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Abstract

This study presents an investigation on the effect of style, under the Labovian perspective (LABOV, 1966, 1972, 2001), on the behavior of coronal fricatives in the internal and external-word coda positions in the recordings of six speakers from Paraíba. These recorings were collected in 2015 by the Linguistic Variation Project in the State of Paraíba – VALPB (HORA, 1993) – to compose a panel-type real-time sample (LABOV, 2001). Still in progress, this study aimed to investigate (i) whether in the recontact interviews, the six speakers present the same patterns of use identified in the community by the studies by Hora (2003) and Ribeiro (2006), (ii) whether there are differences in the use of forms between recordings, considering the productions in the context of the interview, phonetic inquiry and reading; and (iii) whether there is any evidence that the favoring contexts for the palatalization rule have expanded beyond the occlusives /t/ and /d/. Our preliminary analysis suggests that, on the whole, the informants presented similar a pattern to that of their community in the 20-year interval, the “phonetic inquiry” style restricted the use of the palatal variant in certain contexts, corroborating Labov's hypothesis (1994), and other segments other than /t/ and /d/ proved to favor the palatalization process.

Resumo para não especialistas

Este estudo é sobre uma pronúncia conhecida como “S chiado”, encontrado no final de sílabas e palavras, como em “caSca” e “maiS”. Nós investigamos o quanto que essa pronúncia depende da situação e da atenção prestada à fala, e o quanto que o “S chiado” é influenciado pelos sons vizinhos. Comparamos a fala de seis moradores de João Pessoa, gravadas por nosso projeto em 1993 e em 2015, a fim de analisar o que mudou em um pouco mais de 20 anos. O objetivo geral deste trabalho foi investigar (i) se houve um aumento na ocorrência da pronúncia do “S chiado” após esse tempo; (ii) se a pronúncia deles tende a ser influenciada pela atenção prestada à fala; e (iii) se passaram a pronunciar o “S chiado” com mais frequência antes de consoantes além de “t” e “d” (onde espera-se o “S” de forma “chiada”), como em “aSno" e “eSlavo". Na análise preliminar, vimos que a taxa dessa pronúncia em 1993 foi proporcional a de 2015, que a atenção prestada à fala não parece influenciar muito essa pronúncia, mas sim os sons vizinhos, e que outros sons além do “t” e “d” motivariam tal pronúncia.

Introdução

O estilo é um dos pilares centrais para o entendimento do encaixamento das variantes linguísticas dentro da matriz social das comunidades de fala nos estudos que se debruçaram sobre a variação nos moldes labovianos. No entanto, há um número relativamente menor de estudos que tratou de analisar o papel do estilo em dialetos do Português Brasileiro. A maioria dos estudos dentro da sociolinguística brasileira teve como foco apenas a entrevista sociolinguística, ao invés de explorar outros instrumentos de coleta e/ou o papel do estilo. Nesse grupo restrito estão as pesquisas de Kato (1992), Wetzels & Hora (2011), Görski, Coelho & Souza (2014), Hora (2014) e Amorim et al. (2019a).

Dentro desse contexto, este artigo apresenta uma investigação sobre o efeito do estilo, sob a acepção laboviana (LABOV, 1966, 1972, 2001), no comportamento das fricativas coronais em coda medial e final de palavras nas gravações de seis falantes pessoenses. As gravações analisadas foram coletadas em 2015 pelo Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba – VALPB (HORA, 1993) – para a composição de uma amostra em tempo real do tipo painel (LABOV, 2001). Essa variável já foi investigada por Hora (2003) e Ribeiro (2006) na mesma comunidade de fala, a partir de 60 entrevistas do corpus de 1993 do VALPB. Os achados indicam que, no geral, as formas alveolares [s] e [z] são as mais recorrentes, enquanto as palatalizadas [ʃ] e [ʒ] são restritas a contextos seguintes específicos (as coronais /t/ e /d/). A forma aspirada e o apagamento também ocorreram, mas em quantidade pouco expressiva em comparação às outras.

Ainda em andamento, este estudo buscou investigar (i) se nas entrevistas de recontato,  os seis falantes apresentam os mesmos padrões de uso identificados na comunidade pelos estudos de Hora (2003) e Ribeiro (2006), (ii) se há diferenças na distribuição do uso das formas entre as gravações, considerando as produções em contexto de entrevista, inquérito fonético e leitura; e (iii) se há alguma evidência de que os contextos favorecedores para a regra de palatalização se expandiram para além das oclusivas /t/ e /d/. Nossa análise preliminar sugere que, no geral, os informantes apresentaram um padrão parecido com o de sua comunidade no intervalo de 20 anos. O estilo “inquérito fonético” restringiu o uso da variante palatal em determinados contextos, corroborando a hipótese de Labov (1994), e outros segmentos além do /t/ e /d/ mostraram-se favorecedores ao processo de palatalização.

1. A fricativa /s/ em codas medial e final no PB e a variável Contexto Fonológico Seguinte

O comportamento da fricativa coronal em coda medial e final já foi objeto de estudo em uma gama de trabalhos de base dialetológica e sociolinguística envolvendo dialetos do PB. Segundo Callou, Moraes e Leite (2002), Brescancini (2002), Hora (2003) e Ribeiro (2006) quatro são as variantes passíveis de realização para essa variável dependente: (a) alveolar, como em “pa[s]to” e “a[z]neira”, (b) palato-alveolar, como em “ra[ʃ]par” e “a[ʒ]no”, (c) glotal, como em “ca[h]ca” e “de[ɦ]de”, e (d) zero fonético, como em “me[ø]mo”. As variantes palatais e alveolares, entretanto, são as mais recorrentes nas comunidades de fala brasileiras, com uma delas predominando em cada lugar.

Em seu trabalho sobre consoantes em coda, envolvendo os dados do Projeto da Norma Urbana Culta (NURC), Callou, Leite e Moraes (2002) descrevem o comportamento do /S/ em coda silábica presente na fala de universitários do Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), Recife (PE) e Salvador (BA). Rio de Janeiro e Recife majoritariamente produzem a forma palato-alveolar, enquanto em São Paulo e Porto Alegre prevalece a forma alveolar. Salvador fica no meio termo, apresentando proporções similares de formas alveolarizadas e palatalizadas (Quadro 1).

Figure 1.Quadro 1 - Frequências de produção de cada uma das variantes do /S/ pós-vocálico, em posição medial, em 5 capitais brasileiras Fonte: Callou, Moraes e Leite (2002).

