supracitada. Por isso, ao designar “batuque”, como o fez sr. Zuza – vide excerto (03) – essa “designação não funciona apenas sobre o modo simples da analogia, mas organiza o mundo em discurso, confere-lhe um sentido” (PAVEAU, 2015, p. 151) e isso faz acionar e distribuir entre os interlocutores novos elementos que agregam a reconstrução da memória via co-construção do referente como fizeram os três compadres.

No momento em que um referente está em evidência no decurso da conversação, os SbTs organizam-se a partir do que é posto em saliência mediante os marcadores de relevo. As histórias arroladas por cada um dos sujeitos não chegam a ser totalmente elaboradas por eles, mas, pelo contrário, as inserções de novas “partes” complementares ocorrem ora dando relevo ao que interessa para cada interlocutor no momento, ora funcionando como dados sequenciais alinhavados conjuntamente.

Isso ocorre, por exemplo, no SbT 01.a no qual o termo batuque é (re)categorizado e mesmo no SbT 03.a os memorialistas contam acerca dos mutirões – chamados de “relas” - e festas religiosas. Como afirma Paveau (2015) “a construção da memória – e, por consequência, da memória cognitivo- discursiva – é fundamentalmente inscrita no desenrolar da história” (PAVEAU, 2015, p. 151). Nesse ponto da conversa, nos Sg 29-53 do SbT 03/A – vide Gráfico 01 - cada sujeito contribui com diferentes lembranças que ajudam a compor os referentes, a saber: “toadas de batuqueiro” e “festas de santo” (SbT 03.a).

No fluxo da conversa, os dêiticos favorecem os interlocutores a se localizarem no relato em proeminência. Então, valores, hábitos, situações e ocorrências vão se desenrolando no “fio do discurso”, a partir das linhagens discursivas colocando em pauta pontos de referências temporais – histórias que ocorreram durante a II Guerra guardadas pelos velhos de Arara desde a infância, lembranças dos sambas e das festas de santo nas fazendas ao redor da comunidade, o lugar em frente à Igrejinha onde elas ocorriam, além dos bailes para branco e as brincadeiras dos negros, enquanto elementos que singularizam as experiências desses interlocutores e os situam na historicidade constitutiva de cada sujeito. Tudo isso é parte dos pré-discursos, no caso em tela, dos moradores mais antigos que contribuíram para a formação da comunidade de origem.

Embora existam as singularidades, o que se tem ainda é o amplo trabalho psicossocial da memória de velhos (BOSI, 2004), enquanto fundamento para o resgate de memórias ancestrais, das origens e das diferenças socioculturais entre diferentes gerações. Isso se dá porque:

O elo memorial é parâmetro fundamental na produção dos discursos, a distribuição dos saberes e crenças voltando-se para o eixo diacrônico: os “ancestrais”, os que falaram antes de nós, são agentes humanos de distribuição, como o conjunto dos “lugares de memória” discursivos ou artefatuais que sustentam a transmissão. (PAVEAU, 2015, p. 151-152)

Os senhores Zeco, Zuza e Wilson constroem um discurso de memória acerca da ancestralidade da comunidade Arara no momento em que os elementos presentes na “anterioridade” do discurso são arrolados em linhagens discursas em seus traços de experiencialidade e, precipuamente, de transmissibilidade. Interagir é, de fato, também intercambiar experiências.

É evidente que neste processo, que envolve fenômenos mais gerais e elementos singulares no jogo das linhagens discursivas, entram em ação o lembrar e o esquecer como parte do processo sociocultural e cognitivo da memória. Há o que se enunciou e há, mais ainda, o que deixou de ser enunciado e que permaneceu submerso no pré-discurso e, por diferentes razões, não chegou a ser “transposto” no plano textual-interativo.

Para teóricos como Walter Benjamin e Paul Ricoeur, é na linguagem e na narrativa que os sujeitos se constituem socialmente, assim como é no plano da transmissibilidade narrativa que a memória assegura a constante reelaboração do ser social e das identidades (BENJAMIN, 2015; RICOEUR, 2003). Porém, algo sempre se perde e cai no esquecimento e, por isso, os referentes no discurso são recategorizados, acionando novos elementos em novos contextos. Resulta-se que memória, discurso e referentes estão em constante reconstrução.

