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Abstract

In this text, we seek to understand the discursivization of the 2014 electoral result and, in continuation to these reflections, we analyze discursivities that reflect the 2018 electoral result. Summit of democratic life and, also, because they question the role of each subject in the functioning of this system. Our focus is discursive practices that set in motion discrimination and intolerance to others due to an unwanted electoral outcome by a portion of the population. It is a discourse that reveals hierarchical and hierarchical views of Brazilian society. With this reading anchored in Michel Pêcheux's theory, we observe the hate speech that emerges amidst a process of rejection and dismissal of the elected President, a process that produces cascading effects. These are discursivities that target the population of the population (the Northeast), the President and, finally, democracy. With their unfolding and functioning, these discursive practices reach the dignity of Brazilians. Finally, we emphasize that the political situation experienced in the 2018 presidential election reveals how unfortunately the theme of our research continues to be effervescent in our society. Because of this, we insist on the urgency to reflect on hate speech and human dignity.

Considerações Iniciais

Para estas reflexões, assumimos como posição ou lugar de análise a teoria da Análise de Discurso de tradição pecheuxtiana (AD). Em razão de seu objeto - o discurso -, entendido como um nó, como “o lugar teórico em que se intrincam todas suas grandes questões sobre a língua, a história, o sujeito” (MALDIDIER, 2003[1], p. 15), recorremos à AD para compreender o modo como foi discursivizado o resultado eleitoral por uma parcela da população brasileira. Esse horizonte teórico nos leva a considerar os aspectos sócio-históricos que se manifestam na/pela estrutura da língua. Ou seja, implica em ler e compreender as práticas discursivas em análise a partir das relações entre língua, história e ideologia em funcionamento no discurso.

Nosso propósito inicial é compreender a discursivização do resultado eleitoral de 2014. Em continuidade a essa pesquisa, como num segundo movimento de análise, voltamos nosso olhar a discursividades produzidas em repercussão ao resultado eleitoral de 2018. Nesses dois contextos de produção, nosso foco são práticas discursivas que põem em movimento discriminações e intolerâncias em função de um resultado eleitoral indesejado por uma parcela da população.

Diante disso, incialmente, configuramos o discurso em análise em uma formação discursiva (FD), nomeada como FD anti-Dilma e representativa de um discurso de não aceitação da diferença, posicionando-se contra a reeleição de Dilma Rousseff e contra seus supostos eleitores. Não desconsideramos o contradiscurso1 produzido para fazer frente aos movimentos de rejeição e ódio produzidos pelas práticas discursivas em análise, apenas tomamos como foco de nossas reflexões, neste texto, o discurso anti-Dilma produzido em repercussão ao resultado eleitoral de 2014. De outro lado, no movimento de continuação dessas reflexões, configuramos o discurso produzido no contexto das eleições de 2018 em uma formação discursiva nomeada pró-Bolsonaro e, igualmente, representativa de um discurso de não aceitação da diferença, posicionando-se contra os supostos eleitores do candidato oponente (Fernando Haddad), num movimento discursivo de retomada ao discurso anti-Dilma e anti-PT.

Ressaltamos que consideramos os discursos produzidos em repercussão aos resultados eleitorais de 2014 e de 2018 como partes de um mesmo todo, de um mesmo processo discursivo, regulados por saberes intolerantes ao outro e à diferença. No entanto, para fins de análise e melhor observação das comparações apresentadas em nossas reflexões analíticas, estamos nomeando distintamente essas produções discursivas.

Compreendemos que os sentidos produzidos em repercussão ao resultado eleitoral de 2018 funcionam como um agravamento dos efeitos de sentido já em circulação social quando da eleição de 2014. Em 2018, assistimos a um movimento (materializado no discurso aqui analisado) de fortalecimento de um modo violento e intolerante de significar o jogo democrático, o outro e sua participação nas decisões coletivas.

As sequências discursivas que formam nosso dispositivo analítico em relação à eleição de 2014 foram coletadas nas redes sociais pelo sítio eletrônico Notícias Terra e disponibilizadas como cobertura instantânea da repercussão da eleição, em especial nas redes sociais2. Já as sequências discursivas que formam nosso dispositivo analítico em relação à eleição de 2018 foram coletadas em diferentes sítios eletrônicos de notícias, também como repercussão midiática do pleito eleitoral3. Sendo assim, formam nosso arquivo empírico enunciados produzidos em repercussão aos dois resultados eleitorais, publicados em mídias sociais e reproduzidos em notícias por meios de comunicação virtuais.

O processo teórico-metodológico para construção do corpus discursivo é realizado com a de-superficialização da materialidade linguística, tarefa que se centra nas questões: como?, quem?, em quais circunstâncias o discurso é produzido? (ORLANDI, 2013[2]). Atentamos para algumas regularidades nos enunciados que formam o arquivo e selecionamos sequências discursivas que tematizassem o resultado da respectiva eleição. Observando atentamente essas práticas discursivas, destacamos aquelas que realizassem movimentos de rejeição à candidata Dilma e aos seus supostos eleitores (em 2014) e ao candidato Haddad e aos seus supostos eleitores (em 2018). Assim, trabalhamos com movimentos discursivos de rejeição para, então, analisar como se instaura discursivamente o jogo de forças que sustenta conflitos e antagonismos vivenciados em nossa sociedade.

Antes de prosseguirmos para as análises, é importante explicar um conceito essencial para essas reflexões: formação discursiva. Para Pêcheux, FD é “aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito” (2009, p. 147). Trata-se de um constructo teórico, não é da ordem do empírico. É da ordem do imaginário: é, imaginariamente, o lugar de dizer em que o sujeito se inscreve no interior da FD. E este lugar de dizer está conformado em relação ao que é ou não aceito e conveniente no âmbito dos saberes da FD.

