Resumo para não especialistas
A invasão dos europeus ao continente americano trouxe implicações profundas para o modo como passaram a compreender raça, língua, religião, gênero e sexualidade diante dos povos colonizados. Para os colonizadores, esses marcadores funcionavam como uma régua para determinar quem pode ou não pode, quem sabe ou não sabe, quem deve existir e quem deve morrer. Na minha tese de doutorado, defendida em 2023, problematizei como essa lógica colonial ainda serve para explorar, excluir e violentar corpos, saberes e espiritualidades que não se alinham ao padrão eurocêntrico, e propus que os modos como pessoas marginalizadas vivem e se relacionam no e com o mundo são fundamentais para uma sociedade menos desigual – aquilo que chamei de corpovivências decoloniais. Neste texto, discuto como a ideia de corpovivências tem contribuído para denunciar essa régua colonial e de que maneiras isso tem ocorrido nas pesquisas de autoras/es inseridos no campo da Linguística Aplicada Crítica – área de pesquisa que estuda o papel da linguagem em contextos sociais e políticos, identificadas por meio de buscas realizadas no Google Acadêmico. As análises evidenciam que as corpovivências têm se constituído como caminho fértil para o enfrentamento das desigualdades produzidas pela lógica colonial em diferentes agendas de pesquisa.
Introdução
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A primeira linguagem é a do corpo e, na medida em que essa é uma linguagem de perguntas e na medida em que limitamos essas perguntas e não ouvimos ou valorizamos senão o que é oral ou escrito, estamos eliminando grande parte da natureza humana (Freire; Faundez, [1985] 2021, p. 71).
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Nota-se, na epígrafe acima, que dois dos elementos fundamentais para a proposição de uma pedagogia verdadeiramente questionadora apontados por Freire e Faundez ([1985] 2021) são a percepção do corpo e da língua[gem] como dimensões constitutivas da natureza humana e, portanto, dos espaços habitados por pessoas, a exemplo da própria sala de aula. Nessa direção, discutir como determinados corpos e suas respectivas marcas têm sido repetidamente silenciados, subalternizados e excluídos tanto de algumas noções de língua[gem] quanto da própria sala de aula de língua inglesa tem sido um dos meus maiores esforços, dentro e fora da universidade (Almeida, 2017; Almeida, 2023a; Almeida, 2023b; Almeida, 2025).
É com base nesse esforço contínuo e político que propus, ainda em 2022, o construto corpovivências. Na versão apresentada na qualificação da tese de doutorado, mobilizei o conceito para reafirmar a urgência de (re)pensarmos as nossas experiências de vida sempre ligadas aos corpos de quem as cultiva em nossas memórias, sentimentos e práticas sociais. Conforme argumentei naquele momento, e sigo defendendo arduamente, as vivências estão sempre conectadas a corpos e, consequentemente, a raças, gêneros, sexualidades, etnias e classes específicos, muitos dos quais se apresentam como respostas insurgentes e necessárias à colonialidade e às suas múltiplas dimensões.
Ainda durante a sessão de qualificação da tese, a Profa. Dra. Viviane Silvestre destacou o potencial decolonial presente no construto e sugeriu que eu o desenvolvesse no estudo, inserindo-o também no título. Ela também me interpelou a refletir sobre como as minhas corpovivências acadêmicas e não acadêmicas poderiam aparecer e se imiscuir às discussões praxiológicas[1] presentes ao longo da tese. Com base nos apontamentos iniciais da professora avaliadora supramencionada acerca do papel das corpovivências e a partir de um exercício contínuo de leituras (de mundos, de corpos subalternizados, de teorias acadêmicas produzidas no/pelo Sul Global e de múltiplas semioses), defendi, em junho de 2023, a tese intitulada Corpovivências decoloniais nas e para além das aulas de língua inglesa de um curso de Letras: português e inglês.
Feita essa breve contextualização, discuto, neste artigo, de que maneiras o conceito de corpovivências vem se afirmando como estratégia de enfrentamento à colonialidade e às suas múltiplas dimensões, dentro e fora da sala de aula de língua inglesa. Para isso, tomo como referência trabalhos de pesquisadoras/es inseridas/os na Linguística Aplicada Crítica (LAC) que vêm mobilizando o construto em seus estudos, buscando analisar de que maneiras essas/es estudiosas/os o têm compreendido e performado em suas investigações. Como realizei em minha tese de doutorado (Almeida, 2023a), repito, neste texto, o entrelace entre corpovivências acadêmicas e não acadêmicas na tentativa de ilustrar como as várias manifestações do conhecimento e as relações que estabelecemos com elas necessitam vislumbrar corpos, espaços e sentidos que extrapolam o ambiente acadêmico.
Dito isso, organizo o texto da seguinte maneira: após esta breve introdução, discuto as corpovivências de Leonice, cuja produção de bonecas e narrativas outras da vida social constitui uma forma potente de enfrentamento à lógica colonial, articulada, neste estudo, ao ensino de língua inglesa. Em seguida, apresento como se deu o meu primeiro contato com o pensamento decolonial, explicito a diferença entre colonialismo e colonialidade, discuto as manifestações desta nos âmbitos do poder, do saber e do ser e, na sequência, conceituo corpovivências. Avanço, então, para demonstrar como o construto tem sido utilizado em diferentes estudos teórico-acadêmicos inseridos na LAC. Por fim, teço as considerações finais a respeito dos possíveis desdobramentos que o construto e o seu potencial decolonial podem assumir dentro e para além da academia.
1. Leonice: de contadora de histórias à fazedora de bonecas
Em primeiro lugar, reafirmo que, guiado pelo balanço das águas desse rio-vida – ora agitadas, ora calmas –, tenho compreendido o meu papel como professor de língua inglesa, buscando evidenciar de que maneiras a ideia de corpovivências pode servir como estratégia de enfrentamento ao sistema moderno-colonial na minha atuação docente, tanto na Educação Básica quanto, agora, no Ensino Superior, ao longo de mais de uma década.
Desde a defesa da tese, em 2023, já publiquei outros quatro textos (Almeida, 2023b; Almeida; Moura, 2024; Almeida, 2025; Pessoa; Almeida, 2025) a respeito de como tenho acionado o construto corpovivências na (e para além da) sala de aula de língua inglesa. Em Almeida (2023b), por exemplo, problematizo as corpovivências de quatro alunas das turmas de segunda série dos cursos técnicos de Agroecologia e de Meio Ambiente Integrados ao Ensino Médio de um Instituto Federal localizado no Oeste do Pará, registradas pelas estudantes em diários reflexivos sobre as aulas de língua inglesa. Naquela ocasião, discutimos a biografia de bell hooks e tivemos uma experiência performática de leitura literária do texto Straightening Our Hair, realizada por mim. Os registros nos diários deveriam ser multimodais (podendo conter trechos de canções, ilustrações, imagens, figurinhas, poemas, etc.) e não se limitar apenas ao que havia sido estudado em sala. As/Os discentes precisavam perceber seus corpos, seus sentimentos, suas angústias e potencialidades naquelas aulas, compartilhando, de igual maneira, aquilo que (não) lhes fazia sentido em relação ao conteúdo, o que esperavam da disciplina e de que maneira(s) poderiam aplicar aqueles saberes em suas vidas pessoais.
As análises dos diários revelaram que as aulas sobre bell hooks ampliaram os repertórios das estudantes em língua inglesa, além de contribuírem para a compreensão de que “a(s) língua(gen)s não servem apenas para propósitos comunicativos, mas possuem vieses políticos, sociais, culturais, hierarquizantes, excludentes e, sobretudo, responsáveis pela racialização e exclusão de determinados corpos em contexto colonial” (Almeida, 2023b, p. 1). Contudo, para além da percepção das exclusões e apagamentos produzidos pela colonialidade, uma das alunas escreveu em seu diário que, ao compreender essas dinâmicas, passou a se observar capaz de agir contra tais engodos coloniais. A experiência evidenciou uma noção de aula de língua inglesa corpoevidenciada, construída a partir das narrativas pessoais das quatro estudantes, de registros multimodais, da literatura negra e da criação de espaços de escuta sensível (Rezende, 2017).
