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Abstract

Le travail aborde le concept de verbe dans la Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza (1822), de Jerônimo Soares Barbosa (1737-1816). L’objectif est d’examiner, d’interpréter et d’expliquer le concept de verbe, en considérant les similitudes et les différences dans l’approche de la classification entre la Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza (1822), de Barbosa, à la Grammatica philosophica (1783), de Bernardo de Lima e Melo Bacellar (1736-1787), et la Gramatica Portugueza (1804), de Manuel Dias de Souza (1753-1827), afin d’observer s’il y a eu des changements dans la connaissance de cette catégorie, en regard des œuvres antérieures à la Grammatica Philosophica de Barbosa, dans le contexte de la grammaire portugaise. Sur la base de l’histoire des idées linguistiques, selon Auroux (1998, 2009) et Colombat, Fournier et Puech (2017), ces trois œuvres sont étudiées comme instrument linguistique, qui enregistrent le savoir métallurgique d’une certaine époque, en décrivant un ensemble de règles qui ne se limite pas à un seul orateur. Ainsi, est abordée la signification de verbe pour Bacellar, Souza et Barbosa, en soulignant la définition par une analyse descriptive et interprétative. Nous avons constaté que la connaissance de cette catégorie a changé par rapport aux œuvres antérieures à la grammaire philosophique de Barbosa, dans le contexte de la grammaire portugaise. Barbosa (1822) a construit son concept de verbe sur la base de la théorie des grammaires généraux, défendue par les auteurs qui ont composé son horizon de rétrospection, tout en présentant une nouvelle interprétation du concept de cette partie du discours.Mais sobre o texto original

Introdução

Este artigo trata do conceito de verbo na Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza (1822), de Jerônimo Soares Barbosa (1737-1816), um dos assuntos da nossa tese doutoral, cujo título é Um estudo da Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza: uma história do panorama do horizonte de retrospecção de JSB1, orientada pela prof.ª Dr.ª Marli Quadros Leite, que também coordena o Grupo de Pesquisa Gramáticas: história, descrição e discurso, inserido no programa de pós-graduação do DLCV-USP.

A Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza, doravante GPLP, é obra de grande relevância para a gramaticografia portuguesa, pois visa romper com o método baseado apenas na analogia da língua portuguesa em relação à língua latina, para apresentar um instrumento fundamentado nos princípios da gramática geral. Segundo Gonçalves (2006, p. 6-7), “Ao estabelecer paralelismos entre as operações lógicas do pensamento e a sucessão linguístico-discursiva, a gramática filosófica assumia a feição de verdadeira teoria da linguagem, filosófica e linguística, representando portanto todas as línguas”. Assim, a GPLP é fruto de uma interpretação, por Barbosa, dos princípios da gramática geral.

A GPLP segue orientação metodológica racionalista, guiada por métodos analíticos, tendo por finalidade simplificar as regras da língua e explicá-las com clareza e exatidão, para que essas regras não sejam simplesmente decoradas pelos discentes, mas compreendidas pela razão. A clareza e a exatidão no ensino de língua são evidenciadas pela estrutura da proposição, na qual o verbo é parte essencial, pois faz a ligação do sujeito com o seu atributo, ou seja, é o operador por excelência de todas as proposições (BARBOSA, 1822). O autor sustenta a ideia de que o verbo “ser” é “o verbo” capaz de formar qualquer proposição, uma vez que com esse verbo “(...) podem formar todas as sortes de orações; e todas as que se fazem por outros verbos, se resolvem per este em ultima analyse” (BARBOSA, 1822, p.192).

De acordo com a lógica da gramática geral, as palavras servem para enunciar nossos pensamentos por meio de proposições. As palavras não irão expressar nossos pensamentos se estiverem isoladas, soltas, desconexas; elas irão fazer isso por meio de proposições, relacionadas, coordenadas. Logo, o conhecimento de uma língua não se realiza com base unicamente no estudo etimológico ou morfológico, pois é necessário analisar a palavra também na formação de orações. Como a GPLP tem como base os princípios da gramática geral, a análise da língua parte do campo sintático e/ou semântico.

Com fundamento nos princípios da História das Ideias linguísticas, examinamos a categoria horizonte de retrospecção (AUROUX, 2008) de Barbosa, selecionando o conceito de verbo para nortear o estudo. Para este trabalho, destacamos parte do horizonte de retrospecção do gramático português, como: a Gramática Geral de Port-Royal (1660), de Arnauld e Lancelot; Grammaire générale ou Exposition raisonnée des éléments nécessaires du langage: pour servir de fondement à l'étude de toutes les langues, de Beauzée (1767); os artigos Grammaire (1757), Proposition (1751), Tems (1751),2 Verbe (1751), de Beauzée; e a Grammaire (Cours d'étude pour l'instruction du prince de Parme), de Condillac (1775).3 Esta pesquisa nos possibilitou uma base teórica sobre os princípios da gramática geral.

Por meio de descrições, análises e comparações entre a GPLP e as gramáticas gerais e filosóficas de Bacellar (1783) e Souza (1804), procuramos responder aos seguintes questionamentos: Como os princípios da gramática geral são interpretados no estudo do verbo português? Quais os critérios utilizados nessa interpretação? E qual a relevância do verbo na composição da proposição? Com o objetivo de examinar, interpretar e explicar o conceito de verbo, considerando as semelhanças e diferenças na abordagem da classificação entre as três gramáticas, analisamos se houve mudanças do conhecimento dessa categoria, tendo em vista as obras anteriores à GPLP, no contexto da gramaticografia portuguesa.

No que diz respeito aos "critérios de análise", tais como os básicos e fundamentais (semântico, morfológico e sintático), segundo Auroux (2009, p.105-110), são características que distinguem uma categoria da outra. No critério morfológico, a categoria é identificada a partir da estrutura e variações; no semântico, com base no significado da palavra; no semântico-ontológico, segundo a relação semântica de existência dos objetos do pensamento; no funcional-sintático, conforme a relação das palavras na constituição de uma oração; e, funcional-lógico, a partir da relação dos termos na formação de uma proposição.

Este trabalho está dividido em quatro partes: na primeira parte, apresentamos a terminologia e o conceito de verbo na Grammatica philosophica de Bacellar (1783); na segunda parte, descrevemos e analisamos a terminologia e conceito de verbo na Gramatica Portugueza de Souza (1804); na terceira parte, descrevemos e analisamos o conceito de verbo e a terminologia presentes na GPLP; e na quarta parte, comparamos esses conceitos e terminologias a fim de analisarmos semelhanças e diferenças na abordagem da classificação entre as três gramáticas. Concluímos que há mudanças do conhecimento dessa categoria, tendo em vista as obras anteriores à GPLP, no contexto da gramaticografia portuguesa. Barbosa (1822) construiu seu conceito de verbo com base na teoria das gramáticas gerais, defendida pelos autores que compuseram seu horizonte de retrospecção, apresentando, porém, uma nova interpretação do conceito dessa parte do discurso, pois recupera parcialmente o conceito de verbo apresentado por Beauzée (existência), faz uso da terminologia de Condillac (coexistência) e diverge de todos os gramáticos em relação à função do verbo ser como auxiliar e acrescenta a subdivisão de auxiliares para o verbo substantivo e para os verbos adjetivos.

1. O verbo na Grammatica philosophica, e orthographia racional da lingua portugueza (1783) – de Bernardo de Lima e Melo Bacellar

Bacellar (1736-1787) participou da ordem franciscana entre os anos de 1770 a 1787, publicando nesse período duas obras: Grammatica philosophica, e orthographia racional da lingua portugueza (1783) e a Arte e o Diccionario do Commercio e Economia Portugueza (1783). Em 1787, aderiu ao iluminismo e abandonou a vida do convento. Não se sabe ao certo se morreu em Paris durante a Revolução Francesa ou se regressou a Portugal (MOURA; ASSUNÇÃO, 2016).

Para o presente estudo, utilizamos a primeira edição da Grammatica philosophica, e orthographia racional da lingua portugueza (1783), disponível na página eletrônica do projeto Corpus des textes linguistiques findamentaux (CTLF), do Laboratoire d'Histoire et des Théories linguistiques (UMR 7597), da Université Paris 7, Denis Diderot.4

A Grammatica Philosophica é dividida em três partes: Primeira parte – o som que representa o agente gramatical, que é o nominativo; Segunda parte – o som que expressa a ação gramatical, que é o verbo; e, Terceira parte – o som que pode ser o accionado gramatical ou paciente ou o caso do verbo. Segundo Moura e Assunção (2016), a obra é inovadora, o que é perceptível já pela escolha dos termos agente, ação e atuado, para estruturar a gramática. A divisão da gramática por termos relativos a funções da oração, é indício de que a Minerva5 faz parte do horizonte de retrospecção de Bacellar.

