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Experience Report

Strengthening Indigenous Language and Culture: The Cashinahua Project (2006-2011)

Sabine Reiter

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https://orcid.org/0000-0002-3387-3751

Eliane Camargo

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Keywords

Cashinahua/ Huni Kuin
Pano
Participation of Community
Documentation of Language and Culture
Linguistic Workshops

Abstract

In 2006 started a documentation project of the Cashinahua language, spoken by a Panoan group living at the Brazilian-Peruvian border. During the project audiovisual data was collected and existing material in different formats was revised. The official aim of the DoBeS programme was a digital archive for the academic public. An additional aim of the project was the participation of the indigenous community itself with regard to work with the data, selection of topics to be studied and access to and usage of the results. The project further focussed on a linguistic training of the Cashinahua teachers, including an exchange of ideas regarding the establishment of metalinguistic terms in Cashinahua.Partially, these activities could be financed by the project, owing to changing paradigms in research conduct. Other activities were realized with the help of different cultural and educational partners. A re-transcription and translation of the first Cashinahua text-collection by Capistrano de Abreu (1914) was published; older photographs and recordings of traditional chanting were digitized and made available to the community; different linguistic and cultural aspects chosen by the Cashinahua participants were studied in workshops. In 2018 it was possible to show some results of this work in an exhibition in Belém, which was conceptualized together with members of the community with two Cashinahua representatives offering guided tours to the public. In this article we show how, in a project in an indigenous community aimed at a scientific audience, activities can be jointly developed to strengthen the language, value sociocultural practices and give more visibility to the community in question. Scientific and applied research in one.

Resumo para não especialistas

O projeto de documentação da cultura e língua caxinauá foi realizado entre 2006 e 2011. Nesses cinco anos, houve várias oficinas com integrantes da comunidade caxinauá: uma na aldeia indígena de Mucuripe, no Acre, e as demais no Peru: em Puerto Esperanza, cidadezinha com 75% da população sendo caxinauá, e em Lima. O material de estudo era diversificado: gravações feitas por antropólogos e linguistas, cedidas ao projeto, e o primeiro livro bilíngue caxinauá-português publicado em 1914. Este livro é uma coletânea de narrativas míticas, históricas e animalescas. O autor usou uma ortografia do caxinauá que os próprios falantes não conseguem ler. A tradução para o português também não servia para um leitor não-linguista. Por isso, o livro precisava de uma edição mais legível, produzida por uma equipe de pesquisadores não-indígenas e professores bilíngues caxinauás. Muitas das gravações foram convertidas em texto escrito e traduzidas para o português e para o espanhol. Novas narrativas foram gravadas, muitas delas pelos próprios participantes das oficinas. Dessa colaboração participativa entre pesquisadores e membros da comunidade obteve-se vários resultados: livros trilingues e bilíngues, artigos e uma exposição. Esse projeto mostrou como é possível conciliar a pesquisa científica com a pesquisa aplicada de mãos dadas entre estudiosos e membros da comunidade indígena.

Introdução

Nos projetos de pesquisa em e com comunidades indígenas objetiva-se geralmente a apresentar resultados de produtos destinados a um público acadêmico internacional. Apesar das mudanças nos paradigmas em relação à conduta de pesquisa, que exigem uma participação mais ativa das pessoas que formam o alvo da pesquisa, ainda não se pensa muito nas necessidades específicas deles, e geralmente não há parte do orçamento do projeto dedicado a essas.[1]

Neste relato sobre um projeto de documentação de língua e cultura caxinauá que se iniciou dentro do programa DoBeS[1] visa-se mostrar como se pode desenvolver atividades não apenas úteis para um público acadêmico não-indígena, envolvendo ativamente diversos agentes da comunidade dos falantes. Os resultados desse trabalho interativo e colaborativo podem contribuir para a manutenção e/ou revitalização de aspectos linguísticos e práticas socioculturais e ao mesmo tempo iniciar ou intensificar o diálogo entre integrantes do grupo indígena e diferentes integrantes das sociedades nacionais.

O trabalho é estruturado da seguinte maneira: Segue-se, na seção 1, uma descrição da comunidade dos caxinauás, sua localização, história e situação atual, e da língua indígena falada por eles. Depois, na segunda seção, apresentamos alguns trabalhos relevantes da pesquisa existente sobre a sua língua e cultura. A seção 3 mostra a dinâmica que se desenvolveu no decorrer do projeto e deu origem a atividades e empreendimentos refletindo os interesses específicos dos caxinauás envolvidos na pesquisa. Na quarta seção discute-se os principais resultados do trabalho de projeto, enfatizando a perspectiva dos caxinauás como usuários ou beneficiários desses. Por último, resumimos as realizações, os desafios e perspectivas que se criaram dessa experiência.

1. A comunidade caxinauá / huni kuin

Os caxinauás vivem na região fronteiriça entre o Brasil e o Peru. Segundo o Instituto Socioambiental (ver https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Huni_Kuin_(Kaxinawá)), há cerca de 13.500 integrantes do grupo, com 11.000 na bacia do Juruá no Acre e 2.500 na bacia do rio Purus e afluentes (Peru e Brasil). O termo caxinauá é um exônimo pelo qual são conhecidos na literatura; o grupo se autodenomina de huni kuin.[1]

Figure 1. Imagem 1. Território caxinauá

A língua caxinauá pertence à família linguística pano (ISO 639-3), formada por cerca de 20 línguas remanescentes, todas faladas em uma região contínua entre a Bolívia, o Peru e o Brasil. Dentro desta família, OLIVEIRA (2014, p. 123) classifica o caxinauá como pertencente ao grupo VII, juntamente com o marinauá (marinawa, hoje extinto) e o iauanauá (yawanawa).[1] Razões históricas e a pressão atual das duas sociedades nacionais levaram a língua caxinauá a ser, hoje, ameaçada.[2] A maioria de seus integrantes é bilíngue, ou com o português ou com o espanhol, e dominam a língua indígena em níveis diferentes. As crianças quase não usam a língua vernacular ativamente quando criadas fora das aldeias em pequenos centros urbanos da região.[3] Os caxinauás que vivem ao longo do rio Envira no Acre perderam a sua língua de cultura e falam português já há várias décadas.