Pensar a figura social e a linguagem da pessoa idosa – o velho para Bosi (2004) – não é também refletir sobre os medos quanto ao esquecimento? O esquecimento, assim como a memória, é instrumento político e, como relembra Paveau (2015; 2007) e Ricoeur (2003), a linguagem é lugar de reconhecimento e construção de si e da realidade. Sujeitos como os memorialistas destacados neste estudo também – cada um a seu modo e condições – lida com o fluxo dessa tensa relação entre lembrar e esquecer o acervo de suas vidas, como expressões peculiares de elementos sociais e coletivos que partilham e os “enraíza” na comunidade de nascimento. No plano do discurso, Paveau (2015) chama o esquecimento de “a-memória”, isto é, os apagamentos (in)conscientes do passado e do legado discursivo. Sendo assim, os pré-discursos podem se desvanecer e as linhagens discursivas perderem seus efeitos.

Sob essa ótica, se os velhos de Arara partilharam seu legado discursivo é para evitar a “a-memória” das origens e para situarem um conjunto de referências singulares. Trazer à tona as experiências de trocas nos mutirões, da convivência com os demais moradores e a apreensão estética no tocante aos sambas e festas de santos católicos, os sujeitos dão pistas de inúmeros fenômenos e relações socioculturais que “deslizam” e se costuram no plano textual-interativo à medida que as linhagens discursivas se desenrolam das toadas que cantaram.

7. Considerações finais

Tudo, no caso da conversa em estudo, se desenrola a partir da brincadeira do batuque e das toadas – objetos de discurso que se desdobram em novas linhagens discursivas no interior dos quadros tópicos. A topicidade é, então, atravessada pela memória e esta, por seu turno, transposta em referentes que reconstroem a realidade e os sentidos na linguagem. Por essa razão, o estudo buscou descrever e analisar os elementos linguísticos e procedimentos de organização tópica que concretizam, no plano textual-interativo, aquilo que decorre do plano discursivo-histórico oriundo do pré-discurso. Tendo isso em vista, foi preciso arriscar um contato novo entre tradições linguístico-epistemológicas distintas.

De fato, como endossa Paveau (2015), “os conceitos são como os humanos: eles evoluem, modificam-se e tomam, às vezes, novos caminhos que os conduzem a novas existências” (PAVEAU, 2015, p. 159). A descrição e análise propostas confirmam a hipótese de que os marcadores de relevo e os MDs apresentam importantes funções na transposição dos elementos constantes no pré-discurso para o plano textual-interativo, assim contribuindo de diferentes formas na construção colaborativa da memória sociocognitiva e da conversação. Não obstante, questões não previstas no estudo se apresentaram, como o fato de que a linguagem em registro não culto, utilizado pelos sujeitos da pesquisa, apresenta os mesmos recursos estudados nas investigações da GTI para o discurso oral culto, ao menos no que tange ao relevo, MDs e organização tópica. Por isso, tal questão precisa ser melhor discutida em trabalhos futuros, especialmente, relacionados à linguagem de pessoas idosas - a linguagem de velhos.

Outrossim, no corpus, apresentou-se um pequeno conjunto de estórias ou narrativas co-construídas no plano textual-interativo. É preciso, com efeito, uma descrição mais detida da forma narrativa enquanto tipologia emergente na estruturação textual. Note-se que essas formas – que formam uma espécie de subgênero textual – aproxima-se do quadro teórico da “análise narrativa” das short stories – pequenas estórias, um modelo não canônico para compreensão da linguagem narrativa na conversação que difere de propostas mais tradicionais, mormente tratadas pela sociolinguística (BAMBERG; GEORGAKOPOULOU, 2008).

