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Abstract

In this text, I propose the concept of self news to think about the central role of language in the contemporary phenomenon of so-called fake news - and its cascading effects - in social networks. With the more general objective of contributing to the understanding of the conditions of production of so-called fake news, I mobilize the theoretical arsenal of the history of linguistic ideas (also) to investigate the concepts of “post-truth” and fake news. As more specific objectives, this work seeks: (i) a conceptual research in which the idea of ​​fake news is related to classic rhetoric; (ii) an understanding of the mechanisms of language functioning in the production of fake news; (iii) an analysis that takes into account the power devices and their use for the control and dissemination of fake news. Understanding that the field of the history of linguistic ideas is, within language studies, an area whose research already presupposes an open and direct dialogue with other branches of knowledge, this study is already born transdisciplinary, as it is a linguistic research that puts at stake the history, contemporary society and also problematize issues of computer science. I defend the thesis that, in the contemporary world, there is a cynicism and an ultra-narcissism that resignify the logic of true / false discourse - producing “self-made news” for internet users.

Introdução

As chamadas fake news têm sido um fenômeno contemporâneo no mínimo interessante em vários aspectos. Para começar, há um paradoxo já posto desde a sua nomenclatura: uma “notícia” deve buscar a produção de um efeito de objetividade, como se fosse a referencialidade do fato, como se houvesse a neutralidade da descrição de um acontecimento, para uma prática de alguma ética do veículo que busca informar a sociedade sobre eventos que nos concernem diretamente. Diferentemente desses preceitos, as notícias falsas criam fatos inexistentes – ou falseiam detalhes de eventos –, narram ficções fantasiosas, inventam até mesmo o próprio veículo de pesquisa, a própria revista ou o jornal que teria veiculado uma história farsesca. Tudo isso parece nos levar a uma espécie de “ceticismo aporético”: suspendemos nosso julgamento sobre o que lemos como “informativo”, duvidamos de notícias que poderiam ser críveis, mas não reais, pensamos que nem tudo que é dito deve ser aceito como verdadeiro, mesmo que com suposto aval de meios de comunicação aparentemente fiáveis.

Uma possibilidade aventada por alguns teóricos – entre eles Lee McIntyre (2018) – é a de que os próprios estudos da linguagem, mais especificamente concepções pós-estruturalistas do sentido, ao terem questionado o estatuto do significado linguístico tal como estabelecido por uma ideia estrutural de que este estaria colado a um significante, teriam acabado por abolir o significado (em uma leitura um tanto radical), afirmando que tudo que temos é significante. O significado, então, não existiria mais do que um remetimento de significantes – que remeteriam a outros significantes, numa semiose infinita. Não à toa alguns autores falavam (e falam) de uma espécie de ceticismo linguístico contemporâneo em diferentes discursos: Talbot Taylor (1992) fala em um ceticismo comunicacional, Martha Nussbaum (1985) pensa em uma sofística contemporânea, Martin Stone (2000) se refere a uma sempre iminente ameaça cética, e o crítico literário Michael Fischer (1989) vê a presença de um ceticismo literário atual.

Então, a questão do ceticismo sobre a possibilidade de significarmos, de nos entendermos mutuamente, de nos comunicarmos com a linguagem humana passa a ser não só uma possibilidade real – como uma possibilidade de pesquisa a ser analisada. Consequentemente, outra questão comparece: (se há) um próprio limite da linguagem – os limites do nosso mútuo (des)entendimento. Daí esta pesquisa teórica-conceitual: como a dita pós-verdade e as chamadas fake news podem ser vistas como ideias linguísticas – e como podemos traçar, para uma história das ideias linguísticas, um caminho não teleológico desta concepção no campo dos estudos da linguagem.

Uma hipótese aventada é a de que uma protoimagem à chamada “era da pós-verdade” pode ser avistada no método cético-pirrônico (ainda que isso não seja dito, ou não propositalmente “sabido”): conforme o cético pirrônico, ao se pesquisar um determinado fenômeno, o pesquisador encontra discursos conflituosos sobre o mesmo tema. O pesquisador, então, considera todos os discursos conflituosos e contrários como sendo de igual força (ou seja, para o pesquisador-cético-pirrônico, todos os discursos contrários são como se tivessem o mesmo poder argumentativo em relação ao objeto de pesquisa). Finalmente, uma vez que os discursos divergentes têm exatamente a mesma força, o pesquisador-cético-pirrônico se sente impossibilitado de dizer qual deles é aquele que devemos tomar como certo – afinal, o fato de serem equânimes torna indecidível qual é o (in)válido. Isso leva o cético a suspender seu juízo (seu julgamento) sobre a verdade de determinado objeto.1

