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Research Report

Brazil, Show Your Face: A Cognitive-Discursive Analysis of Metonymic Interpretations from Different Political Orientations

Vinícius da Rosa da Silva Tavares

Universidade Federal do Rio Grande do Sul image/svg+xml

https://orcid.org/0000-0002-4292-3693

rstavares.vinicius@gmail.com

Maity Siqueira

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https://orcid.org/0000-0002-8775-4563

maity.siqueira@ufrgs.br


Keywords

Cognitive Linguistics
Conceptual Metaphor Theory
Framing
Ideology
Critical Metaphor Analysis

Abstract

This study investigates how political ideology influences the interpretation of underspecified metonymies in public discourse. Grounded in Cognitive Linguistics and Critical Metaphor Analysis, the research focuses on the metonymic uses of the word “Brasil” in utterances from the Brazilian television program Brasil Urgente. Building on prior findings that the program employs vague, often critical, metonymic uses of “Brasil” with a conservative ideological vector, we test the hypothesis that individuals from different political orientations will assign different conceptual referents to this metonymy. A quantitative-qualitative, cross-sectional experimental design was employed. A sample of 194 Brazilian adults responded to an online questionnaire. Participants watched video clips containing both metonymic and non-metonymic uses of “Brasil” and identified its referent in open-ended responses. Results indicate that, while “political institutions” was the most frequent interpretation for metonymic uses across both groups, left-wing participants selected this referent with statistically significant greater frequency in three out of five metonymic clips. In non-metonymic contexts, left-wing participants also more consistently identified the literal referent. Right-wing participants, conversely, provided a higher proportion of indeterminate answers and context-driven, unpredicted responses. The findings point towards the direction that political ideology plays a role in guiding the interpretation of underspecified metonymy.

Resumo para não especialistas

Esse estudo investigou como os participantes da pesquisa interpretam a palavra “Brasil” em trechos de vídeo do programa “Brasil Urgente”. Em estudos anteriores, percebeu-se que é comum que esse programa utilize a palavra de maneira vaga, sendo difícil identificar do que, exatamente, está se falando quando o jornalista menciona “Brasil”. A investigação consistiu em um questionário aplicado de maneira online, no qual os participantes assistiram a trechos do programa e responderam a que se referia a palavra “Brasil” no trecho. As respostas foram comparadas entre os participantes que se declararam politicamente de esquerda ou de direita para investigar se a ideologia política do telespectador pode influenciar a maneira como ele interpreta a palavra. O estudo concluiu que a ideologia do participante pode influenciar levemente a interpretação dos vídeos.

Introdução

Dizem por aí que “o Brasil não é para amadores, não é para iniciantes”, que “o Rio é para quem tem PhD" e que “o Brasil precisa ser estudado pela NASA”. Ao ouvir enunciados desse tipo, duas perguntas nos ocorrem: (i) Por que o Brasil é tão comumente abordado como algo complexo, difícil de compreender? e (ii) a que se refere “Brasil” nessas frases? Quando afirmam algo sobre o Brasil, as pessoas estão falando do território nacional, do governo, dos políticos, dos brasileiros e seus costumes? Estão falando de cada um desses aspectos isoladamente ou tentando atingir todos ao mesmo tempo? Essas são as perguntas que motivaram este trabalho.

Na perspectiva da Linguística Cognitiva, entendemos que quando alguém diz que "o Rio é para quem tem PhD” essa pessoa está proferindo um enunciado metafórico e metonímico. O enunciado é metafórico porque não se trata do grau de instrução, mas da necessidade de um alto grau de entendimento e adaptação à complexidade da vida no Rio de Janeiro. E o enunciado é metonímico porque não se trata do espaço físico, mas de possíveis diferentes aspectos da vida naquela cidade (da malandragem estereotipada do carioca, de particularidades de uma cidade com muita desigualdade socioeconômica, das questões do transporte público, da política e de muitos outros aspectos).

Partindo desse referencial teórico, nossa primeira pergunta foi abordada em estudo anterior (Silva Tavares, 2025), que investigou os enunciados do programa Brasil Urgente em relação ao uso da palavra “Brasil” e seus usos figurados. O estudo concluiu que o programa usa um tom negativo para criticar o país, especialmente os seus órgãos governamentais. Apesar do tom duro de crítica às instituições do país, a Polícia recebeu elogios constantes, com sugestão, por parte do jornalista, que os demais órgãos políticos atrapalhariam seu trabalho. A análise dos enunciados indicou que o programa sugere uma menor presença do Estado em decisões públicas, e uma maior presença da força policial, o que demonstra uma força com vetor ideológico conservador. Esses achados levaram a uma nova pergunta: a interpretação do público desses enunciados seria afetada pelas suas orientações políticas?

Neste trabalho, nosso objetivo principal é abordar essas perguntas usando os enunciados analisados no trabalho de 2025. Especificamente, investigamos, por meio de um questionário, quais referentes são associados à palavra “Brasil” por participantes da pesquisa, brasileiros, de orientações políticas diferentes. Em termos técnicos, o que queremos é investigar como pessoas autodeclaradas de esquerda e de direita identificam o conceito-alvo da metonímia “Brasil” quando usada de maneira subespecificada. Nossa hipótese é que, em casos de usos metonímicos, vários referentes diferentes serão apontados pelos respondentes, uma vez que o uso da palavra “Brasil” é usada pelo jornalista frequentemente de maneira vaga. Quanto ao viés político, nossa hipótese é que indivíduos de orientações políticas diferentes irão indicar referentes diferentes à “Brasil” enquanto metonímia, uma vez que fatores sociais desempenham um papel importante na compreensão da linguagem de forma geral e de linguagem figurada, de forma específica (Charteris-Black, 2004).

1. Referencial teórico

Conforme a Linguística Cognitiva (LC), falamos do jeito que falamos porque pensamos de determinada forma e pensamos de uma determinada forma porque temos um corpo com uma constituição específica (Lakoff; Johnson, 1980) que está inserido em uma cultura peculiar. Assim, a LC constitui um campo teórico que compreende a linguagem como parte integrante da cognição humana, intimamente relacionada à experiência corpórea/perceptual e sociocultural. A Linguística Cognitiva parte da análise do enunciado, da língua em uso, na qual o significado ocupa um papel central, sendo concebido como dinâmico, enciclopédico e dependente do uso (Lakoff; Johnson, 1980; Langacker, 1987). Esse é um arcabouço teórico que abrange diversas teorias, das quais nos interessam em particular a Teoria da Metáfora Conceitual, a Semântica de Frames e a Análise Crítica da Metáfora. Nesta seção, abordaremos teorias e conceitos de interesse para o presente trabalho.

1.1. Fenômenos semânticos na Linguística Cognitiva

A Linguística Cognitiva parte da ideia de que linguagem, cognição e experiência corporal estão intrinsecamente ligadas. Assim, o estudo do fenômeno linguístico compreende a forma como os indivíduos constroem e interpretam sentidos a partir de sua relação com o mundo, considerando fatores culturais e contextuais como elementos centrais na produção e na compreensão da linguagem. Nesse quadro, a linguagem figurada é um dos fenômenos centrais de interesse, uma vez que essa auxilia a compreensão de conceitos abstratos com base em experiências concretas. Conceitos como emoção, moralidade e política são altamente abstratos e melhor compreendidos por meio de mecanismos que vão além do literal.

