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Perspectiva Crítica

A representação discursiva de Yglésio Moyses (PRTB) no podcast "Abrindo o Verbo": uma análise sob a ótica da ADC

Ramon Miranda

Universidade Estadual do Maranhão image/svg+xml

https://orcid.org/0009-0009-9840-935X

ramonmirandalm@outlook.com

Ana Maria Sá Martins

Universidade Estadual do Maranhão image/svg+xml

https://orcid.org/0000-0002-6397-4190

anamariasapericuma@gmail.com


Palavras-chave

Abrindo o Verbo
Análise de Discurso Crítica
Disputa Ideológica
Podcast

Resumo

A linguagem, para além de um mecanismo que transmite informações, também é um instrumento de disputa simbólica, definindo representações e identidades, reforçando hierarquias e legitimando estruturas de poder. Levando isso em consideração, este trabalho objetivou investigar, em um (1) episódio do Podcast Abrindo O Verbo, as representações discursivas acionadas na construção de sentido nesse gênero, pretendendo contribuir para a formação de um posicionamento crítico do sujeito leitor-consumidor. Ressalta-se que este estudo, além de ser caracterizado como de natureza qualitativa, também é fruto do projeto de pesquisa de Iniciação Científica intitulado “Podcasts jornalísticos em ambiente digital: uma análise discursivo-crítica”, o qual recebeu fomento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (cota 2024-2025). O corpus analisado é constituído pela entrevista de Yglésio Moyses (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro) concedida ao podcast radiofônico “Abrindo O Verbo”, do Sistema Mirante, no período das eleições de 2024 para o cargo de Prefeito(a) de São Luís (Maranhão). Nessa perspectiva, adotou-se como base de investigação os pressupostos da Análise de Discurso Crítica (ADC), ciência de cunho teórico-metodológico desenvolvida pelo linguista britânico Norman Fairclough (2001, 2003). Dentre os princípios da ADC, destacam-se os aspectos pertinentes aos significados acional (categoria intertextualidade), representacional (categorias interdiscursividade e representação de atores sociais) e identificacional (modalidade e avaliação). Assim, os resultados apontam que a reflexão discursivo-crítica opera igualmente na explanação de conexões ocultas nos textos que constroem e desconstroem práticas hegemônicas de poder e, sobretudo, atua na busca da superação das assimetrias e convenções sociais que atravessam os discursos.

Resumo para não especialistas

Este estudo investiga como a linguagem é usada estrategicamente na política. Analisamos um episódio do podcast “Abrindo O Verbo”, do Sistema Mirante, em que o candidato Yglésio Moyses concedeu uma entrevista durante as eleições de 2024 para prefeito de São Luís (Maranhão). Buscamos entender de que forma as escolhas de linguagem (como as palavras usadas, o tom adotado e a maneira de se referir a si mesmo e aos outros) constroem uma imagem pública e influenciam a opinião dos ouvintes. Para isso, examinamos o episódio com base em uma abordagem que estuda as conexões entre linguagem e poder na sociedade. Descobrimos que, por trás de falas aparentemente simples, existem escolhas discursivas cuidadosas que reforçam certas visões de mundo e ocultam outras. Compreender esses mecanismos é importante porque nos torna consumidores mais críticos dos conteúdos políticos que circulam nas mídias digitais, como os podcasts, por exemplo.

Introdução

Na sociedade contemporânea, em que a mídia exerce um papel central na construção da realidade, os meios de comunicação e entretenimento funcionam como uma pedagogia cultural, ensinando os indivíduos a interpretar o mundo e a definir crenças, temores e aspirações. As informações que moldam a vida real são capazes de influenciar o comportamento, as opiniões e até mesmo a identidade de cada cidadão, e ainda induzem os indivíduos a identificarem-se com representações sociais e ideologias dominantes. Diante disso, torna-se essencial desenvolver uma leitura crítica da mídia, capacitando os sujeitos a analisar, interpretar e avaliar seus discursos, compreendendo seus impactos na construção do imaginário coletivo e na manutenção ou contestação das relações de poder (KELLNER, 2001).

Sendo assim, este artigo visa investigar as representações discursivas acionadas na entrevista de Yglésio Moyses (PRTB) ao podcast “Abrindo o Verbo”, visando a contribuir para a formação de um posicionamento crítico do sujeito leitor-consumidor. Além disso, partimos da hipótese de que, ao se posicionar discursivamente no podcast, Moyses mobiliza discursos ideológicos que reforçam determinadas disputas políticas e morais presentes na esfera pública contemporânea, especialmente em torno de temas como comunismo, gênero, aborto e direitos LGBTQIA+.

Com isso, as análises buscam revelar de que forma as práticas discursivas de Yglésio Moyses operam na construção de identidades políticas e na legitimação de determinadas visões de mundo, evidenciando os mecanismos linguístico-discursivos que sustentam disputas ideológicas no espaço midiático.

Para tanto, adotamos o viés teórico-metodológico da Análise de Discurso Crítica (ADC) desenvolvida pelo linguista britânico Norman Fairclough (2001, 2003). Essa abordagem congrega os estudos da prática e da organização textual e discursiva com enfoque social, sendo imprescindível para a investigação discursivo-crítica do podcast.

Importa ressaltar que o presente artigo é fruto do projeto de pesquisa de Iniciação Científica PIBIC/CNPq (cota 2024-2025) intitulado “Podcasts jornalísticos em ambiente digital: uma análise discursivo-crítica”. Nesse viés, trouxemos um recorte de análise referente ao plano de trabalho denominado “Abrindo o Verbo – Podcast: uma visão discursivo-crítica”, com o propósito de contribuir no letramento crítico do sujeito-leitor e, talvez, para o ensino de Língua Portuguesa no contexto educacional básico.

Com vistas à organização estrutural, dividimos o artigo em cinco seções. Após as considerações iniciais, apresentamos o arcabouço teórico, o qual norteia esta pesquisa, trazendo noções acerca dos conceitos analíticos da ADC. Na seção seguinte, explicamos a metodologia adotada. Na terceira seção situamos o podcast como um gênero discursivo. Na quarta seção, apresentamos a investigação discursivo-crítica em ADC. Nas considerações finais, última seção, tecemos um panorama geral deste estudo mediante os resultados obtidos.