A situação política dentro do grupo é complexa por viverem em dois sistemas nacionais. Os caxinauás brasileiros são demograficamente mais numerosos e organizam-se de formas diferentes na sua estrutura social interna e em suas associações políticas e educativas. Desde o início do período seringalista, o grupo vive em contato constante com a sociedade brasileira e são mais assimilados que seus parentes no Peru. No caso peruano, o grupo domina melhor a língua e ainda conhece e, parcialmente, celebra rituais, sem inovações como ocorre no lado brasileiro. Isso porque passaram várias décadas na primeira metade do século XX sem contato com a sociedade não-indígena envolvente.[1] Por outro lado, desde os anos 1960 sofreram muita pressão pelo proselitismo evangélico americano do Instituto Linguístico de Verão (ILV)[2] e outras vertentes do cristianismo fundamentalista.

Nas aldeias nos dois lados da fronteira há escolas ditas bilíngues, com professores caxinauás. As crianças são alfabetizadas na língua indígena, e escolarizadas em português ou espanhol; e os professores gozam de uma certa liberdade para trabalhar a língua e a cultura local (cantos e narrativas do universo do grupo) na língua caxinauá. Em ambos os países há professores monolíngues não-indígenas para o ensino correspondente da 5a. a 8a. série do ensino fundamental.

Ao longo do tempo de contato foram desenvolvidos vários sistemas ortográficos da língua (ver seção 2 para detalhes). Hoje usa-se uma ortografia baseada em critérios morfofonológicos no Peru e outra à base fonética no Brasil.[1] As tentativas para unificar as duas ortografias, até o momento, foram infrutíferas, mais por motivos políticos do que linguísticos, o que entrava a troca de material socioeducativo bilíngue.

2. Pesquisa existente sobre a língua e cultura caxinauá

O caxinauá foi uma das primeiras línguas indígenas brasileiras não-tupis pesquisadas abrangentemente no começo do século XX. O primeiro livro sobre a língua e cultura foi publicado em 1914 pelo historiador cearense João Capistrano de Abreu, que coletou o material durante cerca de dois anos junto com dois jovens caxinauás no Rio de Janeiro, levando ao todo cinco anos para organizar o livro Rã-txa hu-ni-ku-ĩ de 630 páginas.[1] Trata-se de uma coleção de narrativas diversas (míticas, históricas, animalescas) e práticas socioculturais. A coletânea é apresentada em formato bilíngue caxinauá-português, incluindo uma gramática concisa da língua e um léxico (ver seção 3).

O primeiro registro etnográfico do grupo fugitivo estabelecido no Peru ocorreu em 1951 quando o fotógrafo teuto-brasileiro Harald Schultz viajou para o Curanja para fotografá-los e filmá-los. Esse grupo, pouco tempo antes, havia entrado em contato com os marinauás, através dos quais madeireiros peruanos foi ao encontro do grupo que vivia no Xapuya (Ver CAMARGO; VILLAR, 2013, para detalhes). A documentação divulgada por Schultz mostrou que o grupo tinha voltado a uma vida quase-tradicional, como devia ter sido antes do período da extração da borracha.

Entre os anos 1960 e 1990 houve outros contatos do grupo peruano que resultaram em diferentes pesquisas e publicações. Vários missionários do ILV trabalharam com o grupo. O ILV estabeleceu uma base para suas atividades em Balta, aldeia que fundou no alto rio Curanja, onde uma pista de avião foi aberta e uma igreja e uma casa para os missionários foram construídas no estilo norte-americano. O motivo principal para o contato era o proselitismo que induziu a necessidade de traduzir a bíblia e ocasionou por isso a formação dos primeiros professores bilíngues. Nessa ocasião, foram desenvolvidas, para fins didáticos, um primeiro alfabeto, uma ortografia e material escolar. Nos anos 1980, publicaram um dicionário amplo e uma pequena gramática do caxinauá (MONTAG, 1981).

O primeiro missionário do ILV, Kenneth Kensinger, que chegou no rio Xapuya em 1956, abandonou o empreendimento evangélico, dedicando-se ao estudo etnográfico do grupo.[1] A partir do final dos anos 1970 até 1990 os antropólogos Barbara Keifenheim e Patrick Deshayes foram para as aldeias peruanas, desenvolvendo projetos de pesquisa e filmes documentários. Um produto dessa pesquisa é Wege der Sinne, de Keifenheim (2001), um estudo sobre a percepção sensorial do grupo. Além disso, há muitas gravações de cantos tradicionais dos caxinauás que – mais tarde – foram integrados no acervo DoBeS (ver seção 4.1).

Desde os anos 1980, outras pesquisas etnológicas enriqueceram a difusão da cultura caxinauá (AQUINO, 1977; MCCALLUM, 2001; PIEDRAFITA IGLESIAS, 2008; LAGROU, 2007; YANO, 2010, 2014; etc.).