Com a proposta da Teoria da Metáfora Conceitual (TMC), Lakoff e Johnson (1980) sistematizaram a ideia de que metáforas são estruturas primariamente mentais que organizam esses e muitos outros conceitos abstratos no nosso sistema conceitual. Tal teoria evidencia o fato de que a linguagem figurada, particularmente os fenômenos da metáfora e da metonímia, é onipresente na fala cotidiana, não restrita aos usos literários. Nas décadas que se seguiram ao lançamento da TMC, muitos trabalhos mostraram e analisaram o uso de metáforas e metonímias nos mais diversos gêneros textuais e discursivos.

Nessa teoria, o conceito 'metáfora’ se subdivide em dois aspectos: um conceitual e outro linguístico. A metáfora conceitual é o processo cognitivo de mapeamento entre dois domínios conceituais (tipicamente um mais concreto e outro mais abstrato), mapeamento esse que se estabelece a partir de nossas experiências diárias. A metáfora linguística é a atualização, no uso, desse mapeamento entre dois conceitos distintos. “Brasília é o coração do Brasil”, por exemplo, é uma metáfora linguística que atualiza o mapeamento entre os domínios NAÇÃO (mais abstrato) e CORPO HUMANO (mais concreto). Mais do que apenas uma maneira de falar sobre nação, nós também pensaríamos sobre e agiríamos com o conceito de nação como se fosse um corpo humano.

A TMC não só estabeleceu a metáfora como uma figura do pensamento, como também elevou a metonímia para uma posição tão importante quanto. Aqui, metonímia é entendida como um processo cognitivo no qual uma entidade conceitual (o veículo) é utilizada para fornecer acesso mental a outra entidade conceitual (o alvo), com a qual mantém uma relação de contiguidade ou associação dentro de um mesmo domínio experiencial (Littlemore, 2015). Diferentemente da metáfora, que opera por mapeamento entre domínios distintos, a metonímia explora conexões dentro de um único domínio conceitual. Por exemplo, em “Brasil irá escolher seu representante nas urnas”, Brasil, o veículo, está fornecendo acesso à população brasileira, o conceito-alvo, instanciando a metonímia conceitual NAÇÃO PELOS HABITANTES.

Apesar de serem costumeiramente associadas a uma função apenas referencial, as metonímias também são capazes de carregar significados outros, uma vez que a escolha do veículo para acessar um alvo é relevante (Lakoff; Johnson, 1980; Littlemore, 2015). No exemplo anterior, a escolha de “Brasil” para acessar a população em um contexto eleitoral carrega consigo um valor de legitimidade ao processo democrático e uma sensação de unificação da população.

Tipicamente, as metonímias têm sido classificadas em dois tipos: parte e todo e parte e parte (Radden; Kövecses, 1999). No primeiro tipo, estabelece-se uma relação entre uma parte contígua do conceito e sua totalidade, como utilizar Brasília, uma parte do Brasil, para representar o país como um todo. Já no segundo tipo, estabelece-se uma relação de contiguidade entre dois conceitos que fazem parte do mesmo domínio, como em “Brasil” e “população brasileira”: a população não é uma parte da nação, eles são associados por contiguidade experiencial.

Porém, como não podia deixar de ser, a categoria metonímia possui exemplos não-prototípicos que a tornam difícil de categorizar nesses dois tipos. Handl (2011) propõe o conceito de metonímias subespecificadas para casos em que um mesmo veículo pode acessar mais de um conceito-alvo ao mesmo tempo. No exemplo “os ônibus estão parados devido à greve”, a palavra “ônibus” pode prover acesso tanto aos motoristas quanto aos próprios ônibus.

Em Silva Tavares (2025), diversos exemplos de metonímias subespecificadas foram encontrados nos enunciados do Brasil Urgente, formando a maioria dos mapeamentos metonímicos da palavra “Brasil”. Exemplos incluem: “Ou para ou corta esse câncer agora, ou esses caras vão tomar conta do Brasil, velho!” e “Tem um monte de político que roubou pra caramba o Brasil [...]” (Silva Tavares, 2025, p. 338).

Na Linguística Cognitiva, as noções de metáfora e metonímia se articulam com a ideia de enquadramento, pois ambos os processos envolvem modos específicos de selecionar, destacar e organizar aspectos da experiência na construção do significado. Enquanto a metáfora opera por mapeamentos entre domínios conceituais distintos, e a metonímia por relações internas a um mesmo domínio, ambas refletem escolhas que orientam a forma como um evento ou entidade é conceitualizado pelo falante, a partir de uma determinada perspectiva. Essas escolhas não são arbitrárias, mas dependem de estruturas de conhecimento mais amplas, tais como os frames, que dão suporte à interpretação linguística.

A Semântica de Frames (Fillmore, 1982) é a abordagem que explica como o significado emerge da ativação de cenários conceituais estruturados, nos quais metáfora, metonímia e enquadramento operam em conjunto. A ideia geral dessa abordagem é que o significado das palavras não pode ser compreendido de forma isolada, mas sim em relação a estruturas de conhecimento mais amplas, os frames, que representam cenas ou situações recorrentes da experiência humana. Um frame inclui participantes, papéis, relações e outros pressupostos necessários para a interpretação de um conceito. Assim, compreender um item lexical implica ativar todo o cenário conceitual ao qual ele pertence. Por exemplo, a semântica do verbo “comprar” pressupõe o frame todo de transação comercial, que inclui pelo menos comprador, vendedor, mercadoria e dinheiro (Fillmore, 1982).

Ao mesmo tempo, a escolha do verbo “comprar” ao invés de “vender” enquadra a cena de uma perspectiva específica: a do comprador. Esse recurso linguístico-cognitivo opera nas mais diversas situações discursivas: do relato de uma simples compra no supermercado a discursos mais complexos como programas que envolvem debates políticos. Por exemplo, o mesmo Projeto de Lei (PL) que regulamenta redes sociais pode ser enquadrado, conforme a posição política, de "PL das fake news" (visão favorável) ou "PL da censura" (visão contrária).

1.2. Virada cognitivo-discursiva

Nas suas primeiras décadas, particularmente até o início dos anos 2000, o paradigma cognitivista acabou por privilegiar o funcionamento das metáforas e metonímias na organização do sistema conceitual, o que, apesar de ter sido um avanço significativo na área, acabou ocorrendo em detrimento da importância do uso linguístico em contextos sociais concretos. A fim de preencher essa lacuna, posteriormente surgiram abordagens que, sem rejeitar as contribuições da TMC, passaram a enfatizar a dimensão discursiva, pragmática e ideológica da metáfora. Entre essas abordagens, destacam-se a Teoria Crítica da Metáfora (Charteris-Black, 2004), abordagens com análise discursivo-pragmática da metáfora (Musolff, 2012, 2016) e outros estudos cognitivo-discursivos (tais como os diversos trabalhos de Lynne Cameron, Alice Deignan, Gerard Steen e Solange Vereza), que retomam a linguagem em uso para o centro da investigação.

