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Theoretical Essay

"AI for the Good of All"? Discourse, Subject, Contradiction

Evandra Grigoletto

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https://orcid.org/0000-0003-1458-0491

evandra.grigoletto@ufpe.br

Silmara Dela Silva

Universidade Federal Fluminense image/svg+xml

https://orcid.org/0000-0001-5231-6662

silmaradela@gmail.com

Solange Maria Leda Gallo

Universidade do Sul de Santa Catarina image/svg+xml

https://orcid.org/0000-0002-0243-4983

solangeledagallo@gmail.com


Keywords

Discourse
Artificial Intelligence
Contradiction
Algorithmic Projections
Avatar-Subject

Abstract

This article aims to analyze discourses “of” and “about” artificial intelligence, with an emphasis on the proposal “AI for the good of all” presented by the Brazilian federal government in July 2024, as well as the statements concerning this proposal circulating in journalistic discourse during the same period. The theoretical and methodological approach is anchored in Pecheutian Discourse Analysis. The theoretical-analytical reflections presented here: take as their starting point the conditions of production of these AI discourses and discourses about AI, which are inscribed within the current Brazilian sociopolitical and economic context; analyze the discourses supporting national sovereignty that permeate the government proposal and examine how it is discursivized when transformed into a journalistic event in the media; and highlight the contradictions in the functioning of discourse about technologies and in their processes of constituting meanings and subjects.

Resumo para não especialistas

IA para o bem de todos? A pergunta que dá título ao artigo é o nome dado ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, sem a interrogação, que analisamos neste artigo. Além do plano, também analisamos matérias jornalísticas que circularam, em 2024, quando a proposta foi apresentada publicamente. Nossas análises demonstram algumas contradições que estão presentes no plano e também são reproduzidas pela mídia, sob a defesa de um Brasil “mais justo, próspero e tecnologicamente soberano”, nas palavras da nossa Ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos. Concluímos, portanto, que, ao contrário do que prega o plano e anunciam as notícias jornalísticas, a soberania (e o bem) não é “de todos os brasileiros”; é de quem detém o capital. Trata-se de um “todos” que é, ao mesmo tempo, cada um e ninguém.

Palavras iniciais: as condições de produção dos discursos sobre Inteligência Artificial

Pensar as relações entre mídia, tecnologia e práticas políticas em discursos sobre (Mariani, 1998) a Inteligência Artificial (doravante IA), como nos propomos a fazer neste artigo, exige que situemos, antes de mais nada, as condições de produção em que tais discursos se inscrevem na atual conjuntura sócio-histórica do nosso país. E o(a) leitor(a) pode estar se perguntando: Por que somente a conjuntura sócio-histórica do Brasil, se as origens históricas e o domínio dessa tecnologia estão localizados, primordialmente, nos Estados Unidos? Se são grandes empresas de tecnologia americanas, como Google, Open IA, entre outras, que nos “entregam” os principais suportes de IA que utilizamos no nosso cotidiano?

O nosso foco será a conjuntura sócio-histórica brasileira porque, justamente, o que nos propomos a analisar é a proposta “IA para o bem de todos”, apresentada em julho de 2024, e que deu origem ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado, pelo Governo Federal Brasileiro, em 2025, bem como notícias jornalísticas que tematizaram tal proposta, no momento de sua apresentação pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Tomando esse arquivo empírico, vamos selecionar as sequências discursivas (Courtine [1981] 2009) para as nossas análises dos discursos sobre IA.

Discurso aqui entendido conforme Pêcheux o definiu: como “efeitos de sentidos” entre os pontos A e B, sendo que “A e B designam algo diferente da presença física de organismos humanos individuais [...] A e B designam lugares determinados na estrutura de uma formação social.” (Pêcheux [1969] 2019, p. 39, grifos do autor). A e B, portanto, são os lugares sociais ocupados pelos interlocutores numa dada formação social, que são representados (presentes, mas transformados) “nos processos discursivos em que são colocados em jogo”. E Pêcheux ([1969] 2019, p. 39, grifos do autor) acrescenta: “[...] o que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro.” E tudo isso - somado às antecipações que também são parte das formações imaginárias, e às relações de poder e força que estão implicadas nos processos discursivos - faz parte das condições de produção do discurso.

Eni Orlandi afirma que as condições de produção

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compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação. [...] Podemos considerar as condições de produção em sentido restrito e temos as circunstâncias de enunciação: é o contexto imediato. E se as consideramos em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, ideológico. (Orlandi, 2001, p. 30)

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Considerando, então, que as condições de produção envolvem, fundamentalmente, os sujeitos e a situação, bem como as formações imaginárias que funcionam em qualquer processo discursivo, vamos tratar das condições de produção em que se inscrevem os discursos sobre IA, objeto de nossa análise.

Os discursos sobre “são discursos que atuam na institucionalização dos sentidos, portanto, no efeito de linearidade e homogeneidade da memória.” (Mariani, 1998, p. 60).

Os discursos sobre IA que serão objeto do nosso olhar analítico, como já apresentamos, se situam em dois lugares institucionais: o governo federal brasileiro e a mídia jornalística. Trata-se de lugares oficiais sobre os quais não cabe questionamento, supostamente. Por se tratar de discursos sobre, produzidos por instituições reconhecidas socialmente, vão buscar, como nos diz Mariani (1998), produzir um efeito de linearidade e homogeneidade, e acrescentamos, de verdade, sobre o que se diz sobre a Inteligência Artificial, “a tecnologia que ajudará o Brasil a se tornar um país mais justo, próspero e tecnologicamente soberano”, nas palavras da ministra Luciana Santos.

Voltando às condições de produção, no caso em análise, os sujeitos envolvidos na produção desses discursos são, de um lado, os lugares institucionais que acabamos de mencionar (o ponto A) e, de outro, o povo brasileiro (o ponto B), que é projetado de um modo bastante genérico e homogêneo (considerando o todos que dá título à proposta e as suas condições de circulação na chamada mídia tradicional on-line, que projeta um leitor imaginariamente indistinto). No entanto, é preciso considerar, conforme Pêcheux ([1969] 2019) nos propõe, que esses lugares estão determinados na estrutura da formação social brasileira e, nos discursos que vamos analisar, as posições não podem mudar de lugar. Estão em jogo, além dos interlocutores, as relações de poder e de força. Não é qualquer cidadão brasileiro que pode ocupar os espaços da mídia jornalística, tampouco os espaços de poder e de tomada de decisões do Governo Federal. Mas é, supostamente, a qualquer cidadão brasileiro que esses discursos se dirigem, são projetados. É para o bem dos brasileiros que o Governo Federal diz trabalhar, considerando, entre outras coisas, o seu slogan atual: “Governo do Brasil: do lado do povo brasileiro.”

