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Abstract

For the last twenty years, two indigenous associations of the Kotiria (Wanano) people of the Upper Rio Negro region, Amazonas, have engaged in efforts to strengthen and maintain their language and culture. The Association of the Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria Indigenous School (ASEKK), located in the village of Caruru-Cachoeira, promotes activities with the school community serving five villages in the Upper Rio Negro Indigenous Land, while the Association of the Kotiria People (APOK) works within the city of São Gabriel da Cachoeira, AM, seat of the “most indigenous municipality of Brazil”. We offer an overview of the history of these organizations: their concerns, actions, challenges and accomplishments, as well as the partnerships they have developed in their fight for recognition and strengthening of their linguistic heritage and cultural identity.

Introdução

O povo kotiria (também conhecido como wanano, uanano ou guanano) é uma população de aproximadamente 2000 pessoas que vive na região do Alto Rio Negro, parte no estado brasileiro do Amazonas e parte no departamento de Vaupés, território vizinho na Colômbia. A língua kotiria pertence à família tukano oriental, e ainda é falada com grande vitalidade nas vinte e três comunidades tradicionais em ambos os lados da fronteira. Nessas comunidades, kotiria é a língua de maior uso no cotidiano e, nas comunidades abarcadas pela escola indígena kotiria, é também utilizada no âmbito escolar. Mesmo assim, pode ser considerada uma língua ameaçada, pois como todas as línguas minoritárias, sua sobrevivência depende de um delicado equilíbrio de forças internas (agindo para fortalecer e manter uma comunidade de uso da língua) e externas (agindo para impor o uso de outras línguas dominantes em esferas cada vez mais frequentes). Principalmente fora das aldeias tradicionais, famílias kotiria sentem a pressão pelo uso de línguas como tukano, língua franca forte na calha do rio Uaupés, e português, principalmente no contexto urbano de São Gabriel da Cachoeira.

Relatamos aqui um pouco da história de duas associações kotiria atuantes do lado brasileiro, preocupadas com o fortalecimento e manutenção da língua e cultura e empenhados em ações de vários tipos. Desde os primeiros anos da década de 2000, a Associação da Escola Indígena Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria (ASEKK), com sede na comunidade de Koama Phoaye (Caruru-Cachoeira) promove atividades na sede e em salas de extensão em mais cinco comunidades tradicionais na TI Alto Rio Negro; e a partir de 2009, a Associação do Povo Kotiria (APOK) atua na cidade de São Gabriel da Cachoeira, AM, sede do município “mais indígena do Brasil” e espaço urbano alvo de migração de parte da população kotiria ao longo dos últimos trinta anos.

Figure 1.Figura 1. Região Alto Rio Negro e locais das associações kotiriaFonte: EPPS; STENZEL, 2013, adaptado.

1. Associação da Escola Indígena Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria (ASEKK)

Voltamos ao final da década de 90, quando, ao ver os jovens sair das aldeias kotiria para continuar os estudos longe da família e dos parentes, crescia entre os mais velhos uma grande preocupação com a perda dos conhecimentos tradicionais, das danças e da língua, as coisas que fazem o povo kotiria viver bem e em harmonia. Compartilhando esta preocupação, um grupo de professores kotiria que na época participava do Magistério Indígena do Estado do Amazonas começou a lutar pela criação de uma escola diferenciada indígena, para que as crianças kotiria em idade escolar pudessem ficar nas comunidades com os pais. Com o apoio do Projeto de Educação do Instituto Socioambiental (ISA), a Escola Indígena Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria, que significa “casa do pajé”, foi fundada em 2002, durante a primeira oficina linguística realizada com a linguista Kristine Stenzel. Neste momento, professor José Galves Trindade começou a atuar como presidente da associação escolar, passando depois a assumir também a direção da escola entre 2005 e 2011. Junto aos professores colegas, e conquistando o apoio dos pais e lideranças, a escola expandiu até a oitava série (atual nono ano) e a partir de 2007, integrou também o ensino médio (formalmente como sala de extensão da Escola Estadual São Miguel, sediada em Iauaretê), do qual cerca de 100 alunos já se formaram até o final de 2019.

Seguiram-se anos de empenho na construção e implantação de um novo Projeto Político-Pedagógico, entregue à SEMEC em 2005, que incluía como objetivo trazer a transmissão de conhecimentos tradicionais para dentro da escola e adotava uma orientação de ensino através de pesquisa. Já a política linguística visava, por um lado, valorizar a oralidade promovendo maior uso da língua kotiria no âmbito escolar, e por outro, conquistar novos espaços de uso da língua na modalidade escrita através do desenvolvimento de uma ortografia, da produção de materiais pedagógicos, e da adoção do processo de alfabetização na língua do dia a dia das crianças (para um relato mais detalhado sobre a história da escola, ver OLIVEIRA; TRINDADE; STENZEL, 2015).