Vários estudos sobre esta variável foram desenvolvidos Brasil afora, dentre os quais os de Motta (2002) sobre o falar o dialeto baiano, Scherre e Macedo (2000) sobre o dialeto fluminense, e Brescancini (2002) sobre o dialeto catarinense. Sobre o falar paraibano, Hora (2003) e Ribeiro (2006) investigaram o dialeto de João Pessoa, onde residem os informantes que forneceram os dados neste estudo. Considerando isso, serão apresentados com mais detalhamento resultados de pesquisas envolvendo o fenômeno nessa comunidade de fala.

Hora (2003) e Ribeiro (2006), a partir dos dados de fala coletados e armazenados entre 1993 e 1994, analisaram o comportamento do /S/ em coda em João Pessoa (Gráfico 1). O corpus seguia o padrão laboviano de estratificação, considerando o sexo/gênero, a idade e a escolaridade dos informantes. Hora (2003) analisou a fricativa coronal em posição de coda interna, como em “casca” e “pasto”. Ribeiro (2006) analisou a variável em posição de coda final em lexemas, como em “depois” e “jamais”.

Figure 2.Gráfico 1 - Disposição das variantes do /S/ em coda na cidade de João Pessoa. Fonte: Adaptado de Hora (2003) e Ribeiro (2006).

Os resultados de Hora (2003) apresentam a predominância da variante alveolar (28%, n = 9.517), seguida da palato-alveolar (64,8%, n = 9.517), glotal (6.1%, n = 9.517) e apagamento (1.1%, n = 9.517). Segundo o autor, o número expressivo de observações da variante palato-alveolar parece estar condicionado ao contexto fonológico seguinte, já que esta forma é favorecida quando precede as consoantes oclusivas dentais //t, d/, como em pa[ʃ]ta, co[ʃ]tura, de[ʒ]dém e de[ʒ]de. A variável “contexto fonológico seguinte” foi a única selecionada pelo programa como condicionante para a aplicação da regra, conferindo o contexto “coronal” o peso relativo de 0.86 (97%, n = 6.265) . Em se tratando da posição final, o estudo de Ribeiro (2006) mostra que a fricativa coronal em sua realização palato-alveolar é pouco produtiva, aparecendo em apenas 6% (n = 7.034) dos dados, sendo a alveolar (63,4%, n = 7.034), glotal (6.2%, n = 7.034) e apagamento (24.4%, n = 7.034). Esse resultado corrobora a tese de que a palatalização é estritamente condicionada, no dialeto pessoense, ao contexto seguinte.

Apesar de Hora (2003) apresentar o contexto seguinte coronal como favorecedor, com alto peso relativo, durante a descrição dos seus resultados, aponta apenas dois segmentos dessa classe natural (/t/ e /d/) como gatilhos para a palatalização no vernáculo pessoense. Isso aconteceu porque nenhuma palavra com //s/ em coda medial seguido das consoantes /n/ e /l/ foi verificada no corpus do VALPB, ausência justificada pelo escasso número de vocábulos com essas características no léxico da Língua Portuguesa. Como o trabalho de Ribeiro (2006) analisou as codas finais apenas seguidas de pausa, e não as seguidas de consoantes em palavras fonológicas, como em "doi/S/ navios", não se sabe até que ponto apenas as oclusivas /t/ e /d/ são contextos favorecedores ao processo em questão.

Em um estudo sobre atitudes e percepções linguísticas a partir de uma abordagem direta, desenvolvido por Hora, a partir de respostas dos falantes pessoenses do corpus do VALPB (HORA, 1993) a perguntas de caráter metalinguístico, a ocorrência da forma palato-alveolar emergiu entre os comentários dos entrevistados. Estes a caracterizaram como “chiado” e “falar assoprado”, associando-a ao falar carioca. Esse dado evidencia a percepção da variante pela comunidade e sua configuração como estereótipo, segundo a classificação laboviana (LABOV, 1972). A análise feita pelo pesquisador foi na direção de que o falante pessoense parece não perceber que ele próprio também “chia” em determinados contextos (HORA; HENRIQUE, 2016). A partir de outra abordagem, Lopes (2012) analisou preferências e atitudes de 105 ouvintes nascidos em João Pessoa, apresentando pares de palavras com situações de ocorrência e não ocorrência de variantes linguísticas regionais. Eles deveriam responder se percebiam diferenças entre o sotaque regional e suavizado, o tipo de pronúncia que preferiam para a fala de apresentadores de telejornal, para a fala do pessoense e para a própria fala. Sobre a forma palatalizada do /S/ pós-vocálico antes de [t] e [d], em 95,24% dos casos, os ouvintes perceberam que as pronúncias eram diferentes. Para a fala de um telejornalista, a forma alveolar foi predominante, com 76,48% das escolhas. Quanto à variante preferida para a fala pessoense e para a própria fala, a predominância foi para a variante palatal, que totalizou 68,8% e 64,20% das escolhas, respectivamente. Esses dados sugerem que os falantes pessoenses percebem a diferença entre alveolares e palato-alveolares nos contextos favorecedores à aplicação da regra no dialeto pessoense, e que o estilo parece ser um fator importante para o status variante palato-alveolar nesses contextos a depender da formalidade (fala do telejornalista) vs. informalidade (vernáculo pessoense), nos termos considerados por Lopes (2012).

Henrique (2016) complementou a análise proposta por Lopes (2012), verificando se, considerando a variável “diferença entre pronúncias” como uma variável contínua e comparando essa distinção em outros contextos seguintes além de [t] e [d], esse grau de contraste fonético poderia ser significativamente diferente para o contexto de aplicação da regra no dialeto pessoense. Além de investigar essa gradação na percepção das diferenças, também buscou verificar se os ouvintes pessoenses têm consciência do comportamento da variante no seu próprio dialeto e se possuem identidade dialetal com relação ao comportamento da fricativa em coda em João Pessoa. Como principais resultados, Henrique (2016) constatou que o contexto seguinte parece não exercer um papel significativo na discriminação entre a forma alveolar e palatal; que os ouvintes têm consciência do comportamento da fricativa do dialeto pessoense; e que há uma grande identificação entre esses falantes e o dialeto de sua comunidade de fala em relação ao processo. Além disso, houve um dado inesperado sobre essa identificação: os ouvintes atribuíram para si e para sua comunidade de fala a forma palato-alveolar antes da nasal /n/ em uma proporção maior do que para grande parte dos outros contextos (Gráfico 2). Ainda que esses dados sejam de natureza perceptual, eles sugerem a presença da variante palato-alveolar, ainda que em menor grau, também antes de /n/, uma das hipóteses a serem testadas na pesquisa aqui apresentada.

Figure 3.Gráfico 2 - Proporção das escolhas para o dialeto pessoense de acordo com o “contexto fonético seguinte”.Fonte: Henrique (2016, p. 73).

Na próxima seção, serão discutidas as concepções de estilo a serem consideradas para a análise dos dados a serem apresentados na seção 3.