Assim como as corpovivências de minhas alunas nas aulas de língua inglesa me transformam, também sou afetado pelas produções e vivências de Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Maya Angelou, Cida Bento, bell hooks, Tânia Rezende, Toni Morrison, Chimamanda Ngozi Adichie, Martin Luther King Jr., Achille Mbembe, entre tantas/os outras/os intelectuais pretas/os e pardas/os de diferentes campos do conhecimento. A partir desse exercício de escuta atenta a vozes subalternizadas pela matriz colonial do poder, tenho refletido sobre meus privilégios como homem branco gay e compreendido a urgência de apostar, em minhas aulas de língua inglesa, em praxiologias que mesclam corpo, literatura, escrita, vivência, resistência e reexistência, nos termos de Achinte (2013). Afinal, uma das lições que aprendi com a Profa. Dra. Rosane Rocha Pessoa durante o doutorado é que “a gente ensina língua para fortalecer pessoas e não a própria língua” (Almeida, 2023a, p. 150).
Considerando as reflexões feitas até aqui, percebo que, desde a publicação do meu primeiro texto acadêmico-científico (Almeida, 2017), inúmeras corpovivências acadêmicas e não acadêmicas têm se feito presentes na contínua rearticulação de noções de poder, saber, ser e língua[gem] dentro e fora da minha sala de aula de línguas. Em conversa recentemente publicada sobre a construção da minha tese de doutorado (Pessoa; Almeida, 2025), Rosane me indagou sobre a genealogia do termo corpovivências. Como resposta, mencionei a contribuição do conceito de escrevivências, de Conceição Evaristo, para pensar a relação corpo, vivência e escrita; as praxiologias acadêmicas de mulheres pretas – inclusive aquelas referidas no parágrafo anterior –, que me auxiliam diariamente na identificação, no questionamento e em possíveis interrupções ligadas à colonialidade, principalmente no que diz respeito à minha cor branca e aos privilégios a ela atrelados; e citei mulheres do meu convívio pessoal, que ainda hoje fazem parte da minha (trans)formação.
Uma das mulheres mencionadas naquele capítulo foi Leonice, mulherpretartista, que exerce papel central nas minhas corpovivências. Passei grande parte da infância e da adolescência frequentando a casa dela, pois suas duas filhas constituem o meu círculo de amizade mais íntimo desde os primeiros anos de vida. Além de mãe de duas grandes amigas, Leonice é artista: ela borda e faz bonecas.
Desde muito pequeno, era comum chegar em sua casa e vê-la sentada em uma cadeira de madeira, em um pequeno quarto iluminado, sempre com o rádio ligado, rodeada de cadernos de risco, papeis carbono e muitos panos. O barulho da máquina de bordar era intenso. Havia tecidos de todas as cores, estampados com os mais diversos bordados. Frutas, flores e garotinhas de vestido longo usando chapéu são os que eu mais me recordo. Alguns desenhos eram tão requisitados por suas/seus clientes que ela nem precisava de seu caderno de riscos. Fazia-os de cor!
Aquele lugar também era de histórias, muitas histórias. Ali imaginávamos casas com piscinas, tobogãs, churrasqueiras e até mesmo equipadas com banheiras de hidromassagem. Tudo muito distante da realidade das nossas casas e do bairro periférico da cidade de Anápolis-GO, em que nasci, cresci e Leonice ainda vive. Alguns anos atrás, a artista decidiu começar a fazer bonecas. E ela as fazia e ainda as faz de diferentes tamanhos e cores. Arte, vida e resistência sempre se enredaram nas corpovivências dessa mulher! Em uma de nossas conversas por WhatsApp[1], ela me relatou que as bonecas de sua infância eram feitas de palitos de picolé amarrados com linha ou até mesmo de espigas de milho – desde pequena é possível perceber a criatividade e a engenhosidade nas produções de Leonice. Quando adulta, ela quis realizar o sonho de ter uma boneca de pano. Para alcançá-lo, assim como na infância, confeccionou a sua própria, porém desta vez com a cor e o orgulho de sua pele negra. A boneca se tornou sua obra de arte preferida...
Resgatar corpovivências coconstruídas com uma das mulheres que constituem minhas epistemes, pois foi com Leonice que aprendi a imaginar mundos outros para além daquele em que estávamos inseridos, e mobilizar minhas corpomemórias[2] são movimentos que corporificam minha produção acadêmica e me auxiliam na identificação, no questionamento e na interrupção de colonialidades. Ao refletir sobre seu corpo (preto), seu gênero (mulher), sua classe (pobre), seus saberes (subalternizados) e sua arte (frequentemente deslegitimada como tal), percebo como as corpovivências de Leonice se carnificam na luta e na engenhosidade de estratégias de resistência e reexistência diante das múltiplas camadas de exclusão e apagamento impostas pelas estruturas coloniais.
Como afirma Lynn Mario T. Menezes de Souza, em entrevista cedida a Juliana Zeggio Martinez e Eduardo Henrique Diniz de Figueiredo, o fato de estarmos sempre enunciando de um lugar específico, atravessado por histórias particulares é um dos pilares da teoria decolonial. Isso porque
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[...] estamos localizados num corpo específico, que por sua vez, ocupa determinado espaço, tem uma determinada história. Então, não existe para mim a possibilidade de produzir uma teoria tal qual. A minha leitura da teoria decolonial tem muito a ver com quem eu sou, com o que eu vivenciei, com o que eu li, com o que eu fazia antes e, para mim, a teoria decolonial me ajudou a entender isso (Menezes de Souza; Martinez; Diniz de Figueiredo, 2019, p. 6).
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Nesse sentido, as leituras sobre o pensamento decolonial que venho realizando apontam, cada vez mais, para a necessidade de uma escrita corpovivenciada ou corpoevidenciada (Almeida, 2023a), isto é, uma escrita carregada das potências daquelas/es que nos permitem perceber o mundo e a nós mesmas/os de modos outros, para além dos modelos universais, imparciais, objetivos, lineares e desprovidos de quaisquer formas e corpos, disseminados pelos saberes eurocentrados – perspectiva que se materializam, neste texto, por meio das minhas histórias e des/re/aprendizagens com a mulherpretartista Leonice.
Ainda inspirado pelas corpovivências de Leonice, percebo como professoras/es de inglês inseridas/os nas searas da LAC e do pensamento decolonial vêm construindo histórias outras com essa língua em diferentes espaços educativos. Seja por meio do questionamento da centralidade do falante nativo, seja pela compreensão da língua como prática inerentemente social e política, tem-se um movimento que aponta para um deslocamento ontoepistemológico no campo do ensino de língua inglesa, especialmente no cenário brasileiro.
Nesse contexto, identifico algumas desestabilizações recorrentes que caracterizam esse fazer outro em educação linguística crítica e decolonial, dentre as quais destaco: a desestrangeirização da língua, a partir da problematização da narrativa colonial que fixa língua, povo, cultura e território; a valorização de saberes locais nas aulas de inglês; o questionamento da concepção de língua como sistema abstrato e descontextualizado; o reconhecimento e a mobilização dos conhecimentos das/os próprias/os discentes nos processos de educação linguística; e a presença dos afetos, dos corpos, das angústias e dos sentimentos na construção de repertórios em língua inglesa – aspectos que coadunam profundamente com a noção de corpovivências.