Aqui, para além das condições de produção imediatas do nosso corpus, que estão circunscritas à apresentação da proposta “IA para o bem de todos”, pelo MCTI, em julho de 2024, e algumas notícias que circularam na mídia sobre essa proposta, no mesmo período, estamos tratando já das condições sócio-históricas em que tais discursos se inscreveram.

Nessa esteira de reflexão, considerando as condições sócio-históricas da atual conjuntura política brasileira, tomaremos tanto a proposta apresentada em 2024, como o plano brasileiro de inteligência artificial que dela derivou e que veio à público em 2025, como práticas políticas no âmbito de uma agenda nacional, proposta pelo atual Governo Brasileiro (2023-2026), presidido pelo Presidente Lula, ou, como popularmente chamamos, “Governo Lula 3”, cujo foco principal é a defesa da soberania nacional. Soberania aqui tomada como fundamento para a sustentação do Estado Democrático de Direito, conforme previsto no Artigo 1º da nossa Constituição Federal.[1] E é nesta direção de sentido, da defesa da soberania nacional, que o governo apresentou seu novo slogan, em final de agosto de 2025, que passou de “Brasil: União e Reconstrução” para “Governo do Brasil: do lado do povo brasileiro.”[2] É, também, nessa agenda da defesa da soberania nacional, isto é, livre da interferência estrangeira, que se inscreve a proposta “IA para o bem de todos”, concretizada, depois, no PBIA.

Nas palavras de Luciana Santos, nossa ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, na apresentação do plano: “Não desejamos simplesmente importar soluções; queremos desenvolvê-las aqui, por brasileiros e para brasileiros, considerando nossas particularidades sociais, culturais e econômicas.” (MCTI, 2025, p. 9, grifos nossos). E assim a ministra finaliza sua apresentação: “Juntos, faremos da inteligência artificial uma poderosa aliada na construção de um Brasil mais justo, próspero e tecnologicamente soberano.” (MCTI, 2025, p. 10, grifos nossos). Construindo uma rede parafrástica, cuja matriz de sentido é a expressão “Brasil Soberano”, lemos, nesses documentos, outras expressões como: “tecnologicamente soberano”, “nuvem soberana”, “soberania digital”, “soberania tecnológica”, “soberania de dados”, “soberania tecnológica e de dados”, “soberania nacional”, “soberania e proteção de dados”, “soberania e privacidade dos dados”, “soberania em IA”. Voltaremos aos efeitos de sentido construídos por essa rede parafrástica nas nossas análises. Afinal, o que significa sermos soberanos, a partir dessas adjetivações?

Partindo dessa breve contextualização sobre as condições de produção em que os discursos que serão objeto de nossa análise se inscrevem, nossas reflexões teórico-analíticas tomam a proposta “IA para o bem de todos!”, compreendendo duas principais frentes: i) o discurso de “IA para o bem de todos!”, tendo por base a “Proposta do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028”, a partir de uma apresentação em formato de slides, exposta em Reunião do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, de 29 de julho de 2024, e disponível na rede eletrônica; ii) o discurso sobre a “IA para o bem de todos!” em circulação na mídia on-line, por ocasião da apresentação da proposta pelo governo. Embora nosso olhar se volte para discursos que circularam em 2024, nossas análises não prescindem de, em alguns momentos, mencionar o PBIA, lançado mais recentemente, em 2025, já que os dois documentos dialogam entre si.

Na primeira frente, propomo-nos a analisar os discursos que atravessam essa proposta do Governo Federal, centrando nosso olhar sobre o funcionamento de algumas das contradições materializadas nesse conjunto de slides, a começar pelo título dado ao plano: IA para o Bem de Todos. Perguntamos: Que bem é esse? A quem se refere esse todos? Quais os cidadãos brasileiros que estão aí incluídos?  Quais os sentidos de soberania que se inscrevem nesse documento?

Para as análises da segunda frente, recortamos o modo como “IA para o bem de todos!” se torna acontecimento jornalístico na mídia (Dela-Silva, 2015). Voltamo-nos à análise da materialidade de duas matérias jornalísticas, postas em circulação no jornal O Globo, em julho de 2024, em seus processos de produção de sentidos. A primeira, inscrita na editoria “Economia / Tecnologia”, tem como título: “Plano brasileiro de IA prevê R$ 23 bi, supercomputador e sistema para o SUS”; enquanto a segunda, apresentada como uma repercussão da primeira, anuncia: “Lula diz que IA brasileira precisa gerar emprego e ser 'inteligente': 'Se essa coisa é tão boa, por que é artificial?'”.

Para finalizar nossas análises, apresentamos uma discussão do ponto de vista da materialidade técnica do funcionamento da IA, mostrando as contradições que se marcam nos discursos de e sobre a inteligência artificial em análise.

1. Primeiro movimento analítico: os sentidos da “IA para o bem de todos”

Para iniciarmos esse primeiro movimento analítico, vamos retomar as questões que nos colocamos sobre o título do plano: Que bem é esse? A quem se refere esse todos? Quais os cidadãos brasileiros que estão aí incluídos?  Quais os sentidos que estão silenciados na proposta?

Entendemos que o “todos” do título do plano refere-se ao conjunto de brasileiros, projetado, como já antecipamos, de modo bastante genérico e homogêneo. Trata-se, portanto, de um todos que se pretende inclusivo, que abarca o povo brasileiro que vai se beneficiar do “bem” que a IA vai proporcionar. Um “bem” que vai “transformar a vida dos brasileiros”, como está descrito no primeiro objetivo do plano, num “futuro onde a tecnologia serve ao bem comum”, como afirmado pela Ministra Luciana Santos, na apresentação do plano.

Mas, para além do efeito de sentido que se produz pela marca linguística, esse “todos” e esse “bem” se inscrevem num “corpo interdiscursivo de traços sócio-histórico” (Pêcheux [1990] 2011, p. 146), abrindo para a deriva de sentidos. Classificado, gramaticalmente, como um pronome indefinido, entendemos que o “todos”, neste título, remete, como já dissemos, ao povo brasileiro e, nessa direção de sentido, não seria indeterminado/indefinido. No entanto, ao olharmos para as condições sócio-históricas em que vive a maioria da população brasileira, sabemos que esse “todos” não abarca o povo brasileiro em sua totalidade e, sobretudo, na singularidade de cada um(a)[1]. Nem esse “bem” atingirá cada brasileiro(a), tampouco terá o poder de “transformar a vida dos brasileiros”, como está projetado no 1º objetivo apresentado nesse conjunto de slides.

