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Research Report

The [VacontecimentoQUE] Construction and the Connection of Unequal Statements in Portuguese: Caveat as a Discursive Attitude

Priscilla Hoelz Pacheco

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https://orcid.org/0000-0002-1367-4114

Nilza Barrozo Dias

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https://orcid.org/0000-0003-3521-508X


Abstract

This work addresses the contrastive connection of utterances in contemporary Portuguese, investigating the semantic specifications and the caveat value of constructions [VacontecimentoQUE]. These constructions are formed by event verbs (acontecer, ocorrer and suceder), inflected in the third person singular of the present indicative, followed by the particle que. It is proposed that such constructions are used by speakers to introduce a rupture in the discourse, redirecting the argument that is constructed through the addition of more salient information. After constructional changes, ongoing research considers that micro-constructions such as acontece que, ocorre que and sucede que start to function as connectors that establish relations of inequality between segments. In the light of usage-based linguistics and based on the constructional approach to grammar, the analysis addresses the specificities of [VacontecimentoQUE] when connecting sentences, involving syntactic, semantic and pragmatic aspects. The studies of Halliday (1985; 2004) and Neves (1984; 2011) regarding clause connections are used as theoretical basis. Contrastive notions, based on Lakoff (1971), Longhin (2003), Neves (2011), Castilho (2016), and Azeredo (2018) are also used in the analysis. Primarily qualitative in nature, this research has as its corpus statements by senators, already available transcribed on the Senate's institutional website. The partial results indicate that statements introduced by [VacontecimentoQUE] constructions mark a rupture in the discourse due to the addition of a new clause that changes the direction of the argumentation. This new argument, in turn, may be loaded with a caveat effect, a speaker's discursive atitude which is a result of the pragmatic focusing effect in combination with the violation of semantic expectancy. The semantic specifications identified for [VacontecimentoQUE] are: (i) simple contrast, (ii) partial contrast, which can restrict or detail the preceding segment, (iii) contrast by non-realization, (iv) inferential contrast by justification and (v) discursive-pragmatic contrast by focusing. Caveat is most salient in the partial contrast specification.

Resumo para não especialistas

O funcionalismo linguístico visa a estudar a língua em situações reais de uso e não a partir de exemplos prontos. Isso significa que, nesta perspectiva, a língua é analisada a partir do que é dito pelas pessoas em seu cotidiano. A partir dessa abordagem, pode-se identificar mudanças em curso em relação ao significado de certas palavras ou expressões, indicando que novos sentidos podem surgir a partir das interações diárias. Neste trabalho, investigamos de que modo as expressões acontece que, ocorre que e sucede que, em sentenças como Ocorre que Presidente não pode tudo, são utilizadas por senadores, em seus pronunciamentos, para defender seus pontos de vista a partir do contraste de ideias. Nossa análise indica que o uso dessas expressões salienta uma informação que causa quebra de expectativa em relação ao que se disse anteriormente. A quebra de expectativa em evidência gera o que chamamos de ressalva, um tipo de contraste de ideias, que chama a atenção para um detalhe específico que desejamos enfatizar.

Introdução

Ao considerar que são as interações cotidianas e as experiências individuais que permitem a reestruturação do conhecimento linguístico, conforme preconizam as teorias linguísticas centradas no uso, este artigo adota a perspectiva do estudo da língua em situações comunicativas contextualmente estabelecidas. No escopo de uma investigação pautada sobre o uso de elementos linguísticos já existentes para instanciar novos valores semântico-pragmáticos ao discurso, este artigo apresenta uma proposta de análise acerca de construções do tipo [V+QUE], em que V é um slot preenchido por verbos de acontecimento (Gonçalves; Sousa; Casseb-Galvão, 2008), flexionados na terceira pessoa do singular do presente do indicativo e seguidos pela partícula que.

Este estudo tem corpus composto por pronunciamentos de senadores federais, coletados do site institucional do Senado[1], compreendendo os anos de 2018 e 2019. Para a análise, foram coletados dados com os verbos de acontecimento acontecer, ocorrer e suceder. Nossa hipótese principal é de que a construção [VacontecimentoQUE] funciona como conectora de enunciados contrastivos, em um contexto argumentativo, estabelecendo dois enunciados em posição de desigualdade, seja esta desigualdade desencadeada por oposição semântica lexical ou por polaridade (Neves, 2011), seja desencadeada por quebra de expectativa, em que o segundo segmento não realiza ou realiza parcialmente a expectativa criada a partir do primeiro segmento (Lakoff, 1971).

Embora a efetiva mudança linguística possa ser comprovada apenas por meio de estudos diacrônicos, Hopper e Traugott (2003) afirmam que uma dada sincronia já pode apresentar indícios relevantes de mudança no uso da língua. Dessa forma, a partir deste estudo, busca-se compreender se, em um contexto argumentativo, há esvaziamento semântico do sentido de acontecimento de [VacontecimentoQUE], com a projeção de um valor contrastivo e a instanciação de uma atitude discursiva de ressalva.

Este artigo, portanto, objetiva examinar como se constrói o efeito de sentido de ressalva, muito saliente em enunciados introduzidos pela construção. Nossa análise preliminar aponta que o uso de [VacontecimentoQUE] é parte de uma estratégia argumentativa adotada pelos senadores para convencer seus pares a aprovar um determinado projeto de lei. A partir da combinação do aspecto semântico contrastivo e do aspecto pragmático focalizador, funciona como elemento anunciador da ressalva no discurso.

O artigo estrutura-se a partir da apresentação de pressupostos quanto à conexão coordenada adversativa entre enunciados e a discussão das noções referentes ao contraste, em especial, quanto à quebra de expectativa. Na sequência, trata-se especificamente da ressalva, ainda pouco discutida e aprofundada na literatura. Após apresentados os procedimentos metodológicos, inicia-se a etapa de análise e discussão dos dados, a qual evidencia que a ressalva é mais saliente no valor de contraste parcial. Nas considerações finais, recuperam-se os principais pontos da proposta aqui apresentada, que confirmam que a construção em estudo funciona como elemento anunciador de ressalva, a partir do qual o enunciador sustenta sua posição e altera o rumo da argumentação.