Feitos os devidos reconhecimentos às epistemes e às corpovivências de Leonice, bem como apontados os desdobramentos dessa relação de amizade, afeto, admiração e profundo respeito em minha vida pessoal e acadêmico-profissional, passo, na próxima seção, à discussão de alguns aspectos centrais da teoria decolonial. Inicio com uma breve contextualização do meu primeiro contato com a decolonialidade; em seguida, discuto a diferença entre colonialismo e colonialidade, apresentando as implicações desta nos campos do poder, do saber e do ser; e, por fim, abordo a noção de corpovivências de modo mais situado, buscando demonstrar como esse construto tem me permitido identificar, problematizar e ressignificar, em alguma medida, a colonialidade e suas ramificações dentro e além da sala de aula de língua inglesa.
2. (De)colonialidade(s) e corpovivências: entrelaçamentos e potencialidades
Como discuto alhures (Almeida, 2023a), o primeiro contato com o pensamento decolonial ocorreu durante uma disciplina[1] no mestrado, ainda no ano de 2015. Naquela ocasião, Marco Aurélio, colega de turma, apresentou seu projeto de pesquisa e, como referencial teórico, discutiu alguns conceitos-chave do pensamento decolonial que sulear(i)am suas análises na dissertação (Neves, 2017). O modo como ele abordou o assunto chamou minha atenção, e aquela apresentação permanece viva em minha memória até hoje.
Em 2018, tive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos acerca da decolonialidade ao cursar, como aluno especial no Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Goiás (PPGLL – UFG), a disciplina Formação docente no ensino de segundas línguas e línguas estrangeiras, ministrada pela professora Dra. Rosane Rocha Pessoa. Dali em diante, decidi que minha pesquisa de doutorado seria pautada no pensamento decolonial e escrevi o projeto pensando nas implicações dessas teorizações no interior de uma franquia de escola de idiomas. Naquele espaço, em que atuava como coordenador pedagógico, fui também responsável pela criação de um grupo de estudos com as/os professoras/es ali atuantes (Almeida; Sabota, 2021). Apesar da mudança do lócus da pesquisa ao longo do doutorado, o pensamento decolonial foi mantido como teoria basilar da tese.
Após essa breve contextualização acerca de como a teoria decolonial chegou até mim ou vice-versa, passo a discutir, ainda que brevemente, a genealogia desse construto na América Latina, destacando algumas categorias fundamentais presentes nessas epistemologias do Sul, tais como colonialismo e colonialidade, colonialidade do poder, do ser e do saber e, por fim, a noção de corpovivências e os modos pelos quais essa epistemologia tem atravessado estudos inseridos na LAC.
Luciana Ballestrin traça uma genealogia do coletivo Modernidade/Colonialidade (M/C), destacando o seu surgimento e as principais “noções, raciocínios e conceitos que lhe conferem uma identidade e um vocabulário próprio” (Ballestrin, 2013, p. 99). Segundo a autora, o M/C originou-se na década de 1990, em território estadunidense. Composto por intelectuais latino-americanas/os e americanistas que lá viviam e inspirado no Grupo Sul-Asiático dos Estudos Subalternos, teve sua declaração de fundação (founding statement) publicada na revista Boundary, em 1993. A estudiosa argumenta que o M/C foi se consolidando no cenário acadêmico devido aos seminários, diálogos paralelos entre os seus membros e um vasto número de publicações em periódicos especializados. Nesse contexto, uma das discussões centrais desenvolvidas pelo coletivo diz respeito à distinção entre os conceitos de colonialismo e colonialidade.
Quijano (2007, p. 93), por exemplo, afirma que o colonialismo refere-se a “uma estrutura de dominação e exploração, na qual o controle da autoridade política, dos recursos de produção e do trabalho de uma determinada população é detido por outra de identidade diferente, cujas sedes centrais estão, além disso, em outra jurisdição territorial”. Já a colonialidade representa “um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial e de poder capitalista”, e se alicerça “na imposição de uma classificação racial/étnica da população do mundo” (Quijano, 2007, p. 93). Originada e disseminada a partir do continente americano, a colonialidade se mantém viva e impregnada nos modos de ser/saber/viver dos povos colonizados, seja “nos manuais de aprendizagem, no critério para o bom trabalho acadêmico, na cultura, no senso comum, na autoimagem dos povos, nas aspirações dos sujeitos e em tantos outros aspectos de nossa experiência moderna[2]” (Maldonado-Torres, 2007, p. 131).
Nesse cenário, embora o colonialismo tenha formalmente se encerrado com a independência das colônias, a colonialidade permanece operando de maneira intensa, uma vez que os ranços coloniais ultrapassaram as tentativas de rompimento com as amarras eurocêntricas, fazendo-se presentes especialmente nas estruturas de poder e na divisão social do trabalho nas Américas. Além disso, a colonialidade segue viva nessas estruturas, visto que os sujeitos que historicamente ocupam posições de poder são majoritariamente homens brancos, heterossexuais, cristãos e falantes de línguas como o português, o espanhol, o francês e o inglês. Diante da pervasividade da colonialidade, é fundamental reconhecer que qualquer tentativa de de(s)colonização está sempre atravessada por uma série de resquícios coloniais. Ou seja, antes de nos engajarmos em ações voltadas à identificação, ao questionamento e à interrupção de colonialidades (Menezes de Souza; Martinez; Diniz de Figueiredo, 2019), cabe-nos o exercício de reflexão sobre os privilégios que possuímos diante dos desafios que assumimos, seja em relação ao corpo, à raça, ao gênero, à classe social ou até mesmo à língua que falamos.
A noção de colonialidade do poder, desenvolvida por Aníbal Quijano[3] no final do século XX, atua como elemento central na “classificação social da população mundial de acordo com a ideia de raça, uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial” (Quijano, 2005, p. 117). Tal formulação alcançou a alcunha de “uma das teorias que cruzaram, no sentido contrário, a Grande Fronteira, isto é, a fronteira que divide o mundo entre o Norte e o Sul geopolíticos, e alcançaram impacto e permanência no pensamento mundial” (Segato, 2021, p. 43). Desse modo, as teorizações de Quijano sobre a colonialidade do poder, articuladas às demais ramificações da colonialidade propostas por integrantes do coletivo M/C, romperam fronteiras geográficas e ontoepistêmicas impostas pela hegemonia do pensamento acadêmico eurocentrado, possibilitando que as discussões sobre colonialidade alcançassem espaços historicamente pouco permeáveis às epistemologias latino-americanas.
Ainda sobre a colonialidade do poder, Quijano (2005) argumenta que a ideia de raça, tal como a compreendemos na contemporaneidade, não possuía história antes da invenção da América. Embora tenha se originado a partir das diferenças fenotípicas entre conquistadores e conquistados, o autor afirma que, desde muito cedo, essa categoria passou a ser utilizada como mecanismo de distinção entre pretensas estruturas biológicas, hierarquizando sistematicamente colonizadores e populações colonizadas. Nesse contexto, a racialização das relações sociais assumiu papel estruturante na implementação de mecanismos de dominação, exploração e hierarquização do trabalho.
Para Quijano (2005), a classificação racial da população fez com que os europeus assumissem que o trabalho assalariado passasse a ser concebido como um privilégio somente dos brancos. Como afirma Borelli (2018, p. 42), “os brancos, ‘superiores’, eram os únicos que desempenhavam trabalho assalariado. Aos/Às índios/as e negros/as restavam a escravidão ou a servidão, ambas não assalariadas”. Os efeitos dessa lógica permanecem visíveis nas relações trabalhistas contemporâneas, sobretudo quando pessoas não brancas continuam recebendo salários inferiores no exercício das mesmas funções desempenhadas por pessoas brancas – realidade que, segundo o autor, não pode ser compreendida “sem recorrer-se à classificação social racista da população do mundo” (Quijano, 2005, p. 120).
Além da racialização presente na divisão do trabalho, a colonialidade do poder expressa uma “capacidade explicativa que atualiza e contemporiza processos que supostamente teriam sido apagados, assimilados ou superados pela modernidade” (Ballestrin, 2013, p. 100). Assim, essa noção constitui uma categoria analítica essencial para compreender o papel da raça na implementação de um projeto de classificação social de corpos não brancos no contexto da colonização, ao mesmo tempo em que denuncia a colonialidade como sendo constitutiva, e não posterior, à modernidade. Para Segato (2021, p. 44), a teoria de Aníbal Quijano a respeito da colonialidade do poder representa “um momento de ruptura de grande impacto no pensamento crítico nos campos da História, Filosofia e Ciências Sociais na América Latina, por um lado, e de nova inspiração para a reorientação dos movimentos sociais e da luta política, por outro”.
