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Abstract

The pattern [cut hair] is the most conventional form in Brazilian Portuguese (BP) for when someone says they went to the salon and had their hair cut with a hairdresser. This pattern can be understood as an argument structure construction, called caused-action: a transitive form [SN V SN] associated with the meaning of an indirectly caused activity, accordingly to Ciríaco (2014a) and Santos, Ciríaco and Souza (2019). Based on the theoretical assumptions of Usage-Based Linguistics (BARLOW, KEMMER, 2000), Corpus Linguistics (SARDINHA, 2004) and Goldberg’s Construction Grammar (1995, 2006, 2019), and starting from the hypothesis of Ciríaco (2014a), this study aimed to verify, through a corpus search (Corpus Brasileiro – Sketch Engine) and in social network (Twitter), whether the caused-action construction is restricted to the functional context of provision of services and to describe the semantic and pragmatic aspects associated with the construction based on real-world data. As a result, it was possible to confirm this functional restriction and the most frequently used verbs in the construction. The analysis also allowed us to observe that the meaning of the construction can be associated with both the transitive form [SN V SN] and the competing form [SN V SN [with/in SN]], with the former being preferred, given the context of provision of services. Finally, this study also showed how the construction can have its meaning changed to meet the different communicative needs of the speakers, depending on the socio-historical context, such as the pandemic one.

Resumo para não especialistas

Para descrever o evento de quando se vai ao salão e se corta o cabelo com o cabeleireiro, comumente se diz: [cortei o cabelo]. Contudo, essa construção pode parecer ambígua, já que não foi a própria pessoa que cortou o cabelo. Isso acontece por se tratar de uma convenção da língua portuguesa, um fenômeno chamado de construção de ação causada. Assim, é comum utilizar essa construção para falar de certas atividades em que há um prestador de serviços que pode fazê-las a pedido, ou seja, quando se é o principal responsável pelo evento descrito, mas não foi você quem realmente o realizou. Este trabalho verificou a hipótese de que essa construção é restrita ao contexto funcional de prestação de serviços, por meio de uma investigação em dados de uso real (em corpus e rede social). Também observou-se que, quando a ação foi de fato causada pelo participante em posição de sujeito, a construção é marcada por expressões como ‘eu mesmo’, ‘sozinho’ ou pelo instrumento utilizado. Por fim, esta pesquisa mostrou como os falantes podem alterar construções linguísticas para atender diferentes necessidades comunicativas, dependendo de diferentes contextos, como no contexto pandêmico.

Introdução

Este trabalho tem como objeto de estudo a construção de ação causada em Português Brasileiro (PB), que pode ser ilustrada pelas sentenças a seguir:

(1) “(...) agora também sou diretor e coreógrafo”, revela. E fisicamente? “Bem, perdi aquele penteado 'Príncipe Valente', cortei o cabelo curtinho e engordei um pouco”, diz. (Sketch Engine)

(2) Jorge de Lima, que nasceu na cidade. Sebastião Alves Ferreira, 45, é um dos poucos comerciantes negros de União. “Construí minha casa com a janela voltada para a serra da Barriga” diz. (Sketch Engine)

(3) a minha barriga inteirinha estava cabeluda entendeu?... e eu levei um susto quando vi aquilo... mas eu fiz depilação para ir à piscina! Fiquei naquela coisa, não sabia se eu ia para a piscina ou se ia para a depilação de novo... (Sketch Engine)

Esse fenômeno foi descrito em Ciríaco (2014a) e posteriormente em Santos, Ciríaco e Souza (2019) como uma construção de estrutura argumental. Trata-se de um padrão oracional cuja forma sintática [SN V SN]1 está associada ao significado de uma ação indiretamente causada. Embora as sentenças (1)-(3) sejam potencialmente ambíguas do ponto de vista formal, podendo evocar também o significado da construção transitiva prototípica (alguém cortou o próprio cabelo, alguém construiu a própria casa, e alguém fez a depilação em si mesmo), não é esse o significado usualmente atribuído a essas estruturas. O significado mais comumente veiculado em (1) é o de que alguém foi ao salão e pediu ao cabeleireiro para cortar seu cabelo; em (2), é o de que alguém contratou o serviço de uma construtora ou de um pedreiro para construir sua casa; e em (3), é o de que alguém foi a uma clínica de estética e contratou o serviço de depilação. Em todos os exemplos, embora o participante codificado em posição de sujeito seja responsável pela ação descrita pelo verbo, dando seu consentimento para que ela seja realizada, ele não é seu agente direto. Vale destacar que a noção de responsabilidade utilizada neste estudo relaciona-se à de consentimento, o que difere da noção de responsabilidade utilizada por Givón para definir a função de agente, que, segundo o autor, é “o participante, tipicamente animado, que age deliberadamente para iniciar o evento e, portanto, assume a responsabilidade por ele” (GIVÓN, 2001, p. 107)2. Segundo Ciríaco (2014a), a construção de ação causada está restrita pragmaticamente ao contexto funcional de prestação de serviços, ou seja, a atividades que poderiam ser realizadas pela própria pessoa, mas para as quais existe um prestador de serviços para fazê-los em seu lugar. Em outras palavras, é possível descrever os eventos de ‘cortar o cabelo com o cabeleireiro’, ‘construir a casa com o pedreiro’ e ‘fazer depilação com a esteticista’ com sentenças causativas simples, como aquelas negritadas em (1)-(3), sem precisar mencionar os prestadores de serviço nem recorrer a nenhum recurso adicional. Isso se deve ao fato de que, em PB, compartilhamos as informações de que i) em nossa sociedade, tais atividades são serviços; ii) existem pessoas dispostas a prestá-los em troca de um pagamento; e iii) esses serviços são de fácil acesso e amplamente utilizados. Portanto, dado esse contexto compartilhado, é convencional (cf. Goldberg, 1995, p. 169) em PB utilizar sentenças simples como ‘cortei o cabelo’ para dizer que alguém marcou um horário com o cabeleireiro, foi até o salão de beleza, esperou o corte, pagou por ele e saiu. Certamente, esses eventos também podem ser descritos de forma transparente pela combinação [construção transitiva + construção preposicionada], como em ‘eu cortei o cabelo com o cabeleireiro’. No entanto, a construção de ação de causada é a forma mais convencionalizada na língua para descrever esse tipo de evento. Em termos de rede linguística, a construção de ação causada está intimamente relacionada à construção transitiva prototípica (Ciríaco, 2014b), da qual herda a maior parte de sua forma sintática e a partir da qual seu significado é metaforicamente ampliado.