2. O estilo nas perspectivas da sociolinguística variacionista

É lugar comum entre os sociolinguistas a constatação de que o estilo exerce um papel fundamental no processo de variação e mudança das línguas, já que está intrinsecamente ligado à noção de identidade (de comunidades de falas, grupos sociais ou de falantes individualmente).  Entretanto, transformá-lo em categoria de análise nunca foi algo simples, muito menos unânime dentro dos estudos variacionistas.

Labov (1966, 1972), para chegar ao que chamava de “forma de fala vernacular” em seu estudo sobre a comunidade de fala de Nova York, criou estratégias dentro da entrevista sociolinguística que levassem o falante a um grau de envolvimento emocional tal que se sobrepusesse à situação formal imposta pelo gravador, minimizando o que definira como “máxima do observador”.  Em contraponto a esses momentos, evocados por narrativas envolvendo a infância e perigos de morte, por exemplo, havia a chamada “fala monitorada”, registro utilizado pelo falante em situações mais formais de uso da língua. Para Labov (1966, 1972), o estilo estava relacionado justamente à atenção prestada à fala e ao monitoramento feito pelos falantes de uma dada comunidade com relação ao uso de determinadas variantes linguísticas.

Ao estabelecer comparações entre a distribuição das proporções das variantes de determinadas variáveis linguísticas entre os estilos casual e formal e a sua distribuição estratificada nas macrocategorias sociais (sexo, escolaridade, classe social, idade etc.), Labov (1966, 1972) percebeu que havia uma forte relação entre o prestígio de uma determinada variante na comunidade e a sua maior recorrência em dados de fala mais monitorada. O Gráfico 2 apresenta a estratificação do uso do [r] por falantes do Low East New York considerando a classe social (SEC) e o estilo (A = causal; B = fala monitorada; C = leitura; D = lista de palavras; e D’ = pares mínimos).

Figure 4.Gráfico 2 - Estratificação por classe e estilo para o (r). Fonte: Labov (2006 [1970], p.152).

Nota-se que a presença do [r] é proporcionalmente mais recorrente no vernáculo da classe mais alta, e, à medida que o estilo fica mais formal, segundo a classificação de Labov (1966, 1972), a realização do [r] aumenta em todos os grupos sociais. A partir de observações como essas, o linguista estabeleceu algumas generalizações, com a de que “as comunidades exibem ambas as estratificações, social e estilística, com a mesma variável” (LABOV, 2001, p.86). Dessa forma, esses estudos sugerem uma ligação estreita entre o indivíduo e sua comunidade, na medida em que repercute, na variação intra-falante, a hierarquia da distribuição de determinada variante no estrato social da sua comunidade de fala. Colocando prestígio e estigma como características atribuídas a fala de falantes que ocupam os extremos da hierarquia social, o ponto mais alto e mais baixo, respectivamente, Labov (1966) observou que a atenção prestada à fala funcionava como um indicador do prestígio de uma variante na comunidade.

Apesar da importância desse tipo de análise para a compreensão da avaliação de certas variantes nas comunidades de fala, o estilo, segundo Eckert & Rickford (2001, p.3), deixou de ser o foco nos trabalhos de linha quantitativa na década seguinte, principalmente pela dificuldade de separar contextos de formalidade a partir da definição laboviana de “atenção prestada à fala”, o que levou os pesquisadores a observarem apenas as restrições de natureza social e linguísticas das amostras de fala.

Diversas propostas para observar de perto o estilo como categoria de análise sociolinguística surgiram após os trabalhos de Labov (PODESVA, 2006; COUPLAND, 2007). Dentre elas, está a preconizada por Eckert (2000), que associa o estilo às categorias identitárias de determinados grupos que compartilham práticas sociais, formas estruturadas de engajamento. O foco aqui é transposto para o significado social das variáveis em conjunto, percebidas pelos falantes e por eles utilizadas para criar sua personae, situada na matriz social da(s) comunidade(s) de que participa(m). Os trabalhos dentro dessa linha, por observarem a variação sob o prisma da construção de estilos de performance (ou práticas estilísticas), costumam usar um número mais reduzido de informantes em relação aos estudos de primeira onda, já que seu intuito não é o de estabelecer estimativas sobre a comunidade de fala como um todo.

Para a análise dos dados aqui descritos, será utilizada predominantemente a proposta laboviana de atenção prestada à fala, realizada através da observação do comportamento da variável dependente em dados coletados em diferentes instrumentos de coleta. A metodologia utilizada para sua obtenção está descrita na próxima seção.

3. Metodologia

Todas as gravações do recontato foram realizadas no âmbito do projeto VALPB e foram conduzidas em João Pessoa, Paraíba, entre 2015 e 2016, na casa dos informantes, exceto a do informante FPMF. Devido a sua disponibilidade, a gravação ocorreu na sala do projeto VALPB, na Universidade Federal da Paraíba. Todas as gravações foram feitas com o gravador Tascam DR-2d.

Participaram das gravações seis informantes, falantes do Português Brasileiro de João Pessoa, Paraíba, todos do corpus do VALPB, coletado em 2015. Desses, três são do sexo masculino e com escolaridade de nível superior e três do feminino com ensino fundamental incompleto. Cinco tinham faixa etária de 26 a 49 anos e dois acima de 49 anos, na época da coleta. O Quadro 1 ilustra a estratificação desses participantes.

Sexo/Gênero Masculino Feminino
Faixa Etária 26 a 49 anos acima de 49 anos
Escolaridade Superior Fundamental Incompleto
Informante HBS FPMF VLB MLTS EBC MJC
Table 1.Quadro 1 - Estratificação dos informantes do recontato. Fonte: Elaborado pelos autores.

Os instrumentos de coleta foram desenvolvidos pelo projeto VALPB. Neste estudo, foram analisados dados da entrevista, leitura e inquérito fonético. Considerando a perspectiva laboviana da primeira onda da sociolinguística, que concebe estilo como atenção prestada à fala, espera-se neste estudo que a ordem crescente da quantidade de atenção prestada à fala é, respectivamente: entrevista, leitura e inquérito fonético. Na coleta dos dados, primeiro foi realizada a entrevista, depois o inquérito fonético e, por último, a leitura, todas gravadas no mesmo encontro, com um breve intervalo entre cada coleta.

O primeiro instrumento de coleta, a entrevista semiestruturada, foi elaborado com base no roteiro utilizado para as entrevistas do corpus de 1993. Elas duraram aproximadamente 45 minutos e abrangeram os seguintes tópicos: (a) bairro; (b) infância; (c) família; (d) lazer; e (e) cidade de João Pessoa.  A estrutura em tópicos busca não apenas obter informações do falante, mas também identificar aspectos que possam relacionar-se a maior ou menor atenção prestada à fala. Apesar de o presente estudo não ter investigado a correlação entre o emprego das variantes e os tópicos abordados na entrevista, isso pode e deve ser feito em estudos futuros.