Importa destacar que este texto é parte da pesquisa desenvolvida em nosso doutorado (SOUZA, 2017[3]), a qual já está em circulação no universo acadêmico-científico4. Porém, aqui, inovamos e apresentamos uma continuação dessa mesma pesquisa. Iniciamos pensando o processo eleitoral de 2014 e, neste trabalho, prosseguimos num mesmo caminho de discussão e pesquisa em relação a discursos produzidos em repercussão ao processo eleitoral de 2018, uma vez que neste contexto de produção mais atual observamos discursivizações que promovem a retomada e a intensificação de sentidos já produzidos no contexto anterior.

1. Análise de Discurso e Discurso de Ódio

Nossas reflexões principiam no âmbito jurídico, no qual o hate speech é discutido, especialmente, na seara constitucional, quando se pensam os limites da liberdade de expressão. A discussão centra-se na distinção entre liberdade de expressão (que fica no nível da opinião, do pensamento) e ofensa a direitos de terceiros, o que configura um ato ilícito, na esfera cível, e/ou crime, na esfera penal. Nosso Código Civil, em seu art. 187, determina uma das formas de ato ilícito: “também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes” (grifamos).

A partir disso, podemos observar que o discurso de ódio nasce, do ponto de vista jurídico, de um excesso. O excesso de liberdade de expressão, aliás, um excesso no uso, no exercício de um direito legítimo (o direito fundamental de liberdade). Mas que tipo de excesso é esse? É um transbordar da liberdade; é exceder os seus limites e entrar na zona da ofensa, da violência contra o outro. Segundo W. Brugger, “o discurso do ódio refere-se a palavras que tendem a insultar, intimidar ou assediar pessoas em virtude de sua raça, cor, etnicidade, nacionalidade, sexo ou religião, ou que têm a capacidade de instigar violência, ódio ou discriminação contra tais pessoas” (2007, p. 118, grifamos). Para este autor, o hate speech centra-se em ações nucleares expressas pelos verbos insultar, intimidar, assediar e instigar como carga imediata. Desse efeito primeiro surgem as consequências: violência, ódio, discriminação. São ações dirigidas a determinado grupo, como alvo, e contra o qual produzem os efeitos de violência.

Daniel Sarmento, entendendo que se trata de “um debate sobre os limites da tolerância” (2006, p. 39), afirma que o discurso de ódio se configura como: “manifestações de ódio, desprezo ou intolerância contra determinados grupos, motivadas por preconceitos ligados à etnia, religião, gênero, deficiência física ou mental ou orientação sexual, dentre outros fatores” (SARMENTO, 2006[4], p. 2). Então, começamos a perceber tal prática como uma expressão discursiva que envolve dois elementos: externalidade e discriminação, conforme explica Silva et al. (2011). Isso porque “discurso não externado é pensamento, emoção, o ódio sem o discurso” (SILVA et al., 2011[5], p. 447), ou seja, quando não manifestado, não ultrapassa o plano abstrato dos pensamentos.

É preciso linguagem para conferir materialidade a esse ódio e fazê-lo transbordar o nível das emoções e tornar-se discurso. Ao ser materializado, o ódio é posto em movimento: ao tornar-se discurso, torna-se ação e, assim, produz efeitos/consequências de violência e discriminação.

Trazendo essas reflexões para o âmbito da linguagem, entendemos que o discurso de ódio materializa a desvalorização do outro e de sua dignidade. Compreendemos o discurso de ódio como uma forma de violência simbólica, tal como propõe Slavoj Žižek (2014) ao explicar que se trata de uma violência “encarnada na linguagem”:

essa violência não está em ação apenas nos casos evidentes – e largamente estudados – de provocação e de relações de dominação social que nossas formas de discurso habituais reproduzem: há uma forma ainda mais fundamental de violência que pertence à linguagem enquanto tal, à imposição de um certo universo de sentido (ŽIŽEK, 2014[6], p. 17, grifamos).

A tônica desse discurso é o ódio ao outro e, nestes contextos de produção, à democracia que permite que esse outro participe das tomadas de decisão coletiva. Está na base do funcionamento dessa discursividade a violência materializada na linguagem. Observamos a forma como a democracia se torna assunto, vira debate, como é posta em funcionamento e quais efeitos de sentido são produzidos em relação à democracia e aos direitos fundamentais. E é nesse ponto que observamos um movimento de encolhimento da democracia, pois o debate se instaura como discurso de ódio à diferença, com movimentos de violências contra o outro. Essa perspectiva de análise nos leva a pensar sobre como se opera a discursivização de relações antagônicas na sociedade brasileira atual.

Sendo assim, trazendo a questão para o campo dos estudos da linguagem ancorados nas reflexões de Žižek, compreendemos que o discurso de ódio expõe esta imposição de um certo universo de sentido. É por isso que desperta a atenção: porque faz emergir a violência por trás do estado normal de coisas e a intolerância com aqueles que desvirtuam/subvertem esse universo de sentidos. Esse tipo de discurso mostra que esse estado normal de funcionamento de nossa sociedade é baseado na relação superior/inferior e insiste que essa ordem deve ser respeitada. Quando essa normalidade não é observada, emerge a intolerância, a discriminação, a hostilização materializada em discursos de ódio.

A violência simbólica opera no âmbito ideológico: encarna-se na linguagem para impor a reprodução das relações de dominação/subordinação. O discurso de ódio, ao sustentar-se na dicotomia superior/inferior, trabalha impondo e/ou lembrando o lugar de cada um na estrutura social; baseia-se na naturalização dessa relação dicotômica e dessa determinação de lugares. Atua perpetuando relações sócio-históricas de desigualdade-subordinação a partir da face mais intolerante que a dominação ideológica pode assumir.