Combinada à metodologia cética pirrônica, também se pode flagrar o pensamento sofístico como certa protoimagem à chamada “era da pós-verdade”, mais exatamente o que há sobre a linguagem nos fragmentos que chegaram a nós do sofista Górgias. É fato que se vem operando uma espécie de renascimento do ideário sofístico recentemente, como se aqueles pensadores fossem pós-modernos avant la lettre. Barbara Cassin é uma das responsáveis por essa grande revisão, principalmente no que tange à concepção sofística de significado linguístico. Ela chama de poder demiúrgico da linguagem (2005[1995]) o que Górgias, em seu Elogio de Helena, afirmava sobre o discurso:

o discurso [lógos] é um grande soberano que, por meio do menor e do mais inaparente dos corpos, realiza os atos mais divinos, pois ele tem o poder de dar fim ao medo, afastar a dor, produzir alegria, aumentar a piedade. (GÓRGIAS, Elogio de Helena).2

O discurso, esse fenômeno incorpóreo, tem o poder supremo da criação de emoções, sentimentos, sensações, percepções. Enfim, a sofística gorgiana coloca em questão o paradigma referencial da linguagem segundo o qual o significado linguístico estaria atrelado ao real; para Górgias, contrariamente, o logos não diz o real:

Assim como o visível não pode tornar-se audível, ou o contrário, assim também o ser que subsiste exteriormente a nós não poderia tornar-se nosso discurso. Não são pois os seres que nós revelamos àqueles que nos cercam; nós só lhes revelamos um discurso que é diferente das substâncias. Se é assim, o discurso não manifesta o objeto exterior; pelo contrário, é o objeto exterior que as manifesta no discurso (Fragmento B. III)

Como o real e o discurso são de naturezas diversas – assim como a imagem não é sonora, nem o som é visível –, não podem ser intercambiáveis. Por isso, de acordo com Górgias, quando usamos o discurso não estamos denotando o mundo, não estamos nos referindo à sua materialidade. Pelo contrário: estamos apenas nos valendo de um discurso que não é a substância mesma do real. Conclusão disso é que o mundo não é consubstanciado em discurso – o discurso não remete a nada além dele próprio.

1. Self News

Na seção anterior, foi proposta uma aproximação entre o pensamento cético pirrônico e aquele de Górgias à contemporânea “era da pós-verdade” como uma contribuição (ainda que tímida) para uma história das ideias linguísticas não teleológica. Cabe agora a pergunta do que essa dita “era da pós-verdade” se diferenciaria do ceticismo e do relativismo sofístico antigo.

Em outro momento, mais exatamente no artigo “Pós verdade, ficção, fake news” (2019) defendi três pontos de diferenciação entre um e outro: a internet e suas redes sociais, como WhatsApp e Facebook, que fazem com que a informação se propague a uma rapidez jamais vista; a mídia, que, apesar da concorrência com o “discurso de não-autoridade” permitido pela internet, ainda conserva seu poder (e, no caso das chamadas fake news, contribuiu para banalizar o engodo quando transformou o fake em notícia); o lucro (imenso) das grandes corporações – exemplo disso é como a indústria tabagista, mesmo sabendo dos efeitos perversos de seu produto, fabricavam notícias falaciosas para não apenas continuar com seus lucros como para deixar de pagar indenizações milionárias a seus usuários (Cf. McIntyre, 2018). Se naquele artigo desenvolvi esses três pontos assinalados, neste pretendo aprofundar a proposta do conceito de self news, entendendo que, mais do que criar ficções, as fake news são invenções disseminadas para um público-alvo específico, determinado – ou seja: sabe-se de antemão qual ficção serve melhor a quem.

Sempre soubemos que nosso uso da internet não era puro, inocente, desinteressado – mas cada vez mais, e principalmente depois dos escândalos da venda de dados do Facebook para a Cambridge Analytica,3 fica-se consciente de que “surfar pela internet” é uma recreação em que se acha aquilo que já se sabe, descobre-se aquilo que, desde o início, se quer ouvir/ver/ler. Então, quero chamar de self news a este fenômeno linguístico contemporâneo: ficções criadas para um público específico, contações de história tecidas para captar ouvidos propensos a escutar aquela ficcionalização feita sob medida. Buscando o que opera a ressignificação desse debate atualmente, analisarei dois elementos que, creio, operam nas self news: o cinismo e um ultranarcisismo.