A leitura, o segundo instrumento de coleta, foi composta por frases elaboradas contendo as 90 palavras utilizadas no inquérito fonético. Essas palavras foram selecionadas para dar conta de algumas variantes fonético-fonológicas, dentre elas a realização palato-alveolar do //s/ em coda, bem como de variáveis ligadas a elas, como contexto precedente e seguinte, por exemplo. O texto foi apresentado impresso em uma folha de papel.

O terceiro instrumento de coleta, o inquérito fonético, caracteriza-se por 90 figuras apresentadas isoladamente ao informante, para que ele ou ela as nomeie. As figuras relativas às palavras-alvos das outras variáveis para além da fricativa /s/ em coda serviram como distratoras, assim como as relativas a esse processo serviram de distratoras para as dos outros processos. As figuras foram apresentadas em um notebook. As palavras cujas pronúncias foram analisadas neste trabalho foram, com relação à coda final, “lápis, nariz, Jesus, luz, paz, giz, três, pires, feliz, arroz”, e com relação à coda medial, “espada, fósforo, asfalto, cuspe, esmola, poste, cisne, bisneto, festa, fusca, vesgo, esgoto, pesca e cuscuz”.

Para a análises dos dados, as seguintes variáveis foram estabelecidas considerando os estudos resenhados na seção 2:

Variável Níveis
Variável dependente
Ocorrência Palatalização; Não palatalização.
Variável independente
Tipo de coda Medial; Final.
Informante HBS; FPMF; VLB; MLTS; EBC; MJC.
Instrumento de coleta Entrevista; Leitura; Inquérito Fonético.
Contexto Fonológico Seguinte* v; t; r; p; l; h; g; f; n; m; d; k; b; Pausa.
Notas: * considerando em conjunto as possibilidades de realização nos dois tipos de coda.
Table 2.Quadro 2 - Variáveis consideradas pelo atual estudo. Fonte: Elaborado pelos autores.

As gravações foram transcritas de maneira impressionista utilizando o ELAN (HELLWIG; GEERTS, 2019). Em seguida, as ocorrências foram tabuladas em uma planilha “.csv”. O pré-processamento dos dados, as tabelas, os gráficos e os testes estatísticos foram feitos usando a linguagem R (R CORE TEAM, 2019), com o RStudio (RSTUDIO TEAM, 2018). Os Testes de Qui-quadrado de Independência e Testes Exatos de Fisher foram feitos usando as funções do R base chisq.test() e fisher.test(), respectivamente, e a medida de associação de V de Cramer foi calculada usando a função cramersV(), do pacote lsr (NAVARRO, 2015).

Na seção seguinte, serão apresentados os resultados e a discussão sobre o processo de palatalização de /s/ em coda medial e coda final de seis falantes do Português Brasileiro da comunidade de fala de João Pessoa, Paraíba, em três instrumentos de coleta, reunidos em 2015 pelo projeto VALPB.

4. Resultados e discussão

Detalhadas na metodologia, as variáveis aqui analisadas são: Tipo de Coda, Informante, Contexto Seguinte e Instrumento de Coleta. Em todos os gráficos, as barras estão preenchidas de amarelo para a realização palato-alveolar (P) e de roxo para a formas não palatalizadas (NP). Para comparar os resultados dos falantes deste estudo com os de Hora (2003) e Ribeiro (2006), o processo em questão nesses dois estudos foi amalgamado para apresentar apenas dois níveis: não palato-alveolar (NP) e palato-alveolar (P). Logo, o nível "não palato-alveolar", apresentado ao longo da presente seção, engloba as formas "alveolar", "glotal" e "zero fonético". O gráfico adaptado desses autores se encontra a seguir:

Figure 5.Gráfico 3 - Disposição das variantes do /S/ em coda na cidade de João Pessoa.Fonte: adaptado de Hora (2003) e Ribeiro (2006).

Comparando as pesquisas de Hora (2003) e Ribeiro (2006), conduzidas a partir de 36 entrevistas sociolinguísticas do VALPB, gravadas em 1993 na mesma comunidade de fala deste estudo, nota-se que a taxa de produção da palatalização do /s/ em coda apresenta uma ligeira diferença, a depender da posição da coda na palavra. A taxa geral de palatalização foi maior na coda medial do que na final - 64,8% (n = 9.517) contra 6% (n = 7.034), padrão semelhante ao da maioria dos dialetos brasileiros já documentados (BRESCANCINI, 2002).

Como esses dois estudos foram os únicos até então a investigar esse processo na comunidade de João Pessoa, surge o desafio de comparar dois recortes distintos, separados por 23 anos, um pouco mais do que considerado por Labov (1972) como uma geração. As diferenças encontradas nessa comparação poderiam ser interpretadas por pelo menos duas perspectivas: diferenças amostrais entre as pesquisas ou por mudança linguística efetivada. Para a primeira, as diferenças no perfil social dos falantes seriam a fonte da diferença na variabilidade encontrada na presente pesquisa, já que a amostra deste estudo não é tão representativa quando comparada com a do corpus de 1993, que preenchia mais células sociais. Assumindo que as variáveis sexo, faixa etária e escolaridade influenciem a palatalização, e que o processo esteja em variação estável, seria possível considerar a hipótese de que as diferenças encontradas entre a taxa de produção geral desses estudos seriam atribuídas por diferenças entre as amostragens, pois, por exemplo, no presente estudo, não há falantes com escolaridade de nível ensino médio e nem de faixa etária acima de 49 anos, como no corpus de 1993. Se esse for o caso, comparar a fala de um grupo contendo pessoas com uma dada característica com outro sem pessoas com tal característica não seria tão seguro. Da segunda interpretação, assumindo que as variáveis sociais não influenciem esse processo e que a fala desse grupo represente a da comunidade como um todo, as diferenças na taxa de palatalização entre os estudos seriam o reflexo de uma mudança linguística na comunidade, após 23 anos. Nesse sentido, como não haveria influência das variáveis sociais na palatalização, seria possível comparar a produção de falantes de estudos com diferentes estratos sociais, uma vez que ser membro desses estratos não condicionaria a palatalização. Como as variáveis sociais não operariam em tal processo, as diferenças entre estudos com diferentes cortes temporais poderiam ser indicativos de uma mudança em progresso. Esses desafios foram encarados nos trabalhos de Amorim et al. (2019a) e Amorim et al. (2019b), que abordaram a palatalização do /t/ e /d/ na fala de 5 dos 6 participantes desta pesquisa, usando os mesmos instrumentos de coleta. Os autores constataram que não houve diferença significativa na taxa geral da palatalização analisada, quando comparada a fala dos mesmos participantes em condições semelhantes em um estudo de painel após 23 anos. Caso não tenha havido uma diferença significativa na produção de todos os informantes do corpus de 1993, como ocorreu com 5 deles nos estudos supracitados, e caso as variáveis sociais realmente condicionem o processo, então, pelo menos para esse processo, uma diferença encontrada entre estudos com recortes temporais distintos poderia ser atribuída às variáveis sociais, pois a comunidade como um todo estaria em variação estável, com indivíduos apresentando diferenças no uso da palatalização devido ao seu perfil social. Como os estudos de Hora (2003) e Ribeiro (2006) indicam que a palatalização de //s/ em coda em João Pessoa não depende de maneira significativa das variáveis sociais, mas é operada por fatores estruturais, o estudo desse processo torna-se menos caótico (por ter menos fonte de variabilidade). Além disso, esses achados contribuem para justificar a comparação de amostras que não compartilham da mesma estratificação, como no caso atual, uma vez que seria irrelevante para explicar o processo linguístico no contexto em questão.