1. A conexão coordenativa entre enunciados

Tomando sintaxe e semântica de maneira integrada na abordagem de conexão oracional, Halliday (2004) propôs a associação entre um eixo tático, que considera o grau de interdependência sintática entre os segmentos, e um eixo lógico-semântico, que define o grau de integração lógico-semântica entre segmentos. Grosso modo, de acordo com a teoria, o eixo tático considera os estatutos dos segmentos e pode ser divido entre parataxe, que corresponderia ao que a visão tradicional da gramática classifica como coordenação, e hipotaxe, que se refere à subordinação tradicional. Já o eixo lógico-semântico está mais relacionado ao plano funcional, compreendendo a relação semântica que se estabelece entre as orações. Este segundo eixo pode se relacionar por "expansão" (por extensão, elaboração ou realce) ou por "projeção” (por locução ou ideia).

Na teoria de Halliday (2004), o estatuto adversativo corresponde à relação paratática de expansão por extensão, do subtipo adição adversativa. Dessa forma, destaca-se que o contraste adversativo é considerado por Halliday como um acréscimo de informação que visa apresentar uma nova perspectiva para o tópico.

Sendo assim, tem-se que o valor básico de conectivos paratáticos, inclusive os adversativos, seja entre orações, seja entre enunciados, é a adição de um segmento de igual estatuto ao anterior. É preciso considerar, no entanto, que a realização de uma conexão entre enunciados está carregada de intenções comunicativas e argumentativas, indicando diferenças pragmáticas em relação a uma conexão oracional.

De acordo com Neves (2006, p. 246), a conexão entre enunciados se diferencia porque “o inesperado da sequência após a pausa chama a atenção para o próprio fato de haver sequência”. Desse modo, o acréscimo de um segmento coordenado após o ponto indicador de final de frase no texto transcrito da fala dos senadores, o qual pode ser associado a uma longa pausa na oralidade, aponta para o poder de interferência do usuário da língua no direcionamento da atenção de seu interlocutor, ressaltando o papel do falante na construção do texto em função de seus propósitos comunicativos.

O conteúdo semântico do novo segmento coordenado quebra a expectativa em relação à existência de uma sequência sintático-semântica ao trecho anterior. A pausa que se estabelece entre o momento final da entoação do primeiro segmento e o início de fato do novo enunciado acrescido por meio de coordenação é chamada por Neves de pausa dramática. Para a autora, esse tipo de pausa marca “mais diretamente uma intervenção do sujeito da enunciação no enunciado” (Neves, 1985, p. 62).

A quebra de expectativa proveniente da coordenação entre enunciados é também valor básico das relações contrastivas da língua. Os estudos de Neves (2011) apontam que tanto as relações adversativas quanto as concessivas partilham desse significado, que envolve não apenas o que está no nível do dictum, mas também a relação entre os interlocutores, o conhecimento de mundo partilhado, entre outras propriedades do nível do discurso. Assim, a noção de quebra de expectativa, já característica das conexões contrastivas, é ressaltada por essa pausa dramática causada pela conexão entre enunciados.

Como será possível verificar na seção de análise e discussão, a maior parte das ocorrências de [VacontecimentoQUE] apresenta-se na forma de conexão entre enunciados do tipo adversativa. Esse aspecto referente à forma dos segmentos tem estreita relação com as especificações semânticas contrastivas encontradas para [VacontecimentoQUE], bem como com sua função focalizadora que, ao promover destaque à informação introduzida, não apenas quebra a expectativa de não haver uma sequência, mas também estabelece, assim, uma desigualdade em relação ao segmento antecedente.

2. O valor contrastivo e a quebra de expectativa

Na língua, o contraste pode ser instanciado nos mais diversos níveis de forma e significado. Seja por prefixos que indicam negação ou o uso de termos que, em acepções dicionarizadas, não são antônimos, mas podem funcionar como perfeitos opostos, o contraste pode, ainda, ser estabelecido sintaticamente por conectores ou por recursos pragmáticos, como o foco, na intenção de diferenciar dois ou mais conteúdos.

O contraste está intimamente relacionado ao estabelecimento de desigualdade entre segmentos, funcionando como ferramenta na organização da informação e na estruturação da argumentação (Neves, 2011). Assim, a partir da comparação entre dois segmentos, sejam sintagmas, orações ou enunciados, a desigualdade pode ser verificada e o valor contrastivo identificado.

De acordo com Longhin e Ferrari (2020, p. 7):

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O trânsito entre os significados de comparação e contraste é legitimado pela noção de superioridade, em que, ao comparar seres, objetos ou eventos, o locutor assume atitudes de preferência e de negação, de seleção e de descarte, de modo que a superioridade na comparação é reinterpretada em termos de superioridade argumentativa.

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No português, considera-se a conjunção mas o conector prototípico dos conectores contrastivos. Neves (2011) indica que as especificações de desigualdade da conjunção podem se dar, essencialmente, por contraposição ou por eliminação. A contraposição pode ocorrer em direção oposta, na mesma direção ou em direção independente; já a eliminação pode se referir a uma relação temporal ou não. Vale ressaltar que as especificações semânticas de [VacontecimentoQUE] foram definidas nesta pesquisa com base nas definições de Neves (2011).

Por fim, a autora ressalta, ainda, que algumas dessas especificações ocorrem em início de enunciado, obedecendo a determinações pragmáticas. Entre esses usos, destacam-se a estratégia de mudança de foco da narrativa e a progressão temática, representadas, respectivamente, nos exemplos abaixo, extraídos de Neves (2011, p. 769-770). Sendo assim, a conjunção se estabelece na organização textual como um elemento de avanço.

a. A empresa construtora os deixou a ver navios. Tanto que eles, condôminos, é que lhe requereram a falência. Mas como disse você ainda agora, passemos adiante; onde estão os maridos?

b. Gosta da perspectiva de enfrentar a manhã chuvosa e fria, de caminhar lépida e só pela rua. Sair enquanto todos dormem, sem pedir licença, fá-la julgar-se independente e responsável. Mas a avó ouve-lhe os passos e chama-a (...).

