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Abstract

As part of the program for the Abralin em Cena 16 event, about Linguistics communication, Arika Okrent was interviewed (in English). An edited version of the interview given by Arika Okrent is published on Abralin's Youtube channel. In the interview, Arika Okrent talks about her experience in popularizing Linguistics in different media: she is the author of two books and many popularization videos. She explained the differences between the media explored by her and the challenges faced by Linguistics communicators – who are linguists used to interact with the academic public. Finally, Arika Okrent describes what she considers essential for effective communication with non-specialized audiences: taking linguistic issues that interest the audience, investigating them driven by one’s own curiosity, and sharing this journey with the audience. This means that Linguistics communication does not feature as a mere simplification of academic language or the translation of results achieved in Linguistics, but the creation of a new product that involves the non-specialized public.

Resumo para não especialistas

Entrevistamos Arika Okrent, uma linguista estadunidense com larga experiência em dialogar com o público não especializado sobre questões de linguagem. Conversamos sobre o que ela, que começou escrevendo textos de popularização, aprendeu ao fazer vídeos. Conversamos também sobre a própria natureza da popularização da Linguística – que é diferente da comunicação entre cientistas. Para Arika Okrent, comunicar com o público amplo sobre questões que interessam à Linguística significa deixar-se guiar pela curiosidade (tanto do público como a dela) e tomar temas que já interessam ao público (alguém fala Klingon na vida real? Por que as pessoas inventam línguas? Por que escrevemos as palavras desse jeito?) para procurar respostas na Linguística. Foi isso que ela fez nos dois últimos livros que ela publicou e esse é o desafio para pensar o próximo.

Introdução

Arika Okrent é linguista, autora de vários artigos na revista online Mental Floss, de vários vídeos em seu canal no Youtube e autora de dois livros de popularização da Linguística: In the land of invented languages (2009) e Highly irregular (2021). No primeiro livro, ela nota que muitos inventores de línguas foram motivados a criar suas línguas pelo desejo de impor lógica, regularidade e racionalidade à língua. A autora usa essa motivação como uma oportunidade de mostrar ao leitor algumas características das línguas naturais, que falamos no dia a dia: são coletivas (não levam a assinatura de ninguém que depois possa lamentar as mudanças na "sua" língua feitas pelos usuários), são usadas (a grande maioria das 900 línguas inventadas não teve adeptos), na maior parte, são nascidas na oralidade (e não na escrita) e altamente irregulares – que é o tema do segundo livro de Arika Okrent.

O diferencial de Arika Okrent enquanto popularizadora da Linguística é sua capacidade de fisgar o público não especializado com dúvidas que ele mesmo tinha, entrar pela porta dos fundos da Linguística (que não estuda línguas artificiais) e embarcar numa aventura de descobertas respeitando o público não especializado: evitando usar termos técnicos, por exemplo, nem adotando o tom professoral.

Como em toda entrevista publicada por escrito, o que segue não é uma transcrição: as marcas conversacionais ancoradas na conversação face a face foram eliminadas e todo o conteúdo foi traduzido do inglês para o português.

Entrevista

LK: Bem-vinda, e muito obrigada, Arika, por estar aqui conosco. Te agradeço em nome da ABRALIN e pediria que você se apresentasse.

Arika Okrent: Eu sou Arika Okrent, eu fiz doutorado em Linguística (já faz um tempo) e depois disso eu escrevi um livro sobre línguas inventadas, o que não tinha nada a ver com a minha tese ou qualquer coisa que eu tenha estudado. Mas isso então me levou a escrever sobre linguagem para um público amplo – e é isso que eu faço hoje em dia.

LK: Você sempre escreveu no formato de popularização da Linguística ou você já experimentou outras mídias?

Arika Okrent: Eu também fiz vídeos. Na verdade, eu trabalhei muito tempo para a Mental Floss, uma revista eletrônica. Eu escrevia artigos curtos sobre temas linguísticos do cotidiano, principalmente respondendo perguntas. Depois expandimos para vídeos, e pra isso eu trabalhei com um ilustrador. Então eu fazia uma explicação de dois ou três minutos sobre por exemplo o que faz uma pessoa ter um sotaque estrangeiro? ou por que animais fazem sons diferentes em línguas diferentes? enquanto ele fazia um desenho ao vivo na lousa branca. Depois nós editávamos e produzíamos esses vídeos juntos, o que foi um trabalho bem divertido.

LK: É diferente escrever um livro de fazer esses vídeos? Me refiro ao planejamento, o público, o modo de se expressar. As diferentes mídias influenciam o resultado do trabalho de popularização?