Figure 1.Figura 1 – Construção Transitiva e Construção de Ação Causada na Rede Linguística.Fonte: Elaboração própria com base em Ciríaco (2014b) e Santos et al (2019).

Santos, Ciríaco e Souza (2019) também analisaram a construção de ação causada em um estudo experimental, com o objetivo de detectar as influências da língua materna (PB) em falantes bilíngues de inglês como segunda língua. Quanto à relação da construção em português com sua contraparte semântica em inglês (had my hair cut), remetemos o leitor interessado aos resultados discutidos no trabalho supracitado e também no trabalho de Santos (2019). Partindo do estudo de Ciríaco (2014a), Santos et al (2019) também propuseram uma representação para a construção de ação causada.

Neste trabalho, tomamos a hipótese de Ciríaco (2014a) sobre o contexto funcional de prestação de serviços como restrição para a construção de ação causada e a verificamos em dados de uso real – mais especificamente no Corpus Brasileiro (Sketch Engine) e na rede social Twitter. Portanto, este trabalho difere do da autora por utilizar dados de uso real, e não dados de introspecção. É sabido que, embora a intuição do pesquisador seja uma ferramenta importante para análises linguísticas, ela não é ampla o suficiente para refletir o uso que os falantes fazem da língua, podendo, muitas vezes, levar a conclusões parciais. Desse modo, o primeiro objetivo desta pesquisa é verificar a validade da hipótese de Ciríaco em dados de corpus. O segundo objetivo, relacionado ao primeiro, é descrever detalhadamente os aspectos funcionais (semânticos e pragmáticos) adicionais da construção que foram encontrados a partir desta análise de corpus.

Este artigo se organiza da seguinte forma: a próxima seção descreve o referencial teórico e metodológico adotado na coleta de dados. Em seguida, a seção 2 apresenta os resultados e sua discussão. Por fim, são tecidas algumas considerações finais na seção 3.

1. Referencial teórico e metodológico

Este trabalho se insere nos estudos da Linguística Baseada no Uso (BARLOW, KEMMER, 2000; BYBEE, 2010; LANGACKER, 2013), segundo a qual todo conhecimento gramatical emerge do uso que os falantes fazem da língua. Também se localiza na abordagem teórica da Gramática de Construções de Goldberg (1995, 2006, 2019), segundo a qual todas as unidades linguísticas podem ser descritas uniformemente por meio do conceito de construção, qual seja, um pareamento entre forma e significado. Mais especificamente, faz-se uso da noção de construção de estrutura argumental, que se refere aos tipos oracionais presentes nas línguas que refletem cenas básicas da experiência humana, restringindo a interpretação de “quem fez o que para quem” (GOLDBERG, 2006, p. 104) e contribuindo para a interpretação dos enunciados. A análise também se apoia nos pressupostos da Linguística de Corpus, que consiste em uma área da Linguística em que é possível sistematizar, organizar, coletar, explorar e identificar dados (dispostos em formato legível por computador) de um determinado corpus linguístico, a fim de descrever e analisar os resultados obtidos para pesquisas e estudos de uma língua, uma variedade linguística ou um fenômeno linguístico (SARDINHA, 2004).

A fim de verificar o uso da construção de ação causada, os contextos funcionais em que ela ocorre e seus aspectos (semântico-pragmáticos), realizou-se uma pesquisa a partir de dados de uso real. Para isso, foram delimitadas as fontes para a coleta de ocorrências do fenômeno. Foram coletados dados no Corpus Brasileiro da plataforma Sketch Engine, da seguinte maneira: Concordance > Advanced > Phrase. De modo complementar, também foram coletados alguns exemplos na rede social Twitter, selecionada para busca por permitir o compatilhamento instantâneo das situações vivenciadas por seus usuários e, assim, a observação de um uso atual, de caráter mais informal e não monitorado da língua.

Foram pesquisados um total de 20 verbos (Quadro 1), selecionados após a aplicação de dois critérios consecutivos: inicialmente, foram selecionados vários verbos com base nos contextos funcionais delimitados por Ciríaco (2014a), com exceção do segmento de serviços cirúrgicos, que foi uma contribuição deste trabalho. Posteriormente, os verbos passaram por nova triagem com base na frequência absoluta apresentada por eles em corpus. Assim, todos os verbos pesquisados estão dentro da mesma faixa de frequência – dentre as 6 mil palavras mais frequentes da língua, de acordo com os corpora Linguateca (COSTA et al., 2008) e C-Oral (RASO; MELLO, 2012).