Além dos conectores mais prototípicos e já convencionalizados pelas gramáticas, estudos recentes (Araújo, 2021; Azeredo, 2018; Correa, 2019; 2023; Dias, 2023; Horta, 2021; Longhin; Ferrari, 2020; Novo, 2021; Pacheco 2020) apontam o surgimento de novas maneiras de conectar segmentos contrastivos na língua. A emergência dessas novas formas, em geral menos prototípicas, decorre da necessidade do falante de atingir seus propósitos comunicativos. Assim, por meio de pressões contextuais, formas já existentes na língua assumem novas funções e passam a ser utilizadas como elementos conectores de segmentos interpretados, de certa maneira, como desiguais.

Ainda em relação ao mas e, por extensão, aqui pode-se aplicar a outros elementos linguísticos que se assemelham à conjunção em sua aplicabilidade contrastiva, Lakoff (1971) trata de duas vertentes semânticas distintas em relação à conexão de segmentos desiguais. A primeira está relacionada à realização de oposição semântica e, a segunda, à noção de quebra de expectativa.

Quando em oposição semântica, duas sentenças simétricas são semanticamente contrastivas, de modo que a inversão da ordem das sentenças não altera a interpretação.

a. João é rico, mas Paulo é pobre.

No exemplo extraído da obra da autora, dois elementos são colocados em comparação (João e Paulo) e duas características antônimas são atribuídas a cada um deles.

Já o mas que estabelece quebra de expectativa está intimamente relacionado à atitude do falante. Nesse caso, além de não haver simetria, é necessário recuperar a informação pressuposta no segmento anterior. Aqui trata-se da pressuposição no sentido pragmático, isto é, da informação que é tomada pelo falante como conhecimento comum e tomado como verdade entre os participantes da conversação (Stalnaker, 1972).

b. João é um republicano, mas é honesto.

Nesse segundo caso, é preciso recuperar a informação “todo republicano não é honesto”, que culmina na proposição lógica de que “se João é republicano, então ele não é honesto”. Desse modo, o segmento iniciado por mas quebra a expectativa de que João, por ser republicano, não seria honesto.

Em ambos os casos, destaca Lakoff, o papel do contexto é crucial para identificar essas especificidades. Vejamos o exemplo também proposto pela autora:

c. João é rico, mas estúpido.

O exemplo acima pode tanto apresentar leitura de oposição semântica quanto de quebra de expectativa, a depender do contexto de enunciação. Ao considerarmos um contexto em que João está sendo avaliado para algum propósito, em que rico e estúpido estão dispostos em polaridade, ambas as palavras, mesmo que não sejam antônimos perfeitos, estão em conflito. Desse modo, a leitura é de oposição semântica. A leitura de quebra de expectativa, por sua vez, requer a recuperação de uma informação pressuposta de que “todo rico não é estúpido”, culminando na proposição lógica de que “se João é rico, então ele não é estúpido”. Dessa maneira, a oração iniciada por mas introduziria uma quebra de expectativa em relação a essa proposição.

Ainda no que se refere à quebra de expectativa, vale acrescentar que Van Dijk (1977), em estudo sobre o papel de conectivos do inglês que estabelecem relações adversativas e concessivas, verificou que tais conectivos contrastivos, em contexto de quebra de expectativa, podem sinalizar circunstâncias em que as propriedades e os cursos dos eventos contrariam as expectativas normais; podem indicar eventos inesperados ou indesejados e, ainda, podem expressar a não satisfação de condições possíveis ou necessárias.

3. O fenômeno da ressalva

Em nossa pesquisa, para além das especificações semânticas encontradas, verificou-se que [VacontecimentoQUE] realça a informação por ela introduzida, fazendo com que essa informação apresente superioridade argumentativa[1] em relação ao segmento precedente. Assim, funciona como um importante recurso de organização da informação e, conforme apresentado anteriormente, de estruturação da argumentação, de modo semelhante ao que aponta Neves (2011) em relação às propriedades da conjunção mas.

Em especial, nos casos em que há quebra de expectativa, essa informação focalizada desconsidera totalmente ou parcialmente o que foi estabelecido antes, ao mesmo tempo em que realça um detalhe, uma observação, que altera o rumo da argumentação que se constrói. Essa propriedade semântico-pragmática de estabelecer contraste entre dois segmentos, envolvendo negação, ainda que parcial, de pressuposição e foco de um detalhe fundamental para a argumentação é o que chamamos de ressalva.

Vale ressaltar que o arcabouço teórico sobre esse fenômeno pragmático é limitadíssimo. Pouco foi encontrado em buscas que envolveram dissertações, teses e obras de estudiosos de referência da linguística brasileira. Alguns trabalhos sobre o uso de adversativas e concessivas no português citam de forma breve a ressalva nas análises de seus dados em estudo (Coneglian, 2019; Margarido, 2010), sendo interpretada como uma espécie de restrição[1].

É interessante destacar que, nos dois trabalhos verificados, os exemplos analisados como contendo ressalva são de segmentos concessivos. Desse modo, diferentemente do que acontece em nossos dados, as ressalvas identificadas nos dados de Coneglian (2019) e Margarido (2010) não desconsideram a declaração do segmento anterior. Vejamos o trecho abaixo, extraído de Margarido (2010, p. 152):

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Nunca antes neste mundo, parafraseando o presidente Lula, as condições materiais de existência de tantas centenas de milhões de pessoas mudaram espetacularmente para melhor em tão pouco tempo - embora os beneficiários desse salto quântico ainda sejam apenas mais ou menos 1/3 da população de 1,3 bilhão (OESP, 22/10/07).