Arika Okrent: Bem, como eu já tinha a experiência de escrever artigos por um tempo, os vídeos me permitiram condensar a informação: eu podia acionar dois canais de uma vez. Então, enquanto eu explicava um assunto, um desenho daquilo era executado. Isso me permitia adicionar mais camadas de informação sem que ficasse muito pesado. Continuava sendo engraçado e leve, mas havia dois canais de informação (auditivo e visual) sendo acionados ao mesmo tempo – e isso foi muito útil. Claro que esse trabalho de edição demanda bastante coordenação para acertar o timing entre a parte visual e a narração, de modo que não haja conflitos. Não é fácil acertar esse timing.

LK: Certo, como no humor. O que foi desafiador nessa sua trajetória de popularização da Linguística?

Arika Okrent: Eu acho que colocar perguntas que dialogam com as dúvidas que as pessoas realmente têm é um pouco difícil quando se vem de um ambiente acadêmico. Essas inquietações são o seu ponto de partida quando você se interessa pela Linguística: você acha interessante, tem curiosidade, quer saber os motivos, e aí você aprende tudo de outro jeito e o seu primeiro impulso é contar pra todo mundo como estão todos errados! No curso de Linguística você aprende coisas que a gramática escolar não tinha te ensinado e você se encanta com a abordagem científica da linguagem. Aí você tem urgência de fazer com que os outros entendam que o que eles aprenderam sobre a linguagem está equivocado. Mas esse não é um jeito muito bom de chegar nas pessoas: eu vou te dizer onde você está errado! As pessoas não estão interessadas nesse tipo de abordagem. Então, inventar um modo de voltar para essa postura inocente de simples curiosidade e se perguntar como alguma coisa funciona é um tanto mais complicado quanto mais se sabe sobre o assunto. Pra mim, esse é o desafio: me colocar de volta naquela postura de curiosidade interessada (ao invés da postura professoral). O público leigo interage melhor com esse tipo de postura, que é mais próxima à postura das pessoas em geral.

LK: Aqui, nesse livro In the land of invented languages (No país das línguas inventadas), você aprendeu (!) todas as línguas artificiais – não todas, mas muitas delas. Você transitou por muitas línguas e esse talvez seja o ponto em que você se coloca nessa postura de curiosidade interessada que você tem vontade de compartilhar com um público maior. Mas, enquanto leitora, eu tenho a impressão de entrar pela porta dos fundos da Linguística, porque você é uma linguista e nós, leitores, aprendemos MUITO sobre línguas naturais enquanto acompanhamos anedotas e histórias sobre as línguas artificiais.

Arika Okrent: Agora que você colocou dessa maneira, me dou conta de que foi o melhor modo de mudar essa minha postura acadêmica para uma postura mais acessível. Eu comecei a trabalhar nesse livro durante a escrita da minha tese que estava me sobrecarregando. Eu estava sempre na biblioteca, trabalhando na tese, até que um dia me distraí com uma prateleira que tinha livros de Esperanto, Klingon etc. De início, tive uma postura desdenhosa em relação a essas línguas, mas também um pouco de curiosidade: essas línguas são realmente usadas? Então foi assim que começou esse projeto, com uma curiosidade realmente inocente combinada com uma postura um pouco preconceituosa em relação a essas línguas artificiais. O que me manteve no projeto foi a minha curiosidade aliada à minha formação linguística, que me permitiu analisar os dados com alguma sofisticação. Assim eu pude observar os objetivos das pessoas que inventam línguas e contrastá-los com o que fazemos naturalmente com as nossas línguas maternas. Entendendo os propósitos das línguas artificiais, eu consegui superar o meu preconceito contra as línguas inventadas porque havia pessoas envolvidas: conheci muitas pessoas fluentes em línguas artificiais e pude interagir com elas, perguntar coisas específicas e entender melhor como essas línguas eram usadas. Esse foi o meu jeito de transformar aquela tese pesada numa curiosidade entusiasmada sobre as línguas. Infelizmente as pessoas podem perder esse entusiasmo no percurso dos estudos acadêmicos e é importante encontrar um modo de trazer isso de volta.

LK: E ao longo dos cursos de graduação não se aprende quase nada sobre línguas artificiais.

Arika Okrent: Sim, parte-se do pressuposto de que as línguas artificiais não são nem parte da Linguística e que são inventadas por pessoas que não sabem nada de linguística e decidem inventar uma nova língua. Aí o linguista fica perturbado, porque nem a ciência entendeu o que são as línguas.

LK: Me impressiona que haja registro de mais ou menos 900 línguas inventadas!

Arika Okrent: Sim, desde que as pessoas se deram conta de que existe uma coisa chamada língua, elas se perguntaram se não podiam melhorar essa língua. E é isso que eu achei o mais interessante: não as línguas em si, mas a necessidade humana de trabalhar em cima de línguas. E para entender essa questão (Por que, há mais de mil anos, as pessoas inventam línguas novas?) eu não tive preparo durante a minha formação linguística.

