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Abstract

It is commonly accepted that the media discourse is characterized by a striking enunciative heterogeneity, at various levels: they constitute a space of confluence of multiple voices; and in each utterance, other utterances are summoned, in different ways. Thus, in the media, multiple statutes, competences and interests intersect, scheduling social life and shaping the public perception of things and their states. In times of pandemic, the media are granted greater importance and the conflict of voices to which they give space also collects new amplitudes. In this agonizing scenario, the evocation of science and the creation of networks of influence between scientific, political, economic and social discourses become systematic. It is therefore relevant to analyze how the media discourse generates and manages the conflict between these various discursive spheres, embodying its own rhetoric. The present study, developed within the framework of French-speaking discourse studies, and from an enunciative-pragmatic perspective, analyzes a brief corpus of articles from the contemporary generalist press that address the public management of the Covid19 pandemic, evoking scientific arguments and policy decisions. It is confirmed the expectation of the speaker's enunciative concealment, but their presence is clearly identifiable; the enunciative heterogeneity and the creation of binarisms and extreme situations are confirmed; however, the texts under analysis are more conciliatory than agonizing and the discourse of science is recontextualized in order to be apprehended by the expected reader.

Introdução

Nas sociedades democráticas de modelo ocidental, o poder dos media está suficientemente documentado. Eles agendam a vida social, aproximam e intensificam as questões, transformam eventos brutos em eventos mediáticos. Patick Charaudeau (1997) afirma mesmo que os media não retratam a realidade, antes a criam ativamente; Mary Nash (2005) chega a atribuir-lhes uma influência superior à de outras instituições tradicionais como os sistemas familiar, religioso ou educativo; e Maria Aldina Marques afirma que “o discurso jornalístico é, atualmente, um dos tipos de discurso estruturadores da sociedade” (2013, p. 140).

O discurso dos media é, assim, “fundamental para a construção e difusão de representações sobre o mundo, sobre eventos que marcam a(s) sociedade(s)” (Marques e Ramos, 2020, p. 18). Em particular, os media reificam realidades intangíveis ou só parcialmente apropriáveis pelo indivíduo, integrando-as por meio da palavra no mundo de cada cidadão e tornando-as pertinentes na experiência individual.

Assim, torna-se pertinente analisar o discurso dos media sobre a pandemia Covid19, esta experiência coletiva de dimensões planetárias, a primeira em tempos de comunicação global fácil e imediata, capaz de tornar presentes realidades fisicamente afastadas como se fossem vizinhas ou familiares próximas de cada um de nós.

É esse o objetivo deste estudo, que seleciona um breve corpus de três artigos recentes da imprensa escrita sobre o subtema que aborda o evoluir da pandemia em África, extraídos de dois jornais (Expresso e Diário de Notícias) e uma revista (Visão) generalistas de grande circulação em Portugal, a partir das respetivas páginas na internet, de acesso livre. Como pode compreender-se, a metodologia é qualitativa e não visa encontrar regularidades diretamente generalizáveis a todo o discurso mediático neste campo, antes oferecer um contributo fundamentado para a discussão.

1. Quadro teórico

No quadro teórico-metodológico adotado para o presente estudo, adquirem especial relevo as questões discursivas e enunciativas. Nele, os textos/discursos são considerados como práticas linguísticas sociais (BAKHTINE, 1984) associadas a um género textual, o que justifica uma visão ecológica sobre os textos/discursos, considerando a respetiva materialidade em articulação com dimensões comunicativas, sociais e culturais. A referenciação é reconhecida como indissociável da posição enunciativa do locutor e da sua responsabilidade enunciativa (MARQUES, 2018). As escolhas por si operadas, seja no processo de referenciação, seja no de convocação de outras vozes, estão longe de ser neutras ou desprovidas de efeitos de sentido.

Como assinala Joaquim Fonseca, na esteira de Émile Benveniste (1975), “a enunciação desempenha um papel de tão largo alcance na organização da língua que dela se deverá dizer que constitui a trave mestra dessa mesma organização” (1992, p. 253). Tal assunção coloca a interação/comunicação no cerne não só das dimensões de uso da língua, mas também da sua estrutura interna. O que significa igualmente admitir que o dialogismo e a polifonia se encontram inscritos de raiz na estrutura e no funcionamento da língua.

Tal dialogismo pode manifestar-se, entre outras formas, pelos mecanismos de citação, dos mais explícitos aos mais difusos. A convocação de outras vozes, passadas ou futuras, factuais ou fictivas, e a sua incorporação no discurso do locutor decorrem das possibilidades enunciativas oferecidas pela língua (BAKHTINE, 1981). É neste quadro que Isabel Margarida Duarte assinala que “é uma constante de qualquer discurso citar palavras de outros (ou do seu próprio locutor), de modo directo, indirecto, ou de formas mais subtis e menos visíveis, como alusões, ecos irónicos, negação, reprodução de léxico alheio, pressuposições, etc.” (2003, pp. 185-186).

A citação adquire, no corpus selecionado, especial saliência, mas esta não é uma caraterística singular deste corpus – pelo contrário, os mecanismos citacionais são uma constante no discurso da imprensa, testemunhados pela presença de múltiplas vozes convocadas de formas diversas – discurso direto, discurso indireto, discurso indireto livre e formas difusas de citação (PAREDES, 2000; RAMOS, 2009). Para o presente estudo, ganha saliência a voz da ciência, convocada pelo jornalista para o seu discurso, de formas diversas. A temática da pandemia é, visivelmente, uma daquelas em que a voz da ciência ganha uma relevância incontornável, nomeadamente nos media, sofrendo uma recontextualização (CALSAMIGLIA, 2000, 2003; CALSAMIGLIA e FERRERO, 2003) de importância fulcral para a praxis social, a par de outros temas de grande relevo para a vida coletiva (RAMOS e CARVALHO, 2008).

Há que assinalar, ainda, um possível agrupamento dos textos mediáticos em dois grandes paradigmas: os textos de enunciação objetivizada e os de enunciação subjetivizada. Sophie Moirand (1999) agrupa entre os primeiros aqueles textos em que o locutor se oculta, ou apaga a responsabilidade enunciativa, e entre os segundos os textos em que o locutor manifesta explicitamente os seus pontos de vista.