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Em análise do trecho acima, Margarido (2010, p. 153) afirma que o locutor traz no trecho concessivo uma ressalva a fim de mostrar uma avaliação sua a respeito da atitude de Lula. Ela destaca que a voz do locutor vem no segmento concessivo para deixar “evidente que o adendo presente nesse segmento contribui para reforçar o argumento defendido pelo locutor”. Ainda de acordo com a autora, esse adendo seria mais compatível com informação ainda não conhecida e, portanto, ainda não compartilhada com o interlocutor. Vale ressaltar que essa informação ainda não conhecida, introduzida por embora, não altera o curso dos eventos, tendo em vista a afirmação de que milhões de pessoas mudaram suas condições de existência para melhor.

Já as ressalvas identificadas neste estudo não apenas são propositalmente incluídas no discurso pelos falantes, mas também são determinantes para alterar o rumo da argumentação, desconsiderando total ou parcialmente a informação antes compartilhada. Isso será demonstrado na seção de análise.

Ainda no que se refere à busca conceitual sobre ressalva, a obra Gramática Revelada em Textos (2018, p. 829), de Maria Helena Moura Neves, ao tratar dos usos do mas, traz um trecho em que um avô apresenta à neta a chave de uma caixa onde diz guardar muitos segredos. A neta, por sua vez, reage: “detesto segredos”. O avô então, diz: “Eu sei. Mas esses segredos são importantes e algum dia você vai aprender a valorizá-los tanto quanto eu”. Ao descrever o trecho, Neves (2018) salienta que o avô, ao retrucar, aceita a posição da neta. Em seguida, entretanto, ele parte para a sua argumentação fazendo uma ressalva, que contesta a validade de uma refutação geral dos segredos. A neta pode detestar segredos, mas o detalhe é que os segredos dele são importantes e, portanto, quebram o que seria acarretado ou o que seria esperado.

Azeredo (2022)[1], ao comentar esse exemplo da obra de Neves (2018), ressalta a sutileza da refutação do avô que, embora aceite a posição da neta, também a contesta. Acrescentando informação nova que avalia e justifica a importância dos segredos, o avô, estrategicamente, não discorda radicalmente da neta e, ao mesmo tempo, reforça sua posição.

Diante do que apresentamos sobre a ressalva, entendemos que sua materialização no discurso indica o peso que aquele segmento carrega ao orientar para uma dada conclusão. Assim, a ressalva apresenta a função de, ao mesmo tempo em que assume a validade de uma determinada afirmação geral, contestá-la. Essa contestação é instanciada pelo acréscimo de um detalhe que altera o que seria acarretado ou esperado. Na argumentação discursiva, portanto, a ressalva é uma estratégia do falante de mostrar-se aberto à posição do interlocutor, porém reforçando e demarcando ainda mais sua própria posição.

No caso de nosso corpus de análise, composto por pronunciamentos, trabalha-se a ideia de que a ressalva se refere à atitude discursiva do falante de assumir uma postura crítica diante de uma informação anterior que ele mesmo trouxe ao discurso. Assim, em um mesmo contexto, o enunciador assumiria dois papeis, dispondo duas vozes em conflito: a primeira delas apresentaria uma dada informação, enquanto a segunda voz contestaria parcial ou totalmente o que foi apresentado, ocasionando uma alteração no rumo da argumentação. Dessa maneira, a ressalva, portanto, seria estabelecida.

4. Metodologia

Tendo em vista que trabalhos anteriores (Travaglia, 2003; Pacheco, 2020; Dias; Ramos; Pacheco, 2020) já apontavam o uso de acontece que — uma das microconstruções instanciadas por [VacontecimentoQUE] — como um operador argumentativo, optou-se por realizar a coleta de dados em um repositório constituído predominantemente por textos tipologicamente argumentativos. Assim, o corpus desta pesquisa é composto por pronunciamentos de senadores federais, proferidos em plenário, transcritos e disponibilizados no site institucional do Senado. Com caráter prioritariamente qualitativo, esta pesquisa possui abordagem sincrônica.

Utilizados pelos senadores para discutir projetos de lei, emitir pontos de vista, anunciar suas próprias realizações em relação a um tema específico, os pronunciamentos possuem um caráter heterogêneo quanto à sua modalidade. Embora possam apresentar um roteiro definido, com trechos previamente escritos, seu contexto é marcado predominantemente pela oralidade. Nas sessões, também ocorrem interrupções e interações entre senadores. Desse modo, considerando que o processo de mudança linguística decorre do uso linguístico (Bybee, [2010]2016), motivado pela necessidade de expressividade do falante e do conjunto de forças da situação comunicativa, os pronunciamentos dos senadores se tornam um corpus promissor de análise.

A coleta de dados no repositório do Senado foi realizada por meio de busca genérica, em que se introduzem palavras-chaves e se seleciona em que lugares do site se deseja procurar. Desse modo, foram pesquisadas as palavras-chave “acontece que”, “ocorre que” e “sucede que”, entre aspas, dentro da categoria de pronunciamentos. As aspas são necessárias para que a busca retorne dados apenas com as palavras nessa ordem, ignorando ocorrências em que os verbos de acontecimento possam aparecer conjugados em outro tempo, número ou pessoa, bem como ocorrências que apresentem material interveniente. De todo o universo do banco de dados, optou-se por filtrar apenas as ocorrências referentes aos anos de 2019 e 2018. A partir da aplicação desse filtro, o corpus deste estudo é composto por 77 ocorrências de acontece que; 67 de ocorre que e três de sucede que, totalizando 147 dados analisados.

Para atender ao objetivo de investigar como emerge o efeito de sentido de ressalva, muito saliente em enunciados introduzidos pela construção, a análise foi realizada com base nos estatutos referentes à conexão oracional, neste caso, adaptada à conexão entre enunciados (Halliday, 2004; Neves, 1984, 1985, 2006). Os trabalhos que envolvem o valor semântico contrastivo, principalmente aqueles voltados ao estudo do membro exemplar da categoria dos conectores de contraste, a conjunção mas (Azeredo, 2018; Castilho, 2016; Neves, 2011), também funcionam como guia para nossa investigação. Ainda nesse escopo da desigualdade, também investigamos a quebra de expectativa (Lakoff, 1971; Longhin, 2003; Van Dijk, 1977), que contribui fortemente para a compreensão de como se dá a ressalva.