Em virtude dos limites deste trabalho e devido à atenção dada ao relevo e aos MDs, a descrição das “pequenas estórias” e sua relação com os pré-discursos e linhagens discursivas precisam ser enfrentadas em outra oportunidade. Além disso, apesar da abordagem ter centrando-se na dimensão qualitativa da análise, o estudo abre caminho para o tratamento quantitativo dos itens descritos mediante ampliação do corpus, delimitando novo recorte com mais dados de fala e conversações acerca de Arara, evidenciada nas lembranças de velhos.

Por ser uma conversa na qual a memória sociocognitiva e coletiva se relaciona às vivências e histórias próprias de um determinado contexto, este estudo tratou apenas de um dos aspectos possíveis quanto ao contato entre o plano histórico-discursivo e o plano textual-interativo. Na verdade, a proposta de análise tópica realizada importou por colocar em destaque ou comunicar também a memória desvelada na descrição hierárquico-linear do corpus. Neste cenário conceitual de contato, a ideia de transposição discursivo-verbal precisa ser melhor refinada a partir de novos e mais detalhados delineamentos conceituais e metodológicos para que a interface proposta – entre GTI e AD com foco no olhar sobre a memória – seja cada vez mais segura e clara epistemologicamente.

Importa endossar que, na conversa, os quadros tópicos formam a expressão linguística das linhagens discursivas em múltiplos pontos de transposição discursivo-verbal. Todos esses elementos colocam em relação modos de articular a linguagem dos sujeitos, imagens de seus modos de viver, pontos de vista sobre o passado, marcadores identitários, fazendo ressaltar - no horizonte desses fatores - a dimensão política da conversa e da memória, mas, principalmente, a capacidade humana de partilhar. Contudo, é evidente que esse estado de coisas deve ser pensado não só positivamente, mas em sua contraposição: o risco do esquecimento, do conflito, do apagamento, da exclusão, das rupturas e dos fechamentos. Essa negatividade também se dá na conversa, pois os pré-discursos também portam suas tensões e as linhagem discursivas podem ser “cortadas”. Narrativa e memória são também lugares de disputa.

Não obstante, a imbricação entre oralidade e memória encontra apoio na relação com o corpo, isto é, torna-se ponto de conexão e lugar de memória, uma vez que os batuques e as toadas ganham projeção na rememoração pelos gestos, movimentos e melodias que formam o horizonte da experiência. Essa é uma questão nada residual, mas que necessita de um maior espaço para discussão, em razão da necessidade de se movimentar outros arcabouços teóricos para compreensão da simbiose entre corpo e memória como ponto de transposição discursivo-verbal. No entanto, como evidenciam os excertos (2) e (3), o relevo de fundo sobre o modo de se brincar o batuque tem o reforço do gesto e do movimento que seriam melhor capturados em uma análise multimodal, sendo uma perspectiva futura de análise do corpus deste estudo.

Em todo caso, o texto conversacional e a própria memória – se cabe neste momento uma interessante analogia – são como Penélope costurando e descosturando seu manto para retardar seu casamento e aguardar o retorno de Odisseu, rei de Ítaca. No mito homérico, esse era seu objetivo. Como um manto, cada conversa e cada memória, por diferentes objetivos, é alinhavada e desalinhada continuamente, assim como “o véu de Penélope é obra conjunta do tecer e do desmanchar, como o texto é a trama do lembrar e do esquecer” (GAGNEBIN, 2014, p. 235). Porque os velhos da comunidade Arara e os velhos em geral têm muito a contar ainda, as Ciências da Linguagem não podem perder de vista que, para além do signo, dos padrões e das formas linguísticas, há os próprios sujeitos – singulares e sociais - que se colocam, sentem, desejam, expressam, falam, lutam, erram, pensam e partilham.

No corpus em estudo, portanto, a história dos sujeitos se mescla à história local de como as comunidades rurais se constituíram em um contexto histórico maior no Extremo Sul baiano, região com longas heranças coloniais. Não fossem essas “heranças” pré-discursivas, os objetos de discurso seriam outros. Daí a importância de atravessar a história na linguagem para encontrar nos rios do esquecimento – na “a-memória” – a possibilidade de reinserção dos sujeitos, já que estes estão às margens de considerável parte dos estudos linguísticos, mormente apagados nos dados sob o véu de um certo cientificismo e pretensa objetividade. É preciso repensar o lugar ou a condição dos sujeitos no modus operandi da análise linguística como um todo.