Prestação de Serviços Verbos
Estéticos cortar, arrumar, tingir
Mecânicos ou relativos a automóveis consertar, abastecer, alinhar, lavar
Reforma e construção pintar, construir, reformar, instalar
Imobiliários/de corretagem vender, alugar
Copiadora/gráfica/papelaria imprimir, xerocar
Aviamentos/reparos apertar
Molduraria emoldurar
Relativos a cuidados corporais fazer
Cirúrgicos colocar, tirar
Table 1.Quadro 1 - Verbos selecionados para cada contexto de prestação de serviços identificado Fonte: Elaboração própria.

A busca por ocorrências da construção se deu, majoritariamente, a partir de sequências linguísticas como [cortei o cabelo], [pintou sua casa] etc. Para fins de comparação, também foram buscadas sequências linguísticas do tipo [construí minha casa com], em que a semântica de prestação de serviços pode aparecer de forma transparente, como é o caso de instâncias como ‘construí minha casa com o pedreiro’. Nessas sequências, o participante responsável pelo serviço aparece codificado em um sintagma preposicionado (no exemplo mencionado, ‘com o pedreiro’). Assim, a busca foi realizada seguindo os esquemas [V SN] e [V SN SP]. Todos os verbos foram flexionados no pretérito perfeito e usados na primeira ou terceira pessoas do singular. Essa escolha se deu a fim de se manter a maior neutralidade possível em termos de pessoa gramatical e de tempo/aspecto verbal, visto que o pretérito perfeito tem uso amplo na língua e apresenta menores restrições de uso se comparado a outros tempos verbais (como futuro do pretérito ou pretérito mais que perfeito, dentre outros). Além disso, é sabido que tempo e aspecto contribuem para a semântica veiculada. A perfectividade, especificamente, implica semanticamente que a eventualidade é transmitida como acabada e completada (WACHOWICZ, FOLTRAN, 2006), configurando a maioria dos dados encontrados como accomplishments (lexicalmente, todos os verbos pesquisados são classificados como atividade), o que é um aspecto que favorece o controle dos dados. Por fim, foram anotadas apenas as instâncias das formas sintáticas [SN V SN] e [SN V SN [com/em SN]] que estivessem associadas ao significado de {ação causada} ou ao significado transitivo prototípico, a título de comparação.

Faz-se importante salientar o fato de não ter sido possível encontrar um grande número de dados no Corpus Brasileiro. A razão talvez se deva ao fato de que esse corpus abarca textos majoritariamente escritos, de gênero jornalístico ou acadêmico, não possuindo ocorrências mais espontâneas, de uso cotidiano e menos monitorado. Esse fato, possivelmente, dificultou o acesso a uma construção pragmaticamente restrita, ou seja, restrita a um contexto funcional covencionalizado que ultrapassa os aspectos de significado decorrentes apenas da composicionalidade dos itens lexicais que a preenchem, como é a de ação causada. Ainda assim, foram obtidas 144 ocorrências ao todo. No Twitter, a coleta se deu por meio da ferramenta de busca ‘Explorar’, na página inicial da plataforma, seguindo os mesmos critérios anteriormente mencionados, com a diferença de que foram selecionados apenas alguns dados (4) – dentre inúmeros –, todos ou com verbos não encontrados no Corpus Brasileiro ou apresentado questões ainda não observadas nos dados do Corpus, de modo a complementar a análise. Pelo cotejo qualitativo, a amostra coletada no Corpus Brasileiro se mostrou representativa, comparada à busca empreendida no Twitter3.

2. Resultados e discussão

A Tabela 1 a seguir apresenta o número de ocorrências encontradas no Corpus Brasileiro para cada verbo pesquisado, em cada forma da construção de ação causada, e por contexto funcional.

Contexto funcional/tipo de serviço Verbo [SN V SN] [SN V SN [com/em SN]] Total
Estético cortar 10 2 12
arrumar 2 1 3
tingir 4 - 4
Mecânico ou relativo a automóveis consertar - - -
abastecer 2 3 5
alinhar 1 - 1
lavar - - -
Reforma e construção pintar 5 - 5
construir 25 - 25
reformar 27 - 27
instalar 4 1 5
Imobiliários/de corretagem vender 16 - 16
alugar (...) 2 - 2
Copiadora/gráfica/papelaria imprimir 12 - 12
xerocar 7 - 7
Aviamentos/reparos apertar - - -
Molduraria emoldurar 3 - 3
Relativos a cuidados corporais fazer 5 1 6
Médico/cirúrgicos colocar 9 - 9
tirar 2 - 2
Total 136 8 144
Table 2.Tabela 1 - Número de ocorrências de cada verbo por contexto funcionalFonte: Elaborada pelas autoras com base nos dados coletados do Corpus Brasileiro - Sketch Engine.[1][1] Dados coletados no período entre 17/07 e 02/08/2021.