Finalmente, a análise que a seguir se desenvolve conta com a contribuição da descrição operada por Patrick Charaudeau (2008) sobre o funcionamento do contrato de comunicação mediático, segundo o qual existem quatro restrições ou exigências que o produtor deve considerar:

a) a restrição de visibilidade, que determina as seleções temáticas da imprensa e exige uma escolha de temas com reconhecimento e impacto social;

b) a restrição de legibilidade, que exige simplicidade no discurso e apoio iconográfico eficaz;

c) a restrição de seriedade, que prevê a existência de credibilidade prévia ou de credibilidade construída pelo enunciador no seu discurso, através de recursos linguísticos apropriados;

d) a restrição de emocionalidade, que visa envolver afetivamente o leitor e se manifesta nos recursos capazes de o emocionar, chocar ou surpreender.

2. Corpus

Como foi já anunciado, o corpus de análise é constituído por três artigos mediáticos, todos extraídos das versões online dos media respetivos. Abordam uma questão que intriga a comunidade científica e os decisores políticos: por que razão o número de mortos nos países africanos por efeito do vírus Covid19 se mostra significativamente inferior às previsões?

O primeiro texto (doravante c1) foi publicado em 19/6/2020 no site da internet da revista semanal generalista Visão, uma publicação de referência. Não é assinado e o material verbal é ilustrado por uma fotografia extraída de um banco de imagens de acesso livre. Conta com 338 palavras.

O segundo (doravante c2) foi retirado do jornal Diário de Notícias, um diário generalista de grande circulação e considerado, genericamente, de qualidade, tendo sido publicado em 3/9/2020. Trata-se de um artigo incluído na secção “Mundo” e não é assinado por um jornalista, mas a autoria é atribuída à “redação” (“DN”). Conta com 828 palavras e uma fotografia, atribuída a um fotojornalista da AFP (Association France Presse).

O terceiro texto (doravante c3) foi extraído do semanário Expresso, que mantém uma versão diária somente no suporte online. Este é também um jornal de grande circulação, um dos periódicos mais influentes em Portugal, integrando a imprensa de referência. Foi publicado em 11/3/2021 e a autoria é atribuída à Lusa, a agência de notícias nacional. Conta com 933 palavras, sem qualquer ilustração ou fotografia.

Em face do exposto, pode afirmar-se que os três textos pertencem ao género de enunciação objetivizada, com apagamento da responsabilidade enunciativa dos seus autores – não só pela ausência de assinatura, mas sobretudo pela ocultação de manifestações avaliativas explícitas, como se verá abaixo.

3. Evidências

3.1. As temáticas e os títulos

Os três textos apresentam, numa posição anterior ao respetivo título ou no seu início, a indicação da secção a que pertencem ou uma evocação temática que auxilia o leitor na construção de expectativas ou na contextualização semântica preliminar do conteúdo de sentido do artigo que vão ler. Seguem-se os títulos respetivos que, como todos os títulos, assumem um papel catafórico (FONSECA, 1992).

Os títulos dos artigos de imprensa podem ser entendidos como “la titraille” (CHARAUDEAU 1997, p. 223) ou como “péritexte” (ADAM, 1997, p. 5), designações que sugerem o escasso relevo que eles assumiriam no funcionamento estrutural e interativo dos artigos de imprensa. Contudo, eles também podem ser vistos como narrativas muito condensadas ao serviço de uma retórica discreta mas operativa na construção dos sentidos dos textos. Christine Develotte e Elizabeth Rechniewski (2001) defendem mesmo que os títulos podem assumir um maior impacto no processo comunicativo do que os próprios artigos que encabeçam, em função das suas caraterísticas formais e funcionais. Eles são simultaneamente produtos verbais autónomos (em função da sua diferenciação face ao resto do texto) e produtos verbais dependentes (porque comunicam intimamente com o corpo do texto que encabeçam) e ainda contribuem para a coesão e a coerência textuais devido ao seu caráter catafórico (COIMBRA-e-SILVA, 1999; RAMOS et al., 2009).

A partir dos títulos, são orientadas as expectativas do leitor em relação ao tema abordado no corpo do texto, mas também em relação ao género e aos objetivos pragmáticos do artigo:

(1) Covid-19: Porque é que África está a ser poupada ao vírus? (c1)

(2) Mundo

Cientistas sem explicação para poucas mortes por covid-19 em África (c2)

(3) Coronavírus

Covid-19. Mortalidade indireta em África ultrapassará mortes da pandemia (c3)

C1 seleciona de forma evidente o tema da pandemia pelo vírus Covid19, anunciando-a no início do título – ou numa espécie de antetítulo, já que o uso de maiúscula no início da sequência interrogativa que se segue aos dois pontos sugere uma relativa autonomia dos dois segmentos, divididos pelo sinal de pontuação.

Também c3 apresenta não só a mesma inscrição no título, como o faz anteceder pela indicação temática “Coronavírus”, uma opção que parece ser redundante.

C2 opta por selecionar a secção “Mundo” para enquadrar o artigo, mas não deixa de incluir no seu título a referência “covid-19”, eliminando qualquer dúvida sobre a temática geral em que se inscreve.

Desta forma, uma das exigências do contrato de comunicação (CHARAUDEAU, 2008) fica claramente satisfeita: a de visibilidade. Nos dias presentes, dificilmente um assunto estará mais na ordem do dia do que aqueles que se reportam à pandemia provocada pelo vírus Covid19.

Em termos de expectativas, os títulos apresentados anunciam três modos de organização textual diferentes. O primeiro orienta-se para a construção de um texto de tipo expositivo, no modelo didático típico – o locutor/autor antecipa a dúvida que o alocutário/leitor poderá experimentar, ou cria essa dúvida, e mostra-se disponível para, no corpo do texto, a dissipar, preenchendo o vazio cognitivo suposto no polo da receção. Na esteira de J.-M. Adam (1992), assinala-se que o modelo de organização explicativo se carateriza por pretender modificar o sistema de representações do alocutário. Esta consideração afasta a explicação daquilo que será a mera informação. Dito de outro modo: o locutor acha que o alocutário não sabe ou tem dúvidas sobre o conteúdo proposicional do enunciado-título e promete esclarecê-las. Trata-se de uma manifestação de “dialogismo internacional constitutivo” (MOIRAND, 1999) e é um forte incentivo à interação locutor-alocutário, promovendo a leitura do artigo.