1. Fundamentação teórica: traçando um panorama acerca da Análise de Discurso Crítica

A Análise de Discurso Crítica (ADC) é uma abordagem interdisciplinar que surge em 1979, com a publicação do livro Language and Control, de Fowler, Kress, Hodge e Trew, precursores da Linguística Crítica (LC). No entanto, é somente em um simpósio em Amsterdã, ocorrido em janeiro de 1991, que a ADC se firma como uma rede internacional de estudos que prima pela explanação e reflexão dos fenômenos sociais (BATISTA JR. et al., 2018). Por isso dizemos que a ADC tem como característica determinante sua postura emancipatória (MARTINS, 2009).

Para Fairclough (2001, p. 91), o discurso é “um modo de ação, uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros, como também um modo de representação”. Esse termo é definido como o uso da linguagem enquanto forma de prática social, e não puramente individual ou situacional; constitui elemento da vida social intimamente interligado com outros elementos; é moldado pela estrutura social e também é constitutivo dessa estrutura (BATISTA JR. et al., 2018). Assim, a ideia de discurso em ADC está pautada numa relação interna e dialética entre linguagem e sociedade (RESENDE; RAMALHO, 2006).

No âmbito da ADC, o poder está associado ao conceito de hegemonia, pois se manifesta nos efeitos ideológicos que os discursos produzem nas relações sociais, frequentemente sustentados mais pelo consenso do que pela força (FAIRCLOUGH, 1997, 2001; BATISTA JR. et al., 2018). Nessa perspectiva, a hegemonia refere-se a formas de liderança e de dominação de natureza econômica, política, cultural e ideológica que se estabelecem socialmente e que podem ser contestadas nas práticas discursivas. Já as ideologias são compreendidas como construções de sentido que representam a realidade social e contribuem para a produção ou reprodução de relações de dominação (FAIRCLOUGH, 2001; THOMPSON, 1995).

Assim, práticas discursivas que circulam em meios de comunicação, como entrevistas, debates ou podcasts, podem atuar como espaços de disputa simbólica nos quais diferentes projetos ideológicos entram em conflito. A análise discursivo-crítica, por sua vez, permite evidenciar de que forma determinadas narrativas podem reforçar posições hegemônicas ou, ao contrário, abrir espaço para interpretações críticas da realidade social.

As categorias de investigação em ADC estão sustentadas linguisticamente no paradigma funcionalista da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), de Halliday (1985), ao considerar a linguagem como um sistema aberto a mudanças orientadas pelo seu meio social (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999). Ao ampliar as discussões sobre as relações de poder, reprodução e mudança social, a ADC apresenta três tipos de significado, os quais agem concomitantemente em todo enunciado: a) o significado acional, o qual “focaliza o texto como modo de (inter)ação em eventos sociais”; b) o significado representacional, o qual destaca a “representação de aspectos do mundo” nos textos; c) o significado identificacional, o qual se refere à (re)construção de identidades no discurso (RESENDE; RAMALHO, 2006, p. 60).

Para este trabalho, utilizamos determinadas categorias que estão presentes nos significados da ADC. No que tange ao significado acional, demos ênfase à categoria intertextualidade. Nesse sentido, acentuamos que a intertextualidade é complexa e potencialmente fértil, levando em conta a dialogicidade dada em cada texto, ou seja, a articulação de vozes de quem pronuncia o enunciado e as demais vozes articuladas direta ou indiretamente. Fairclough (2003) considera a intertextualidade como a presença de elementos atualizados de outro texto em um texto, isto é, a citação. Ademais, a partir da intertextualidade é possível investigar as vozes incluídas ou excluídas nos artigos de opinião, ora relacionadas de forma harmônica, cooperativa, ou tensa, e também é possível refletir sobre “o que não é dito, mas tomado como dado” (FAIRCLOUGH, 2003, p. 40) ao considerar a pressuposição.

No que diz respeito ao significado representacional, o qual é relacionado ao conceito de discurso como modo de representação de aspectos do mundo, trabalhamos a partir das contribuições da interdiscursividade e da representação de atores sociais. Para Resende e Ramalho (2006), os diferentes discursos não apenas representam o mundo “concreto”, mas também projetam possibilidades diferentes da “realidade”, ou seja, relacionam-se a projetos de mudança do mundo. Sendo assim, um mesmo texto pode envolver diferentes discursos, e a articulação do mesmo pode realizar-se de diferentes maneiras e ainda nos revelar relações de poder, de lutas sociais e de hegemonia, condicionando, em um contexto de competição, um discurso “protagonista” e um discurso “antagonista”.

O significado representacional também pode ser acessado a partir da representação de atores sociais, levando em conta que a maneira como esses atores são representados nos textos podem indicar posicionamentos ideológicos em relação a eles e a suas atividades. Nessa perspectiva, destacamos três realizações linguísticas que encobrem efeitos de sentido ideológicos com relação aos atores sociais, seguindo os pressupostos de Van Leeuwen (1997):

a) nomeação: os nomes próprios dos atores sociais são citados (“Yglésio Moyses” e não “candidato a prefeito de São Luís”);

b) categorização: ocorre quando os atores são referidos em termos de uma atividade ou função (funcionalização – “Prefeito”) ou quando são representados por sexo, idade, classe social, religião etc. (identificação – “mulher nordestina”);

c) coletivização: aqui os atores são representados por meio da pluralidade (“as mulheres”).

Por último, no que concerne ao significado identificacional, destacamos na análise do podcast o comprometimento do falante com suas proposições frente às categorias modalidade e avaliação. Para Fairclough (2003), a modalidade pode ser entendida como a questão de quanto os indivíduos se comprometem quando fazem afirmações, perguntas, demandas ou ofertas. Deste modo, as afirmações e perguntas encontram-se no campo da troca de conhecimento (modalidade epistêmica) e as demandas e ofertas no campo da troca de atividade (modalidade deôntica).

A avaliação, por sua vez, articula-se nos textos por intermédio de afirmações avaliativas (que apresentam juízo de valor); de afirmações com verbos de processo mental afetivo (tais como “eu detesto isso” e “eu adoro isso”) e de presunções valorativas (engatilhadas por marcadores “não ditos”). Para melhor visualização das categorias de análise em ADC utilizadas neste estudo, trouxemos o quadro síntese a seguir:

Significado Acional (ação) Significado Representacional (discurso) Significado Identificacional (estilo)
Intertextualidade Interdiscursividade e Representação de atores sociais Modalidade e Avaliação
Table 1. Quadro 1. Categorias analíticas da ADC de Fairclough (2003). Fonte: Adaptado de Resende e Ramalho (2006).