Bacellar (1783) define a Grammatica Philosophica como um conjunto de leis (regras) armazenadas arrazoadamente para possibilitar a comunicação, ocupando-se em discutir e explicar como essas leis regulam uma língua de comunicação. Tal ideia é mais um índício do horizonte de retrospecção do autor, pois a referência à "comunicação" é explícita para Condillac, que assim se refere ao assunto: “C’est un systême de mots, qui représente le systême des idées dans l’esprit, lorsque nous les voulons communiquer dans l’ordre et avec les rapports que nous appercevons (...)” (CONDILLAC, 1775, p.131-132). Vale lembrar que Torres (1994, p. 464) também reconhece tal ligação de Bacellar com o filósofo citado, pois o gramático português ao dizer que a gramática é como conjunto de leis racionais cujo fim é a comunicação pode ser ouvida dos textos de Condillac, fazendo-nos pensar que tenha sido a inspiração metodológica de Bacellar.

Outro autor que integra o horizonte de retrospecção de Bacellar é Sanches de las Brozas. É dessa fonte a inspiração de Bacellar para definir as partes essenciais da gramática, relacionadas aos três elementos (denominados "sons", pelo português) que compõem a oração (agente ou nominativo, verbo, accionado ou paciente ou caso) (Cf. Torres, 1994). Tal relação é fundada na Minerva em que se vê ser a oração, ou a sintaxe, o objeto da gramática, que é composta por três elementos: nome, verbo e partícula (BROZAS, 1976 [1587]).

Além da inovação relativa à divisão da gramática, o português é diferente em outras questões. Vê-se que, o autor pensa em gramática e lógica, com base na função sintática dos elementos essenciais da gramática, reconhecendo, assim, que o sujeito, a cópula e o predicado compõem a proposição lógica. Essa distinção entre os termos da oração e da proposição revela que o gramático tem outros autores em seu horizonte de retrospecção, pois tanto se refere ao sujeito gramatical, como Beauzée,6 quanto ao sujeito lógico como os autores da Gramática Geral de Port-Royal,7 doravante GGP-R.

Vê-se, também, a presença da teoria da gramática geral quando Bacellar (1783, p.100) declara que “Não ha Acção, ou Verbo na oração sem nominativo claro, ou escondido, porque não pode haver acção sem agente que a produza”. Esse é um princípio da teoria da gramática geral, que, contudo, não surge na GGP-R, pois, conforme Brozas (1976 [1587], p.78-79), toda oração é composta por um nome e um verbo. Vale ressaltar que, por sinal, tal princípio vem ainda de mais longe, desde os gregos e, nesse caso, foi um dos preceitos de Platão. Na GGP-R, o mandamento é o de que nominativo sempre se relaciona a um verbo, assim como o verbo sempre tem de ter um nominativo expresso ou subentendido, pois “(...) sendo próprio do verbo afirmar, é indispensável haver alguma coisa de que se afirme, que é o sujeito ou o nominativo do verbo (...)” (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660], p.126). Portanto, não há oração sem sujeito e sem verbo.

Ainda sobre a definição de oração ou proposição, Bacellar apenas declara que “(...) Oração, (ou são a preposição) que he a unica cousa (...)” (BACELLAR, 1783, p.13), não esclarecendo se é uma expressão do pensamento ou do julgamento. Bacellar também não esclarece se há diferentes tipos de oração como fazem os gramáticos de Port-Royal, Beauzée e Condillac. Para Arnauld e Lancelot (2001 [1660]), a proposição é a representação linguística do julgamento, a qual pode ser, conforme o critério lógico, verdadeira e falsa; e, o critério gramatical, simples e composta. Para Beauzée (1767), a proposição é bipartida (sujeito e predicado), o que desmerece o valor do verbo substantivo “ser”, a qual poder ser, de acordo com o critério lógico, afirmativa universal, negativa universal, particular afirmativa, particular negativa; ou simples e composta, completa e elíptica, se o critério for gramatical. Enquanto para Condillac (1775, p.9), a proposição é um julgamento expresso por palavras, que pode ser subdividida em simples e composta (LISBOA, 2020).

Nessa Grammatica Philosophica, o verbo é definido na segunda parte, capítulo I, como a ação gramatical que representa uma afirmação, o qual é uma obra física que tem pessoa, número, tempo e modo. O gramático explica que, na oração “Pedro ama a Deus”, “(...) a acção, ou o verbo ama representa com affirmação o amor physico, ou a obra amorosa, que Pedro agente physico operou a respeito de Deus” (BACELLAR, 1783, p.53). A ação “ama” concorda com o sujeito “Pedro” em pessoa (terceira pessoa), em número (singular), no tempo (presente). O verbo significa ação, mesmo conceito constante, por exemplo, na Minerva (BROZAS, 1976 [1587], p.77), e tem como os acidentes número, tempo e pessoa, mas também apresenta essa ação “com afirmação”, conceito que o conecta à GGP-R (ARNAULD; LANCELOT, 2001[1660], p.81).

Em nota de rodapé, Bacellar (1783) esclarece que nessa “obra física”, referente ao conceito de verbo acima, o verbo “ser” representa a “obra”, como uma operação do pensamento, para estabelecer a união do sujeito ao seu predicado. Para Bacellar, assim como para os gramáticos de Port-Royal e os enciclopedistas, os verbos de ação se decompõem pela fórmula em “(ser) é + particípio presente”, também em consonância parcial, especialmente, de um lado, com Arnauld e Lancelot, e, de outro com Condillac, o verbo representa “com afirmação” a ação verbal. Subentende-se que, nessa Grammatica Philosophica, que “com afirmação” diz respeito ao “conceber”, “julgar” e “raciocinar” da GGP-R (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660]), pois os homens expressam seus julgamentos por meio de proposições, e que “ação verbal” se refere ao conceito de Condillac (CONDILLAC, 1775) sobre o verbo adjetivo.

Com base nessa mesma nota de rodapé, pressupõe-se que Bacellar faz referência às considerações que Arnauld e Lancelot (2001 [1660]) fazem sobre a natureza do signo, a qual é composta por duas partes: a) sons e caracteres (parte física); e, b) significação, a qual diz respeito à expressão do pensamento (parte lógica). Assim, o som seria para Bacellar a “obra física” (como o verbo amar), e a significação a “obra” (como sou amante).

O verbo, pois, é classificado por Bacellar como: a) ativo – quando representa a obra, o realizar, a ação; b) passivo – quando representa como se obrou, realizou-se, executou-se; c) neutro – o sujeito não realiza a ação e nem outro o efetua, como adoecer; d) recíproco – reflete a ação do sujeito no próprio sujeito; e) regular – não apresenta variação em suas terminações; f) irregular – apresenta variações em suas terminações; e, g) defectivo – demonstra a falta de alguns tempos em sua conjugação (BACELLAR, 1783, p.53). O gramático não apresenta uma classificação subdividida por critérios sintático-semântico (ativo, passivo, neutro e recíproco) e formal (regular, irregular e defectivo), o que provoca certa desordem por falta de subdivisões.

Essa classificação difere das gramáticas gerais de Arnauld e Lancelot, (2001[1660]), de Beauzeé (1767) e de Condillac (1775), em primeiro lugar, porque não há a bipartição entre verbos substantivo e adjetivos e, em segundo lugar, além de verbos ativos, passivos e neutros,8 há o recíproco. Como lição de reciprocidade, há na GGP-R a identificação dos pronomes recíprocos sui, sibi, se, cujo sentido é equivalente a “para dentro de si mesmo” (Cf. Arnauld e Lancelot, 2001[1660], p.54). Quanto ao verbo ativo ligar-se, o recíproco se, segundo os autores de Port-Royal, “(...) a ação tem por sujeito e por objeto o mesmo agente: se tuer (‘matar-se’), se voir (‘ver-se’), se connaître (‘conhecer-se’) (...)” (ibidem, p.119), o que comprova que a reciprocidade no verbo é admitida na GGP-R. Quanto à forma de conjugação, Bacellar (1783) se equipara a Condillac (1775), dividindo os verbos em regular, irregular e defectivo.