É nesse cenário que se insere a abordagem discursiva da metáfora, entendida aqui não como uma linha homogênea, mas como um conjunto de propostas que investigam a metáfora e a metonímia enquanto recursos de construção de sentido, muitas vezes situado, sensível a fatores contextuais, socioculturais e sociodemográficos. Essa abordagem parte do pressuposto de que metáforas e metonímias não apenas refletem estruturas cognitivas relativamente estáveis, mas também participam ativamente da negociação de sentidos, da construção argumentativa e da expressão de posicionamentos ideológicos no discurso.

A abordagem discursiva também se beneficia do diálogo com a Análise Crítica do Discurso (ACD), sobretudo no que diz respeito à investigação das relações entre linguagem, poder e ideologia. Nesse contexto, a metáfora e a metonímia passam a ser analisadas como recursos privilegiados de enquadramento (framing), capazes de naturalizar visões de mundo, legitimar posições políticas e orientar avaliações morais. As metáforas e metonímias deixam, assim, de ser apenas um fenômeno cognitivo universal para se tornar instrumentos discursivos sensíveis a conflitos sociais e ideológicos (Charteris-Black, 2004).

Charteris-Black (2004) argumenta que uma teoria da metáfora mais abrangente deve incluir uma perspectiva pragmática, capaz de interpretar a escolha de metáforas em relação aos seus propósitos de uso em contextos discursivos específicos. É com base nessa proposta que o autor formula a Análise Crítica da Metáfora, entendida como uma abordagem que articula os estudos da metáfora à Análise Crítica do Discurso. Essa perspectiva não exclui os aspectos cognitivos da metáfora, uma vez que considera que as escolhas metafóricas podem ser orientadas por fatores cognitivos, semânticos e pragmáticos, bem como por fatores ideológicos, culturais e históricos (Charteris-Black, 2004, p. 248). Nesse quadro, o autor distingue dois tipos de recursos que influenciam a escolha da metáfora no discurso: os recursos individuais, relacionados a aspectos cognitivos, experienciais, pragmáticos e linguísticos, e os recursos sociais, que envolvem ideologia, cultura e história do falante. A mobilização de ambos esses recursos contribui para a produção de efeitos persuasivos, orientando o enquadramento do tema proposto ao interlocutor. Apesar dos trabalhos da abordagem discursiva no geral enfocarem a escolha das metáforas e metonímias, ou seja, enfocarem a produção de linguagem figurada no discurso, é interessante olhar também para a compreensão desse fenômeno, e para como/se esses recursos sociais a afetam.

Um dos aportes centrais da abordagem discursiva da metáfora é a atenção sistemática à dimensão ideológica da linguagem figurada. Ideologia, nesse quadro, não é entendida apenas como um conjunto explícito de crenças políticas, mas como um sistema de valores, pressupostos e avaliações que orienta a interpretação da realidade social (Lakoff, 2016). Metáforas e metonímias desempenham papel crucial nesse processo ao realçar determinados aspectos de um fenômeno e ocultar outros, produzindo efeitos de sentido que frequentemente escapam à percepção consciente dos interlocutores.

A metonímia, em particular, ocupa um lugar estratégico nos discursos políticos e midiáticos, uma vez que opera por relações de contiguidade. Justamente por isso, seus efeitos ideológicos podem soar mais naturalizados. Expressões como “o mercado reagiu”, “Brasília decidiu” ou “a ciência afirma” condensam agentes, instituições e processos complexos em entidades singulares, facilitando a circulação de avaliações e juízos normativos.

Levando em consideração os aspectos pragmático-discursivos levantados a partir da virada discursivo-cognitiva, é justo pensar que a interpretação de metonímias subespecificadas pode variar de pessoa para pessoa dependendo de aspectos extralinguísticos, como sua orientação político-ideológica. Tendo estabelecido as bases teóricas do estudo, apresentamos a seguir o método utilizado para atingir o objetivo de investigar as interpretações de metonímias instanciadas em ocorrências da palavra “Brasil” no programa Brasil Urgente.

2. Método

Esta é uma pesquisa transversal, quanti/qualitativa, com delineamento experimental do tipo 2x2. As variáveis independentes são o uso da palavra "Brasil" (metonímico ou não-metonímico) e a orientação política do participante (esquerda ou direita). A variável dependente é o referente apontado pelos participantes à palavra "Brasil".

A amostra consiste em 194 brasileiros adultos (maiores de 18 anos), residentes no Brasil. Os participantes responderam a um questionário hospedado no Google Forms. O convite para participação na pesquisa foi feito de forma online (através das redes sociais Whatsapp e Instagram) e expandido através do método bola de neve. Um total de 211 participantes responderam o questionário online. Como critério de inclusão, os participantes deveriam ser adultos e falantes nativos de língua portuguesa. Considerou-se critério de exclusão a presença de quadro clínico psiquiátrico (autorrelatado) relacionado à linguagem, o abandono do questionário antes do fim, e ter errado no mínimo duas das três questões da seção eliminatória. Foram excluídos 17 participantes por não atenderem a esses critérios. Além desses, 10 outros participantes compuseram a amostra de uma primeira aplicação que serviu de piloto para avaliar a necessidade de fazer pequenas adaptações no instrumento.

A escolha de participantes adultos se deve principalmente à natureza da pesquisa, que envolve alinhamento ideológico. Enquanto é verdade que a formação ideológica é uma construção sem fim e que jovens menores de idade já estão inevitavelmente influenciados por alguma ideologia, julgamos que seja importante definir um limite de idade na pesquisa para exigir um certo nível de maturidade nesse quesito.

A pesquisa foi aplicada através da plataforma Google Forms, de forma assíncrona[1]. Na primeira seção do formulário, foi disponibilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) com uma explicação sobre a natureza e os objetivos gerais da pesquisa. Após a assinatura do termo, a segunda seção tratou dos dados sociodemográficos, incluindo uma parte para averiguar a familiarização do participante com relação ao gênero jornalístico. Foi perguntado aos participantes quão frequentemente eles se informaram através de cada um dos seguintes meios, em uma escala de 1 (nunca) até 5 (sempre): jornais físicos; jornais digitais, Twitter, Whatsapp, jornais criminais, jornais gerais e canais de YouTube. Os participantes que marcaram 4 ou 5 foram agrupados em participantes que fazem uso frequente da mídia.

Os participantes declararam o seu alinhamento político entre completamente alinhado a esquerda, moderadamente alinhado a esquerda, moderadamente alinhado a direita, e completamente alinhado a direita. A ausência da opção ‘centro’ foi proposital, uma pergunta de escolha forçada, de modo que o participante precisou declarar o alinhamento com o qual melhor se identificava. Os participantes que se autodeclararam “completamente” e “moderadamente” alinhados foram agrupados, formando dois grupos: alinhados à esquerda e alinhados à direita.