Primeiramente, é possível observar que os verbos que mais frequentemente instanciam a construção de ação causada são: ‘reformar’ (27 instâncias de ação causada no total), ‘construir’ (25 instâncias de ação causada no total), ‘vender’ (16 instâncias de ação causada no total), ‘cortar’ (12 instâncias de ação causada no total), ‘imprimir’ (12 instâncias de ação causada no total) e ‘colocar’ (9 instâncias de ação causada no total). Vale observar que, além desses, o verbo ‘fazer’ (6 instâncias de ação causada no total) é certamente um verbo muito usado na construção de ação causada, pois, embora tenha sido constatado apenas 6 vezes na busca no Corpus Brasileiro, teve inúmeras ocorrências na busca no Twitter, o que parece um forte indicativo de sua alta frequência na construção4.

O maior número de ocorrências, 136, refere-se à forma construcional [SN V SN], contra apenas 8 ocorrências da forma construcional [SN V SN [com/em SN]] para os verbos pesquisados. Esses resultados confirmam que a expressão mais convencionalizada para o significado de {ação causada} é aquela em que esse significado encontra-se associado à forma transitiva [SN V SN].

Embora a forma [SN V SN] seja potencialmente ambígua, podendo estar associada ao significado transitivo prototípico5, o significado de ação causada parece ser preferencial dado: i) um co-texto ou padrão oracional em que se tem um participante animado em posição de sujeito e ii) um objeto sob posse (in)alienável ou responsabilidade desse participante. Para ilustrar, observe-se que as sentenças a seguir podem ser interpretadas como transitivas – em (4), por exemplo, é possível que o usuário tenha realmente cortado o próprio cabelo, e assim sucessivamente nos dados mostrados em (5) a (18) –; no entanto, obviamente, os interlocutores optam por uma interpretação a fim de se entenderem. Se os interlocutores se entendem sem informações mais detalhadas, deve haver uma interpretação que é convencionalmente assumida como default pelos usuários da língua. Intuitivamente, como falantes nativos do PB, sabemos que essa interpretação default é a de ação causada:

(4) Por isso, fui muito mal interpretado. Chamaram você de careta. Disseram que eu cortei o cabelo porque virei evangélico. A imaginação simplista começou a conjecturar sobre a minha caretice. (Sketch Engine)

(5) (...) lógico que iam reparar, eu tinha o cabelo de trancinha e eles falaram assim: “Nossa, você está diferente hoje, arrumou o cabelo!” E um menino falou: “Ficou mais feia ainda”. Aquilo foi a morte, depois que ele falou aquilo, nem pra aula eu queria (...). (Sketch Engine)

(6) Mies van der Rohe ou Frank Lloyd Wright não me parecem tão originais e criadores. Eu diria que Lloyd Wright construiu a casa mais linda do século, Kaufmann House, de 1936, na Pensilvânia. Desta residência, chamada “Falling Water”, (...). (Sketch Engine)

(7) Lourdes comprou geladeira, televisão, antena parabólica, cama (antes, o casal dormia numa rede) e reformou a casa. “Pude até comprar a prestação uma máquina fotográfica para registrar os projetos que realizo”, conta (...). (Sketch Engine)

(8) As famílias de classe média alta se isolam como forma de prevenção à criminalidade. “Nunca fui assaltada, mas instalei a cerca para evitar a aproximação de ladrões”, disse a dentista Albertina Maria de Melo Galafazzi. (Sketch Engine)

(9) A senhorita vê, para pagar o que eu devia tive de fazer um pequeno sacrifício: vendi minha casa, que já foi até entregue. De modo que no momento sou um verdadeiro sem-teto. (Sketch Engine)

(10) Sou assalariado e, por motivos profissionais, tive que mudar de Belo Horizonte para Porto Alegre. Aluguei meu único imóvel, em Belo Horizonte, por R$ 1.560 ao mês. Moro em Porto Alegre em imóvel alugado. (Sketch Engine)

(11) Alda Marco Antonio tem cerca de mil pessoas colaborando na divulgação de sua campanha. Ela imprimiu até agora cerca de 100 mil cartazes. (Sketch Engine)

(12) Quem sabe essa juventude acorde e se organize por causas mais justas do que escolher a cor do vestido da formatura. Xeroquei parte da matéria, juntei com o ‘Boletim dos Professores’ e afixei em vários espaços em minha escola. (Sketch Engine)

(13) Rogério emoldurou uma reprodução de “Guernica”, do pintor Pablo Picasso, que retrata efeitos de bombardeios na Guerra Civil. (Sketch Engine)

(14) (...) para a sessão de fotos, marcada para hoje e amanhã em uma praia do litoral norte de São Paulo, Débora tingiu o cabelo, fez depilação, os pés e as mãos. “Meu cabelo estava queimado de sol. Estou dando uma recauchutada na lataria. Tem de dar uma arrumada (...)” (Sketch Engine)

(15) (...) gasolina adulterada. Ele afirma que no dia 12 de fevereiro foi ao posto Brilhante A. P., localizado na av. Aclimação e abasteceu seu carro. Segundo Leitão, no dia seguinte o carro começou a “falhar” e um mecânico de confiança teria dito que a (...). (Sketch Engine)6

(16) Em um deles, chegaram a confundi-lo com o senador José Serra (PSDB), hoje ministro. Suplicy até abasteceu o carro de graça em um posto. Quando chegaram à cidade, o senador pediu dinheiro emprestado e disse ao motorista. (Sketch Engine)

(17) Comprei um Corsa Super MPFi. O manual do proprietário diz que o tanque de combustível comporta 46 litros de gasolina. Abasteci o carro duas vezes, em postos diferentes. Na primeira, couberam 52 litros. Na segunda, 52,5 litros. (Sketch Engine)

