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Abstract

This article aims at making an empirical reflection on the clash of views on covid-19 in digital media. In this arena, we have,  on the one hand, information based on science, and, on the other hand, misinformation coming from denial political leaders and their followers, who transformed the pandemic into a means of political polarization, to the detriment of the population's health. The research is based on the dialogic approach to language that sees discourse as a point of view in the world, a movement of values ​​inseparable from affections and the semantic content of concrete, historical and socially significant statements. The analysis of comments from Internet users on social networks shows the struggle between voices to make their values ​​and their “truths” predominate, one of the poles opposing basic moral and ethical principles, such as respect for others, dignity, honesty.

Introdução

O Brasil vive um dos piores momentos de sua história do ponto de vista político. Como consequência, no momento da publicação deste artigo, o país ultrapassou o número de 600.000 mortos pela Covid-19. De acordo com o epidemiologista Pedro Hallal, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid (doravante CPI da Covid)1, em junho de 2021, “o Brasil poderia ter evitado até 400 mil mortes por coronavírus, se tivesse implementado medidas de distanciamento social mais rígidas e lançado o programa de imunização mais cedo”.2 Acrescente-se a isso a divulgação de notícias falsas sobre a pandemia, o tratamento precoce, a vacina, amplamente divulgados pelo Presidente da República (doravante PR) nas suas redes sociais e replicadas por seus seguidores em canais como WhatsApp, Facebook, Instagram, entre outros, que transformou a pandemia num meio de polarização política, em detrimento da saúde da população.

Sabemos que a polarização acontece quando dois grupos com visões diferentes do ponto de vista axiológico ou político produzem discursos opostos sobre assuntos diversos. Desde o início da pandemia, o discurso da ciência é negado pelo PR e seus seguidores, incluindo membros do governo, médicos e milhares de internautas “mais engajados e que publicam mais”, de modo que “a desinformação circula mais e em maior volume do que outros tipos de conteúdo (RECUERO, 2021)”3. Esses internautas formam “bolhas” ao mesmo tempo que rejeitam as informações do jornalismo dito tradicional, uma vez que o PR e seu entorno não param de atacar a imprensa, como mostra o Relatório da ONG Repórteres sem fronteiras, que aponta trezentas e trinta e uma ofensas contra jornalistas e veículos feitas por Jair Bolsonaro, filhos e integrantes do governo, oitenta e sete das quais feitas só pelo primeiro, no primeiro semestre de 20214. A visão negacionista com a desinformação produz efeitos graves, tendo em vista o elevado número de pessoas que a exemplo do PR se recusam a tomar a vacina, causando mortes não só de negacionistas, mas de pessoas que consomem a desinformação e de outras atingidas pela circulação do vírus. Além disso, segundo Recuero (2021), os discursos de desinformação também levaram à violência verbal contra os chineses, reforçando teorias da conspiração sobre a pandemia, como a narrativa do “vírus chinês”, a da criação intencional do vírus pela China e a da vacina que injetaria um chip líquido e inteligência artificial para controle populacional.5

Interessa-nos problematizar sobre os valores que se manifestam nas redes sociais sobre a covid 19. O corpus deste estudo é constituído de comentários do depoimento à CPI da Covid da médica Mayra Pinheiro, Secretária no Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro, em 25/05/20216.

Este artigo está dividido em três partes: a primeira apresenta algumas noções teóricas da abordagem dialógica; a segunda discute o contexto histórico e político, o negacionismo e a desinformação nas redes sociais; a terceira trata de questões metodológicas e analisa comentários de internautas sobre o depoimento de Mayra Pinheiro.

1. Um quadro de análise dialógica

O ponto de partida desta seção é apresentar a concepção de linguagem na perspectiva dialógica. Uma das diferenças entre língua e linguagem é que a primeira remete à imagem de um objeto comum e homogêneo, com regras de combinação entre as unidades. A linguagem por outro lado é heterogênea sob vários pontos de vista. Isso porque as unidades da língua fazem sentido de acordo com as situações, os contextos, os modos de recepção e só podem ser interpretadas na relação com os exteriores da linguagem.