Então, contraditoriamente, ao que prega o título da proposta, a “IA para o bem de todos” é excludente desde a sua concepção, pois a expressão “de todos” não corresponde ao modo de funcionamento de uma IA que, por sua própria condição, já é resultante de clivagens subterrâneas, como diz Pêcheux ([1982a] 2010). O próprio espaço no qual uma IA funciona já é excludente de muitos sentidos não abarcados pelos seus processos, que são baseados em algoritmos.[2] Os procedimentos necessários à implantação de IAs em setores inteiros da administração pública significa, ao contrário do que projeta o PBIA, um rearranjo de sentidos, de arquivos, de saberes, tornando cada vez mais especializado o acesso do sujeito a esse “bem”.

Teoricamente, mobilizar a noção de contradição significa “desmontar os efeitos totalizantes da ideologia sobre os discursos” (Alquatti, 2020, p. 53), ao trabalhar os jogos que se inscrevem na língua como sistema contraditoriamente “ligado à História e aos sujeitos.” (Pêcheux [1975] 2014, p. 93).

Pêcheux afirma que determinados objetos ideológicos funcionam de forma paradoxal, sendo “povo” um desses objetos citados pelo autor. Tais objetos, segundo Pêcheux ([1982b] 2011, p. 115),

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são simultaneamente, idênticos consigo mesmos e se comportam antagonicamente consigo mesmos. [...] Esses objetos (sob o nome de Povo, direito, trabalho, gênero, vida, decência, natureza, paz, liberdade…) paradoxais funcionam em relações de força móveis, em mudanças confusas, que levam a concordância e oposições extremamente instáveis.

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Em outras palavras, ao mesmo tempo que “todo mundo sabe” a quem esse “todos” se refere, isto é, ao povo brasileiro, antagonicamente, sabemos que o “bem” prometido pela IA não servirá, necessariamente, “ao bem comum”, como diz/quer nossa ministra, tampouco vai “transformar a vida [de todos os] dos brasileiros”, como está formulado no primeiro objetivo da proposta. Vejamos na Figura 1:

Figure 1. Figura 1. Reprodução de slide da apresentação de “IA para o bem de todos” com os objetivos da proposta. O slide tem fundo branco, com retângulos azuis. Em cada retângulo está escrito, com letras brancas, um dos objetivos do Plano IA para o bem de todos. As barras laterais do slide são compostas de figuras geométricas variadas, nas cores azul, vermelha, verde e amarela, que remetem à identidade visual do governo brasileiro. Fonte: Domínio público. Disponível em: https://shre.ink/LBcY. Acesso em: 20 dez. 2025.

Transformar a vida dos brasileiros até pode ser um desejo do Governo Federal, também materializado no slogan atual “Do lado do povo brasileiro”, mas que está, diríamos, na ordem do impossível. E é impossível porque o Brasil está sob a égide de um sistema capitalista, sendo considerado um dos países mais desiguais do mundo. E capitalismo remete ao poder das grandes corporações, ao mercado financeiro e aos algoritmos das redes sociais; em outras palavras, o capitalismo está preocupado, sobretudo, com o lucro que os sistemas de Inteligência Artificial podem gerar, e não com o bem da população. Também, do ponto de vista técnico dos sistemas de IA, atender a todos os brasileiros, de forma inclusiva e sustentável, como promete o primeiro objetivo destacado acima, é da ordem do impossível. Impossível porque os algoritmos são programados para trabalhar em escala, para identificar determinados padrões e não para atender a singularidade de cada um(a).

Então, é nessa direção de sentidos que entendemos que, tanto o objeto sob o nome de “povo” brasileiro, como já apontado por Pêcheux ([1982b] 2011), como a IA, podem ser tomados como objetos paradoxais. Ideológicos e paradoxais ao mesmo tempo, esses objetos se inscrevem na “luta de deslocamento ideológica”, questionando “a definição e fronteira do “discurso político””, na medida em que as relações de classe em que se inscrevem as práticas políticas, como é o caso do plano “IA para o bem de todos”, “se baseiam nos processos, através dos quais o domínio/exploração [...] capitalista se reproduz, na medida em que ela se adapta, transforma, reorganiza. Pois “reprodução” nunca significou “repetição do mesmo”. (Pêcheux[1982b] 2011, p. 115, grifos do autor). Ao trabalhar com os objetos paradoxais, Pêcheux nos faz refletir, como nos diz Cavalcante (2023, p. 358), sobre como esses objetos “jogam luz para o funcionamento da contradição, cerne de uma teoria materialista que pensa a reprodução/transformação das relações de produção.”

Estamos diante, portanto, de uma prática de reprodução capitalista em que, paradoxalmente, o discurso político do Governo Brasileiro busca politizar a realidade da IA, vendendo-a como “para o bem de todos”. Mas o que está tamponado/silenciado é que a tecnologia dos sistemas de IA não é brasileira, ainda que se busque a soberania de uma IA feita “por brasileiros e para brasileiros”, como diz nossa ministra Luciana Santos. Veremos, no item de fechamento das análises, quais são os fatores determinantes da transformação dos sujeitos-brasileiros na relação com a tecnologia da IA, no que se refere à constituição, formulação e circulação dessa forma discursiva automática.

E quando retomamos a rede parafrástica dos sentidos de soberania que aparecem nessa proposta - “tecnologicamente soberano”, “nuvem soberana”, “soberania digital”, “soberania tecnológica”, “soberania de dados”, “soberania tecnológica e de dados”, “soberania nacional”, “soberania e proteção de dados”, “soberania e privacidade dos dados”, “soberania em IA” - o efeito de sentido dominante que se produz é a de que o Brasil se tornará soberano tecnologicamente, o que significa, na leitura política que estamos fazendo da noção de soberania, não depender de tecnologia importada. É nessa mesma direção de sentido que se inscrevem as palavras da ministra Luciana Santos, que acabamos de mencionar: “Não desejamos simplesmente importar soluções; queremos desenvolvê-las aqui, por brasileiros e para brasileiros, considerando nossas particularidades sociais, culturais e econômicas.” Produz-se, como efeito de sentido, a partir dessa afirmação da ministra, a soberania como poder popular, como um exercício da nossa democracia.

No entanto, ainda que, enquanto projeção imaginária, e, talvez, enquanto desejo do Governo Brasileiro, esse sentido pode funcionar, entendemos que o Brasil tornar-se tecnologicamente soberano é da ordem do impossível, assim como o é produzir sistemas de IA que atendam a todos. Impossível porque, como já vínhamos pontuando, quando tratamos de IA, estamos diante de mais um dos modos de exploração capitalista, dominado, nesse caso, por tecnologias importadas. A tecnologia da IA não é nacional e, embora possamos avançar em relação à regulação, à captura, ao armazenamento e à produção de fórmulas algorítmicas desses dados, continuaremos dependentes das grandes multinacionais, como Google, Open IA, entre outras, para que o Brasil e os brasileiros se inscrevam nos sistemas de IA. Essa dependência já se expressa, cotidianamente, no uso dos nossos smartphones, google maps, google acadêmico, google docs, gmail, só para citar algumas ferramentas que já se utilizam de IA e às quais estamos assujeitados para existirmos enquanto docentes da Educação Superior.