Isso posto, cabe apresentar os resultados da presente pesquisa. Ao todo, foram 2.767 ocorrências do /S/ em coda, sendo 2.259 na entrevista, 301 na leitura e 207 no inquérito fonético.  Para coda medial (n = 1.234), a ocorrência de palatalização na entrevista foi de 62,2% (n = 949); na leitura, de 59,6% (n = 166); e no inquérito fonético, de 29,4% (n = 119). Para a coda final (n = 1.533), foi de, respectivamente, 12,6% (n = 1.310), 7,4% (n = 135) e 1,1% (n = 88).

O Gráfico 4 mostra a porcentagem de realização palato-alveolar do /s/ em coda de acordo com o tipo de coda e o instrumento de coleta. A taxa de ocorrência foi substancialmente maior na coda medial do que na final. Em ambas as condições, o uso da palato-alveolar foi mais produtivo na entrevista, seguida da leitura e, por último, do inquérito fonético.

Figure 6.Gráfico 4 - Ocorrência da palatalização de /s/ em coda por 6 pessoenses, a depender do Instrumento de Coleta (Entrevista, Leitura e Inquérito Fonético) e do Tipo de Coda (Medial e Final). Legenda: P = Palatalização, NP = Não palatalização. Fonte: elaborado pelos autores

Segundo os testes de qui-quadrado de independência, há uma associação entre a palatalização de /S/ em coda e o instrumento de coleta, tanto em coda medial (X²(2) = 46,87; p < 0,001; V de Cramer = 0,19), como em coda final (X²(2) = 12,76; p = 0,001; V de Cramer = 0,09). Entretanto, apesar de haver uma dependência entre essas duas variáveis, o tamanho de efeito dessa associação para ambos os tipos de coda é baixo, como indicado pelo valor de V de Cramer. A análise dos resíduos padronizados do teste de qui-quadrado mostrou que, em comparação com os valores esperados, para a coda medial, a forma palato-alveolar foi mais produtiva na entrevista e leitura e menos, no inquérito fonético, enquanto, para a coda final, foi mais produtiva na entrevista e menos, na leitura e no inquérito fonético.

Já com esses resultados é possível estabelecer uma leitura comparando as duas amostras coletadas em pontos sincrônicos distintos e separadas por um intervalo de 20 anos. A taxa geral de palatalização em coda medial apontada no trabalho de Hora (2003), a partir da contagem de ocorrências em 60 entrevistas sociolinguísticas coletadas em 1993, foi de 64,76% (n = 9.517), muito próxima à encontrada neste estudo (62,2%, n = 949). Com relação à coda final, analisada pelo estudo de Ribeiro (2006) a partir de 36 entrevistas, houve um aumento. Naquele estudo, uma taxa de aplicação de 6% (n = 7.034) foi detectada, enquanto neste, 12,6% (n = 1.310), considerando o mesmo método de coleta de dados.

Esses dados corroboram com a leitura feita por Hora (2003) de que o processo de palatalização em coda medial não apresentava indícios de mudança em progresso, mas de variação estável. O autor baseou sua leitura a partir da análise das distribuições das variantes entre falantes de diferentes faixas etárias, também conhecida como análise de tempo aparente. As porcentagens de aplicação eram bastante parecidas entres as faixas etárias (quadro 3).

Figure 7.Quadro 3 - Distribuição da variante palatalizada entre diferentes faixas etárias na comunidade de fala de João Pessoa a partir dos dados coletados em 1993. Fonte: HORA (2003).

A conclusão a que se chega, com relação à coda medial, é de que o uso da variante alvéolo-palatal sofre um processo estável na comunidade e possui apenas gatilhos linguísticos. Com relação à coda final, pouca coisa se sabe, pois a análise de Ribeiro (2006) teve como foco a variante aspirada, e não analisou distribuições da variante palato-alveolar entre diferentes faixas etárias. O que temos é, dessa forma, um aumento da taxa de produção, que pode ser condicionada pelo maior número de ocorrência contextos seguintes favorecedores na nova amostra analisada. Apenas um estudo de tempo real do tipo painel propriamente dito (próximo passo do projeto) poderia trazer luz a essas questões.

Para investigar mais minuciosamente esses achados, cabe analisar se os falantes apresentaram um comportamento homogêneo diante da palatalização, pois isso poderia dar pistas sobre interferências de variáveis sociais que estariam operando na presente amostra. O Gráfico 2 apresenta a porcentagem de palatalização de /s/ em coda, a depender do informante, do instrumento de coleta e do tipo de coda. A participante MJCO não participou da leitura pois era analfabeta. Conforme o Gráfico 5, a maioria dos falantes apresentou a tendência esperada da taxa de palatalização a depender do estilo, em ambas as posições de coda na palavra, ou seja, maior frequência na entrevista do que na leitura e no inquérito fonético. As exceções foram HBS e EBC, que palatalizaram mais na leitura do que na entrevista, o primeiro em coda medial e a segunda em coda final. No geral, a taxa de palatalização dos falantes foi muito próxima em relação a ambas as codas e aos estilos. Portanto, visualmente parece não haver indícios de influências de variáveis sociais no comportamento desses falantes, dado o comportamento semelhante e consistente manifestado por eles nos três instrumentos de coleta.