Consoante ao pensamento do sociólogo peruano, Lander (2005) salienta que a modernidade e a organização colonial do mundo constituem dois processos históricos fundamentais iniciados a partir do domínio europeu sobre o continente americano, responsáveis pela “constituição colonial dos saberes, das linguagens, da memória e do imaginário” (Lander, 2005, p. 10). Ainda de acordo com o estudioso, o pensamento científico moderno viabilizou o processo de naturalização das relações sociais, convertendo características da sociedade moderna em elementos considerados naturais do desenvolvimento humano e social.
Sob essa perspectiva, a sociedade liberal não seria apenas desejável, mas a única possível – lógica que compreende o atual modelo de sociedade como situado “numa linha de chegada, sociedade sem ideologias, modelo civilizatório único, globalizado, universal, que torna desnecessária a política, na medida em que já não há alternativas possíveis a este modo de vida” (Lander, 2005, p. 8). Por conseguinte, o eurocentrismo transforma-se na lógica necessária à reprodução da colonialidade do saber, articulando-se a uma racionalidade universalizante, sexista e inexoravelmente racista (Ballestrin, 2013).
Ao aprofundar essa crítica à racionalidade moderna ocidental, Castro-Gómez (2005) propõe a noção de hybris del punto zero como ponto de partida para representar e conformar uma visão de mundo e, consequentemente, de ciência supostamente neutra, universal, racional e absoluta. Para Souza e Nascimento (2018, p. 249) “o ponto zero hierarquiza, subalterniza e silencia a pluralidade de epistemologias existente no mundo, assim como institui performaticamente, ao mesmo tempo em que hierarquiza as identidades e subjetividades dos sujeitos colonizados”. Dessa maneira, quaisquer manifestações de conhecimento que destoem da epistemologia do ponto zero passam a ser deslocadas para o passado e interpretadas como inferiores, como é o caso do mito, da lenda, do folclore e do conhecimento visto como tradicional (Souza; Nascimento, 2018).
Essa pretensão de objetividade, neutralidade e universalidade do conhecimento moderno-científico sustenta-se, também, em uma separação ontológica entre corpo e razão, consolidada sobretudo a partir do pensamento cartesiano. Como afirma Lander (2005, p. 9), “somente sobre a base destas separações – base de um conhecimento descorporizado e descontextualizado – é concebível esse tipo muito particular de conhecimento que pretende ser des-subjetivado (isto é, objetivo) e universal”.
Sob essa perspectiva, os construtos de raça e conhecimento moderno-científico, nos moldes eurocêntricos, interrelacionam-se na produção de um sujeito universal do conhecimento – o homem branco cristão europeu – e de um não sujeito – negros e indígenas – historicamente posicionados como incapazes de saber ou produzir conhecimentos legítimos (Borelli, 2018). Essa hierarquização ontoepistemológica produz impactos que extrapolam os campos do poder e do saber e alcançam a própria dimensão da existência humana, aspecto que fundamenta o conceito de colonialidade do ser.
Formulada inicialmente por Walter Mignolo (1995) e posteriormente desenvolvida por Maldonado-Torres (2007), a colonialidade do ser refere-se aos processos de desumanização produzidos pela lógica colonial moderna. Segundo o filósofo porto-riquenho, Martin Heidegger propõe que, na máxima cartesiana Penso, logo existo (cogito, ergo sum), há uma noção mais importante do que a razão a ser observada: o próprio conceito de ser. Aquilo que para René Descartes se formulava como “Eu PENSO, logo eu sou”, tornou-se, para Heidegger, “Eu penso, logo eu SOU” (Maldonado-Torres, 2007, p. 144). Ao se dedicar a desvelar a complexidade presente na epistemologia cartesiana e na ontologia heideggeriana, o estudioso argumenta que existem duas dimensões não reconhecidas para além do pensar e do ser: “por trás do ‘penso’, podemos ler ‘os outros não pensam’, e por trás do ‘existo’, é possível localizar a justificativa filosófica para a ideia de que ‘os outros não são’ ou não possuem ser” (Maldonado-Torres, 2007, p. 144). Assim, é possível perceber o elo entre a colonialidade do saber e a colonialidade do ser nas formulações cartesiana e heideggeriana.
O apagamento e a desumanização configuram algumas das principais expressões da colonialidade do ser, produzindo sujeitos posicionados à margem da ordem do Ser. Trata-se daquilo que Maldonado-Torres (2007, p. 150) compreende como “produto de um excesso de Ser que, para manter sua integridade e impedir a interrupção por aquilo que está para além do Ser, produz o seu contrário – não o nada, mas um mundo não humano ou, mais precisamente, desumano”. Isto posto, a colonialidade do ser exerce papel preponderante na contínua exclusão – e em muitos casos, até mesmo no extermínio – das subjetividades e dos corpos de sujeitos racializados. Nessa mesma perspectiva, Borelli (2018) alerta para os riscos de dissociarmos a subjetividade de marcadores sociais como raça, gênero, etnia e classe, tendo em vista que tais dimensões condicionam as possibilidades de existência de “tantos/as condenados/as na contemporaneidade” (Borelli, 2018, p. 45).
Ainda que a colonialidade se manifeste em múltiplas dimensões e se faça presente até hoje nos modos de pensar, sentir, existir e agir, as estratégias de enfrentamento e resistência a ela são infinitamente superiores. Muitas e diversas são as vozes, os corpos, as linguagens, os saberes e as espiritualidades que têm se apresentado como alternativas à colonialidade na América Latina nas últimas décadas. Seja nos movimentos sociais e estudantis, nas aldeias, nas favelas, nos quilombos, nas ruas dos grandes centros urbanos, nas universidades, nas escolas, nas casas de famílias pobres ou nos próprios corpos das pessoas subalternizadas pela raça, pelo gênero, pela sexualidade, pela idade ou pela própria espiritualidade, a resistência e a reexistência se fazem presentes.
É nessa multiplicidade de possibilidades de reinvenção e ressignificação que se inserem outros dois conceitos que também me inspiraram na proposição das corpovivências: a horizontalização na construção de saberes (Cornejo; Rufer, 2020; Dulci; Malheiros, 2021; Walsh, 2013) e o corazonar (Guerrero Arias, 2010, 2011, 2012). A noção de horizontalidade tem contribuído para a problematização de relações escolares e acadêmicas assimétricas, como nos casos de professora/or-aluna/o e pesquisadora/or-sujeita/o de pesquisa. Entretanto, a negociação de sentidos e a condição dialógica presentes na proposta de horizontalização de saberes não implicam o apagamento das relações de disputa, conflito e dissenso presentes em qualquer interação. Trata-se, antes, de uma ontoepistemologia que, nas aulas de língua inglesa, pode contribuir para a promoção de encontros entre os saberes previstos no currículo escolar e aqueles que constituem as subjetividades das/os discentes. A horizontalidade também pode favorecer a construção de um processo de educação linguística mais dialógico e comprometido com a valorização das diferenças, possibilitando o reconhecimento daquilo que existe em mim como sendo parte do outro (Walsh, 2013).
Corazonar, uma ontoepistemologia do povo Kitu Kara presente em grande parte da produção acadêmica de Guerrero Arias (2010, 2011, 2012), refere-se, grosso modo, ao questionamento da lógica racionalizante e fragmentada da ciência moderna por meio dos afetos e das emoções. Para o antropólogo (2010, p. 14), corazonar é “uma expressão do pensamento fronteiriço, de uma geopolítica do conhecimento e da existência, tecida a partir de nossos próprios territórios do viver, que sente e pensa desde a dor da ferida colonial”.