Tomando a IA como objeto paradoxal, como estamos propondo, observamos um funcionamento da contradição inclusive entre o que se inscreve na proposta do plano, e que entendemos seja o desejo do Governo Federal - um Brasil tecnologicamente soberano -, e o que, de fato, poderá se implantar na prática, apontando para metas e objetivos exequíveis. Trata-se, portanto, de um objeto que leva a posições concordantes e antagônicas, extremamente instáveis, ao mesmo tempo.

2. Segundo movimento analítico: os sentidos sobre a “IA para o bem de todos” no discurso jornalístico

Em nosso segundo movimento analítico, dirigimos nosso gesto de leitura ao modo como “IA para o bem de todos” se torna acontecimento jornalístico na mídia, por ocasião de sua apresentação em julho de 2024. Entendemos o acontecimento jornalístico como uma prática discursiva por meio da qual um evento é discursivizado na mídia em condições de produção específicas, passando a produzir sentidos para e por sujeitos (Dela-Silva, 2015). Temos, assim, que “o relato jornalístico não se constitui por uma evidência em função de um fato, mas como resultado de um gesto interpretativo a partir de uma determinada posição ideológica” (Dela-Silva, 2015, p. 222), constituindo-se como uma construção do próprio fazer jornalístico. No caso do nosso corpus analítico, é por meio de sua transformação em um acontecimento jornalístico que a proposta “IA para o bem de todos” e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) são levados a conhecimento público; é pelo recorte feito pelo dizer da/na mídia jornalística que primeiro se diz - e se torna possível saber - sobre tais iniciativas governamentais.

Como já afirmado, analisamos o modo como se constituem efeitos de sentido para a proposta “IA para o bem de todos”, a partir de duas matérias jornalísticas com circulação no jornal O Globo on-line, publicação integrante da mídia tradicional, sendo uma notícia com o anúncio do plano; e seu desdobramento em uma segunda notícia, linkada à primeira, com foco no dizer do presidente Lula, por ocasião do anúncio. Começamos pelo recorte de duas sequências discursivas que dizem da proposta “IA para o bem de todos”, a partir da materialidade linguística dos títulos das duas matérias de O Globo:

SD1: Plano brasileiro de IA prevê R$ 23 bi, supercomputador e sistema para o SUS (O Globo, 30/07/2024)

SD2: Lula diz que IA brasileira precisa gerar emprego e ser 'inteligente': 'Se essa coisa é tão boa, por que é artificial?' (O Globo, 30/07/2024)

Na materialidade linguística da SD1, marca-se um encadeamento de termos que inscrevem diferentes sentidos para o “Plano brasileiro de IA”: “R$ 23 bi”, “supercomputador”; “sistema para o SUS”. Posto em circulação na editoria de “Economia/Tecnologia”, o dizer jornalístico acerca da proposta ancora-se em diferentes já ditos: sobre economia, ao dar ênfase ao total de recursos a serem investidos; sobre tecnologia, marcado em “supercomputador”; e ainda sobre a saúde, em “sistema para o SUS”. O já dito, modo de constituição do interdiscurso, “definido como aquilo que fala antes, em outro lugar” (Orlandi, 2001, p. 31), é o que possibilita a produção de sentidos, ao dar sustentação ao dizer. Ao discursivizar sobre o “Plano brasileiro de IA”, o jornal o faz pela mobilização de um imaginário de sua abrangência, ao contemplar um “supercomputador”, nomeação que funciona por um efeito de opacidade; e, ao mesmo tempo, um “sistema para o SUS”, um “sistema” para o “Sistema Único de Saúde”; um Sistema que já atende, de forma generalizada, a todos os brasileiros e é por eles conhecido; um efeito de sustentação para a qualificação “do bem”, uma vez que atenderia ao coletivo dos brasileiros, como o SUS já faz.

No fio do discurso da SD2, outro sentido para a proposta é mobilizado a partir do dizer atribuído ao presidente Lula: “gerar emprego”. “Gerar emprego” mobiliza também um já-dito sobre a economia, mas que pode demarcar uma posição discursiva outra, alinhada mais aos interesses do trabalhador do que aos do capital. Isso porque “gerar emprego” produz efeitos de sentido de um benefício direto aos trabalhadores, que ocuparão tais vagas a serem geradas; mas, pelo não-dito, mobiliza o pré-construído de fortalecimento da economia, como consequência da geração de renda e de poder de consumo para os trabalhadores.

No discurso sobre a proposta “IA para o bem de todos” na mídia jornalística, desse modo, marcam-se contradições que perpassam esses dizeres - em seus modos de estabelecer relação entre “R$ 23 bi” e “supercomputador”, de um lado, e “sistema para o SUS” e “gerar emprego”, de outro -, que se inscrevem sob a evidência da economia/tecnologia, mas que não são sem consequências para as condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção, de que nos diz Pêcheux ([1975] 2014). “IA para o bem de todos” pode projetar, assim, sentidos de conciliação de interesses do capital e dos trabalhadores, quando se coloca em relação o dizer da/na mídia e o dizer governamental, como se marca também nas SD3 e SD4 que seguem:

SD3: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira que a inteligência artificial (IA) "brasileira" precisa garantir empregos e se colocou contra o uso da tecnologia se resultasse em demissões de trabalhadores. (O Globo, 30/07/2024)

SD4: A nossa inteligência artificial tem que ser inteligente e quero fazer dela uma fonte de fazer com que gere emprego e forme milhões e milhões de jovens - afirmou o presidente. (O Globo, 30/07/2024)

No dizer do presidente Lula, em discurso relatado na mídia jornalística, “IA para o bem de todos” produz sentidos ao recusar “demissões de trabalhadores” (SD3) por consequência da IA e mobilizar um já dito sobre a geração de empregos, sobretudo para a população jovem, como se marca em “gere emprego e forme milhões e milhões de jovens” (SD4). Na materialidade da SD3 e da SD4, marca-se, no entanto, uma especificação nas designações: diz-se da “inteligência artificial (IA) ‘brasileira’” (SD3), retomada por “a nossa inteligência artificial” (SD4). É por meio do funcionamento dessas designações que se projeta para “IA para o bem de todos” a formação imaginária de uma IA em particular, “de todos” porque “brasileira”, “nossa”, inscrevendo-se aí também os sentidos de soberania nacional. Conforme Guimarães (2005, p. 9), a designação coloca em cena a “significação de um nome, mas enquanto uma relação linguística (simbólica) remetida ao real, exposta ao real, ou seja, enquanto uma relação tomada na história.”. “Inteligência artificial ‘brasileira’” produz sentidos não por sua efetiva existência enquanto um objeto, mas por sua inscrição em uma discursividade sobre a inteligência artificial, que, ao mesmo tempo, é mobilizada por uma proposta de governo e por ele ressignificada como diferenciada, “brasileira”, “nossa”.