O segundo título é construído sobre um processo dialógico, pela evocação da voz dos cientistas, aqui tomados como um corpo informe e genérico. Trata-se, por metonímia, da voz da ciência que é aqui convocada para integrar uma dupla contraexpectativa. Por um lado, se é suposto a ciência ser a razão derradeira e o argumento definitivo para as opções dos decisores políticos e dos indivíduos no que respeita à pandemia e à respetiva luta, seria de esperar que o leitor leigo pudesse encontrar em tal voz a explicação para todos os fenómenos em causa – mas isso não acontece. Por outro lado, o leitor depara-se com a estranheza dos cientistas e, provavelmente, com a sua própria estranheza de haver menos mortes por Covid19 nos países africanos do que seria de supor, dada a evolução da doença no mundo. Tal estranheza constitui um atrativo, pela tensão ou curiosidade que cria, para a leitura do artigo, respondendo à restrição de emocionalidade (CHARAUDEAU, 2008)

Finalmente, o título de c3 recorre ao Futuro do Indicativo para criar a expectativa no leitor de que este irá encontrar um modo de organização textual preditivo. Adicionalmente, traça um cenário fortemente disfórico, uma estratégia que garante a adesão do leitor, pela exploração da típica curiosidade mórbida que a todos afeta.

Nos três títulos, o referente “África” aglutina a realidade sanitária da generalidade dos países do continente, sem distinções, como se estes constituíssem um todo uniforme. Trata-se de uma estratégia económica, construída sobre estereótipos e um saber comum partilhado, mas pouco aprofundado. Pode presumir-se que, do ponto de vista científico, será pouco produtivo abordar o assunto de forma tão genérica e superficial, dadas as significativas diferenças observáveis entre as realidades sociais, económicas e sanitárias dos numerosos países africanos; contudo, na recontextualização que o discurso da ciência sofre pelos media, no jogo internacional com leitores leigos, tal generalização parece ser eficaz.

3.2. O insólito e os contrastes

A binarização superficial é uma das caraterísticas do discurso de recontextualização da ciência no media, explorando e ampliando os efeitos da emocionalidade (CHARAUDEAU, 2008; RAMOS, 2015). Ela manifesta-se, como foi mostrado, desde os títulos. Mas há algumas outras manifestações de binarização que importa assinalar.

3.2.1.

Em c1, é possível identificar o uso de lexemas fortemente associados ao insólito ou ao inesperado (sublinhados nossos):

(4) A comunidade científica mundial está surpreendida… (c1)

(5) De acordo com a BBC News, há mesmo um enigma difícil de decifrar… (c1)

(6) “É um enigma. É absolutamente inacreditável" (c1)

(7) …considerando os dados de África "completamente inacreditáveis". (c1)

Todos os lexemas marcam fortemente o contraste entre a “normalidade” e a situação observável. Em diversos casos, tal contraste é reforçado por adjetivações e uso de advérbios de alto grau (“difícil de decifrar”, absolutamente”, “completamente”). Acresce que algumas das asserções são enunciativamente assumidas pelos jornalistas (casos transcritos em (4) e (5)), mas outras são atribuídas aos cientistas (caso transcritos em (6) e (7)). Estes últimos casos adquirem um especial relevo, pela referida atribuição aos cientistas (último reduto do saber técnico e especializado) e por surgirem em discurso direto, portanto plenamente assumidos. A exigência de seriedade (CHARAUDEAU, 2008) está, assim, sendo cumprida, pela evocação de vozes credíveis.

Acresce que o discurso direto adquire um valor probatório particular. O jogo dialógico exige que o leitor assuma que o discurso direto corresponde às palavras exatas enunciadas pela fonte desse discurso. As aspas que o assinalam são disso indicação suficiente. Contudo, não é verdade que assim seja. Não só o mediador/jornalista frequentemente adapta, altera, suprime, resume as palavras do enunciador original, como tem de as traduzir – o que se verifica no caso em presença. E a tradução é um labor de interpretação, para o qual contribui a subjetividade do tradutor. Portanto, dificilmente poderá afirmar-se que o jornalista é isento na criação de efeitos de contraste e de emocionalidade só porque cita os cientistas em discurso direto. Cria-se a ilusão de objetividade, mas a subjetividade enunciativa está claramente presente, mesmo na citação em discurso direto.

3.2.2.

Para além do uso de lexemas particulares, é identificável o recurso a expressões e construções que se encontram, elas também, ao serviço da binarização e da criação de dicotomias e contrastes, como mostram os exemplos seguintes:

(8) A comunidade científica mundial está surpreendida com as baixas taxas de infeção e mortalidade causadas pelo covid-19 no continente africano.

De acordo com a BBC News, há mesmo um enigma difícil de decifrar quando se tenta arranjar explicações para o facto de haver tão poucos casos em comparação, por exemplo, com a Europa ou os Estados Unidos, num continente com elevados níveis de pobreza, higiene deficiente, com bairros e casas sobrelotadas e, como tal, impossibilidade de se cumprir o distanciamento social. (c1)

(9) A mortalidade indireta provocada pela desaceleração económica em África irá ultrapassar, em 2030, a mortalidade por covid-19, sobretudo devido a doenças transmissíveis evitáveis, prevê um novo estudo das Nações Unidas sobre o impacto da pandemia no continente. (c2)

(10) Um grupo de cientistas concluiu que, apesar da imprevisibilidade do vírus, o continente está em vantagem. (c3)

Em (8), para além dos lexemas que manifestam a surpresa dos cientistas com a situação pandémica em África, as construções intensificam a surpresa e as contraexpectativas. Após a descrição dos elementos relevantes dos estados de coisas, no primeiro parágrafo do excerto, o uso da partícula “mesmo” em “há mesmo um enigma difícil de decifrar” colabora na construção de uma situação extremada, mais intensa do que a descrita no parágrafo anterior. Verifica-se, pois, uma gradação no desenho dos estados de coisas, que se orienta para um alto grau. Esta construção, naturalmente, é da responsabilidade enunciativa do jornalista e não das vozes dos cientistas convocadas.