No capítulo II, da segunda parte, Bacellar trata da formação do verbo e suas conjugações. A partir da página 54, são descritas as três conjugações (1ª – infinito em -ar; 2ª – infinito em -er; e, 3ª – infinito em -ir) por meio de quadros com verbos regulares distribuídos em modos e tempos verbais. O gramático usa notas de rodapé para explicar cada formação e, ao término de cada conjugação, lista os verbos irregulares e defectivos.

Apesar de o estudo acerca do verbo ser direcionado pela sintaxe, o que revela que a teoria da gramática geral recobre o horizonte de retrospecção do autor, a Grammatica Philosophica em exame se afastou um pouco do conceito geral fundamental de verbo por defini-lo também como ação, e não o classifica em substantivo, adjetivo e auxiliar.

2. O verbo na Gramatica Portugueza ordenada segundo a doutrina dos mais celebres Grammaticos conhecidos, assim nacionaes como estrangeiros, para facilitar á mocidade Portugueza o estudo de lêr e escrever a sua propria Lingua, e a inteligencia de outras em que se quizer instruir (1804) – de Manuel Dias de Souza

Manuel Dias de Souza (1753-1827), pedagogo português, é autor das seguintes obras: Nova eschola de meninos (1784); a Gramatica Portugueza (1804); e, Historia da creação do mundo, segundo a Sagrada Escriptura e a melhor doutrina dos sabios (1804) (KEMMLER, 2011). Para a produção da Gramatica Portugueza (1804), inspirou-se na Encyclopédie, com o objetivo de “construir uma gramática acadêmica baseada nos princípios da gramática geral, especialmente a de Nicolas Beauzée” (GONÇALVES, 1998), em particular, acerca do estudo dos tempos e modos verbais.

Para o presente estudo, utilizamos a primeira edição da Gramatica Portugueza ordenada segundo a doutrina dos mais celebres Grammaticos conhecidos, assim nacionaes como estrangeiros, para facilitar á mocidade Portugueza o estudo de lêr e escrever a sua propria Lingua, e a inteligencia de outras em que quizer instruir (1804), disponível na página eletrônica do projeto Corpus des textes linguistiques findamentaux (CTLF), do Laboratoire d'Histoire et des Théories linguistiques (UMR 7597), da Université Paris 7, Denis Diderot.

A obra é dividida em duas partes: Parte I – Da Ortologia, que se subdivide em quatro artigos: 1º) dos elementos da palavra (letras, vogais, ditongos, consoantes, sílabas); 2º) da etimologia das palavras (palavra em geral, nome, artigo, adjetivo, pronome, particípio, verbo, preposição, advérbio, conjunção, interjeição); 3º) da prosódia (prosódia e suas regras, figuras de dicção); 4º) da sintaxe (concordância, dependência, construção, figuras de sintaxe, construção do discurso); apêndice de ortologia; e, Parte II – Da Ortografia, subdividindo-se em dois artigos: 1º) da ortografia das palavras; e, 2º) da ortografia do discurso (pontuação).

No texto introdutório da Gramatica Portugueza, Souza (1804, p.VII) declara que a palavra é usada para exprimir os pensamentos por meio da fala realizada pelos órgãos responsáveis pela emissão dos sons e pela inteligência, característica singular do homem. Essa definição revela, claramente, que o filósofo francês E. B. Condillac integra seu horizonte de retrospecção, pois, segundo esse filósofo e gramático, a fala é usada para transmitir conhecimento, e a escrita para perpetuar os pensamentos, os ensinamentos, os conhecimentos dos sábios (CONDILLAC, 1970 [1746]).

Segundo Souza, da observação do conhecimento dos sábios, surgiram três artes: a gramática, a lógica e a retórica. A gramática ensina a exprimir as ideias do pensamento; a lógica procura a verdade e ensina a transmiti-la; e, a retórica instrui a realçar o discurso, a fim de torná-lo mais persuasivo (SOUZA, 1804, p.X-XI). O gramático ratifica que os conhecimentos gramaticais são indispensáveis ao professor, pois podem instruir melhor seus alunos na prática da leitura e da escrita da língua portuguesa, o que, segundo observa Santos (2010, p.119), confere “(...) à sua obra um cunho didáctico-formativo (...)”.

Souza, na introdução da Gramatica Portugueza, fazendo uma resenha sobre as publicações de gramáticas portuguesas, faz uma divisão em três períodos: 1º – com Fernão de Oliveira, João de Barros, Amaro de Roboredo e D. Jerónimo, Contador de Argote; 2º – com António José dos Reis Lobato, e afirma que esses gramáticos não têm algumas falhas de outros, porque se fundam nas obras de “Sanches, Perizonio, Vossio, Sciopio e Lancelote”, o que lhes permitiu fazer a “correção dos defeitos” e suprir as “falhas dos nacionais”; e, 3º – quando fala de si próprio ao dizer ser veiculador de “inovações” no sistema gramatical português, fato também apontado por Santos (2010, p.119). É de notar, ainda, que Souza não se refere à Grammatica Philosophica de Bacellar (1783).

Quanto ao horizonte de retrospecção de Souza (1804, p.XIV), é possível afirmar que ele é claro e direto, pois o próprio autor o expõe ao revelar que sua doutrina segue dois percursos: 1º – tem como fundamento a Grammaire universelle (1774), de Antoine Court de Gébelin (1725-1784), e a Grammaire Générale (1767), de Beauzée; e, 2º – as gramáticas particulares portuguesas, especialmente, a de Lobato. Conforme Santos (2010, p.120), todavia, a gramática de Souza parece ser “apenas” uma tradução das obras referidas e dos artigos Grammaire (1757) e Langue (1765), de Nicolas Beauzée.

No Proemio Gramatical, Souza (1804, p.1) conceitua gramática como

(...) a Arte que ensina a pintar, e exprimir de hum modo claro, energico, e rápido as nossas ideas, por meio das palavras que as reprezentão, ou pronunciadas, ou escritas, e pelas quaes os nossos semilhantes comprehendem as mesmas ideas, e do modo que elas existem em nosso espirito.

A Gramatica Portugueza é “arte” porque se trata de uma língua particular, a língua portuguesa e, ensina a expressar as ideias, pois, na gramática filosófica, entende-se que a língua é expressão do pensamento, o qual é regulado por leis que são gerais a todos os homens. Em seguida, Souza (1804) explica a diferença existente entre gramática universal e gramática particular, que a primeira é imutável e se ocupa das expressões das ideias, e a segunda, por sua vez, sofre modificações conforme cada nação e cada século, porém há pontos em comum entre as diversas gramáticas particulares, pois são formadas a partir das regras da gramática universal. Para o gramático, o termo “universal” corresponde ao sentido do termo “geral”.

Apesar de apresentar distinções entre os dois tipos de gramática, Souza (1804) esclarece que as gramáticas particulares seguem um princípio único, universal, pois partem todas da gramática geral e por isso o estudo de ambas não pode ser realizado separadamente. Encontramos a mesma observação no texto de Beauzée (2015 [1757]), quando afirma que a ciência gramatical (gramática geral) é anterior à arte gramatical (gramática particular), mas isso não significa que se possa separar o estudo delas, porquanto a “arte” é direcionada pelos princípios da “ciência”, e, a “ciência” é estabelecida por meio de observação dos usos nas diferentes práticas.

A semelhança entre o texto de Beauzée (artigo Grammaire da Encyclopédie) e de Souza é tão grande que parece uma tradução do francês para o português, como se pode ver abaixo:

Dans toutes les langues on trouvera des propositions qui auront leurs sujets et leurs attributs; des termes dont le sens incomplet exigera un complément, un régime: en un mot, toutes les langues assujettiront indispensablement leur marche aux lois de l’analyse logique de la pensée; et ces lois sont invariablement les mêmes partout et dans tous les tems, parce que la nature et la maniere de procéder de l’esprit humain sont essentiellement immuables. Sans cette uniformité et cette immutabilité absolue, il ne pourroit y avoir aucune communication entre les hommes de différens siecles ou de différens lieux, pas même entre deux individus quelconques, parce qu’il n’y auroit pas une regle commune pour comparer leurs procédés respectifs (BEAUZÉE ; DOUCHET, EDR, Grammaire, 1757, p.841, grifo nosso).