Em síntese, o discurso de ódio, ou hate speech, funciona a partir de um modo desigual de relação entre eu (sujeito enunciador) e outro; a partir de uma maneira dicotômica e hierarquizada de lidar com a alteridade. Nessa relação entre o eu e o outro, o primeiro é tido como superior e o segundo inferior e alvo de intolerâncias, discriminação e ódio.

2. Da violência simbólica encarnada no discurso anti-Dilma e no discurso pró-Bolsonaro: sobre o ódio na/à democracia brasileira

Em nossa pesquisa, tomamos como objeto de análise discursividades que repercutem negativamente o resultado eleitoral de 2014, o que produziu um movimento de rejeição aos eleitores de Dilma e à própria Presidenta (discurso anti-Dilma). Ressaltamos que analisamos apenas um dos aspectos da repercussão do resultado eleitoral de 2014: a não aceitação da vitória de Dilma e a responsabilização de uma parcela da população brasileira por este resultado. Não estamos considerando que, no âmbito dessa FD, haja apenas essa postura extrema em relação à eleição presidencial de 2014. Estamos trazendo para nossa análise, num gesto de recorte, apenas esse modo de significar o acontecimento em pauta.

De outro lado, na continuidade dessas reflexões, o mesmo recorte fez-se necessário quanto aos discursos produzidos no contexto das eleições presidências de 2018 (discurso pró-Bolsonaro): tomamos como objeto de análise discursividades que repercutem negativamente o resultado eleitoral quanto à votação no nordeste brasileiro.

Em ambos contextos de produção, os nordestinos são significados como culpados por um resultado eleitoral indesejado (ainda que, no segundo caso, o resultado final da eleição tenha sido favorável/desejado pelo sujeito enunciador do discurso analisado). Esse modo de significação da eleição e dos seus resultados, instiga a intolerância e a discriminação, buscando excluir essa parcela da nação e bani-los da fruição dos direitos de liberdade e de igualdade e de sua dignidade.

Dessa forma, a partir das regularidades desses discursos, entendemos que a violência contra o sujeito nordestino materializada nesses dizeres instaura um processo de violências que se realiza a partir de três movimentos discursivos, os quais estão representados na tabela abaixo acompanhados das sequências discursivas correspondentes.

Figure 1.Tabela 1. Do processo de violências e seus movimentos.

Os movimentos representados na tabela 1 foram por nós nomeados e relacionadas a determinadas sequências discursivas conforme a preponderância dos efeitos de violência. Entendemos que esses movimentos ocorrem como degraus sucessivos na escala de violências configurada, pois um movimento anterior produz um efeito de sustentação em relação ao próximo, permitindo que o mesmo se instaure.

Vale destacar também que, neste trabalho, estamos entendendo o termo nordestino de forma ampla: o nordestino, no discurso da FD anti-Dilma e da FD pró-Bolsonaro, representa o outro que não é aceito, a diferença que causa ojeriza e com a qual não se quer ter contato. Tal movimento por trás do uso desse termo pode ser observado em sequências em que são referidas outras regiões brasileiras:

• FD anti-Dilma/sd5: “Hoje, qualquer suposto preconceito contra cariocas, nordestinos e baianos deixou de existir, ...”;

• FD anti-Dilma/sd 10: “... Dilma para o norte, nordeste e centro oeste...”;

• FD pró-Bolsonaro/sd 3: “Campos de concentração para bahianos já” (grifamos).

A partir desse contexto e com a carga discursiva explicitada, mantemos o uso da palavra nordestino, pois foi a mais utilizada nos discursos em análise. Porém, para nossas reflexões, tal expressão representa o sujeito que não partilha da mesma rede de saberes do sujeito enunciador de discurso da FD anti-Dilma, bem como da FD pró-Bolsonaro.

2. 1. Do movimento de culpabilização em 2014 e em 2018

Nesse primeiro movimento de violência contra os nordestinos, o discurso anti-Dilma se ocupa, principalmente, de identificar e caracterizar esse sujeito indesejado para apresentá-lo como alvo de violências, de ódio. Tal se realiza a partir de um processo de adjetivação do outro, que funciona para desqualificá-lo, marcando a superioridade do sujeito enunciador e assentando a culpabilização do sujeito nordestino nessa caracterização negativa.

O sujeito nordestino é vinculado a uma gama de características que o identificam e o significam como um sujeito ruim por natureza. Para marcar sua culpabilização, o outro é significado como alguém burro, desgraçado, câncer, maldito, fdp, povo burro. É tomado como um sujeito intelectualmente incapaz (“que não sabe analisa[r] essa merda de Dilma fdp”, sd 1), o que funciona para justificar a não aceitação desse sujeito, de seu voto e de seu poder de influenciar na democracia brasileira.

É a adjetivação que permite esse modo de significar o outro e a insistência no uso desse recurso funciona buscando estabilizar esse caminho de produção de sentido: o nordestino só pode ser significado assim. Pelo excesso (cf. Ernst, 2009), então, há a imposição de um universo de significação, para retomar Žižek (2014).

Esse processo excessivo de adjetivação do outro produz uma relação de causa e efeito no âmbito dos saberes que regulam o discurso em análise: a causa é ser mal/ruim e o efeito é ser hostilizado, rejeitado, agredido. Com isso, o nordestino seria a própria causa das violências de que é alvo, pois é burro, maldito etc. E a culpa retorna para esse sujeito: culpado pelo resultado eleitoral, culpado pelos problemas da nação e culpado por ser alvo desse discurso violento.