Apesar da distinção dos três aspectos, é importante ressaltar que a análise do discurso deve ser simultânea à realização dos três significados, visto que a análise discursiva leva em consideração o texto em si e seu contexto social. A seguir, apresentamos os procedimentos metodológicos adotados para o desenvolvimento deste artigo.

2. Procedimentos metodológicos

O presente artigo é de base qualitativa e interpretativista, uma vez que examina “a forma como se articulam os processos sociais, as instituições, os discursos e as relações sociais, e os significados que produzem” (MAGALHÃES et al., 2017, p. 30). Nesse viés, partimos da investigação das representações discursivas acionadas no podcast Abrindo o Verbo, compreendidas como modos pelos quais sujeitos, grupos sociais e práticas sociais são construídos, identificados e avaliados discursivamente.

Para identificar tais representações, adotamos como critérios analíticos as categorias propostas pela Análise de Discurso Crítica de Fairclough (2001, 2003), a saber: intertextualidade (significado acional), interdiscursividade e representação de atores sociais (significado representacional), modalidade e avaliação (significado identificacional), as quais permitem examinar como diferentes vozes, discursos, posicionamentos ideológicos e juízos de valor se materializam linguisticamente na entrevista de podcast analisada.

Por se tratar de um podcast de uma hora, consideramos os seis trechos mais relevantes do episódio nomeado “Abrindo O Verbo entrevista Yglésio Moyses (PRTB)”, almejando uma análise proveitosa. A escolha dos seis excertos decorreu de dois critérios principais: I) trechos que concentram marcas explícitas de disputa ideológica (anticomunismo, aborto, gênero e direitos LGBTQIA+); e (II) excertos que mobilizam de forma mais evidente as categorias da ADC propostas para esta análise.

É fundamental pontuar que o episódio de Yglésio Moyses foi publicado no período das eleições de 2024 para Prefeito(a) de São Luís (MA). O Grupo Mirante definiu previamente o calendário de entrevistas dos oito prefeituráveis, sendo eles: Duarte Júnior (PSB), Eduardo Braide (PSD), Fábio Câmara (PDT), Flávia Alves (Solidariedade), Franklin Douglas (PSOL), Saulo Arcangeli (PSTU), Wellington do Curso (Novo) e Yglésio Moisés (PRTB). As entrevistas com os candidatos foram transmitidas pelos veículos ligados ao referido grupo jornalístico de informação, tais como o G1 MA, Mirante FM, Mirante News e TV Mirante (G1, 2024).

Entre as oito entrevistas realizadas pelo Grupo Mirante com os candidatos à prefeitura, optou-se pela de Yglésio Moyses devido à intensidade e recorrência de enunciados que mobilizam disputas ideológicas explícitas, o que favorece a investigação das relações entre discurso, poder e ideologia no ambiente midiático. No mais, a ordem de cada entrevista, com horários, dias e veículo de transmissão, foi definida por sorteio. Yglésio Moyses (PRTB) foi o último entrevistado no Podcast Abrindo o Verbo. Durante a programação geral, a qual ocorreu entre os dias 9 de agosto e 18 de setembro, das 14h30 às 15h30, os candidatos deviam apresentar suas principais propostas para a prefeitura.

Assim sendo, buscamos identificar a materialização de discursos, ideologias e lutas hegemônicas relacionados à temática político-social, a qual atravessa questões envolvendo a disputa ideológica. Logo, é necessário refletir, acima de tudo, sobre os sentidos e as representações sociais intrínsecas na entrevista de Yglésio Moyses ao podcast Abrindo o Verbo e de que forma esses dispositivos prefiguram a naturalização de práticas sociais desiguais ou não. Vale ressaltar, ainda, que os trechos coletados do podcast foram analisados sob a perspectiva da teoria ADC de acordo com as duas categorias que cada excerto melhor se adequou.

A delimitação de duas categorias analíticas por fragmento não implica a exclusão das demais, mas corresponde a uma estratégia metodológica de aprofundamento, priorizando as categorias que se manifestaram com maior saliência linguístico-discursiva em cada excerto. Essa decisão visa evitar análises superficiais e garantir maior rigor crítico-interpretativista. Logo a seguir situamos o podcast como um gênero discursivo.

3. O podcast como gênero discursivo na cultura digital

O texto verbal, enquanto prática social, tornou-se indispensável no cotidiano dos cidadãos. Esse tipo de comunicação toma forma, a princípio, por meio da oralidade e, então, revoluciona a maneira que a humanidade pensa, manifesta suas ideias e representa o mundo. Conforme Walter Ong (1998), a oralidade foi a primeira tecnologia de linguagem da humanidade, marcada pela presença, interação e pela construção de significado por meio do diálogo. Marcuschi (2007), por sua vez, argumenta que os textos orais possuem caráter dinâmico, efêmero e fortemente contextual, sendo estruturados em interação direta entre os participantes. Dessa maneira, a oralidade transcende sua manifestação cara a cara, haja vista que se insere em práticas sociais que se transformam ao longo do tempo, acompanhando o desenvolvimento de tecnologias e meios de comunicação.

Nesse panorama, os gêneros textuais evoluíram e se adaptaram para atender às demandas da sociedade pós-moderna. O podcast, por exemplo, surge como um gênero discursivo que combina elementos da oralidade e da multimodalidade digital, e ganha ênfase como uma mídia popular da cibercultura. Segundo Pablo de Assis (2011), o termo podcast foi criado originalmente pelo locutor e jornalista britânico Ben Hammersley, em fevereiro de 2004, no jornal The Guardian com o texto “Audible Revolution”. A expressão deriva da junção de iPod (em alusão ao dispositivo da Apple) e broadcast (transmissão), referindo-se a conteúdos de áudio distribuídos por meio de plataformas digitais, como Apple Podcasts, Spotify, SoundCloud e até mesmo o YouTube, o qual, geralmente, apresenta áudio e vídeo.

Tiziano Bonini (2020) ressalta que o podcast se firmou como uma forma de narrativa sonora contemporânea, ampliando as possibilidades de consumo de conteúdo ao permitir uma escuta flexível e personalizada. Ou seja, é possível escutar um episódio de podcast de forma on-line ou off-line, em casa ou no caminho para a faculdade. Inicialmente associado a temáticas culturais e de entretenimento, o podcast diversificou-se rapidamente, incorporando discursos jornalísticos, educativos, políticos e ativistas. Tal fator reflete diretamente na capacidade de hibridização que essa mídia apresenta com relação a outros gêneros discursivos, como entrevistas, reportagens e debates (BONINI, 2020).