Vale lembrar que no processo de aquisição da linguagem a criança não vai da significação no nível da língua ao sentido no nível do discurso, pois ela tem acesso às significações da língua no processo heterogêneo de retomada e modificação do discurso do outro. Sendo assim, ela não aprende uma língua pronta e acabada, mas entra no mundo da linguagem, por meio do diálogo com a mãe, em primeiro lugar, aprendendo assim a interpretar e fazer uso dos enunciados, como mostra Bakhtin (2017: 29): “tudo o que me diz respeito, a começa por meu nome, e que penetra em minha consciência, chega-me do mundo exterior à minha consciência, chega-me do mundo exterior à minha consciência pela boca dos outros (da mãe etc.), com sua entonação, em sua tonalidade valorativo-emotivo”.

Nesse processo, se estabelecem relações dialógicas que remetem não só à relação constitutiva do enunciado com o já dito, mas também com a resposta porvir do destinatário. São relações de sentido que não se confundem com a significação de elementos no nível da língua ou no dicionário. Sentido que se manifesta na circulação dos discursos, na relação com o contexto e a situação. Isso significa que o sentido está “entre” o que percebemos e nós (FRANÇOIS, 2009), na interpretação que cada um de nós faz em determinada situação e de nosso ponto de vista, a partir de uma série de indícios linguísticos e não linguísticos.

Linguagem, alteridade e “sujeito”7 são, portanto, noções indissociáveis na abordagem dialógica, este último se constitui na relação com o outro por meio da linguagem. A absoluta necessidade do outro, do olhar do outro, da memória do outro, na interconstitutividade do eu e do outro pela linguagem revelam a essencialidade da alteridade.

Nessa perspectiva, a linguagem é concebida como atividade de sujeitos reais, concretos, singulares, heterogêneos, sociais, históricos, responsáveis pelos seus atos, uma vez que ocupam um lugar único na existência. O sujeito não é um mero usuário da língua nem tampouco assujeitado, não é a fonte, a causa, a origem do que diz, pois “ele retoma e acentua ao seu modo em movimentos de acordo, desacordo com o outro ou consigo mesmo”, num processo contínuo de interpretações e de produção de pontos de vista (FRANÇOIS, 2009, p. 205).

Ponto de vista ou posicionamento é uma noção de base, inseparável de nossa maneira de ser, de sentir, de pensar, de dizer (FRANÇOIS, 2015), ou seja, “de considerar enquanto”. Isso significa que o ponto de vista é contingente, podendo sempre ser revisto, modificado e reacentuado. “Um ponto de vista é cronotópico, ou seja, inclui tanto o momento espacial como o temporal. Nisso se vin­cula diretamente ao ponto de vista dos valores (hierarquizado) – a relação com o acima e o abaixo”. (BAKHTIN, 2003, p. 373).

François (2015) acrescenta que como vivemos numa circulação de pontos de vista, não temos acesso à verdade do que é, por exemplo, a democracia, o feminino, ou a religião. Basta escutar conversas, críticas de um texto ou de um filme, traduções de um mesmo autor para se constatar convergências e divergências nos comentários feitos, ou seja, cada “sujeito” tem um modo mais ou menos próprio de perceber, compreender, sentir, avaliar e de reagir a cada um deles. Dessa forma, todo nosso modo de estar no mundo passa por uma relação com valores que nos são dados como afetos e nos colocam em movimento. É a relação valorativa com o objeto do discurso que condiciona a escolha dos recursos linguísticos e composicionais do enunciado.

Vale lembrar que Bakhtin tem o gosto pela variação dos termos. A noção de ponto de vista não é explicitada em um escrito específico, mas alterna com posicionamento, voz social, “visão do mundo”. Cada voz dialógica e axiologicamente orientada será, portanto, lida como um ponto de vista que quer se impor como uma verdade, dentro de um determinado horizonte social e de uma situação.

2. Contexto histórico e político, negacionismo, redes sociais

Na proposta dialógica de Volóchinov (2017), a ordem metodológica para a análise de qualquer produção linguageira parte de uma contextualização mais ampla para os tipos da interação discursiva na sua relação com suas condições concretas; as formas dos enunciados em relação com a interação da qual elas são uma parte; e a partir daí, o estudo da materialidade linguística articulando-a ao todo. No caso deste artigo, é preciso discutir o momento histórico, a situação política e sanitária, o negacionismo, as redes sociais para em seguida abordar os enunciados.