E, diante desse quadro, o nordestino é significado como um sujeito que não pode superar essas características, portanto, não tem como redimir-se: “irão morrer na seca e burrice mesmoooo!!!!!!!” (sd 4). Sendo assim, para o enunciador desse discurso, o nordestino seria um caso perdido, insolúvel, efeito de sentido que abre espaço para a consolidação paulatina do último movimento de violências.

No discurso pró-Bolsonaro, esse sujeito é igualmente desqualificado, mas agora por um caminho novo, pois as caracterizações negativas produzidas no discurso anti-Dilma em 2014 já estão sedimentadas nos discursos em circulação social, nos modos de significação dessa relação conflituosa. Dessa forma, não se faz necessário reiterar certos qualificativos que já funcionam como pressuposto. Então, em 2018, o nordestino é considerado verme, é a parcela da população sem recursos materiais para subsistência e que não trabalha (vagabundos).

Observando esse funcionamento da desqualificação do outro, agora o sujeito nordestino é significado a partir de uma ideia de pirâmide de classes ou evolução social. É dizer, o verme é um animal extremamente primitivo e pouco desenvolvido (em relação aos demais animais) que sobrevive parasitando outros animais mais desenvolvidos e complexos do ponto de vista da morfologia animal. Socialmente, o sujeito nordestino surge de novo na base da pirâmide: representa a classe social mais desfavorecida, sem condições de subsistência material porque, neste imaginário, são os sujeitos que não trabalham.

No outro polo dessa relação pautada por classificações e distinções sociais, o sujeito enunciador do discurso pró-Bolsonaro identifica-se como aquele que está nas categorias mais evoluídas dessas pirâmides. Ou seja, na primeira situação em que a comparação se dá com a pirâmide taxonômica dos seres vivos, o enunciador é como um animal de estrutura mais complexa e desenvolvida que subsiste por si só, não necessita parasitar outros seres vivos, tal como o fazem os vermes em sua maioria. Depois, quando a comparação retorna para o universo das relações humanas, o sujeito enunciador ocupa uma posição digna na pirâmide das classes sociais: é aquele que tem condições materiais de subsistência, ou seja, não está na base da pirâmide a mercê das demais classes sociais, insere-se numa classe que pode subjugar as inferiores. Isso se dá, nesse imaginário, porque o enunciador é um sujeito que trabalha. A oposição maniqueísta se consolida em termos de quem trabalha/quem não trabalha, quem domina/quem é dominado nas escalas sociais (animal e humana).

Esses discursos insistem na validade e legitimidade apenas dos saberes das FDs que os regulam, pois, ao não aceitar o outro e as diferenças de posicionamento político-ideológico, do que resulta a reeleição de Dilma em 2014 e a expressiva votação de Fernando Haddad em 2018, funciona como uma forma de reiteração incessante de saberes interdiscursivos que se alinham aos discursos da FD anti-Dilma e da FD pró-Bolsonaro.

É este panorama que nos permite compreender que as discursividades em pauta põe em funcionamento o que Žižek entende como violência simbólica, pois esses discursos impõem ‘um certo universo de sentido’, em conformidade com os saberes de sua rede discursiva, que insiste na dominância desses saberes e sentidos. Como o outro (representado na figura do nordestino) não se posiciona em conformidade com esses saberes e produz efeitos de sentido antagônicos, rompendo com o universo de sentidos aceitos pelas FDs em análise, esse outro surge como alguém inferior, alvo de intolerâncias e discriminação. E, assim, nessas discursividades, não se instaura uma interlocução com esse sujeito, que se torna apenas alvo desse discurso.

Podemos compreender que as rejeições e violências materializadas nesses discursos, no primeiro movimento de violência, se voltam não apenas para o sujeito nordestino, mas também para o próprio sistema democrático. Dessa perspectiva, a democracia colaboraria para essa situação de destruição do país e da economia (cf. FD anti-Dilma/sd 5) e de luto (cf. FD anti-Dilma/sd1), porque permite que esse sujeito tão inferior e incapaz participe do jogo democrático e possa decidir os rumos da nação. É a democracia que abre espaço para que um representante de saberes adversos possa governar o país. E, assim, as violências observadas atingem diretamente o sujeito nordestino e, indiretamente, a presidenta Dilma e o próprio sistema democrático.

Desse modo, a excessiva desqualificação do nordestino é produzida para marcar uma relação maniqueísta entre dois polos: bem/mal, bom/ruim (no âmbito da FD anti-Dilma); trabalhador/não trabalhador (vagabundo), dominador/dominado na escala social (no âmbito da FD pró-Bolsonaro). Nos dois discursos, o nordestino é significado para ocupar o polo mal/negativo dessa relação e, por isso, merece ser rejeitado, hostilizado e excluído do grupo a que pertence o sujeito enunciador. Já o sujeito enunciador, ao marcar a desqualificação do outro nessa direção, se posiciona no polo oposto dessa relação maniqueísta, representado pelo bem/positivo/trabalhador/dominador.

2.2. Do movimento de punição em 2014 e em 2018

Nesse segundo movimento discursivo do processo de violências em discussão, instaura-se um movimento punitivo a partir da culpabilização já consolidada. Está estabelecido nessas discursividades que o sujeito nordestino é culpado, é incapaz, é o sujeito que ocupa a base de todas as possibilidades de escalas classificatórias/taxonômicas e prejudicou o Brasil e, em razão disso, deve ser punido.

Todas as punições impostas convergem para o mesmo desfecho: a aniquilação do outro que não partilha das mesmas filiações do sujeito enunciador, que assume posicionamento político-ideológico oposto, que vota diferente. Em virtude disso, a mais extrema e definitiva das punições que existe na humanidade deve se realizar de modo cruel, como um suplício infligido ao outro.