Figure 8.Gráfico 5 - Ocorrência da palatalização de /s/ em coda por 6 pessoenses, a depender do Informante, do Instrumento de Coleta (Entrevista, Leitura e Inquérito Fonético) e do Tipo de Coda (Medial e Final). Legenda: P = Palatalização, NP = Não palatalização. E = Entrevista, L = Leitura, I = Inquérito Fonético.Fonte: elaborado pelos autores

Como os testes de independência podem trazer mais evidências para além da inspeção visual dos dados, foram realizados testes de qui-quadrado de independência e calculadas medidas de V de Cramer a partir desses testes. Conforme o quadro 4, os informantes não apresentaram diferença significativa na taxa de palatalização na leitura e no inquérito em ambos os tipos de coda. Houve uma leve diferença apenas na entrevista em ambos os tipos de coda, com um pequeno tamanho de efeito, de acordo com os valores de V de Cramer. Isso implica que, mesmo tendo faixa-etária, escolaridade e sexo/gênero diferentes, os informantes mostraram-se relativamente homogêneos nas condições aqui discutidas. Isso poderia ser mais um indício de que esse processo tem sido implementado na comunidade por fatores estritamente linguísticos, o que poderia ser ainda melhor investigado em um estudo de tendência com uma amostra maior e mais representativa.

Instrumentos df p V de Cramer
Coda medial
Entrevista 23,35 5 < 0,001 0,15
Leitura 0,33 4 0,987 0,04
Inquérito 2,35 5 0,798 0,14
Coda final
Entrevista 13,73 5 0.01736 0.10
Leitura 7.56 4 0.1091 0.23
Inquérito 3.6733 5 0.5973 0.20
Notas: em negrito, destacam-se os valores abaixo do nível de significância de 0,05.
Table 3.Quadro 4 - Testes de qui-quadrado de independência e V de Cramer da palatalização de acordo com o informante, filtrados por instrumento de coleta e tipo de coda. Fonte: Elaborada pelos autores.

O que foi trazido até então, no geral, mostra uma leve influência do papel do estilo no uso de /S/. No entanto, cabe investigar a distribuição e a influência do contexto fonológico seguinte no uso da variante palato-alveolar, e depois o comportamento dessas duas variáveis em conjunto, ou seja, a possível associação e interação entre elas. Com esse propósito, a figura 2 e o gráfico 6 foram elaborados. A figura 2 ilustra a distribuição do uso de /S/ a partir do instrumento de coleta, do contexto seguinte e do tipo de coda, enquanto o gráfico 6 traz a proporção desses resultados, mas omitindo os outros contextos seguintes ([v], [r], [p], [h], [g], [f], [m], [b] e pausa) para melhor diagramação do gráfico, uma vez que apresentaram uma pequena taxa de palatalização, abaixo de 3%.

Figure 9.Figura 2 - Gráficos com a distribuição da palatalização de /S/ em coda medial por 6 pessoenses, a depender do Contexto Seguinte, do Instrumento de Coleta e do Tipo de Coda. Legenda: P = Palatalização, NP = Não palatalização.Fonte: elaborado pelos autores

Assim como já apontado pela literatura, tanto no dialeto de João Pessoa, como em outras comunidades de fala, a palatalização do /S/ em coda apresenta uma grande dependência do contexto seguinte. A figura 2, com a distribuição, já traz indícios de que há uma associação entre a palatalização e o contexto seguinte, tanto em coda medial como também em coda final, já que ocorre em fronteira de palavras. Os contextos mais favorecedores foram /t/, /d/, /n/, e, em menor escala, em apenas um dos instrumentos e um dos tipos de coda, /l/ e /k/. Note que, quando seguida de /t/, a forma palatalizada foi usada em quase todas as ocorrências na coda medial. Além disso, pelo menos para esses falantes, essa palatalização parece estar sendo desencadeada pelo /n/ como contexto seguinte, para além do /t/ e do /d/, como já estava documentado na literatura.

Figure 10.Gráfico 6 - Ocorrência da palatalização de /s/ em coda por 6 pessoenses, a depender do Contexto Seguinte, do Instrumento de Coleta (Entrevista, Leitura e Inquérito Fonético) e do Tipo de Coda (Medial e Final). Legenda: P = Palatalização, NP = Não palatalização. E = Entrevista, L = Leitura, I = Inquérito Fonético.Fonte: elaborado pelos autores

Conforme os Testes Exatos de Fisher descritos no quadro 5, o contexto seguinte influenciou de maneira significativa a palatalização, em ambos os tipos de coda e em todos os instrumentos de coleta. Os valores de V de Cramer mostram a associação entre essas duas variáveis é forte. Note que em coda medial a força da associação foi de acima de 0,85 nos instrumentos de coleta.

Instrumentos p V de Cramer
Coda medial
Entrevista < 0,001 0,97
Leitura < 0,001 0,85
Inquérito < 0,001 0,91
Coda final
Entrevista < 0,001 0,70
Leitura < 0,001 0,63
Inquérito 0.022 0,34
Notas: em negrito, destacam-se os valores abaixo do nível de significância de 0,05.
Table 4.Quadro 5 - Testes exatos de Fisher e V de Cramer da palatalização de acordo com o contexto seguinte, filtrados por instrumento de coleta e tipo de coda. Fonte: Elaborada pelos autores.

Agora cabe discutir a associação entre o estilo e o contexto seguinte. Se um estudo laboviano em relação ao estilo permite observar o encaixamento de determinada forma na comunidade, os dados obtidos a partir desses diferentes instrumentos de coleta seriam capazes de iluminar essa questão. No entanto, em relação aos nossos instrumentos de coleta, há algumas considerações a se fazer.

Considerando a Figura 2 e a descrição da amostra, apresentada no parágrafo anterior ao da apresentação do Gráfico 4, é possível notar que há uma considerável diferença no tamanho da amostra entre as variáveis. O número de ocorrências com coda final foi maior do que o da medial na entrevista, mas, para os outros dois instrumentos de coleta, havia um pouco mais de palavras-alvo com coda medial. Houve também mais palavras-alvo na leitura do que no inquérito fonético, pois a leitura contou com itens não lexicais, diferentemente do inquérito fonético. Além disso, o contexto fonológico seguinte não foi adequadamente controlado na leitura e no inquérito fonético, havendo poucas ocorrências de determinados contextos, além de diferenças muito grandes entre os contextos em comparação aos dois instrumentos.

No inquérito fonético, em relação à coda final, onde seria esperado que o participante dissesse apenas a palavra-alvo, houve ocorrências com contexto seguinte (apenas /n/), dado que eles falaram alguma palavra além da esperada (por exemplo: “hóstia, né?”). As ocorrências das fricativas palato-alveolar, glotal e alveolar como contexto seguinte da coda final apareceram porque os falantes as produziram com uma rápida pausa entre as pronúncias. Houve uma diferença na quantidade de palavras produzidas no inquérito e leitura em relação aos falantes uma vez que, no inquérito, nem sempre a palavra-alvo foi a pronunciada pelo participante. Alguns não sabiam nomear a figura e outros se referiram à figura por outra palavra. Na leitura, alguns participantes não leram algumas das palavras: algumas vezes eles leram uma palavra diferente da escrita e em outras pularam a palavra.