No campo do ensino de línguas, por exemplo, o coração e os sentimentos não devem ocupar um lugar periférico no processo de educação linguística, seja como mero pano de fundo para o ensino de vocabulário relacionado a esses temas, seja como estratégia para abordar conteúdos vinculados à inteligência emocional, frequentemente associada a uma perspectiva racional (Guerrero Arias, 2010). Em contraposição a essa lógica, o corazonar pode atuar, especialmente na sala de aula, como uma possibilidade de insistir “no afeto e na presença de corpos, vozes, emoções, sentimentos, sabedorias e espiritualidades que atravessam as nossas corpovivências, as quais a racionalidade científica tanto se esforça para apagar” (Almeida, 2023a, p. 52).
Em comunhão com essas e outras manifestações de denúncia, questionamento e interrupção da colonialidade, advindas dos mais diversos espaços, percebo nas corpovivências muito mais do que a união de dois termos (corpo + vivência). Trata-se da urgência de trazer para a conversa aquelas/es que foram reiteradamente invisibilizadas/os por esse sistema que busca higienizar línguas, homogeneizar saberes, hierarquizar ofícios e racializar corpos. Nesse contexto, as corpovivências jamais se limitam a “fenômenos localizados no âmbito pessoal, particular ou emotivo do indivíduo, estando sempre ligadas a desejos, sonhos, instituições e projetos estruturantes maiores” (Almeida, 2023a, p. 20).
Compreendidas como “possibilidade(s) de criação de caminhos outros de ser, estar, pensar, enxergar, escutar, sentir, conhecer, enfim, viver o horizonte decolonial” (Almeida, 2023a, p. 23), as corpovivências têm me permitido corpovivenciar ou corpoevidenciar fenômenos, memórias e vivências diversas. Além de contribuir para a percepção de como o corpo inclui ou exclui a depender das circunstâncias de violência colonial, o construto tem possibilitado que sujeitas/os se reinventem e reinventem o próprio conceito. Reitero, por conseguinte, que a discussão dos “ranços coloniais com nossas mães e nossos pais, filhas e filhos, vizinhas/os, amigas/os, conhecidas/os, seja quem for” (Almeida, 2023a, p. 36) torna o exercício de enfrentamento à colonialidade viável e permite que ele alcance corpovivências não necessariamente reconhecidas pela academia.
Posto isso, apresento, na próxima seção, de que maneiras pesquisadoras/es da LAC têm compreendido e performado o conceito em seus estudos.
3. Estudos com/sobre/a partir das corpovivências na Linguística Aplicada Crítica
Por se tratar de um estudo de natureza teórico-bibliográfica, não analiso material empírico produzido em contextos específicos de educação linguística, tampouco intento realizar um levantamento exaustivo do estado da arte sobre corpovivências. O foco recai principalmente sobre a circulação e as diferentes mobilizações do construto no âmbito da LAC, localizadas por meio de buscas realizadas no Google Acadêmico. A escolha pela plataforma se deu por sua ampla indexação de artigos científicos, dissertações e teses em circulação no campo da LAC. Ainda assim, reconheço que a busca pode não abranger a totalidade das produções sobre o construto, especialmente aquelas ainda não indexadas na plataforma ou publicadas em outros meios acadêmicos, o que pode limitar o alcance deste mapeamento acerca da circulação das corpovivências na academia.
Para a realização do levantamento de trabalhos que mobilizam o construto em questão, realizado no dia 28/11/2025, os descritores ‘corpovivências’ e ‘Linguística Aplicada’ foram inseridos no campo de busca do Google Acadêmico, delimitando-se o período entre 2023 e 2025. No total, dezoito trabalhos faziam menção direta ao construto. Após a leitura dos títulos, resumos e, posteriormente, dos trechos em que o conceito foi empregado, estabeleci três critérios de exclusão para a seleção do corpus de análise: 1) os textos selecionados não poderiam ser de minha autoria nem incluir minha participação como coautor; 2) os trabalhos que não estabelecessem relação direta com a tese (Almeida, 2023a) ou partissem de lentes teórico-analíticas distintas da LAC também seriam desconsiderados; e 3) foram igualmente excluídos trabalhos duplicados e estudos que apenas mencionavam o termo ‘corpovivências’ sem desenvolvê-lo analiticamente. Com base nesses critérios, foram selecionados apenas os trabalhos produzidos por autoras/es inseridas/os na LAC e que faziam referência direta ao construto por mim elaborado. A seguir, apresento o Quadro 1, com os nomes das/os autoras/es, os títulos dos textos, os tipos e anos de publicação, bem como o trecho principal em que o conceito aparece nos trabalhos.
| Autoras/es | Título | Tipo de publicação | Ano | Trecho em que o conceito de corpovivências é mobilizado |
|---|---|---|---|---|
| Andressa Carolina Arantes Batista Lameira, Iury Aragonez da Silva e Neuda Alves do Lago | Uma preciosa tradução intersemiótica do texto literário ao cinematográfico | Artigo em periódico (Revista de Letras – Juçara) | 2023 | “[...] Essas corpovivências (Almeida, 2023) são narradas no livro, de modo que Sapphire mescla ficção com as histórias reais de muitas “Preciosas” que cruzaram o seu caminho durante os seus anos como educadora” (p. 111). |
| Iury Aragonez da Silva | Intra-ações na educação digital onlife: uma leitura pós-humanista de uma sala de aula de francês | Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística – Universidade Federal de Goiás) | 2023 | “[...] esperava que os/alunos/as se apropriassem da proposta para performar criticidade e difratar suas corpovivências, entendidas “como possibilidade[s] de criação de caminhos outros de ser, estar, pensar, enxergar, escutar, sentir, conhecer” (Almeida, 2023, p. 23)” (p. 106). |
| Eloisa Terezinha Teles Curado | A inserção profissional de professores/as de línguas: emoções e (des)identificações em movimento | Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias – Universidade Estadual de Goiás) | 2024 | “[...] o pesquisador, ao se referir às corpovivências (grifo do autor) e à metodologia adotada em sua tese de doutorado, argumenta que esse processo fez parte do esforço de romper com a ideia de a ciência ser construída em um processo solitário e apenas dentro da academia” (p. 27). |
| Carlos Matheus da Silva-Mello | Letramento Racial Crítico e a interrupção de silêncios na formação de professoras/es de línguas: o que se esconde quando falo de raça? | Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias – Universidade Estadual de Goiás) | 2025 | “[...] o autor propõe a corpovivência como desobediência epistêmica e a criação de subjetividades que vivenciem um horizonte decolonial na diferença de pensamento em relação ao hegemônico, marcando os saberes que produzimos” (p. 91). |
| Barbra Sabota, Vitória Silveira e Laryssa Paulino de Queiroz Sousa | Vozes da memória: leituras literárias como geradoras de discussões sobre/com/a partir de corpovivências em aulas de inglês | Artigo em periódico (Revista Brasileira de Linguística Aplicada) | 2025 | “[...] Ricardo Almeida (2023) nos sugere o termo corpovivências como uma forma de compreender o entrelace de percepções de si, de seu contexto histórico, político e cultural e do papel do corpo na construção da linguagem. Segundo o autor, o compartilhamento das corpovivências pode levar a “possibilidades de criação de caminhos outros de ser, estar, pensar, enxergar, escutar, sentir, conhecer” (Almeida, 2023, p. 23)” (p. 4). |
| Carlos Matheus da Silva-Mello, Vivian Silva Castelo Branco, Barbra Sabota, Laryssa Paulino de Queiroz Sousa, Viviane Pires Viana Silvestre, Ana Luísa Carvalho Rodrigues e Fernanda Franco Tiraboschi | Linguagens etéreas: interpelações para a Linguística Aplicada Crítica desde o Sul Global | Artigo em periódico (Trabalhos em Linguística Aplicada) | 2025 | “Para Ricardo Regis de Almeida (2023), trazer as corpovivências para a conversa favorece trilhas outras de sentir, viver e afetar-se com e pelo mundo. O autor entende que um trabalho com “corpovivências” implica a “possibilidade de criação de caminhos outros de ser, estar, pensar, enxergar, escutar, sentir, conhecer, enfim, viver o horizonte decolonial” (Almeida, 2023, p. 23). É nessa linha que compreendemos a produção semiótica multimodal dos corpos dissidentes presentes no videoclipe, a qual discutimos neste estudo” (p. 5). |
| Viviane Pires Viana Silvestre, Mariana Rosa Mastrella-de-Andrade, Julma D. Vilarinho Pereira Borelli e Barbra Sabota | Universidadescola na formação de professoras/es de línguas | Artigo em periódico (Revista Brasileira de Linguística Aplicada) | 2025 | “[...] um convite à reflexão sobre como as corpovivências (Almeida, 2023) escolares tensionam e ressignificam a formação docente universitária e vice-versa” (p. 4). |
| Barbra Sabota, Santhiago Veiga de Jesus e Vitória Maria Sá da Silveira | Afetividarte e formação docente: registros autoetnográficos a seis mãos | Artigo em periódico (Pensares em Revista) | 2025 | “[...] Almeida (2023, p. 23), define “corpovivências como possibilidade de criação de caminhos outros de ser, estar, pensar, enxergar, escutar, sentir, conhecer, enfim, viver o horizonte decolonial” (p. 85) |
Conforme os dados apresentados no Quadro 1, o construto aparece em oito trabalhos inseridos na seara da LAC. No total, foram encontrados cinco artigos publicados em periódicos especializados e três dissertações de mestrado. Ao analisar os títulos e as discussões realizadas nos estudos, percebo que o conceito tem sido articulado tanto na Literatura quanto na Linguística Aplicada. Além de aparecer em diferentes campos de pesquisa da LAC, o construto tem circulado em periódicos consolidados da área, aspecto que pode ampliar o alcance das discussões relacionadas às corpovivências.