Em 1987, Camargo começou a estudar a língua caxinauá no Brasil, mas desde 1994 dedicou-se principalmente à variedade dessa língua falada no Peru. Em 2006, ela conseguiu um financiamento pelo programa DoBeS para uma documentação mais abrangente da língua e cultura caxinauá. O projeto, sediado no Instituto Max-Planck para Antropologia Evolutiva em Leipzig/ Alemanha, em cooperação com o Laboratório de Etnologia e Sociologia Comparativa (LESC-CNRS - Nanterre) e a Universidade de Campinas, oficialmente terminou em 2011.

Além dos estudos citados nesta seção há outros, principalmente empreendidos entre e com os caxinauás brasileiros. Cabe notar a tese de doutoramento sobre a gramática caxinauá escrita por Joaquim Paulo de Lima Kaxinawá (2014), integrante do grupo e primeiro indígena brasileiro a receber o título de doutor em linguística.

3. A dinâmica do projeto DoBeS

Foi o mesmo Joaquim Kaxinawá, líder comunitário na reserva indígena Praia do Carapanã no Acre, que em 2005 instigou o projeto de documentação do programa DoBeS. A dinâmica interativa que descrevemos nesta seção mostra como um projeto destinado a uma comunidade acadêmica internacional pode, ao mesmo tempo, se desenvolver em colaboração com a comunidade indígena e criar produtos úteis para essa. O projeto surgiu a pedido do Joaquim, que, ao consultar o livro de Capistrano de Abreu (1914/ 1941), percebeu que essa publicação antiga, de grande interesse linguístico e cultural, apresentava dificuldades para um leitor leigo, tanto para um falante do português como para um do caxinauá. O trecho do livro na imagem 2 ilustra alguns dos problemas de leitura do texto original.

Figure 2. Imagem 2. Trecho extraído do texto original (CAPISTRANO, 1914, p. 177).

Esta imagem representa uma página do livro que, por conveniência, é apresentada aqui em duas colunas postas uma do lado da outra. Trata-se do começo de uma narrativa que recentemente foi publicada individualmente sob o título “A velha que virou tatu (CAMARGO, 2016). No livro de Capistrano, como ilustra a imagem 2, os textos não apresentam títulos, mas uma classificação seguindo o padrão de estudos de mitologias, características da época.[1] Neste caso, trata-se do primeiro de uma série de mitos transformacionalistas nos quais as pessoas metamorfoseiam-se em animais. O autor anotou os textos narrados pelos dois jovens caxinauás (sob as iniciais do nome de cada um: B para Bôrô e T para Tux-i-nĩ) ao enumerar cada oração.[2] Cada página apresenta blocos de orações enumeradas em caxinauá, seguidas por um bloco de orações com os mesmos números que apresentam a transcrição interlinear para o português. Essa enumeração servia para identificar as correspondências entre as duas línguas. Como a ordem sintática das duas línguas não corresponde, a tradução palavra-por-palavra não fornece um texto coerente, fluído.[3] Esse livro, destinado exclusivamente a pesquisadores de línguas e culturas indígenas, não dispõe de nenhuma tradução em prosa.

A ortografia proposta por Capistrano vem a ser um outro obstáculo para um leitor leigo de línguas europeias. Isso é visto nas explicações encontradas nos preliminares do livro. Elas estão relacionadas às decisões ortográficas baseadas nas correspondências que o autor percebeu entre os sons do caxinauá e os de outras línguas do seu conhecimento. Vejamos alguns exemplos: “x soa sempre como ch francez, sh inglez, sch allemão; [...]. ö aproxima-se do homographo allemão mais ou menos impuro, eu francês, u inglez em but; os missionários castelhanos representam por ue o som que lhe corresponde.” (CAPISTRANO, 1914, p. 12). A ortografia empregada pelo historiador difere consideravelmente das duas ortografias atualmente vigentes no Peru e no Brasil. Vale dizer que beneficiam dos estudos de fonética e fonologia bem mais avançados que na época de Capistrano, seguindo um certo padrão internacional estabelecido pelo IPA (International Phonetic Alphabet).[1] Além disso, os alfabetos atuais do caxinauá dispõem de letras usadas nas ortografias das línguas nacionais: a brasileira e a peruana.

Joaquim também se deu conta de que os fenômenos linguísticos, contidos na parte gramatical do livro, eram de difícil entendimento para uma pessoa sem formação linguística. Essa incompreensão da leitura deu origem à primeira oficina de linguística na aldeia de Mucuripe, de onde era chefe.

3.1. A primeira oficina no Brasil

Em 2006, essa oficina de linguística caxinauá em Mucuripe foi a primeira atividade do projeto DoBeS. Contava com a presença de 22 professores bilíngues caxinauás da Terra Indígena Praia do Carapanã, no rio Tarauacá, e dois agentes de saúde oriundos do rio Humaitá. Durante as duas semanas de oficina, os participantes trabalharam intensamente com os textos em caxinauá de Capistrano.

Depois de uma introdução geral às línguas do mundo, à sua diversidade e classificação segundo critérios de semelhança estrutural, os participantes foram sensibilizados para a diferença entre a fala e a escrita de uma língua. Esse era o prerrequisito para começar a falar sobre a ortografia empregada por Capistrano que viu certas correspondências entre os sons que escutava na língua caxinauá e os sons que conhecia de outras línguas, incluindo o português, sua língua materna. A partir dessas observações criou a primeira representação gráfica para essa língua anteriormente não-escrita. Essas informações sobre o processo de formação da escrita levaram ao primeiro exercício linguístico que foi uma descrição dos sons do caxinauá por meio de pares mínimos propostos pelos participantes. Ao entenderem a metodologia de descrever um som através do modo e do ponto de sua articulação, debateram sobre como estabelecer uma ‘terminologia na língua caxinauá’ para entender essa classificação e poder verificar se ela correspondia às próprias percepções nativas.[1] Exemplos dessa metalinguagem encontram-se na tabela (1):

Figure 3. Tabela 1. Metalinguagem linguística em caxinauá.