1.1. Cinismo

Segundo definição do dicionário Aulete Digital, o cinismo se configura numa facilidade extrema de contar mentiras sabendo que não haverá consequências maiores em ser pego (se, por acaso, o for). Como forma de buscar justificar a afirmativa de que o cinismo é um componente da self news, lembro uma fake news que viralizou nas redes sociais nas eleições de 2018 no Brasil: Manuela D’Ávila, então candidata à vice-presidência da república, teria ostentado uma camiseta em que se lia “Jesus é travesti”. Mesmo depois de desmascarada a manipulação da imagem, não houve qualquer punição de seu autor – e seu beneficiário, o adversário de Manuela, usufruiu das vantagens que essa ficção fake lhe fez gozar. Isso quer dizer que cidadãos foram enganados – e o enganador saiu impune. Foi confirmada uma falcatrua, mas isso não causou nenhum dano a quem agiu desonestamente. Mais grave: houve quem compartilhasse a opinião de que nenhum mal foi feito, desfazendo a gravidade do perigo de se conviver com total falta de ética.

Ainda, na foto original de Manuela D’Ávila – aquela a partir da qual ficcionalizou-se uma história farsesca –, a então candidata ostentava um “Rebele-se” em sua camiseta. Vemos, então, como a ficção encena aqui um assunto tabu (Cf. FOUCAULT 2011[1970]) – a fake news invoca o discurso religioso (a própria figura de Jesus Cristo) na fantasiosa camiseta de uma política filiada ao Partido Comunista do Brasil. Em 1970, M. Foucault já detectava que os discursos da sexualidade e da política eram os mais cerceados – pelo próprio poder discursivo. E eis que a história se repete: no jogo político, às vésperas de uma eleição presidencial, política e sexualidade se imiscuem em um tabu religioso.

De fato, a narrativa fictícia da camiseta mobiliza discursos já-ditos: o imaginário de que comunistas são ateus, pessoas que não creem em Jesus Cristo. Dessa forma, são infiéis que desprezam figuras religiosas e podem, então, blasfemar à vontade. A memória construída sobre a posição sujeito comunista abarca o ideário de que este seria alguém capaz dos atos os mais ultrajantes contra fiéis de todas as religiões, uma vez que a religião (qualquer uma) seria o ópio do povo.

Ao se focar no discurso que foi apagado, o factual “rebele-se!”, também se evocam memórias discursivas; afinal, Manuela D’Ávila ocupa a posição sujeito de uma candidata política de esquerda, comunista, de ideais humanistas: alguém que incita a revolta, um insurgir-se contra o status quo – enfim, alguém que veste a camisa de um imperativo como que de um chamamento para que a população se revolte. Logo, apagar o “rebele-se!” da camiseta de Manuela D’Ávila pode ser interpretado como um apagamento desse imperativo de se levantar contra o opressor.

O cinismo, então, também aparece no jogo de esconde-esconde de discursos já-ditos e efetivados sobre comunismo, religião. Afinal, esconde-se uma inscrição e veste-se outra, causando escândalo a uma moralidade, aos que pregam uma vida reta, virtuosa – esconde-esconde do cínico criminoso supostamente virtuoso. Para C. Dunker, essa articulação com o cinismo se dá no próprio nascimento da pós-verdade:

O fato de que presidentes e agências de Estado pratiquem mentiras técnicas como essa [Dunker se refere ao fato de o governo norte-americano ter dito que o Iraque possuía armas químicas, o que justificou o ataque dos E.U.A. ao país do Oriente Médio], retóricas (como a ‘guerra cirúrgica’), jurídicas (como a corrupção dentro da lei), apenas replica a maquiagem de balanços (que estava por trás das bolhas imobiliárias de 2008) e o cinismo como discurso básico do espaço público e da vida laboral. (DUNKER, 2017, p.17, grifo nosso).

O discurso institucionalizado legitima o cinismo – uma posição que veicula toda uma rede de enunciados, retóricas que ganham força de lei. Os enunciados são postos em circulação e se relacionam numa teia de efeitos de sentidos e jogos de azar em que se deixa os interlocutores, propositadamente, em estado de suspensão.