A tarefa de compreensão linguística começou na terceira seção, com três perguntas de múltipla escolha com caráter eliminatório. Essas perguntas tinham como objetivos tanto excluir aqueles que não compreenderam bem a tarefa quanto treinar os participantes em relação ao tipo de resposta esperada nas perguntas experimentais. Para isso, foram escolhidas manchetes cujos referentes da palavra "Brasil" estivessem relativamente claros e fáceis de identificar, ou seja, nenhuma metonímia subespecificada, apenas referencial. As manchetes eram as seguintes:

  1. Número de casos de dengue no Brasil dispara em 2022. (Resposta esperada: ao território nacional).
  2. Depois de muitos tropeços, Brasil reforça embaixada na Ucrânia. (Resposta esperada: a alguma instituição política brasileira).
  3. Brasil vai às urnas dividido para escolher novo presidente. (Resposta esperada: aos habitantes brasileiros).

Os participantes leram essas três manchetes contendo a palavra "Brasil", uma sem metonímia (manchete 1), e as outras duas com metonímia do tipo referencial, e precisaram indicar a que se refere a palavra "Brasil" em cada uma, escolhendo dentre as seguintes opções:

A. ao território nacional

B. aos habitantes brasileiros

C. a alguma instituição política brasileira

D. a alguma seleção esportiva brasileira

E. a algum político brasileiro

F. outro (qual?) ____________________

Finalmente, a quarta e última seção trouxe oito trechos de vídeos, cortados do canal oficial do Brasil Urgente no YouTube[1]. Após assistir cada trecho, perguntou-se aos participantes “a que se refere a palavra Brasil na fala do jornalista?”. Nessa seção foram feitas perguntas abertas. Os trechos escolhidos estão apresentados no quadro abaixo, na mesma ordem em que foram apresentados a todos os participantes. Os vídeos não apareceram em ordem randomizada aos participantes devido a limitações da plataforma Google Forms. Os participantes receberam as instruções de assistir o vídeo até o final, sem pular trechos; usar poucas palavras; ser específicos (por exemplo, “país” não é específico); não se preocupar em acertar/errar.

Vídeo Transcrição Tipo
1 [...] Não souberam fazer o equilíbrio entre a pandemia e a parte sanitária: o Brasil foi onde mais morreu gente (o Brasil proporcionalmente é o país onde mais morreu gente no mundo). Não-metonímico.
2 Outra coisa que eu fico admirado que os caras saquearam o Brasil, roubaram o Brasil pra cacete, mas roubaram muito o Brasil, meteram a mão no Brasil, hoje é tudo ficha limpa e podem concorrer às eleições. Metonímico.
3 Há países em que, em 1a instância, o cara já vai pra cadeia e toma perpétua ou toma pena brava. Aqui, não, aqui é 2a, 3a, 4a, conseguiu-se a 2a instância, de repente acabou-se com a 2a instância, se eliminou a 2a instância. Um bando de vagabundo veio pra rua. O que facilita para o bandido dizer “olha, tanto faz eu matar, eu barbarizar, porque daqui a pouco eu vou tá na rua de novo”. A mesma coisa pra político ladrão. Que vai continuar roubando o Brasil. Um monte desses políticos ladrões que hoje a gente não pode chamar de ladrões porque foram praticamente anistiados pela justiça brasileira por causa das leis do nosso Congresso Nacional que o Brasil foi roubado. É justo isso? O cara roubar bilhões do Brasil. Metonímico.
4 Pra quem não tá acostumado a viajar pra fora do Brasil, é muito difícil você ver tanto prédio assim em qualquer cidade do mundo. É muito difícil. Os gringos, quando chegam aqui e vê esse monte de prédio, ficam assustados com essa situação. Não-metonímico.
5 [...] Na realidade, vários jornalistas de empresas menores são mortos todo dia no Brasil (ou) há muito tempo no Brasil que a gente nem fica sabendo.[...] Não-metonímico.
6 É crime organizado! Agora se nós, da sociedade, jornalistas, policiais… Se a gente se acovardar perante o crime organizado agora, nós tamo ferrado. Se a gente ficar de joelhos, o crime organizado que tá infiltrado inclusive na política, esses caras acabam de uma vez com o Brasil. Ou para com, ou corta esse câncer agora, ou esses caras vão tomar conta do Brasil, velho! Metonímico.
7 [...] num recesso parlamentar, os parlamentares ficam 80 dias sem trabalhar no Brasil… 80 dias sem fazer nada no Brasil. Metonímico
8 tem que ser repelido, tem que ter ação e tem que ter principalmente solidariedade entre os poderes constituintes pra não permitir que o pcc mande no estado e mande no Brasil. O senhor já recebe esse apoio diretamente? Metonímico
Table 1. Quadro 1. Trechos escolhidos para o questionário. Fonte: Elaboração própria.

As respostas dadas ao questionário foram agrupadas nas seguintes categorias após uma análise qualitativa:

  1. indeterminado: respostas tão indeterminadas quanto a própria palavra "Brasil", tais como país, nação.
  2. território físico: respostas referentes ao lugar físico, região geográfica.
  3. população: respostas referentes aos habitantes do Brasil.
  4. instituições políticas: referentes a ministérios, governo, etc.
  5. políticos: referentes aos membros do governo em si.
  6. erário: referente ao dinheiro público, cofres públicos, receita, etc.
  7. imprensa: referente à imprensa do país, jornalistas, canais de mídia, etc.
  8. moral e valores: referente aos modos de organização social, a aspectos morais, tais como a maneira como vivemos, o que consideramos como certo ou errado, etc.
  9. não esperado: respostas que não se aplicam à pergunta feita, como responder ao enunciado do jornalista (“não concordo”) ou sobre informação contextual do vídeo (por exemplo, dizer que Brasil se refere a “prédios” no vídeo 4).

Alguns participantes responderam mais de uma categoria na mesma resposta, e ambas foram consideradas na análise. Os números apresentados nos resultados são referentes a quantas vezes a categoria foi mencionada como conceito-alvo de "Brasil", então o número de respostas de um item pode ser maior que o número de participantes.

As análises foram realizadas no programa SPSS versão 27.0. O nível de significância adotado foi de 5% (p<0,05). As variáveis quantitativas foram descritas por média e desvio padrão e as categóricas por frequências absolutas e relativas. Para comparar médias, o teste t-student foi aplicado. A associação entre as variáveis categóricas foi avaliada pelos testes qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher.

3. Resultados

A amostra final contou com 194 participantes, oriundos de 14 estados brasileiros[1]. Dentre eles, 140 se autodeclararam de esquerda e 54 de direita. A média de idade foi de 34 anos (desvio padrão, DP, = 11,5), 40,2% dos participantes possuía pós-graduação completa, 28,4% ensino superior completo, 20,6% superior incompleto, 8,2% médio completo, 0,5% médio incompleto, e 2,1% fundamental incompleto. Não houve diferença estatística significativa em escolaridade entre os participantes de esquerda e os de direita. A caracterização da amostra está representada na Tabela 1.