(18) “Tenho um Fusca 85, a gasolina. Nos últimos dois anos, sempre abasteci no mesmo posto. Desde a última vez, o carro passou a falhar, exigindo limpeza semanal das velas, que ficam cobertas por (...).” (Sketch Engine)

Alternativamente, poder-se-ia levantar a hipótese de que instâncias como (4)-(18) são na verdade vagas, não ambíguas, e que não importa para os usuários se o participante codificado em posição de sujeito é um agente direto ou indireto, mas apenas o resultado da atividade em questão. Essa posição é corroborada pela abordagem Good Enough, em que tanto compreensão (Ferreira et al, 2002; Ferreira e Patson, 2007) quanto produção (Ferreira e Goldberg, 2022) se assentam sobre representações semânticas que são meramente ‘boas o suficiente’ e não extensamente detalhadas. Obviamente, essa hipótese coloca em xeque a ideia de uma interpretação preferencial. No entanto, como será mostrado adiante, a análise dos dados parece sustentar a ideia de uma interpretação convencional de ação causada, motivo pelo qual optamos por adotar a hipótese da interpretação preferencial neste artigo, ainda que não descartemos a hipótese Good Enough para trabalhos futuros.

Em alguns casos, o contexto lógico desfavorece uma potencial ambiguidade. Por exemplo, em (19) e (20), entende-se que é muito pouco provável que alguém tenha tirado os pontos de sutura feitos em seu próprio corpo ou que tenha feito uma cirurgia em si mesmo para diminuir o nariz, aumentar o queixo e colocar silicone no seio:

(19) Fiquei vinte e três dias sem caminhar porque eu tava com os pontos, daí tirei os pontos e saí andando daqui. Fiquei cinco dias [internada] quando fiz a cirurgia. Depois disso já perdi as contas (...). (Sketch Engine)

(20) (...) é a maior alegria fazer plástica”, diz a advogada Susi Contucci Freitas, 38, que diminuiu o nariz, aumentou o queixo e colocou silicone no seio. Como os alpinistas ou pára-quedistas, as biônicas nunca pensam em resultados desastrosos. (Sketch Engine)

Em muitos outros casos, o contexto discursivo (sublinhado nos exemplos) oferece informações inequívocas sobre a interpretação veiculada, como é o caso das instâncias a seguir:

(21) No sábado, Suzana esteve na cabeleireira em Maceió. Arrumou cabelos e unhas. Segundo relato, estava bem-disposta e não demonstrava sinais de depressão 3. (Sketch Engine)

(22) A namorada de PC esteve no salão sábado passado, (...), onde fez escova no cabelo e pintou as unhas. (Sketch Engine)

(23) Seu companheiro de equipe, Olivier Panis, fez dois pits e terminou dois postos a sua frente. Diniz só alinhou seu carro na largada por manobra nos bastidores. Por infrações cometidas na sessão de classificação expôs outro (...). (Sketch Engine)

(24) Henriques calcula que deve gastar cerca de R$ 500. Vou pedir um recibo do serviço. Faz três meses que pintei tudo. Não adianta, picham no dia seguinte. (Sketch Engine)

(25) pensando aqui que a última vez q eu cortei o cabelo profissionalmente foi em setembro de 2019 (e paguei 10 reais) - (@frarmed - 25 mai. 2021. Twitter)

Em (21)-(23), informações prévias indicando os locais onde as atividades foram prestadas (‘na cabeleireira em Maceió’, ‘no salão sábado passado’, ‘na largada por manobra nos bastidores’) direcionam a interpretação para o sentido de ação causada: por meio de uma inferência, entende-se que, se alguém corta o cabelo na cabeleireira, então é muito provável que a cabeleireira tenha cortado o cabelo e não a própria pessoa, e assim sucessivamente. Em (24), a exigência do recibo do serviço indica que o sentido da construção negritada é de ação causada. Em (25), por sua vez, há o uso do advérbio ‘profissionalmente’, indicando que o corte de cabelo foi feito por um profissional, e não pela própria pessoa.

Em outros exemplos, o agente direto aparece expresso em um sintagma preposicionado, reforçando a interpretação de ação causada, conforme sublinhado em (26):

(26) “Estou doido para voltar ao Brasil e contar que cortei o cabelo com o barbeiro do rei”, diz o inventor da bossa nova. (Sketch Engine)

Nesses casos, o significado de {ação causada} está associado a uma forma mais transparente, a saber [SN V SN [com/em SN]]. Essa forma foi bem menos encontrada no contexto de prestação de serviços: foram apenas 8 ocorrências, com os verbos ‘cortar’, ‘arrumar’, ‘abastecer’, ‘instalar’ e ‘fazer’. Isso representa apenas 5,5% do total de ocorrências encontradas, indicando que a forma transitiva [SN V SN] parece estar mais convencionalmente associada ao significado de ação causada, para esses verbos e no contexto de prestação de serviços, do que a forma competidora [SN V SN [com/em SN]]. Além de (26), outros exemplos são:

(27) “(...) aceitei cortar com o José porque sou o rei da bossa nova.” Telefona para o quarto do dr. Campos. “Campinhos, venha cá. Cortei o cabelo com o barbeiro de Sevilha. Todo mundo cortou. Não te chamei porque você não tem esse problema”, disse ao médico (...). (Sketch Engine)