Os estados de coisas extremados são materializados e exemplificados por comparação com a situação pandémica na Europa e nos Estados Unidos. O locutor convoca um saber compartilhado com o seu destinatário previsto, que afirma que o nível de desenvolvimento da Europa e dos Estado Unidos é superior ao dos países africanos; e implicita uma dedução lógica de tal observação, num processo argumentativo linear: se o nível de desenvolvimento destes blocos de países é superior ao de África, a situação pandémica deveria apresentar caraterísticas correspondentes. Surpreendentemente, essa não é a realidade observável.

A descrição dos estados de coisas ao nível social só é explicitada para os países africanos: trata-se de um “continente com elevados níveis de pobreza, higiene deficiente, com bairros e casas sobrelotadas e, como tal, impossibilidade de se cumprir o distanciamento social”. Para a realidade europeia ou estado-unidense, o locutor conta com a enciclopédia do alocutário, que preencherá o vazio de informação e permitirá estabelecer o contraste.

Em (9), é estabelecido novo contraste entre as mortes diretas por Covid19 e as que se prevê virem a ocorrer de modo indireto no futuro. De novo, o locutor conta com a cooperação interpretativa do alocutário e com a sua enciclopédia, no que respeita ao elevado número de mortes em virtude da atual pandemia; e estabelece um novo patamar, ainda mais elevado, para as mortes que deverão ocorrer de modo indireto motivadas pela pandemia. Também neste caso se verifica uma extremação dos estados de coisas, construída a partir de informações conhecidas.

Em (10), o locutor faz uma afirmação surpreendente: que o continente africano está “em vantagem”. Não especifica qual é o referente sobre o qual África tem vantagem, mas parte de uma voz comum que atribui ao continente uma desvantagem crónica: em poder económico, em formação, em cuidados de saúde, em qualidade de vida, etc. Esta afirmação inesperada tem o poder de atrair o leitor, que procurará no texto subsequente a sua justificação. E, uma vez mais, é estabelecida uma dicotomia entre os países ricos e os países pobres, com uma inversão de papéis que suscita a leitura.

Como pode verificar-se, alguns contrastes são criados a partir do conhecimento partilhado entre locutor e alocutário, com omissão de informação que é implicitamente convocada; em outros casos, o locutor explicita os elementos contrastantes. Em todo o caso, o discurso conta com estes efeitos de emocionalidade para conferir relevo ao artigo e para prender o leitor.

3.3. A gestão das quantificações

O cidadão leigo tem a perceção de que, no campo científico, os especialistas usam critérios rigorosos e quantificações exatas. E o discurso da ciência entre pares credibiliza-se frequentemente pelo rigor metodológico e conceptual.

Na recontextualização da ciência que ocorre nos media, algumas marcas do discurso científico entre pares transitam de um contexto para outro e servem igualmente de estratégia de credibilização. Neste caso, contudo, a justificação pode ser ligeiramente diversa da que assiste ao rigor na comunicação entre pares, em particular porque o estatuto dos intervenientes e o seu domínio dos conteúdos é outro. No caso dos media, o jornalista que trata de questões científicas é, segundo Sophie Moirand (1999), frequentemente assaltado por “insegurança discursiva” – visto que não domina necessariamente os conteúdos em causa, nem as questões que estão a montante e a jusante de cada assunto concreto. O jornalista, sobretudo o da imprensa generalista quotidiana, não sabendo necessariamente distinguir entre informação objetiva e opinião dos cientistas, estando exposto a informações contraditórias que não pode avaliar, enfrenta a natural dificuldade de ter de transpor o discurso da ciência para o novo contexto, com novos intervenientes e novos objetivos comunicativos – o que implica necessariamente novo suporte discursivo para atingir os referidos objetivos.

Assim, um dos recursos que convoca é a utilização intensa de quantificações exatas. Os números, as quantidades, as percentagens estão presentes com relevo, conferindo ao seu discurso a aparência de cientificidade e cumprindo a exigência de seriedade prevista no contrato de comunicação (CHARAUDEAU, 2008). No caso do corpus do presente estudo, tal é visível sobretudo em c3, o que parece ser justificado pelo facto de este texto relatar uma previsão do que virá a acontecer. Sendo marcado por uma orientação prospetiva e configurando-se como texto preditivo, este texto carece da possibilidade de confronto das suas asserções com a realidade extralinguística, pelo que busca outras formas de credibilização.

Os excertos seguintes exemplificam tais ocorrências.

(11) Num cenário otimista, em 2030, haverá aumentos da mortalidade em resultado da diarreia (+4%), malária (+5,4%) e infeções respiratórias (+4%).

Num cenário mais pessimista e de forte desaceleração económica, registar-se-iam importantes crescimentos na mortalidade por diarreia (+12,7%), malária (+15,8%) e infeções respiratórias (+12%).

O estudo prevê ainda que a mortalidade das crianças abaixo de 5 anos venha a ser responsável por mais de 80% da mortalidade indireta. (c3)

(12) Noura Hamladj lembrou que apenas 10 países africanos representam mais de 80% dos casos de covid-19 no continente… (c3)

(13) O estudo estimou que os fluxos de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) para Angola, que já tinham diminuído para menos de 0,5 mil milhões de dólares em 2019, venham a contrair-se ainda mais… (c3)

Também nestes casos o enunciador joga com contrastes e configurações de estados de coisas extremados. Quando assinala que as previsões apontam para a possibilidade de mais de 80% da mortalidade indireta associada à pandemia por Covid19 incidir sobre crianças menores de cinco anos, está a traçar um cenário verdadeiramente chocante, tendo em consideração os valores genericamente assumidos nas sociedades de modelo ocidental.

Contudo, este recurso às quantificações exatas e o efeito de credibilização do discurso que estas produzem pode não passar de um jogo retórico. Teun van Dijk chama a esta estratégia “number games” (1988: 88) e afirma que ela “forcefully suggests truthfulness by the implied exactness of precise numbers” (idem, 87). Contudo, outros investigadores mostraram que, a par deste “jogo com os números”, há um “paradoxo com os números”: habitualmente,

people do not remember numbers in news articles; using additional numbers does not help them to evaluate the news. (…) They function as arguments to stress the fact that the source is a reliable one. They say: ‘I did not make this up. I did my research. It’s not guess-work, it’s been counted’ (Koetsenruijter, 194-195).