Figure 1. Tabela 1. Caracterização da amostra Fonte: Elaboração própria.

No geral, percebe-se uma maior participação de indivíduos que se declaram de esquerda (grupo E) do que aqueles que se declaram de direita (grupo D). Além disso, observa-se uma diferença estatística significativa na idade dos participantes de esquerda e de direita, com os participantes de direita de idade um pouco mais avançada, ainda que a média de idade esteja dentro da mesma faixa, por volta dos 30 anos, ou seja, ainda na mesma geração. A amostra é altamente escolarizada, mais da metade apresenta ensino superior completo. A título de ilustração, perguntou-se aos participantes quais eram as suas principais fontes de informação. Comparando os participantes alinhados a diferentes ideologias, participantes de esquerda relataram usar mais jornais digitais e Twitter como fonte de informação, enquanto os de direita relataram se informar por Whatsapp e YouTube mais do que os de esquerda. Tanto para os de esquerda quanto para os de direita, a fonte principal de informação são os jornais digitais. Dentre esses dados sobre fonte de informação, o mais relevante para o presente estudo é o fato de que nossa amostra quase não assiste jornal criminal, como o Brasil Urgente.

Nesse contexto, segue-se a apresentação dos dados quantitativos das respostas ao questionário conforme a ideologia do participante. No vídeo 1 (ver Quadro 1, acima, para transcrição dos trechos analisados), com trecho considerado não-metonímico, houve 202 respostas (ver Tabela 2 abaixo), ou seja, alguns participantes atribuíram mais de um referente à palavra "Brasil". A resposta mais comum (61,9%), tanto aos participantes de esquerda (65%) quanto de direita (53,7%), foi “território físico”, sem diferença estatística significativa entre os participantes de ideologia diferente (p = 0,198). A segunda resposta mais comum foi “população” (18,6%), também sem diferença estatística significativa entre os participantes. Isso provavelmente se deve ao contexto do enunciado, que fala das pessoas que foram vítimas da Covid, e não à palavra "Brasil" em si. A terceira resposta mais comum (16%) foi usar uma categoria tão indeterminada quanto a própria palavra "Brasil", para os dois grupos (E = 16,4%; D = 14,8%). A única resposta com diferença estatística significativa (p = 0,007) foi na categoria de respostas não esperadas, em que os participantes de direita (9,3%) trouxeram mais respostas não esperadas do que os de esquerda (0,7%).

Figure 2. Tabela 2. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 1, com Brasil não-metonímico. Fonte: Elaboração própria.

No vídeo 2 (Tabela 3), considerado um trecho com uso metonímico, as respostas se dispersaram mais entre várias opções. A amostra totalizou em 208 respostas, ou seja, novamente foi comum a atribuição de mais de um referente à palavra “Brasil”. As principais respostas se dividiram em instituições políticas (E = 42,9%; D = 38,9%) sem significância estatística entre os grupos. Em segundo lugar para os participantes de esquerda ficou o erário (E = 26,4%) e para os de direita a população (D = 18,5%), embora possa ser considerado um empate técnico com erário (D = 16,7%), já que o número difere em apenas um participante. De qualquer modo, as respostas nesse item não apresentaram diferença estatística significativa em nenhuma categoria de respostas.

Figure 3. Tabela 3. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 2, com Brasil metonímico. Fonte: Elaboração própria.

No vídeo 3 (Tabela 4), com "Brasil" metonímico, percebe-se que os participantes de esquerda atribuíram o referente mais comumente às instituições políticas do que aqueles de direita, ainda que sem diferença estatística significativa (E = 38,6%; D = 24,1%; p = 0,083). Enquanto “instituições políticas” foi a resposta mais comum para os participantes de esquerda, para os de direita, foi “população” (E = 25%; D = 37%; p = 0,136). O erário também foi uma resposta em destaque para essa pergunta, para ambos os grupos (E = 23,6%; D = 14,8%; p = 0,253). Nesse item, assim como no primeiro, participantes de direita apresentaram maior tendência a prover respostas não esperadas que os de esquerda, nesse vídeo (E = 3,6%; D = 13%; p = 0,039).

Figure 4. Tabela 4. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 3, com Brasil metonímico. Fonte: Elaboração própria.

No vídeo 4 (Tabela 5), com "Brasil" não-metonímico, as respostas foram massivamente direcionadas ao referente não-metonímico, o território físico (80,4%). Apesar disso, notou-se que os participantes de esquerda apontaram mais frequentemente território físico como referente desse vídeo do que os de direita (E = 87,1%; D = 63%; p < 0,001), que, por sua vez, responderam mais com palavras indeterminadas (E = 6,4%; D = 25,9%; p < 0,001).

Figure 5. Tabela 5. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 4, com Brasil não-metonímico. Fonte: Elaboração própria.

O vídeo 5 (Tabela 6), com uso não-metonímico, foi o único cujo número de respostas foi igual ao número de participantes, ou seja, não houve respostas com mais de um referente. Além disso, conforme o esperado, novamente o território físico foi a resposta mais frequente, principalmente por parte dos participantes de esquerda (E = 72,1%; D = 42,6%; p < 0,001). Em segundo lugar, os participantes de direita se dividiram em respostas indeterminadas (20,4%), população (11,1%), imprensa (11,1%), e respostas não esperadas (11,1%).

Figure 6. Tabela 6. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 5, com Brasil não-metonímico. Fonte: Elaboração própria.

No vídeo 6 (Tabela 7), com "Brasil" metonímico, tanto os participantes de esquerda quanto os de direita associaram o referente da palavra, principalmente, às instituições políticas, com diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos (E = 49,3%; D = 29,6%; p =0,021). Em segundo lugar, ambos os grupos responderam população, sem diferença estatística significativa entre os dois. Os participantes de direita responderam com palavras tão indeterminadas quanto "Brasil" em frequência maior que os de esquerda (E = 11,4%; D = 24,1%; p = 0,047), aparecendo empatado com “população” como a segunda opção de resposta mais popular nesse grupo.

Figure 7. Tabela 7. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 6, com Brasil metonímico. Fonte: Elaboração própria.

No vídeo 7 (Tabela 8), de trecho com uso metonímico, novamente observa-se que a resposta mais comum para ambos os grupos foi instituições políticas, principalmente entre os participantes de esquerda (E = 59,3%; D = 38,9%; p = 0,017). O território físico se sobressaiu como a segunda opção mais comum (E = 17,1%; D = 16,7%).

Figure 8. Tabela 8. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 7, com Brasil metonímico. Fonte: Elaboração própria.

O enunciado do vídeo 7 ("num recesso parlamentar, os parlamentares ficam 80 dias sem trabalhar no Brasil… 80 dias sem fazer nada no Brasil”) pode ser considerado ambíguo. Em uma interpretação mais literal, “Brasil” poder ser entendido como o local onde os parlamentares trabalham. Em uma interpretação mais metonímica, “Brasil” pode ser entendido como o objeto de trabalho dos parlamentares.