A pesquisa em andamento verificou que são cinco os valores semânticos principais para a construção em estudo, exemplificados no quadro abaixo, com dados referentes a ocorre que. Entretanto, como será verificado, a ressalva é mais representativa no valor de contraste parcial.

Figure 1. Quadro 1 - Especificações semânticas identificadas e exemplos. Fonte: Elaboração própria, com base em pesquisa de doutorado em desenvolvimento por Pacheco.

Por questões de restrição de espaço, não abordaremos na seção de análise e discussão a distinção entre todas as especificações semânticas encontradas para [VacontecimentoQUE]. Tendo em vista que o objetivo neste artigo é tratar da função anunciadora de ressalva da construção, serão apresentados dados referentes apenas à especificação semântica de contraste parcial, seja ele por restrição ou detalhamento, uma vez que esta é a especificação mais representativa desta atitude discursiva. Desse modo, possibilita-se uma melhor descrição das especificidades pragmáticas encontradas nos dados.

5. Análise e Discussão

Como dito anteriormente, apresentaremos nesta seção apenas dados referentes à especificação semântica de contraste parcial, tendo em vista que, em nosso corpus, esta é a especificação mais representativa da atitude discursiva de ressalva[1]. Nos dados que apresentam contraste parcial, é usual que os segmentos introduzidos por [VacontecimentoQUE] indiquem circunstâncias que contrariem as expectativas normais, sinalizem eventos inesperados ou indesejados ou, ainda, expressem uma não satisfação de condições prováveis ou necessárias. Além de quebra de expectativa, há focalização da informação adicionada que, ocasionando efeito de sentido de ressalva, é utilizada como estratégia do falante para alterar o rumo de sua argumentação.

Em nosso corpus, são 32 as ocorrências de contraste parcial para acontece que, 27 as para ocorre que e duas as ocorrências de contraste parcial para sucede que. Dessa maneira, as ocorrências de contraste parcial correspondem a 40,8% do corpus. Considerando a diferenciação entre o que restringe e o que detalha, essas ocorrências estão subdivididas conforme a tabela abaixo:

Figure 2. Tabela 1 - Tipos de contraste parcial em cada instanciação de [VacontecimentoQUE] Fonte: Elaboração própria.

Para estabelecer o que consideramos como contraste parcial, recorremos ao que Neves (2011) chama de contraposição em direção oposta que restringe, por acréscimo de informação, o que acaba de ser enunciado. Essa restrição “pode significar uma exclusão parcial, estando expressos, por vezes, indicadores de negação, privação, insuficiência” (Neves, 2011, p. 761).

No entanto, na análise dos dados, verificou-se que esse acréscimo de informação está relacionado à retomada de uma unidade de informação do segmento precedente, podendo apresentar restrições ou detalhamento em relação a essa unidade retomada em evidência. Assim, o acréscimo de informação contrastiva diz respeito à unidade retomada, podendo restringir o que é dito, limitando o escopo da argumentação e apresentando índices (numéricos ou não) de privação e insuficiência. Pode, também, servir como uma estratégia de detalhamento, que visa justificar, avaliar a situação ou especificar os papeis discursivos, ao trazer novas informações sobre o tópico que está no palco.

Seja pelo que chamaremos de restrição, seja pelo que definimos como detalhamento, ambas as noções alteram o rumo da argumentação, assim como nas demais especificações semânticas encontradas.

Vejamos o exemplo abaixo:

(1) O orçamento é sempre de um ano para o outro. E, nessa estimativa da receita, previu-se, no orçamento que está em vigor, um crescimento da economia de 2,5%. Sucede que até o presente momento – e já estamos perto do meio do ano –, o crescimento foi de pífio 1%. Isso significa que, se não contingenciar, o Governo vai cometer crime de responsabilidade fiscal. Contingenciar, repito, não é cortar. Contingenciar é adiar uma despesa para fazê-la depois. Normalmente, isso é feito no primeiro semestre de qualquer governo (Roberto Rocha, PSDB-MA, em 17/05/2019).

Inicialmente, no trecho acima, o senador explica como é feito o orçamento e traz a informação do quanto se previu de crescimento da economia para o ano. No enunciado introduzido por sucede que, Roberto Rocha apresenta índices de privação ou insuficiência, com dados numéricos que delimitam essa expectativa de crescimento da economia.

Assim, não apenas o curso dos eventos contraria as expectativas estabelecidas na previsão, apresentando um efeito indesejado, como também não expressa a satisfação de condições necessárias para que, até o fim do ano, haja o crescimento esperado. Desse modo, é verificado no trecho restrição do tipo temporal, tendo em vista que, apesar de a previsão englobar o ano inteiro, há a indicação de que se está na metade do período, e também restrição percentual, uma vez que, dos 2,5% esperados, atingiu-se apenas 1%.

No que tange à recuperação da informação, infere-se que, mesmo que não obrigatoriamente uma previsão seja cumprida, sempre existe a probabilidade de sua concretização. Com a retomada do léxico crescimento, o segmento introduzido por sucede que lança dúvida quanto a essa previsão. Esse segmento tem forte carga avaliativa, explicitada pelo adjetivo pífio, que escancara o ponto de vista do falante. Ele é seguido de um outro segmento que visa justificar a posição do senador, sustentando, assim, sua argumentação. Dessa maneira, o falante introduz um evento, realiza uma contraposição ao mesmo tempo em que o avalia e, na sequência, justifica seu ponto de vista.

Verificou-se que, em dados do tipo contraste parcial, o falante escolhe retomar um termo e o especificar, naturalmente gerando um efeito de sentido de destaque da informação apresentada. Assim, o uso de [VacontecimentoQUE] se apresenta como uma estratégia para focalizar a parte do discurso que se deseja que o interlocutor tome como informação principal. Essa focalização, combinada com a quebra de expectativa, resulta numa ressalva que irá nortear a argumentação com o propósito de convencimento.