3.4. A voz da ciência

É comum os artigos jornalísticos apresentarem a voz da ciência metonimicamente. No presente corpus, são várias as estratégias utilizadas. Sendo compatível com a heterogeneidade enunciativa que carateriza o discurso de comunicação da ciência nos media, a voz da ciência pode surgir na voz dos cientistas ou pode ser atribuída a “estudos”, de forma vaga.

(14) Um grupo de cientistas concluiu que… (c1)

(15) John Nkengasong, diretor dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças da África, anunciou que… (c1)

(16) "Achei que estávamos a caminhar para um desastre, um colapso completo", disse Shabir Madhi, o principal virologista da África do Sul. (c2)

(17) A mortalidade indireta (…), prevê um novo estudo das Nações Unidas sobre o impacto da pandemia no continente. (c3)

Neste aspeto, os artigos recortados não diferem do que é comum observar-se em casos semelhantes (RAMOS, 2009). Também seguem o mesmo padrão de identificação dos cientistas: como pode verificar-se no excerto (16), a voz é convocada, em alguma forma de relato de discurso, ao que se segue o nome do cientista e a sua inscrição institucional, o que lhe confere credibilidade. O recurso ao discurso direto, acima referido, reforça essa credibilidade.

Em muitas circunstâncias, relativamente a assuntos polémicos, os jornalistas procuram e apresentam vozes com orientações conflituantes. Contudo, não se verificou tal tipo de ocorrências no corpus constituído sobre os tópicos centrais abordados. Pelo contrário, as vozes convocadas para os textos do presente corpus apresentam orientações convergentes. Neste aspeto, não foi procurada a polémica, mas a concórdia.

3.5.

As formas de introdução das vozes dos cientistas constituem um recurso discursivo revelador do posicionamento do mediador. A análise, neste caso concreto, dos verba dicendi mostra ser produtiva para aferir tal posicionamento enunciativo.

A mais neutra forma de introduzir o discurso alheio através de um verbum dicendi segue o modelo seguinte:

(18) "Achei que estávamos a caminhar para um desastre, um colapso completo", disse Shabir Madhi, o principal virologista da África do Sul. (c2)

De uma forma geral, os autores dos textos em análise optam pela colocação do verbo introdutor de discurso após o segmento de discurso original, em discurso direto. O verbo dizer é o mais frequentemente utilizado (com seis ocorrências no corpus).

Este verbo é relativamente neutro do ponto de vista enunciativo, na medida em que tende a apagar a responsabilidade enunciativa do locutor-mediador e a sua modalização avaliativa. Outros verba dicendi utilizados com a mesma finalidade e com efeito semelhante são afirmar, anunciar, referir e sustentar (todos com um ocorrência) e considerar (com duas ocorrências).

Alguns verbos sugerem uma atenção particular aos segmentos citados ou a um pormenor neles presente, no quadro mais vasto da construção de uma ideia. Trata-se de verbos como apontar (três ocorrências), assinalar, destacar, salientar (todos com uma ocorrência) e sublinhar (duas ocorrências).

Os efeitos são parcialmente diferentes em verbos como admitir (duas ocorrências), defender (três ocorrências), justificar e questionar (uma ocorrência). Nestes casos, é implicitado um quadro comunicativo de dissenso, com posicionamentos conflituantes dos enunciadores nele envolvidos.

Finalmente, outros verba dicendi traduzem a evocação de quadros comunicativos complexos, como acrescentar (três ocorrências), alertar, concluir, concordar e lembrar (uma ocorrência).

Verbos como prometer (uma ocorrência) e prever (duas ocorrências) projetam cenários futuros.

Os efeitos obtidos pelo recurso a estes verba dicendi variam entre a relativa neutralidade do mediador a uma avaliação discreta, eventualmente ocultada, dos estados de coisas configurados. Contrariamente ao que é frequente nos media quando são focados outros tópicos, no corpus analisado não são particularmente relevantes a polémica e a confrontação intensa.

3.6. Enfrentando a complexidade

3.6.1.

Uma das caraterísticas do discurso de recontextualização da ciência é a simplificação dos processos. Ou seja, o discurso da comunicação da ciência nos media simplifica a complexidade inerente aos quadros conceptuais e metodológicos em que se movem os cientistas e usa um discurso acessível a leigos. Frequentemente, verifica-se mesmo um apagamento de todas as dúvidas e hesitações, de todas as divergências entre cientistas, de todos os avanços e recuos do conhecimento, para apresentar resultados que são apresentados como finais e incontestáveis e que parecem ter sido obtidos por fenómenos semelhantes a deus ex machina ou por artes mágicas, sem esforço e sem tempo despendido.

Contudo, os artigos analisados não se furtam à apresentação de alguma complexidade, ainda que mitigada. Em c1, que, recorde-se, é selecionada como título uma frase interrogativa, refere-se a “imprevisibilidade do vírus” e os cientistas assumem que as previsões que haviam feito não se concretizaram inteiramente, por razões ainda desconhecidas.

Em c2, algo semelhante é apresentado e os cientistas também declaram abertamente a sua surpresa e a sua incapacidade para explicarem adequadamente a situação. O artigo apresenta mesmo algumas teorias que foram consideradas e, posteriormente, foram recusadas, como se observa no excerto seguinte.

(19) Várias teorias foram colocadas em cima da mesa. Uma delas tinha que ver com o facto de a esperança média de vida em África ser cerca de metade daquela que se verifica na Europa e, como tal, poucos são aqueles que vivem até aos 80 anos, por exemplo. "A idade é o fator de risco mais alto nas infeções de covid-19. E a população jovem de África é uma barreira", disse Tim Bromfield, diretor regional do Instituto Tony Blair para a Mudança Global.

Contudo, à medida que a pandemia evoluiu, esta teoria foi sendo abandonada e Salim Abdoul Karim já veio desvalorizá-la: "A idade não é um fator assim tão importante." (c2)

Quando refere a intenção de os cientistas desenvolverem um estudo utilizando amostras de sangue recolhidas há cinco anos e afirma que tal acabou por se revelar impossível, o artigo apresenta as razões de tal decisão: “a temperatura das câmaras frigoríficas tinha oscilado durante esses cinco anos, o que afetou de imediato a fiabilidade dessa experiência”. A explicação não é aprofundada, mas o leitor pode encontrar uma explicação razoável para a decisão dos cientistas. Pode mesmo afirmar-se que o artigo mostra um pouco do processo de decisão e das variáveis em causa.