Partimos do contexto atual de “reemergência da direita” com um discurso neoconservador e neoliberal (MIGUEL, 2018, p.19-22). Segundo o autor, os setores mais extremados da direita incluem três vertentes principais que não são estanques: libertarianismo (o menor Estado possível e a “liberdade” como o valor central); o fundamentalismo religioso (tornou-se uma força política no Brasil a partir dos anos 1990, com o investimento das igrejas neopentecostais em prol da eleição de seus pastores) e a reciclagem do antigo anticomunismo. Acrescente-se a fusão do anticomunismo com reacionarismo moral, o chamado “marxismo cultural”. Para essa direita, a dissolução da moral sexual convencional e da estrutura familiar tradicional seria um passo para a derrubada do capitalismo e da “civilização ocidental”. (MIGUEL, 2018, p. 39).

Alguns temas, de acordo com Sorj et al. (2018), no centro do debate e nas narrativas da extrema direita, são referidos a valores vividos como absolutos: sexualidade, diversidade de orientação sexual, pedofilia, aborto, igualdade de gênero, entre outros. Exemplo desses valores são a família patriarcal como a única opção saudável e moralmente aceitável, estando no centro do debate e da polarização entre progressistas e neoconservadores. A ideia de um “marxismo cultural” criava um adversário comunista praticamente onipresente: na educação pública, na mídia, nos ativistas dos direitos civis, na indústria do entretenimento etc.

Nesse contexto de reemergência da direita no Brasil, surge com força o negacionismo histórico-político, climático-ecológico, científico-sanitário etc., que levou à politização do vírus, da cloroquina e da hidroxicloroquina, da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), de suas recomendações científicas e das vacinas. Negacionismo que foi exposto como uma política, manifestado nas numerosas declarações de Jair Bolsonaro, a começar pela “gripezinha e pela suposta “histeria da mídia acerca dos efeitos superdimensionados do vírus” (DUARTE; CÉSAR, 2020, p. 7); e em outros atos — confundir, agredir, ignorar, desprezar, silenciar quem não estiver de acordo com ele. É importante destacar que são atos e palavras de um líder populista que “fazem eco aos sistemas de expectativas dos cidadãos, que são sensíveis aos valores, mas também ao carisma [...] e à emoção situacional”. (CHARAUDEAU, 2011, p. 6).

Duarte; César (2020, p. 8) postulam que “o negacionismo põe em questão a autoridade dos cientistas, de seus métodos científicos, bem como a autoridade e a legitimidade das próprias instituições sociais destinadas à validação da produção do conhecimento”, pois o que interessa é a politização da ciência e dos cientistas, criando “confusões, dúvidas, incertezas, enganos e mesmo graves equívocos” (DUARTE; CÉSAR, 2020, p. 8). Entre março e setembro de 2020, dizem os autores, Bolsonaro pronunciou 1.417 frases sobre a pandemia, com foco na defesa do uso da Cloroquina, na imunidade de rebanho, na crítica à OMS e às suas recomendações sanitárias, e nos ataques políticos ao Supremo Tribunal Federal, aos governadores de Estado e aos prefeitos, acusando-os de não permitir que ele, o PR, gerisse a crise provocada pela pandemia. Ademais, o chefe de Estado foi contra o isolamento social, o uso de máscara e a vacina, principalmente a CoronaVac, por razões políticas e ideológicas (a vacina foi produzida com insumos chineses pelo Instituto Butantan, sob o Governo de João Dória do PSDB, um de seus maiores opositores).

Essas falas negacionistas de Bolsonaro foram divulgadas nas redes sociais, que alcançam milhões de cidadãos, multiplicando seu impacto de maneira exponencial e muito rapidamente, gerando mais polarização: cada grupo político pró e contra o presidente, buscando impor suas verdades e desqualificar os oponentes. Suas falas como a de outros políticos populistas apresentam valores e fingem dizer verdades, “jogam com a emoção em detrimento da razão política e carregam dramatização do cenário ao seu extremo” (CHARAUDEAU, 2011, p. 7).