Antes de passar para a questão do ultranarcisismo, é preciso voltar ao que foi dito no início desta seção e enfatizar que o cinismo anda de mãos dadas com a falta de ética: a self news é a fabricação proposital de uma verdade para fins escusos, para adquirir vantagens e/ou lucros para quem a cria. Um efeito das self news é a quebra de confiança (principalmente) dos usuários de redes sociais no que se lê: a avalanche de fake news misturadas a receitas de bolo e vídeos de gatinhos, fakes passadas adiantes a outras notícias, construindo um diálogo que não se complementa, coloca desancorada a segurança do que se ouve/vê/lê, já que se é levado a questionar a todo tempo o mínimo de “referencialidade objetiva” a que uma notícia jornalística deveria responder. Esse desnorteamento fabricado não é ingênuo – e atinge inclusive a dita “imprensa profissional”.

Conforme o jornalista, escrito e professor Eugênio Bucci (2019, p.37) escreve: “Se há algo que realmente preocupa na cena política de nossos dias, em que a política se afasta ainda mais da verdade factual, é o bordão de políticos autoritários ao acusar a imprensa de espalhar fake news.” Colocar em xeque a confiança nas notícias beneficia a propagação de enunciados descolados do factual – e, conforme temos vivenciado, na rede de relações enunciativas que vão sendo criadas, as instituições também vão sendo desacreditadas, o que ameaça o próprio funcionamento democrático. Assim, se fui aos gregos para mostrar como a referencialidade não é evidente ao discurso, também procuro defender aqui a ideia de que burlar a referencialidade para tirar vantagens próprias é um efeito cínico das self news.

Outro dado importante em relação ao cinismo das self news é o de que a notícia falsa procura emular o discurso jornalístico e o discurso científico. Nesse jogo da imitação – em que terraplanistas justificam seus dados com base em Popper, cálculos precisos e até a teoria da relatividade –, o cínico contemporâneo se faz passar por cientista sem dizê-lo (e às vezes até ridicularizando a ciência).

Além disso, o cinismo também se mostra quando se pressupõe saber o que seja o “povo”, aquele que vai cair nas self news. O discurso cínico seria pressupor que os dados algorítmicos – muitos deles a que se teve acesso, como foi dito, por compra ilícita4 – definem quais são as esperanças, as crenças e os temores de determinado “povo”. Diagnosticados estes sentimentos, então se podem fabricar espelhos.

1.2. Ultranarcisismo

Se na seção anterior analisei o cinismo como um dos elementos a agir na ressignificação do debate discursivo atual, agora é a vez de defender haver uma espécie de ultranarcisismo contemporâneo a funcionar nas self news. O narcisismo, é claro, não nasceu com a fake news, nem com a internet – a própria etimologia da palavra, como se sabe, remonta ao mito grego de Narciso. Mas novamente cabe perguntar o que as selfies e outras manifestações de se autoadmirar na contemporaneidade se diferenciariam do Narciso que se jogou no rio (em uma das versões do mito).

Uma hipótese é a de que as novas tecnologias permitiriam que se chegasse a uma espécie de ultranarcisismo tanto da própria imagem quanto do próprio discurso. Parece que no que tange à imagem isso virou quase que uma evidência – provavelmente por conta das incontáveis selfies que proliferam nas redes sociais. De fato, de acordo com o prof. Odilon José Roble, “a hipertrofia da posição narcísica no contemporâneo tende a um princípio de prazer (imagético) sem princípio de realidade (corpóreo)”.5 O prazer, então, está na (própria) imagem, sendo que esta é uma construção virtual incorpórea. Com esse corpo incorpóreo, o sujeito experimenta uma obsessão contemporânea narcísica por reforços positivos. Segundo Roble, likes não bastam mais: é preciso que se comentem as fotos, retuitem os discursos. Essa ideia interessa a este trabalho na medida em que reforça a tese de que as redes sociais propiciaram certo ultranarcisismo discursivo. Narciso gosta do que vê no espelho – mas, também, do que sua própria voz ecoa. Narciso se apaixona por Eco porque precisa ouvir Eco ecoar sua voz. O discurso narcísico, então, é para ser curtido, comentado, retuitado – amplificadamente ecoado. A construção de um self, então, é tanto o espelhamento de um discurso como, também, o espalhamento de um eco discursivo que ecoa pelas redes sociais.