No Brasil, o podcast é um fenômeno de consumo digital sonoro. Desde o início da pandemia de COVID-19, o consumo dessa mídia cresceu exponencialmente. Segundo dados da Podpesquisa (LUIZA, 2024), o Brasil é o segundo país que mais consome podcasts, ficando atrás somente dos Estados Unidos. Entre 2020 e 2023, o número de ouvintes brasileiros cresceu mais de 100% e atingiu a marca de 50 milhões. Esse crescimento significativo é representado pelo maior acesso à internet, aos smartphones e às plataformas de streaming.

Embora esse gênero discursivo apresente um teor interativo e democrático da informação, também está vinculado a dinâmicas de poder e hegemonia, considerando que a produção de conteúdos de qualidade depende de infraestrutura e recursos, comumente custeados por patrocinadores. Hoje, o podcast alcança o patamar de meio de cultura massivo, movimenta discussões polêmicas e estrutura a normalização do consumo, podendo servir dos mais variados tipos de controle social. Tendo isso em vista, torna-se fundamental compreender essa mídia cibercultural e de que forma as significações produzidas pelo podcast implicam nas práticas sociais do sujeito-leitor. A seguir, apresentamos a análise discursivo-crítica do objeto de investigação deste artigo.

4. Análise Discursivo-Crítica

O episódio de podcast analisado recebe título de “Eleições 2024: Abrindo o Verbo entrevista Yglésio Moyses (PRTB)[1]”, foi publicado no dia 11 de setembro de 2024 no canal de YouTube do podcast radiofônico Abrindo O Verbo, o qual pertence ao veículo jornalístico Mirante News FM (104,1), e teve como apresentadores os jornalistas Juraci Filho, Alessandra Rodrigues e Wallace Brito. Na ocasião, debateram-se temas relevantes envolvendo a gestão pública de São Luís, Maranhão, assim como ocorreu com os demais prefeituráveis que passaram pela sabatina.

Conforme a Assembleia Legislativa do Maranhão (2025), Yglésio Moyses é médico, advogado e professor universitário, obteve 39.804 votos nas eleições para o quadriênio 2019-2022 pelo Partido Republicano da Ordem Social (PROS), além de ser um deputado atuante na ALEMA. Sendo assim, elencamos os seguintes excertos para as análises ancoradas em ADC:

(1) 21m39s (Yglésio Moyses): Aí eu crio uma licitação, uma ata de registro de preço, dimensionando corretamente, porque o Duarte vem dizer aí nas entrevistas que uma licitação demora 2, 3 anos. Só se for como os comunistas fazem, que é, em geral, direcionando pra outras pessoas. Aí realmente quem não teve acesso a uma licitação legal, certinha… termina se complicando.

(2) 23m53s (Yglésio Moyses): Vai ser divulgado pela Secretaria de Saúde e a Secretaria de Assistência Social um canal comum em que as secretarias vão ter profissionais empenhados justamente em quê? Em dar um atendimento, um acolhimento à pessoa que tá pensando em abortar. Mostrar pra ela que tem soluções, alternativas… mostrar que tem solução alternativa pra situação, que não precisa chegar a calamidade de ceifar uma vida. Uma criança que nem respirou ainda, não deu nem a primeira respirada e já tá obviamente aí numa situação de periculosidade da sua vida, porque não tem braço do Estado em relação a isso.

(3) 36m00s (Yglésio Moyses): Só que o Braide é um comunista disfarçado. Primeiro: aprendeu a ser prefeito com a forma do Flávio Dino governar. Qual que é? Não dialoga com ninguém, não gosta de ser criticado… ontem tava aqui na entrevista jogando deboche pra mesa… pra bancada aqui.

(4) 36m17s (Yglésio Moyses): Eu sou um cara que todo mundo que me conhece naquela Assembleia sabe que eu vivo dentro daquele comitê de imprensa sempre trocando ideia com todo mundo. Por quê? Porque eu admito, cara, ser contestado. Diferente do prefeito que faz bico toda vez que ele é contestado.

(5) 45m17s (Yglésio Moyses): Bem aqui, oh… ideologia de gênero. Hoje qual que é o problema? Os alunos quando chegam ali [...] na adolescência… [...] recebem, muitas vezes, um direcionamento dentro de aula… pra se preocupar com questões que não são questões relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem das matérias curriculares. Resumindo, aluno tem que ir… irá [...] para a sala de aula para aprender português, matemática, redação… as matérias correlatas.

(6) 45m53s (Yglésio Moyses): Segundo ponto: falar que o Braide é um covarde, porque ele não teve coragem de vetar […] esse pacotão LGBT que foi aprovado agora em abril na Câmara. Ele ficou caladinho… ele não fez nem que sim nem que não. Ou seja, deixa aqui para ver se alguém passa isso despercebido. Braide, eu não deixei de olhar… você foi um covarde que deveria ter votado contra isso aqui… vetado o projeto da Câmara e deixava a Câmara ver se ela ia aprovar ou não a proposta lá do coletivo do PT.

(Podcast Abrindo O Verbo, 11 de Setembro de 2024)

Com base nisso, a seguir destacamos a distribuição de categorias analíticas referentes aos trechos do podcast: no fragmento (1) frisamos as categorias interdiscursividade e avaliação; o excerto (2) dialoga com a intertextualidade e a representação de atores sociais; já no trecho (3) optamos por destacar a interdiscursividade e a avaliação; analisamos (4) por intermédio da modalidade e da representação de atores sociais; em (5), por seu turno, destacamos a intertextualidade e a interdiscursividade; finalmente, no trecho (6), evidenciamos a intertextualidade e a avaliação.

No fragmento (1), o candidato Yglésio Moyses adentra em questões técnico-administrativas, como o processo de uma licitação, e sugere que a forma “como os comunistas fazem [uma licitação]” é demorada e não está dentro da legalidade. A partir desse tipo de posicionamento ideológico, o parlamentar articula um discurso anticomunista, o qual, além de ser característico da extrema-direita, também aciona estigmas contra indivíduos que, há pouco tempo, eram uma ameaça não somente para o governo e o regime militar, mas para a nação, a vida social e moral, como assevera Gilberto Velho (1999).