• FD anti-Dilma/sd 6: “Desejo do fundo do coração que sejam tomados pela desnutrição, que seus bebês nasçam acéfalos, que suas crianças tenham doenças que os médicos cubanos não consigam tratar, que o ebola chegue no Brasil pelo Nordeste e mate a todos! Só outra arca de Noé pra dar jeito!”;

• FD anti-Dilma/sd 7: “Mata esses nordestino fdp”;

• FD anti-Dilma/sd 8: “Se eu encontrar algum nordestino aqui em MG eu jogo fogo”;

• FD anti-Dilma/sd 9: “Se vc é nordestino e votou no Aécio, venha para o Sul, pq já encomendei uma macumba pra cair um meteoro aí e matar todos numa vez só... vsf... merda de povo idiota” (grifamos).

A morte é uma certeza que acompanha a todos nós, mas nessa situação a morte do outro deve ser antecipada, violenta e consequência da culpa que lhe é imposta. Há, pois, uma relação de causa e consequência com o primeiro movimento de violência (culpabilização), resgatada pelas condições de produção desse discurso. No caso da FD anti-Dilma/sd 9, essa relação causal é explicitada na linearidade do discurso, conforme observamos na seguinte paráfrase: se você votou no Aécio, não merece essa punição, venha para o Sul e salve-se; mas se votou na Dilma deve ser punido.

Observando os modos de realização da punição imposta, temos um efeito de “terceirização” da morte do outro. Em quase todas as sequências, não é o sujeito enunciador que realiza a ação punitiva que busca impor ao sujeito nordestino. Por exemplo, na FD anti-Dilma/sd 6, as punições impostas ao sujeito nordestino não dependem de ações realizadas pelo sujeito do discurso. O mal imposto ao outro são suplícios físicos que se realizam como distúrbios de saúde, ou seja, que doenças aflijam esse sujeito e o levem a morte. Já na FD anti-Dilma/sd 9, temos “encomendei uma macumba para cair um meteoro aí e matar a todos de uma vez só”: o que mata o outro é queda de um meteoro provocada por uma ‘macumba’. Novamente, não é o sujeito do discurso que realiza diretamente a ação de matar.

Disso, observamos que a pena de morte imposta ao sujeito nordestino, nesse discurso, é transferida a outrem ou se cumpre de modo que o sujeito enunciador não realize a ação: que alguém mate, que uma doença mate, que um meteoro mate. O nordestino precisa ser punido, mas não é o sujeito enunciador quem aplicará a punição, a ele cabe o papel de impô-la e instigar a sua concretização. Com isso, é produzido um efeito de distanciamento do sujeito enunciador em relação aos movimentos de violências materializados em seu dizer. O que pode ser compreendido como um modo de minimizar o peso negativo desse discurso, pois, nessa perspectiva, o sujeito enunciador não realiza ações violentas, punitivas ou exterminadoras, ele ‘apenas’ produz um discurso que estimula esse modo de significar o resultado eleitoral e o sujeito nordestino. Esse é mais um caminho que nos leva a compreender que o discurso em pauta funciona como um discurso de ódio.

Além disso, esse movimento de punição funciona, no discurso, produzindo efeitos em cascata, tendo destinatários sucessivos. Vejamos esse funcionamento tomando a sequência 7 como exemplo: “Mata esses nordestino fdp”.

Esta sequência repercute o resultado da eleição hostilizando os supostos eleitores da candidata vencedora e instigando sua punição ao clamar pela morte do sujeito nordestino. Baseia-se numa culpa já estabelecida: nesse processo discursivo já está definido quem é o sujeito responsável, agora a questão é puni-lo.

Ao agredir e buscar punir seus supostos eleitores, os efeitos de sentido produzidos nesse discurso se estendem à Presidenta, que passa a fazer parte dessa cadeia de rejeição e de punição. Então, o ódio (“mata esses nordestinos”) tem duplo destinatário: os eleitores que, com seu voto, reelegeram Dilma e também a própria candidata reeleita. Com isso, está em funcionamento um movimento de rejeição, cuja raiz é a não aceitação do resultado eleitoral. Diante desse quadro, o enunciado em análise pode ser parafraseado na seguinte cadeia de significação:

• Mata esses nordestinos ➔ ‘mata’ esse governo ➔ ‘mata’ essa Presidenta ➔ ‘mata’ tudo que contrarie os saberes da FD anti-Dilma

Discursivamente, essas relações de paráfrase funcionam como numa cadeia de punição dirigida aos saberes antagônicos à FD que regula esse dizer. Assim, o sujeito que ocupa uma posição de dizer oposta a tudo que se desdobra dessa posição é alvo desses efeitos de sentido.

Observando esse efeito, compreendemos que subjaz a esse movimento de punição outra cadeia de sentidos: a de rejeição, a qual produz um efeito de sustentação que permite que a punição possa ser instaurada nesse discurso. Tais efeitos de rejeição podem ser representados, parafrasticamente, da seguinte forma:

• Não aceito esses eleitores ➔ não aceito esse governo eleito por eles ➔ não aceito essa Presidenta eleita por eles ➔ não aceito saberes opostos aos da FD anti-Dilma

Logo, como num movimento de polarização representado pelo par antagônico nós/eles, essa é a Presidenta deles, não é a nossa Presidenta. Nesse panorama maniqueísta, o nós está no âmbito da FD anti-Dilma e o eles (a quem é dirigido o ódio, a rejeição e a punição) está no âmbito de uma FD antagônica. Sendo assim, através dessas cadeias de produção de sentido, todos os elementos envolvidos no acontecimento discursivizado (reeleição de Dilma) são abrangidos pela punição imposta.