(28) O restaurante Spot, nos Jardins (zona oeste), instalou junto com a Cesp (Companhia Energética de São Paulo) 110 mil lâmpadas em uma figueira tombada pelo patrimônio. (Sketch Engine)

A constatação de que a interpretação de ação causada parece ser default ou preferencial para os verbos pesquisados mesmo quando não há elementos discursivos que a amparam é corroborada pelo fato de que, quando o significado associado é o transitivo prototípico, e não o de ação causada, os usuários utilizam algum recurso para marcar a agentividade direta do participante em posição de sujeito. Por exemplo, em (29)-(31), um recurso utilizado pelos usuários da língua para sinalizar que se trata da interpretação transitiva – em que o participante em posição de sujeito é de fato o agente da ação – é o uso da palavra ‘mesmo’, como mostram os dados a seguir:

(29) Meu remo quebrou durante a viagem para os EUA. Não sei o que aconteceu. Eu mesmo consertei. Ficou bom, mas, às vezes, não tenho confiança para “sentar o braço”. Esses remos são fabricados na Alemanha, (...). (Sketch Engine)

(30) “A marcenaria foi apenas um estímulo para que começássemos a fazer outras coisas”, afirma. É que o casal mesmo pintou a casa para onde mudaram há um ano e meio. Estão agora desenvolvendo o projeto paisagístico. Para a empreitada, eles têm (...). (Sketch Engine)

(31) “Um sindicato nos ajudou a conseguir essa casa com o governo e não estamos pagando nada. Eu mesmo pintei as paredes”, diz Tedd Cain, 26, que nasceu nos EUA, mas foi criado no Recife por causa da mãe brasileira. (Sketch Engine)

Outros elementos que marcam a interpretação transitiva podem aparecer no contexto discursivo: em (32), ’sozinho’ sinaliza que a ação de ‘construir’ foi realizada pela própria pessoa; em (33) e em (34), as expressões ‘cheguei aqui sem nada’ e ‘em casa’ sinalizam que a impressão não foi realizada por um prestador de serviços, mas sim pela própria pessoa interessada.

(32) “Eu aprendi sozinho e meus vizinhos copiaram a minha idéia. Depois que fiz a casa pra ele, construí uma para os outros cachorros Rex, Sandy e Pretinha e para o meu cavalo. Hoje, faço duas por dia”, diz. (Sketch Engine)

(33) “Quem não invadiu na primeira leva, teve de comprar. Cheguei aqui sem nada. Com uns blocos e cimento construí minha casinha”, conta. Íngreme, a rua onde mora se transforma em uma cachoeira na época das chuvas. (Sketch Engine)

(34) Quando precisou de documento da Sabesp para fazer uma reforma, entrou no site da empresa, solicitou uma segunda via e imprimiu o documento em casa. Pelo telefone, esperaria quatro dias Associações na rede movimentam US$ 40 bi das agências (...). (Sketch Engine)

Outro recurso é a expressão do instrumento utilizado no evento descrito pelo verbo, como pode ser constatado no dado a seguir, conforme sublinhado:

(35) O empresário Augusto Peres não sai sem o canivete suíço. Numa viagem à Bahia, consertou o carro inteiro com o canivete. (Sketch Engine)

Por fim, outro recurso observado foi o uso de ênfase, seja no sujeito ou na construção como um todo. No exemplo em (36), há ainda o uso da reformulação e, tratando-se de dado escrito, o uso de caixa alta como recurso enfático para marcar a agentividade direta e, portanto, a interpretação transitiva:

(36) Cortei o cabelo! Não, melhor! EU CORTEI MEU CABELO! (@Juumed222 - 4 mar. 2021. Twitter)

Curiosamente, entre os 20 verbos pesquisados, apenas 4 foram encontrados na construção transitiva dentro do contexto funcional de prestação de serviços. Ainda assim, o número de ocorrências foi baixo: ‘consertar’, ‘pintar’ e ‘construir’ tiveram apenas duas ocorrências cada, e ‘imprimir’ apenas uma ocorrência, totalizando 7 ocorrências. Desses quatro verbos, 2 (‘construir’ e ‘imprimir’) estão entre os mais frequentemente encontrados na construção de ação causada, o que, de certa forma, poderia explicar essa baixa ocorrência na construção transitiva – em termos de proporção (apenas 1,4% do total de ocorrências para ‘construir’ e 0,7% do total para ‘imprimir’), eles estariam em distribuição complementar. Obviamente, tal hipótese precisa ser verificada por meio de análise estatística inferencial, o que ultrapassa os objetivos deste artigo em específico, mas pode vir a ser objeto de estudo em outros trabalhos no futuro.

Em termos gerais, apenas 4,9% do total de dados coletados para o contexto funcional de prestação de serviços equivalem a ocorrências da construção transitiva, o que também parece indicar a preferência pela construção de ação causada nesse contexto específico. Essa observação se ampara nos resultados apresentados por Goldberg (2019), segundo os quais construções competem por determinado nicho funcional e esse aspecto pode ser responsável por explicar a ocorrência de uma em detrimento de outra. Além disso, todas as 144 ocorrências confirmam o contexto funcional de prestação de serviços.