Em c3, há que assinalar as implicações políticas, económicas e demográficas da pandemia, numa escala temporal alargada. O assunto ganha nesse artigo uma repercussão alargada em múltiplos planos das sociedades africanas e do mundo. O segmento final do texto é forte, realizando um ato ilocutório diretivo dirigido aos decisores políticos, mas também a todos os leitores:

(20) "Ajuda externa adicional, com perdão e reestruturação das dívidas públicas, deve ser assegurada pela comunidade internacional aos países mais vulneráveis para minimizar o impacto sobre o desenvolvimento económico e humano a longo prazo", sustentou o estudo. (c3)

Este é um exemplo concreto de exercício de influência e de interseção entre discurso da ciência e discurso político. O deôntico “deve” encontra a sua justificação ou pertinência nas evidências científicas e focaliza as decisões políticas que haverá que tomar. A fonte evocada é “o estudo”, apagando a presença humana e a respetiva agência. De facto, os dados brutos dificilmente indicam seja o que for; é a sua interpretação por um agente (humano, naturalmente) que entra nos nossos exercícios de leitura do mundo e de influência mútua.

3.6.2.

Foi acima afirmado que os artigos sob análise fazem “number games” com o objetivo de criar uma imagem de credibilidade. Mas que essa estratégia pode igualmente ser afetada por um “number paradox”.

Contudo, observam-se igualmente diversos segmentos em que os textos contextualizam e apresentam as asserções dos cientistas de modo acessível ao leitor leigo, estabelecendo referenciais que pertencem à sua enciclopédia, de modo a que as novas informações possam fazer sentido e sejam integradas no seu sistema de conhecimentos. Os segmentos seguintes ilustram essa preocupação:

(21) África tem menos mortos por Covid-19 do que o Canadá, apesar de ter 34 vezes mais população. (c1)

(22) Só que nada disso aconteceu e a África do Sul tem, por exemplo, uma taxa de mortalidade por covid-19 sete vezes mais baixa do que a do Reino Unido, apesar de a possibilidade de algumas mortes não ter entrado nos registos oficiais. (c2)

(23) "Podemos dizer que a África tem sofrido menos com o impacto da covid-19 em comparação com outras regiões em termos de vidas humanas perdidas, mas a situação não é menos dramática em termos de consequências económicas e sociais devido às suas muitas fraquezas", disse, por seu lado, a diretora-adjunta do gabinete regional para África do PNUD, Noura Hamladj. (c3)

Nos exemplos apresentados, o enunciador não se escuda atrás de números rigorosos mas vazios retirados do discurso da ciência e comuns nas interações entre pares, antes transforma o seu discurso para este corresponder a representações passíveis de serem incorporadas pela experiência e pela enciclopédia do leitor leigo. O estabelecimento de referências das quais o alocutário-leitor possa apropriar-se parece ser um esforço efetivo de fornecer informação válida. É possível que a credibilidade do locutor-autor seja fragilizada, mas a compreensão da sua mensagem será potenciada.

4. Notas finais

A análise dos três artigos selecionados, recolhidos de três media generalistas portugueses de qualidade e de circulação nacional, confirmou alguns dos traços tipicamente apontados à comunicação mediática da ciência e da tecnologia, nomeadamente o apagamento enunciativo do mediador-jornalista, a criação de binarismos e de cenários extremados, as estratégias de credibilização do jornalista pela evocação intensa da voz da ciência. Os artigos respondem adequadamente às exigências associadas ao contrato de comunicação mediático, abordando um tema de grande interesse e repercussão social, fazendo-o com um discurso acessível ao leitor virtual, criando para o enunciador uma imagem de credibilidade e captando a atenção do leitor através de estratégias que apontam a aspetos emocionais. As ramificações das questões sanitárias no âmbito económico, político e demográfico são bem patentes no texto c3.

Se é verdade que, neste processo de comunicação da ciência e da tecnologia para públicos leigos, os artigos simplificam os conteúdos e o discurso, dando mais saliência aos resultados do que aos processos, não será de ignorar que também, e por outro lado, não se limitam a criar uma realidade ultrassimplificada e linear, exclusivamente focada numa ciência utilitarista. A ciência não é endeusada e são dadas a ver dúvidas e perplexidades dos cientistas perante a pandemia. Os artigos não incorrem em questões profundas do âmbito técnico e apresentam reduzido vocabulário específico, mas oferecem à leitura uma visão dos estados de coisas com o potencial de mostrar ao leitor que a ciência não é magia nem é feita por máquinas, mas por pessoas; e que, apesar disso, devemos continuar a confiar na ciência, recorrendo a fundamentos científicos para tomarmos decisões de âmbito político e social.

5. Agradecimentos

Este trabalho foi financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto do CIEC (Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho) com a referência UIDB/00317/2020.

Referências

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Anexos

Anexo 1

Covid-19: Porque é que África está a ser poupada ao vírus?

19/06/2020

Figure 1.ISSOUF SANOGO/AFP via Getty Images

Um grupo de cientistas concluiu que, apesar da imprevisibilidade do vírus, o continente está em vantagem. África tem menos mortos por Covid-19 do que o Canadá, apesar de ter 34 vezes mais população

No início da pandemia, todas as regiões do mundo se prepararam para uma grande mortandade por Covid-19. Mas África tem sido relativamente poupada. O primeiro caso no continente surgiu no Egito, a 14 de fevereiro. Duas semanas depois, John Nkengasong, diretor dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças da África, anunciou que o primeiro caso positivo na Nigéria, a 28 de fevereiro, era de um empresário italiano recém chegado [sic] ao país mais populoso de África. Com estes novos casos, em pontos diferentes do continente, as autoridades ficaram alarmadas. Previa-se que houvesse milhares de mortes e os hospitais entrassem em colapso. Mas, cinco meses depois, o cenário ainda não se concretizou – e talvez nem se venha a concretizar.