Outro ponto relevante diz respeito ao fato de que grande parte das/os autoras/es dos trabalhos encontrados compartilha comigo trajetórias de formação, pesquisa, orientação e algum tipo de parceria acadêmica. Barbra Sabota, por exemplo, foi minha professora na graduação, orientadora no mestrado e companheira de pesquisa[1] no doutorado. Outras/os pesquisadoras/es participam de grupos de estudo e de pesquisa dos quais também faço parte, no âmbito da LAC. Trazer essas informações à baila, a meu ver, evidencia o caráter relacional, coletivo e corporificado do construto, uma vez que as corpovivências se fortalecem na coconstrução de leituras, afetos e saberes que se apresentam como respostas inventivas à colonialidade.
No que diz respeito aos trabalhos de Lameira, Silva e Lago (2023) e Silvestre et al. (2025), as corpovivências aparecem de maneira mais pontual, sendo mobilizadas para discutir o amálgama entre ficção e realidade presente na obra de Sapphire (Lameira; Silva; Lago, 2023) e como referência teórica para pensar as relações entre escola e formação docente universitária (Silvestre et al., 2025). Já nos casos de Silva (2023), Sabota, Silveira e Sousa (2025), Silva-Mello et al. (2025) e Sabota, Jesus e Silveira (2025), as/os autoras/es citaram um breve excerto da tese em que o construto é apresentado como alternativa para o surgimento de modos outros de habitar o horizonte decolonial.
Nessa direção, seja para que as/os discentes pudessem mobilizar suas corpovivências de modo crítico (Silva, 2023); para tornar visível o entrelaçamento do eu, da história, da política, da cultura e, principalmente, do corpo na construção da língua[gem] (Sabota; Silveira; Sousa, 2025); ou ainda, para tornar as corpovivências parte fundamental da conversa no ato de tornar-se resistência e reexistência frente à colonialidade e às suas múltiplas facetas (Silva-Mello et al., 2025), o construto e sua abertura para modos outros de relacionar-se no e com o mundo têm se mostrado férteis no enfrentamento à exclusão de corpos, saberes, espiritualidades e vivências que se recusam a repetir séculos de silenciamentos e sangramentos.
Esse movimento dialoga com o compromisso histórico da LAC de promover pesquisas voltadas à transformação social, uma vez que, conforme argumentam Borelli e Pessoa (2025, p. 11), “por mais de 30 anos, a Linguística Aplicada Crítica tem advogado por uma atuação engajada e nos alertado para o fato de que a educação linguística não pode estar alheia às questões que tornam este mundo um lugar de lutas e sofrimento para tantas pessoas”.
Por sua vez, Curado (2024) realiza uma releitura do conceito e o relaciona com a metodologia desenvolvida em minha tese de doutorado. A autora focaliza no fato de que as corpovivências são sempre resultados de ações coletivas – aspecto que busca exercer em sua pesquisa de mestrado. Por fim, Silva-Mello (2025) parafraseia a ideia de corpovivências e a aproxima do construto de desobediência epistêmica (Mignolo, 2021), tratando-as como caminho para rompimento com a epistemologia ocidental.
Entre citações de trechos presentes na tese (Almeida, 2023a), inferências e ressignificações, as corpovivências têm se mostrado férteis no enfrentamento à colonialidade e às suas múltiplas facetas nas mais diferentes esferas, indicando que já extrapolam sua formulação inicial e passam a constituir possibilidades outras de resistência e reexistência. Ademais, ainda que o número de trabalhos identificados seja relativamente pequeno, o levantamento evidenciou que as corpovivências vêm sendo apropriadas por pesquisadoras/es inseridas/os na LAC, indicando o potencial do construto como ontoepistemologia fértil para diferentes agendas de pesquisa. Certo de que as corpovivências se constituem na relacionalidade, na coletividade e na percepção do outro como sendo parte do meu eu, insisto no convite feito em minha tese para que outras/os estudiosas/os da LAC, ou não, sigam investigando de que maneiras as corpovivências podem atuar na criação de mundos outros, de pessoas outras, de palavras outras, para além do que postula o pensamento eurocêntrico.
4. Considerações Finais
Neste artigo, assumi uma escrita corpoevidenciada, na qual o levantamento bibliográfico se articulou às minhas próprias corpovivências nas e para além das aulas de língua inglesa. A partir do balanço das águas desse rio-vida, discuti os modos como o construto vem se afirmando como estratégia de enfrentamento à colonialidade e às suas múltiplas dimensões, dentro e fora desses espaços educativos. Para isso, tomei como referência trabalhos de pesquisadoras/es inseridas/os na LAC que têm se apropriado do conceito.
Mais do que simplesmente falar sobre corpovivências, busquei performá-las ao longo do estudo, evidenciando os modos como venho enredando minha trajetória acadêmico-profissional ao que realizo, vivo, sinto, performo e me torno para além da academia. Sem me ater apenas ao que postulam as/os grandes teóricas/os da decolonialidade, busco “atar fios soltos, fazer remendos e projetar algum tipo de liame” (Fabrício, 2017, p. 17), sempre em parceria com aquelas/es que me fizeram e fazem pensar sobre como as corpovivências podem ser importantes no combate à colonialidade. Nessa direção, em vez de fortalecer a língua como entidade neutra, apolítica e com fins meramente comunicativos, compreendo meu papel como sendo o de aprender com as corpovivências das pessoas que, por meio da língua[gem], performam múltiplas resistências, criam sentidos e reimaginam mundos e palavras.
Os trabalhos analisados revelam que o construto tem sido mobilizado de diferentes maneiras, seja por meio de menção, de apoio teórico ou de sua própria expansão para o surgimento de outros conceitos, em outros contextos de pesquisa e de vida. Como venho defendendo desde o seu surgimento, episódios de colonialidade não se restringem às experiências vividas no contexto escolar ou universitário. Daí a relevância do surgimento de novas pesquisas que investiguem corpovivências em contextos de vida não acadêmicos.