Baseado nessa parte teórica, foram feitas as primeiras re-transcrições de narrativas do livro. Uma atividade relacionada era o levantamento e a documentação de outras versões dessas narrativas ainda lembradas pelos participantes da oficina. Perceberam que houve muita variação relacionada a esse conhecimento assim como também em relação à habilidade de contar histórias.

Os resultados dessa primeira oficina foram capturados em um manual. Além de aspectos fonológicos, morfológicos e sintáticos da língua contém uma sinopse das ortografias existentes no Brasil e no Peru, a chave de leitura para os grafemas utilizados por Capistrano e suas correspondências atuais, os textos re-transcritos e a metalinguagem preliminar para os termos técnicos da linguística discutidos. O relatório foi divulgado na área indígena Praia do Carapanã entre os participantes da oficina, com apoio logístico da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC).[1]

3.2. As oficinas no Peru

As oficinas no Peru começaram em 2007. Optou-se por reunir professores caxinauás de diferentes aldeias em Puerto Esperanza, o único centro urbano (hoje com menos de 1000 habitantes) da bacia do rio Purus no Peru. Desde então, anualmente, oficinas de seis a sete semanas com equipes de sete a dez professores bilíngues eram realizadas para estudar a língua caxinauá do ponto de vista linguístico, tendo como material de trabalho as diferentes gravações que estavam sendo transcritas e traduzidas no âmbito do projeto de documentação.

Essas oficinas abordaram não só a língua, mas também a cultura. Como em Mucuripe, a primeira oficina baseou-se no material do Capistrano, e a partir dele diferentes debates se sucederam em relação ao alfabeto e às várias formas de escrever uma mesma língua. A diferença entre algumas das letras do alfabeto foi revista e muito comentada nos dois lados da fronteira, porém nas oficinas no Peru o grupo levou o debate adiante a fim de adaptar as letras de forma coerente aos segmentos fônicos da língua, sem ter que considerar o espanhol como referência. A tabela (2) esquematiza essa diferença ortográfica:

Hantxa kuin keneti bena besti na yusma taxipa kekubidanaki.

Figure 4. Tabela 2. Alfabeto unificado, coluna (à esquerda) independente de padrões nacionais

O alfabeto caxinauá, empregado no Peru, já seguia o sistema fonológico desde os anos 1980, porém grafemas como o <j> para /h/ e <ch> para /t∫/, por exemplo, foram adotados pelos missionários como uma forma de sensibilizar o falante de espanhol aproximando o segmento fônico representado por uma letra em caxinauá ao som do espanhol.

Os avanços no estudo de fonologia e morfologia levaram os participantes das oficinas a se dar conta que era desnecessário marcar os alofones.[1] Viram também a necessidade de fazer testes linguísticos para identificar nasais em coda silábica como representando o fonema /m/ ou /n/ e expressar essa diferença graficamente (cf. CAMARGO; REITER; TORIBIO, no prelo).

No início, muitos dos participantes não queriam nenhuma alteração da grafia pensando em como, depois da reforma, iriam ler a bíblia na sua grafia antiga. Um ponto final nessa discussão de pensar um alfabeto coerente com a realidade fonológica do grupo foi posto por um ancião, pastor, que disse algo como: “temos de seguir valorizando a nossa identidade, a letra ‘j’ pertence ao espanhol, ao passo que esse ‘nosso’ som é escrito ‘h’ no caxinauá do Brasil. O mesmo ocorre com a letra ‘ch’ anotada ‘tx’, forma que nos diferencia do espanhol e do português.” (Roberto PURICHO, 2010). A partir dessa reflexão, o grupo passou a pensar a grafia como uma forma de valorizar a sua identidade étnica, diferenciando-se do alfabeto do espanhol e do português. O grupo propôs uma ordem ligeiramente diferente das letras. O alfabeto dispõe das letras <s> para /s/ e <x> para /ʂ/, mas também de <ts> para /ts/ e de <tx> para /t∫/. Como essas duas aparecem após a letra ‘t’, por analogia, o grupo optou por inserir a letra <x> após o <s>. A ordem do alfabeto caxinauá, composto de dezoito letras, é a seguinte:

a b d e h i k m n p s x t ts tx u w y

Nos anos que seguiram, as oficinas foram organizadas no Peru, em Puerto Esperanza e em Lima. E praticamente a cada ano, um caxinauá do Brasil era convidado a participar delas. Nessas oficinas, os participantes depararam-se com informações etnológicas desconhecidas até então, mas também com informações das quais já não se lembravam mais. Um dos textos, presentes no livro do Capistrano, fala de uma dissidência em uma aldeia, e tal rememoração foi assunto entre muitos caxinauás. A leitura das narrativas míticas permitiu-lhes conhecer versões diferentes, com léxico dito “mais antigo” e com algumas estruturas linguísticas também diferentes, mais conservadoras.

A leitura do capítulo sobre rituais provocou tantos risos quanto contestações. Todos, de forma uníssona, concordavam que a descrição dos rituais estava confusa. Aproveitaram a passagem de anciãos por Puerto Esperanza para convidá-los a vir às oficinas conversar sobre rituais e seus cantos e danças. Para esses encontros, selecionavam a temática, preparavam as perguntas e organizavam rodas de conversas, as quais os próprios participantes filmavam. As notas etnográficas tomadas nesses encontros serviam de base de reflexão para o livro que queriam fazer sobre a história do grupo e também sobre ritos com cantos e com danças. Os ritos com cantos na cultura caxinauá podem ser realizados em um contexto familiar; aqueles com danças marcam a coesão do grupo e são realizados entre aldeias.