Observemos esse mesmo movimento discursivo no contexto de 2018, em que temos as seguintes sequências:

• FD pró-Bolsonaro/sd 3: “Campos de concentração para bahianos já”;

• FD pró-Bolsonaro/sd 4: “[desenho de uma suástica] Morte aos nordestinos”;

• FD pró-Bolsonaro/sd 5: “[...] A partir de amanhã se eu pegar um Curriculum na mão e for do Nordeste vou descartar na hora.. Volta pra sua terra ganhar bolsa família [...]”;

• FD pró-Bolsonaro/sd 6: “Você Nordestino que votou em Bolsonaro tem a obrigação de esmagar os Nordestinos que votaram no PT. Tem que baixar o salário, fazer trabalhar como trabalho escravo, não pagar direitos trabalhistas, hostilizar na rua, passar com o carro em cima das pernas qdo estiverem na sargeta" (grifamos).

Nessas sequências discursivas, é patente a punição imposta ao outro. Contudo, a AD nos permite observar as regularidades desses dizeres e, com isso, evidenciar e compreender o funcionamento dos elementos novos postos em circulação social a partir desse movimento de punição.

Inicialmente, observamos a retomada explícita de saberes nazistas e fascistas mobilizados nesse discurso para desvalorizar o outro. Tal é materializado a partir da menção à necessidade de instituir “campos de concentração para bahianos já”; aos símbolos nazistas desenhados junto à sentença punitiva “Morte aos nordestinos”. Com isso, a memória discursiva é mobilizada para associar a relação sujeito enunciador/ nordestino5 à relação vivenciada entre alemães e judeus no período da segunda guerra mundial. Assim, o conflito em pauta é significado de forma extrema: o antagonismo é agudizado e a aversão ao outro torna-se mais patente, ganhando contornos xenofóbicos. Agora, é preciso dizimar toda e qualquer diferença,

Ao retomarem elementos de ordem nazifascista, associando tal ideário ao discurso em pauta, os efeitos de sentido produzidos remetem a busca por uma pureza. No regime nazista alemão, por exemplo, essa pureza é de ordem racial, significando a ausência de mistura de raças e a rejeição das raças diferentes. Discursivamente, essa pureza pode ser compreendida como a busca por uma homogeneidade de posições, saberes e sentidos em circulação na sociedade brasileira contemporânea.

Nas duas últimas sequências discursivas, a punição do outro é ampliada para abranger uma nova esfera das relações sociais: as relações de trabalho. Essa punição sustenta-se no pressuposto de que, no âmbito da FD pró-Bolsonaro, estão os empregadores, aqueles que trabalham e são os responsáveis pelo progresso do país. De outro lado, no polo oposto dessa relação antagônica, estão os sujeitos que não trabalham e, por isso, representam, nesse imaginário, o atraso do país.

Neste funcionamento, o nordestino é o sujeito que está na base da pirâmide social, é o sujeito assalariado, empregado. A dicotomia instaura-se a partir do par empregador/empregado, superior/subalterno. Este modo de significar o conflito explicita a luta de classes e o funcionamento da ideologia: baseada em relações de desigualdade-subordinação em que há um polo dominante e outro dominado.

O sujeito enunciador do discurso pró-Bolsonaro coloca-se no polo dominante e em posição de poder, a qual, neste imaginário, é capaz de, legitimamente, punir o outro, o sujeito alvo desse discurso. Esse movimento punitivo sedimenta-se e agrava-se nesse discurso até surgir como uma necessidade de purgar os males que afligem a sociedade brasileira. Sendo assim, enquanto sujeito subordinado nas relações sociais de dominação, o nordestino está à mercê do sujeito enunciador - que surge como aquele que deve punir em nome do salvamento do país6. Com isso, consolida-se outro binômio nesse discurso de ódio ao outro: necessidade de punir/ merecimento da punição.

Por fim, ressaltamos que as sequências discursivas analisadas permitem observar o jogo de forças que se trava em nossa sociedade, em que, de um lado, temos o esforço para manter as relações de desigualdade-subordinação tal como estão organizadas e, de outro lado, temos movimentos de subversão dessas relações (as quais não são analisadas no presente texto, mas cabe frisar que são representadas pelo discurso anti-Bolsonaro).

2.3. Do movimento de imposição de uma solução para o conflito em 2014 e em 2018

Neste último movimento discursivo do processo de violências contra o sujeito nordestino, observamos que o conflito em si já não pode mais ser solucionado, uma vez que o sujeito nordestino é significado como “caso perdido”. Já foi declarado culpado, já foi punido, mas isso não é o suficiente. O sujeito nordestino não tem possibilidade de redenção, porque sua caracterização negativa é sua própria condição de existência.

O único meio de evitar que o funcionamento democrático prejudique a FD anti-Dilma e a FD pró-Bolsonaro, é excluir o outro, é instaurar uma democracia apenas para os saberes dessas redes discursivas, banindo as diferenças. Essa divisão dos brasileiros em dois grupos antagônicos corresponde à divisão entre sujeitos que se filiam aos saberes da FD anti-dilma e os que se filiam à FD adversa (que poderia ser considerada pró-Dilma): “Dilma para o norte, nordeste e centro oeste...e Aécio para Sul e Sudeste”. Cada rede discursiva com seu presidente, com sua democracia. O conflito polariza a população brasileira conforme a aceitação ou não do resultado eleitoral e a solução mantém a polarização, mas suspende o conflito, pois suspende o contato entre os grupos.