Por fim, o vídeo 8 (Tabela 9), com "Brasil" metonímico, foi o que apresentou maior número de respostas (216), ou seja, foi aquele no qual os participantes mais sugeriram referentes diferentes ao mesmo tempo. A resposta mais comum foi, novamente, instituições políticas, com prevalência de participantes de esquerda (E = 50,7%; D = 33,3%; p = 0,44). Os participantes de direita deram mais respostas indeterminadas (E = 10,7%; D = 22,2%; p = 0,065) e significativamente mais respostas não esperadas para a pergunta (E = 3,6%; D = 13%; p = 0,039).

Figure 9. Tabela 9. Descrição sobre o referente da palavra "Brasil" conforme a ideologia autodeclarada do participante no vídeo 8, com Brasil metonímico. Fonte: Elaboração própria.

No geral, percebe-se, também, que dependendo do contexto do enunciado do apresentador, diferentes respostas emergiram como possíveis referentes de "Brasil". Por exemplo, o vídeo 5 trata da violência sofrida por jornalistas no Brasil, e um número considerável de participantes apontou o referente como “imprensa”. Pode-se argumentar que essas respostas devam ser interpretadas como não esperadas, já que respondem mais ao contexto do enunciado do que à palavra “Brasil” por si só, mas acabaram formando uma categoria à parte por causa da alta frequência de registros. O quadro 2 apresenta exemplos de respostas, enfatizando aquelas que foram consideradas não esperadas e aquelas com múltiplos referentes.

Vídeo Participante (ideologia) Resposta Resposta (sic)
1 129 (E) 9 – não esperada Ele afirma que no brasil foi aonde mais morreu gente no mundo
3 109 (D) 9 – não esperada população carcerária brasileira esta" a solta" realizanto roubos e assaltos
6 111 (E) 2 – Território físico 3 – População 4 – Instituições políticas Acredito que na fala do vídeo Brasil represente instituição, pessoas e território nacional.
6 120 (E) 3 – População 4 – Instituições políticas País como um todo (população e instituição política)
8 131 (E) 9 – não esperada Pedido de socorro em nome da nação
E = Esquerda; D = Direita
Table 2. Quadro 2. Exemplos de respostas dos participantes aos vídeos. Fonte: Elaboração própria.

Com base nos achados descritos acima, partimos para a análise e discussão desses dados com base na Análise Crítica da Metáfora.

4. Análise e Discussão

No geral, antes mesmo de comparar as ideologias dos participantes, percebemos que diversos referentes diferentes foram associados à palavra “Brasil”, tanto nos vídeos com usos metonímicos como naqueles com usos não-metonímicos. Além disso, em muitos casos, os participantes pareciam estar respondendo mais ao contexto do enunciado como um todo do que à palavra “Brasil” em si, talvez por isso ocorreu um número relativamente alto de respostas não esperadas. Da mesma forma, observou-se a ocorrência de categorias não esperadas para a interpretação da palavra "Brasil” em certos vídeos, como “imprensa” no vídeo 5, que trata de um ataque a um jornalista. Ademais, muitos participantes tiveram dificuldade em apontar um referente em específico, ou em se expressar com objetividade, utilizando palavras tão indeterminadas quanto a própria palavra “Brasil” (ex.: “Se refere ao Brasil, enquanto País”, “Nosso país Brasil” etc.). Isso provavelmente se deve ao fato de que foram feitas perguntas de natureza metalinguística, que exigem um esforço consciente de definição, normalmente desnecessário para a interpretação adequada do enunciado. Uma possível solução teria sido fazer perguntas subsequentes de maneira a propiciar uma melhor avaliação de respostas vagas. Outra solução teria sido coibir o uso de palavras como “país” e “nação”. A falta desses recursos pode ser considerada como uma limitação do instrumento online e, mais especificamente, da versão gratuita do Google Forms.

Nos vídeos metonímicos, percebeu-se que os participantes predominantemente associaram o referente com as instituições políticas do país (ex.: “governo federal brasileiro”, “instituição do governo”, etc.). Em todos eles, essa foi a opção mais comum. Esse resultado já era esperado, dada a proposta de crítica aos políticos e às instituições políticas do programa Brasil Urgente.

A categoria “erário”, referindo-se ao dinheiro oriunda da arrecadação de impostos, surgiu como uma resposta não esperada em alguns vídeos. Porém, observou-se uma regularidade quando essa categoria apareceu: nos vídeos em que o Brasil, além de metonímia, está personificado como uma vítima de crime (vídeos 2 e 3), os três referentes mais comuns foram as instituições políticas, o povo, e o erário, com prevalência de uma ou outra dessas opções, dependendo do vídeo. Pode-se observar uma concatenação na interpretação dessas três categorias: o dinheiro (erário) arrecadado pelo governo, que deveria ser reinvestido para benefício do povo, foi roubado. A escolha dentre um desses três referentes, erário, governo, ou povo, mostra uma perspectivização por parte do respondente. O enquadramento particular pode ser motivado pela saliência do conceito para o participante (por exemplo, para um indivíduo o que está mais saliente na cena é o governo e, por isso, ele o apontou como referente), ou pela necessidade de ser mais específico (por exemplo, a escolha de erário como referente pode ser uma decisão consciente de querer ser o mais específico e objetivo possível na sua resposta).

A categoria “moral/valores”, também um tanto inesperada, surgiu principalmente nos vídeos que tratam do Brasil como vítima do crime organizado (vídeos 6 e 8). Isso pode indicar que muitos participantes entendem a própria organização social e estilo de vida como o alvo do crime organizado no discurso do jornalista. Ou seja, a intenção dessas organizações foi entendida pelos participantes como de tomar o local do Estado na definição do estilo de vida. Observe o seguinte trecho do vídeo 8: “[...] tem que ter ação e tem que ter principalmente solidariedade entre os poderes constituintes pra não permitir que o pcc mande no estado e mande no Brasil”. Como as instituições políticas são as responsáveis pela formalização e fiscalização das normas sociais, essa categoria pode ser explicada também como a perspectivização de uma cena complexa.

No caso de um vídeo com um enunciado ambíguo (“num recesso parlamentar, os parlamentares ficam 80 dias sem trabalhar no Brasil… 80 dias sem fazer nada no Brasil” — trecho do vídeo 7), no qual a interpretação poderia ser tanto metonímica quanto não, os referentes mais comuns foram instituições políticas e território físico. À primeira vista pode parecer estranho que o referente literal (território físico) apareça tão próximo a um referente metonímico, mas isso pode ser explicado pelo caráter polissêmico do enunciado, que pode ser entendido tanto como o esquema de imagem do contêiner (“os parlamentares não estão trabalhando dentro do Brasil”) como de maneira metonímica, de PARTE PELO TODO (“os parlamentares não estão trabalhando no seu local de trabalho”), ou de PARTE PELA PARTE (“os parlamentares não estão trabalhando em função do Brasil”). Ou seja, a própria ideia de que o vídeo 7 apresenta um uso metonímico pode ser questionada, dependendo da interpretação do interlocutor.