Na revisão do livro do Capistrano, muitos queriam “consertar frases, trechos ou ainda reescrever algumas partes”. Alguns se sentiram frustrados em deixar o texto tal qual, e daí surgiu a ideia de um estudo próprio sobre os rituais com cantos e danças. Um dos participantes, Agustín T. Torres, redigiu as lembranças anotadas em caderno das histórias contadas por sua avó, sobretudo sobre a prática de endocanibalismo que reunia não apenas a família da aldeia, mas também parentes de outras aldeias. Gregório Torres, Nelson Camilo e Noeda Puricho abriram uma discussão maior sobre o rito da fertilidade (katxa nawa) que é o mais praticado entre o grupo, porém não mais tão complexo como outrora. As discussões sobre esse rito foram de grande riqueza etnográfica, pois ele revela o laço entre os mundos dos humanos e não humanos em torno da fertilidade dos seres da natureza. Alguns velhos vieram compartilhar seus saberes e relataram sobre o “sêmen da natureza”, sobre a indiferenciação da “animacidade”; tudo ou quase tudo no mundo caxinauá é ‘animado’. Da madeira (árvore), diferentes elementos podem ser produzidos, como um banco, considerado um elemento ‘vivo’, porém ‘transformado’[1]. Uma vez, a madeira do banco velha pode servir de tábua de uso na cozinha ou para bater roupa. O elemento madeira está em constante transformações, justamente, segundo os caxinauás, por ser um elemento ‘vivo’. A propriedade do elemento ‘vivo’ garante as transformações sob diferentes formas ao longo da sua vida, assim como nos humanos. Propuseram um estudo sobre a memória cultural no qual abordaram rituais, o que resultou em uma publicação bilíngue caxinauá-espanhol (ver CAMARGO et al., 2022).

Em 2008 e em 2010, em um total de cinco meses, uma pequena equipe de homens e mulheres caxinauás esteve em Lima, no Instituto Francês de Estudos Andinos (IFEA), para revisar o trabalho feito com o livro de Capistrano. Organizaram os dados linguísticos e etnográficos coletados e discutidos nas oficinas em Puerto Esperanza, visitaram coleções etnográficas de diferentes grupos étnicos - civilizações andinas e costeiras antigas, em museus e apresentaram o trabalho que vinha sendo realizado no programa DoBeS, como na Universidade Nacional de San Marco, Aliança francesa). Resultados dessas estadias de pesquisa foram a elaboração de um livro sobre histórias do cotidiano antigo do grupo (CAMARGO; VILLAR, 2013), e a revisita do livro do Capistrano (2017), obras cuja grafia empregada é a normalizada no caxinauá no Peru (ver secções 4.2 e 4.3).

4. Os resultados do projeto DoBeS

Como vemos, o projeto teve uma grande variedade de resultados: um acervo digital, a re-transcrição do livro de Capistrano, livros bi- ou trilíngues sobre aspectos culturais, livros e manuais didáticos com uma metalinguagem linguística em caxinauá, para facilitar o entendimento de conceitos linguísticos, e uma exposição sobre a língua e cultura para um público geral. O acervo, explicitamente exigido pelos financiadores do programa, foi elaborado no âmbito do projeto DoBeS (2006-2011). Muitas das ideias para os outros produtos surgiram durante o processo de trabalho de análise dos dados em conjunto com a comunidade, sobretudo com os professores bilíngues participantes das oficinas. Muitos dos produtos foram concluídos anos depois do término oficial do projeto, contando com outras fontes financeiras; análises de outros produtos ainda estão em andamento. Nesta seção, apresentamos alguns desses resultados em mais detalhe, enfatizando a utilidade para a comunidade caxinauá.

4.1. O acervo digital e seu (não-)uso

O acervo digital era o resultado do projeto avaliado pelos financiadores; o seu tamanho e qualidade em termos de anotação de dados decidiram se o projeto foi considerado um sucesso ou não. Segundo os números oficiais no site, o acervo DoBeS caxinauá tem 286 documentos em uma variedade de formatos. Há 180 gravações em áudio, 59 em vídeo e 88 anotações no formato ELAN. Essas últimas geralmente têm uma transcrição em caxinauá, traduções para o português e o inglês (às vezes para o espanhol), raramente uma anotação gramatical interlinear. Além disso, há imagens e documentos no formato pdf. Mais que a metade do material, especialmente as gravações, é de livre acesso. Encontra-se em uma estrutura arbórea complexa, separando os dados culturais dos linguísticos. Depois há subdivisões segundo outros critérios como gênero de texto, falante ou tema. Para a orientação dos usuários do acervo há metadados, informando entre outras coisas sobre a data e as condições de cada gravação, os participantes e aspectos do conteúdo. Além disso, há manuais (em formato pdf), explicando em português, espanhol e inglês a estrutura do acervo e a ortografia utilizada para a transcrição dos dados gravados. O acesso aos dados do acervo é garantido por haver um financiamento contínuo de reformatações que podem se tornar necessárias devido a avanços tecnológicos. O programa DoBeS em si já foi concluído; existem outras iniciativas que financiam projetos de documentação, mas não há financiamento para a continuação do trabalho em um acervo.[1] Muitos dados coletados no projeto de documentação da língua caxinauá, constantes ou não no acervo, necessitam de anotações mais elaboradas. Desde o final oficial do projeto foi priorizado o trabalho que tem utilidade mais direta para a comunidade dos falantes da língua.