Portanto, é preciso precaução ao se considerar os indícios aqui achados em relação à associação entre estilo e o uso de /S/ em coda. Foi possível observar um padrão nos dados, como a ordem dos contextos mais favorecedores (/t/, /d/, /n/, e /l/ e /k/), mas é preciso que estudos futuros controlem de forma mais adequada a quantidade de palavras considerando o contexto fonológico, em todos os estilos de coleta, e com repetições de palavras, de forma a investigar a consistência no uso.

Por fim, se a entrevista é o instrumento de coleta onde há menos atenção prestada à fala e, portanto, onde seria esperado haver mais frequência da variante palato-alveolar, esses achados deixam claro que, pelo menos para esses falantes e para a entrevista sociolinguística, essa variante do /s/ em coda medial é restrita ao /t/, /d/ e, de forma menos frequente, pelo /n/. Em outras palavras, para esses falantes, esse processo em coda medial parece ser desencadeado apenas por esses três contextos na fala semi-espontânea.

5. Considerações finais

A partir da observação dos resultados apresentados acima, algumas leituras podem ser tecidas levando em consideração as hipóteses apresentadas na introdução deste texto. A primeira é em relação à taxa de ocorrência da forma palato-alveolar na entrevista sociolinguística, visto que é o mesmo instrumento de coleta das pesquisas de Hora (2003) e Ribeiro (2006). As entrevistas atuais foram feitas seguindo um roteiro adaptado a partir do que foi utilizado no corpus desses dois estudos. Na entrevista, em coda medial, a taxa de palatalização geral foi de 62,2% (n = 949), e para coda final de 12,6% (n = 1.310). Nos estudos citados, a taxa para a coda medial foi de 64,8% (n = 9.517), enquanto para a final foi de 6% (n = 7.034). À primeira vista, pode-se perceber que o uso da variante palato-alveolar permaneceu relativamente estável, o que corrobora com a leitura feita por Hora (2003) de que a distribuição dessa variante na comunidade não apresenta indícios de mudança em progresso. Os dados expostos na figura 1 revelam que grande quantidade das ocorrências analisadas, em contextos de coda medial, tiveram as consoantes t e d como contexto seguinte, o que reitera a importância do contexto seguinte para a realização do processo em questão.

Com relação à distribuição da variante palatalizada levando em conta o estilo, Amorim (et al. 2019a), apontou o estilo “inquérito fonético” como mais formal, e a entrevista, como mais casual. Além disso, Lopes (2012) e Hora e Henrique (2013) sugerem a tese de que os falantes pessoenses preferem a forma alveolar em estilos mais formais, mas preferem a variante palato-alveolar em contextos que favorecem sua aplicação na fala não monitorada, como apontam os resultados de Lopes (2012) e Henrique (2016). No entanto, os resultados aqui alcançados mostram que o estilo apresenta uma leve influência no uso do /S/ em coda, sendo a presente análise sobre o estilo afetada por conta da variável contexto seguinte. Isso torna os resultados em relação ao estilo inconclusivos, pois é necessário haver mais estudos com maior controle metodológico sobre o contexto seguinte e os instrumentos de coleta.

Com relação a terceira hipótese, de caráter eminentemente estrutural, nota-se, observando principalmente a figura 1, o gráfico 3 e os resultados dos testes de Cramer, que o contexto seguinte tem um papel decisivo na realização da forma palatalizada, como já havia sido apontado por Hora (2003). A consoante [t] está presente como contexto seguinte em grande parte das ocorrências analisadas, e certamente foi a responsável pelas altas taxas de palatalização, seguida da consoante [d]. Um achado em dados de produção foi a constatação da consoante [n] como favorecedora do processo em ambos os tipos de coda, corroborando com os resultados de Henrique (2015). Cabe fazer uma ressalva, entretanto, à proporção de 100% de palatalização em contexto de coda medial verificada na entrevista, já que esse dado foi obtido a partir de produções categóricas da forma palatalizada em apenas 2 ocorrências desse contexto no corpus. Fazer generalizações com um número tão pequeno de observações não seria prudente.

Por outro lado, é inegável o efeito da nasal coronal no processo de palatalização do /S/ observando sua produtividade na coda final, por exemplo. Um exemplo disso foi a alta produtividade da palatalização no inquérito fonético, quando os falantes usavam a interjeição “né” imediatamente após a palavra terminada em “s”. Como o número de palavras que apresentam o “n” como contexto texto seguinte de um /S/ em coda medial, a análise da coda final torna-se fundamental para entender a influência desse contexto para aplicação da regra. Uma possível expansão sugerida para trabalhos futuros é analisar também o /S/ em coda com função morfológica, já que o número de ocorrências para análise seria ampliado significativamente para todos os contextos seguintes.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

Nós, Pedro Felipe de Lima Henrique, André Wesley Dantas de Amorim e Dermeval da Hora, autores responsáveis pela submissão do manuscrito intitulado “O papel do estilo no uso do /S/ pós-vocálico em uma amostra de recontato”, declaramos que NÃO POSSUÍMOS CONFLITO DE INTERESSES de ordem pessoal, comercial, acadêmica, política ou financeira no manuscrito.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados que suportam os resultados deste estudo serão disponibilizados pelo autor correspondente, mediante solicitação razoável.

Referências

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Avaliação

DOI: 10.25189/2675-4916.2022.V3.N1.ID621.R

Elyne Giselle de Santana Lima Aguiar Vitório

Avaliadora 1; Universidade Federal de Alagoas, Alagoas, Brasil

Eliane Pereira Machado Soares

Avaliadora 2; Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Pará, Brasil

Gredson dos Santos

Avaliador 3; Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Bahia, Brasil

RODADA 1

Avaliadora 1

2022-02-23 | 04:31

O texto “O papel do estilo no uso do /S/ pós-vocálico em uma amostra de recontato” apresenta um relato final de trabalho originado a partir de investigação baseada em dados empíricos de seis falantes pessoenses através de uma amostra de recontato, de acordo com a Sociolinguística laboviana. O trabalho apresenta objetivo, método e resultado em consonância com o título, o que significa considerar que as partes do artigo conduzem à finalidade do estudo. Apesar de ser uma análise preliminar, a descrição das fricativas coronais em coda medial e final de palavras, tomando por base os trabalhos de Hora (2003) e Ribeiro (2006), sugere que, no intervalo de 20 anos, os informantes apresentam um padrão parecido com o da comunidade. Outro dado interessante é que o estilo “inquérito fonético” restringe o uso da variante palatal em determinados contextos, revelando a importância do papel do estilo nesse processo linguístico variável. Nesse contexto, o trabalho apresenta relevância não só para a descrição desse processo na comunidade estudada, mas também contribui para a descrição de variedades brasileiras, via Sociolinguístiva Variacionista, tomando por base a metodologia de tempo real.