Afinal, nossas resistências e reexistências à colonialidade se tecem, primeiramente, na insistência em manter nossos corpos e nossas memórias de pé, firmes, avante. Finalizo essas reflexões trazendo, na Figura 1, exemplos de duas bonecas feitas pela mulherpretaartista que, desde a minha infância, me ensina a redesenhar rumos para a vida e para as minhas próprias corpovivências: Leonice.
Figure 1. Figura 1: Bonecas feitas por Leonice Fonte: Arquivo pessoal da artista Leonice.
Informações Complementares
Conflito de Interesse
O autor declara que não possui interesses financeiros ou pessoais que possam ter influenciado as análises dos dados presentes neste trabalho.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Por se tratar de um estudo estritamente bibliográfico, não há dados empíricos passíveis de disponibilização. Todo o corpus analisado encontra-se listado nas Referências, e os trechos em que faço menção a Leonice foram lidos e validados por ela antes da publicação deste trabalho.
Declaração de Uso de IA
O autor declara que utilizou ferramentas de Inteligência Artificial (IA), especificamente o modelo GPT-5.1 (OpenAI), como recurso de apoio à revisão linguística e aprimoramento estilístico do manuscrito. A ferramenta foi empregada exclusivamente para sugestões de redação, clareza textual e correções gramaticais. O pesquisador supervisionou todo o processo e avaliou criticamente cada sugestão apresentada, mantendo total responsabilidade pelas análises, interpretações, argumentos e referências presentes no texto. Os prompts utilizados não foram arquivados em repositório público, por não envolverem geração de dados, produção de resultados ou análises automatizadas.
Consentimento e Ética
Este estudo é de natureza estritamente bibliográfica e não envolve geração de material empírico nem participação de sujeitos de pesquisa, razão pela qual não foi submetido a Comitê de Ética em Pesquisa. O corpus analisado é composto exclusivamente por obras publicadas, todas listadas nas referências. A menção à pessoa identificada no texto ocorreu de forma autorizada, com leitura e validação prévia dos trechos correspondentes, sem caracterizar geração de material empírico ou participação como sujeito de pesquisa. Não houve necessidade de procedimentos de anonimização.
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SABOTA, Barbra; SILVEIRA, Vitória Maria Sá da; SOUSA, Laryssa Paulino de Queiroz. Vozes da memória: leituras literárias como geradoras de discussões sobre/com/a partir de corpovivências em aulas de inglês. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 25, n. 3, e49948, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1984-6398202549948. Acesso em: 30 mai. 2026.
SEGATO, Rita. Crítica da colonialidade em oito ensaios: e uma antropologia por demanda. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2021.
SILVA, Iury Aragonez da. Intra-ações na educação digital onlife: uma leitura pós-humanista de uma sala de aula de francês. 156 f. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2023. Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/items/f2776b4d-7e61-4e31-9f65-0da8bd267ef7. Acesso em: 30 mai. 2026.
SILVA-MELLO, Carlos Matheus da. Letramento Racial Crítico e a interrupção de silêncios na formação de professoras/es de línguas: o que se esconde quando falo de raça? 120 f. Dissertação (Mestrado Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias) – Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Ciências Socioeconômicas e Humanas - Nelson de Abreu Júnior, Anápolis, 2025. Disponível em: https://bdtd.ueg.br/items/be29a196-398e-482a-aabe-e0d93f57e287. Acesso em: 30 mai. 2026.
SILVA-MELLO, Carlos Matheus da; BRANCO, Vivian Silva Castelo; SABOTA, Barbra; SOUSA, Laryssa Paulino de Queiroz; SILVESTRE, Viviane Pires Viana; RODRIGUES, Ana Luísa Carvalho; TIRABOSCHI, Fernanda Franco. Linguagens etéreas: interpelações para a Linguística Aplicada Crítica desde o Sul Global. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, v. 64, e025007, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/01031813v64120258676928. Acesso em: 30 mai. 2026.
SILVESTRE, Viviane Pires Viana; MASTRELLA-DE-ANDRADE, Mariana Rosa; BORELLI, Julma Dalva Vilarinho Pereira; SABOTA, Barbra. Universidadescola na formação de professoras/es de línguas. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 25, n. 3, e62073, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1984-6398202562073. Acesso em: 30 mai. 2026.
SOUZA, Naiara Cristina Santos de; NASCIMENTO, André Marques do. Apontamentos críticos sobre a colonialidade do saber: em defesa da pluralidade na construção do conhecimento. Articulando e Construindo Saberes, v. 3, n. 1, p. 247-272, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.5216/racs.v3i1.55383. Acesso em: 30 mai. 2026.
WALSH, Catherine. Introducción. Lo pedagógico y lo decolonial: entretejiendo caminos. In: WALSH, Catherine (Org.). Pedagogías decoloniales: prácticas insurgentes de resistir, (re)existir y (re)vivir (Tomo I). Quito: Ediciones Abya-Yala, 2013. p. 23-68.
Avaliação
DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N4.ID879.R
Decisão Editorial
EDITOR 1: Kleber Aparecido da Silva
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7815-7767
AFILIAÇÃO: Universidade de Brasília, Distrito Federal, Brasil.
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EDITOR 2: Tamara Angélica Brudna da Rosa
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3359-3909
AFILIAÇÃO: Instituto Federal Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil.
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CARTA DE DECISÃO: O manuscrito apresenta uma discussão original e relevante acerca do construto corpovivências e de seus desdobramentos no campo da Linguística Aplicada Crítica, articulando perspectivas decoloniais, educação linguística crítica e formação docente. O texto demonstra consistência teórica, domínio da literatura especializada e potencial de contribuição aos debates contemporâneos sobre colonialidade, linguagem, corpo e produção de conhecimento no Sul Global.
Rodadas de Avaliação
AVALIADOR 1: Simone Maranhão Costa
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2291-9416
AFILIAÇÃO: Instituto Federal do Maranhão, Maranhão, Brasil.
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AVALIADOR 2: Silvia Maria de Oliveira Penna
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7323-1190
AFILIAÇÃO: Instituto Federal Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil.
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RODADA 1
AVALIADOR 1
2026-03-20 | 10:02 AM
O artigo tem originalidade conceitual (corpovivências), forte base teórica decolonial em coerência com abordagens críticas. Além de apresentar discussões atuais, articula bem teoria e experiência. O artigo configura-se como uma pesquisa qualitativa de natureza teórico-bibliográfica inserida no campo da Linguística Aplicada Crítica. Metodologicamente, caracteriza-se como uma proposta ensaística baseada em narrativas e revisão de literatura. Contudo, apresenta limitações quanto à explicitação da sistematização dos critérios de seleção e análise do corpus pesquisado.
O artigo tem originalidade conceitual (corpovivências), forte base teórica decolonial em coerência com abordagens críticas. Além de apresentar discussões atuais, articula bem teoria e experiência. O artigo configura-se como uma pesquisa qualitativa de natureza teórico-bibliográfica inserida no campo da Linguística Aplicada Crítica. Metodologicamente, caracteriza-se como uma proposta ensaística baseada em narrativas e revisão de literatura. Contudo, apresenta limitações quanto à explicitação da sistematização dos critérios de seleção e análise do corpus pesquisado.
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AVALIADOR 2
2026-04-21 | 09:59 PM
O artigo retoma e busca consolidar o conceito "corpovivências", desenvolvido pelo próprio autor, como uma ferramenta para enfrentar a colonialidade. A temática é relevante e dialoga com debates contemporâneos sobre desigualdade, educação e a produção de conhecimento, podendo ter impacto tanto na área da Linguística Aplicada Crítica bem como em discussões mais amplas sobre justiça social. Dessa forma, ele tende a chamar a atenção, sobretudo, de pesquisadores e docentes das áreas de educação, linguagem e estudos críticos. Entretanto, o trabalho se apoia principalmente em reflexão teórica e em uma revisão limitada da literatura, sem apresentar análise mais aprofundada ou evidências empíricas que sustentem de forma consistente suas principais afirmações. Com isso, embora o texto levante uma proposta importante, seu impacto efetivo fica restrito. Ainda assim, o artigo apresenta uma contribuição conceitual relevante ao enquadrar as experiências corporais vividas como um meio de enfrentar desigualdades históricas, especialmente na educação.