“Inteligência artificial ‘brasileira”” e “nossa inteligência artificial”, no dizer presidencial reportado na mídia jornalística, também encaminham sentidos para a proposta “IA para o bem de todos” como uma ação com vistas à afirmação do país por oposição às Big Techs, como se marca nas SD5 e SD6, apresentadas a seguir:

SD5: O presidente ainda reclamou das empresas Big Techs, afirmando que usam dados "sem pedir licença" e lucram "divulgando coisas que não deveriam ser divulgadas". (O Globo, 30/07/2024)

SD6: (A Inteligência Artificial nada mais é do que) A gente ter a capacidade de fazer a coletânea de todos os dados e temos as Big Techs que fazem isso sem pedir licença, sem pagar imposto, e ainda cobra dinheiro e fica rica por conta de divulgar coisa que não deveriam que ser divulgada - disse. (O Globo, 30/07/2024)

Ao afirmar a “inteligência artificial ‘brasileira’” ou a “nossa inteligência artificial”, o dizer em curso na mídia, atribuído ao presidente Lula, o faz por oposição às Big Techs, que “usam dados ‘sem pedir licença”, sustentando o efeito de sentido da “IA para o bem de todos” como aquela que permitiria ao país - “a gente” - “ter a capacidade de fazer a coletânea de todos os dados”, como é feito pelas Big Techs na atual conjuntura histórica, e como está projetado na proposta do plano, que analisamos acima. No fio do discurso das SD5 e SD6, temos marcas que encaminham para a produção de efeitos de sentido de soberania do país, sustentado pelo jurídico que delimita, por exemplo, aquilo que seria do domínio de um Estado Nação, como a regulamentação de coleta e uso de dados, e a cobrança de impostos. Delimitar o escopo jurídico de atuação das Big Techs e assumir o controle sobre a coleta e o uso de dados por inteligência artificial são ações que sustentam o imaginário de nação soberana; mas ser qualificada como “brasileira” ou “nossa”, sob a delimitação jurídica do estado, seria o suficiente para assegurar uma “IA para o bem de todos”?

Retomando as reflexões de Orlandi (2012, p. 126-127), em torno do slogan “Brasil, um país de todos”[1]: “O equívoco está em pensarmos sermos nós, povo brasileiro, em nossa igualdade social (impossível) e na verdade somos apenas um todo indeterminado, parte do discurso da globalização. [...] Onde todos é cada um e ninguém.”.

3. O funcionamento automático das IAs: amarrando as análises

Fechando, então, a análise dos discursos aqui apresentados sobre a IA, materializados na apresentação “IA para o bem de todos” e nas matérias jornalísticas, as quais chamamos de primeiro e segundo movimentos analíticos, vamos desenvolver uma reflexão sobre as projeções imaginárias (Pêcheux [1969] 2019), para pensarmos o funcionamento automático das IAs, de maneira geral. Objetivamos, com isso, desenvolver uma dimensão mais detalhada do problema que estamos enfrentando, do ponto de vista discursivo e técnico, elencando alguns dos sentidos pré-construídos (Pêcheux [1975] 2014) que estão na sustentação dos discursos sobre a IA.

A perspectiva de análise, neste caso, tem como base a materialidade técnica digital e a forma discursiva na qual essa materialidade funciona, ou seja, a escritoralidade. Essas noções fazem parte do dispositivo analítico que temos desenvolvido (Silveira, Gallo, Pequeno, 2025) em diversos trabalhos, para a análise de “espaços enunciativos informatizados", principalmente as redes sociais e de textualidades digitais. Nesses espaços, os processos estruturantes são a normatização e a midiatização (Gallo; Silveira, 2017). Mais recentemente, pudemos compreender o funcionamento do sujeito nesses mesmos espaços, enquanto um sujeito-avatar, ou seja, um sujeito que funciona imbricado em um constructo técnico específico, em cada espaço, que é o avatar (Pequeno, 2016). Por outro lado, ao tomarmos produções de uma inteligência artificial generativa como corpus de análise, identificamos aquilo que denominamos “projeções algorítmicas” (Selhorst; Gallo, 2023)[1] que, sendo uma emulação das projeções imaginárias, que são humanas, é o que permite que o processamento corresponda à demanda de um sujeito-avatar[2].

Com base nesse dispositivo, tomaremos, para essa reflexão, o slide que traz os fundamentos do documento preliminar referente ao Plano “IA para o bem de todos”, na qual se pretende responder à questão: “O que é uma IA para o bem de todos?” A análise do primeiro fundamento deve ser suficiente para esclarecer nossa perspectiva.

Figure 2. Figura 2. Reprodução de slide da apresentação de “IA para o bem de todos”. O slide tem fundo preto, e apresenta cinco colunas com diferentes respostas para a questão: O que é uma “IA para o bem de todos”?. Cada coluna expressa uma resposta, iniciando, com letras verdes, seguidas de letras brancas, e com uma imagem apresentada num círculo de fundo branco que remete ao conteúdo da resposta. Na primeira resposta, que é a que analisamos, o enunciado “centrada no ser humano e acessível a todos” está em letras verdes. Fonte: Domínio público. Disponível em: https://shre.ink/LBcY. Acesso em: 20 dez. 2025.

Retomando o que diz a primeira resposta:

SD7: “Centrada no ser humano e acessível a todos, fundamentada no respeito à dignidade, aos direitos sociais, à diversidade cultural, regional e dos povos, e à valorização do trabalho e dos trabalhadores, prevenindo a desigualdade e vieses discriminatórios.”

Para a análise consideramos que…:

1) o processamento das respostas de uma IA generativa, particularmente dos chatbots, acontece sem derivar de projeções imaginárias, mas sim, do que chamamos, projeções algorítmicas (Selhorst; Gallo, 2023). Ou seja, a máquina não “imagina” o que 2e34rwo interlocutor quer/precisa/não sabe... ela calcula. A engenharia de prompt é uma prova disso: quanto mais dados tiver na pergunta, mais chance de uma resposta mais satisfatória;

2) a interlocução do sujeito com uma IA se dá em espaços enunciativos informatizados (EEIs), e, nesses espaços, a posição de enunciação do sujeito é de um sujeito-avatar - um sujeito sob normatizações técnicas em uma relação contraditória com elas -, logo, um constructo técnico, e não uma posição. Portanto, a autoria, enquanto função do sujeito, não se efetiva nesse caso, porque essa função tem a ver com assumir um lugar social e responder por ele, responsabilizar-se, o que não constitui demanda nessa relação.

3) a automatização das IAs resulta de um processamento algorítmico, não do processamento da língua. No algoritmo não há metáfora, não há lapso. O resultado do cálculo deve ser exato, mesmo quando errado. Por essa forma enunciativa que o sujeito-avatar é demandado.