Avaliadora 2

2022-02-10 | 06:43

Considerando as diretrizes de avaliação desta revista o artigo traz um relato de pesquisa que cumpre com cada uma das exigências para sua publicação, em cada etapa (Título; Resumo; Introdução; Métodos, Resultados, bem como se encontra de acordo com as normas da ABNT). A discussão surge da análise dos dados e afirma estudos realizados anteriormente, aprofundando tópicos básicos ao tema. Sendo assim, somos de parecer favorável a sua publicação.

GENERALIDADES

1. Confronte a interpretação contra os resultados. A discussão repete meramente os resultados? A interpretação surge de maneira lógica dos dados? Foram enumeradas as deficiências da pesquisa?

2. Compare a interpretação com os estudos citados no artigo. A interpretação discorda ou afirma com a de outros pesquisadores da área?

3. Considere a pesquisa publicada sobre este tópico: todos os estudos básicos foram considerados?

4. Ao direcionar a pesquisa para um futuro, o autor sugere um aprofundamento na pesquisa?

5. Considere o periódico para o qual o artigo foi escrito. Os tópicos e as normas do periódico estão sendo cumpridos

6. Releia o sumário. Ele resume o artigo com exatidão?

7. Todas as citações estão referenciadas de acordo com as regras da ABNT?

8. Os anexos estão sendo citados e explicitados?

Avaliador 3

2022-02-27 | 06:21

O relato de pesquisa O papel do estilo no uso do /s/ pós-vocálico em uma amostra de recontato apresenta principalmente uma análise parcial (já que a pesquisa ainda está em andamento) acerca do efeito da variável estilo (relacionada a instrumentos de coleta como entrevista, leitura de texto e inquérito fonético) para a realização palato-alveolar de /s/ em coda silábica no português falado em João Pessoa.

Analisando uma amostra colhida junto ao banco de dados linguísticos VALPB, o trabalho busca cobrir um gap importante na área e avança num aspecto que até então não fora abordado por praticamente nenhum dos vários trabalhos sobre o /s/ em coda silábica no PB: observar a influência do estilo (em sua concepção laboviana) para a realização da variável linguística em exame. Além disso, o trabalho utiliza no exame estatístico das variáveis, o programa R, uma ferramenta de análise bastante rigorosa e moderna – aí está mais um aspecto que o trabalho cobre em relação aos trabalhos anteriores sobre o tema.

Sendo assim, recomendo a publicação do texto. Como contribuição para a qualidade do mesmo, destaco alguns pontos gerais para os quais sugiro um exame por parte dos autores, conforme marcações destacadas no manuscrito, são estes:

1. Não concordo com a afirmação de que a abordagem de variáveis relacionadas à escolaridade mede “indiretamente” como afirmam os autores efeitos do estilo.

2. Os resultados gerais apresentados apontam que o estilo não tem um papel tão importante quanto se supunha para a variante palato-alveolar?

3. No final da Seção 2, talvez caiba um penúltimo parágrafo com o balanço geral dos autores sobre o exame do estilo na sociolinguística brasileira. No último parágrafo da seção, penso que cabe uma rápida justificativa sobre a razão pela qual o trabalho opta pela abordagem laboviana do estilo.

4. Sobre a comparação entre os dados do recontato e os trabalhos de Hora (2003) e Ribeiro (2006), penso que precisa ser discutida a comparabilidade entre os estudos considerando as ferramentas de análise estatística. Embora os resultados não tenham se mostrado divergentes, não se pode perder de vista que os estudos de Hora (2003) e Ribeiro (2006) produziram análises do peso relativo com o Varbrul/Goldvarb. O Rstudio, até onde sei, não busca levantar pesos relativos. Há ainda o fato de que, no Goldvarb/Varbul, incluir uma variável com "informante" é problemático, já que isso gera uma interação difícil de resolver em razão de que os dados de cada informante estarão necessariamente contidos nos demais grupos, como faixa etária, escolaridade etc (Cf. Guy e Zilles, 2007, p.182-187), e o programa, ao menos nas versões anteriores, não é capaz de fazer esse exame. Por essa razão, as análises com Goldvarb não incluem o informante como variável dependente. Com o R, uma linguagem mais avançada, isso é perfeitamente possível. Então, penso que a comparação entre os estudos precisa ser feita explicitando essas ressalvas e relativizando os resultados.

5. Sugiro rever O gráfico 4. Se entendi bem, o gráfico que está posto revela a "Distribuição da palatalização de /s/ em coda por 6 pessoenses", e não distribuição da quantidade de palavras-alvo por coda. Além disso (desconsiderem caso seja um equívoco meu), parece-me que os Gráficos 4 e 5 possuem basicamente o mesmo título: "Gráfico 4 - Distribuição da palatalização de /s/ em coda por 6 pessoenses, a depender do Instrumento de Coleta (Entrevista, Leitura e Inquérito Fonético) e do Tipo de Coda (Medial e Final). " "Gráfico 5 - Ocorrência da palatalização de /s/ em coda por 6 pessoenses, a depender do Instrumento de Coleta (Entrevista, Leitura e Inquérito Fonético) e do Tipo de Coda (Medial e Final)."

6. Sobre a “distribuição da variante palatalizada levando em conta o estilo”, discutida no segundo parágrafo das considerações finais, pergunto: os resultados apresentados não levam a considerar que, pelo menos para os dados analisados neste estudo, essa afirmação deva ser relativizada, uma vez que é o contexto seguinte a maior fonte de restrições para a escola das variantes pelos informantes? Tanto é assim que no próprio texto, na seção 2, há o seguinte, após a tabela 4: ", tanto no dialeto de João Pessoa, como em outras comunidades de fala, a palatalização do /S/ em coda apresenta uma grande dependência do contexto seguinte. "

7. Nas Considerações Finais que tal os autores retomarem de modo mais explícito a questão central, posta desde o título do trabalho: qual "O papel do estilo no uso do /s/ pós-vocálico em uma amostra de recontato”? Pelo que parecem evidenciar os resultados até essa altura do trabalho, o estilo seria secundário na escolha da variante palato-alveolar, regida sobretudo por fatores contextuais. Acho que vale a pena fechar o trabalho indicando isso.

Finalizo ressaltando a qualidade do trabalho e destacando que as observações postas neste parecer têm caráter apenas de sugestão, cabendo aos autores acatar ou rejeitar.