A Gramatica Universal he immutavel assim como a Natureza, da qual ela he huma copia comum a todos os seculos, e a todos os Povos ; porque a Natureza, e o modo de proceder do espirito humano são immutaveis: sem esta uniformidade e immutabilidade absoluta não poderia haver communicação alguma entre os homẽs de diferentes seculos, ou de diferentes lugares, ainda mesmo entre dois individuos; porque não haveria huma regra comum para comparar os seus respectivos procedimentos (SOUZA, 1804, p.1-2, grifo nosso).

Confrontando os dois textos acima citados, observa-se que Souza faz uma paráfrase do texto de Beauzée. No artigo Grammaire, os enciclopedistas falam da análise lógica do pensamento, que é comum a todas as línguas, Souza serve-se desse argumento para conceituar gramática universal. Essa coincidência, então, indica com clareza que as ideias de Beauzée estão presentes no horizonte de retrospecção do gramático português, quando este apresenta, por exemplo, as razões dos fatos da língua e os relaciona ao processo lógico do pensamento.

Ao tratar especificamente do verbo (Parte I, Artigo II, capítulo VII), Souza o define, afirmando que o verbo significa a existência de alguma coisa, unindo-a a uma qualidade, como podemos ver na citação abaixo:

Chamão-se Verbos aquelas palavras com que indicamos a existencia de alguma coiza juntamente com as qualidades que lhe convem.

O Verbo he como a alma do discurso, e com ele he que unimos os nomes com os seus adjetivos para exprimir completamente as nossas ideas; como por exemplo nestas frazes: A terra he redonda, o Sol he brilhante. As palavras Terra e Sol são nomes; Brilhante e Redonda são adjetivos, e não haveria alguma relação entre estes nomes e estes adjetivos, nem farião algum sentido completo sem a palavra He, a qual he Verbo e serve de unir cada hum dos adjetivos ao nome, que lhe compete na respetiva fraze.

Não ha verdadeiramente mais do que o Verbo Ser : ha outras palavras a que costumão chamar Verbos, porém não o são senão em virtude da reunião, que tem com este, e em rigor devem considerar-se como expressões abreviadas, as quaes equivalem a hum participio junto com o Verbo Ser, assim como quando dizemos : Antonio ama a virtude he o mesmo que dizer : Antonio he amante da virtude (SOUZA, 1804, p.49-50, grifo nosso).

A definição de verbo mostra que, em parte, o autor se beneficia da definição de Beauzée (EDR, Verbe, 1751, p.48), “La premiere et la plus frappante de toutes, c’est qu’il est en quelque sorte, l’ame de nos discours, et qu’il entre nécessairement dans chacune des propositions qui en sont les parties intégrantes” (grifo nosso). Souza, do mesmo modo, considera que o verbo é a alma do discurso, ao afirmar também que não há discurso sem verbo. Contrariamente a Beauzée, entretanto, o autor considera o verbo ser como o único verbo e afirma que os demais são expressões abreviadas (verbo ser + particípio), ou seja, desaparece na língua enunciada e o verbo ser é substituído mais o particípio (presente, hoje) por um único verbo que representa a mesma ação, como, por exemplo, eu sou amante por eu amo (SOUZA, 1804, p.55). Isso confirma, então, a ligação do português tanto com os gramáticos de Port-Royal quanto com Condillac (1775), porque, nesse ponto dá continuidade à teoria do verbo substantivo9. Esse e outros pontos revelam que a gramática de Souza não é simplesmente uma cópia da Grammaire de Beauzée, embora o texto se mostre, em alguns momentos, como tradução para o português dos autores aqui indicados.

Exceto o verbo ser, os demais verbos são distinguidos por Souza pela significação, como: a) forma ativa: expressa a ação exercida por alguém, como amar, ler, escrever; b) forma passiva: comunica a ação recebida por alguém, como ser amado, ser desejado, ser aplaudido; c) forma neutra: exprime qualidade sem expressar a ideia de ação ou paixão, por esse motivo é neutro. Como exemplo, temos os verbos demorar, existir; e, d) forma reflexa: exprime a ação de alguém em si mesmo, como amar-se, degolar-se (SOUZA, 1804, p.56-57). O gramático justifica o termo “forma” por função da etimologia, assim, explica que os verbos são derivações de nomes e quando convertem em “forma” verbal expressam as significações supracitadas. O gramático também explica que “Os Verbos Passivos, assim na Lingua Portugueza como em outras muitas, não tem fórma propria, e por isso se formão com o Verbo Ser, acompanhado em todos os tempos e modos com o Participio passivo do Verbo que pertendemos exprimir (...)” (ibidem, p.57), entende-se por ‘forma própria” o aspecto físico do verbo, que na passiva necessita da composição do verbo ser + particípio passivo. Essa teoria é semelhante à de Condillac (1775) sobre o assunto, porque esse autor afirma não ter verbo passivo no francês, o que ocorre é a voz passiva, o que é coincidente com o que ocorre para o português, que, igualmente, o verbo (a palavra verbal) não tem “forma” passiva.

Sobre essa questão, Barbosa (1822) justifica a divisão do verbo por razões gramaticais e uso específico da língua portuguesa que se diferencia da latina no que se refere à classificação de verbo ativo, passivo e neutro. Em sua reflexão, Barbosa discorda dos outros gramáticos que adotam esse parâmetro da gramática latina pelo fato de não existir o verbo passivo em nossa língua.

O mais acertado he dar ao verbo transitivo tres Vozes, ou maneiras, pelas quaes sua acção póde ser exercitada. Pois ou o sujeito da oração produz huma acção, que outro recebe; e este modo de a exercitar se chama Voz activa, como Amo a Deos; ou o sujeito da oração recebe huma acção, que outro produz, e he Voz passiva, como Deos he amado por mim; ou em fim o sujeito, que produz a acção, a recebe tambem em si; e he a Voz media, ou Reflexiva, como Eu me amo, Tu te amas, Elle se ama (BARBOSA, 1822, p.241, grifos do autor).

Como fica evidente, esse é outro fato que mostra a presença de Condillac (1775) no horizonte de retrospecção de Barbosa. Assim como aquele defende que não há verbos passivos no francês e, consequentemente, também não há verbos neutros, este afirma que na língua portuguesa não há verbos passivos e neutros, e discorda dos demais gramáticos como Bacellar (1783), que reconhece os verbos passivos e neutros no português, e Souza (1804) que, apesar de classificar os verbos em ativos e passivos, explica que os passivos não têm uma forma própria, sendo formados pela união do verbo ser mais o particípio passivo do verbo que se pretende expressar nessa forma. Barbosa (1822, p.241) rompe totalmente com a possibilidade da existência desses verbos em português ao declarar que: “A Lingua Portugueza não tem verbos passivos para poderem entrar nesta divisão: e onde não ha verbos passivos, não póde haver tambem verbos neutros, que são os que nem são activos, nem passivos.”

Como para os demais gramáticos, quer sejam ou não partidários praticantes da teoria da gramática geral, Souza (1804, p.106) diz que os verbos não são capazes de sozinhos formar todos os tempos, para o que se unem a outros verbos, os chamados auxiliares, e, assim, formar os tempos compostos. Desse modo, os tempos podem ser considerados simples (um único verbo) ou compostos (verbo auxiliar unido ao verbo conjugado). Conforme o mesmo gramático, os verbos auxiliares são aqueles que servem para cooperar nessa formação do tempo composto. São eles: “ser, ter, haver, estar, ficar, andar, vir, ir, dever, entrar, sendo que os tres primeiros são mais uzados do que os outros” (ibidem, p.107), e não faz mais nenhuma distinção na definição dos auxiliares.

No que diz respeito à conjugação verbal, o autor não diverge da tradição, e declara que, há, no português, três conjugações regulares reveladas pelas terminações do infinito: a) primeira terminação -ar (amar); b) segunda terminação -er (defender); e, c) terceira terminação -ir (aplaudir) (SOUZA, 1804). São regulares os verbos que demonstram a mesma conjugação, logo, os verbos que se afastam da forma padrão por conta da diferença de letra ou redução de formas em seus tempos são chamados de irregulares e anômalos, respectivamente. Chama de verbo defectivo aqueles a que faltam alguns tempos ou pessoas.