Outras observações semântico-funcionais também foram realizadas. Por exemplo, constatou-se que nem sempre, em uma construção de ação causada, o serviço em questão é contratado para benefício próprio, mas também em benefício de outra pessoa:

(37) “(...) Santa Catarina, Rio etc.”, diz ela. A relação tempestuosa que Renata tinha com o pai foi abrandada pelo dinheiro. “Reformei a casa onde ele mora em Fernandópolis (SP). Agora, ele me chama de Rê, Renatinha. É uma hipocrisia.” Renata acha que teve (...) (Sketch Engine)

(38) Foi com essa idéia que um grupo de 72 arquitetos reformou a Casa do Candango, creche em Brasília que abriga 250 crianças com até sete anos. O trabalho durou cerca de três meses, e a nova (...). (Sketch Engine)

Nesses casos, a posição de sujeito também está associada a uma semântica de agentividade indireta, em que o participante em posição de sujeito foi o responsável pela contratação e possivelmente pelo financiamento do serviço a ser prestado para outra pessoa. Essa semântica de agentividade indireta é expressa pelas noções de responsabilidade e consentimento na execução de uma ação, mas também pela noção de cuidado, revelando que o participante em posição de sujeito é alguém que se importa (vide 37).

Outra observação interessante é o fato de a pandemia ter alterado temporariamente o significado default associado à construção, de ação causada para transitivo prototípico. Em (39), ficou claro que o usuário da língua realizou ele mesmo as atividades destacadas por meio de comentários e outras pistas contextuais linguísticas, como: o fato de o tweet ter sido publicado em outubro de 2020, auge da pandemia Covid-19, momento em que todos os serviços não essenciais estavam fechados, impossibilitando a ida a um salão de beleza para cortar o cabelo; ainda, o comentário “será que vai dar ruim?” expressa a possibilidade de o feito não ser bem-sucedido, indicando se tratar de serviço a ser feito pela própria pessoa, e não por um profissional. Essa mudança se deu dado o contexto sócio-histórico da pandemia. Se antes esses serviços eram tacitamente concebidos como ações executadas por terceiros, no contexto pandêmico, que inicialmente demandou isolamento social e fechamento de estabelecimentos cujas atividades fossem consideradas não essenciais, esses serviços tiveram de passar a ser executados pelas próprias pessoas interessadas. Essa necessidade instigou até reflexões de cunho linguístico nos usuários da língua, em vista do retorno das atividades não essenciais, como mostra (40):

(39) Cortei o cabelo ontem e vou pintar hj, será que vai dar ruim? (@Eescarvalho - 4 out. 2020. Twitter)

(40) Cortei o cabelo ou tive o cabelo cortado...? (@GesielAlbu - 16 ago. 2020. Twitter)

Em resumo, as observações feitas permitem circunscrever o contexto funcional da construção de ação causada em PB.

3. Conclusões

Este trabalho confirma, por meio de uma análise de dados de corpus, a hipótese de que a construção de ação causada se restringe ao contexto funcional de prestação de serviços em PB. Nesse contexto de prestação de serviços, a forma transitiva [SN V SN] está convencionalmente associada ao significado de {ação causada}, corroborando os estudos de Ciríaco (2014a) e Santos, Ciríaco e Souza (2019). Ainda, segundo a investigação empreendida, os verbos mais utilizados na construção são: ‘cortar’, ‘construir’, ‘reformar’, ‘vender’, ‘imprimir’, ‘colocar’ e ‘fazer’.

A análise dos dados também permitiu observar que, dado o contexto funcional de prestação de serviços, o significado de {ação causada} pode estar associado a duas formas: a forma transitiva [SN V SN] e a forma competidora [SN V SN [com/em SN]]. A forma transitiva é mais frequentemente utilizada face à forma competidora, indicando o contexto de prestação de serviços como o nicho funcional da construção de ação causada. À parte, os casos em que o sentido lógico da sentença (‘tirar os pontos’, ‘colocar silicone’) ou o contexto discursivo desfavorecem a ambiguidade entre uma interpretação de ação causada e uma interpretação transitiva prototípica para a forma [SN V SN], a interpretação de ação causada parece ser preferencial para essa forma dado o contexto funcional de prestação de serviços e um padrão oracional em que se tem um participante animado em posição de sujeito e um objeto sob posse (in)alienável ou responsabilidade desse participante.

Essa hipótese foi corroborada pelas seguintes observações constatadas nesta pesquisa: i) o uso da forma competidora [SN V SN [com/em SN]] com um SP explicitando o agente direto quando o significado é o transitivo prototípico, e não o de ação causada; ii) o uso de palavras como ‘mesmo’ e ‘sozinho’ para marcar a interpretação de agente direto para o participante em posição de sujeito da forma [SN V SN]; iii) a expressão de um instrumento utilizado, em combinação com a forma oracional [SN V SN], destacando, assim, a função de agente direto; e iv) o uso de recursos pragmáticos e discursivos, como ênfase e paráfrase. Todos esses recursos mostram que, quando a interpretação não é de ação causada, o usuário a marca de alguma forma, indicando, assim, o estatuto não marcado para o significado de ação causada nesse nicho funcional. Ademais, esta pesquisa também atesta o dinamismo no uso da língua, mostrando a possibilidade de alteração do significado preferencial para uma construção de estrutura argumental diante da alteração do contexto sócio-histórico, haja vista os dados elencados por ocasião do cenário pandêmico.

Para trabalhos futuros, espera-se analisar os padrões estatísticos da construção de ação causada em PB, a fim de verificar a hipótese sobre a existência de um nicho funcional para sua ocorrência na língua. Complementarmente, espera-se atestar experimentalmente a aceitabilidade da construção de ação causada na língua, além de quantificar a relevância do contexto funcional para sua aceitação.