A tese de Duarte; César (2020) é que o negacionismo transformou-se em estratégia política de gestão da pandemia e das condições de vida da população, na ausência de políticas públicas sanitárias coerentes. Na confusão criada pelo negacionismo, o interesse político e econômico se sobrepôs às recomendações das autoridades científicas no que se refere à prevenção de disseminação do vírus. O que se coaduna com os resultados da pesquisa coordenada pela Profa. Deisy Ventura, que teve como foco as normas produzidas pelo Governo de Jair Bolsonaro relacionadas à pandemia de covid-198. O boletim “Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Normas Jurídicas de Resposta à Covid-19 no Brasil” revela que houve uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo Governo brasileiro sob a liderança da PR.9

Nesses tempos de ascensão da direita no Brasil e no mundo, a mídia e as redes sociais se tornaram lugar de disseminação de negacionismo em detrimento da verdade factual. Isso se deve às possibilidades de uso de identidades falsas e pseudônimos para envio de mensagens falsas, de desinformação. Recuero (2021) mostra que um link que defendesse o uso de hidroxicloroquina para combater e curar Covid-19 no Twitter tinha uma probabilidade quase três vezes maior de ser repassado do que um link que contivesse algum conteúdo que desafiasse essa premissa. No Facebook, a probabilidade de um link desinformativo sobre esse medicamento era 1,5 vez maior do que a de um link com conteúdo informativo (SOARES; VIEGAS et al., 2020, apud RECUERO, 2021).

É nesse contexto amplo, que ocorre a CPI da Covid. Tanto os depoimentos quantos os comentários de internautas sobre os depoimentos são determinados por esse horizonte social.

3. Análise dos comentários

3.1. O corpus e os procedimentos de análise

O corpus desse estudo, comentários do depoimento à CPI da Covid da médica Mayra Pinheiro, Secretária no Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro, foi coletado no Youtube, plataforma que permite que usuários compartilhem vídeos e interajam com seus autores através de comentários, tendo se tornado uma plataforma integrada ao dia a dia das pessoas. É considerado o maior aglutinador de mídia de massa da internet no início do século 21.10

No momento de coleta (10/08/2021), selecionamos na opção “principais comentários” da própria plataforma aqueles que recorrentemente revelavam os pontos de vista dos internautas.

O quadro de comunicação do corpus é definido pela configuração da rede social, em que o vídeo pode ser visto e comentado simultaneamente. Ela permite, portanto, comunicações à distância entre os internautas que assistem aos vídeos, pela via escrita, em linguagem padrão ou “internetês”, e linguagem não verbal (emojis, fotos, desenhos), ou seja, a distância espacial é um fato e o tempo é simultâneo para os internautas que comentam o vídeo. A identidade social dos autores dos comentários pode ser expressa com um nome do locutor ou com um nome de perfil criado para interagir nas redes, ou seja, pseudônimos, avatares e robôs. Trata-se, portanto, de um espaço público onde o vídeo é endereçado ao grande público que assiste ao canal, no caso do corpus, aos que ouvem aos depoimentos da CPI da Covid. Coletamos o corpus no canal da TV Senado no Youtube.

Mayra Pinheiro fez uma apresentação inicial em que relata sua formação e sua atuação profissional – três décadas de trabalho em UTIs pediátricas, professora e coordenadora do Internato Médico de Pediatria de um curso de medicina, presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará. Os principais temas do seu longo depoimento divulgado na mídia foram os seguintes: o aviso ao Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello sobre o problema do oxigênio em Manaus; o uso indevido da plataforma TrateCov, aplicativo do Ministério da Saúde que recomendou o kit covid com cloroquina, ivermectina, azitromicina etc., e que segundo Pazuello foi hackeada; o uso da cloroquina como política de saúde; a imunidade de rebanho (Mayra Pinheiro disse que quando defendia o “curso natural” da doença, se referia à “população pediátrica” para que não fossem retiradas das escolas).11 Alguns desses temas, como vimos, foram amplamente defendidos e repetidos por Jair Bolsonaro.12

Apesar da orientação da ordem metodológica de Volóchinov apontada acima, é importante ressaltar que o corpus sempre aponta caminhos e surpreende o analista, ou seja, não temos um método determinado previamente e justificável para abordar os enunciados.