Assim, ao ancorar-se na falsa “ameaça comunista”, Yglésio retroalimenta convicções pejorativas, visto que associa a imagem de comunistas a práticas políticas lentas ou suspeitas, e ainda contribui para o combate ao regime democrático emancipatório (COLL, 2022).

No que se refere à categoria avaliação, no recorte (1) o enunciador declara que “quem não teve acesso a uma licitação legal, certinha… termina se complicando”. Nessa afirmação avaliativa, a escolha lexical “licitação legal, certinha” marca um juízo de valor desejável quanto ao processo de licitação, reforçado pelo uso do adjetivo “certinha”. Já no que diz respeito à afirmação Só se for como os comunistas fazem, que é, em geral, direcionando pra outras pessoas”, percebe-se um juízo de valor indesejável e, sobretudo, uma presunção valorativa engatilhada por uma condição (só se for) e por uma comparação (como os comunistas fazem). Esses marcadores avaliativos escolhidos pelo candidato atuam como um rótulo para deslegitimar os adversários políticos, bem como para suplantar na memória coletiva os estereótipos amplamente difundidos contra o viés comunista.

No campo da intertextualidade, o discurso de Yglésio Moyses no trecho (2) dialoga com discursos hegemônicos já consolidados em torno do aborto, da proteção à vida e do papel do Estado. Ao mencionar que será criado um canal de atendimento para “acolhimento à pessoa que tá pensando em abortar”, o enunciador ecoa práticas discursivas presentes em campanhas religiosas e políticas que buscam convencer mulheres a não abortar por meio de aconselhamento e alternativas, influenciando, assim, a escolha voluntária e responsável da própria mulher.

A expressão “calamidade de ceifar uma vida” também remete diretamente a discursos pró-vida, difundidos por movimentos religiosos e conservadores, os quais associam o aborto à ideia de pecado, castigo divino e assassinato, contribuindo para a culpabilização feminina. O candidato, em sua argumentação, ainda utiliza a imagem da “criança que nem respirou ainda” para humanizar o feto e, então, fortalecer o apelo emocional, ético e moral. Isso, presumidamente, enfraquece a história do movimento feminista, o qual, desde o início do século XX, pleiteia o planejamento familiar e a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo (VICK, 2021).

Em (2), no que tange à categoria representação de atores sociais, Yglésio inclui a representação do Estado, por meio da Secretaria de Saúde e da Secretaria de Assistência Social, como fator preponderante no acompanhamento a mulheres que cogitam abortar. Essa escolha representacional que enfatiza o “braço do Estado” também ofusca o real enfrentamento da situação que, nesse caso, refere-se a um problema de saúde pública que é invisibilizado por uma visão conservadora e que afeta diretamente a saúde física e psicológica das mulheres. Dessa maneira, o ponto de vista do enunciador pode legitimar a ação do Estado como legal e salvadora, desde que o corpo da mulher esteja sob a tutela do Estado. Tal perspectiva, por sua vez, reforça práticas sociais marcadas pelo machismo, pela misoginia e pela manutenção de papéis tradicionais de gênero.

Quanto ao recorte (3), percebemos que Yglésio Moyses reitera o discurso anticomunista (“só que o Braide é um comunista disfarçado”) suscitado anteriormente no fragmento (1). O enunciador representa Braide, prefeito de São Luís, e Flávio Dino, Ministro do Supremo Tribunal Federal e figura ligada à esquerda, como autoritários (“não dialoga com ninguém”), intransigentes (“não gosta de ser criticado”) e debochados (“ontem tava aqui na entrevista jogando deboche [...]”).

Segundo Bethânia Mariani (2019, p. 270), “comunismo” e “comunista” são palavras que têm circulado amplamente “em redes sociais [...] principalmente naquelas que divulgam discursos políticos vinculados às posições de poder neoliberais e de extrema-direita vigentes a partir das eleições presidenciais de 2018”. Nesse viés, o discurso do entrevistado pode naturalizar ainda mais o sentido depreciativo da palavra “comunista” e espalhar um discurso conservador, desdenhoso e de senso comum.

Em termos de avaliação, notamos que Yglésio Moyses registra explicitamente um juízo negativo para desqualificar Braide (“Braide é um comunista disfarçado”). Esse valor também é direcionado a Flávio Dino quando o enunciador afirma que Braide “aprendeu a ser prefeito com a forma do Flávio Dino governar”. Ou seja, Yglésio demarca um juízo indesejável ao comportamento político dito “comunista”, reforçando tais afirmações avaliativas com uma lista de atributos reprováveis, como não gostar de dialogar e de receber críticas, além de agir com deboche.

Rodrigo Patto (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, 2024) argumenta que, na conjuntura atual, o mito da ameaça comunista é utilizado por políticos oportunistas para sustentar o ideário da extrema-direita e manipular medos e ansiedades em relação a mudanças sociais e culturais atreladas à esquerda. Sendo assim, a avaliação negativa de Yglésio no trecho (3) tem potencial de (re)estruturar tal mito no imaginário coletivo e, assim, atrasar pautas progressistas.

No fragmento (4), em relação à categoria modalidade, percebemos que o discurso de Yglésio é pautado em modalizações categóricas (Eu sou um cara […]”, “[…] eu vivo dentro daquele comitê […]”, “Porque eu admito […]”). Esse tipo de modalização, marcada pelo uso do pronome “eu”, é comum no âmbito político, como declara Costa (2007). Trata-se, além disso, de uma modalidade epistêmica, caracterizada pela identificação textual assertiva e confiante do enunciador perante suas afirmações.

Tendo isso em vista, Yglésio se representa e se identifica como um parlamentar democrático e aberto ao diálogo (“sempre trocando ideia com todo mundo”), diferente de Braide, o qual é representado pelo enunciador como um político rude e autoritário, já que “faz bico toda vez que é contestado”, como assevera o candidato.

Esse modo de representar o mundo e identificar-se no trecho (4) está diretamente ligado à categoria representação de atores sociais. Desse modo, observamos que o léxico representacional escolhido por Yglésio Moyses (“sempre trocando ideia com todo mundo” e “prefeito que faz bico”), além de colocá-lo em uma posição de superioridade, também contribui para uma valorização positiva da sua identidade política que é, por seu turno, validada em detrimento da identidade problemática e intolerante construída discursivamente para Braide.