Conforme dito anteriormente, para garantir seu propósito comunicativo, o falante assume duas vozes distintas no discurso. A primeira delas introduz uma dada informação, neste caso, referente à estimativa de crescimento da economia de 2,5%. A segunda voz, por sua vez, assume um tom crítico em relação a essa informação anterior, trazendo à tona um detalhe que não só faz diferença, mas sustenta a posição argumentativa do falante daquele momento em diante.

Vejamos mais um exemplo, com o uso de ocorre que:

(2) O Governo brasileiro, de 2008 a 2014, transferiu aos cofres do BNDES cerca de R$716 bilhões, R$378 bilhões com origem no Tesouro nacional. Ocorre que o Governo brasileiro não tinha essa disponibilidade no seu caixa. Esses recursos foram tomados junto ao mercado, com o pagamento de taxas de juros da ordem de 13%, 14% (Senador Álvaro Dias, Podemos, 08/04/2019).

No trecho acima, o senador Álvaro Dias traz dados sobre o dinheiro transferido do Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) entre o período de 2008 a 2014. Dessa maneira, infere-se que, se houve transferência, havia dinheiro disponível. No entanto, a sentença introduzida por ocorre que, retoma o sintagma governo brasileiro e adiciona uma nova informação sobre ele, restringindo as condições dessa transferência.

Dessa maneira, é estabelecida uma quebra de expectativa, marcada, como diz Neves (2006), pelo próprio fato de o segmento apresentar um acréscimo contrastivo. Nega-se, portanto, a pressuposição de que, toda transferência, para ser realizada, implica a existência de dinheiro em caixa, contrariando, conforme Van Dijk (1977), as expectativas normais. Dessa forma, o trecho iniciado por ocorre que muda o rumo da sequência argumentativa, realizando uma contraposição parcial que confere destaque à indisponibilidade do dinheiro transferido.

Mais uma vez, a quebra de expectativa e a focalização da informação acrescentada geram sentido de ressalva. Assim, embora não seja expresso de maneira clara pelo falante, que evita o uso de elementos avaliativos, a postura crítica do falante no segmento introduzido por [VacontecimentoQUE] faz com que o interlocutor interprete que o senador é contrário a esse tipo de medida, que afeta diretamente o contribuinte que, não por acaso, é seu eleitor.

Já no que chamamos de contraste parcial que detalha, a sentença introduzida por [VacontecimentoQUE] retoma parte do conteúdo do trecho anterior e traz um desdobramento para essa parte em destaque. Esse desdobramento pode ser uma justificativa ou uma avaliação do falante sobre a situação, às vezes visando especificar os papeis discursivos.

O exemplo abaixo trata sobre um projeto de lei quanto à permissão de venda de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. Nele, ocorre que insere retomada, realizada por meio de expressão anafórica tal fundamento. Dessa forma, o falante não só qualifica o fundamento da aprovação do projeto de lei — em sua visão, o interesse em arrecadar impostos — como também insere uma justificativa contra esse interesse.

(3) O Deputado Estadual, idealizador desse esdrúxulo Projeto de Lei 85, de 2009, não escondeu, Senador Lasier, no texto da proposta, que o interesse na aprovação desta matéria tem como prioridade arrecadar sabe o quê? Impostos. Ocorre que tal fundamento que visa privilegiar as questões comerciais e aumentar os lucros milionários, bilionários da indústria de bebidas faz questão de dar as costas aos enormes custos sociais e aos riscos trazidos pelo consumo de álcool, principalmente no local onde as rivalidades, as paixões, os ânimos estão sempre à flor da pele. Literalmente é colocar fogo numa panela de pressão (Senador Eduardo Girão, Podemos, 26/03/2019).

Assim, por meio da inserção da sentença introduzida por [VacontecimentoQUE], o falante toma exclusivamente como objeto de sua contraposição a prioridade do criador do projeto de lei em arrecadar impostos e traz um detalhamento sobre isso. Embora ele possa estar avesso ao projeto de lei como um todo, ele escolhe se justificar unicamente quanto ao interesse do deputado sobre a questão tributária.

Dessa forma, o senador, ao recuperar a informação do trecho antecedente quanto à prioridade de arrecadar impostos, nega a pressuposição de que esse deveria ser o interesse principal. O segmento iniciado por ocorre que introduz um evento indesejado, do ponto de vista do falante, que não satisfaz as condições necessárias para a aprovação de um projeto de lei, tendo em vista que dá as costas aos enormes custos sociais e aos riscos trazidos pelo consumo do álcool.

Assim, pela retomada por meio do sintagma anafórico tal fundamento, são especificados os ganhadores e perdedores dessa relação, identificando os lucros das empresas e os riscos aos frequentadores dos estádios. Todo o detalhamento, com alta carga avaliativa, funciona como uma justificativa para assumir um posicionamento contra colocar interesses comerciais acima dos possíveis riscos sociais envolvidos.

A ressalva presente no trecho, que sustenta a posição do falante contra a aprovação da proposta, é resultado da quebra de expectativa em relação à prioridade da arrecadação de impostos em combinação com a focalização dos argumentos organizados no segmento.

Cabe ressaltar a diferença entre os três exemplos até então discutidos. Embora todos apresentem retomada de uma unidade informacional, a qual fica em evidência, caracterizando o contraste parcial, os dois primeiros exemplos apresentam ou um índice numérico que restringe essa unidade informacional (como no caso do crescimento, que é delimitado em termos percentuais) ou uma negação que indique limitação ou insuficiência (como no caso do governo brasileiro, que não possuía o valor em caixa). Já no dado referente ao contraste parcial que detalha, a unidade informacional em evidência é esmiuçada, justificada ou avaliada, sem necessariamente ser delimitada.

Abaixo, há outro trecho que se refere ao tipo contraste parcial que detalha. No pronunciamento, o senador José Medeiros trata sobre um caso específico ocorrido em Mato Grosso, em que uma tribo indígena foi multada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por uma suposta plantação irregular.