Agradecimentos

As autoras agradecem a Maria Angélica Furtado da Cunha e Ivo da Costa do Rosário pelos comentários e sugestões em uma versão anterior deste trabalho, que enriqueceram muito a análise. Agradecemos também aos pareceristas pelas recomendações precisas. Erros remanescentes são de nossa inteira responsabilidade.

Informações Complementares

Conflito de Interesse

Nenhum conflito de interesses foi declarado.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados que amparam os resultados deste estudo foram majoritariamente expostos ao longo do texto, mas também podem ser disponibilizados integralmente pela autora correspondente (IAM), mediante solicitação.

Fonte de Financiamento

Este trabalho usufruiu do apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - Bolsa de IC (para IAM) por meio do Projeto 425683/2018-4 - Chamada Universal MCTIC/CNPq Nº 28/2018 (obtido por LSC).

Referências

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Avaliação

DOI: https://doi.org/10.25189/2675-4916.2022.V3.N1.ID665.R

Carta de Decisão

EDITORA: Janayna Maria da Rocha Carvalho

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2353-1336

FILIAÇÃO: Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil.

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O trabalho é relevante por verificar empiricamente as condições que favorecem o uso da construção de ação causada. Como resultado, as autoras observam que o contexto de prestação de serviços favorece essas construções, além de verificar os verbos mais usados na construção, bem como estratégias desambiguadoras, já que há uma construção competidora [SN V SN [com/em SN]], que é menos usada, como notado na análise.

Rodadas de Avaliação

AVALIADOR 1: Bruno Oliveira Maroneze

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2821-9448

FILIAÇÃO: Universidade Federal da Grande Dourados, Mato Grosso do Sul, Brasil.

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AVALIADOR 2: Thaís Pedretti Lofeudo Marinho Fernandes

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6642-7347

FILIAÇÃO: Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil.

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RODADA 1

AVALIADOR 1

2022-10-27 | 04:06

Neste trabalho, investiga-se a “construção de ação causada” no português brasileiro à luz de uma abordagem baseada no uso. As conclusões do estudo são apoiadas pelos dados extraídos de corpora on-line. Trata-se de uma contribuição aos estudos sobre construções de estrutura argumental no português.

O artigo identifica o problema de estudo, a hipótese e os objetivos. O título do trabalho está adequado, e o resumo reflete bem o conteúdo da pesquisa. A introdução está clara e concisa, permitindo ao leitor apreender o problema e o objeto de estudo. Os procedimentos adotados na obtenção dos dados do estudo estão descritos de forma clara e objetiva, porém o referencial teórico que fundamenta a análise – a Linguística de Corpus, a Linguística Baseada no Uso e a Gramática de Construções – é apresentado de modo superficial. Os resultados estão apresentados com clareza e objetividade e são suficientes para cumprir os objetivos do trabalho e respaldar as conclusões. Na discussão, os resultados são interpretados à luz da abordagem baseada no uso, todavia foi feita pouca aplicação da teoria da GC. Nas considerações finais, as autoras sistematizam os resultados obtidos, retomam a hipótese norteadora e explicam de forma clara e sucinta como ela foi corroborada, deixando evidente a contribuição da investigação sobre a "construção de ação causada" aos estudos sobre construções de estrutura argumental no português brasileiro. As referências estão adequadas em número e na forma de apresentação.

Seria interessante a apresentação de um esquema (uma figura) para ilustrar a integração da "construção de ação causada" à rede linguística, explicitando as relações entre as construções.

Se possível, fazer uma comparação com as estruturas do inglês "I cut my hair" e "I had my hair cut".

Também sugiro que a citação de Givón em nota de rodapé seja traduzida para o português.

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AVALIADOR 2

2022-10-31 | 07:55

O manuscrito se volta a um objeto de estudos relevante, apoiando-se em pressupostos teóricos bem definidos e embasados. Os resultados da análise, fundamentados quantitativa e qualitativamente, corroboram a hipótese de Ciríaco (2014a) sobre a restrição da construção de ação causada em contexto funcional de prestação de serviços. Dessa forma, as conclusões são apoiadas na análise de dados e os resultados são de interesse de pesquisadores que compartilham o mesmo referencial teórico e/ou se interessam pela construção de estrutura argumental de ação causada.

Constituem os dois principais objetivos do trabalho: (a) verificação da hipótese de Ciríaco em dados de corpus; (b) descrição dos aspectos funcionais (semânticos e pragmáticos) adicionais da construção que foram encontrados com base na análise de corpus. Isto posto, considera-se que a análise dos dados evidenciou que a forma transitiva é mais frequentemente utilizada do que a forma competidora, o que aponta que o contexto de prestação de serviços é um nicho funcional da construção de ação causada. O manuscrito tem como pontos fortes a delimitação temática bem definida, o embasamento teórico - que fundamenta a análise -, a exposição frequente de dados exemplificadores, bem como de resultados nas abordagens qualitativa e quantitativa. Vale ressaltar que o presente trabalho, apesar de se voltar à hipótese de Ciríaco (2014a), se distingue do trabalho da autora por se pautar em dados de uso real, o que compõe um diferencial do trabalho citado. Como uma possível orientação - que não consiste em ponto fraco -, seria interessante incorporar algumas notas de rodapé ao corpo do texto, tornando a leitura mais fluida, visto que trazem explanações que são pertinentes ao texto em si e seriam mais acessadas nesse formato.