LK: Agora você lançou recentemente um segundo livro, chamado Highly irregular (Altamente irregular). Esse livro tem um propósito diferente?

Arika Okrent: Sim, esse livro é mais sobre as perguntas à minha volta. Aquele ilustrador que fez os vídeos comigo e eu fazíamos publicações que giravam em torno de perguntas como: por que dizemos “como você ousa” e não “como você tenta”? Qual é a diferença entre esses dois verbos? Procurávamos trazer perguntas que poderiam ser feitas por qualquer um, como por exemplo por que soletramos as palavras assim? Então eu juntei algumas dessas questões num livro que pudesse ser consultado pontualmente ou que pode ser lido do começo ao fim para se ter uma história da língua inglesa. Eu me baseei nas piadas, nos memes e expressões de estranhamento perante a língua para explicar os motivos que levaram às irregularidades que observamos hoje na língua. E mais uma vez eu tive que aprender tudo: eu não fiz Linguística Histórica (eu cursei disciplinas, mas não era a minha área de concentração). Mais uma vez eu tive que encontrar as respostas: eu não estava na postura de ensinar o que eu sabia com o meu conhecimento superior e demonstrar como todos estavam errados, mas assumindo a postura de quem reflete sobre a língua (uma criança, um estrangeiro) e resolve investigar por que a língua é como é. Minha formação linguística me ajudou a encontrar respostas de maneira competente. Então esse livro é fruto do meu aprendizado sobre as aparentes irregularidades da língua inglesa.

LK: Aqui no Brasil chamamos isso que você faz de “popularização da Linguística”, não falamos em “comunicação linguística”. Talvez o conceito seja um pouco diferente, mas o fato é que aqui a prática ainda não está consolidada. Eu percebo que há uma conjugação entre forma, conteúdo e estilo nesse novo gênero, esse modo de apresentar temas da Linguística. Você considera ainda outros elementos importantes?

Arika Okrent: Eu diria que é esse elemento da curiosidade. Eu não saberia como colocar isso numa fórmula simples, do tipo esse é o tipo de curiosidade que você deve ter e é assim que se aplica, mas é preciso apelar para a curiosidade do público. Isso pode significar ter que procurar por perguntas que as pessoas realmente fazem acerca da língua. Mas não, isso não basta, porque os linguistas, por exemplo, perseguem questões que o público geral desconhece. Então se trata de encontrar uma maneira de conectar as questões do linguista às dúvidas e à curiosidade das pessoas que não são linguistas. Essa parte é bem complicada, porque o impulso é ensinar o que se sabe de cima pra baixo. Como se trata de comunicação, é preciso encontrar algo que se conecta com a vida das pessoas. Aquisição de linguagem é um assunto, por exemplo, que interessa basicamente a todos que têm crianças pequenas, mas eles não fazem as mesmas perguntas que o linguista faz. Então eu vejo aí uma margem para direcionar o processo de popularização: sim, isso é muito interessante, e sabe o que é mais legal ainda? Elas não cometem erros desse tipo. As pessoas focam nos “erros”, em como corrigir a criança, então vale a pena mostrar o conhecimento que a criança tem da língua, apontando para erros que ela não comete. Essa é uma forma de conectar as duas coisas: o que as pessoas já estão pensando sobre a língua e o que elas não estão pensando em perguntar. O que não dá pra fazer é impor às pessoas o que elas não estão nem pensando em perguntar.

LK: Essa estratégia é sua? Você aprendeu a escrever, falar, pensar, comunicar desse jeito com alguém?

Arika Okrent: Eu trabalhei por muito tempo com editores que tentavam me direcionar para as coisas típicas da escrita de popularização, como por exemplo explorar um conflito (o conflito entre Chomsky e Everett) em que há drama, porque é isso que as pessoas querem. Eu escrevi um texto sobre a disputa entre Chomsky e Everett e foi um dos textos mais difíceis, porque eu tive que explicar o que cada um deles estava fazendo e por que isso gera conflito – sem recorrer aos termos técnicos. Então eu tive que demonstrar o meu conhecimento profundo da situação numa linguagem acessível para o leigo. Então eu aprendi a transformar as dúvidas das pessoas em análises linguisticamente competentes e relevantes para elas. Isso não é fácil, mas o pontapé inicial é dado pela curiosidade das pessoas, não pelo que eu posso ensinar.

LK: Mas você precisa se colocar no texto: através do humor ou de um estilo pessoal.