(4) No Mato Grosso, Sr. Presidente, nós temos algumas tribos – paresi, nambikwára, manoki também – que já têm um sistema de sobrevivência estruturado. Eles plantam nas suas próprias terras e não dependem mais de recursos do Estado para sobreviver. Acontece que essas tribos, Sr. Presidente, estão sendo extremamente perseguidas pela estrutura institucional.

Como se pode verificar, a sentença iniciada por [VacontecimentoQUE], instanciada por acontece que, retoma o vocábulo tribos, acrescentando informação ainda não considerada. Desta vez, esse acréscimo de informação corresponde a uma avaliação do falante, introduzida para contrastar com o segmento anterior.

Ao dizer que as tribos estão sendo perseguidas pela estrutura institucional, tendo como base o argumento de que foram multadas pelo órgão fiscalizador ambiental, nega-se a inferência de que os índios, por plantarem em suas próprias terras e não dependerem mais dos recursos do Estado, estão livres de quaisquer intervenções estatais. Assim, o segmento iniciado por acontece que expõe, do ponto de vista do falante, um evento inesperado e indesejado. Ademais, as circunstâncias também parecem contrariar o curso normal. Uma vez que os índios já dependeram dos recursos estatais, eles eram, portanto, protegidos pelo Estado; agora, por outro lado, são vistos pelo senador como perseguidos. Assim, a ressalva é resultado da quebra de expectativa em relação ao tratamento conferido às tribos, em combinação com o foco concedido ao objeto particularizado.

Considerando os dados trazidos para análise, pode-se depreender que as ressalvas identificadas neste estudo são decorrentes do jogo de vozes no discurso, jogo este intencionalmente instanciado pelo próprio falante. Dessa maneira, a ressalva pode ser compreendida como uma atitude discursiva, em que o falante se coloca na posição de, primeiramente, assumir um tom informativo e, logo após, um tom crítico diante da informação apresentada. Assim, essa atitude discursiva é estratégica para alterar o rumo da argumentação e permitir que o falante atinja seu propósito comunicativo de convencimento.

6. Considerações Finais

Neste artigo, apresentou-se uma proposta de análise acerca de construções do tipo [V+QUE], em que V é um slot preenchido pelos verbos de acontecimento acontecer, ocorrer e suceder (Gonçalves; Sousa; Casseb-Galvão, 2008), flexionados na terceira pessoa do singular do presente do indicativo e seguidos pela partícula que. A partir da hipótese principal de que a construção [VacontecimentoQUE] funciona como conectora de enunciados contrastivos, em um contexto argumentativo, objetivou-se examinar como se constrói o efeito de sentido de ressalva, muito saliente em enunciados introduzidos pela construção.

Embora sejam cinco os valores semânticos principais para a construção — (i) contraste simples, (ii) contraste parcial, que pode restringir ou detalhar o segmento precedente, (iii) contraste por não realização, (iv) contraste inferencial por justificativa e (v) contraste discursivo-pragmático por focalização — a discussão de dados neste artigo concentrou-se na especificação semântica de contraste parcial, uma vez que nela a ressalva é percebida de modo mais saliente. Ademais, a especificação também é a mais frequente entre todas os valores identificados.

A análise indicou que o uso de [VacontecimentoQUE] é parte de uma estratégia argumentativa adotada pelos usuários da língua, em que a construção em estudo funciona como elemento anunciador de ressalva. Nesse sentido, parte dessa estratégia consiste em que o enunciador assuma duas vozes distintas no discurso, dispondo-as em posição de conflito: a primeira voz, assim, introduz uma dada informação, enquanto a segunda voz, por sua vez, assume uma postura crítica, contestando parcial ou totalmente o que foi apresentado. Vale ressaltar que essa contestação funciona como justificativa, o que nos leva a inferir que esteja conectada à argumentação discursiva. Assim, a partir desse jogo de vozes, o enunciador sustenta sua posição e altera o rumo da argumentação, guiando-a para a conclusão que lhe é mais desejável.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

As autoras declaram não haver conflito de interesse.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados, códigos e materiais que suportam os resultados deste estudo estão disponíveis apenas para consulta em Senado Federal, através do link https://www12.senado.leg.br/hpsenado.

Referências

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Avaliação

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2024.V5.N2.ID731.R

Decisão Editorial

EDITOR: Roberta Pires de Oliveira

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4946-7205

FILIAÇÃO: Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina, Brasil.

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CARTA DE DECISÃO: The paper contributes to our understanding of the flow of discourse. It presents an analysis of the construction [V of occurence QUE] in contemporary Portugues.The construction is formed by event verbs ('ocorrer', 'acontecer', 'suceder'), and the subordinate conjunction'que'. It is used in discourse to introduce more salient information. The authors argue that those constructionsare connectors that relate fragments of discourse, by adding a new argument that changes the direction ofthe conversation. The theoretical framework is the constructionapproach to grammar. The corpus is composed of statements by senators, delivered in plenary.

Rodadas de Avaliação

AVALIADOR 1: Renato Miguel Basso

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2580-0365

FILIAÇÃO: Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil.

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AVALIADOR 2: Dirceu Cleber Conde

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5141-5861

FILIAÇÃO: Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil.

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AVALIADOR 3: Maria José Gnatta Dalcuche Foltran

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0764-352X

FILIAÇÃO: Universidade Federal do Paraná, Paraná, Brasil.

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RODADA 1

AVALIADOR 1

2024-02-08 | 07:57 AM

O artigo "A construção [VacontecimentoQUE] e a conexão de enunciados desiguais no português: a atitude discursiva da ressalva" trata da análise de uma construção relativamente recente que assume valores de ressalva, um tipo de contraste argumentativo por quebra de expectativa, no português brasileiro.