Iniciou-se um período longo e prazeroso de estudo colaborativo da língua em oficinas linguísticas que envolviam a linguista Stenzel, alunos, professores, pais e outros membros das comunidades kotiria. O foco principal das sete oficinas linguísticas realizadas entre 2002 e 2007 foi a elaboração e refinamento — através de análise, experimentação e avaliação — da ortografia prática kotiria e a preparação dos primeiros materiais usando essa nova ferramenta. Neste período, a escola também organizou outras oficinas com a participação de assessores como Marta Azevedo e Lucia Alberta de Andrade Oliveira, especialistas em pedagogia, e outros de áreas como manejo agroflorestal, saúde, antropologia e arquitetura. Entre outros produtos deste período rico, foram produzidos coletivamente um livro de histórias, uma cartilha de alfabetização e outros materiais para os primeiros anos de ensino fundamental, uma cartilha de saúde bucal, relatórios de pesquisa, mapas e um livro-texto de história e geografia. No mais, a partir da primeira formatura de oitava série da escola Khumuno Wʉ’ʉ em 2006, instaurou-se uma nova tradição: os formandos apresentam monografias de pesquisa, muitos redigidos em kotiria. Com isso, a cada ano que passa cresce o acervo de pesquisas que tratam de aspectos da história e dos conhecimentos do povo. Vinte e duas destas monografias, em versões bilingues e abordando temas diversas, foram reunidas em um volume publicado pelo Museu do Índio- FUNAI (STENZEL; TRINDADE, 2018) e lançado no evento Viva Língua Viva no Rio de Janeiro em 2019 (figura 2).

Figure 2.Figura 2. José Galves Trindade apresentando o livro de monografias de alunos da Escola Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria durante o evento Viva Língua Viva.Fonte: Acervo pessoal dos autores.

Figure 3.Figura 2. José Galves Trindade apresentando o livro de monografias de alunos da Escola Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria durante o evento Viva Língua Viva, capas e sumário.Fonte: Acervo pessoal dos autores.

Com a expansão para o ensino médio em 2007, a escola Khumuno Wʉ’ʉ se tornou parceiro em dois grandes projetos de documentação linguística coordenadas pela linguista Stenzel e envolvendo os Kotiria e seu povo-irmão, os Wa’ikhana (também conhecido como Piratapuyo). O primeiro projeto, realizada entre 2007 e 2011, teve apoio do Programa de Documentação de Línguas Ameaçadas (ELDP, Universidade de Londres, Inglaterra) e o segundo, entre 2017 e 2020, do Programa de Documentação de Línguas da Fundação Nacional da Ciência (NSF-DEL, Estados Unidos). Paralelamente ao primeiro projeto de documentação linguística a ASEKK também desenvolveu um Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI-Ministério do Meio Ambiente), realizado em colaboração com o antropólogo Pedro Rocha e voltado para documentação de danças, extremamente importantes para a cultura kotiria (ROCHA et al., no prelo). Entre os anos 2016 e 2020, ASEKK também foi protagonista, em parceria com a FOIRN e o povo vizinho Kubeo, no desenvolvimento de um Plano de Gestão Territorial e Ambiental-PGTA (ASEKK et al, no prelo).

Todos esses projetos foram concebidos no molde de pesquisa “participativa”, em parceria com a ASEKK, com as atividades integradas ao currículo e calendário escolar, e com equipes formados por professores e alunos tomando frente do planejamento e realização (STENZEL, 2014). Os temas para documentação foram sempre discutidos e escolhidos em assembleias e as etapas de produção executados de forma colaborativa por toda a comunidade escolar, membros das equipes e outros parceiros, visando a valorizando da língua e cultura e pensando em retorno dos esforços ao povo. Assim, a documentação realizada na primeira década dos anos 2000 priorizou o registro de danças e conhecimentos tradicionais dos Kotiria, bem como narrativas de origem, históricas e pessoais (como nas cenas de cima da figura 3). Já na segunda fase de documentação, na década seguinte, o foco se voltou para as atividades da vida cotidiana da escola, das famílias e nas comunidades kotiria (como as cenas de baixo na figura 3).

Figure 4.Figura 3. Cenas de documentação de narrativas, lugares sagradas e da vida cotidianaFonte: Acervos de documentação kotiria.

Durante os anos de empenho nos projetos de documentação, a preocupação com o fortalecimento da língua nunca foi deixada de lado. As oficinas continuaram a ser realizadas, mas como a maior parte das questões ortográficas já estavam resolvidas, as oficinas se voltaram para a coleta de materiais e produção de outras ferramentas linguístico-pedagógicos prioritários: o dicionário multimídia e a gramática pedagógica, esta desenvolvida com apoio do Programa de Documentação de Línguas Indígenas (PRODOCLIN-Museu do Índio-FUNAI e UNESCO). Ambos os recursos foram crescendo e se encontram atualmente em fase de finalização, como vemos nas figuras 4 e 5.