Sobre o efetivo uso do acervo DoBeS não se encontram informações no site. Alguns dados foram anotados de maneira mais abrangente para finalidades comparativas em outros projetos.[1] O material do acervo foi disponibilizado à comunidade caxinauá no Alto Purus em formato de discos rígidos. Vários integrantes da comunidade, desde o final do projeto, entraram em contato e pediram o envio direto de dados específicos. Disso, deve-se concluir que o acervo não é (muito) utilizado pelo grupo. Um motivo pode ser o acesso restrito à internet na região, que não permite o download de dados pesados, p.ex. os cantos rituais de várias horas gravados por Keifenheim (ver seção 2) que despertaram grande interesse na comunidade e que hoje se re-aprende nas escolas. Pode-se supor também que a estrutura do acervo não corresponde aos critérios de categorização de dados do grupo.[2]

4.2. A re-publicação do livro de Capistrano

A re-publicação da coletânea de textos em caxinauá, cujo original foi publicado em duas edições em 1914 e 1941 por Capistrano de Abreu, foi o resultado de uma demanda explícita da comunidade de falantes que deu início ao projeto (ver seção 3). Ao comparar o texto na imagem 3 com a imagem 2 (ver seção 3), pode-se perceber as diferenças:

Figure 5. Imagem 3. Trecho extraído da re-publicação do livro de Capistrano de Abreu (2017).

Trata-se do mesmo trecho de texto (excluindo as orações 1905 a 1908) que no original em imagem 2. A ortografia da narrativa em caxinauá corresponde ao padrão atualmente utilizado no Peru.[1] Essa ortografia, apesar de ser diferente, também é legível pelos caxinauás brasileiros. O texto é traduzido para o português em prosa, cada oração diretamente embaixo da oração em caxinauá a qual se refere. Além disso, há um comentário em nota de rodapé explicando que as orações 1903 a 1908 são uma versão muito abreviada da narrativa, ininteligível para pessoas não-conhecedoras da história na íntegra. Essa segue nas orações de 1909 a 1959 e recebeu um título próprio. Isso mostra que a equipe que trabalhou na nova transcrição fez uma leitura crítica do texto e pensou em um público de leitores que querem conhecer a narrativa, possivelmente se apropriar dela com o intuito de um resgate cultural. Uma tradução literal de palavra por palavra como no livro de Capistrano (1914/ 1941) foi omitida nesta versão do livro, indicando também que o livro é destinado a um público que ou conhece as duas línguas, ou não se interessa pelas correspondências entre uma e outra.

4.3. Os livros inspirados pelo trabalho na re-transcrição do Capistrano

Durante o trabalho no livro de Capistrano de Abreu, a equipe dos colaboradores caxinauás sugeriu a elaboração de dois livros. Um deles, intitulado “A história dos caxinauás por eles mesmos”, foi publicado em uma versão trilíngue em caxinauá, português e espanhol em 2013. O outro reuniu as notas do “caderno de Agustín” (ver seção 3.2) e foi publicado recentemente em caxinauá e espanhol sob o título “La cultura de los cashinahuas” (CAMARGO et al., 2022). Trata-se de duas manifestações de uma identidade própria que vai além da língua: uma historiografia e uma coletânea de textos sobre partes da cultura que ainda têm papel relevante para a coesão do grupo ou que são lembrados pelos anciãos.

A historiografia contém, além de uma seleção de relatos que também se encontram no livro de Capistrano, outros, contados por anciãos peruanos entrevistados pelos participantes mais jovens das oficinas, incluindo também depoimentos e memórias de anciãos já falecidos que foram gravadas nos anos 1980 e 1990 por Keifenheim e Camargo. São relatos sobre os vários contatos do grupo peruano com outros indígenas e não-indígenas e sobre como ocorreu a separação dessa parte do grupo dos seus parentes nos seringais brasileiros. Nessa publicação também há uma seção que fala sobre “como viviam os antepassados caxinauás”, na qual a equipe incluiu os resultados da sua própria pesquisa sobre rituais, que diferem das descrições apresentadas no livro de Capistrano.[1]

O segundo livro sobre aspectos culturais considerados importantes pelo grupo reúne as lembranças de Agustín Torres das conversas com a sua avó entre outras coisas sobre o endocanibalismo, que apresentou à equipe em formato escrito, com os depoimentos testemunhais de anciãos entrevistados por membros da equipe ou depoimentos e outras informações encontradas nas gravações antigas disponibilizadas por diferentes pesquisadores para o acervo digital. O foco nessa publicação é nos rituais com cantos e danças que no livro de Capistrano foram parcialmente apresentados de forma confusa, com uma descrição misturada de alguns dos ritos. Os textos dos cantos transcritos no livro formam uma base para reaprendê-los nas escolas das aldeias caxinauás.

4.4. A exposição no Museu do Estado do Pará

Um último resultado, aqui apresentado por ser um empreendimento de entrar em contato com um público mais amplo, é uma exposição que ocorreu entre fevereiro-março de 2018 durante sete semanas no Museu do Estado do Pará (MEP) em Belém (cf. REITER; CAMARGO, 2022). A exposição teve o título “Os caxinauás - autonomia e contato”, narrando, através de fotografias, documentos e gravações do acervo digital assim como outros itens, a história do grupo peruano desde a sua fuga do seringal até os tempos de hoje. Essa história - como é o caso de muitos grupos indígenas - é intimamente ligada aos contatos com diferentes protagonistas, incluindo donos de seringais, madeireiros, missionários, pesquisadores, representantes da sociedade civil e integrantes de outros grupos indígenas.