O trecho (5), por sua vez, carrega uma forte polifonia, uma vez que Yglésio Moyses menciona a expressão “ideologia de gênero” ao discutir a temática educação durante a entrevista no podcast. No plano da intertextualidade, a “ideologia de gênero” se conecta a vozes de grupos religiosos, conservadores e de direita, os quais associam o que o enunciador chama de “ideologia de gênero” (expressão que subverte o termo educação sexual) à ameaça aos moldes familiares tradicionais e ao declínio da educação formal.

Conforme Rick Afonso-Rocha (2025), a “ideologia de gênero” deixou de ser apenas uma expressão para se tornar um fantasma que ronda debates, manchetes e discursos inflamados. Isso decorre da carga política, social e midiática que constrói e retroalimenta a chamada “ideologia de gênero”. No final do dia, a guerra que envolve essa expressão não é sobre gênero em si, mas sobre controle social, político, identitário e ideológico.

Além disso, faz-se necessário ressaltar que o recorte (5) pode deslegitimar o debate sobre educação sexual no espaço escolar, distanciar a plena compreensão de suas dimensões social, emocional, cultural e identitária, dificultar o respeito à diversidade, assim como pode auxiliar na (re)produção de estigmas, preconceitos e convenções de gênero (OLIVEIRA; NÓBREGA, 2025).

A interdiscursividade em (5) é marcada por dois discursos: o discurso conservador de combate à “ideologia de gênero” (“Os alunos [...] recebem, muitas vezes, um direcionamento dentro de aula… pra se preocupar com questões que não são questões relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem das matérias curriculares”) e o discurso educacional (“Resumindo, aluno tem que ir… [...] para a sala de aula para aprender português, matemática, redação…”).

A priori, é importante destacar que a escola é um espaço que pode tanto propiciar disputas sociais, como a desigualdade de acesso, quanto a transformação social, fundamentada no desenvolvimento do pensamento crítico. Tendo isso em vista, percebemos que o discurso conservador veiculado por Yglésio implica na ausência de práticas pedagógicas sustentadas em políticas públicas equitativas na cultura escolar, mesmo que a pauta seja relevante. Isso, além de silenciar o papel da escola como promotora de direitos, fomenta a sensação constante de perigo e, especialmente, de combate a um inimigo metafórico: “a ideologia de gênero” nas escolas.

Quanto ao discurso educacional, fica evidente que o enunciador hierarquiza determinadas disciplinas (português, matemática, redação), mas, para tanto, exclui o debate sobre outros aspectos que permeiam uma educação digna e plural, ou seja, o direito à informação sobre gênero, gravidez, valorização das orientações sexuais e a prevenção de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), por exemplo. Por isso, constatamos uma relação de competição discursiva, já que Yglésio tenta instaurar um projeto escolar conservador para beneficiar a direita, comprometendo a plena emancipação dos estudantes.

É importante salientar, ainda, que a escolha discursiva de Yglésio Moyses não é neutra, dado que o locutor privilegia uma noção tecnicista de ensino em detrimento de uma educação inclusiva, crítica e diversa. Desse modo, o resultado de sentenciar uma educação mais cartesiana e estrita pode auxiliar na manutenção de desigualdades estruturais e no controle do corpo e do pensamento dos cidadãos.

No último fragmento (6), logo após evocar a discussão sobre “ideologia de gênero”, Yglésio Moyses se mostra insatisfeito com o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, no que se refere à aprovação do “pacotão LGBT”, como ele mesmo enfatiza (“Braide é um covarde, porque ele não teve coragem de vetar […] esse pacotão LGBT que foi aprovado [...] na Câmara [dos Vereadores]”).

Em termos de intertextualidade, ao trazer à tona a expressão “pacotão LGBT”, o enunciador se refere aos quatro Projetos de Lei propostos pelo Coletivo Nós (PT) e promulgados pelo Presidente da Câmara dos Vereadores, o Vereador Paulo Victor (PSB), em maio de 2024. Em poucas palavras, os projetos promulgados visam a equiparar os direitos e proteção à população LGBTQIA+ de São Luís, chamando atenção para a cidadania, direitos humanos e ao incentivo à contratação de pessoas LGBTQIA+[1].

Tendo isso em vista, inferimos que o enunciador atualiza novamente vozes sociais conservadoras ao se referir pejorativamente ao “pacotão LGBT” e também ao “coletivo do PT” ao final do trecho (6): “[...] deixava a Câmara ver se ela ia aprovar ou não a proposta lá do coletivo do PT”. Essas expressões que marcam a reatividade às pautas de sexualidade e gênero também são reforçadas quando o candidato argumenta que “Braide não teve coragem de vetar” e “deveria ter votado contra isso”.

Sendo assim, evidenciamos que Yglésio se mostra contrário não somente a indivíduos com identidades dissidentes[2], mas também aos seus direitos básicos, dignidade, cidadania e bem-estar, os quais devem ser assegurados constitucionalmente. Dessa maneira, fica claro no recorte (6) que o posicionamento de Yglésio pode cristalizar formas de discriminação, preconceito e desigualdades direcionados a sujeitos historicamente marginalizados e, por sua vez, excluídos de espaços de poder e decisão.

Com isso, o enunciador legitima práticas de homotransfobia, isto é, práticas de violência que ocorrem “em função da intolerância social em relação a determinadas orientações sexuais e identidades de gênero, estigmatizadas socialmente” (SANTOS, 2016, p. 161).

Por último, partindo de uma avaliação em termos do que é desejável/bom ou indesejável/ruim, destacamos que o locutor, no trecho (6), lança um juízo de valor explícito sobre a postura política do prefeito Eduardo Braide, definindo-o como “um covarde”, haja vista que, como afirma Yglésio, “ele ficou caladinho” perante a promulgação de Projetos de Lei que beneficiam a comunidade LGBTQIA+.

Nesse sentido, o enunciador, na posição de figura política, avalia como desejável/bom o parlamentar que contribui com o cerceamento da existência da população LGBTQIA+, e como indesejável/ruim aquele agente político que defende as políticas afirmativas que amplificam a qualidade de vida e inclusão dessa população. Percebe-se que isso decorre, certamente, das práticas políticas enviesadas por discursos morais, conservadores e religiosos imbuídos na representação discursiva de Yglésio Moyses.