“Os países de África não estão onde previram que estivessem agora. Muitas previsões anteriores tinham pintado um quadro que, nessa altura, seria esmagador”, disse Humphrey Karamagi, da organização do Desenvolvimento de Sistemas e Serviços de Saúde da OMS.

Uma das razões pelas quais o continente africano não tem um número de casos exorbitantes foi a rápida ação dos governos nos primeiros tempos: encerramento de escolas, bloqueio de fronteiras e o isolamento. “A liderança no continente foi extraordinária na resposta, feita de forma coordenada”, afirmou Nkengasong. Este rápido controlo muito se deveu à longa experiência dos países que já lidaram com doenças como o ébola e a febre amarela [sic].

Contudo, Karamagi e um grupo de cientistas africanos defendem que os fatores socioecológicos – a forma como os humanos e o ambiente se envolvem – também contribuiu para um menor surto de Covid-19. “A taxa de transmissão em África deverá ser mais baixa. Pode levar mais tempo a chegar às pessoas mais suscetíveis. E as mortes e a gravidade do surto serão menos graves do que vimos noutros países” referiu.

Visão, 19/6/2020. Disponível em

Anexo 2

Mundo

Cientistas sem explicação para poucas mortes por covid-19 em África

03/09/2020

Foram formuladas diversas teorias para explicar a baixa progressão do coronavírus. Um hospital sul-africano planeava uma experiência que poderia desvendar o mistério, mas foi traído por um problema técnico.

Figure 2.© Fredrik Lerneryd/AFP

A comunidade científica mundial está surpreendida com as baixas taxas de infeção e mortalidade causadas pelo covid-19 no continente africano.

De acordo com a BBC News, há mesmo um enigma difícil de decifrar quando se tenta arranjar explicações para o facto de haver tão poucos casos em comparação, por exemplo, com a Europa ou os Estados Unidos, num continente com elevados níveis de pobreza, higiene deficiente, com bairros e casas sobrelotadas e, como tal, impossibilidade de se cumprir o distanciamento social.

No início da pandemia, foram muitos os especialistas que anteciparam o pior cenário para África, tendo em conta os factos que favoreciam uma rápida disseminação do novo coronavírus. "Achei que estávamos a caminhar para um desastre, um colapso completo", disse Shabir Madhi, o principal virologista da África do Sul. A esta ideia juntava-se a perceção de que mesmo o sistema de saúde sul-africano, o mais desenvolvido do continente, iria ficar rapidamente sobrecarregado.

Só que nada disso aconteceu e a África do Sul tem, por exemplo, uma taxa de mortalidade por covid-19 sete vezes mais baixa do que a do Reino Unido, apesar de a possibilidade de algumas mortes não ter entrado nos registos oficiais.

"A maioria dos países africanos não tem pico de infeções. Não percebo porquê. Estou completamente perdido", admitiu Salim Abdoul Karim, chefe da equipa consultiva do Ministério da Saúde sul-africano para o covid-19. "É um enigma. É absolutamente inacreditável", concordou Madhi.

Várias teorias foram colocadas em cima da mesa. Uma delas tinha que ver com o facto de a esperança média de vida em África ser cerca de metade daquela que se verifica na Europa e, como tal, poucos são aqueles que vivem até aos 80 anos, por exemplo. "A idade é o fator de risco mais alto nas infeções de covid-19. E a população jovem de África é uma barreira", disse Tim Bromfield, diretor regional do Instituto Tony Blair para a Mudança Global.

Contudo, à medida que a pandemia evoluiu, esta teoria foi sendo abandonada e Salim Abdoul Karim já veio desvalorizá-la: "A idade não é um fator assim tão importante."

Houve ainda quem tivesse defendido que o vírus tinha menor impacto devido à altitude ou às temperaturas mais altas, mas essas explicações também depressa foram abandonadas.

No entanto, há quem considere que o facto de África ser um continente grande e com ligações deficientes poderia estar a favorecer um atraso no pico de infeções, uma vez que o vírus circularia de forma mais lenta. Ainda assim, Karim prefere não dar muita importância a essa teoria porque "não há a certeza se algum dia o vírus irá disseminar-se como um louco em África".

Uma nova teoria foi recentemente desenvolvida pelos cientistas da unidade de Análise de Doenças Infecciosas e de Vacinas, do hospital Baragwanath, no Soweto, que aponta no sentido de a resposta a este enigma poder estar num certo grau de imunidade ao covid-19 desenvolvido pela população africana por ter estado exposta a outros coronavírus, responsáveis pelas gripes comuns. "É uma hipótese", admitiu Shabir Madhi, acrescentando haver dados fornecidos por cientistas dos Estados Unidos que também parecem suportar esta hipótese.

Os cientistas sul-africanos questionam, no entanto, a razão pela qual a Índia, que também tem bairros pobres sobrelotados onde há maior possibilidade de exposição a outros coronavírus, não apresentar resultados semelhantes aos de África, ou seja, baixas taxas de infeção e morte por covid-19.

"A proteção pode ser muito mais intensa em áreas densamente povoadas, em contextos africanos. Isso pode explicar por que em grande parte do continente existam infeções assintomáticas ou leves", justificou o Madhi, considerando os dados de África "completamente inacreditáveis".

A ironia é que a pobreza enraizada em África possa estar, pela primeira vez, a funcionar a favor da sua população. Contudo, essa ideia é negada pelos mais céticos, que dão como exemplo o Brasil, onde existem altas taxas de infetados nas favelas sobrelotadas.

A unidade de Análise de Doenças Infecciosas e de Vacinas do hospital Baragwanath, na África do Sul, procurou encontrar uma explicação mais concreta através de amostras de sangue humano recolhidas há cinco anos, conservadas numa câmara frigorífica a 180 graus negativos. O objetivo era analisar as células dessas amostras sanguíneas, conhecidas como PBMC, que serviram de ensaio para uma investigação de uma vacina para uma gripe no Soweto.

O problema é que quando os cientistas se preparavam para testar essas amostras em laboratório verificaram que a temperatura das câmaras frigoríficas tinha oscilado durante esses cinco anos, o que afetou de imediato a fiabilidade dessa experiência. "Estamos muito dececionados", disse Gaurav Kwatra, o líder da equipa de investigação, que promete ainda assim procurar novas amostras para que sejam testadas.