O texto é muito bem organizado e redigido, e as análises são interessantes e coerentes. Sendo assim, a meu ver, trata-se de uma contribuição importante e relevante para a área. Há, contudo, alguns pontos que julgo que merecem uma maior elaboração tanto para a compreensão da análise quanto para sua devida valorização. Alguns desses pontos têm a ver com definições mais precisas de conceitos, e também com a necessidade de fornecer exemplos emblemáticos que ilustrem as noções e contrastes apresentados. Há também algumas questões de terminologia que, a meu ver, merecem atenção. Nada disso, no entendo, desvaloriza a contribuição do texto, mas acredito que lidar com os pontos levantados podem deixá-lo ainda melhor.

Diante do exposto, sou de parecer favorável à sua publicação, mediante revisão de alguns desses pontos, que vêm todos indicados em comentários no corpo do próprio texto.

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AVALIADOR 2

2024-02-29 | 07:20 PM

Recomendação: Correções obrigatórias.

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AVALIADOR 3

2024-02-22 | 09:05 AM

O texto “A construção [VacontecimentoQUE] e a conexão de enunciados desiguais no português: a atitude discursiva da ressalva” propõe uma análise das construções [VacontecimentoQUE], como acontece que, ocorre que e sucede que. O artigo se habilita a examinar essas expressões como marcador discursivo que instancia um efeito de sentido de ressalva. A análise identifica 5 valores semânticos para as construções em foco: (i) contraste simples, (ii) contraste parcial, que pode restringir ou detalhar o segmento precedente, (iii) contraste por não realização, (iv) contraste inferencial por justificativa e (v) contraste discursivo-pragmático por focalização. Como o recorte anunciado no título do texto é a atitude discursiva de ressalva e esse efeito é apontado apenas para o valor (ii) (contraste parcial), o(a) autor(a) opta por analisar apenas os dados que se encaixam aí.

Para dar conta das expressões em pauta, mobilizam-se conceitos como conectivos paratáticos, quebra de expectativa, atitude do falante, focalização, ressalva (alteração do rumo da argumentação).

Na análise e discussão dos dados, o(a) autor(a) seleciona do corpus (descrito na metodologia) 1 exemplo com sucede que, 2 com ocorre que e 1 com acontece que, todos eles de contraste parcial. A partir desses exemplos, salienta-se a estratégia de focalização do discurso combinada com a quebra da expectativa, gerando efeito de ressalva sustentada pelo enunciador, alterando o rumo da argumentação.

Em relação aos detalhes formais, o texto está bem organizado e muito bem escrito. Faço apenas uma ressalva em relação ao trecho abaixo, que precisa ser reescrito (falta a oração principal).

“Tomando sintaxe e semântica como um conjunto na abordagem de conexão oracional, Halliday (2004) propôs que a associação entre um eixo tático, que considera o grau de interdependência sintática entre os segmentos, e um eixo lógico-semântico, que define o grau de integração lógico-semântica entre segmentos.” (Se tirar o primeiro que, o problema já está solucionado)

Avalio, entretanto, que a análise que o texto apresenta é muito simplória. Destacam-se alguns conceitos semânticos que, na última parte são aplicados a alguns segmentos textuais, sem confrontos, sem nenhum avanço. Das 19 páginas do artigo, menos de 5 são dedicadas a um trabalho mais autoral e, mesmo assim, muito repetitivo. A opção de analisar apenas 1 valor semântico das construções em pauta, não deu nenhuma chance ao (à) autor(a) de confrontar conceitos. Mesmo ficando com apenas 1 dos 5 valores, considero que o leitor fica aguardando mais informações a respeito do que está sendo analisado. Ressalto, abaixo, algumas delas.

  • O que são verbos de ‘acontecimento’? É uma classe/grupo de verbos? Há outros verbos de ‘acontecimento’ além desses analisados? Fala-se, em certa parte do texto, a respeito de gramaticalização. Se essas construções sinalizam para isso, qual a diferença desses verbos que integram a estrutura [VacontecimentoQUE] em oposição (se é que há) aos mesmos verbos quando são plenos, ou seja, qual a diferença do verbo ocorrer quando é parte da estrutura [VacontecimentoQUE] e quando aparece fora dela?
  • A questão acima ajudaria a explicitar a questão do sujeito nessas construções [VacontecimentoQUE]: ao que parece, temos aí um sujeito expletivo nulo. Embora seja uma questão sintática (o texto não se propõe a isso), tem alcances discursivos quando se fala em ‘posicionamento do falante’. Não deixa de ser uma estratégia discursiva.
  • Na revisão bibliográfica, citam-se autores que discorrem sobre conexão paratática de adversidade. Isso não é retomado na análise. Qual o papel desse que que integra essas construções? A expressão ‘acontece que’ parece ser uma expressão fechada e esse que não tem nada a ver com o segundo segmento. Sugiro retomar essa questão.

Esses são apenas alguns pontos que ficam em suspenso. Talvez fosse útil selecionar mais um valor semântico dessas construções, pelo menos) para traçar comparações.

Diante do exposto, não aprovo a publicação desse texto na forma como ele se apresenta. Penso que é necessário uma análise mais amadurecida para a sua publicação numa revista desse porte.

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RODADA 2

AVALIADOR 1

2024-03-25 | 10:08 PM

A nova versão do manuscrito atende ao que foi solicitado na primeira avaliação, e, a meu ver, deve ser publicada. No arquivo em anexo, indico algumas sugestões de redação e uns poucos problemas de digitação que podem ser revisados pelas autoras, caso desejem.

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AVALIADOR 3

2024-04-05 09:28 AM

As alterações feitas foram precisas e relevantes para a melhoria do texto. Considero que o texto, agora, tem qualidades que me levam a aprovar sua publicação.

How to Cite

HOELZ PACHECO, P.; BARROZO DIAS, N. The [VacontecimentoQUE] Construction and the Connection of Unequal Statements in Portuguese: Caveat as a Discursive Attitude. Cadernos de Linguística, [S. l.], v. 5, n. 2, p. e731, 2024. DOI: 10.25189/2675-4916.2024.v5.n2.id731. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/731. Acesso em: 13 jul. 2024.

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