Tomando, então, essas premissas para a análise, diremos que, no enunciado acima, alguns sentidos pré-construídos precisam ser discutidos: Ao se dizer que a IA está “Centrada no ser humano”, o que se apaga é que, na relação de um sujeito com uma IA, é muito mais a máquina o centro do processo do que o sujeito (sem pedir licença ao sujeito, hoje as IAs estão em quase todos os APPs, atuando à sua revelia).

Além disso, parece necessário dizer que ela é “fundamentada no respeito à dignidade, aos direitos sociais, à diversidade cultural, regional e dos povos, e à valorização do trabalho e dos trabalhadores, prevenindo a desigualdade e vieses discriminatórios”, para que não se cogite que o que se oferece, de fato, são possibilidades iguais de produção de respostas por uma IA, relativas a diferentes interlocutores, de diferentes culturas, ou espaços geográficos. Não há discriminação, por parte do processamento, na medida radical em que não há o reconhecimento do outro. Todos são inputs iguais, já que não se trata de sujeitos em relação. O princípio é homogêneo. O que é diferente de dizer que é democrático. Ao contrário, não há reconhecimento de diferenças, muito menos “respeito”. O que há é ignorância de diferenças.

Quanto à questão da “valorização do trabalho e dos trabalhadores”, essa afirmação apaga o fato de que é a automatização o que se espera do trabalhador e, como sabemos, o trabalho automatizado não valoriza o que é do humano.

Se esses sentidos pré-construídos devem ser negados para que se possa afirmar os sentidos de “IA para o bem de todos”, e se esses sentidos afirmados na proposta do plano são, no mínimo, questionáveis, então, nos perguntamos: por que essa COMANDA? Por que essa tecnologia?

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[...] a técnica tem uma estrutura teleológica externa: ela vem preencher um desejo, uma falta, uma demanda que se define fora da própria técnica. O lugar onde se define a falta que indicará sua função em relação a essa técnica particular, não é essa técnica, mas o todo organizado da própria prática social, quer dizer, em primeiro lugar, o modo de produção, tal como o definimos. Em outros termos, e esse ponto é bastante claro para que seja inútil insistir nele, as práticas técnicas de ferraria artesanal respondem à demanda de uma prática social definida - a sociedade agrícola feudal - da mesma forma que as de metalurgia, no sentido atual do termo, respondem à demanda da sociedade industrial. (Herbert/Pêcheux [1966] 2011, p. 28-29)

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Então, nos perguntamos: a que demanda responde a prática técnica digital? Nosso entendimento é o de que uma das demandas que essa forma tecno-discursiva automática pretende resolver é a produção em escala. A produção de textos em escala, a produção da educação em escala, a produção da saúde em escala etc., em detrimento de soluções talvez menos eficazes, mas certamente mais democráticas, mais responsáveis e mais humanizadas.

Somos levadas a dizer então que, para um governo que defende a democracia e a emancipação social, o PBIA materializa uma forte contradição. E, no entanto, ele avança, e avança sob o signo da SOBERANIA.

E a pergunta, então, se recoloca: como o discurso sobre a IA faz circular sentidos de IA que, por um lado, silenciam sobre esse funcionamento “não democrático” e, por outro, constituem-se em uma propaganda eficiente para esse governo?

4. Considerações finais

Como procuramos mostrar, o termo “soberania” materializa nele mesmo uma forte contradição que está refletida na proposta do PBIA como um todo. De fato, há determinados sentidos de soberania que podem ser argumentados e, com esforço governamental, praticados. Por exemplo, a soberania em relação à proteção de dados sensíveis, em relação à privacidade, ou seja, a soberania que depende de instrumentos jurídicos e políticos. No entanto, há outros sentidos de soberania inalcançáveis, mesmo que os argumentos os qualifiquem como possíveis: trata-se da soberania técnica, ou tecnológica de IA.

Como sabemos, não se trata de uma tecnologia nacional, assim como a própria materialidade digital tem seu lastro nos EUA, e toda infraestrutura principal, de hardware e de software, está naquele país. As IAs, assim como a grande parte dos espaços enunciativos informatizados, funcionam para alimentar o sistema de consumo e as economias capitalistas neoliberais. Essas são conclusões trazidas de outros trabalhos de análise do funcionamento desses espaços (Silveira; Gallo; Pequeno, 2025). Assim, no aspecto técnico e tecnológico, só somos soberanos, enquanto nação, na medida em que aderimos ao modo de funcionamento dessa estrutura. Nessa direção, há um silenciamento, na proposta do Plano, de que só podemos falar em soberania tecnológica, de um Brasil tecnologicamente soberano na medida dessa submissão. Está aí o nó da contradição. Todos os demais problemas apontados decorrem desse. Em outras palavras, na medida em que o Brasil precisa resolver a demanda por processos automáticos e em escala, como a maioria dos países, hoje, precisa, é incontornável o gesto de colonialidade. Isso porque uma tecnologia de linguagem não é neutra, como sabemos. A escrita, como uma tecnologia de linguagem (Auroux, 2014), quando veio para o Brasil resolver determinada demanda de progresso, colonizou nossas instituições, que passaram a ser moldadas pelos seus processos de normatização e de legitimação (Pequeno, 2020). A tecnologia digital é, da mesma forma, uma tecnologia que tem seus próprios processos, incontornáveis. Mais uma vez, nossas instituições estão sendo “colonizadas” por esses processos. Nessa medida, falar em soberania é ignorar o poder determinante deles.

Não estamos afirmando, com isso, que um projeto (ou um Plano) de soberania não possa ser pensado com base na materialidade digital e em espaços enunciativos informatizados. No entanto, para isso, seria necessário resistir, em primeiro lugar, ao projeto capitalista e neoliberal que determina o funcionamento atual desses espaços e pensar diferentemente sobre eles, em uma outra lógica, que não a do capital. Mas não é esse o caso do Plano “IA para o bem de todos”, que tem por objetivo a inclusão de mais brasileiros no sistema capitalista e neoliberal de consumo. Nesse campo, a soberania (e o bem) não é “de todos os brasileiros”; é de quem detém o capital. Um “todos” que é “cada um e ninguém”, como nos diz Orlandi (2012). Busca-se aplicar UMA mesma solução de IA para todos, mas que não é boa, ou para o “bem” de cada um(a), em sua singularidade.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

As autoras não têm conflitos de interesse a declarar.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os materiais analisados neste estudo são conteúdos disponíveis na internet. Para fins de reprodutibilidade, foi depositado no Zenodo um conjunto de materiais produzidos pelas autoras contendo: (i) uma lista completa do corpus (título, data, link e data de acesso) e (ii) uma planilha com as Sequências Discursivas (SDs), isto é, os trechos efetivamente analisados no artigo, com referência completa e indicação de localização na fonte. DOI: 10.5281/zenodo.18090048. As matérias jornalísticas do O Globo são citadas por referência e por trechos necessários à análise e não são reproduzidas integralmente em repositório, por restrições de direitos autorais.