Dito isso, o pano de fundo para o estudo dos comentários eletrônicos dos internautas é a sua própria constituição. Trata-se de discurso sobre discurso: a partir de um texto fonte, o internauta constrói novos discursos, reacentuando diferentemente os aspectos temáticos, os sentidos múltiplos, explícitos ou subentendidos, ou introduzindo deslocamentos e mudanças de tema em função do seu ponto de vista. Trata-se, portanto, de um gênero dialógico no sentido amplo de diálogo com vozes mais distantes e no sentido estrito de diálogo com internautas que acompanham o depoimento. Desse modo, os comentários têm diferentes destinações: enunciados diretamente endereçados à depoente; à audiência como um todo, sem endereçamento, ou seja, a todos aqueles que assistem durante e depois do evento; a um determinado internauta que se pronunciou anteriormente. Em todos os casos, por ser uma comunicação pública, eles são endereçados ao mesmo tempo a toda a audiência. Isso dito, serão analisadas as relaçoes dialógicas, os pontos de vista, o conteúdo semântico axiológico, entre outros.

3.2. Embate entre vozes

Separamos os comentários dos internautas em dois grandes tipos, de acordo com a orientação do ponto de vista: a favor de Mayra Pinheiro, com elogios e parabéns; apoio ao tratamento precoce; crítica e insultos à CPI e aos senadores; e contra Mayra Pinheiro e seus apoiadores. Vejamos os comentários do primeiro tipo.

3.2.1. Pontos de vista a favor de Mayra Pinheiro

Elogios e parabéns endereçados diretamente à depoente:

Parabéns pela postura, Dra. Mayra Pinheiro 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽 excelente

Parabéns doutora Mayara Pinheiro,

Parabéns Dra Mayra 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏🌷🌷🌷🌷

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Parabéns Dra May, mulher competente e integra .Vc representa maravilhosamente todas as mulheres do Brasil!!! Vc é orgulho de todos brasileiros!!!

Colocar qualquer desqualificado no poder só dá nisso. Parabéns, Dra! Brilhante discurso! Isso sim é demonstração de preocupação, seriedade e ciência verídica. Viva a medicina baseada em evidências.

Parabéns Dra Mayra!! Este presidente e relator são ridículos! Não menosprezem a capacidade do povo brasileiro! Estamos vendo e ouvindo tudo!!

Parabéns pela competência Dra. Mayra. 👏👏👏👏👏👏

PARABÉNS dra! Teve a paciência e a educação que os interrogadores não tiveram...13

Elogios e parabéns endereçados a toda a audiência:

A dra está de parabéns. Foi educada,segura e técnica.

A secretária foi ótima em sua palestra com um semblante leve fala tranquilo esbosou sorriso e chegou a gargalhar respeitosamente... Só que ela estava lá pra testemunhar de forma clara e objetiva... E algumas vezes parecia Discursar...

essa mulher é um crânio parabéns ganhou um fã. MAYRA PINHEIRO NOTA... 10

Essa médica é FERA

Fernando Doutora Mayara Pinheiro foi brilhante. Pena que os "acéfalos" dominados pela ideologia são incapazes de enxergar a realidade

ARRASOU!! PARABÉNS!! DIGNO DE UMA PROFISSIONAL VERDADEIRA!

Essa Doutora foi demais...👍🏻💛 Colocou os machos do senado de joelhos 😎

Eita médicA...calou os comunistas....

Alguns comentários dirigidos diretamente a Mayra Pinheiro se limitam a parabenizar a médica enquanto outros os justificam com qualificativos referentes ao seu "caráter, conhecimento, brilhantismo, seriedade, competência, paciência, educação" etc., alguns acompanhados de emojis que expressam afetos, outros de insultos aos senadores: “desqualificados”, “ridículos”, “impacientes” e “mal-educados”, sendo todos carregados de valores.

Nos comentários que se referem à médica em 3ª pessoa, os apoiadores dela e do governo também a elogiam com epítetos como “educada”, “segura e técnica”, “fera”, “brilhante”, “um crânio”, insultam os senadores de “acéfalos”, “comunistas”. Como vimos, o comunismo é visto pela extrema direita, que ressuscitou o anticomunismo e o reacionarismo moral, como ameaça a ser derrotada. O epíteto comunista é carregado dos valores dessa extrema direita, sendo usado como insulto aos seus detratores.

Essa amostra de comentários revela que os internautas partilham os valores da médica que mentiu durante o depoimento, como foi apontado pelos senadores; que foi fotografada vaiando os médicos cubanos contratados pelo Programa Mais Médicos, no momento da chegada em Fortaleza em 2013; e é ré numa ação de improbidade administrativa na qual é investigada por sua atuação no colapso da saúde em Manaus, no início de 202114.