A exposição foi preparada durante vários anos em conjunto com a comunidade caxinauá peruana que escolheu as fotos de Harald Schultz (ver seção 2), fabricou artefatos e também teve uma participação direta através de dois representantes que passaram as primeiras duas semanas da exposição em Belém. Esses representantes da equipe DoBeS, Hulício Moises Kaxinawa de Santa Rosa/ Brasil e Alberto Roque Toribio da aldeia Canta Gallo no Peru, ofereceram visitas monitoradas, treinaram os monitores do MEP e organizaram o programa cultural na abertura da exposição. Também participaram do programa acadêmico que estava acompanhando a exposição, mostrando aspectos da língua em uma oficina para estudantes de pós-graduação na Universidade Federal do Pará (UFPA), palestrando no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e no MEP e dando uma entrevista na televisão local.

A ideia de usar o material do acervo DoBeS para promover um diálogo entre a comunidade caxinauá e um público leigo e acadêmico brasileiro foi um sucesso. Os dois representantes receberam muitas perguntas dos visitantes da exposição; alguns ainda não se deram conta que as culturas indígenas no Brasil são diversas e que muitas línguas ainda são faladas, outros queriam saber o que um povo indígena do Acre e do Peru tinha a ver com a sua cidade no Pará. Não tinham consciência da conexão direta entre a escravização de povos indígenas na exploração da borracha nos seringais do Acre e a dita “Belle Époque” em Belém. A experiência de receber a atenção e perceber o interesse de estudantes e pesquisadores na sua língua e cultura levou os dois representantes caxinauás da equipe DoBeS a aprofundar os seus próprios estudos na língua e cultura. Nesse período intermediário os dois terminaram um curso universitário e se tornaram professores bilíngues nas suas respectivas comunidades.

5. Realizações, desafios e perspectivas

Em seção 3 e 4 apresentamos as diversas atividades colaborativas realizadas e os seus resultados, dos quais o acervo era só um, apesar de ter formado o foco do projeto DoBeS. Todas as outras atividades, em relação às finalidades oficiais do projeto, eram consideradas meios para levar adiante a anotação dos dados a serem inseridos no acervo (como no caso das oficinas) ou sem muita relevância.

Para os participantes caxinauás, no entanto, as oficinas tinham um significado além de simplesmente serem capacitados a utilizar uma ortografia mais apropriada, refletindo melhor a estrutura da língua. As oficinas foram primordiais para os participantes conscientizarem-se da necessidade de entender a estrutura interna da língua, sobretudo quando se é professor, e no caso deles, bilíngue, e para criarem uma metalinguagem técnica em caxinauá que facilita a comunicação sobre as propriedades linguísticas. Durante todo o processo de estudo da língua o que permitiria ao grupo não apenas de transcrever os mais diferentes dados seguindo o sistema fonológico da língua, mas também de acessar ao universo linguístico caxinauá, que até então lhes era desconhecido. Esse trabalho foi um salto para alguns deles, uns são hoje ‘tradutores junto ao ministério da Cultura’, outros conseguiram obter uma formação de professor bilíngue de qualidade. O estudo dos textos nas oficinas levou o grupo a elaborar um material didático bilíngue para as escolas primárias, um trabalho hoje continuado por uma parte deles junto com especialistas da educação bilíngue do Ministério da educação. Anseia-se agora por uma ‘real’ escola bilíngue com um programa adaptado à realidade sociolinguística do caxinauá em paralelo ao currículo escolar peruano.

A re-transcrição do livro de Capistrano, por sua vez, teve como resultado não apenas a publicação desse livro com ortografia legível em caxinauá e tradução em prosa para o português. Instigou a publicação de mais dois livros que podem ser empregados nas escolas das aldeias para transmitir um conhecimento cultural tradicional às crianças.

A exposição em Belém, um outro resultado do trabalho colaborativo, ilustrou que pode-se converter o material do acervo em um formato com o qual se atinge um público leigo e acadêmico de cidadãos brasileiros para promover um diálogo entre esses e representantes do grupo. Essa exposição poderia ser repetida em outras cidades no Brasil e no Peru e assim dar mais visibilidade a esse grupo que forma parte das duas sociedades.

Todas essas considerações finais mostram que um projeto de documentação da língua e cultura de um grupo indígena não se termina com o seu (primeiro) financiamento. Muitos pesquisadores têm um compromisso a longo prazo com as comunidades, e o projeto colaborativo aqui descrito também teve como prerrequisito uma confiança mútua, consequência de um contato contínuo de muitos anos entre a pesquisadora principal e o grupo peruano dos caxinauás. Até hoje faltam transcrições e análises de material coletado pela equipe; o dicionário e várias pesquisas relacionadas a aspectos da língua ainda se encontram em andamento, e o acervo digital necessita de ajustes para ser mais acessível à comunidade caxinauá. Mesmo que não fosse possível trabalhar, no âmbito desse projeto, com toda a comunidade caxinauá nos dois lados da fronteira, os resultados podem servir a todos. E as pesquisas assim como o acervo podem ser continuados e ampliados por outros protagonistas dentro e fora da comunidade caxinauá.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

As autoras não têm conflitos de interesse a declarar.

Declaração de Disponibilidade de Dados

O compartilhamento de dados não é aplicável a este artigo, pois nenhum dado novo foi criado ou analisado neste estudo.

Fonte de Financiamento (se aplicável)

Recebemos apoio financeiro da Fundação Volkswagen (programa DoBeS), do Goethe-Institut, do DAAD, do IFEA (Instituto francês de estudos andinos), da Fundação Legs Lelong e da Associação Ipê.

Referências

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Avaliação

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2023.V4.N2.ID686.R

Decisão Editorial

EDITOR 1: Ana Vilacy Moreira Galucio

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0168-1904

FILIAÇÃO: Museu Paraense Emílio Goeldi, Pará, Brasil.