Arika Okrent: Sim, e isso é decorrente da sua própria curiosidade, porque se o assunto não for interessante para você, vai ser muito difícil comunicar sobre isso de forma efetiva. Ao longo dos anos, escrevendo pra Mental Floss (cheguei a postar quatro textos numa semana), eu ia procurando na internet o que as pessoas estavam comentando e aprendi a dar um ângulo linguístico a temas que estavam rodando na mídia. Uma vez, por exemplo, eu peguei um comercial italiano da Nutella em que vários dialetos italianos eram usados e escrevi um texto sobre dialetos. Então essa varredura diária da internet à procura de material que pudesse me permitir analisar as coisas pelo ângulo linguístico me deu muita experiência e um bom acervo. Uma das primeiras postagens que eu fiz foi com base numa interpretação ao vivo de sinais durante a veiculação da notícia do furacão Sandy (2012) na TV. As pessoas comentaram e ficaram encantadas com a animação da intérprete: ela parecia engraçada, com expressões faciais animadas. Então eu fiz uma pequena análise para explicar que ela estava usando as expressões faciais para marcar funções gramaticais em língua de sinais. Dei alguns exemplos para mostrar como funciona, por que isso parecia interessante para o leigo, mas sem ser exaustiva. Eu assumi, junto com o público, que havia algo novo ali e tentei mostrar um pouco da língua à qual o público em geral não tinha acesso. Então a estratégia era partir de algo que já estava circulando e engajando as pessoas – sem que elas refletissem sobre isso do ponto de vista linguístico – e dizer: sim, isso é legal, mas sabe o que é mais legal ainda? É assim que ela faz a gramática! Sempre tem alguma coisa desse tipo rodando na esfera pública, porque a língua se relaciona com tudo. Então é possível tomar praticamente qualquer assunto e explorar o seu ângulo linguístico, mas é preciso tomar cuidado e não assumir a postura de que o linguista sabe a verdade e todos estão errados, porque as pessoas não respondem muito bem a isso.

LK: Você pretende continuar nessa trajetória, escrevendo livros, fazendo vídeos? Você tem planos para o futuro nesse sentido?

Arika Okrent: Nesse momento, não. Uma vez que a gente termina de escrever um livro, nunca mais quer escrever outro. Mas aos poucos, o ânimo vem voltando. A minha própria curiosidade está voltando sobre uma coisa. Tenho pensado em como fazer essa coisa ficar interessante para os outros, fora da minha cabeça. Estou pensando o que as pessoas de fato gostariam de saber sobre essa coisa – e esse eu entendo como o maior desafio da popularização.

LK: Que ótimo! Muito obrigada pela entrevista, agradeço em nome da ABRALIN pela sua participação nesse evento.

Arika Okrent: Eu agradeço pela oportunidade.

Agradecimentos

Agradeço a Arika Okrent pela disponibilidade em participar da entrevista, pela avaliação positiva da versão editada da entrevista que foi veiculada no canal Youtube da ABRALIN e por permitir que esta entrevista fosse publicada em português.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

A autora não tem conflitos de interesse a declarar.

Referências

ABRALIN. . Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gid-9NAcX5o&t=724s

OKRENT, Arika. In the Land of Invented Languages: a celebration of linguistic creativity, madness, and genious. New York: Spiegel & Grau Trade Paperbacks, 2009.

OKRENT, Arika. Highly irregular: why tough, through and dough don’t rhyme – and other oddities of the english language. New York: Oxford University Press, 2021. www.arikaokrent.com

Avaliação

DOI: 10.25189/2675-4916.2022.V3.N2.ID669.R

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Vanessa Martins do Monte

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4929-5298

Avaliador 1: Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

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Ricardo Tavares Martins

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5276-2678

Avaliador 2: Instituto Federal do Sertão Pernambucano, Pernambuco, Brasil.

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RODADA 1

Avaliador 1

2022-10-21 | 05:43

A entrevista apresenta de forma divertida o caminho de popularização da Linguística inventado por Arika Okrent. O texto é fluido e a tradução é excelente. Há algumas, poucas, questões relativas à escrita, marcadas no documento anexo.

Avaliador 2

2022-10-09 | 02:51

Trata-se de um entrevista com a linguista americana Arika Okrent que foi parte da programação do evento Abralin em Cena 16 cujo tema era a popularização da Linguística. Na entrevista transcrita é possível conhecer um pouco sobre Arika, seus interesses, desafios e orientações para os interessados em adentrar o campo da popularização da ciência, mais especificamente a ciência linguística. Arika narra um pouco de sua experiência na popularização da Linguística através de diferentes mídias, como textos e vídeos, com uma linguagem clara e bastante objetiva bem capturada pela transcrição da entrevista. Sendo assim, a entrevista configura importante material de conhecimento, especialmente para estudiosos da linguagem que se interessam (ou pretendem adentrar) pelo campo da popularização das ciências.