Como Du Marsais estabelece diferença entre sintaxe e construção (Cf. Du Marsais et al., EDR, Construction, 1751, p.73), Souza também afirma que Sintaxe significa composição, parte responsável pela ordem das palavras que se reúnem para expressar o pensamento, composta por regras: a) concordância – normas que prescrevem a união das palavras; b) dependência – regras que determinam a união das palavras essenciais a outras que as determinam e esclarecem; e, c) Construção – normas que estabelecem o lugar que cada palavra deve ocupar no enunciado (SOUZA, 1804). Seguindo a lógica de Du Marsais, Souza estabelece diferença entre sintaxe e construção, determinando esta como parte integrante daquela. Os conceitos são bem semelhantes entre os dois: Du Marsais afirma que a construção apresenta a ideia de combinação e arranjo das palavras para formar o enunciado, e a sintaxe estabelece as relações que essas palavras têm; Souza reitera que é competência da sintaxe a ordenação das palavras e a construção estabelece as regras para a formação da expressão.

A sintaxe é parte indispensável para o racionalismo nas gramáticas gerais e filosóficas, uma vez que observa a palavra por meio da união, ou seja, por proposições. A teoria prevê que não existe linguagem por meio de palavras soltas, mas por meio das relações de acordo (concordância) e regime (dependência) que mantêm entre si, nas proposições (SOUZA, 1804).

Outro ponto de identidade entre Souza e os demais teóricos e praticantes da teoria geral é a assunção do preceito geral da teoria, a relação da linguagem com o pensamento e as operações mentais que o sujeito realiza ao enunciar-se. O gramático analisa proposição como expressão do juízo de acordo com Port-Royal (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660]) e as partes do discurso relacionando as ideias ou pensamentos ao ato de julgar conforme Beauzée (BEAUZÉE et al., EDR, Proposition, 1751).

Sobre a proposição, Souza (1804, p.156) afirma que:

Hum Juizo compõe-se de tres partes essenciaes, a saber: de hum Sujeito de quem se affirme ou negue alguma coiza; de hum Atributo que qualifique o sujeito; hum nexo que os une. A Propozição consta tambem de tres partes essenciaes correspondentes as que constituem hum Juizo ou Pensamento, a saber: de hum Nome e o seu artigo algumas vezes, que exprimem o Sujeito do qual se affirma ou nega alguma coiza; de hum Adjetivo que exprime a qualidade que se atribue ao Sujeito, e de um Verbo que he o nexo que serve de unir e ligar o atributo ao Sujeito.

Souza retoma os ensinamentos de Port-Royal (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660]), ratificando que o julgar é afirmar ou negar algo de alguma coisa e esse julgamento nada mais é do que a proposição composta por três elementos: sujeito, atributo e verbo, o qual estabelece união entre os dois primeiros termos, ou seja, a cópula. Como na GGP-R, a proposição, para Souza (1804, p.156), é formada por três elementos (Pedro é vivente), os quais podem ser abreviados por dois (Pedro vive) ou por um (vive) (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660]). Souza (1804, p.157) também explica que uma proposição é formada por três espécies de palavras (nome, verbo e adjetivo) e podem ser expressas por apenas uma, como: Ele ama é equivalente a ele é amante.

Apesar de Souza não usar a mesma terminologia das gramáticas gerais nas descrições e classificações do verbo, é óbvia sua ligação aos autores da gramática geral, os quais foram fundamentais para a conformação de suas ideias, de seu cabedal de conhecimento, enfim, de seu horizonte de retrospecção. O exemplo da consideração do verbo ser, como verbo substantivo, e o único a ser capaz de ter o status de "verbo", considerado, então, como "único verbo" capaz de expressar as proposições da língua, ligam-no diretamente à GGP-R e, depois a Du Marsais.

3. O verbo na Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza (1822) – de Jerônimo Soares Barbosa

Jerônimo Soares Barbosa (1737-1816) escreveu a Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza, que teve publicação póstuma em 1822, posteriormente à reforma pombalina no ensino (1759 a 1772), a qual foi inspirada no movimento iluminista. A obra de Barbosa teve sete edições, das quais, neste artigo, utilizamos apenas a primeira, de 1822, disponível na página eletrônica do projeto Corpus des textes linguistiques findamentaux (CTLF), do Laboratoire d'Histoire et des Théories linguistiques (UMR 7597), da Université Paris 7, Denis Diderot.

Barbosa divide a sua gramática em quatro livros: os dois primeiros (ortoepia e ortografia) tratam da parte mecânica da língua portuguesa, e os dois últimos (etimologia e sintaxe) da parte lógica da língua. Primeiramente, descreve as classes de palavras que compõem a língua e, posteriormente, as regras do uso e emprego dessas classes, afirmando que sua gramática é científica.

Porêm se o espirito se adianta a indagar e descobrir nas leis physicas do som e do movimento dos corpos orgânicos o mecanismo da formação da Linguagem; e nas leis psychologicas as primeiras causas e razões dos procedimentos uniformes, que todas as Linguas seguem na analyse e enunciação do pensamento; então o systema, que daqui resulta, não he já huma Grammatica puramente practica, mas scientifica e philosophica (BARBOSA, 1822, p. IX).

Isto é, sua gramática tem regras de uso e por isso, é prática, mas não “puramente” prática, mas científica e filosófica, porque segue os princípios da teoria geral (perceber, conceber e julgar) no seu estudo das partes do discurso e na construção das proposições. Por exemplo, no estudo do verbo, Barbosa primeiro conceitua, depois apresenta e explica sua classificação em substantivo e adjetivo conforme a teoria geral e, em seguida, expõe as flexões, e conclui com descrição de regras de uso do verbo na construção de orações.

Esse estudo de construção de orações fomenta o “pensar com clareza”. O gramático afirma que as línguas são métodos analíticos, porque o homem é capaz de expressar seus pensamentos por meio de proposições. Portanto, o ensino de língua focalizado na relação pensamento-linguagem proporcionaria “ensinar a pronunciar, escrever, e falar corretamente” uma língua.

Barbosa segue a GGP-R também no que diz respeito ao tratamento das partes da gramática. Os Senhores de Port-Royal consideram a palavra composta por duas partes: a) sons e caracteres; e, b) significação (expressão do pensamento). Por isso, a GGP-R é dividida também em duas partes: 1ª parte – onde se fala das letras e caracteres da escrita, que corresponde, na GPLP, aos dois primeiros livros (ortoepia e ortografia); e, 2ª parte – onde se fala dos princípios e dos motivos sobre os quais se baseiam as diversas formas da significação das palavras, que equivale, na GPLP, aos dois últimos livros (etimologia e sintaxe). Os livros da GPLP são descritos conforme essas partes.

No livro III da GPLP, Barbosa declara que na ortoepia e na ortografia tratou da parte mecânica da língua (parte física e material da palavra), e, que, na etimologia e na sintaxe e na construção, irá trabalhar a parte lógica da língua (palavras como sinais dos pensamentos). Sobre o sistema etimológico da língua, o gramático afirma que:

Destes principios certos se segue que o systema Etymologico de qualquer Lingua está necessariamente fundado sobre o systema Logico das Ideas, o qual he o mesmo fundamentalmente em todos os homens de qualquer idade e paiz que sejão. Ainda que os seus conhecimentos sejão differentes em numero, qualidade, e perfeição; todos comtudo pensão do mesmo modo: porque não podem pensar sem ter ideas, e sem as combinar.

Estas ideas, e estas combinações, he verdade são representadas por differentes signaes segundo as differentes Linguas dos povos. Porêm a diferença está toda no material dos vocabulos, e não na significação das palavras, a qual he a mesma em todas as Linguas. Porque todas tem as ideas por objeto, e por fim a sua combinação e comparação. Conceber, e Julgar são duas operações do entendimento, comuns a todos os povos ainda selvagens.

Sobre estes principios da Grammatica Geral passamos a estabelecer o systema Etymologico das Partes da Oração Portugueza (...) (BARBOSA, 1822, p.99).

Na etimologia, a GPLP segue os princípios da gramática geral da linguagem, porquanto os homens pensam de modo igual em diferentes lugares e tempos, a distinção está nos vocábulos para expressar esses pensamentos. Os princípios gerais estão diretamente ligados às classes de palavras e à formação dos enunciados, portanto, ao estudo morfológico e sintático da língua.