Esse eco, esse espelhamento ecoa e espelha o mesmo: como no Inferno, de Dante, o inferno é o outro, que sou eu mesmo – afinal, se meu pecado é a gula, estarei no círculo dos gulosos (como eu); se meu pecado é a luxúria, meu inferno será estar com os luxuriosos (como eu).6 Entretanto, se para Dante o inferno era conviver com seus iguais – ou seja: o inferno seria não haver diversidade –, contemporaneamente o inferno se transformou em uma paradisíaca bolha: confiável, segura, necessária. O jogo de espelhos e a música em uníssono têm repercutido aquilo que McLuhan vem chamando de um contexto de guerrilha informacional,7 em que grupos (em geral, só dois, polarizados que estamos) se entrincheiram por detrás de um sistema binário zero, um.

Os estilhaços desse conflito se espalham no próprio aumento da oposição agressiva: os antagonismos alcançam tal grau de incomunicabilidade que se torna impossível, agora, enxergar, ouvir o outro diferente de nós. O nível de indignação com aquele que partilha de outras ideias e opiniões encerra a bolha em um sistema hermeticamente fechado: se estamos em uma bolha, o outro está em outra – em um indizível e incompreensível longe. Dados o aprisionamento, a incomunicabilidade, a incompreensão, os habitantes das duas bolhas estão impossibilitados de debater publicamente – convivem com a inexistência de ponderação, posto que habitam bolhas impermeáveis e longínquas uma da outra. Consequência disso é que não se consegue discutir opiniões que não sejam as de um self construído à base de discursos extremistas. Assim (infernal ou paradisiacamente), dentro da bolha só há repetição, em uma egotrip cega e surda para o outro. Conforme afirma Melati ao analisar a ideia de Meyer de que as relações humanas derivam de um jogo entre identidade e diferença: “Se construímos a nossa identidade também nas redes sociais, então é nesse ambiente que fazemos uso dos discursos nos aproximando e nos afastando de textos que expressam opinião” (MELATI, 2019, p.174). Nossa identidade nas redes sociais, então, é construída a partir dos posts compartilhados, dos likes dados, dos comentários retuitados – que espelham o idêntico a nós.

Esse ecoar de identidades reverbera a maestria dos contemporâneos mestres da comunicação: eles descobriram algo mais eficaz do que o meramente fake, pois divisaram como criar narrativas que cabem como uma luva nas mãos de um leitor específico, encontraram uma maneira de prever a notícia fictícia-narcísica com a qual certo leitor se identificará. Se na lógica do mercado não é novidade que a informação tenha se transformado em um produto vendável – em outras palavras, em mercadoria –, os contemporâneos mestres da comunicação resolveram, então e de fato, produzir informação. Dessa forma, as self news são notícias feitas sob medida para um comprador – um produto a ser consumido, uma informação rápida, fácil de se entender e, sobretudo, divertida. Nesses moldes, a notícia ganha repercussão imediata – dentro da bolha.

E, como em um regresso ao infinito, o reconhecer-se no discurso circundante potencializa o narcisismo geral. Esse espelhamento discursivo propicia não só a propagação da falácia como, também, a força da falácia, contribuindo para uma espécie de vale tudo: definitivamente, as fronteiras entre ficção e não ficção são borradas quando a ficção é lida e entendida como não ficção. Assim, o flâneur da internet é feito, propositadamente, um errante por entre informações (antes) irreais.

No discurso em análise, por mais inverossímil que fosse uma candidata à vice-presidência aparecer em público às vésperas das eleições com uma camiseta antirreligiosa, tal implausibilidade não foi percebida pelos egos que queriam ver sua própria imagem discursiva no espelho. Essa inverossimilhança reforça a tese do prof. Paulo Segundo, para quem as fake news podem ser definidas pela tensão entre absurdo / evidente.8 Na self news em análise, é evidente que, para os ultranarcísicos, a camiseta da candidata comunista é real, enquanto para os correligionários de D’Ávila o absurdo diz por si. As self news, então, não têm qualquer preocupação (ao contrário da literatura) com a verossimilhança: afinal, que péssimo romancista vislumbraria uma mamadeira erótica9 – ainda por cima usadas por estranhas crianças de cinco anos que ainda não conseguiriam comer com talheres?

Sobrecarga tem sido o termo psicanalítico escolhido para se falar do sujeito contemporâneo: sobrecarregados, estamos abertos a acreditar em absurdos. Exemplo disso é quando vemos uma notícia verdadeira, mas cujo conteúdo desconfiamos ser falso. Pior: se desconfiássemos, por exemplo, da notícia de que algum artista popular estivesse internado e no dia seguinte não só a notícia se confirma como o artista vem a falecer, resultado disso é – como posso, agora, garantir que teorias da conspiração, que o homem não pisou mesmo na Lua etc., também venham a se mostrar posteriormente verdadeiras?