Apoio ao tratamento precoce

É a Cloroquina mesmo !!!!! Muitos amigos nossos estão salvos por causa dela !!!! ♥️💯

minha familia usou 7 positivos. 7 tratados c essa medicacao. Todos curados nenhum grave nenhuma internação

Note que a todos momento ela diz que está com as provas e referências positiva do efeito positivo do remédio Cloroquina porém note que nenhum deles querem saber da provas que ele trouxe ao senado.

Não tem vacina, só cloroquina é pegar ou largar.

Ela falou bastante da cloroquina e explicou tudo é uma pena não ser o q vc estava esperando. Ela eh preparada e embasada pra falar sobre. Nem se vc fosse surda daria pra dar essa desculpa de q não ouviu pra tem uma moça ali fazendo linguagem de sinais ...

BOLSONARO SEMPRE TEVE RAZÃO! EU E MINHA FAMÍLIA ESTAMOS USANDO IVERMECTINA E ESTAMOS BEM! TRATAMENTO PRECOCE SIM!🙏

eu ate essa cpi achava q nao deveria usar cloroquina, agora to começando a ver q ta obscuro esse negocio.

a midia continua batendo na tecla que é cientificamente comprovado que cloroquina/ivermectina nao funciona, e descartam a opiniao desses medicos. Midia na CPI!!!

Esse conjunto de comentários dirigidos à audiência retoma dialogicamente o discurso da médica que tem ressonâncias dialógicas das falas de Jair Bolsonaro. Durante o depoimento, Mayra Pinheiro disse: “Numa situação de guerra, nós lançamos mão de todas as evidências disponíveis para a gente salvar as pessoas, desde que a gente esteja diante de medicamentos seguros”. O que é retomado nos enunciados: “É a Cloroquina mesmo!!!!!; Não tem vacina, só cloroquina é pegar ou largar”.

Esses internautas acreditam no tratamento precoce assim como na imunidade de rebanho, seguindo o PR, políticos e médicos que defendem as mesmas posições dele, apesar de estudos científicos terem mostrado que o tratamento não tem eficácia contra a covid 19 e que a imunidade de rebanho é “uma falácia perigosa sem evidência científica”.15 Eles também não se questionam sobre quem ganharia dinheiro com a fabricação e distribuição do medicamento, sobre a razão de o exército ter fabricado 3,2 milhões de comprimidos da droga em 202016, questionamento feito pelas vozes do outro polo do confronto durante o mesmo depoimento. Seria possível atribuir esse posicionamento à falta de informação ou à ingenuidade daqueles que seguem cegamente o líder populista, cuja retórica simplista é carregada de emoções para seduzir parte da população com as ideias por eles defendidas.

Os comentários destacam diferentes aspectos dos temas do depoimento da médica: eficácia da cloroquina; relato de que tomaram esse medicamento e a ivermectina e não adoeceram; crença nas provas e referências positivas do efeito positivo da Cloroquina; crítica à mídia que repete que é cientificamente comprovado que cloroquina/ivermectina não funciona.

Crítica e insultos à CPI e aos senadores

quer um exemplo de senador inquiridor que mente? Vejam os argumentos do senador Rogério de Carvalho!

senadores desrespeitosos, uma vergonha... são esses em quem vocês votam minha gente... eles são educados quando querem votos...

Senadores sem educação.

Que vergonhoso, essa CPI é uma palhaçada!!! Cortam a resposta da médica pois tem medo da verdade e medo da população ser esclarecida.

Vergonha desses senadores bandalheiros, ignorantes e abusivos!

CRIMINOSOS NO COMANDO DA CPI DA PANDEMIA , Tem que rir pra não chorar. !!!!!!

Esse senador Humberto Costa vive em que mundo? 15 segundos... Seus argumentos são inacreditáveis. 👀

saltitante e vampiro, uma dupla curiosa....

ESSE fala fina estava outro dia estava aglomerado e sem máscara.

Ano que vem tem eleição... Não renova 70% desses Senadores, tenho quase certeza... uma das representantes aqui do MS (Simone Tebet) já perdeu meu voto, infelizmente...

Randolfuinhatbfede

: Renan Calheiros e Aziz devem voltar pro Nordeste pra comer calango. Otimamedica!!!!!