Esse mesmo modo de significar o conflito também foi materializado em imagens do mapa político do Brasil: são mapas redefinidos ou redesenhados de acordo com os saberes dessa FD. Os efeitos de sentido são produzidos na mesma direção que observamos até aqui nesse processo discursivo. Ou seja, tais materialidades põem em movimento efeitos de segregação/separação dos brasileiros, seguindo a dicotomia hierarquizante nós/eles. Eis os mapas:

Figure 2. Figura 1. FD anti-Dilma/sd11 e Figura 2. FD anti-Dilma/sd12

Subjaz às sequências 11 e 12 o pressuposto de que a origem dos problemas da região Sul e Sudeste do Brasil foi acolher os nordestinos e os nortistas. Partindo dessa perspectiva, a solução está sendo apontada nos mapas: segregar, apartar esse outro, (tido como subdesenvolvido) da parcela de brasileiros pretensamente desenvolvida. A solução seria demarcar o espaço do desenvolvimento e o do subdesenvolvimento e declarar que, numa atitude separatista, cada povo ficasse no espaço que lhe coubesse e tivesse o Presidente que escolheu e que merece (cf. FD anti-Dilma/sd 10 e sd 12). Assim, o Brasil seria composto por dois ‘povos’ distintos: sulistas e nordestinos. A separação desses povos é tida, então, como uma necessidade no âmbito desse discurso.

Tais mapas revelam o imaginário de não igualdade entre as parcelas da população brasileira apresentadas como antagônicas nesse discurso. Da exigência de separação desses grupos, resulta uma designação diferente para os espaços que cabem a cada povo (sd 10): Brasil e Nova Cuba. Nesse processo discursivo, a dicotomia eu/outro desdobra-se em dois espaços demarcados geograficamente: Norte para os que não partilham das mesmas filiações do sujeito enunciador e Sul para aqueles que se inserem na mesma rede discursiva desse sujeito. Para esse outro corresponde um outro espaço: Nova Cuba, enquanto o sujeito do discurso permaneceria no Brasil (FD anti-Dilma/sd 11). Um Brasil demarcado de modo a incluir em seus limites apenas os sujeitos inscritos na FD em que se inscreve o sujeito enunciador.

Os nordestinos, a parcela dos não iguais, deixariam de ser considerados brasileiros e passariam a ser denominados como ‘novos cubanos’(FD anti-Dilma/sd 11). Cada parcela é identificada, ainda, com uma cor, a qual remete ao candidato que corresponde a cada povo: vermelho, de Dilma Rousseff, para os nordestinos, e azul, de Aécio Neves, para os sulistas.

É nessa direção de sentido que as relações de antagonismo são discursivizadas no processo discursivo da FD anti-Dilma. A diferença, a divergência surge como algo inconciliável, incompatível com a (con)vivência coletiva, de forma que o outro é o indesejável, não podendo, nessa perspectiva, ocupar os mesmos espaços que o sujeito filiado aos saberes da FD anti-Dilma.

Observamos que, nos dois mapas, a divisão proposta para o Brasil é a mesma: Aécio para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e Dilma para as regiões Norte e Nordeste. O tratamento homogeneizante dispensado aos elementos que compõem a dicotomia em que se baseia (nós/eles, sulistas/nordestinos) também é o mesmo. Nesse discurso, os nordestinos são tratados de forma uniformizante, como se todos os brasileiros oriundos dessa região partilhassem as mesmas filiações. Como se todos assumissem a mesma posição político-ideológica e a mesma posição de dizer. Funcionando como uma via de mão dupla, os ‘sulistas’ também são considerados de maneira homogênea: como se todos os brasileiros que vivem nessa região partilhassem a mesma rede de filiações. Como se todos votassem igual e todos fossem anti-Dilma.

O maniqueísmo que subjaz ao discurso em análise funda-se na ilusão da homogeneidade, na desconsideração das diferenças internas e externas. Por isso, cada grupo, representado no mapa da FD anti-Dilma/sd 11, surge pintado com uma única cor, ignorando as possíveis nuances de azul e de vermelho em cada um, ou mesmo os tons avermelhados que podem conviver em meio ao universo dos saberes da FD anti-Dilma (representado pela cor azul). E, do mesmo modo, ignora os tons azulados que podem estar presentes no universo dos saberes da FD adversa (representado pela cor vermelha).

Em 2018, esse movimento discursivo violento se materializa de forma muito semelhante: as cores e as designações se repetem (o vermelho e a referência a países considerados socialistas/comunistas no âmbito da FD pró-Bolsonaro).

Figure 3.Figura 3. FD pró-Bolsonaro/sd 9 - Figura 4. FD pró-Bolsonaro/sd 10 - Figura 5. FD pró-Bolsonaro/sd 11

A associação de cada grupo a uma dessas cores provém de já-ditos, de sentidos que habitam o interdiscurso. O vermelho faz ressoar dois outros discursos, pois remete ao vermelho do PT, partido da Presidenta Dilma e do candidato Fernando Haddad, e ao vermelho, símbolo do ideário comunista, considerado ainda vigente em Cuba e atualmente associado ao regime vigente na Venezuela. Com isso, é intensificada a relação dos saberes da FD adversa com Cuba, daí surge a denominação de ‘Nova Cuba’ para o espaço geográfico que deveria concentrar apenas os sujeitos inscritos no seu domínio de saber. Com isso, o sujeito enunciador significa a rede discursiva antagônica como sendo de ordem comunista, de orientação política-ideológica de esquerda.

O modo pelo qual a dicotomia em análise é significada, no âmbito dos discursos em análise, aponta para um desfecho extremo: a única solução para esse embate é separar o Brasil em dois, pois as forças antagônicas em confronto não são passíveis de ser conciliadas. Separar é, portanto, o último degrau na escala de violências contra o outro materializada nesse discurso.