Declaração de Uso de IA

As autoras declaram que nenhuma ferramenta de IA foi utilizada na criação deste manuscrito nem em qualquer aspecto dos trabalhos realizados, cujo resultado está reportado no manuscrito.

Referências

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Corpus :

CRAVO, Alice; GULLINO, Daniel. Lula diz que IA brasileira precisa gerar emprego e ser 'inteligente': 'Se essa coisa é tão boa, por que é artificial? O Globo, 30 jul. 2024. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/07/30/lula-inteligencia-artificial.ghtml>. Acesso em: 09 jun. 2025.

GULLINO, Daniel; CRAVO, Alice. Plano brasileiro de IA prevê R$ 23 bi, supercomputador e sistema para o SUS. O Globo, 30 jul. 2024. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/07/30/plano-brasileiro-de-ia-preve-r-23-bi-supercomputador-e-sistema-para-o-sus.ghtml>. Acesso em: 09 jun. 2025.

MCTI - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação; Centro de Gestão e Estudos Estratégicos – CGEE. IA para o bem de todos: plano brasileiro de Inteligência Artificial. Brasília, DF: MCTI; CGEE, 2025.

Avaliação

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID939.R

Decisão Editorial

EDITOR: Maria Alejandra Vitale

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2746-4070

AFILIAÇÃO: Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.

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CARTA DE DECISÃO: El artículo aborda un tema muy relevante para los ámbitos académico y político, muy actual para el análisis del discurso y poco explorado desde esa perspectiva. El marco teórico está claro y explícito; el análisis es adecuado. Se incluyen reflexiones críticas bien justificadas. Por estos motivos, el artículo debe publicarse.

Rodadas de Avaliação

AVALIADOR 1: Luiz Francisco Dias

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0819-4797

AFILIAÇÃO: Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil.

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AVALIADOR 2: Cristiane Pereira Costa Dias

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5711-5288

AFILIAÇÃO: Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil.

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AVALIADOR 3: Roberto Leiser Baronas

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0758-0370

AFILIAÇÃO: Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil.

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RODADA 1

AVALIADOR 1

2026-02-04 | 03:29 PM

O texto analisa a proposta governamental “IA para o bem de todos” e a forma como ela foi tratada pela mídia com fundamento na Análise de Discurso. Nessa direção, a autoras demonstram que o ideal de uma inteligência artificial centrada no “bem de todos” entra em conflito com a realidade de um país desigual e dependente de grandes empresas de tecnologia. Os argumentos levam à conclusão de que o discurso de soberania tecnológica e de inclusão universal apresenta profundas contradições.

O objetivo central do texto é o de examinar discursos “de” e “sobre” inteligência artificial no contexto brasileiro recente, com foco na proposta “IA para o bem de todos” apresentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em julho de 2024 no Brasil. Além do texto da proposta governamental, as autoras analisam matérias jornalísticas que circularam na mesma ocasião. A escolha do corpus é pertinente, uma vez que engloba tanto o discurso oficial quanto suas ressignificações pela mídia. Isso permite análises centradas no modo como diferentes instituições constroem sentidos, constituindo expectativas sobre o papel da tecnologia na vida social.O artigo apresenta os seguintes movimentos de análise: um primeiro dedicado à análise do “todos” e do “bem” formulados na proposta governamental, um segundo que acompanha a transformação da proposta em acontecimento jornalístico, e um terceiro em que as autoras abordam o funcionamento técnico das inteligências artificiais no sentido de amarrar as análises. De início, as autoras ressaltam que o “todos” proclamado no título não corresponde à realidade de um país marcado pela desigualdade. Nessa direção, elas argumentam que a expressão “de todos” se configura como excludente, uma vez os algoritmos e as infraestruturas necessárias para implantar sistemas de IA já produzem clivagens e requerem acesso especializado. A avaliação demonstra que, ao contrário do imaginário de inclusão, os benefícios da IA tendem a concentrar‑se nas mãos de quem detém capital e acesso às tecnologias.Na análise dos discursos jornalísticos realizada com base na Análise do Discurso (AD), as autoras configuram um olhar teórico-metodológico sobre a reconfiguração das notícias na mídia. Essas notícias destacam investimentos bilionários, como a construção de um supercomputador, sistemas para o SUS e a necessidade de geração de empregos. Esses recortes evidenciam efeitos de sentidos variados. Por um lado, reforçam a expectativa de modernização tecnológica e desenvolvimento econômico. Por outro, fomentam a formação imaginária de uma “IA brasileira” ou “nossa inteligência artificial”. As autoras argumentam que o jornalismo constrói conciliações entre interesses do capital e dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que fortalece a narrativa de soberania nacional frente às grandes empresas de tecnologia (Big Techs). Dessa forma, elas argumentam a favor da tese de que as próprias notícias introduzem contradições e tensões que vão além da proposta oficial. Assim, nessa direção, a mídia estaria colaborando para a produção de uma imagem positiva da IA em prol do bem comum.Por fim, o texto aborda a materialidade técnica das IAs, apresentando conceitos como formações algorítmicas e sujeito‑avatar. A tese apresentada pelas autoras é de que a comunicação com sistemas de IA ocorre em espaços enunciativos informatizados que normatizam as interações. Sendo assim, a IA não processa a linguagem como um sujeito. Isso é realizado por meio de cálculos que ignoram as singularidades culturais e sociais dos interlocutores. Nesse sentido, a automação satisfaz uma demanda por produção em escala, colidindo com ideais democráticos e humanizados. Para as autoras, o discurso da soberania torna‑se paradoxal porque a infraestrutura tecnológica da IA não é nacional; depende, pois, de corporações estrangeiras. Sendo assim, a promessa de autonomia esconde uma nova forma de colonialidade digital. Evidencia-se a ideia de que a soberania só é viável em dimensões jurídicas como proteção de dados, enquanto a soberania tecnológica permanece inalcançável.Do ponto de vista teórico, o artigo apresenta vários pontos fortes: (1) articula de maneira clara os conceitos da Análise de Discurso com questões atuais da tecnologia; (2) evidencia como a linguagem performa realidades sociais e políticas, abrindo espaço para reflexão crítica; e (3) integra discussões técnicas de IA a um campo humanístico, contribuindo para o diálogo entre ciências humanas e tecnologias. A pesquisa apresenta rigor na leitura dos documentos e notícias. A sustentação teórico-metodológica da contradição entre o discurso do bem comum e a prática neoliberal é consistente. Outro aspecto positivo está na discussão de como termos como “soberania” são utilizados para mobilizar apoio social, mesmo quando seus significados são inalcançáveis no contexto material da tecnologia.Há, entretanto, alguns aspectos que podem limitar o alcance do trabalho. A seção sobre o funcionamento técnico das IAs poderia estabelecer relações com pesquisas da ciência da computação para evitar generalizações sobre algoritmos. Além disso, o artigo também assume um leitor familiarizado com a terminologia da Análise de Discurso. Por exemplo, termos como “sujeito‑avatar” e “formações algorítmicas” são introduzidos rapidamente, o que pode dificultar a compreensão por um público mais amplo. Apesar disso, o ensaio cumpre sua função de problematizar aspectos importantes das primeiras políticas públicas voltadas para a inteligência artificial, e de chamar a atenção para as tensões existentes entre a retórica do progresso tecnológico e os interesses econômicos e políticos que a moldam. O artigo constitui uma contribuição pertinente para o campo da AD, e promove um debate que interessa tanto a estudiosos da linguagem quanto a formuladores de políticas públicas e cidadãos.