Eis a razão do presente estudo em contribuir para o debate acerca da relação entre memória e linguagem, uma vez que prescrutando as lembranças de uma comunidade, tornou-se possível explicitar relações linguísticas e sociais diversas por meio de uma conversa entre compadres. Entre tópicos e linhagens discursivas, linguagem, memória, história e discurso são “lugares” nos quais o ser humano e a realidade se (re)constroem contínua e conjuntamente.

Referências

BAMBERG, Michael; GEORGAKOPOULOU, Alexandra. Small stories as a new perspectivein narrative and identity analysis. Text and Talk, Berlin, v. 28, n. 03, p. 377-396, 2008. DOI 10.1515/TEXT.2008.018. Acesso em: 10 mar. 2021.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BENJAMIN, Walter. Baudelaire e a modernidade. Tradução João Barrento. São Paulo: Autêntica Editora, 2015.

BRASIL. Resolução nº 510, de 07 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília – DF, n. 98, p. 44-46, maio 2016. Disponível em: < http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/reso_16.htm>. Acesso em: 10 ago. 2020.

CAVALCANTE, Mônica Magalhães et al. “Dimensões textuais nas perspectivas sociocognitiva e interacional”. In: BENTES, Anna Christina; LEITE, Marli Quadros (org.). Linguística de texto e análise da conversação: panorama das pesquisas no Brasil. São Paulo: Cortez, 2010, p. 225-261.

COURTINE, Jean-Jacques. Definição de orientações teóricas e construção de procedimentos em Análise do Discurso. Policromias, Rio de Janeiro, v. 01, n. 01, p. 14-35, jun., 2016. Acesso em: 10 mar. 2021.

COURTINE, Jean-Jacques. O tecido da memória: algumas perspectivas de trabalho histórico nas ciências da linguagem. Polifonia, Cuiabá, v. 12, n. 02, p. 01-13, 2006. Acesso em: 10 mar. 2021.

DOS SANTOS, Valdir Nunes. As performances da dança bate-barriga, elementos de significação ancestre na comunidade negra de Helvécia. In: CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS, 8, 2012, Porto Alegre. Anais [...]. Porto Alegre: UFRGS, 2012, p. 01-05.

FÁVERO, Leonor Lopes; JUBRAN, Clélia C. A. Spinardi; HILGERT, José Gaston; BARROS, Kazue Saito de; TOCANO, Maria Eulália Sobra; ANDRADE, Maria Lúcia da C. V. O.; CRESCITELLI, Mercedes E. C; GALEMBECK, Paulo de Tarso; AQUINO, Zilda Gaspar O. de. “Interação em diferentes contextos”. In: BENTES, Anna Christina; LEITE, Marli Quadros (org.). Linguística de texto e análise da conversação: panorama das pesquisas no Brasil. São Paulo: Cortez, 2010, p. 91-158.

FLANNERY, Mércia Regina Santana. Uma introdução à análise linguística de narrativa oral: abordagens e modelos. Coleção: Novas Perspectivas em Linguística Aplicada v. 42. Campinas, SP: Pontes Editores, 2015.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter Benjamin. São Paulo: Editora 34, 2014.

GOMES, Maria Cecília da Silva; GARCIA, Vera Lúcia. Estudo sobre a linguagem oral do idoso. Mimesis, Bauru, v. 27, n. 01, p. 69-78, 2006. Acesso em: 10 mar. 2021.

HALBWACHS, Maurice. Memória coletiva. Tradução de Laurent Léon Schaffter. São Paulo: Vértice; Revista dos Tribunais, 1990.

HALBWACHS, Maurice. Les cadres sociaux de la mémoire. Paris: Félix Alcan, 1925.

JUBRAN, Clélia Spinardi. “Tópico discursivo”. In: JUBRAN, Clélia Spinardi (org.). A construção do texto falado: gramática do português culto falado no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 85-126.