Figure 5.Figura 4. Verbete do dicionário multimidia e gravação de palavrasFonte: Acervos de documentação e materiais pedagógicos kotiria.

Figure 6.Figura 5. Alunos da escola trabalhando na oficina e página modelo da gramática pedagógica Fonte: Acervos de documentação e materiais pedagógicos kotiria.

Em janeiro de 2019, inaugurando o Ano Internacional das Línguas Indígenas, a Associação da Escola Indígena Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria recebeu o prêmio de Excelência em Linguística Comunitária da Sociedade Linguística Americana (LSA) em reconhecimento de quase vinte anos de dedicação ao fortalecimento e manutenção da língua e cultura kotiria. É bom, no entanto, lembrar que o caminho percorrido foi trilhado por desafios, dificuldades, e descobertas – tanto individuais quanto coletivos. Para os professores, alunos e pais que tanto se empenharam ao longo desses anos, o “sucesso” não se mede apenas por prémios ou produtos tangíveis, mas acima de tudo pela formação de novas gerações de jovens kotiria, fortalecidas e orgulhosas de sua identidade étnica.

2. Associação do Povo Kotiria (APOK)

Embora a maioria dos Kotiria ainda vive em comunidades tradicionais, foi a partir dos anos 80 que algumas famílias kotiria começaram a descer até a cidade de São Gabriel da Cachoeira a procura de empregos, cursos avançados e tratamentos de saúde. Os que acabaram se fixando na cidade não deixaram de valorizar a sua cultura e língua, mas reconheceram um novo conjunto de desafios próprios de um contexto urbano. Convivendo entre outras famílias falantes de mais de vinte e cinco línguas indígenas (três co-oficializadas no município em 2002) e sentindo ainda a força da dominância linguística do português, compartilhavam o medo de perder a língua e cultura, principalmente entre os jovens nascidos ou criados na cidade.

A ideia da formação de uma associação dos Kotiria vivendo na cidade surgiu entre alguns professores que já haviam trabalhado em escolas nas comunidades do interior, como o Prof. Miguel Cabral, e outros que estavam se formando no novo programa de Educação Escolar Indígena, já nos primeiros anos da década de 2000. Aos poucos, o grupo foi animando os parentes kotiria da cidade em torno da proposta da associação como um meio de se fortalecerem como grupo e de valorizar o idioma e cultura. Entre 2007 e 2010, o grupo fez levantamentos e organizou várias assembleias entre as famílias em São Gabriel, como a de 2009 visto na figura 5 abaixo. A Associação Indígena do Povo Kotiria (AIPOK), passando em 2017 a se chamar Associação do Povo Kotiria (APOK), se formalizou com o professor Miguel Cabral atuando como presidente e a professora Franssinete Gabriela Ferraz como Vice, está passando a presidir o grupo entre 2011 e 2017.

Figure 7.Figura 6. Assembleia dos Kotiria em São Gabriel da Cachoeira, em julho de 2009Fonte: Acervo pessoal dos autores.

Desde a sua formação, a associação se mobilizou em torno dos objetivos gerais de promover a união entre as famílias kotiria em São Gabriel, manter o diálogo com os parentes nas comunidades na TI Alto Rio Negro e fortalecer a língua e cultura no espaço urbano. A associação recebeu apoio não só da comunidade kotiria da cidade, mas também de pesquisadores aliados, como a antropóloga Janet Chernela, com quem publicou quatro livros trilíngues (kotiria-português-inglês) apresentando narrativas gravadas entre grandes conhecedores kotiria na década de 70 (CHERNELA et al., 2014a-b, 2015a-b).

Entre as metas específicas, a APOK tem travado uma longa luta junto à prefeitura para conseguir um terreno e meios para viabilizar a construção de uma escola kotiria urbana e uma sede da associação. O atual presidente, Professor Efraim Brazão Alango, Dianoma, vem se esforçando nas negociações de um terreno indicado pela prefeitura, cuja posse e registro em nome da associação ainda não se concretizaram.

Mesmo frente às recentes crises políticas, econômicas e sanitárias, as duas associações continuam a lutar pelo bem-estar do povo kotiria — nas comunidades do alto Uaupés e na cidade de São Gabriel — entre as quais há cada vez mais intercâmbio. Finando duas décadas de trabalho, os líderes protagonistas dos momentos iniciais agora têm como aliados uma geração formada pelas ações travadas, jovens cientes e atuantes na defesa de seus direitos e na construção de um país que valoriza sua diversidade étnica, cultural e linguística.

Figure 8.Figura 7. José Galves Trindade (à direita), professor, ex-presidente da ASEKK e ex-coordenador da Escola Khumuno Wʉ’ʉ Kotiria / Kristine Stenzel, linguista, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro / Miguel Cabral (à esquerda), professor em Caruru-Cachoeira e São Gabriel da Cachoeira e primeiro presidente da AIPOKFonte: Acervo pessoal dos autores.

References

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