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AVALIADOR 2

2026-03-03 09:25 AM

O artigo tem um bom potencial de circulação e interesse na área da análise de discurso e também para outras áreas das humanidades, na medida em que a inteligência artificial, tema sobre o qual se debruça a análise proposta, tem despertado grande interesse de professores, tanto do ensino básico quando superior e também de pesquisadores de modo geral.

A análise é bem sustentada. O corpus construído permite análises que levam à compreensão do modo como o discurso da e sobre a IA vai significando pelas contradições. Para tanto, o artigo apresenta três movimentos de análise. No primeiro, as autoras analisam o título do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) "IA para o bem de todos", no segundo, analisam o modo como esse Plano circula na mídia. E, no terceiro, as autoras retomam o PBIA, analisando o slide que traz os fundamentos do documento preliminar referente ao Plano.

Todas essas análises levam a descobertas interessantes sobre o funcionamento da contradição, materializada na ideia de soberania. Esse é um achado de alta relevância, visto que a questão da soberania é ponto crucial da discussão sobre a IA no Brasil. O artigo tem elementos suficientes para evidenciar o quanto a soberania está presente do discurso sobre a IA e nos planos do governo Lula3 para o Brasil.

O objetivo das autoras do artigo é analisar o discurso "de" e "sobre" a IA, presente no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) "IA para o bem de todos", bem como de sua circulação na mídia como acontecimento jornalístico. O que é plenamente atendido, a partir de uma análise sustentada teórico e metodologicamente na Análise de Discurso pecheutiana.

O ponto alto do artigo é mostrar o modo como o discurso "sobre" e "da" IA funciona pela contradição ao implementar uma tecnologia no Brasil que pode vir a sustentar processos mais igualitários, inclusivos e de inovação e, ao mesmo tempo, promover a desigualdade, exclusão e precarização, pelo modo como essa tecnologia não é pensada a partir das condições de produção brasileiras, mas a partir das condições de produção dos Estados Unidos, o que faz com que a soberania nacional brasileira seja, inclusive, ameaçada, por razões que ultrapassam, obviamente, o simples uso de ferramentas de IA, mas por todo um ecossistema político, econômico e ambiental que está por detrás do uso de uma ferramenta de IA. Essa preocupação, de certo modo, se textualiza no PBIA pelo apelo à soberania.

Ao mesmo tempo em que esse é o ponto forte do artigo, é também um ponto frágil, pois a noção de soberania é trabalhada na sua transparência. Faz falta fazer uma reflexão sobre o sentido de soberania em diferentes épocas, já que soberania não significou sempre a mesma coisa e nem da mesma forma. No artigo, essa noção aparece como um já-sabido, o que enfraquece, em alguma medida, os argumentos apresentados, embora, não os invalidem de nenhuma maneira. O artigo chega a conclusões muito relevantes e bem embasadas analiticamente, mostrando o quanto o PBIA tem aderência neoliberal, o que, por si só já tem grande impacto para os estudos e compreensão dos efeitos da IA no Brasil, no ensino, no trabalho, no conhecimento, entretenimento etc.

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AVALIADOR 3

2026-02-15 | 12:24 PM

Ao analisar sequências discursivas do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, bem como algumas de suas repercussões na mídia, notadamente as publicadas no jornal O Globo, o artigo submetido a avaliação traz uma importante contribuição não somente para os estudos do discurso, mas também para áreas como a comunicação social, a ciência da informação e a computação.

O artigo submetido a avaliação está muito bem escrito e cumpre os objetivos estabelecidos. O referencial teórico-metodológico mobilizado, a Análise materialista do discurso, dá conta da questão de pesquisa proposta. Entendo que a grande contribuição do artigo a partir das materialidades pertinentemente analisadas é mostrar como a contradição ideológica está base do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, mesmo que este último se apresente como uma política que beneficiará a todos os brasileiros.

Resposta dos Autores

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID939.A

RODADA 1

2026-03-31

Em primeiro lugar, agradecemos a leitura atenta e cuidadosa dos colegas pareceristas. Todos os pareceres trouxeram contribuições para o aprofundamento da discussão em trabalhos futuros e, na medida do possível, dentro do escopo de um artigo, incorporamos as sugestões recebidas, a partir das seguintes adequações realizadas:

- O acréscimo de algumas considerações sobre a noção de soberania, bem como a inclusão de uma nota de rodapé, explicitando melhor ao leitor como estamos entendendo soberania no artigo;

- A inclusão de uma nota de rodapé, explicando a noção de algoritmo, a partir do campo da informática em direção ao campo discursivo;

- A inclusão de uma nota de rodapé para explicar a noção de projeções algorítmicas que, por um equívoco nosso, foi grafada, em algumas passagens do texto, como “formações” algorítmicas. Além da nota, foram corrigidas as passagens que apareciam como formações, no lugar de projeções algorítmicas. A noção proposta pelos autores (Gallo & Selhorst, 2023) é a de “projeções algorítmicas”, que foi pensada em relação à noção de Pêcheux, de projeções imaginárias, conforme pode se ver no artigo: https://www.academia.edu/106568169/ChatGPT_a_grande_bolha?sm=a&rhid=38559840299, publicado originalmente no livro impresso, resultante do VI SEDISC (2022);

- A inclusão de uma nota de rodapé para explicar a noção de sujeito-avatar.

Esperamos, com isso, ter contemplado as sugestões recebidas, que nos estimularam a novas reflexões.

As autoras.

How to Cite

GRIGOLETTO, E.; DELA SILVA, S.; GALLO, S. M. L. "AI for the Good of All"? Discourse, Subject, Contradiction. Cadernos de Linguística, Campinas, SP, Brasil, v. 7, n. 3, p. e939, 2026. DOI: 10.25189/2675-4916.2026.v7.n3.id939. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/939. Acesso em: 14 may. 2026.

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