JUBRAN, Clélia Cândida Abreu Spinardi. Revisitando a noção de tópico discursivo. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, v. 48, n. 01, jan./jun. 2006. Acesso em: 10 mar. 2021.

KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine. A noção de "negociação" em análise de conversação: o exemplo das negociações de identidade. Gragoatá, Niterói, v. 6, n. 11, p. 157-176, nov. 2001. Acesso em: 10 mar. 2021.

KOCH, Ingedore Villaça. “Especificidade do texto falado”. In: JUBRAN, Clélia Spinardi (org.). A construção do texto falado: gramática do português culto falado no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 39-46.

KOCH, Ingedore Villaça. Como se constroem e reconstroem os objetos de discurso. Investigações, Recife, v. 21, n. 2, p. 99-114, 2008. Acesso em: 10 mar. 2021.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual: análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

MONDADA, Loranza. Gestion du topic et organisation de la conversation. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, v. 41, p. 07-35, 2001. Acesso em: 10 mar. 2021.

PAYER, Maria Onice. Discurso, memória e oralidade. Horizontes, São Francisco, v. 23, n. 01, p. 47-56, jan./jun. 2005. Acesso em: 10 mar. 2021.

PAVEAU, Marie-Anne. Memória, des-memória, a-memória: quando o discurso volta-se para seu passado. Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 5, p. 137-161, 28 abr. 2015. Acesso em: 10 mar. 2021.

PAVEAU, Marie-Anne. Palavras anteriores. Os pré-discursos entre memória e cognição. Tradução de Norma Seltzer Goldstein. Filologia e Linguística Portuguesa, São Paulo, n. 9, p. 311-331, 2007. DOI: 10.11606/issn.2176-9419.v0i9p311-331. Acesso em: 10 jun. 2021.

PENHAVEL, Eduardo. O que diferentes abordagens de marcadores discursivos têm em comum? Revista (CON)TEXTOS Linguísticos, Vitória, v. 06, n. 07, p. 78 – 98, 2012. Acesso em: 10 mar. 2021.

PENHAVEL, Eduardo; GUERRA, Alessandra Regina. A subfunção interacional de “checagem” na gramática textual-interativa. Diadorim, Rio de Janeiro, v. 10, p. 158 - 173, dez., 2011. DOI: https://doi.org/10.35520/diadorim.2011.v10n0a3941. Acesso em: 10 jun. 2021.

PINHEIRO, Clemilton Lopes. Objeto de discurso e tópico discursivo: sistematizando relações. Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, v. 12, n. 3, p. 793-812, set./dez. 2012. Acesso em: 10 mar. 2021.

PRETI, Dino (org.). O discurso oral culto. 3 ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005 (projetos Paralelos, v. 02).

RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. 2003 Tradução de Bruno Barros; correção de Maria Luisa Portocarrero. 2003.

RISSO, Mercedes Sanfelice; SILVA, Giselle Machline de Oliveira e; URBANO, Hudinilson. “Traços definidores dos marcadores discursivos”. In: JUBRAN, Clélia Spinardi (org.). A construção do texto falado: gramática do português culto falado no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 371-390.

RISSO, Mercedes Sanfelice. “Marcadores discursivos basicamente sequenciadores”. In: JUBRAN, Clélia Spinardi (org.). A construção do texto falado: gramática do português culto falado no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 390-452.

SAID. Fabio M. História de Alcobaça: Bahia (1772-1958). São Paulo, 2010. Edição digital.

SILVA, Tharles da. Os lugares e a memória: a Segunda Guerra Mundial no Extremo Sul da Bahia. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA: HISTÓRIA E O FUTURO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL, 30, Recife, 2019. Anais [...]. Recife: UFPE, 2019. p. 01-14.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. “O relevo no processamento da informação”. In: JUBRAN, Clélia Spinardi (org.). A construção do texto falado: gramática do português culto falado no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 158-206.

URBANO, Hudinilson. “Marcadores discursivos basicamente interacionais”. In: JUBRAN, Clélia Spinardi (org.). A construção do texto falado: gramática do português culto falado no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 453-482.