Enquanto isso não acontecer, irá manter-se o enigma em torno dos baixos casos de covid-19 no continente africano.

Diário de Notícias, 03/09/2020. Disponível em

Anexo 3

Coronavírus

Covid-19. Mortalidade indireta em África ultrapassará mortes da pandemia

O estudo, apresentado esta quinta-feira numa iniciativa do Programa da Chatam House para África, analisa os impactos socioeconómicos da pandemia de covid-19 a longo prazo, em diversos contextos africanos, e incidiu sobre 10 países no continente, incluindo os lusófonos Angola e Cabo Verde

11 março 2021

Lusa

A mortalidade indireta provocada pela desaceleração económica em África irá ultrapassar, em 2030, a mortalidade por covid-19, sobretudo devido a doenças transmissíveis evitáveis, prevê um novo estudo das Nações Unidas sobre o impacto da pandemia no continente.

O estudo, apresentado esta quinta-feira numa iniciativa do Programa da Chatam House para África, analisa os impactos socioeconómicos da pandemia de covid-19 a longo prazo, em diversos contextos africanos, e incidiu sobre 10 países no continente, incluindo os lusófonos Angola e Cabo Verde.

"Com o tempo, muitas mais pessoas vão morrer ou porque não têm a acesso a cuidados de saúde primários, ou por causa das capacidades limitadas dos sistemas de saúde, que estão a ser direcionadas para a covid-19", disse Raymond Gilpin, economista do Gabinete para África do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que coordenou o estudo.

A análise apontou que a covid-19 faz aumentar o risco de "mortalidade persistente" até 2030, bem como de efeitos económicos agravados até 2040 ou 2050.

"A covid-19 não é apenas uma crise de saúde atual, é uma potencial crise de saúde futura, porque mesmo que tenhamos a vacina, a imunidade de grupo e o controlo da pandemia, os efeitos nos sistemas de saúde persistirão por muitos anos", acrescentou.

Num cenário otimista, em 2030, haverá aumentos da mortalidade em resultado da diarreia (+4%), malária (+5,4%) e infeções respiratórias (+4%).

Num cenário mais pessimista e de forte desaceleração económica, registar-se-iam importantes crescimentos na mortalidade por diarreia (+12,7%), malária (+15,8%) e infeções respiratórias (+12%).

O estudo prevê ainda que a mortalidade das crianças abaixo de 5 anos venha a ser responsável por mais de 80% da mortalidade indireta.

"Sem ações políticas, a covid-19 ameaça aumentar significativamente a mortalidade infantil na próxima década", alertou o PNUD.

A abordagem do PNUD assinalou, por outro lado, a influência determinante dos parceiros comerciais nos impactos da covid-19 no continente.

"Os países mais integrados nas cadeias de valor globais tendem a ser muito mais vulneráveis e suscetíveis a impactos adversos, a longo prazo", apontou, sublinhando que os efeitos imediatos da pandemia não estão diretamente relacionados com os níveis de desenvolvimento económico e humano pré-covid-19.

Cabo Verde e Maurícias, por exemplo, têm um Produto Interno Bruto (PIB) relativamente elevado [entre os 10 países analisados] e bons níveis de desenvolvimento humano, mas estão entre os países mais duramente atingidos em termos de queda do PIB e são mais afetados pelas reduções nos fluxos internacionais, referiu o estudo.

"Podemos dizer que a África tem sofrido menos com o impacto da covid-19 em comparação com outras regiões em termos de vidas humanas perdidas, mas a situação não é menos dramática em termos de consequências económicas e sociais devido às suas muitas fraquezas", disse, por seu lado, a diretora-adjunta do gabinete regional para África do PNUD, Noura Hamladj.

Noura Hamladj lembrou que apenas 10 países africanos representam mais de 80% dos casos de covid-19 no continente, destacando os "impactos particulares" sobre os países insulares, a "evidente" diferenciação entre as zonas rurais e urbanas e as implicações socioeconómicas que "revelam desigualdades de género".

O relatório apontou, por outro lado, que a pandemia "é suscetível de causar uma mudança geral de direção de África para a China" e um afastamento da União Europeia (UE) e da Índia como principais parceiros comerciais.

Antes da covid-19, os principais parceiros comerciais destes 10 países africanos eram China, Índia, Estados Unidos da América e a UE27 e Reino Unido, com o comércio intra-africano a representar uma parte ínfima das trocas comerciais.

"A pandemia tem afetado as economias destes países, com os maiores declínios na Europa e Índia. A médio e longo prazo, isto resultará numa reestruturação de redes de comércio global", salientou o estudo, acrescentando que esta tendência é válida para os 10 países, embora com variações importantes.

"Por exemplo, Cabo Verde e Quénia mostram uma mudança em direção ao comércio com a China, mas para Cabo Verde esta mudança faz-se sobretudo à custa da quebra do comércio com a UE27 e o Reino Unido, ao passo que para o Quénia está principalmente no decréscimo de comércio com a Índia", sublinhou o PNUD.

A previsão apontou também que a médio prazo a quota de comércio intra-africano deverá aumentar, destacando o caso do Mali, que em 2019 era o país com a maior dependência das trocas comerciais dentro do continente.

O estudo estimou que os fluxos de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) para Angola, que já tinham diminuído para menos de 0,5 mil milhões de dólares em 2019, venham a contrair-se ainda mais devido ao duplo choque da pandemia do novo coronavírus e dos baixos preços do petróleo.

"A covid-19 é um multiplicador dos desafios de desenvolvimento. Precisamos construir uma maior capacidade institucional e governamental para ter economias resilientes, ao mesmo tempo que impulsionamos um crescimento económico a curto prazo", defendeu Noura Hamladj.

Neste contexto, o estudo sublinhou a necessidade de aumentar capacidade de governação, o investimento na melhoria dos sistemas de saúde e em infraestruturas, sobretudo no acesso à água potável e ao saneamento, bem como no reforço no sistema fiscal dos países.

"Ajuda externa adicional, com perdão e reestruturação das dívidas públicas, deve ser assegurada pela comunidade internacional aos países mais vulneráveis para minimizar o impacto sobre o desenvolvimento económico e humano a longo prazo", sustentou o estudo.

Expresso, 11/3/2021. Disponível em