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EDITOR 2: Ângela Fabíola Alves Chagas

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4925-1711

FILIAÇÃO: Universidade Federal do Pará, Pará, Brasil.

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CARTA DE DECISÃO: Trata-se de um material oriundo de relato de experiência com o povo Caxinauá, grupo pano que vive na área fronteiriça entre o Brasil e o Peru e reflete sobre as ações realizadas inicialmente no âmbito do Programa DobeS (Dokumentation bedrohter Sprachen) e que depois se estenderam durante um longo período de pesquisa, evidenciando a importância de ações educativas de forma continuada, a fim de gerar resultados mais duradouros. Constitui-se uma contribuição importante a ser publicada na Revista Cadernos de Linguística.

Rodadas de Avaliação

AVALIADOR 1: Marilia de Nazare de Oliveira Ferreira

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9995-1938

FILIAÇÃO: Universidade Federal do Pará, Pará, Brasil.

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AVALIADOR 2: Marcus Antonio Rezende Maia

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1583-3334

FILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

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RODADA !

AVALIADOR 1

2023-08-24 | 11:42

Há poucas correções de forma sugeridas de modo a aperfeiçoar o texto escrito. Após isso, o texto deve ser publicado. As contribuições são muito interessantes.

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AVALIADOR 2

2023-08-03 | 17:12

O artigo descreve as dinâmicas do Programa DobeS (Dokumentation bedrohter Sprachen) junto aos Huni Kui, entre 2006 e 2011, constituindo importante documentação a ser registrada no volume, sem dúvida. Inicia por fazer uma revisão rápida do povo e da língua, além de um histórico dos estudos. Em seguida caracteriza as oficinas no Brasil e no Peru, que tiveram participação ativa de falantes da língua. Avaliam-se os resultados, o acervo digital constituído e questiona-se sobre o seu uso efetivo. Reportam-se ainda, como resultados, uma exposição realizada em Belém, em 2018, além de esboçarem-se perspectivas futuras. Trabalho bem escrito e estruturado que merece, sem dúvida, ser publicado nos Cadernos da Abralin. Sugiro apenas que se inclua uma afirmação de posicionalidade, como se tem feito mais recentemente, caracterizando os perfis e detalhando a participação de cada autora tanto no projeto quanto no artigo.

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RODADA 2

AVALIADOR 1

2023-09-07 | 04:39

As autoras atenderam às recomendações feitas e o texto deve ser publicado.

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AVALIADOR 2

2023-08-28 | 08:25

O artigo incorporou as revisões solicitadas e está pronto para publicação.

Resposta dos Autores

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2023.V4.N2.ID686.A

RODADA 1

2023-08-26

1º parecer:

· Seção 1, justificativa para o primeiro parágrafo: Através dessas informações queremos mostrar que é um grupo de língua ameaçada e que o fato de viverem em dois países não facilita uma colaboração, já que são organizados em diferentes associações e que há interesses nacionais dos líderes do grupo em diferentes regiões. Além disso, queremos justificar a nossa decisão de usar o exônimo que serve para identificar o grupo claramente entre vários grupos com autodenominação muito parecida.

· Tiramos os espaços adicionais que se deram por causa da incompatibilidade dos sistemas de Mac e PC das autoras.

· Terceiro comentário: explicamos em nota de rodapé que a sigla ILV se refere ao SIL.

· Comentários 4 a 6: modificamos o texto como sugerido pela parecerista.

· Comentário 7: tiramos a ambiguidade da expressão “dedicou-se principalmente ao falar dessa língua no Peru” através do seguinte: “dedicou-se principalmente à variedade dessa língua falada no Peru”

· Comentários 8 a 14: corrigimos como sugerido.

· Comentário 15: corrigimos da seguinte maneira: “sem ter que considerar” (para ainda manter o aspecto da necessidade)

· Nota de rodapé 18 (19 na versão final): Mudamos o tipo de letra para Times New Roman.

· Comentários 16/17: corrigimos como sugerido.

· Comentário 18: o ponto final foi “posto” mesmo pelo ancião (não “proposto”).

· Comentário 19 a 27: corrigimos como sugerido.

· Justificativa para a nota 25 (26 na versão final): modificamos o texto para deixar claro que a equipe DoBeS teve acesso ao conhecimento tradicional de toda uma comunidade enquanto que Capistrano de Abreu trabalhava com dois jovens que tinham vivido uma vida tradicional por pouco tempo. “Ao contrário da equipe peruana de caxinauás do projeto, que tinham acesso à memória e ao conhecimento de um grande número de pessoas mais velhas da sua comunidade, Capistrano trabalhava apenas com dois primos, um com 20 anos de idade no começo do trabalho, o outro com 13 anos, que já viviam fora da aldeia há vários anos (CAPISTRANO, 1914, p. 3-6).”

· Tiramos a nota 26 (27 na versão final) porque essa informação (os apoiadores financeiros) também é dada no final do artigo.

· Justificativa para as referências: esses trabalhos foram mencionados ao longo do texto e fornecem informações adicionais ao leitor interessado. Além disso, há vários dos produtos do projeto DoBeS (o link do acervo, a nova edição do livro do Capistrano, um livro sobre a cultura caxinauá elaborado pela equipe, etc.) nessa bibliografia.

2º parecer: Acrescentamos informações sobre o papel de cada uma das autoras no projeto DoBeS e no artigo nas notas 1 e 2.

How to Cite

REITER, S.; CAMARGO, E. Strengthening Indigenous Language and Culture: The Cashinahua Project (2006-2011) . Cadernos de Linguística, [S. l.], v. 4, n. 2, p. e686, 2023. DOI: 10.25189/2675-4916.2023.v4.n2.id686. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/686. Acesso em: 28 feb. 2024.

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