O artigo tem como objetivo discutir de que maneira o conceito de corpovivências vem sendo retomado e mobilizado como estratégia de enfrentamento à colonialidade, especialmente no campo da Linguística Aplicada Crítica e no contexto do ensino de língua inglesa. Para tanto, o texto articula discussões teóricas sobre colonialidade com experiências pessoais e com uma breve revisão de trabalhos acadêmicos recentes.
Um dos principais pontos fortes do artigo está na relevância da proposta conceitual. O conceito de corpovivências é uma proposta de pensar a relação entre corpo, experiência e produção de conhecimento, contribuindo para debates atuais sobre desigualdade, exclusão e epistemologias não hegemônicas. O texto também apresenta alinhamento consistente com autores importantes do campo decolonial, como Quijano (2005;2007), Maldonado-Torres (2007), Mignolo (1995), Ballestrin (2013), etc, o que fortalece sua base teórica. Além disso, a tentativa de articular experiências acadêmicas e não acadêmicas amplia o alcance da discussão e dialoga com perspectivas contemporâneas que valorizam saberes situados.
Apesar disso, o artigo apresenta alguns pontos que poderiam ser mais desenvolvidos: a revisão de literatura realizada é limitada, baseada em uma busca pouco sistemática, e os estudos citados são apenas mencionados, sem análise crítica mais detalhada.
Outra limitação é a predominância de uma abordagem descritiva e reflexiva, com forte presença de narrativa pessoal. Embora essa escolha dialogue com a proposta do texto, ela não é acompanhada de uma mediação analítica suficiente que conecte de forma clara essas experiências ao desenvolvimento conceitual. Como resultado, a argumentação tende a permanecer no plano discursivo, sem demonstrar de maneira consistente como o conceito opera em contextos concretos.
Além disso, embora o artigo mencione o ensino de língua inglesa como espaço central de aplicação, essa relação não é efetivamente desenvolvida ao longo do texto. Faltam exemplos concretos ou análises de práticas pedagógicas que evidenciem como as corpovivências se manifestam na sala de aula, o que limita a contribuição do trabalho para a área de ensino de línguas.
De modo geral, o artigo apresenta uma proposta teórica relevante e alinhada a debates contemporâneos, mas sua contribuição é comprometida pela necessidade de aprofundamento analítico. O impacto do trabalho tende a se concentrar no plano conceitual e reflexivo, com alcance limitado em termos de aplicação prática e demonstração empírica.
Resposta dos Autores
DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N4.ID879.A
RODADA 1
2026-05-28
Prezadas pareceristas,
Cumprimento e agradeço às professoras Simone Maranhão e Silva Pena pela leitura criteriosa do manuscrito, bem como pelas valiosas sugestões apresentadas. Para atender às alterações propostas, realizei a leitura do parecer geral e dos pareceres individuais e organizei as modificações da seguinte maneira:
a) Amplie e sistematize a revisão de literatura:
Com relação a este aspecto, ampliei e aprofundei algumas discussões teóricas relevantes para o texto, tais como: a contextualização do surgimento do Grupo Modernidade/Colonialidade (p. 9); a ampliação das discussões acerca dos construtos de colonialidade do poder, do saber e do ser, a partir da leitura de textos seminais produzidos por integrantes do Grupo M/C (Aníbal Quijano, Maldonado-Torres, Edgardo Lander, entre outros) (p. 10-13); a inserção das ontoepistemologias relacionadas à horizontalidade dos saberes e ao corazonar, buscando explicitar de maneira mais consistente como o construto de corpovivências se articula a epistemologias decoloniais (p. 13-14); e, por fim, a definição mais explícita do construto de corpovivências (p. 14-15).
b) Desenvolva de forma mais analítica a articulação entre narrativa pessoal e construção conceitual:
Em relação a esta solicitação, busquei evidenciar de maneira mais explícita a relação entre narrativa pessoal e construção conceitual, especialmente na seção em que compartilho as corpovivências coconstruídas com Leonice. Para isso, inseri dois parágrafos (p. 5) explicitando como venho performando o construto em minhas aulas de língua inglesa – outra sugestão apresentada pelas pareceristas – e prossegui demonstrando como as corpovivências também podem atuar como construto fértil para pensar relações de colonialidade e resistência para além do ambiente acadêmico. Dessa maneira, evidenciei de forma mais analítica como as corpovivências de Leonice se carnificam na luta e na engenhosidade de estratégias de resistência e reexistência diante das múltiplas camadas de exclusão e apagamento impostas pelas estruturas coloniais (p. 7).
c) Explicite de maneira mais concreta as implicações do conceito de corpovivências para o ensino de língua inglesa e para práticas pedagógicas no campo da Linguística Aplicada:
Para contemplar esta sugestão, optei por inserir tais discussões na seção “Leonice: de fazedora de bonecas à contadora de histórias”, relacionando as corpovivências de Leonice a histórias outras que têm sido construídas na sala de aula de língua inglesa. Nesse movimento, destaquei diferentes respostas à colonialidade produzidas por professoras/es de línguas e pesquisadoras/es da Linguística Aplicada Crítica, tais como: a desestrangeirização da língua adicional; a valorização dos saberes locais nas aulas de línguas; e a presença dos afetos, dos corpos, das angústias e dos sentimentos na construção de repertórios em língua inglesa – aspectos que coadunam profundamente com a noção de corpovivências (p. 8). Conforme mencionado no tópico anterior, também inseri dois parágrafos compartilhando algumas praxiologias desenvolvidas em minhas aulas de língua inglesa.
d) Revise e detalhe a metodologia de produção e análise de dados, com maior aprofundamento dos resultados encontrados na seção “Estudos com/sobre/a partir das corpovivências na Linguística Aplicada Crítica”:
Em atendimento a esta sugestão, apresentei de forma mais detalhada a justificativa para a utilização do Google Acadêmico no levantamento de estudos que mobilizam o construto de corpovivências, bem como explicitei com maior profundidade os critérios de exclusão adotados para a seleção do corpus da pesquisa. Além disso, aprofundei as análises, estabelecendo relações de aproximação e distanciamento entre os modos pelos quais o construto tem sido mobilizado por autoras/es da LAC. Também acrescentei informações acerca das relações acadêmicas e formativas que mantenho com parte das/os pesquisadoras/es que mobilizaram o construto e inseri um parágrafo conclusivo na seção, indicando que as corpovivências já extrapolam sua formulação inicial e constituem possibilidades outras de enfrentamento à colonialidade – agora pensadas desde lugares epistêmicos outros.
e) Verifique a padronização das referências e citações ao longo do texto, assegurando consistência com as normas da revista, bem como explicite brevemente as limitações decorrentes da ausência de dados empíricos:
Quanto a esta sugestão, todas as referências e citações foram revisadas e padronizadas de acordo com as normas da ABNT. Além disso, inseri, logo no início da subseção “Estudos com/sobre/a partir das corpovivências na Linguística Aplicada Crítica”, um trecho explicitando que o artigo não analisa material empírico produzido em contextos específicos de educação linguística, tampouco objetiva realizar um levantamento exaustivo do estado da arte sobre corpovivências, buscando alinhar as expectativas do/a leitor/a quanto ao escopo do estudo.
Reitero meus agradecimentos pelas leituras cuidadosas e pelas contribuições oferecidas ao manuscrito. As sugestões apresentadas foram fundamentais para o refinamento do texto. Em caso de dúvidas ou quaisquer outras sugestões, estou à disposição.
Um abraço,
Ricardo Almeida