Na GPLP, essas ideias são percebidas quando Barbosa justifica o estudo das partes da oração e diz que “(...) pelo que tem de metaphysico e espiritual, não como vocábulos, mas como palavras isto he, como signaes de nossas ideas e de nossos pensamentos (...)” (BARBOSA, 1822, p.98). O gramático expõe de modo semelhante o pensamento lógico que está presente na GGP-R, na qual se lê que as palavras são “(...) sons distintos e articulados, que os homens transformaram em signos para significar seus pensamentos” (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660], p. 29). Dessa maneira a GPLP também se caracteriza como uma gramática geral ou filosófica, uma vez que segue a “análise lógica do pensamento”.

Na GPLP, o principal sentido do verbo é a relação lógica de existência. Barbosa abandona a definição da GGP-R, afirmação, declarando que é uma característica do modo indicativo e não do verbo em geral. Na GPLP, a essência do verbo é coexistência, conceito que recupera parcialmente a do enciclopedista, porque, para Beauzée (EDR, Verbe, 1751, p.48), o verbo é uma existência intelectual relacionada à uma modificação (critério semântico-ontológico), e essa relação ocorre para expressar o pensamento, ao passo que, para Barbosa (1822), há relação de coexistência entre sujeito e atributo no enunciado (critério funcional-sintático) (Cf. Leite, 2019, p.14-15).

Na GGP-R (ARNAULD; LANCELOT, 2001 [1660]), na Grammaire générale (BEAUZÉE, 1767) e na GPLP (BARBOSA, 1822), a função da preposição do enunciado é semelhante: relacionar termos de uma mesma proposição. Barbosa (1822) discute sobre a relação dos termos antecedentes e consequentes semelhante ao enciclopedista, no entanto, a relação de complemento do sentido está entre esses termos, não fazendo correlação com o significado da preposição como Beauzée (EDR, Verbe, 1751) afirma que a preposição tem significado geral, vago, tendo o sentido completo somente quando unida ao termo consequente.

No tocante às conjunções, Arnauld e Lancelot (2001[1660]) observam que são palavras que significam modos do pensamento e não objetos, e têm a função de agrupar, organizar as “coisas”, não estabelecendo se se trata de palavras ou de proposições, uma vez que usam o termo “coisas” para conceituar as preposições como palavras que indicam relação entre as “coisas”. Barbosa se aproxima desse conceito ao falar de relação de “nexo” e “ordem”, a distinção está no esclarecimento dos termos relacionados: proposições, e nesse sentido se aproxima mais de Beauzée, o qual afirma que as conjunções vinculam orações parciais no mesmo discurso.

É relevante observar, ainda, a escolha de certas expressões pelo gramático português para conceituar o verbo, como podemos ler a seguir:

(...) huma parte conjunctiva do discurso, a qual serve para atar o atributo da proposição com o seu sujeito de baixo de todas suas relações pessoais e numeraes, enunciando por differentes modos a coexistencia e identidade de hum com outro por ordem aos differentes tempos, e maneiras de existir (BARBOSA, 1822, p.191).

Essa classe de palavras é conjuntiva e, por isso “ata”, liga sujeito e atributo. Essa função conjuntiva está diretamente ligada ao verbo ser, o qual exerce a função de cópula em uma proposição. Segundo Barbosa, há também a flexão de pessoa, número, modo, tempo e “maneiras de existir”. Interpreta-se “maneira de existir”, ao longo da pesquisa, como “aspecto verbal”, que pode ser semântico ou lexical.

O conceito de verbo também é muito variável, no contexto das gramáticas gerais. Para Barbosa, verbo é enunciar a coexistência entre sujeito e atributo. O estudo da origem da palavra no português, revela que, no século XVII, a palavra “enunciação”, do francês “énonciation”, significava “exprimir, declarar, expor” (CUNHA, 2010, p. 249). O ato de enunciar, na GPLP, refere-se à “expressão”, “declaração” e/ou “exposição” das ideias por meio de frases claras e coerentes.

Barbosa continua sua definição de verbo, declarando que:

O verbo pois alêm da sua significação primaria e principal, que he a da Existencia, compreende em si cinco ideas acessórias, indicadas todas pelas fórmas, e terminações, que toma, a saber: 1ª A do sujeito da oração, de baixo das tres relações pessoaes ou de 1ª pessoa, que he quem fala; ou de 2ª, que he a com quem se fala; ou de 3ª, que he a de quem se fala. 2ª A do numero, ou singular, ou plural de cada huma destas pessoas (...). 3ª A dos differentes modos de enunciar esta mesma existencia, ou simples e vagamente, Ser amante; ou directa e afirmativamente, Sou amante; ou indirecta e dependentemente, Fôr amante. 4ª A dos Tempos desta existência, Preterito, Presente, e Futuro (...). 5ª Em fim a dos diferentes estados desta mesma existencia, ou começado so e vindoura, ou persistente e continuada, ou finda já e acabada (...) (BARBOSA, 1822, p.191, grifo nosso).

O gramático caracteriza o verbo, além da significação principal de existência (critério funcional-sintático), por ideias acessórias presentes nos acidentes. Assim, Barbosa compreende que pessoa e número fazem parte da definição de verbo, e efetua a análise a partir da estrutura e variações (critério morfológico) e a relação de concordância com o sujeito (critério funcional-sintático). O modo também faz parte da definição de verbo por meio da estrutura e variações e também pela relação sujeito e atributo. A significação de existência também é relativa ao tempo (presente, pretérito e futuro), o qual é caracterizado pelas relações semântica, sintática e morfológica.

Posteriormente à essa análise do verbo por meio desses critérios, o gramático classifica-o em três tipos:

a) Verbo substantivo: todos os conceitos de verbo da GPLP até aqui mencionados são referentes a esse verbo, o verbo ser. O gramático explica que:

(...) porque ele [o verbo ser] so he quem exprime a existencia de uma qualidade, ou atributo no sujeito da proposição. Elle, propriamente falando, he o único verbo, e o de huma necessidade indispensável na oração. Com ele so se podem formar todas as que se fazem por outros verbos se resolvem per este em ultima analyse (BARBOSA, 1822, p. 192).

A essencia do verbo Ser não consiste na affirmação, como muitos Grammaticos pertendem. Sua fórmula infinita, que he a primitiva, nada affirma. A Linguagem Subjunctiva affirma sim, mas não absolutamente, e so com dependencia de outra Linguagem, que a determine. A Affirmação pois he o carater do Modo Indicativo, e não do verbo substantivo em geral (ibidem, p.193).

O seu caracter proprio he o enunciar a existencia de huma couza em outra, e por consequencia a sua mutua coexistencia e identidade (idem).

Para Barbosa, o verbo ser é o único verbo, o qual enuncia a existência na sua forma infinitiva. Para explicar tal conceito com mais profundidade, tomemos o exemplo do autor: a frase “Ser Deus justo”, expressada com o verbo no infinitivo, enuncia a existência da justiça em Deus, mas nada afirma. Para que se transforme em afirmação, o verbo da frase deve estar no modo indicativo. Assim, a frase “Deus he justo” afirma o conteúdo em sua forma sintática absoluta e independente de outra oração. Quando, porém o verbo da frase está no modo subjuntivo, a afirmação dependerá sintaticamente de outra proposição, como se pode ver em “Que Deus seja justo, é uma verdade” que afirma a justiça de Deus, embora de maneira suspensa, e dependente sintaticamente de outra proposição (é uma verdade). (BARBOSA, 1822, p. 193). Isso demonstra que, quando o verbo enuncia a coexistência de uma ideia com outra e não a expressão destas ideias, o verbo ser está exercendo a função de cópula, ligando o sujeito ao seu atributo, o que o torna indispensável à oração.

b) Verbos auxiliares: Na GPLP, são os verbos que auxiliam na formação de todas as formas compostas e também para enunciar os diferentes “modos de existência”.

A referência do gramático aos “diferentes estados desta mesma existencia” ou aos “differentes modos de existencia” corresponde ao que, modernamente, compreende-se como ao “aspecto verbal", já que o sentido da expressão verbal recai sobre a relação existente entre o sujeito e sua condição, e não propriamente ao "tempo" da ação, mas ao "desenrolar da ação", ou ao seu estado de acontecimento, o que a palavra "condição" pode representar neste contexto. Esse aspecto, que pode ser semântico, geralmente ocorre com o uso de verbo auxiliar para expressar a condição (o aspecto, estado ou desenvolvimento de uma ação etc.), imperfectiva, (durativa), ou perfectiva (ação concluída).