Esse tarso do CE. Morrendo de velho, e querendo lacrar. Outro é o da BA oto. Tentando lacrat. Sabe tudo de Medicina e está na política, porque é um cagalhao.

Os comentários sobre os senadores da oposição ao governo se inserem no conjunto dos que defendem a médica e são dirigidos à audiência e não diretamente a eles. Os exemplos mostram que são na realidade insultos: “mentiroso” (“que mente”), “desrespeitosos”, “bandalheiros”, “ignorantes”, “abusivos”, “criminosos”.

Alguns comentários retomam o discurso homofóbico do presidente Jair Bolsonaro para se referir ao vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues, que o chamou de “uma saltitante”.17 “Saltitante” e “fala fina” revelam os valores homofóbicos desses internautas; “vampiro” e “Randolfuinha”, este último condensando o nome do senador e o epíteto “fuinha” que popularmente significa “fofoqueiro”. Os insultos homofóbicos revelam os valores da extrema direta sobre a diversidade de orientação sexual, moralmente inaceitável para esse segmento.

Nos últimos enunciados, os internautas que apoiam o governo retomam dialogicamente os preconceitos e estereótipos contra nordestino, expostos abertamente por JB, que chamou pejorativamente o Nordeste de “Paraíba”18 e em outro momento gargalhou após fazer piada sobre o tamanho da cabeça do povo do Nordeste, desvelando sua ignorância e seus valores: ressentimento pelo fato de ter perdido as eleições no Nordeste19 e desprezo pelos mais pobres. Observamos mais um exemplo de adesão aos valores da direita que considera o politicamente correto como “imposição autoritária de valores e padrões culturais por parte de um Estado dominado pela ideologia de esquerda” (FEREZ JÚNIOR, 2017, p. 59).

Pontos de vista contra Mayra Pinheiro e apoiadores

Os comentários que se contrapõem à médica e a seus apoiadores são numerosos e diversos, acentuando diferentes aspectos dos temas tratados no depoimento.

Sobre os apoiadores de M. Pinheiro

Cheio de robô comentando 🤣😂🤣😂😅

99% do gado comentando aqui são robôs

Sobre os senadores

Parabens Senador Alessandro Vieira

Pelo menos 3 dos senadores que fazem parte da comissão são médicos e além disso eles possuem assessoria técnica.

Meus sinceros parabéns ao senador FABIANO CONTARATO, por essa iniciativa maravilhosa e humanamente compreensível.

Esses internautas desqualificam os apoiadores da médica (robôs) e respondem dialogicamente às críticas e insultos aos senadores da oposição por meio da polêmica velada (Bakhtin, 1997: 196), ou seja, quando “a palavra do outro não se reproduz sem nova interpretação, mas age, influi e de um modo ou de outro determina a palavra do autor, permanecendo ela mesma fora desta.”

Sobre o tratamento preventivo e a cloroquina

Advogando a favor de um medicamento tão contestado no mundo todo. Mais tecnicidade do que isso impossível. Quanto a educação os senadores não lhe fantaram com respeito, somente a interrompiam pois num depoimento com 15 minutos que tem cada parlamentar ela não pode divagar sobre assuntos que não interessam ou que já foram sanados. Caso ache que chamá-la de mentirosa é falta de respeito, seria se não fosse uma constatação da realidade proposta pelos próprios senadores sem ofensa moral. É o mesmo que chamar assassino de assassino.

É mentira. A CLOROQUINA não tem e nunca teve eficácia contra COVID. Só se for na casa dela.

Ela sabe q essa pomba de cloroquina não e indicada para covid, só tá enrolando todos eles!!

Não há remédio com eficácia comprovada para covid. Ponto

queremos vacina e não cloroquina

prevenção São, distanciamento físico, máscaras álcool gel, e higiene

Há uma série de comentários relativos ao tratamento precoce defendido pelo PR e pela médica que confessou que o Ministério da Saúde criou a Nota orientativa número dezessete em que estabeleceu “doses seguras para que os médicos brasileiros no exercício da sua autonomia pudessem utilizar esses medicamentos com o consentimento dos seus pacientes de acordo com o seu livre arbítrio.” Ela defendeu “esse tipo de tratamento, off label (uso de drogas farmacêuticas que não seguem as indicações homologadas para aquele fármaco), dizendo que tinha levado com ela para mostrar à CPI dois mil e quatrocentos artigos impressos que referendam as metanálises, mostrando as evidências, ou seja, comprovando a sua tese.