Já os usos não-metonímicos de “Brasil” (vídeos de 1, 4 e 5) foram entendidos, em grande maioria, realmente como território físico. Ainda assim, no vídeo 1 houve uma parcela relativamente alta de participantes que identificaram o referente como “povo”, provavelmente respondendo ao contexto do enunciado, que falava das pessoas que morreram na pandemia. Porém, quando comparadas as respostas considerando a ideologia dos participantes, percebeu-se que, enquanto “território físico” foi a opção mais popular em ambos os grupos, mais participantes de esquerda a apontaram como o referente dos usos não-metonímicos do que os de direita, que elegeram mais palavras indeterminadas. Uma possível explicação para isso é de que mais participantes de direita entendem a palavra “país” como um sinônimo de território, do seu significado literal. Isso não explicaria, porém, a alta porcentagem dessa categoria nos outros vídeos nos quais também houve uma diferença estatisticamente significativa no número maior de respostas indeterminadas dadas pelos participantes de direita.

Os vídeos 4 e 5, de uso não-metonímico, foram os vídeos com menos respostas múltiplas. Ou seja, os vídeos com metonímia propiciaram que os participantes apontassem mais de um referente ao mesmo tempo para a palavra “Brasil”. O vídeo 1, também de uso não-metonímico, teve um pouco mais de respostas múltiplas, sendo comparável aos vídeos de uso metonímico. Ele se difere dos vídeos 4 e 5 por não usar a preposição “em” para indicar lugar, optando pelo pronome relativo “onde”: “o Brasil foi onde mais morreu gente”. Talvez a presença da preposição “em” tenha sido um indicativo forte para os participantes de que “Brasil”, no enunciado, referia-se ao território físico.

Retomando nossos objetivos, os resultados parecem corroborar a hipótese de que “Brasil”, no discurso do programa Brasil Urgente, possui uma grande variedade de possíveis interpretações, inclusive para o mesmo telespectador. A palavra parece acessar um frame amplo que autoriza diversas interpretações, servindo como uma metonímia que pode ser chamada de TODO POR QUALQUER COISA RELACIONADA.

Comparando as respostas dos participantes de esquerda e de direita, focando naquelas que mostraram diferença estatística significativa, os participantes de esquerda foram os que mais responderam território físico nos vídeos de uso não-metonímico, e instituições políticas nos vídeos de uso metonímico. Os participantes de direita se destacaram por apresentarem mais respostas de palavras indeterminadas e respostas não-esperadas de forma geral.

Esses dados corroboram parcialmente uma outra hipótese, a de que a ideologia do participante orientaria a interpretação dos enunciados. Embora a resposta mais comum tenha sido a mesma para quase todos os vídeos, a distribuição em frequência dessas respostas foi diferente. Isso pode também ter acontecido em decorrência do número de participantes de esquerda ser maior que os de direita.

Uma informação digna de nota é que os dados obtidos com a aplicação do questionário sociodemográfico indicam que a grande maioria dos participantes não tem como fonte de informação frequente programas de jornalismo criminal como o Brasil Urgente. De qualquer forma, assistindo ou não, se informando ou não com o tipo de programa de onde foram tirados os vídeos com os enunciados a eles apresentados, essa variável provavelmente não interviu na interpretação dos trechos assistidos. Outra informação relevante é a alta escolaridade dos participantes, característica que pode ter influenciado os resultados.

Como limitações da pesquisa, destacamos justamente a seleção de participantes devido à metodologia de coleta de respostas por questionário online. É mais provável que participantes já dispostos a participar de uma coleta tenham participado da pesquisa, dificultando que ela seja generalizável para a população como um todo. Além disso, seria interessante repetir a pesquisa com coleta presencial, na qual o pesquisador poderia pedir para o participante especificar sua resposta, evitando números elevados de “indeterminado” ou respostas “não esperadas”. Em pesquisas futuras, tarefas com e sem itens de treinos antes dos vídeos poderiam ser comparadas, a fim de verificar se tais itens enviesam as respostas dos participantes, no sentido de limitá-los, de certa maneira, às categorias neles apresentadas.

5. Considerações finais

Brasil, enquanto uma metonímia no discurso do programa Brasil Urgente, autoriza diversas interpretações para seu referente. Por ser um conceito amplo, relacionado a vários outros conceitos, a metonímia cumpre uma função que pode ser definida como “TODO POR QUALQUER COISA RELACIONADA”. Interessante notar, como já foi relatado em estudo anterior (Silva Tavares, 2025), que o próprio jornalista do Brasil Urgente usa “Brasil" metonimicamente de forma subespecificada. Ou seja, o seu conceito-alvo na maioria das vezes não está claro, de maneira que o público pode preencher o seu referente por si próprio. Outra explicação para a ocorrência de diversas interpretações pode ser atribuída a uma economia linguístico-cognitiva, em que vários conceitos-alvos são acessados com um só veículo. Ao dizer “o Brasil foi roubado”, pode-se estar querendo se referir tanto aos conceitos do dinheiro público, quanto ao povo, e ao governo simultaneamente. Assim, usar a metonímia subespecificada “Brasil” seria a maneira mais econômica de se referir a todos esses conceitos ao mesmo tempo.

Neste estudo, os participantes também demonstraram relacionar a palavra Brasil a diferentes referentes. Quando o enunciado do vídeo trata de corrupção, os referentes mais comuns apontados pelos participantes foram instituições políticas, povo e erário. Esses três conceitos se encontram relacionados, mas a escolha de um ao invés de outro é relevante, na medida em que mostra uma certa perspectivização. De fato, é exatamente o ponto de vista do interlocutor que guia a interpretação de um enunciado, seja ele figurado ou não. Nos enunciados em que o jornalista dizia que o crime organizado ia controlar o país, por exemplo, a categoria “moral/valores” surgiu para explicar a ideia de que se tratava da organização social que ia ser controlada pelo crime organizado, o que coloca em perspectiva o frame de instituições políticas.

Considerando os achados desta pesquisa e o referencial teórico adotado (que enfatiza a ubiquidade da perspectiva e papel do contexto na linguagem), aventamos aqui a possibilidade de as respostas serem influenciadas por um viés ideológico. Em enunciados metonímicos em geral, os participantes de esquerda apontaram instituições políticas nas suas respostas mais frequentemente do que os de direita. Os participantes de esquerda também responderam território físico nos enunciados não-metonímicos com maior frequência. Já os participantes de direita apresentaram maior frequência de respostas indeterminadas e respostas não esperadas. No entanto, não podemos traçar detalhes mais conclusivos a partir das respostas dos participantes de direita, devido à quantidade de participantes desse grupo.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

Os autores declaram que não possuem conflitos de interesses financeiros, profissionais ou pessoais que possam ter influenciado inadequadamente os resultados ou conclusões deste trabalho.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os materiais e dados deste estudo estão disponíveis no OSF (DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/DMR8W). Estão publicamente disponíveis: (i) o instrumento do estudo (questionario.docx); (ii) a planilha com a lista dos vídeos originais e os timecodes dos trechos usados no questionário (trechos_questionario.xlsx); e (iii) a planilha com as respostas do questionário em formato anonimizado (respostas_questionario.xlsx, com informações pessoais substituídas por “Dados removidos”). Os arquivos de vídeo não são redistribuídos no repositório por restrições de direitos/termos de uso, permanecendo hospedados nas plataformas de origem; as URLs e os timecodes estão informados no OSF. Licença/termos de reuso: CC BY-NC 4.0. Se for necessário acesso a dados não anonimizados (quando aplicável), a solicitação deve ser feita ao autor responsável (rstavares.vinicius@gmail.com), com finalidade acadêmica e compromisso de confidencialidade; o prazo típico de resposta é de até 30 dias.