Na GPLP, há verbos que auxiliam o verbo substantivo (haver, estar e ter) e outros que auxiliam os verbos adjetivos (andar, vir e hir – Barbosa (1822, p.198) traz uma nota de rodapé em que aumenta essa lista com os verbos acertar de e dever de). Os primeiros “servem ao verbo substantivo para o ajudarem a exprimir os differentes modos de existencia, ou começada, ou continuada, ou acabada, em que se póde considerar qualquer objeto, ou ação” (BARBOSA, 1822, p.192).

O gramático adverte, contudo, que, quando esses verbos não estão formando locução verbal, são ativos, e assumem sua própria transitividade e significação, mas, quando são auxiliares do verbo ser, perdem seu próprio sentido para expressarem a existência incoativa, continuativa ou completiva. O verbo haver, quando impessoal, manifesta o sentido de existir, contudo, como não forma uma locução com o verbo ser, apenas exprime a existência absoluta de alguma coisa sem a ideia acessória de princípio ou de futuridade de algo. Essa interpretação de Barbosa em relação à significação do verbo é inspirada nos textos dos autores que compõem seu horizonte de retrospecção, Beauzée (1767) e Condillac (1775), quando tratam das formas e funções desses verbos.

Quanto ao papel "tradicional" do verbo ser como verbo auxiliar, Barbosa se manifesta. Sobre isso, faz alusão a outros gramáticos que descrevem o verbo ser também como verbo auxiliar, ao se unir a outros verbos para formar a voz passiva dos verbos adjetivos. Entretanto, o gramático filosófico português rejeita essa possibilidade, e diz que "ser" não é verbo auxiliar, mas um “(...) verbo substantivo, simples, e o unico, e principal, ao qual os mais servem de auxilio para o acabarem de conjugar de todos os modos possíveis” (BARBOSA, 1822, p.196-197). Tudo se explica pelo princípio teórico de que o verbo ser está em um nível conceptual de suporte a todas as manifestações da linguagem que, por uma operação racional e em nível profundo do pensamento expressado pelo enunciado, transforma as frases e orações formuladas superficialmente por meio de outros verbos, em "proposições", como já largamente explicado. Por exemplo, a oração “eu amo meu marido”, em um nível significa "eu sou amante de meu marido" e, também, em “Eu sou amada por meu marido”. Nesse último caso, o verbo ser não é, simplesmente, auxiliar do verbo “amar”, mas exprime a (co)existência do “amor do meu marido por mim”.

A consulta aos autores que integram o horizonte de retrospecção de Barbosa, a respeito do conceito de auxiliaridade, verificamos que a referência a “outros gramáticos” pode ser inclusive àqueles filosóficos, quais sejam: a) Arnauld e Lancelot (2001[1660], p.112): os verbos ser e ter são os principais verbos auxiliares; b) Beauzée et al. (EDR, Tems, 1751): o verbo ser é classificado como auxiliar natural por expressar basicamente a existência; e, c) Condillac (1775): o verbo ser é auxiliar na formação de tempos compostos que expressam estado do sujeito.

Com relação aos verbos auxiliares dos verbos adjetivos, Barbosa assegura que servem para exprimir os “(...) modos de acção e movimento, pelos quaes hum agente passa para mostrar ou a duração de huma acção, ou sua proximidade no tempo, quer anterior, quer posterior” (BARBOSA, 1822, p.198) à época de fala. Para Beauzée e Jaucourt10 (EDR, Mot, 1751), tudo é relativo ao “ato de fala” ou momento instituído como “época” representada pela linguagem verbal. A referência de existência que pode ser anterior ou posterior à época de fala demonstra que os enciclopedistas configuram o horizonte de retrospecção de Barbosa.

Quanto aos “modos de ação", podemos compreender como aspecto durativo da ação verbal. O gramático português faz distinção de verbos auxiliares para os verbos adjetivos, por valor semântico – frequentativo, pontual, indeterminado e incoativo (Lisboa, 2020) –, o que parece ser inovação, já que, ao menos nas primeiras gramáticas filosóficas portuguesas que consultamos, não há essa descrição nesse sentido.

c) Verbos adjetivos: Além da ideia de existência, particularidade inerente do verbo ser, os verbos adjetivos assim são denominados porque não se referem à "essência" e à "existência" do sujeito, mas agrega-lhe um outro sentido interpretado como adjetivo, uma "qualidade" do atributo, completando a ideia da oração/proposição. Esses verbos contêm em sua formação lexical, no radical, o adjetivo ou o atributo do sujeito da proposição, e, por isso, não passam de uma forma reduzida e abreviada da linguagem substantiva. Barbosa (1822, p.239) explica isso por meio dos verbos amar, temer e ouvir. O gramático divide os verbos adjetivos em duas partes: 1ª – radical: parte invariável que demonstra qualidade ou ação; e, 2ª – terminação: -ar, -er, -ir – parte variável que exprime os diferentes modos, tempos, números e pessoas verbais. “Na primeira parte pois do verbo adjetivo he que consiste toda sua propriedade, pertencendo todo o resto ao verbo substantivo, do qual he huma redução e expressão abreviada” (BARBOSA, 1922, p.240). Na GPLP, o verbo adjetivo é apresentado como uma abreviação, uma forma sintética do verbo substantivo. Segundo Santos (2010), Barbosa considera o critério morfológico-semântico para dividir as partes dos verbos adjetivos.

Os verbos adjetivos são divididos em dois tipos conforme a significação absoluta ou relativa que possa ter. A divisão entre transitivo e intransitivo é semelhante à de Beauzée (1767), que relaciona a transitividade aos aspectos relativo e absoluto. Na GPLP, será verbo intransitivo se contiver, em si, a ideia de qualidade, estado ou ação sem necessitar de objeto, não permitindo ou aceitando as perguntas “a quem?” ou “o quê?”. Se, porém, carecer de um objeto para expressar ou uma qualidade ou um termo (assunto), o verbo será transitivo, podendo ser ativo e/ou relativo.11 Os verbos transitivos aceitam as perguntas “a quem?” e “o quê?” (BARBOSA, 1822, p.240-241). Essa classificação atende aos critérios funcional-sintático, o que indica que o gramático conduz a análise gramatical por meio da sintaxe, vinculando-a à morfologia.

O gramático apresenta mais três divisões para os verbos adjetivos: a) pessoal e impessoal; b) simples e composto; e, c) regular e irregular, todas pertencentes à conjugação e não mais a significação. O verbo é pessoal quando pode ser conjugado em todas as pessoas e impessoal quando “(...) se empregão so nas terceiras pessoas do singular indeterminadamente sem expressar o sujeito” (BARBOSA, 1822, p.242). Os verbos simples são aqueles formados por uma única palavra (ou seja, por um único radical); e, os compostos, formados por duas palavras (dois radicais), como, por exemplo, um verbo e um advérbio (“bemquerer”). Os verbos são regulares quando, na conjugação, nunca mudam as letras do radical e irregulares quando há alguma alteração. Quanto aos defectivos, Barbosa apresenta seu conceito como sendo os verbos que “carecem de certos tempos”, porém os classifica como pertencentes aos irregulares.

Inicialmente, Barbosa (1822, p.99) declara que seguirá os princípios da Gramática Geral para “(...) estabelecer o systema Etymologico das Partes da Oração Portugueza, distribuindo-as primeiro nas suas Classes mais geraes, e depois nas suas especies principaes (...)”, o que faz no livro III – Etimologia ou partes da oração portuguesa. Em seguida, no livro IV – Sintaxe e construção (estudo da composição das orações), expõe o conceito de sintaxe, diferenciando-o do de construção. O gramático analisa o entendimento mediante juízos que serão expressos na língua por meio de proposições. Esses juízos são constituídos por três termos: a) a ideia de algo, que é o sujeito da proposição, que tem como núcleo um substantivo ou qualquer outro tipo de palavra que esteja exercendo a função de um substantivo; b) a de relacionante, que é a função do verbo substantivo (verbo ser), que é a de ligar o sujeito ao atributo; e, c) a de atributo, que é exercido por um adjetivo ou outra palavra que esteja desempenhando essa mesma função.