Como último passo em nosso gesto analítico, observamos um excesso discursivo que perpassa todo o discurso de ódio produzido no âmbito da FD anti-Dilma. Entendemos o termo excesso tal como propõe Ernst (2009, p. 4) - como princípio geral que orienta a criação do gesto de interpretação frente aos propósitos de análise. Para a autora, o excesso funciona como “estratégia discursiva que se caracteriza por aquilo que está demasiadamente presente no discurso”. Tal categoria de análise opera nos níveis intradiscursivo e interdiscursivo. Ou seja, podemos observar o excesso na linearidade do discurso por meio do uso de incisas, de intensificadores ou pelas repetições de palavras ou expressões e orações. E, também, podemos pensar o excesso no plano interdiscursivo como “reiteração incessante de determinados saberes interdiscursivos que tomam formas diferentes no intradiscurso, mas mantêm os mesmos pressupostos ideológicos” (ERNST, 2009, p. 4).

Em nossa análise, observamos o excesso operando no nível interdiscursivo. O discurso de ódio aos nordestinos da FD anti-Dilma é saturado de certos saberes: insiste na repetição de efeitos de não aceitação do outro, os quais já circulam em nossa sociedade desde a década de 1930. O discurso analisado retoma esses saberes e (re)atualiza-os, significando o nordestino como se fosse um outro que, além de ser inferior e responsável pelos males do país, não deve sequer participar da vida política da nação. Esse excesso que perpassa todo o discurso de ódio analisado, funcionando como uma estratégia para legitimar os saberes intolerantes ao outro e instigar a ampliação de seu alcance; bem como para insistir na dominância dos saberes da FD em que se inscreve o sujeito enunciador.

3. Considerações Finais

As análises aqui apresentadas revelam uma relação hierarquizada eu/outro subjacente ao funcionamento do discurso de ódio. Esses discursos violentos são produzidos num regime de repetibilidade de saberes que significam o outro como inferior e, pela repetição, atuam na estabilização das relações sociais de dominação, fazendo funcionar a ideologia dominante. Essa violência simbólica opera no âmbito ideológico: encarna-se na linguagem para impor a reprodução das relações de dominação/subordinação.

Com isso, entendemos que o discurso de ódio impõe e/ou lembra o lugar de cada um na estrutura social. Baseia-se na naturalização dessa relação dicotômica e dessa determinação de lugares, perpetuando relações sócio-históricas de desigualdade-subordinação a partir da face mais intolerante que a dominação ideológica pode assumir.

Os excessos que marcam os discursos de ódio analisados colaboram para a construção do antagonismo entre essas posições-sujeito. Um efeito de sentido que começa com qualificações negativas, avança, intensificando-se, saturando-se, até tornar-se um efeito de exclusão e de segregação, consolidando um discurso de ódio. O outro não é digno de existir, devendo ser morto ou excluído do Brasil, pois representa o próprio mal que aflige a nação (é o câncer, é maldito, é desgraçado). Nesse percurso de significação, apenas os sujeitos que se inserem no domínio de saber da FD1 seriam dignos de pertencer à nação brasileira.

Analisar estes discursos nos faz retomar reflexões de Alain Touraine acerca do funcionamento e propósitos das democracias nos contextos modernos: “No passado, a democracia lutou, em primeiro lugar, pela liberdade política e, em seguida, pela justiça social; qual será a luta que está travando atualmente? Este livro propõe uma resposta: a razão de ser da democracia é o reconhecimento do outro” (TOURAINE, 1996[7], p. 260). As discursividades analisadas nos mostram que o reconhecimento do outro é urgente em nossa sociedade, em nossa democracia.

Acerca dos efeitos de ódio à democracia, pensamos, com Rancière (2014, p. 10), que se trata do ódio ao respeito às diferenças, aos direitos das minorias, às políticas afirmativas. Para o autor, a democracia surge como fator de mediação da relação entre a oligarquia e o povo: mediando a relação tensa entre dominados e dominadores.

Rancière, a partir de um retrospecto da ideia de democracia, de suas práticas e da discussão acerca das incongruências dos regimes modernos, entende que, atualmente, vivemos em Estados de Direito Oligárquicos, os quais são construídos a partir da “apropriação da coisa pública por uma sólida aliança entre a oligarquia estatal e a econômica” (RANCIÈRE, 2014[8], p. 93). Assim, nesse contexto, o ódio à democracia nasce da intolerância das elites, e seus porta-vozes

dizem que ela [democracia] já é real demais. Nenhum se queixa das instituições que dizem encarnar o poder do povo nem propõe medidas para restringir esse poder. É do povo e de seus costumes que eles se queixam, não das instituições de seu poder. Para eles, a democracia não é uma forma de governo corrompida, mas uma crise da civilização que afeta a sociedade e o Estado através dela (RANCIÈRE, 2014[8], p. 10).

O autor explica que as elites não conseguem se adaptar à democracia e seus consectários para a vida em sociedade, para um convívio democrático. As elites não toleram os valores democráticos, por isso “os males de que sofrem nossas ‘democracias’ estão ligados em primeiro lugar ao apetite insaciável dos oligarcas” (RANCIÈRE, 2014[8], p. 94). É para esse caminho que se orientam os discursos em análise como discursos de ódio.

References

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  3. Ernst-Pereira Aracy. A falta, o excesso e o estranhamento na constituição/interpretação do corpus discursivo. 2009.
  4. Maldidier Denise. A inquietação do discurso. Pontes: Campinas; 2003.
  5. Orlandi Eni P.. Análise de Discurso – Princípios e Procedimentos. Pontes Editores: Campinas, SP; 2013.
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  13. Folha de São Paulo. Após primeiro turno, nordestinos são alvos de preconceito mais uma vez. 2018.
  14. Folha de São Paulo. Ataque ao nordeste surge em rede online pró Bolsonaro. 2018.
  15. Agência Uva. Eleições 2018: nordestinos são atacados após resultado do primeiro turno. 2018.
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