Com isso, verificamos que o estudo discursivo da linguagem, embora complexo, é capaz de fazer o leitor perceber as representações discursivas articuladas no gênero multimodal podcast e, então, refletir sobre elas. Também é válido salientar que essas representações podem moldar percepções sobre gênero, igualdade, identidade, educação e direitos civis, e da mesma forma, ainda tem potencial para aguçar o pensamento crítico do sujeito-leitor quanto às alienações constantes na tessitura contemporânea.

Nesse sentido, a reflexão discursivo-crítica contribui para explicitar conexões muitas vezes naturalizadas nos textos que constroem e legitimam determinadas práticas hegemônicas de poder, possibilitando questionar assimetrias e convenções sociais reproduzidas no discurso. Ao compreender de que forma as questões levantadas por Yglésio Moyses legitimam preconceitos, (re)estruturam o machismo e endossam um projeto conservador de ultradireita, o sujeito-ouvinte desenvolve uma escuta crítica e, por sua vez, um posicionamento crítico. Sendo assim, reconhecer os mecanismos discursivos e ideológicos que manipulam e criam um ambiente conspiratório torna-se um passo importante para a construção de uma leitura crítica dos discursos que circulam na esfera pública.

5. Considerações finais

Neste artigo, apresentamos a análise discursivo-crítica da entrevista de Yglésio Moyses (PRTB) para o podcast “Abrindo o Verbo” no período das eleições de São Luís (MA), em 2024, para o cargo de Prefeito(a). Por conseguinte, a partir da base teórico-metodológica da Análise de Discurso Crítica (ADC), traçamos o objetivo de contribuir para a formação de um posicionamento crítico do sujeito leitor-consumidor, uma vez que essa abordagem transdisciplinar preocupa-se com as situações assimétricas de poder, buscando apontar relações hegemônicas e manipuladoras veladas nos discursos.

Sendo assim, utilizamos a intertextualidade (significado acional) da ADC para a investigação dos elementos de outros textos, das vozes ausentes e presentes, e a significância disso dentro das práticas sociais; contamos com a interdiscursividade e a representação de atores sociais (significado representacional) para revelar os discursos articulados nos podcasts e a forma que os agentes são representados, e também utilizamos a modalidade e a avaliação (significado identificacional) no que tange à observação do comprometimento do locutor com o que diz e das considerações valorativas que realizam.

Nesse sentido, constata-se que a representação discursiva de Yglésio Moyses, longe de ser neutra, materializou tensões na esfera social, principalmente por envolver minorias, direitos civis e até o silenciamento de vozes marginalizadas e a mobilização de estigmas sociais e conservadorismo. Por isso, enfatizamos a relevância de compreender e investigar o podcast, o qual é uma mídia relativamente nova, além de ser um espaço de consumo que não está isento de subjugação, discursos inflamados e vieses ideológicos tidos como inquestionáveis e dispostos a consolidarem-se. A partir disso, compreendemos que garantir ao cidadão-leitor uma escuta/leitura crítica e reflexiva da vida social contemporânea significa ampliar sua compreensão sobre os temas discutidos, bem como fomentar a transformação de sua realidade social e política.

Logo, esperamos que este trabalho represente uma contribuição para pesquisadores que investigam o texto, que é uma produção socioculturalmente situada e que implica em valores, práticas, crenças, ideologias e identidades. Ainda esperamos que este estudo possa ser útil para o ensino de Língua Portuguesa no sentido de promover um letramento crítico que tenha como objetivo desconstruir ideologias socialmente cristalizadas e emancipar o cidadão-leitor.

Enquanto ferramenta teórico-metodológica situada na Linguística e na Ciência Social Crítica, a ADC se apresenta como uma aliada à Língua Portuguesa na perspectiva dos (multi)letramentos críticos. Isso decorre tanto da potencialização de leituras críticas no ensino básico a partir de podcasts ou outros gêneros discursivos da cibercultura, quanto dos debates e discussões proveitosas em sala de aula e do desenvolvimento de competências interpretativas dos estudantes, impulsionando-os como cidadãos que se posicionam criticamente.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

Os autores, Ramon de Almeida Miranda e Ana Maria Sá Martins, declaram que não há conflito de interesses de natureza pessoal, comercial, acadêmica ou financeira relacionado à elaboração e à publicação deste manuscrito.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados que fundamentam este estudo consistem em excertos de entrevista veiculada no podcast Abrindo o Verbo, conteúdo acessível publicamente na internet, disponibilizado pelo Sistema Mirante por meio da plataforma YouTube. Em razão de direitos autorais, o conteúdo audiovisual integral não foi redistribuído em repositório. Além disso, para assegurar a reprodutibilidade da pesquisa, foram depositados em repositório público os materiais produzidos pelos autores, incluindo: (i) a lista completa do corpus analisado (com título, data, URL e data de acesso) e (ii) uma planilha contendo os trechos efetivamente analisados no artigo, com transcrições e localização precisa por timecodes.

Esses materiais estão disponíveis no Zenodo, na comunidade Cad_Lin, sob o seguinte DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.18023571.

Declaração de Uso de IA

Durante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT exclusivamente para a tradução do resumo para a língua inglesa, com contribuição moderada. Todo o conteúdo traduzido foi integralmente revisado, ajustado e validado pelos autores, os quais assumem total responsabilidade pelo manuscrito. O prompt utilizado está disponível publicamente no repositório Zenodo. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.18023571.

Consentimento e Ética

Este estudo baseia-se exclusivamente na análise de material de acesso público na internet, consistindo em entrevista veiculada em podcast com pessoa pública identificável. Não houve recrutamento, interação direta, intervenção ou coleta de dados junto a participantes, tampouco produção de informações primárias. Com isso, a pesquisa enquadra-se na dispensa de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), nos termos da Resolução CNS Nº 510/2016, que exclui da avaliação pelo sistema CEP/CONEP a “pesquisa que utilize informações de acesso público, nos termos da Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011”, conforme disposto no art. 1º, parágrafo único, inciso II.

Embora o material envolva pessoa pública identificável, foram adotados cuidados éticos na seleção, recorte, contextualização e apresentação dos trechos analisados, com o objetivo de preservar a integridade discursiva do conteúdo, evitar descontextualizações e respeitar os princípios éticos aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais.