Os comentários a seguir são pontos de vistas que polarizam com os dos apoiadores da médica:

Comentários desqualificando a médica

É lógico que a Dr. MAIRA ÉCULPADA

É MUITA DESONESTIDADE INTELECTUAL DESSA MULHER!! ESSA AI COM CERTEZA FALTOU AS AULAS DE ETICA MÉDICA!! REPUGNANTE

Não sabe de nada, boçal e fica falando abobrinha blablabla

Impressionante! Essa mulher é uma metralhadora de mentira e ainda é muito cínica... mente e nem sente!

Acho uma injustiça chamar essa mulher de Capitã Cloroquina ela devia ser chamada de Doutora Menguele.

É evidente aqui o clima de polarização da audiência durante o depoimento: enquanto os apoiadores da médica e do governo a elogiam, os opositores fazem críticas que envolvem afetos (expressos pelas maiúsculas) e valores: desonestidade, falta de ética; cinismo. Além da acusação de que a médica é culpada, sem que se saiba qual é exatamente a culpa a que o internauta se refere. Dois internautas acusam Mayra Pinheiro de fazê-los de cobaia em razão de ela ter revelado a orientação do uso off label da cloroquina, o que faz um terceiro compará-la ao médico nazista Mengele que fazia experimentos humanos mortíferos em prisioneiros, entre outros crimes.

Comentários sobre o negacionismo do governo e da médica

só quem perdeu parentes pro vírus por causa do negacionismo desse governo entende

um monte de negacionista

NEGACIONISMO MATAAAAAAAA. AGORA NINGUÉM FALOU DE CLOROQUINA NE? ALEM DE GENOCÍDA ESSE GOVERNO É FAKE

Há apenas três comentários sobre o negacionismo que criou um clima social carregado de fanatismo e incertezas, de reação inicial de uma parte da população contra a vacina, tendo como consequência o elevadíssimo número de mortes no país, seja pela covid, seja pelo uso do tratamento precoce.

Comentários sobre as razões para a defesa do tratamento precoce:

Quem fabrica, transporta, receita, vende, faz propaganda, divulga....todos podem estar ganhando muito dinheiro! Quem faz Live defendendo esses medicamentos também podem estar ganhando!

os militares fabricam, Os pacientes desenformado pagam 61,00 no kit covid.

E as Farmácias, também vendem ! Tratamento Precoce para vírus é "VACINA", é PREVENÇÃO !

Donald trumpeh acionista de uma farmacêutica que comercializa a droga no brasil.

Enquanto os apoiadores do governo apoiam o uso da cloroquina e do kit preventivo, os oponentes indicam a razão para a fabricação, propaganda, prescrição desses medicamentos: o lucro. O que desvela os valores dos primeiros.

4. Considerações finais

O objetivo deste trabalho foi fazer uma reflexão empírica sobre o confronto de pontos de vista de negacionistas e de cientistas sobre a covid-19 na mídia digital. Os exemplos analisados mostram que o comentário é um gênero dialógico e dialogal, cada enunciado se consituindo a partir do discurso do outro, o “texto fonte” e os discursos dos demais internautas, com o propósito de se posicionar em relação aos dizeres explícitos ou subtentendidos. Eles são apenas uma amostra da ampla gama de comentários nas redes sociais.

Ao longo da análise, vimos um conflito dialógico de valores, uma polarização, cada integrante de um polo agindo no âmbito de um conjunto de valores que se opõe ao de seu antagônico. No corpus, como em outras redes sociais, internautas externam pontos de vista contrários à ciência bem como de cunho discriminatório de origem, idade e orientação sexual. Face à diversidade de perspectivas que podem ser adotadas diante de um texto, um ponto de vista se constitui na relação com outros aos quais eles se contrapõem, os defensores da ciência combatem os negacionistas e vice-versa, tornando a rede social um local de embate de afetos e valores: podemos considerar que há ignorância e ingenuidade em alguns internautas, e falta de honestidade, respeito, empatia, em outros. De outro, naqueles que retomam o discurso da ciência, valores mais próximos dos princípios morais e éticos básicos da dignidade da pessoa e dos direitos fundamentais.

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