Os contemporâneos mestres da comunicação – alguns deles chamados de “engenheiros do caos” por G. da Empoli (2020) – se aperceberam do fato de que o enviesamento cognitivo de que se valem para vender roupas, carros, imóveis também é válido quando se trata de vender notícias: o sujeito compra aquela informação que discursiviza aquilo que ele já conhece. Desse modo, não importa informar o leitor/o espectador – interessa reforçar suas crenças. Neste sentido, a tecnologia tem um papel religioso: compartilha-se o que se acredita, o que se crê. Mais: quer-se acreditar nas self news.10

Ainda sobre a camiseta de Manuela D’Ávila, testemunha-se uma repetição narcísica do que se quer ver: quem não vota na candidata de esquerda quer confirmar sua memória discursiva do que seja um comunista – nesse imaginário, um ateu que brinca com a fé alheia. Este narciso não quer ver um espelho em que esteja escrito “rebele-se!”. Este narciso idolatra a ideia linguística de que a posição sujeito comunista tem de estar no campo do antiético. Para esse sujeito ultranarcísico, não importa que o autor da ficção é quem tenha cometido um ato antiético, já que a narrativa ficcional confirma o que o ser narcísico já sabe: o já-dito sobre o sujeito comunista. Entra-se, então, em um processo paranoico: acha-se que a vida só está a confirmar aquilo que já se sabe. Os algoritmos computacionais são como o seio da mãe: não param de alimentar o sujeito ultranarcísico com o que ele deseja.

Enfim, a tese defendida aqui é a de que, nesta era em que multilinguagens viajam de forma quase que instantânea pelas teias da internet, nesta (dita) era da informação em que nos informamos por plataformas regidas por algoritmos que nos dão aquilo que queremos ouvir/ver/ler nestes tempos ultranarcísicos, então notícias não apenas falsas, mas que espelham esse ultranarcisismo parecem ficções mais verdadeiras do que histórias reais – sobretudo quando viralizam nas redes sociais.

2. Dizem que é conclusão, mas...

Propus neste artigo o conceito de self news a partir do que já vem sendo discursivizado sobre as chamadas fake news e a era da pós-verdade. Para além do trabalho conceitual, este artigo se justifica na medida em que estamos vivenciando as consequências nocivas de notícias falsas veiculadas nas redes sociais nas últimas eleições brasileiras. Assim, este escrito também quer ser um manifesto pela não banalização do engodo das fake news, posto que a transformação que operam com falsidades travestidas de rumores ingênuos fizeram candidatos vencer eleições – inclusive no país mais abastado de nossos tempos, os Estados Unidos da América.11

Na tentativa de propor uma conclusão mais utópica e menos distópica, acredito que modificações no poder judiciário, que no mínimo condenem caluniadores, difamadores e disseminadores de self news, possam fazer recuar o fascismo atual. É fato que a regulamentação das redes é assunto premente – exemplo disso é que, nas eleições passadas, a lei eleitoral não previa qualquer criminalização que envolvesse o WhatsApp.

Outra proposta mais utópica e menos distópica segue a fala da linguista Margarida Salomão em sua defesa política pela radicalização da democracia.12 De acordo com ela, a internet poderia e deveria ser usada, por exemplo, para se consultar os membros dos partidos políticos; assim, decisões importantes não ficariam somente nas mãos de alguns, mas todos os partidários teriam uma efetiva participação no jogo político nacional.

Se comecei este texto com os céticos pirrônicos, termino me voltando a eles. A narrativa pirrônica diz que, ao se suspender o juízo sobre determinado objeto de análise, logo se experimenta a ataraxia, quer dizer, a imperturbabilidade da alma – afinal, acabaria a perturbação para se saber qual discurso é o verdadeiro. As últimas eleições de nosso país, em que um fascista foi eleito com discursos falsos, parecem ter mostrado que é muito difícil experienciar a imperturbabilidade da alma em tempos sombrios. Ao mesmo tempo, como os pirrônicos, termino este escrito de forma aporética, reconhecendo o paradoxo – narcísico: este meu texto só será ouvido/visto/lido por quem nele se espelhe (em mim).

References

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