Declaração de Uso de IA

Durante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram o ChatGPT (OpenAI, modelo GPT-5.2) para revisão gramatical da Introdução e na Análise e Discussão, com contribuição mínima dessa ferramenta. Todo o conteúdo foi revisado e editado pelos autores, que assumem total responsabilidade pelo manuscrito.

Consentimento e Ética

O projeto foi avaliado pelo CEP-UFRGS e aprovado sob o número 66090122.9.0000.5347 no dia 23/01/2023.

O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido convida o participante a colaborar voluntariamente com uma pesquisa sobre a compreensão da linguagem em programas jornalísticos brasileiros. Esclarece que a participação consiste em assistir a trechos de vídeos e responder a um questionário simples, com duração aproximada de 20 minutos, podendo ser interrompida a qualquer momento sem qualquer prejuízo ao participante. Informa que os dados coletados são anonimizados, utilizados exclusivamente para fins científicos, armazenados com segurança por no mínimo cinco anos e que os resultados gerais serão divulgados no site da universidade, no repositório de teses e dissertações. Além disso, informa os riscos e benefícios aos participantes, garantindo a ele seus direitos legais, conforme a legislação vigente.

Referências

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LANGACKER, R. W. Foundations of Cognitive Grammar: Volume I, Theoretical Prerequisites. Stanford: Stanford University Press, 1987.

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SILVA TAVARES, V. R. Que país é esse?: o enquadramento figurado de “Brasil” nos enunciados do programa Brasil Urgente. ReVEL, v. 23, n. 44, p. 316-340, 2025. Disponível em: https://www.revel.inf.br/files/af501791bb8144104c51811903533df6.pdf. Acesso em: 27 maio 2026.

Avaliação

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N6.ID959.R

Decisão Editorial

EDITOR: Ingrid Finger

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9779-8615

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil.

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CARTA DE DECISÃO: The manuscript aims to investigate how self-declared left-wing and right-wing individuals identify the target referent of the metonymic expression "Brazil" when used in an under-specified way. The manuscript presents theoretical and applied relevance, proving to be original by involving approaches based on Cognitive Linguistics and Critical Discourse Analysis in the investigation of a domain of contemporary political interest. The quality of the writing, the outlined methodology, the internal coherence of the conclusions in relation to the mobilized theoretical framework, and the methodological transparency stand out, since the data and procedures are available and allow for replication in future studies.

Rodadas de Avaliação

AVALIADOR 1: Diego Spader de Souza

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8989-4669

AFILIAÇÃO: Universidade de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil.

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AVALIADOR 2: Rafahel Jean Parintins Lima

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0128-3068

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Rio Grande do Norte, Brasil.

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RODADA 1

AVALIADOR 1

2026-04-07 | 09:45 AM

O relato de pesquisa apresenta referencial teórico sólido e pertinente ao fenômeno linguístico analisado. A relevância da pesquisa se dá, principalmente, na esfera social, uma vez que mostra como brasileiros de diferentes vertentes políticas constroem o significado de "Brasil" a partir de dados da mídia. Destaco a qualidade da escrita, a metodologia e a análise dos dados, que é bastante detalhada. O trabalho é de grande valor para todos aqueles interessados em Linguística Cognitiva e estudos do discurso, mesmo os que estão ingressando nessas áreas, como alunos de graduação em Letras.

O estudo fundamenta-se solidamente em modelos da Linguística Cognitiva, propondo-se a observar como pessoas de alinhamento político de esquerda ou direita conceptualizam "Brasil" a partir da análise de enunciados da mídia. Um dos principais méritos do trabalho reside no seu desenho experimental, que utiliza estímulos audiovisuais reais do programa Brasil Urgente, conferindo ao estudo uma dimensão de uso linguístico autêntico, o que é bastante relevante para a área da Linguística Cognitiva. A metodologia demonstra rigor ao incluir etapas de treino para garantir a fiabilidade das respostas. No que diz respeito aos resultados, os autores conseguem sustentar a conclusão de que a ideologia política de facto guia a resolução metonímica. O trabalho cumpre os seus objetivos principais e oferece uma contribuição relevante para a compreensão de como a linguagem figurada é negociada em sociedades polarizadas, destacando o papel das experiências sociais na construção do sentido. O impacto esperado desta investigação é significativo para a área da Linguística Cognitiva em diálogo com os estudos do discurso, uma vez que demonstra que termos aparentemente simples e abrangentes funcionam como instrumentos ideológicos sensíveis que refletem os valores dos interlocutores.

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AVALIADOR 2

2026-05-03 | 04:13 PM

O manuscrito relata uma pesquisa, na área de Linguística, sobre diferentes interpretações figuradas e não figuradas da palavra "Brasil" por participantes que se declaram de esquerda ou de direita. De forma geral, avalio que o texto está bem escrito do ponto de vista científico. Avalio que deve ser publicado pela revista Cadernos de Linguística, por cumprir com os critérios mínimos de cientificidade e de linguagem acadêmica.

O objetivo do trabalho é investigar como indivíduos autodeclarados de esquerda e de direita identificam o referente-alvo da expressão metonímica “Brasil” quando empregada de forma subespecificada. O texto apresenta boa organização em termos de plano textual e demonstra rigor científico. Do ponto de vista do parecerista, não há fragilidades relevantes.Quanto aos pontos fortes, destacam-se: a consistência das conclusões em relação ao referencial teórico mobilizado, à metodologia delineada e às análises realizadas; bem como a transparência metodológica, uma vez que os dados e procedimentos estão disponíveis e possibilitam a replicação em estudos futuros.

Ressalta-se, ainda, a relevância do trabalho: embora as teorias da referência e de sua variabilidade sejam clássicas nos campos da Semântica e da Filosofia da Linguagem, o estudo se mostra original ao mobilizar abordagens como a Linguística Cognitiva e a Análise Crítica do Discurso para investigá-las empiricamente em um domínio de interesse político contemporâneo.

How to Cite

SILVA TAVARES, V. da R. da; SIQUEIRA, M. Brazil, Show Your Face: A Cognitive-Discursive Analysis of Metonymic Interpretations from Different Political Orientations. Cadernos de Linguística, Campinas, SP, Brasil, v. 7, n. 6, p. e959, 2026. DOI: 10.25189/2675-4916.2026.v7.n6.id959. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/959. Acesso em: 6 jul. 2026.

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