A proposição, na GPLP, é tripartida, pois: PROPOSIÇÃO (oração ou frase) é formada por um SUJEITO mais o VERBO SUBSTANTIVO e um ATRIBUTO. O verbo é parte essencial para essa formação, visto que é a classe gramatical que faz a ligação entre o sujeito e o atributo. Segundo Barbosa (1822, p. 363-364), “Toda oração pois he composta de hum sujeito, de hum attributo, e de hum verbo, os quaes se exprimem ou com tres palavras Eu sou amante; ou com duas equivalentes ás tres Sou amante, ou com huma so, que concentra em si as tres, como: Amo”. Ou seja, o verbo pode formar sozinho uma proposição, pois, dos três elementos constituintes da oração, é a única palavra que agrega em si ao mesmo tempo o sujeito e o atributo.

4. Uma comparação do tratamento do verbo em gramáticas gerais e filosóficas portuguesas

Segundo Auroux (1998, p.149), sabemos que veio de Aristóteles o “embrião” da teoria do verbo substantivo, o que o filósofo francês demonstra pela fórmula “verbo X = é (finito) + particípio presente do verbo X”. A fórmula, segundo Auroux (1998, p.149), referia-se a enunciados formados por verbos diferentes do ser, para justificar que, por exemplo, homem é saudável e homem tem saúde não há diferença de sentido. Essa ideia perpassa a longa duração do tempo, e chega ao século XVI, quando é defendida na Minerva (1562), por Sanchez de Las Brozas. Nas gramáticas gerais, a ideia semelhante é adotada com o argumento de que não haveria necessidade de outro verbo além do ser para formar uma proposição. A gramaticografia portuguesa dá continuidade à teoria do verbo substantivo apresentando também mudanças no conceito de verbo (Cf. Lisboa, 2020, p.139-140, Quadro 9).

Observamos que apesar das três gramáticas portuguesas aqui analisadas serem apresentadas como filosóficas, no conceito de verbo há variação, principalmente em Bacellar (1783) que conceitua essa classe gramatical como ação. Entre Souza (1804) e Barbosa (1822) há semelhanças, pois ambos asseguram que o verbo “ser” é o único verbo, como Condillac (1775), e também trazem o sentido parcial de existência apresentado por Beauzée como conceito de verbo. No tocante a teoria do verbo substantivo, os três gramáticos a ratificam, pois Bacellar fala da decomposição do verbo em “é + particípio presente”, e Souza e Barbosa adotam o termo “expressões abreviadas” de Condillac (1775) para explicarem a formação dos demais verbos. Barbosa (1822) nega a função auxiliar do verbo ser e adota a subdivisão: verbos auxiliares do substantivo e verbos auxiliares dos adjetivos, o que o distingue de seus antecessores portugueses.

Com relação às terminologias e aos conceitos adotados pelos gramáticos portugueses, assinalamos que há conhecimentos que se conservaram e deram origem a outros novos e aqueles que foram esquecidos, e constituíram apagamentos das ideias passadas (Cf. Lisboa, 2020, p.141-142, Quadro 10). Na Grammatica Philosophica, de Bacellar (1783), o autor português não subdivide os verbos em substantivos, adjetivos e auxiliares como nas gramáticas gerais e, declara apenas que o verbo ser estabelece a união entre o sujeito e o predicado, e, também, é usado para compor verbos passivos que têm sentido de ativo, como, por exemplo: Deus é amado por Pedro (oração na passiva) que, transformada em Pedro ama a Deus, tem sentido ativo (BACELLAR, 1783).

Com relação à terminologia empregada por Souza, a distinção é evidente em relação às gramáticas gerais e filosóficas aqui estudadas. Vê-se que o português não nomeia o verbo como substantivo e adjetivo, mas os denomina, simplesmente: verbo ser; e, para os demais, ativo e passivo. Os conceitos, porém, são semelhantes, visto que o verbo ser é descrito do mesmo modo como o verbo substantivo é nas gramáticas gerais, como aquele capaz de formar toda e qualquer proposição, e os verbos ativos são correspondentes aos denominados verbos adjetivos por outros autores, pois sua definição corresponde ao que comporta, ao mesmo tempo, a ideia do verbo ser e o atributo.

Na GPLP (BARBOSA, 1822), no entanto, houve o aproveitamento da terminologia verbal da Gramática Geral de Port-Royal (ARNAULD; LANCELOT, 2001[1660]), de Tems (BEAUZÉE et al., EDR, Tems, 1751), da Grammaire Générale (BEAUZÉE, 1767), e da Grammaire (CONDILLAC, 1775). Verificamos, também, que houve continuidade dos seguintes conceitos, ao longo do tempo: a) a teoria do verbo substantivo, como nas gramáticas gerais, de modo mais próximo às ideias de Beauzée e de Condillac; e, b) o conceito de verbo adjetivo, conforme as gramáticas gerais.

Isto posto, concluímos que Barbosa (1822) construiu seu conceito de verbo com base na teoria das gramáticas gerais, defendida pelos autores que compuseram seu horizonte de retrospecção, apresentando, porém, uma nova interpretação do conceito dessa parte do discurso, pois recupera parcialmente o conceito de verbo apresentado por Beauzée (existência), faz uso da terminologia de Condillac (coexistência) e diverge de todos os gramáticos em relação à função do verbo ser como auxiliar e acrescenta a subdivisão de auxiliares para o verbo substantivo e para os verbos adjetivos.

5. Conclusão

Para as gramáticas gerais e filosóficas, o verbo “ser” é muito importante, porque ele é “o verbo” da proposição. E, como na GPLP, a língua é formada por dois componentes (o lógico e o mecânico), Barbosa defende que todos os verbos poderiam ser conjugados apenas na sua forma passiva, posto que, conforme seu componente lógico, o verbo “ser” sempre fará parte da proposição, mesmo que seu componente mecânico seja expresso por um verbo adjetivo para facilitar a comunicação por meio da agilidade de expressões menores.

A GPLP é fruto do conhecimento gramatical e lógico de Barbosa, o qual combina isso para conduzir o estudo do verbo. De forma clara, ele expõe que há três tipos de verbo (substantivo, auxiliares e adjetivos) para os homens enunciarem seus pensamentos por meio de proposições. Essas proposições não seguem a estrutura gramatical proposta em seu século (sujeito e predicado), mas, sim, a estrutura lógica do século XVII (sujeito, verbo “ser”, atributo), pensamento esse que surgiu com os filósofos gregos e que sofreu mudanças ao longo do tempo.

Podemos dizer que as mudanças na proposição são relacionadas ao julgamento de verdade e falsidade, afirmação e negação, algo tão imprescindível para a filosofia aristotélica, porém se torna uma ideia obsoleta, permanecendo apenas a ideia de proposição como afirmação, como expressão de nossos pensamentos, mas o verbo “ser” continua sendo o verbo que irá fazer essa afirmação no modo indicativo.

Não podemos nos esquecer também da teoria do verbo substantivo que perpassou pela longa duração do tempo, teoria na qual se compreende que apenas com o verbo ser é possível formar proposições em todas as línguas. Barbosa, na GPLP, combinou a ideia de proposição dos Senhores de Port-Royal, o sentido de existência defendido por Beauzée (1767) como conceito de verbo e a terminologia de abreviação da linguagem com o uso do verbo adjetivo de Condillac (1775). Porém Barbosa discordou de todas as gramáticas gerais e filosóficas ao não considerar o verbo ser como um verbo auxiliar, apresentando, assim, uma nova interpretação para os auxiliares.

Na pesquisa, observamos que Barbosa usa a mesma terminologia das gramáticas gerais e filosóficas quando subdivide o verbo em substantivo, adjetivo e auxiliar. Na GPLP, atribui-se verbos auxiliares específicos tanto para o verbo substantivo como para os verbos adjetivos, diferenciando-se, portanto, de todas as demais gramáticas portuguesas aqui estudadas. Ainda em relação aos verbos auxiliares, Barbosa também inova ao acrescentar à concepção desses verbos, além de fazerem parte da formação de tempos compostos, a auxiliarem os outros verbos a expressarem estados de existência (atualmente, aspecto verbal), pois as gramáticas gerais e filosóficas anteriores à GPLP apenas relacionaram a função de formar tempos compostos ao verbo auxiliar, apresentando, assim, uma nova interpretação do conceito dessa parte do discurso no contexto da gramaticografia portuguesa.

Referências

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