Fontes de Financiamento

Esta pesquisa recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), cota 2024-2025, sob o processo nº 133937/2024-0. O estudo é vinculado ao projeto de pesquisa Podcasts jornalísticos em ambiente digital: uma análise discursivo-crítica, coordenado pela Profa. Dra. Ana Maria Sá Martins, e ao plano de trabalho do bolsista intitulado “Abrindo o Verbo” – Podcast: uma visão discursivo-crítica.

Referências

AFONSO-ROCHA, Rick. O inimigo LGBTQIA+: qual é o sentido da guerra contra o gênero?. Blog da Boitempo, 18 jul. 2025. Disponível em: https://www.boitempoeditorial.com.br/blog/2025/07/18/o-inimigo-lgbtqia-qual-e-o-sentido-da-guerra-contra-o-genero/. Acesso em: 18 jul. 2025.

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO MARANHÃO. Deputado Dr. Yglésio Moyses. 2025. Disponível em: https://www.al.ma.leg.br/sitealema/deputado/yglesio-moyses/. Acesso em: 6 jul. 2025.

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Avaliação

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2026.V7.N3.ID947.R

Decisão Editorial

EDITOR 1: Silmara Cristina Dela da Silva

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5231-6662

AFILIAÇÃO: Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil.

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EDITOR 2: Evandra Grigoletto

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1458-0491

AFILIAÇÃO: Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco, Brasil.

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EDITOR 3: Solange Maria Leda Gallo

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0243-4983

AFILIAÇÃO: Universidade do Sul de Santa Catarina, Santa Catarina, Brasil.

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CARTA DE DECISÃO: O relato de pesquisa traz contribuições importantes para os estudos do discurso, especialmente para a corrente da Análise Crítica do Discurso. Resultado de uma pesquisa em nível de iniciação científica, os autores analisaram as representações discursivas numa entrevista de um candidato a prefeito de São Luis, no PodCast “Abrindo o verbo”. Trazem, portanto, reflexões importantes para entender a dinâmica discursiva das esferas do poder, como o silenciamento de vozes marginalizadas e a mobilização de estigmas e conservadorismo sociais. Pelo exposto, indicamos o texto para publicação.

Rodadas de Avaliação

AVALIADOR 1: Iran Ferreira de Melo

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5260-7267

AFILIAÇÃO: Universidade Federal Rural de Pernambuco, Pernambuco, Brasil.

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AVALIADOR 2: Lilian Noemia Torres de Melo Guimarães

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3743-2256

AFILIAÇÃO: Universidade Federal Rural de Pernambuco, Pernambuco, Brasil.

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RODADA 1

AVALIADOR 1

2026-02-11 | 05:45 PM

O artigo "A Representação Discursiva de Yglésio Moyses (PRTB) no Podcast 'Abrindo o Verbo': uma Análise sob a Ótica da ADC" cumpriu o seu objetivo de investigar traços linguísticos/ideoçógicos do podcast em tela, por meio da análise de um de seus episódios, revelando poder crítico diante da linguagem e descortinando o gênero podcast como prática social. O estudo contribuiu para a área e dialoga de maneira bem estruturada com a Teoria Social de Norman Fairclough. O manuescrito se volta a um p´úblico interessado em relações de poder e produção de sentido em podcasts, portanto amplo, não apenas endógeno aos estudos da linguagem.

O artigo "A Representação Discursiva de Yglésio Moyses (PRTB) no Podcast 'Abrindo o Verbo': uma Análise sob a Ótica da ADC" se articulou muito bem com conhecimentos da Análise Crítica do Discurso, utilizando categorias faircloughianas a serviço do exame do texto em estudo; apresentou objetivos condizentes, escrita clara e textualidade resoluta; além disso, o estudo aplicou adequadamente as orientação te´órico-sociológica de seu autor fundamental, Norman Fairclough, na investigação do objeto. Quem se abstecer desse trabalho, com fins de conhecimento científico, encontrará um exemplar de pertinência para a identificação de uma analítica crítica da linguagem e de uma análise social apurada.

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AVALIADOR 2

2026-01-29 | 05:28 PM

O artigo intitulado “A REPRESENTAÇÃO DISCURSIVA DE YGLÉSIO MOYSES (PRTB) NO PODCAST “ABRINDO O VERBO”: UMA ANÁLISE SOB A ÓTICA DA ADC” tem como objetivo investigar, em um episódio do Podcast Abrindo O Verbo, as representações discursivas acionadas na construção de sentido nesse gênero, pretendendo contribuir para a formação de um posicionamento crítico do sujeito leitor/consumidor. Ele é indicado para leitores mais específicos da área de Letras, uma vez que contempla teorias mais trabalhadas por estudos que compõem o campo de estudo da Análise Crítica do Discurso. Trata-se de uma contribuição atual e original, no sentido de seu ineditismo enquanto material de análise e, em relação à temática, com significativa relevância para o contexto social e científico. Além disso, o trabalho, sendo reflexo de um relato de pesquisa, destaca-se por ser um texto autoral, bem redigido e com clareza.

Destacam-se como pontos positivos do trabalho a clareza e objetividades do texto, a boa organização. Os processos de correção são cuidadosamente realizados, de modo que temos um trabalho adequado ao rigor de uma linguagem requerida em artigo científico. O texto, com isso, faz uso de uma linguagem técnica e científica e de uma linguagem padrão do português, sob o ponto de vista da gramática normativa. Em relação ao cumprimento das normas da ABNT, ele atende muito bem aos principais requisitos. No que se refere ao título, tem coerência com o conteúdo teórico e a parte empírica. Na introdução, são expostos os objetivos traçados para serem realizados, entretanto os problemas de pesquisa que guiam a elaboração do trabalho não são claros. Quanto à revisão de literatura, o artigo propõe uma discussão em torno da Análise Crítica do Discurso, com base em um arcabouço teórico sobre o campo de estudo. Os procedimentos metodológicos, indicam uma pesquisa de base qualitativa e interpretativista e trazem as categorias analíticas que nortearam as análises realizadas. As conclusões são mais genéricas, retomando os objetivos da pesquisa e dando indícios de uma contribuição da investigação para o ensino de Língua Portuguesa.

Como Citar

MIRANDA, R.; MARTINS, A. M. S. A representação discursiva de Yglésio Moyses (PRTB) no podcast "Abrindo o Verbo": uma análise sob a ótica da ADC. Cadernos de Linguística, Campinas, SP, Brasil, v. 7, n. 3, 2026. DOI: 10.25189/2675-4916.2026.v7.n3.id947. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/947. Acesso em: 3 jun. 2026.

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